Tesouro n.º 79 · Volume II

ALEGRIAS CRISTÃS GIOIE CRISTIANE

7 seções · 47 parágrafos · pp. 970–980 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. MOTIVOS QUE O CRISTÃO TEM PARA ALEGRAR-SE

Jesus Cristo é a nossa alegria… «Aquele que se alegra em Jesus Cristo, diz Santo Agostinho, não pode sofrer engano em suas consolações (1)». O santo abade Apolônio inculcava que não se pensasse com tristeza na própria salvação, sendo nós herdeiros do reino celeste. Que os pagãos sejam tristes, que os judeus chorem, que os corações impenitentes sejam infelizes, isso é justo; mas os cristãos devem viver na alegria (Vit. Patr.).

A alegria cristã tem como princípio e motivo: 1° a misericórdia de Deus, segundo a exortação do Eclesiástico: «Alegre-se a vossa alma na sua misericórdia» (Eclo 51, 37).

2° A esperança em Deus… «Depositei a minha esperança naquele que é a salvação eterna, dizia Baruc, e a alegria me veio daquele que é santo» (Br 4,22).

3° A promessa de Deus… «Sou eu quem consolará», diz o Senhor (Is 51,12); e anuncia que, vindo o Messias, as virgens dançariam de alegria, e os jovens e os velhos exultariam de júbilo; que por ele o luto seria transformado em alegria, que ele as consolaria e as encheria de gozo, para reanimá-las de sua dor; que inebriaria a alma dos sacerdotes e cumularia de seus bens o seu povo (Jr 31, 13-14).

4° A alegria cristã está fundada nos méritos e na bondade de Jesus Cristo.

5° Nos meios que temos para nos salvar, quais são os sacramentos e a oração…

6° Nos méritos que podemos adquirir em todas as coisas, referindo-as a Deus.

7° Sobre a obrigação que Deus nos impôs de permanecermos alegres. «Filha de Sião, diz-nos ele, entoa cânticos de louvor; Israel, alegra-te e exulta» (Sf 3,14). E por que tamanha festa? Porque o Senhor, vosso Deus, está no meio de vós; ele é o Deus forte, o vosso Salvador; ele se alegrará em vós, repousará em vosso amor e exultará de alegria convosco (Ib. 17). «Alegra-te e louva o Senhor, ó filha de Sião, diz ainda Deus, porque eis que venho e habitarei no meio de ti» (Zc 2,10). «Servi ao Senhor com alegria», cantava o Salmista (Sl 99,1).

8° Finalmente, esta alegria cristã se fundamenta nas graças e nos favores que Deus derrama sobre seus fiéis servidores. «Festejai, diz São Bernardo, porque já recebestes os dons da mão esquerda de Deus; alegrai-vos, porque esperais os presentes de sua mão direita. Sua esquerda vos eleva e vos sustenta; sua direita vos acolhe e vos estreita ao peito. Sua esquerda cura e justifica; a direita abraça e torna bem-aventurado. Na esquerda ele guarda os méritos; na direita, as recompensas; com a esquerda nos dá os remédios; com a direita oferece as consolações (2)».

2. ONDE SE ENCONTRA A VERDADEIRA ALEGRIA

A verdadeira alegria encontra-se, em primeiro lugar, no Senhor, segundo o que São Paulo dizia aos Filipenses: «Alegrai-vos no Senhor; repito-vos: alegrai-vos» (Fl. 4,4). Alegrai-vos, comenta Santo Anselmo, não no século, mas no Senhor; pois, assim como ninguém pode servir ao mesmo tempo a dois senhores, também ninguém pode estar alegre no Senhor e no século: estas duas alegrias são opostas entre si como a noite e o dia (In Ep. ad Philipp. 4, 4).

Por isso, o real profeta dava testemunho de si mesmo, dizendo que «seu corpo e sua alma se haviam alegrado no Deus vivo» (Sl 83,2); e exorta os justos a festejar no Senhor, a alegrar-se e exultar nele, que lhes dará quanto desejam (Sl 96,111; 36,4); e Tobias exclamava: «Quanto a mim, alegrarei-me no Senhor» (Tb 13,9); e Ana, mãe de Samuel, alegrava-se ao pensar no Messias (1Sm 2,1).

Diz Isaías: «Festejarei no Senhor, e minha alma exultará de alegria em meu Deus; porque me vestiu com as vestes da salvação, adornou-me com as joias da justiça, como um esposo cingido com sua coroa e como uma esposa ornada com seus adornos» (Is 61,10). «Quanto a mim, exclama o profeta Habacuc, alegrar-me-ei no Senhor e exultarei em Deus, meu Jesus» (3,18). Este profeta, seiscentos anos antes da vinda de Jesus Cristo, anuncia-o pelo nome e nele se alegra; pois previa que por ele seria libertado, como nós, do pecado, do demônio, da concupiscência, da carne e do mundo, e cumulado de graça e de favores.

Com razão, portanto, o profeta Baruc animava Jerusalém a olhar para o oriente e a considerar a alegria que lhe vinha do Senhor (Br 4,36). Com razão o Salmista exortava à alegria aqueles que procuram o Senhor (Sl 104,3) e exclamava: «Vós viestes em meu auxílio, ó Deus, e eu me consolei com isso» (Sl 85,16).

Esta alegria que o cristão deve ter não é a alegria segundo o sentido da natureza, mas a alegria segundo a razão iluminada e fortalecida pela fé e pela graça… A alegria espiritual é uma amostra, uma antecipação da alegria celeste. Daí aquela sentença de Santo Agostinho: «Quem busca a Deus busca a alegria; porque, quanto mais se aproxima de Deus, tanto mais permanece iluminado, fortalecido e amado por Deus, o qual somente é a verdadeira alegria do homem; somente ele satisfaz seus desejos, e não apenas os do homem, mas também os do anjo (3) … E em outro lugar o mesmo santo assim rezava: «Longe de mim, longe de vosso servo, esteja a ideia de considerar-me feliz por qualquer alegria que eu experimente fora de vós; mas fazei que eu saboreie aquela alegria que o ímpio não conhece e que vós concedeis àqueles que vos servem. Esta alegria sois vós mesmo; é a vida bem-aventurada de gozar convosco, de vós e por vós: eis a verdadeira alegria; não há outra fora desta (4); porque nos criastes somente para vós, e nosso coração não encontra a paz enquanto não repousar em vós (5)».

«A única alegria genuína, diz São Bernardo, é aquela que vem do Criador, não da criatura, e que ninguém pode arrebatar-te quando a possuis; em comparação com esta, toda outra alegria é pranto, toda doçura é amargura, todo deleite é tédio, toda beleza é sujeira; enfim, todo prazer é incômodo (6)». A alegria perfeita não vem da terra, mas do céu; não brota deste vale de lágrimas, mas do jardim da cidade celeste (Epistola CXIV).

A alegria em Deus, já observava o Crisóstomo, é a única que não nos pode ser tirada; todas as outras alegrias são mutáveis e transitórias; mas a alegria em Deus é estável, imutável e tão grande que enche todo o coração. As outras alegrias não nos alegram a ponto de dissipar a tristeza e o tédio; antes, são sua fonte; mas quem se alegra e exulta em Deus bebe na fonte da verdadeira alegria. Assim como, tão logo uma centelha cai no mar, nele se extingue, assim acontece com aquele que deposita em Deus sua felicidade e sua alegria; permanece todo submerso neste oceano sem margens e sua alegria, em vez de diminuir, aumenta (Homil. ad pop. XVIII).

O verdadeiro cristão encontra somente em Deus ― o repouso e a paz; somente nele estão as verdadeiras alegrias. As alegrias do mundo, as alegrias produzidas pelas paixões, não proporcionam repouso nem paz, mas nelas se encontram a perturbação e o remorso… «Aquele que quer gozar em si mesmo e de si mesmo será triste, diz ainda Santo Agostinho, mas quem busca em Deus a própria alegria estará em contínuo júbilo (7)».

A verdadeira alegria encontra-se, em segundo lugar, numa vida santa. «Quereis saber o modo de jamais viver na tristeza? pergunta São Bernardo: vivei santamente. Uma vida santa tem por companheira inseparável a alegria; a consciência do culpado é sempre perturbada por pensamentos sombrios (8) … «Que coisa mais preciosa e mais doce para um coração, observa ainda o mesmo santo, que coisa mais segura e tranquila nesta terra do que uma consciência reta? Ela não teme nem a perda dos bens, nem os sofrimentos, nem as censuras; a morte, em vez de assustá-la, apresenta-se-lhe como mensageira de alegria» (De Considerat. lib. I).

A mesma coisa já haviam observado dois pagãos, Cícero e Sêneca. O primeiro escrevia a Torquato que a consciência de uma vontade reta é a maior das consolações em meio às penas da vida; o outro exigia de Lucínio que vivesse contente; e, perguntado por este de onde podia haurir aquela contínua satisfação, respondia-lhe: Numa boa consciência, em bons conselhos, em boas ações, no desprezo das coisas fugazes, numa conduta irrepreensível.

A verdadeira alegria encontra-se, em terceiro lugar, na humildade; segundo a exortação de Judite: «Esperemos humildemente a consolação do Senhor» (Jt 8,20).

Encontra-se, em quarto lugar, no amor e no temor de Deus. O temor do Senhor é, como diz o Eclesiástico, glória, triunfo, fonte de alegria, coroa de júbilo. O temor de Deus alegrará o coração, dar-lhe-á alegria, exultação e longevidade. Quem teme o Senhor terá alegria no fim da vida e bênção no dia de sua morte (Eclo. 1, 11-13).

Encontra-se, em quinto lugar, nos pensamentos consoladores do céu, de Jesus Cristo, dos benefícios de Deus, de sua presença, de sua morada e cooperação em nós, da Bem-Aventurada Virgem, dos santos etc.

Encontra-se, em sexto lugar, na mortificação da carne e dos sentidos. Se renunciarmos aos deleites dos sentidos, Deus nos dará delícias muito mais doces; em vez de prazeres carnais, proporciona-nos prazeres espirituais, substitui as alegrias eternas às temporais, as divinas às humanas. Davi, que havia feito essa experiência, dizia: «Minha alma recusou as consolações terrestres; lembrei-me do Senhor e senti meu coração jubilar» (Sl 86, 3). Com efeito, as alegrias espirituais, uma vez saboreadas, tornam insípido todo prazer dos sentidos.

Encontra-se, em sétimo lugar, na oração e na meditação. «Eu, diz o Senhor, atrairei a alma a mim, conduzi-la-ei à solidão e falarei ao seu coração» (Os 2, 14). Eu lhe falarei interiormente à mente, e à sua vontade; encherei seu coração de consolação; falar-lhe-ei uma linguagem toda de mel; satisfarei seus desejos; estreitá-la-ei junto ao meu peito, bem perto do coração. Comunicar-lhe-ei o meu espírito consolador.

Encontra-se, em oitavo lugar, na virtude; também Sêneca o percebeu, quando escreve: «Somente a virtude produz uma alegria perpétua e segura (9)»; porque a virtude é a prática da lei de Deus. Ora, diz São Basílio, «alegrar-se naquilo que está de acordo com a lei do Senhor: isto é alegrar-se no Senhor, e é verdadeira alegria (10)».

Encontra-se, finalmente, nas lágrimas do arrependimento; uma só lágrima derramada pelos pecados passados contém mais suavidade e doçura e, portanto, mais alegria do que todos os prazeres do mundo e da carne juntos.

3. A ALEGRIA CRISTÃ TORNA INVENCÍVEL

«Crede que tendes motivo para vos alegrar quando sois submetidos a várias tentações», escreve São Tiago (Tg 1, 2). «Vendo São Paulo, diz o Crisóstomo, que as tentações se acumulavam sobre ele como a neve, alegrava-se e exultava como se tivesse vivido no meio do paraíso… Com efeito, nenhuma arma é tão poderosa quanto a alegria segundo o Senhor (11)».

Aos seus religiosos, que viviam na mortificação e na austeridade, Santo Antônio não sabia inculcar nada melhor do que a alegria espiritual, na qual via o mais forte escudo e o mais poderoso remédio contra toda espécie de tentações e provações. «Há, costumava dizer, um meio eficacíssimo para subjugar o inimigo, e é a alegria espiritual; ela desfaz as ciladas do demônio e dissipa suas insídias como fumaça; não somente as teme, mas as enfrenta, persegue-as e desbarata-as. Não, crede em mim, nada há que mais seguramente vença e abata os nossos inimigos do que a alegria e a satisfação espiritual». (Ap. Sanct. Athanas.).

Os demônios exultam quando conseguem extinguir, ou mesmo apenas enfraquecer, a alegria espiritual numa alma. «Mas lembrai-vos, diz Santo Agostinho, de que o demônio é como um cão preso à corrente por Jesus Cristo; pode latir e rasgar as vestes, mas não pode morder senão aquele que quer ser mordido; pode assaltar, mas não derrubar, e perde até mesmo a esperança de persuadir quando vê o homem firme, generoso, alegre e contente (12)». Por isso, afirma Orígenes, que tantos atos de alegria fazemos em Deus, tantos golpes de vara desferimos contra o diabo (13).

Com essa alegria espiritual atraímos para nós a graça e as luzes divinas; vemos os perigos e os evitamos; nossos inimigos, vendo-se descobertos e conhecidos, fogem.

4. A ALEGRIA CRISTÃ SUPORTA TUDO

Os Atos dos Apóstolos atestam que, tendo o sinédrio ordenado que os Apóstolos fossem açoitados por anunciarem Jesus Cristo, eles saíram do conselho alegres e exultantes, por terem sido considerados dignos de padecer afrontas pelo nome de Jesus (At 5, 40-41); e o grande Apóstolo dizia estar inundado de alegria em meio a toda tribulação (2Cor 7, 4); e escrevia aos Colossenses: «Eu me alegro em meus sofrimentos por vós» (Cl 1, 24). Por vós, isto é, para obter mérito para vós com meus trabalhos e deixar-vos o exemplo de como conservar o ânimo entre as cruzes e perseguições. E vemos esse exemplo reproduzido ao vivo nestas palavras de São Francisco de Assis: «Tão grande é o bem que espero, que todo sofrimento me é deleite» (In Vita).

«Jesus Cristo se alegrava, como diz o Crisóstomo, em meio aos seus suplícios. Chamava seu o dia da crucifixão. Assim devem fazer os cristãos. Os sofrimentos são penas para o corpo, mas são alegrias para o espírito. Não está na índole das cruzes, consideradas em si mesmas, dar alegria, mas somente daquelas cruzes que se levam por Jesus Cristo e com o auxílio do Espírito Santo. Estas dão a alegria e o repouso, principalmente para a eternidade» (Homil. ad pop.). Ah! somente da cruz do Salvador brota a alegria perfeita!

A alegria cristã abranda, adoça e torna meritórias as aflições e as provações; e às vezes chega a fazer que aquele que as padece nem sequer delas se dê conta, como aconteceu com muitos mártires e também com outros santos, pela virtude do Onipotente. Quantas almas não conta o Cristianismo, as quais, longe de temer os sofrimentos, desejam-nos, invocam-nos, acolhem-nos de braços abertos: almas que imitam aquele que escrevia: «O Senhor pôs na minha carne um espinho, enviou o anjo de Satanás para me esbofetear. Por isso voltei-me para Deus, suplicando-lhe que me livrasse dele; mas ele me respondeu: Basta-te a minha graça, porque a virtude se aperfeiçoa na fraqueza. De bom grado, portanto, exultarei e me gloriarei das minhas enfermidades, para que em mim habite a força de Cristo. Por isso alegro-me nas minhas fraquezas, nos opróbrios, nas angústias, nas perseguições, nas privações que suporto por Cristo; porque então sou forte, quando me reconheço fraco e débil» (2Cor. 12, 10). São Paulo haur ia a alegria nas suas provações do próprio mérito inerente às provações; e essa alegria tornava as provações não somente toleráveis, mas desejadas…

Quem padece com tristeza e sem resignação padece mais e padece sem mérito. Quem sofre com alegria sofre menos e adquire grandes méritos. Nosso Senhor Jesus Cristo, que conhecia o valor das aflições, dizia: «Bem-aventurados os que sofrem, felizes os que choram» (Mt 5, 10). Se é felicidade sofrer, segue-se que se deve sofrer com alegria; porque é a alegria nos sofrimentos que proporciona a felicidade.

5. AS ALMAS ILUMINADAS E PIEDOSAS TÊM COMO HERANÇA A ALEGRIA

«Eles, isto é, os justos, alegrar-se-ão diante de vós, ó Senhor, dizia já Isaías, como ceifeiros ricos de sua colheita, como vencedores ao repartirem os despojos» (Is 9, 3). O Senhor diz: «Meus servos colherão em abundância, e vós padecereis miséria; meus servos terão sua sede saciada, e vós morrereis de sede; eles se alegrarão, e vós sereis confundidos; entoarão, no júbilo de seus corações, cânticos de alegria e de louvor, e vós soltareis gritos com o coração despedaçado, gemereis na tristeza de vosso espírito» (Is 65, 13-14).

Em confirmação do que disse o Salmista: «Estará o justo em festa e em alegria» (Sl 50, 7, 10), temos a vida dos anacoretas do deserto, dos quais narra Paládio que causavam assombro àqueles que os viam resplandecer de tanta alegria em meio aos horrores da solidão; tão doce e grande era a sua alegria, que jamais se vira igual na terra, inclusive no que dizia respeito à alegria corporal, porque não se via nenhum deles com o rosto sombrio e triste (In Lausiac. C. LII). E, para elogio de todo santo, pode repetir-se aquilo que São Bernardo dizia do apóstolo André: «Foi à cruz não somente resignado e paciente, mas voluntário, alegre e jubiloso, como se caminhasse para um banquete, para deleites incomparáveis».

6. A ALEGRIA CRISTÃ É TESTEMUNHO DE UMA BOA CONSCIÊNCIA

«A prova mais segura de que se está na graça de Deus é a alegria espiritual», sentencia São Boaventura (14), fazendo eco a São Paulo, que havia assinalado a alegria como fruto do Espírito Santo (Gl 5, 22).

«A boa consciência, escreve Santo Agostinho, está toda na esperança; e a esperança é o fundamento da alegria» (Soliloq.); Santo Ambrósio, explicando aquele texto dos Provérbios (15, 15): «Uma consciência tranquila é um banquete contínuo», exclama: «Que alimento mais apetitoso do que aquele de que se nutre uma alma pura e inocente?» (Offic.). «Não são as grandezas, diz o Crisóstomo, nem as riquezas, nem o poder, nem a força, nem qualquer outra coisa deste mundo que dão alegria à alma e ao coração, mas somente a boa consciência tem o segredo de proporcioná-la» (Homil. ad pop.).

7. SUAVIDADE DA ALEGRIA CRISTÃ

«Onde encontrar coisa mais doce, escrevia Tertuliano, do que ser amado por Deus, conhecer a Deus, detestar o erro, obter o perdão dos próprios pecados? Que prazer mais suave do que desprezar a volúpia e o mundo, ser livre com a liberdade dos filhos de Deus, ter uma consciência pura, não temer a morte, calcar aos pés as falsas divindades, expulsar os demônios, viver de Deus e para Deus? Estes deleites, estes espetáculos dos cristãos, são santos, perpétuos, gratuitos (15)».

As alegrias cristãs são produzidas pela íntima união do Verbo com a alma. Ora, onde encontrar felicidade igual? Nessa união casta e imaculada há um banquete contínuo, e frequentemente nela se come o cordeiro cevado, diz São Lourenço Justiniani. Nela se saboreiam a paz interior, a tranquila segurança, a felicidade tranquila, uma grande doçura, uma fé serena, uma sociedade amável, os beijos da unidade, as delícias da contemplação, a suavidade no Espírito Santo. Ali está a porta do céu, a entrada do paraíso; do leito nupcial, a esposa desce muitas vezes ao céu, e frequentemente o Esposo divino desce do céu ao encontro da esposa. Ela vive sem temor, sem inquietação quanto à sua salvação; penetra nas sublimes moradas do Esposo como na casa de seu amado, em sua própria posse; pois, para resgatá-la, o Esposo vendeu a si mesmo e se entregou a ela. Para redimi-la, lutou contra as tentações, combateu contra os espíritos malignos e continua ainda a combater contra eles. Não como temerária, mas como confiante, ela entra nos aposentos do Esposo; pois, se houve um tempo em que era como estrangeira à cidade santa, no presente tornou-se sua concidadã juntamente com os santos; tornou-se esposa do Verbo e, por um privilégio de amor, tudo o que pertence ao esposo pertence a ela. Com efeito, o verdadeiro amor nada reserva exclusivamente para seu próprio uso, mas dá com mão generosa tanto o que tem quanto a si mesmo; e, em virtude da mesma lei, da mesma caridade que o impele a dar o que possui, serve-se também daquilo que os outros têm. E, por essa exuberância de amor mútuo, há entre a alma e o Verbo perfeita familiaridade nas palavras, na confiança, na segurança da graça e da glória, sem distinção de condição (De inter, Conflictu).

«A alegria dos justos é, diz o Crisóstomo, uma verdadeira nova criação da alma e do corpo, o presságio e a flor do fruto eterno. Por isso o Apóstolo exorta os fiéis a alegrarem-se continuamente no Senhor» (Homil. ad pop.),

«A tranquilidade da consciência, escreve Santo Ambrósio, e a segurança da inocência formam a vida feliz (16)». Com razão, portanto, Clemente de Alexandria chama a vida dos justos um dia de contínua santidade, festa e alegria (17); pois que pode temer do século, diz São Cipriano, aquele que tem Deus como seu tutor no século? (18).

«Não há alegria que se iguale à alegria do coração, diz Rabano; nenhuma alegria terrena pode comparar-se com a alegria da verdadeira sabedoria, que consiste na verdade, na contemplação da verdade, no conhecimento de Deus» (De adep. virtut.).

Na alma que se alegra no Senhor, verificam-se ao pé da letra e em seu verdadeiro sentido as palavras do Senhor: «Derramarei sobre vós a paz como um rio, e a glória das nações como uma torrente; sereis levados nos braços, e os povos vos acariciarão sobre os joelhos, como crianças de peito. Eu vos consolarei como uma mãe consola seu filho, e vós vos alegrareis. Vós o vereis, e vosso coração exultará de alegria, vossos ossos revigorar-se-ão como a erva; os servos do Senhor conhecerão o seu braço» (Is 66, 12-14); aquele braço que, segundo a profecia de Oseias, haveria de atrair os homens com cadeias de amor (Os 9,4).

Eis como fala aquele que pôde comparar esta alegria com a do mundo: «Oh! quão doloroso me foi, de repente, ficar privado das alegrias insípidas e ligeiras do mundo, de modo que me parecia uma alegria indizível perder aquilo que, pouco antes, me parecia o cúmulo da desventura perder! Pois tu as expulsavas de mim, tu, ó suprema e verdadeira doçura; sim, tu as desalojavas e, em lugar delas, entravas tu, mais suave que todo prazer e toda alegria (19)».

A alegria cristã é o sinal de uma vontade boa e piedosa; é o ornamento e a flor das virtudes. Pela posse de Jesus Cristo, a alegria do coração não tem medida; a alma se renova e se sente dominada por uma doçura inefável; alcança a inteligência espiritual, as luzes da fé, o aumento da esperança, o fogo da caridade, o afeto da compaixão, o zelo da justiça, o deleite das virtudes. A alma, nos braços das alegrias espirituais, mantém na oração colóquios familiares com Deus, percebe que é ouvida e muitas vezes atendida; fala com ele face a face e escuta o que ele lhe diz, conquista para si o seu Deus, faz-lhe doce, mas forte, violência, acorrenta-o com sua oração, toda ela impregnada de consolações e alegrias celestes…

Bem-aventurada e feliz mil vezes, portanto, a alma fiel que corresponde às graças de Jesus Cristo! Ela encontra e recebe já nesta vida o cêntuplo daquilo que sacrificou por Cristo; está contente, rica e em paz; assegura, por meio das boas obras, a obtenção da eterna alegria dos eleitos na Jerusalém celeste, de modo que passa da alegria da graça à alegria da glória, do rio das delícias que saboreia em Deus aqui na terra ao oceano infinito da eterna posse de Deus…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.