Tesouro n.º 207 · Volume III

TRISTEZA TRISTEZZA

3 seções · 12 parágrafos · pp. 2325–2330 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. CAUSAS DA TRISTEZA

A tristeza tem seu berço na acídia, no abatimento da alma, na concupiscência; origina-se das grandes preocupações, solicitudes e angústias, frequentes naqueles que estão apegados aos bens da terra. A tristeza muitas vezes nasce da inveja, embora todas as paixões possam igualmente gerá-la. A tristeza apodera-se facilmente de um coração fraco, indolente e pusilânime. Aqueles que buscam sua satisfação nas criaturas, nas riquezas e nos prazeres, assim que se veem privados, ou mesmo apenas ameaçados de serem privados de tais falsos bens, caem imediatamente na melancolia e na tristeza. «A tristeza é a sorte de um coração depravado» (Eclo 36, 22); e com isso nos ensina que a tristeza é a companheira inseparável dos pecadores, nos quais a má consciência gera o remorso, esse verme roedor que os devora e lhes tira todo puro deleite, toda paz.

2. DANOS DA TRISTEZA

O Sábio sentencia que a tristeza faz ao coração do homem o que a traça faz às roupas e o caruncho à madeira (Pr 25, 20). Por várias razões a tristeza é comparada à traça e ao caruncho: 1º Assim como a traça rói pouco a pouco a veste e a estraga, e o caruncho danifica a madeira, assim a tristeza rói e consome o corpo, a alma e o coração… A tristeza, diz São João Crisóstomo, é um cruel tormento da alma, uma certa dor inexplicável, semelhante a um inseto venenoso que arruína juntamente a alma e o corpo. É um verme que não ataca somente os ossos, mas também o coração; é um incansável verdugo que dilacera a alma e a destrói; é uma noite contínua e densíssima, um furioso furacão, uma horrível tempestade, uma febre oculta mais ardente que o fogo, um combate incessante (Epist. 8, ad Olymp.).

2º O verme que estraga o pano consome-se com o pano; assim, a tristeza alimenta-se de si mesma e mata a si mesma. Sêneca escreve: Assim como todos os vícios se lançam a dilacerar o homem que não os combate vigorosamente e os derruba ao primeiro sinal de sua manifestação, assim a tristeza miserável e cruel alimenta com sua amargura a alma desgraçada que a acolhe, tornando-se ao mesmo tempo para ela cruel prazer e tormento.

3º A veste roída pela traça já não tem valor, observa Cassiano; a madeira carcomida pelo caruncho não serve senão para o fogo; assim, a alma devorada pela mordida da tristeza já não é apta nem para a estrutura nem para o ornamento do templo espiritual; perde sua beleza e seu valor, e nos expõe à condenação eterna (De Instit. renunt.).

4º A traça se apega mais facilmente aos tecidos macios, como, por exemplo, à lã; assim, a tristeza se apega mais facilmente a um coração fraco e sem energia.

O Sábio, depois de dizer que a tristeza do coração é uma chaga universal, que infecta o homem inteiro, volta-se para suplicar a Deus que o mantenha longe dela, porque muita gente já foi por ela morta (Eclo 25, 17… ― 30, 24-25). Evidentes são as razões de tal sentença: 1º A tristeza encontra-se imediatamente e por inteiro no espírito, que é em nós a parte que sente mais vivamente o prazer e a dor; os outros tormentos, como as pancadas, as feridas, as queimaduras e assim por diante, estão no corpo; e as dores do corpo não podem de modo algum ser comparadas aos tormentos da alma. 2º A vontade é a mais bela faculdade do homem, porque comanda as outras potências, os sentidos e os membros; ora, a tristeza, afligindo diretamente e subjugando a alma, abate e submete a vontade; e esta, derrubada do trono, torna-se escrava da melancolia. Com toda razão, portanto, o Eclesiástico afirma que é preferível a morte a uma vida triste (Eclo 30, 17).

O homem está sujeito a muitos males, mas, de todos os sofrimentos, o mais grave é a tristeza; e, se nisso se refletisse um pouco, reconhecer-se-ia que ela é a doença mais perigosa e mais cruel; tanto que, como observa São Gregório Nazianzeno, ela abrevia os dias e antecipa a velhice (1). Não chamemos, pois, feliz àquele que possui muitas riquezas, mas àquele que se guarda e se preserva do dente da tristeza. Esta, como diz Apolodoro (In Paralog.), é irmã da loucura; porque, em vez de ser remédio dos males, irrita-os e aumenta-os; é um veneno.

O Crisóstomo chama-a languidez que obscurece a vida física e moral; e acrescenta que a noite mais escura e tenebrosa nada é em comparação com a noite produzida pela tristeza; que ela se enraíza no coração, que é mais feroz que toda tirana; que é tão tenaz, que quase se torna impossível arrancá-la, qualquer que seja o meio empregado, qualquer que seja o esforço feito; e a razão mais poderosa disso é que a tristeza causa a desconfiança, e a desconfiança conduz ao desespero (Epl. 8, ad Olymp.). Não menos espantoso quadro nos apresenta São Gregório: Da tristeza nascem a malícia, o enfraquecimento, o torpor na observância dos mandamentos, a divagação da alma por coisas más, o desespero. A tristeza é uma espécie de abismo no qual, uma vez caídos, resta-nos pouca esperança de sair (Moral. l. 31, XVII). A tristeza é um mal sem compensação de bem. Além do dano que causa ao corpo e à alma, ela é sempre e absolutamente inútil. Com efeito, acaso afastastes as aflições e as angústias, ou ao menos mitigastes os sofrimentos e as cruzes, entristecendo-vos, lamentando-vos e afligindo-vos por causa deles? Não; antes os tornastes mais pesados e os aumentastes.

De todas as más disposições do espírito, a pior é a tristeza; funesta sobretudo aos servos de Deus, ela destrói suas forças, a esperança, a confiança, o amor; expulsa deles o Espírito de Deus, de quem é inimiga declarada. Revesti-vos, pois, da alegria cristã, que sempre encontra graça diante do Senhor, e sereis felizes; porque o homem tranquilo e alegre na alma cumpre regularmente seus deveres, saboreia o bem, despreza o mal. Já o homem melancólico faz mal aquilo que faz; não encontra gosto nem consolo em ação alguma, ainda que boa, porque entristece as operações do Espírito Santo, que ama o coração contente. A oração do homem dominado pela tristeza não tem força para subir até o altar do Senhor; este é o sentido daquela frase de Aarão: «Como pude eu agradar ao Senhor nas cerimônias, com a alma imersa na melancolia?» — Não, a alma dominada pela tristeza não pode elevar-se até Deus; e, não se elevando mais a Deus, cairá sempre mais na tristeza e na melancolia. O demônio não tem meio mais eficaz para nos tentar, enfraquecer e abater do que a tristeza, porque, expulsando da alma o Espírito Santo, que é o Espírito da verdadeira e sólida alegria, chama para ela o espírito diabólico, que é o espírito da tristeza e do desespero. Por isso, São João Crisóstomo diz: «Mais nociva que toda outra arte e cilada do demônio é a tristeza, porque aqueles que ele subjuga, subjuga-os pela tristeza. Se vencerdes a prova da tristeza, ele não poderá mais causar-vos dano nem mal algum (2)».

Essa tristeza, que causa tantas devastações no corpo e na alma, muitas vezes acarreta a morte temporal e eterna; pois a tristeza é tal pecado que se torna grave sobretudo quando nela tomam parte a obstinação, o orgulho e a teimosia. Nesse caso, ela gera uma multidão de pecados, de quedas e de recaídas graves; abandona-se tudo sob o pretexto de que não podemos corrigir-nos, de que Deus já não nos escuta; de que se afastou de nós: cai-se de abismo em abismo, até chegar ao desespero e ao inferno. Nesse sentido, o Eclesiástico nos adverte de que a tristeza apressa a morte, tira as forças, faz baixar a cabeça, e exorta-nos a não lhe dar entrada em nosso coração, mas a mantê-la bem longe de nós (Eclo 38,19-21). Em suma, a tristeza é causa de três grandes males: 1° exaure a alma de forças, isto é, de virtudes; 2° não deixa fazer outra coisa senão o mal; 3° traz consigo a morte. Ora, se ficaríeis horrorizados só ao pensar em matar outra pessoa, por que não ter horror de matar a vós mesmos com a tristeza? Por que serdes os próprios algozes?

3. REMÉDIOS CONTRA A TRISTEZA

Primeiro meio: procurai ter uma boa consciência. Aquele que pratica a virtude, escreve Santo Ambrósio, é tranquilo, contente, estável. Deus lhe reserva o precioso dom da paz e da alegria. Os corações virtuosos não são agitados pelas coisas terrenas, nem perturbados pelo temor, nem abatidos pela melancolia, nem afligidos pela dor; permanecem como ancorados em porto seguro, de onde veem a tempestade enfurecer-se, enquanto sua alma está alegre e imóvel (Offic. lib. 2, c. V). Evitemos, pois, o pecado e alegremo-nos no Senhor.

2° Queres nunca estar triste? Vive bem, responde São Bernardo; fazendo assim, estarás sempre na alegria (3). 3° «Por que, ó minha alma, estás triste?», diz o Salmista, «por que me perturbas?». E logo ordena à sua alma que desespere, sendo este o remédio que curará sua tristeza (Sl 41,12). 4° São Tiago nos sugere, como remédio contra a tristeza, a oração (Tg 5,13). 5° A fortaleza do coração e a resignação à vontade de Deus. 6° Desprezar os objetos terrenos e mirar o céu. «Expulsa-se do coração a tristeza, diz São Gregório, se se mantém o espírito atento aos bens celestes (4)», porque a alma que considera os grandes bens da eternidade que lhe estão preparados sente-se inundada de alegria e vai dizendo a si mesma, como outrora o Salmista: «Eu me alegrei com o que me foi dito: Nós iremos à casa do Senhor» (Sl 121,1). 7° Amar o trabalho; ocupar-se sempre, principalmente com coisas úteis à salvação. 8° Pensar frequentemente na morte temporal e eterna. Esse pensamento alivia todos os trabalhos, as dores e as angústias que poderiam causar melancolia, e anima o homem a empreender tudo, a suportar tudo, para ter uma boa morte e evitar a condenação. 9° Não dar importância à tristeza, mas desprezá-la.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.