Tesouro n.º 192 · Volume III

ESCRÚPULO SCRUPOLO

6 seções · 16 parágrafos · pp. 2203–2208 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE É O ESCRÚPULO E DE QUANTAS ESPÉCIES

Escrúpulo, em seu significado primitivo, indica uma pedrinha que, penetrando no calçado, torna incômodo o caminhar. Na linguagem figurada, que se tornou usual, significa a trepidação, o temor e as penas de uma consciência que se perturba sem motivos suficientes, por provirem de suposições incertas e sem fundamento razoável, que lançam a alma na angústia (Sl 13, 5): «Tremeram quando não havia razão para temer».

Há duas espécies de escrupulosos: uns duvidam e temem sempre que seus pecados passados não tenham sido bem acusados; temem ter faltado à contrição; temem não ter recebido o perdão, embora tenham feito quanto estava ao seu alcance para se excitarem à dor, para se confessarem bem e sinceramente e para não recaírem na culpa. Tais escrupulosos não deixam de ser bons cristãos e ordinariamente terminam bem.

Os outros, vivendo mal, têm escrúpulos acerca do passado, mas sem se preocuparem em confessá-lo bem, sem desejo de emendar-se, sem resolução de evitar o pecado. Estes estão próximos da ruína…

2. DE ONDE VÊM OS ESCRÚPULOS

1° Em alguns, o escrúpulo tem origem num temperamento melancólico, em alguma afecção mórbida ou numa mortificação excessivamente severa… Nesse caso, o remédio está na medicina.

2° Em outros, tem como causa a fraqueza de espírito ou de juízo. Não sabem discernir o bem do mal; veem o mal onde ele não existe e não o veem onde existe; quando o mal é pequeno, consideram-no grande; quando é grave, julgam-no leve etc.

3° Encontram-se escrupulosos — e há muitos deles — que o são por amor-próprio, por obstinação, por desobediência, por orgulho… Amam-se demasiadamente; têm apego excessivo à própria vontade e uma ideia demasiado elevada das próprias luzes… São temerários a ponto de acreditar que os diretores pronunciam uma sentença sem suficiente conhecimento de causa; julgam-nos ou demasiado indulgentes, ou demasiado severos, ou não suficientemente instruídos, ou carentes de experiência, o que, afinal, se reduz a concluir que eles se enganam… Perigosíssimo e quase incurável é o escrúpulo que deriva dessas fontes…

4° O escrúpulo também pode ser produzido por um temor excessivo da morte, do juízo e do inferno. Basta a culpa mais leve para nos fazer crer condenados; a imaginação nos exalta, a fantasia nos leva para fora do juízo…

5° Finalmente, o escrúpulo às vezes vem de Deus, que o permite para nos provar e dele se serve como de uma cruz para nos afligir; outras vezes vem do demônio, que, como gosta de pescar em águas turvas, empenha-se em perturbar uma alma com o escrúpulo, para impedi-la de progredir no bem… Sabe-se que o escrúpulo vem do demônio: 1) pelo impulso que se sente e ao qual parece que cedemos; se ele é áspero, incômodo, repugnante e violento, tenhamos-no seguramente por diabólico, porque o impulso divino é suave, agradável e calmo… «Deus é tranquilo, diz São Bernardo, e põe a calma em toda parte; contemplar este Deus de paz é encontrar o repouso (Serm. XXIII. in Cant.).» 2) Conhece-se isso pela agitação da alma, pela perda da paz e da doçura, pelo desgosto da virtude, da resignação e dos exercícios piedosos…

3. SOFRIMENTOS E PERIGOS DO ESCRUPULOSO

Tormento cruel, dor inexprimível é o escrúpulo, escreve São João Crisóstomo; é um verme roedor que devora o corpo e a alma, os ossos e o coração; é um perseguidor perpétuo, um algoz que lentamente enfraquece e consome as forças da alma; é uma noite contínua; uma densa escuridão; uma nuvem tempestuosa; uma febre oculta que queima mais que o fogo; um combate sem repouso (Homil. de Cruce). O escrúpulo resseca o coração, torna-o triste e pesado; envolve o cérebro em densa fumaça e negra escuridão; tudo se vê sob um aspecto triste, sombrio, penoso, nocivo, horrendo, espantoso… Com o escrúpulo, já não se vislumbra nem Deus, nem a sua lei, nem a beleza e a doçura da virtude, nem a si mesmo… O jugo de Jesus Cristo parece coisa duríssima e insuportável, e sentimo-nos tentados a falar mal dele… Nunca um momento de paz, de tranquilidade, de alegria, de luz… Orações áridas e penosas; sacramentos recebidos tremendo e sem consolação, quando não sem fruto…; tentações de desânimo, de desconfiança, de desespero… Ó deplorável estado!

Mas há ainda mais; a tentação do escrúpulo pode tornar-se muito mais perigosa que qualquer outra, porque as demais tentações são reconhecidas como más, mas a tentação do escrúpulo tem a aparência de prudência, de verdade, de virtude… O demônio afasta o temor dos perigos reais e nos faz temer perigos falsos e aparentes… Esta tentação abala e até mesmo elimina por completo a esperança e a resignação; arrasta à murmuração, ao ódio, ao desespero… Dela provêm perigos de cegueira espiritual, que podem conduzir ao endurecimento do coração pelo caminho da desobediência, da obstinação e do orgulho.

4. O HOMEM VERDADEIRAMENTE VIRTUOSO NÃO É ESCRUPULOSO

A verdadeira virtude goza, como diz Santo Ambrósio, da tranquilidade e da estabilidade do repouso. Por isso, o Senhor reserva o dom inestimável da paz àqueles que são perfeitos. «Eu vos deixo a paz, diz ele aos Apóstolos, eu vos dou a paz, mas não como o mundo a dá; eu vo-la dou. Não se perturbe nem tema o vosso coração» (Jo 14, 27). As almas verdadeiramente firmes no bem e sinceramente virtuosas não são agitadas pelas coisas do mundo, pelas tentações, pelas paixões; o temor não as inquieta, não se perturbam com suspeitas; nada as assusta, nem mesmo as dores; mas, abrigadas em porto seguro, veem passar as tempestades sem que a sua alma seja comovida por elas (Offic. lib. 4, c. V).

5. MOTIVOS PARA DESPREZAR O ESCRÚPULO

1° O pecado, em sua essência, supõe de tal modo o concurso da vontade que, se este falta, jamais há pecado: assim ensina, com a Igreja católica, Santo Agostinho (Retract. lib. 1, c. XV). ― «É impossível, já pregava São Leão, que, vivendo sobre a terra, mesmo os mais religiosos não tragam consigo um pouco de pó (Serm. 4, de Quadrag.)»; isto é, é quase impossível que, mesmo empregando todas as precauções possíveis, considerando a fraqueza da natureza decaída, os obstáculos ao bem, a inclinação para o mal, a multidão dos inimigos e a frequência dos perigos, o homem possa evitar todas as culpas veniais. Somente no céu seremos impecáveis. Os próprios Santos não estiveram isentos de algumas leves manchas… Além disso, os pecados veniais não tiram a graça santificante… Por que, então, afanar-se e afligir-se tanto? É preciso humilhar-se e arrepender-se, não perturbar-se nem angustiar-se…3° Supondo ainda que caiamos em culpa grave, jamais será o escrúpulo e o desespero que nos farão levantar, mas a esperança e o arrependimento… Deus perdoa sempre a um coração contrito e humilhado, diz o Salmista (Sl 50, 19). Deus jamais nega o perdão a quem retorna arrependido para ele. 4° Nunca se devem separar as nossas misérias e fraquezas da bondade, da misericórdia e do sangue de Jesus Cristo. Tudo isso é infinito nele…

6. REMÉDIOS CONTRA O ESCRÚPULO

«Queres, diz São Bernardo, nunca ceder à tristeza, efeito do escrúpulo? Vive como bom cristão: a vida cristã está sempre na alegria (De inter. dom. c. XLVI». Com efeito, São Paulo escreve: «Alegrai-vos no Senhor; repito-vos ainda: alegrai-vos» (Fl 4, 4); e o Salmista exclamava: «Por que estás triste, minha alma? Por que te perturbas? Espera no Senhor» (Sl 41, 6). «Quem caminha nas trevas, diz Isaías, quem está na escuridão, espere no nome do Senhor e confie nele» (Is 1, 10).

Meio eficacíssimo para evitar e, sobretudo, vencer diversas tentações é evitar e desprezar o escrúpulo. Dizei-lhe: Não, não confio em ti, ó escrúpulo; és um guia demasiado mau; vens do demônio, meu capital inimigo, e aquilo que me ofereces é falso, inepto, insensato; por prudência, apegarei-me ao contrário do que me sugeres… Santo Antônio assegurava que nenhum meio é mais eficaz para desbaratar os demônios do que a alegria espiritual, que exclui os escrúpulos.

«Se algum de vós está triste, ore» (Is 5, 13). Este é o remédio que São Tiago recomenda aos escrupulosos, os quais, contudo, devem tomá-lo do modo indicado pelo Sábio: «Não multipliques as tuas palavras em tuas orações», como muitas vezes se faz com escrupulosas repetições (Eclo 7, 15). Enganam-se aqueles escrupulosos que nunca terminam de fatigar o espírito, repetindo incessantemente as suas orações por causa das distrações, e que, com isso, tomam precisamente o caminho mais seguro para serem continuamente assediados por elas. Esta repetição das orações, feita por escrúpulo, pelo temor de não as ter proferido suficientemente bem, pelo desejo desregrado de dizê-las melhor, é inútil, viciosa, ridícula, irreverente; alimenta e fortalece os temores e os escrúpulos. Pronunciando as palavras, os escrupulosos cumprem a obrigação da oração, e, mesmo quando estão distraídos, essa distração ordinariamente não é voluntária, mas é efeito da imaginação de uma cabeça exaltada pelo escrúpulo e, portanto, está isenta de culpa. E, supondo que a distração seja voluntária e que haja certa culpa, essa culpa deve ser apagada pela contrição, não pela repetição da oração…

Eis outros excelentes meios para curar o escrúpulo: 1° Pedir a Deus que nos livre dele; 2° alimentar uma confiança inabalável em Deus; 3° não dar ouvidos às sugestões do demônio e tratá-las como se faz, por exemplo, com os pensamentos contra a fé, de blasfêmia e semelhantes; 4° deter o escrúpulo em seu princípio; porque o escrúpulo é como uma pedra lançada num lago, que produz ao seu redor um pequeno círculo, depois um mais amplo, depois, sucessivamente, cem outros que vão sempre se dilatando; 5° empregar pouco tempo no exame de consciência e não ocupar-se da própria confissão senão alguns minutos antes de iniciá-la; 6° resumir quanto possível a própria confissão, sem descer a particularidades; 7° obediência cega e absoluta ao confessor; 8° comungar frequentemente e não ocupar-se das próprias culpas nem antes nem depois da comunhão, mas lançar-se nos braços de Deus, amá-lo e agradecer-lhe; 9° lembrar que não é a tentação, mas o consentimento, que mancha a alma; 10° desprezar as tentações; 11° conservar-se humilde; 12° invocar frequentemente os santos nomes de Jesus e de Maria e munir-se muitas vezes do sinal da cruz.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.