Diz-se cadeira de três maneiras: a cadeira real, como se lê no Livro dos Reis: “Davi sentado numa cadeira”. Há também a cadeira dos sacerdotes, como está em 1Rs: “Eli, o sacerdote, sentado numa cadeira”. E a terceira é a cadeira de um mestre, como se diz em Mt 23: “Sobre a cadeira de Moisés etc.” Então São Pedro sentou-se numa cadeira real, pois era o príncipe dos apóstolos; sentou-se na cadeira dos sacerdotes, pois era o senhor de todos os sacerdotes; e na cadeira do mestre, pois era um grande doutor dos homens cristãos. A primeira significava equidade, a segunda, quantidade, e a terceira, verdade e virtude.
A Santa Igreja celebra a festa de São Pedro Apóstolo, e neste dia São Pedro foi honrosamente elevado na cidade de Antioquia e colocado na cátedra como bispo. Muitas são as razões pelas quais esta festa é celebrada e estabelecida. A primeira delas é, como se diz num sermão desta festa, que, quando São Pedro foi pregar a palavra de Deus e fundou a Santa Igreja por sua pregação, Nicetas e Áquila anunciaram à cidade de Antioquia que Pedro, apóstolo de Deus, havia chegado ali. Por isso, o povo e também os nobres da cidade vieram ao seu encontro e reconheceram-se culpados por terem dado crédito à pregação de Simão Mago, que era um encantador. Depois, fizeram conduzir diante dele todos os que estavam afligidos por diversas enfermidades e doenças; eram tantos que não podiam ser contados. São Pedro viu o arrependimento deles e também que acreditavam firmemente no nome de Deus; imediatamente ergueu as mãos ao céu e fez sua oração a Deus, dizendo: “Ó Deus, Pai Todo-Poderoso, dou-te graças porque cumpriste dignamente as promessas de teu bendito Filho, pelas quais todas as criaturas podem saber que és o único Deus no céu e na terra.” Depois subiu a um lugar elevado, e toda a multidão dos enfermos foi conduzida diante dele. Então lhes disse desta maneira: “Vós me vedes como um homem mortal, tal como sois; não penseis nem suponhais que podeis ser curados por mim, mas por aquele que desceu do céu à terra e concede plena saúde do corpo e da alma a todos os que nele creem. Deveis crer nisto, para que todos saibam que vós, que assim credes inteiramente, de todo o coração, em Jesus Cristo, podeis ser por ele curados e restituídos à saúde.” E imediatamente todos os enfermos clamaram em alta voz: “Cremos que Jesus Cristo é verdadeiro Deus.” De súbito apareceu ali uma luz, e todos os enfermos foram curados e sarados de qualquer doença que tivessem. E naquele mesmo dia o Espírito Santo manifestou tão grandemente sua graça que, do menor ao maior, todos creram em Nosso Senhor Jesus Cristo. E em sete dias foram batidas mais de dez mil pessoas, entre homens, mulheres e crianças, e também Teófilo, senhor e preboste da cidade, para quem São Pedro havia ressuscitado o filho, morto havia catorze anos. Alguns dizem que, de seu palácio, ele fez uma igreja na qual todo o povo ergueu uma cátedra para São Pedro sentar-se num lugar mais alto, a fim de pregar a doutrina de Jesus Cristo e ser mais bem ouvido e visto. E é por essa elevação de São Pedro a essa cátedra que esta festa recebe o nome de Cátedra de São Pedro. Nessa igreja São Pedro permaneceu sete anos; daí foi para Roma e governou a Igreja de Roma por vinte e cinco anos.
A outra razão pela qual esta festa foi estabelecida foi para honrar a coroa, ou tonsura, de sua cabeça, que os clérigos ainda usam e possuem; pois, segundo alguns dizem, foi nesta ocasião que se originou pela primeira vez a coroa dos clérigos. Quando São Pedro pregou pela primeira vez na cidade de Antioquia, os pagãos rasparam-lhe a parte superior da cabeça, como a um louco, em desprezo da lei cristã. E, porque isso foi feito a São Pedro para lhe infligir desonra e vergonha, estabeleceu-se depois que o clero teria a coroa raspada, em sinal de grande honra e autoridade. Deve-se saber que na coroa há três coisas: primeiro, a cabeça é descoberta e nua na parte superior, com os cabelos cortados; segundo, a coroa é redonda. Há três razões pelas quais a cabeça é descoberta; São Dionísio apresenta duas delas. Diz ele que a raspagem e o corte dos cabelos significam uma vida pura e limpa, sem qualquer ornamento exterior; pois, assim como os cabelos existem naturalmente para adornar a cabeça, também a deformam quando são cortados por zombaria ou de outro modo. Do mesmo modo, os bons costumes, que deveriam adornar a vida pura, deformam a santa conduta quando são abandonados e retirados por hábitos cobiçosos e orgulhosos. Além disso, a raspagem ou o barbear que se faz na parte mais alta da cabeça significa que entre Deus e eles não deve haver nada, nem qualquer meio, que desagrade a Deus; mas seu amor deve estar em Deus, sem qualquer impedimento ou obstáculo, e devem dirigir para ele os seus pensamentos. A segunda coisa que há na coroa é que os cabelos são completamente raspados. Com isso se significa que os clérigos devem afastar de seu coração todos os pensamentos vãos que poderiam impedir e obstar o serviço divino; também devem retirar-se dos negócios temporais e ter somente o necessário.
A terceira coisa que há na coroa é que ela é redonda, e essa forma parece conveniente por muitas razões. A primeira é que uma figura redonda não tem começo nem fim. A segunda é que numa coroa redonda não há cantos; e, como diz São Bernardo, onde há cantos facilmente se ajunta a sujeira. Isso deve ser entendido como significando que os clérigos não devem ter no coração cantos onde possa se acumular a sujeira dos pecados, mas devem ter a consciência limpa; e também devem ter a verdade na boca. Pois, como diz São Jerônimo: “A verdade não procura cantos.” A terceira razão é que, assim como a figura de uma coroa é a mais bela entre todas as outras, também a conduta dos clérigos ou sacerdotes deve ser, entre todos os demais leigos, a mais adornada de bons costumes. A quarta razão é que, assim como uma coroa tem um único caminho circular e nenhuma outra forma, como diz Santo Agostinho: “Não há figura tão simples quanto aquela que tem um só caminho”, também os clérigos devem ser simples em sua conduta, sem fingimento nem orgulho. Deve-se saber que a Santa Igreja celebra três festas de São Pedro durante o ano, por causa dos três dons que ele tem poder de conceder ao povo. A primeira é a da cátedra, pois ele concede a absolvição dos pecados. A segunda festa chama-se ad vincula, isto é, a das cadeias, no primeiro dia de agosto, pois, por seu poder, ele transforma a pena perpétua devida pelos pecados mortais em pena temporal. A terceira festa é a de seu martírio, pois ele tem poder de remir algumas penas da penitência imposta pelos pecados confessados. Por essas três razões, ele é digno e merecedor de ser honrado e venerado. Peçamos-lhe, portanto, que nos obtenha e alcance a remissão de todos os nossos pecados e que, depois desta curta vida transitória, possamos chegar à alegria e à glória eternas no céu. Amém.