Tesouro n.º 208 · Volume III

EMBRIAGUEZ UBRIACHEZZA

6 seções · 21 parágrafos · pp. 2330–2339 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A EMBRIAGUEZ É PECADO

Jesus Cristo nos adverte que tenhamos cuidado conosco, para que não nos aconteça deixar-nos oprimir pela glutonaria e pela embriaguez (Lc 21,34). Quando a embriaguez chega ao ponto de nos privar do uso da razão, é pecado mortal. Por isso, Santo Agostinho afirma que quem se empenha em embriagar alguém, fazendo-o beber mais do que o necessário, faria menos mal se o apunhalasse, em vez de matar-lhe a alma com a embriaguez (1). O Sábio nos proíbe de tomar parte nos banquetes dos ébrios, porque aqueles que se entregam ao vinho serão expulsos da herança de seus pais. O vinho insinua-se suavemente, mas acaba mordendo como uma serpente e espalha seu veneno como um basilisco (Pr 23,20-21,31-32). O Eclesiástico indica, juntamente com as mulheres, o vinho como causa dos desvios dos sábios (Eclo 19,2).

«Ai de vós, diz Isaías, que bebeis desde a manhã até a noite; ai de vós, que sois fortes para beber vinho em excesso e ostentais vossa força ao esvaziar taças cheias de bebidas inebriantes. Por isso, assim como a chama devora a palha, assim esses homens arderão até as raízes, e sua descendência se reduzirá a pó» (Is 5,11,22,24). Um copo cheio de vinho é um poço dourado no qual o ébrio cai, perde a alma juntamente com a razão e se afoga com tudo o que possui. Santo Agostinho chama a embriaguez de poço do inferno (Serm. CCXXXI).

Grandíssimo e abominável delito é, pois, a embriaguez; culpabilíssimos são os bebedores que se entregam a paixão tão monstruosa e degradante. A embriaguez é um pecado especial, porque coloca o pecador em perigo certo e inevitável de condenação eterna. Os outros pecadores, quando se veem ameaçados pela morte, tendo a razão, arrependem-se e podem obter o perdão. Mas quem está embriagado, não estando em seu juízo, não é capaz de arrependimento nem de penitência e, se morrer em tal estado, será condenado.

2. FUNESTOS EFEITOS DA EMBRIAGUEZ

1° A embriaguez mata a razão natural. 2° O ébrio já não distingue sequer os próprios amigos. 3° Ele se alegra com a alegria dos loucos. 4° Encoleriza-se sem motivo. 5° Blasfema. 6° Exala um fedor que causa repugnância. 7° A embriaguez torna o homem insensato, porque, como muito bem exprime Anacársis, no primeiro copo de vinho há utilidade; no segundo, alegria; no terceiro, volúpia; no quarto, loucura (ANTON. In Meliss.).

Não é, pois, de admirar que os santos Padres pareçam não encontrar expressões suficientemente graves para detestar e fulminar este vício. «A embriaguez, escreve São Bernardo, enfraquece o corpo, acorrenta a alma; gera perturbação no espírito, introduz furor no coração; tira a razão, de modo que o homem já não conhece a si mesmo. Em suma, a embriaguez é um demônio visível que se mostra aos olhos de todos (2)». Santo Ambrósio observa que ela foi a causa principalíssima da escravidão (De Elia et ieiunio, c. XVI). Orígenes vê nela uma doença que corrompe o corpo e a alma; vicia o espírito e a carne; enfraquece todos os membros; prende os pés, as mãos e a língua; obscurece a visão; tira a memória e o conhecimento, de tal modo que o ébrio já não sabe nem sente que é homem (3).

São Basílio diz que a embriaguez «é um demônio voluntário; é a mãe da malícia, a inimiga da virtude; de um homem corajoso faz um covarde; de um temperante, um dissoluto. Esse vício ignora a justiça, não conhece a prudência. Que são os ébrios, senão estátuas que têm olhos e não veem, ouvidos e não ouvem, pés e não caminham? (4)». O Crisóstomo define-a como «um demônio, um morto animado, uma doença que não merece piedade, uma queda que não tem desculpa razoável, o opróbrio universal da raça humana (5)», e comparava uma alma dominada pela embriaguez a uma cidade sitiada, toda transtornada pela perturbação e pelo temor (Homil. 54, ad pop.). Santo Ambrósio diz que a embriaguez é «fomento da luxúria, caminho para a loucura, veneno da sabedoria (6)», e que, pela embriaguez, «o espírito se incendeia, a alma se abrasa» (De Caino 1. 1, c. V). Santo Agostinho compara-a a um pântano onde não se veem chafurdar senão rãs e serpentes (Serm. CCXXXI).

A embriaguez provoca a cólera de Deus…; rebaixa o homem abaixo do bruto…; inflama a impureza…; arruína a saúde e a fortuna…; faz perder o pudor e a prudência; impele a palavras desonestas, a contendas, a rixas etc.; mata a alma, o corpo, o espírito, o coração, a inteligência, a memória, a vontade, a paz, a honra, a boa fama… «O vinho, diz São Cirilo, é mel ao paladar, mas fel venenoso à cabeça; faz cócegas na garganta, queima as entranhas, fumega na cabeça; embota os sentidos, abate o vigor, destrói a imaginação, apaga a memória, obscurece os olhos, enfraquece os nervos, torna a língua gaguejante e torpe, agita as mãos, inflama o peito, excita a luxúria, altera a pureza do sangue, torna descomposto o porte; em suma, introduz tal desordem em todo o corpo que, da cabeça aos pés, já não há nele nada sadio (7)». «A embriaguez, diz o Venerável Beda, é um estado de imbecilidade que entorpece a razão, tira a memória, cega o intelecto, excita a luxúria, ata a língua, embaralha a fala, corrompe o sangue, deforma o rosto, agita as veias, tapa os ouvidos, enfraquece os nervos, transtorna os sentidos, devora as entranhas, torna pesado o cérebro, enfraquece a coragem, chama o sono, retarda a circulação do sangue, endurece a alma, mancha e desfigura o corpo, profana o homem inteiro, tornando-o objeto de riso e de escárnio (8)». Inteiramente semelhante aos brutos, pode-se dizer que o ébrio se assemelha especialmente ao macaco, ao bode, ao porco e ao leão; porque o vinho o torna ridículo e zombeteiro como o macaco, repugnante como o porco, impuro como o bode, impetuoso como o leão. A embriaguez perde, devora e consome tudo; é um abismo que engole a saúde, a fortuna, a paz e o bem-estar do homem: nada basta para enchê-lo; é a imagem do abismo infernal.

O Espírito Santo compara o ébrio a um homem que dorme no meio do mar, a um piloto que deixou cair o leme de suas mãos (Pr 23,34). O ébrio não sabe guardar segredo (Ibid. 31, 4); porque, assim como o fogo prova o ferro, também o vinho bebido até a embriaguez põe a descoberto o coração do homem; faz explodir nele a cólera, traz-lhe a perturbação e a ruína (Eclo 31,31,38,40). São Basílio escreve (9): «Assim como a água é inimiga do fogo e o apaga, assim o vinho bebido em excesso sufoca a razão. A embriaguez é a morte da razão, o extintor da força, uma velhice prematura, uma morte momentânea… O homem experimenta os efeitos que sofreria uma carruagem puxada por cavalos indomáveis e desenfreados… A temperança e a sobriedade formam os homens; a embriaguez transforma o homem em fera. A água submerge os navios; o vinho afoga os homens. Daí aquele dito de Isaías (28,7): foram absorvidos pelo vinho. Os ébrios absorvem o vinho, mas por sua vez são absorvidos por ele… Assim como a fumaça põe as abelhas em fuga, assim a embriaguez expulsa os dons do Espírito Santo».

A embriaguez é a perturbação e a ruína das famílias: quantos são os goles de vinho que o embriagado bebe além do lícito, tantas são as lágrimas que faz derramar à esposa e aos filhos… A embriaguez destrói a prudência, a dignidade, o dever, a fé, a virtude, a religião e expulsa Deus do coração… O embriagado é um vaso sempre aberto… Bebe para vomitar e vomita para beber novamente. «Ó vinho! exclama São Cirilo; ó doçura atraente, mas toda ela veneno! Tu odeias os que te amam, amas os que te aborrecem; matas os que se deleitam em ti, engoles os que te seguem, feres os que abusam de ti, és remédio para os que de ti se servem sobriamente: Ah! eu te conheço, ó tóxico melífluo! (10)». «Para aqueles que vivem na embriaguez, diz o Crisóstomo, o dia se transforma em noite escura; não porque o sol desapareça, mas porque a mente deles se obscurece pela embriaguez. A embriaguez é a privação da sã razão, é um delírio, é a perda da saúde da alma (11)».

Também Platão deixou escrito «que, se aquele que governa qualquer coisa, seja carro, navio ou exército, entrega-se ao vinho, leva tudo à ruína (12)». Por isso, entre as leis que estabelecia para a sua república, havia também esta: «que nenhum servo nem serva provasse vinho, nem mesmo os magistrados durante o tempo de seu magistrado; nem os governadores, nem os juízes enquanto estivessem em exercício (13)».

3. A EMBRIAGUEZ É VERGONHOSA E DEGRADANTE

Que vergonha é para o homem colocar-se em condição de já não saber se é homem, se vive ou se está morto! E, no entanto, o homem embriagado priva-se da luz da razão, pela qual se diferencia do animal irracional; por isso, pode ser contado entre as feras, não entre os homens, diz São Basílio (14); ele não está vivo, está morto, diz São Jerônimo (15). Observai, diz Santo Ambrósio, a figura que faz o embriagado: perdeu a voz, mudou de cor, os olhos cintilam, o hálito queima, as narinas fremem, a cólera o agita (De Elia et ieiun.). Onde há embriaguez, há Satanás, diz o Crisóstomo; ali estão as palavras obscenas, as blasfêmias, as imprecações; ali os demônios fazem festa. Oh! como o jumento é preferível ao embriagado! Oh, quanto vale mais do que ele o cão! Não encontrarás animal que, ao comer e beber, tome mais do que o necessário, ainda que tentasses obrigá-lo à força (Homil. LVII). E já antes havia dito: «A embriaguez transforma os homens em porcos, ou melhor, em possessos. Sua boca, seus olhos, suas narinas e todos os demais sentidos tornam-se outras tantas cloacas de corrupção» (16). Santo Ambrósio observa que a embriaguez parece mudar até mesmo os sentidos e transformar o homem em fera, porque os bêbados são como loucos: avançam cambaleando para a frente e para trás, para a direita e para a esquerda, caem e levantam-se para cair novamente (De Elia et ieiun. c. XII).

A embriaguez traz consigo a desordem e mil misérias. 1º O embriagado, privado da razão, põe para fora tudo o que tem no coração, manifesta os segredos, atrai o ódio e prepara o terreno para quem queira armar-lhe ciladas. 2º Faz e diz coisas ridículas, desprezíveis, insensatas. Com seu riso desvairado, diz São Basílio, com seus gritos, com sua cólera precipitada e com sua luxúria desenfreada, põe tudo de pernas para o ar (17). 3º Devora seu patrimônio e reduz-se à miséria com a esposa e os filhos, porque, como diz Santo Ambrósio, «os embriagados bebem em um dia o trabalho de muitos dias (18)». 4º Põe em desordem toda a casa; derruba tudo, e todos fogem diante dele. Às vezes chega-se até a ter de levantar-se no meio da noite escura e fria e fugir às pressas, para evitar os maus-tratos de tais seres transformados em feras. Vede-os revolver-se na lama, com as roupas em farrapos: uns dominados por uma alegria insensata, outros oprimidos por uma melancolia espantosa, outros ainda agitados por uma cólera furiosa. Seus ouvidos zumbem como ondas mugidoras; seus olhos entorpecidos já não distinguem as coisas. Sua vida é um sono, seu sono é para eles uma morte. Oh, quão deplorável, inútil e escandalosa é tal vida! Ela é a vergonha do gênero humano; e com razão São João Crisóstomo afirma que o embriagado não é somente um ser inútil à sociedade e incapaz dos negócios públicos e privados, mas é ainda tal que sua simples visão causa repugnância, e sua companhia é intolerável, por causa do fedor que exala (19).

Tão voraz é o lobo que, mesmo plenamente saciado, se lhe aparece uma presa, imediatamente a assalta e despedaça; depois vomita, para poder devorar o novo alimento. Tal é o embriagado. Sua única vida é beber, digerir e vomitar, para beber novamente, diz São Bernardo (20); põe toda a sua felicidade em satisfazer o paladar. Não desperta nem se levanta senão para beber, e não bebe senão para dormir; quanto mais vinho bebe, mais quer beber; ainda não terminou, e já recomeça de novo. Ó vida animalesca e degradante! Cai pela estrada, é preciso sustentá-lo; cai à mesa, é preciso levá-lo para a cama. A seu respeito diz o profeta Habacuc: «Cobriste-te de ignomínia; bebe também e dorme, e um vômito ignominioso sepulte sob um monte de imundície a tua glória» (2,16).

Que coisa vergonhosa é beber mais vinho do que o estômago pode suportar! exclama Sêneca. Oh, quantas vezes os beberrões se entregam a excessos dos quais os homens sóbrios se envergonham! A embriaguez é uma verdadeira loucura voluntária que, tirando daquele que é seu escravo o pudor que se esforça por contê-la, faz com que ele já não pense senão em entregar-se a todo vício e exibi-lo; pois, quando a embriaguez se apodera de um homem, ele divulga tudo o que de mau se abriga em seu coração. Observai que desordens a embriaguez causou: entregou aos inimigos nações fortes e belicosas; derrubou fortalezas que há muito tempo se defendiam heroicamente; abateu combatentes poderosíssimos e terríveis; venceu aqueles que o ferro não pudera subjugar (Ad Lucil.).

4. A EMBRIAGUEZ É FOMENTO DA IMPUDICÍCIA

«Não vos embriagueis de vinho, no qual está a luxúria», diz São Paulo (Ef 5,18), que o havia aprendido dos livros sagrados, onde está escrito: «O vinho é coisa luxuriosa, e a embriaguez é turbulenta: quem se deleita neles jamais será sábio» (Pr 20,1). Os costumes correspondem à temperança do corpo; o homem sóbrio é continente, o intemperante é voluptuoso. «Onde quer que se encontre a glutonaria e a embriaguez, podeis estar certos de encontrar a impudicícia como rainha, escreve São Jerônimo. Não acreditarei que um embriagado seja casto; e, embora adormecido pelo vinho, pode contudo cometer luxúria por causa do vinho. Noé, dominado pelo vinho, assume em uma hora uma atitude tão indecente que jamais havia assumido nos seiscentos anos anteriores. Lot embriaga-se uma só vez e comete um incesto sem o saber; e assim aquele a quem Sodoma não havia vencido foi vencido pelo vinho (21)».

O mesmo santo Doutor diz que nem do Vesúvio, nem do Etna, nem da terra de Vulcano, nem do Olimpo se desprendem chamas tão ardentes como aquelas que queimam as medulas dos jovens, saturadas de vinho e de alimentos (22). «O ventre inchado de vinho, escrevia a Eustóquia, ferve de impudicícia; quem enche o ventre de vinho alimenta Vênus. O vinho e a juventude são duas fornalhas de libido; por que derramar óleo sobre o fogo da juventude? Por que acrescentar combustível a um corpinho já em chamas? (23). Semente de luxúria é a bebida do vinho» (Contra Iovin.).

Não menos energicamente se exprime São Basílio: «A incontinência brota publicamente, como de sua fonte natural, do vinho; por ele estimulada, adquire tal força que se lança em loucuras e furores piores do que todos os que podem cometer os animais irracionais mais lascivos… A embriaguez é o fomento da luxúria, o alimento da volúpia, a peste da juventude, o veneno da alma, a ruína das virtudes… O fogo que o vinho leva às veias transforma-se em uma fornalha de setas ardentes a serviço do demônio; o vinho produz nas paixões o mesmo efeito que o óleo produz sobre a chama (24)». A mesma expressão emprega São Bernardo: «A embriaguez alimenta a chama da fornicação» (Epist.); e Santo Agostinho a define: «Torpeza dos costumes, desonra da vida, opróbrio da honestidade, corrupção da alma (25)». Finalmente, Santo Ambrósio diz: «Pelos olhos entra a luxúria no coração; pela embriaguez ela se inflama; esta é o fomento da libido, pelo qual o espírito se incendeia e a alma arde. Com efeito, o embriagado, quente por si mesmo e aquecido pelo ardente vapor do vinho, não pode conter-se e torna-se joguete de desejos bestiais (26)». Em outro lugar, o mesmo Santo chama-a de naufrágio da castidade e incentivo à libido (De Elia et ieiunio).

5. A EMBRIAGUEZ É FONTE DE TODO VÍCIO

«Mãe de todas as virtudes é a sobriedade, diz Orígenes; e, ao contrário, mãe de todos os vícios é a embriaguez» (Homil. 3, in Levit.). São João Crisóstomo escreve que «ninguém é tão íntimo e caro amigo do demônio quanto aquele que se entrega à embriaguez, porque esta paixão é a fonte, a mãe e o princípio de todos os vícios (27)». Não falam de modo diferente Santo Ambrósio e Santo Agostinho: aquele chama-a arsenal de todas as paixões (De Elia et ieiun.), mãe de toda espécie de delitos, tempestade da carne, naufrágio da castidade (28); este vê nela a fonte de todos os crimes, a matéria das culpas, a raiz dos delitos, a origem de todos os vícios (29). O vinho conduz à orgia; a orgia, à fornicação; a fornicação, à perda da fé e da religião; a perda da fé, à apostasia; a apostasia, à perda eterna de Deus e da alma: de modo que devemos concordar com Ponciano em chamar a embriaguez de «metrópole de todos os males» (De ebriet.); e qualificá-la, com São Basílio, como «um demônio introduzido voluntariamente, por meio do prazer, na alma; mãe da malícia, inimiga jurada da virtude (30)».

6. CASTIGOS DA EMBRIAGUEZ

Noé embriaga-se, e eis que seu filho Cam o insulta e o pune com amarga zombaria. Sansão embriagado é entregue por Dalila aos inimigos que, depois de lhe arrancarem os olhos, condenam-no a girar uma mó, como um jumento. Holofernes adormece embriagado, e Judite lhe corta a cabeça. Baltasar vê, em meio às ânforas e aos cálices, uma mão que escreve sua sentença de morte, e do banquete passa ao sepulcro. Os filhos de Jó são esmagados sob a casa, que desaba sobre eles enquanto festejam. Herodes, embriagado, ordena a decapitação de João Batista e também é atingido por uma morte cruel. O rico banqueteador do Evangelho, amigo da mesa, é precipitado no inferno e não pode, diz São João Crisóstomo, obter depois desta vida nem sequer uma gota de água (31). Amã, observa Santo Ambrósio, em meio aos vinhos de um esplêndido banquete, paga o preço de sua embriaguez (32). Como é verdadeiro aquilo que diz São Basílio! «O embriagado é absorvido enquanto julga absorver. Com efeito, assim como o peixe, quando se lança avidamente ao anzol, apressa-se a engolir a isca e encontra naquele instante o inimigo entre as fauces, assim o embriagado engole com o vinho o seu inimigo, que o impele a todo excesso mais vil e vergonhoso, de tal modo que pode ser comparado a um possesso, com esta diferença: os possessos são atormentados pelo demônio contra a sua vontade; ao contrário, o embriagado é atormentado, aviltado e maltratado pela embriaguez porque assim lhe agrada (33)».

Diz o Sábio: «Para quem são os ais? Para quem as rixas? Para quem as armadilhas? Para quem as feridas sem motivo? Para quem o olhar sanguinolento e ardente? Não são porventura para aqueles que se deleitam no vinho e se comprazem em esvaziar taças?» (Pr 23,29-30). Ah! Portanto, «não provoqueis a beber aqueles que gostam do vinho, porque o vinho fez muitas vítimas» (Eclo 31,30). É justo juízo de Deus que os bens por Ele concedidos para nosso uso e nossa santificação se voltem para nosso dano e castigo, se deles abusarmos; de modo que encontramos nossos perseguidores e algozes naqueles que fizemos nossos ídolos. Tal é o vinho; tais são as honras, os tesouros, os prazeres; tais são as criaturas animadas nas quais depositamos excessiva complacência.

Enfraquecer, por vontade deliberada, a saúde e a vida; perder a razão, a honra, a tranquilidade, a fortuna, a alma, o céu, Deus etc.: não são porventura espantosos todos esses castigos que se precipitam sobre o beberrão? Não é talvez um castigo terrível assemelhar-se, ou antes, tornar-se inferior ao bruto, ao animal; despertar em nós as mais vis inclinações, sem poder nem querer vencê-las? Não é horrendo castigo beber do cálice da ira de Deus, embriagar-se com o vinho da angústia, da perplexidade, da ignomínia, da confusão; colocar-se na condição de não mais se arrepender, de não mais receber os sacramentos, de não mais obter misericórdia? Pode-se imaginar estado mais deplorável e mais espantoso para a eternidade? Ora, o embriagado expõe-se a todas essas desgraças, a todos esses castigos; ordinariamente, ele os atrai sobre si, sempre os merece… Ao beberrão, mais especialmente que a qualquer outro pecador, está reservado aquele castigo descrito no Apocalipse: «Beberá do vinho puro da cólera de Deus, que está preparado no cálice de sua vingança; e será atormentado no fogo e no enxofre; e o fogo de seus tormentos subirá pelos séculos dos séculos, e não terá repouso nem de dia nem de noite» (Ap 14, 10-11).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.