Tesouro n.º 204 · Volume III

TRADIÇÃO TRADIZIONE

1 seção · 9 parágrafos · pp. 2310–2314 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. TRADIÇÃO

No mundo cristão há uma verdadeira fé, isto é, uma fé divina, fundada na palavra de Deus contida nos dois Testamentos. Mas há ainda, diz o Padre Campion (Méthode pour discerner, etc.), uma palavra de Deus não escrita, à qual se dá o nome de tradições divinas e apostólicas, ou simplesmente de Tradição. De qualquer modo que Deus se manifeste, Ele tem sempre a mesma autoridade. Antes de Moisés não havia palavra de Deus escrita. Durante mais de dois mil anos, os verdadeiros fiéis conservaram-se na verdadeira religião somente por meio das tradições. Os próprios Apóstolos pregaram o Evangelho antes que ele fosse escrito. Por isso, São Paulo dizia aos Tessalonicenses: «Meus irmãos, observai as tradições que aprendestes, seja de nossas palavras, seja de nossas cartas» (2Ts 2,14). Aquilo que pregava oralmente não tinha menos força nem menor autoridade que aquilo que ensinava por escrito; e não se pode negar que muitas coisas foram reveladas, as quais não se encontram na Escritura, e que, todavia, nós devemos crer; por exemplo, que os quatro Evangelhos, que as quatorze Epístolas de São Paulo, que as três de São João com o seu Apocalipse foram inspirados pelo Espírito Santo. Católicos e protestantes estão de acordo neste ponto. Ora, se os protestantes creem nisso como fé divina, é preciso que Deus tenha revelado que todos esses livros são divinos. Posto isso, digam-me os protestantes: onde se encontra essa revelação? É certo que ela não se encontra na Sagrada Escritura, pois não há lugar algum em toda a Bíblia em que se faça a enumeração dos livros canônicos. Mas, se esse catálogo dos livros santos não se encontra na Bíblia, como certamente não se encontra, é absolutamente necessário admitir uma palavra de Deus não escrita, que é a tradição; pois essa revelação sobre a qual se apoia a fé, mediante a qual cremos que a Bíblia é um livro divino e que é palavra de Deus, é uma verdade divina e, segundo o parecer dos protestantes, o fundamento de todos os demais pontos da fé.

Esta é a razão pela qual a Igreja católica, apostólica, romana sempre reconheceu e admitiu uma palavra de Deus não escrita. Já em seu tempo, São João Crisóstomo fazia notar como do texto de São Paulo em sua segunda epístola aos Tessalonicenses se seguia claramente que os Apóstolos ensinaram muitas coisas que não se encontram na Escritura, e às quais somos obrigados a prestar a mesma fé que às coisas escritas (1). Segundo Orígenes, a doutrina das tradições, pela qual sabemos que não há senão quatro Evangelhos e com base na qual cremos nos outros livros canônicos, tem como defensores, testemunhas e arautos todos os santos Padres e Doutores. É muito conhecida de todos aquela célebre declaração de Santo Agostinho: «Eu não creria no Evangelho, se a isso não me levasse a autoridade da Igreja católica (2)». O mesmo Doutor diz em outro lugar: «Os ilustres Pontífices de Deus conservaram exatamente aquilo que encontraram na Igreja; ensinaram fielmente o que haviam aprendido; entregaram religiosamente aos filhos aquilo que receberam dos pais (3)». Daí aquela máxima do Lerinense: «É preciso cuidar diligentemente para que na Igreja católica se conserve aquilo que sempre, em toda parte e por todos foi crido (4)». Com efeito, já observava São Jerônimo: Não é a Escritura, mas a tradição que ensina à Igreja que se deve batizar as crianças e não rebatizar os hereges que retornam à Igreja; que, em lugar do sábado, se deve celebrar o domingo. A Quaresma é de instituição apostólica (Epist. 54, ad Marc.). Os protestantes creem, assim como os católicos, contra Nestório, que em Jesus Cristo há uma só pessoa, que é a pessoa divina, e não duas, como insensatamente pretendia aquele heresiarca; creem, como nós, que em Jesus Cristo há duas naturezas, a divina e a humana, e não uma só, como sustentava Eutiques. Ora, estes dois artigos capitais da fé não se encontram claramente expressos no Evangelho: nós os admitimos com base nas decisões dos concílios, os quais os haviam aprendido da tradição apostólica, isto é, da palavra de Deus transmitida aos Apóstolos e, por estes, à Igreja.

Além disso, não somente na passagem citada da epístola aos Tessalonicenses, mas também em outros lugares, São Paulo ordena expressamente que se observem as tradições. Na mesma epístola, por exemplo, no capítulo III, escreve-lhes: «Nós vos ordenamos, irmãos, em nome de Jesus Cristo, que vos aparteis daqueles dentre os nossos irmãos que vivem de modo desregrado e não segundo a tradição que receberam de nós» (2Ts 3,6). Ao discípulo Timóteo dizia: «Quanto a ti, conheces a minha doutrina, a minha conduta, o meu propósito, a minha fé etc. Permanece, pois, firme naquilo que aprendeste e que te foi confiado, sabendo muito bem de quem o aprendeste» (2Tm 3,10-14). São Paulo não fala de doutrina que lhe tenha sido transmitida por escrito, mas de doutrina que lhe foi ensinada e confiada, isto é, dada oralmente e por tradição. «Conforma-te — repete-lhe outra vez — às sãs palavras que ouviste de mim, na fé e no amor em Jesus Cristo… E aquilo que de mim ouviste na presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis, os quais serão também capazes de instruir os outros» (Ibid. 1,13; 2,2).

Vemos que o Apóstolo põe no mesmo nível as verdades que ensinou em seus discursos e aquelas que traçou em seus escritos; e umas e outras formam o depósito que confiava a Timóteo, ordenando-lhe que o transmitisse àqueles que fossem capazes de ensinar. De tudo isso, que é incontestável, tiramos duas consequências.

A primeira é que, se os protestantes rejeitam as tradições da Igreja, devem rejeitar também o Novo Testamento, que admite essas tradições como fontes puras; mais ainda, que rejeitem toda a Bíblia, porque ela chegou até nós, através dos séculos, por nenhuma outra via senão a da tradição. A religião, quer escrita quer oral, não é porventura sempre a mesma religião? E, se a religião transmitida pela tradição pode correr o risco de ser alterada, não pode igualmente sê-lo a religião escrita? Ainda que não existisse uma só sílaba da Escritura, a verdadeira religião não deixaria, por isso, de subsistir e de perpetuar-se, como se manteve ao longo de dois mil anos, desde Adão até Moisés; e a religião cristã também, no princípio, manteve-se e difundiu-se desse modo, em toda a sua pureza, durante alguns anos, pois o Novo Testamento ainda não estava escrito, e o Antigo ainda não havia sido difundido por todos os lugares onde se encontravam fiéis.

A segunda consequência é que Deus teve necessariamente de estabelecer um juiz de sua palavra, quer escrita quer não escrita, para pôr fim às dificuldades que poderiam surgir quanto ao número dos livros sagrados, quanto à fidelidade das traduções, quanto ao sentido dos textos e quanto à tradição; e que esse juiz deve ser vivo, falante, perpétuo, infalível, inspirado e dirigido pelo Espírito Santo, para tornar certa a nossa fé (5).

Aquilo que até o presente havia sido um sentimento, não digo comum, mas universal na Igreja de Jesus Cristo, posto em dúvida, adulterado e deturpado recentemente por alguns jansenistas, foi finalmente professado em termos claros, declarado e promulgado como dogma católico, cuja contradição é heresia, pelo santo Concílio Ecumênico Vaticano I, reunido em Roma pelo Papa Pio IX no dia 8 de dezembro de 1869. Com efeito, ao final do Capítulo IV da Constituição dogmática — De Ecclesia Christi — votada na IV Sessão pública, realizada em 18 de julho de 1870, com a presença de 535 Padres, lê-se o seguinte:

[omitido — em latim]

Portanto, o sagrado Concílio, atendo-se à tradição que chegou até nós desde os primeiros séculos da Igreja, ensina e define ser dogma divinamente revelado que o Romano Pontífice, quando declara falar na qualidade de Pastor e Doutor de todos os cristãos e, em virtude de sua suprema autoridade apostólica, define alguma doutrina pertencente à fé e aos costumes, propondo-a para ser crida por toda a Igreja, goza, em virtude da assistência divina que lhe foi prometida na pessoa de Pedro, da mesma infalibilidade de que o divino Redentor dotou a sua Igreja; de modo que tais definições são irreformáveis por si mesmas, sem que haja necessidade da confirmação de algum concílio ou da aceitação da Igreja.

Notas

  1. A razão e a autoridade, a história e a tradição proclamam a uma só voz que este juiz vivo, perpétuo, infalível e inapelável é a Igreja docente, porque dela foi dito por Aquele que não pode mentir nem faltar à sua palavra: «As forças do inferno não prevalecerão contra ela» (Mt 16, 18). Ora, como a cabeça, a boca e o órgão deste corpo chamado Igreja é uma parte dela tão eminente, substancial e necessária que, segundo a sentença dos santos Padres, com ela se identifica, e onde ele se encontra, encontra-se toda e somente a verdadeira Igreja (S. Ambros.), por isso o bom senso do povo fiel e a sã doutrina dos luminares do Cristianismo foram sempre unânimes em atribuir ao Romano Pontífice, como sucessor do Bem-aventurado Apóstolo Pedro e, portanto, cabeça e fundamento da Igreja, a mesma prerrogativa de infalibilidade de que esta é adornada; sustentado nesse sentimento pela palavra do Redentor, que, não contente de ter aludido indiretamente a esse sublime privilégio de Pedro, chamando-o e constituindo-o fundamento sobre o qual fundaria a sua Igreja (Mt 16, 18), atribuiu-lho abertamente quando lhe assegurou que havia rogado por ele individual e pessoalmente, para que sua fé jamais desfalecesse e que, em virtude dessa sua oração, a fé dele se mantivesse em todo tempo tão firme, tão pura e tão viva que fosse capaz de consolidar, purificar e vivificar a fé de todo o corpo (Lc 22, 32).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.