Tesouro n.º 203 · Volume III

TEMOR DE DEUS TIMOR DI DIO

4 seções · 37 parágrafos · pp. 2298–2310 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. É PRECISO TEMER A DEUS

«Temei o Senhor com toda a vossa alma», diz o Eclesiástico (Eclo 7, 31). «Ouçamos todos, diz o Eclesiastes, o fim de todo discurso: temei o Senhor e observai os seus mandamentos, porque nisso consiste o homem todo» (Ecl 12, 13). «Temei o Senhor, vós todos os seus santos» (Sl 33, 10). Se Deus impõe aos justos o dever de temê-lo, de que temor não devem estar possuídos os pecadores! Portanto, «temei o Senhor, vosso Deus» (2Rs 17, 3-9); «e operai a vossa salvação com temor e tremor» (Fl 2, 12). Que não seja um temor fugaz, instável e transitório, mas firme, contínuo e profundamente arraigado (Eclo 2, 6).

Os principais motivos que nos obrigam a temer o Senhor são: 1° Nossos muitos pecados. «Quem pode compreender todos os desvios do coração humano? exclama o Profeta: Purifica-me, Senhor, dos pecados que ignoro e daqueles que os outros cometeram por minha culpa» (Sl 18, 13-14).

2° A incerteza em que nos encontramos quanto ao estado de nossa alma: com efeito, o homem não sabe se merece amor ou ódio (Ecl 9, 1); e, se aquele vaso de eleição que era São Paulo dizia, tremendo: «Embora minha consciência de nada me acuse, nem por isso estou justificado» (1Cor 4, 4), quem terá coragem de afirmar: «Tenho o coração puro e estou isento de pecados»? (Pr 20, 9). Sabemos com certeza que pecamos, mas não temos certeza de que fomos perdoados… Temos certeza de que nossos pecados mereceram o inferno, mas ignoramos se nossa penitência o terá fechado… Que razão, pois, não temos para trabalhar por nossa salvação com temor e tremor? (Fl 2, 12). E, se isso é exigido por São Paulo, não é evidente que ninguém está absolutamente seguro e certo da graça e da perseverança?

«Como, diz São Basílio, a todos acontece faltar em muitas coisas, nem sequer conhecemos a maior parte dos nossos erros… Cometemos muitas culpas sem nos dar conta; portanto, jamais diremos mentira se nos chamarmos pecadores (1).» «Pobres de nós! exclama Santo Agostinho; em meio aos escolhos, às tempestades e às ondas do grande mar deste mundo, governamos nossa frágil nau, sem saber se aportaremos ao porto. Pobres de nós! repito: nossa vida transcorre no exílio, a viagem corre entre riscos, o fim permanece oculto na dúvida! (2)».

3° Deve-se temer também pelos pecados já perdoados. «Não fiqueis sem temor, diz o Sábio, por causa do pecado perdoado. — E não acrescenteis culpas a culpas, dizendo: A misericórdia do Senhor é grande, ele terá piedade das minhas muitas faltas; porque a sua misericórdia e a sua cólera se aproximam de nós num instante, e a sua vingança olha para os pecadores» (Eclo 5, 5-7). O Espírito Santo quer aqui inspirar também aos próprios justos um salutar temor, para que vivam sempre na humildade, na vigilância, no exercício da penitência e de todas as virtudes. «O Senhor não deixa, diz São Gregório, nenhum pecado sem castigo; pois ou nós o vingamos com o pranto, ou ele o reserva para o seu julgamento (3)».

4° É preciso temer, porque podemos cair. «Quem julga estar de pé, cuide para não cair», escreve São Paulo (1Cor 10, 12); e Santo Agostinho, para que nos mantenhamos humildes, adverte-nos de que não há pecado tão enorme cometido por um homem que outro homem não possa cometer, se for abandonado por Deus (De Charit.).

5° É preciso temer, porque ignoramos o momento da morte e de que morte morreremos. «O dia do Senhor chega como um ladrão durante a noite», diz São Paulo (1Ts 5, 2). «Virei quando menos o esperardes», diz Jesus Cristo (Lc 12, 40).

6° É preciso temer a Deus principalmente por causa das seduções da carne. «Traspassai, ó Senhor, a minha carne com o vosso temor» (Sl 118, 120). Muito mais temíveis são as insídias que os sentidos nos armam do que qualquer outro perigo. São Bernardo louva por sua prudência e salutar discernimento o Salmista que pede a Deus que lhe atravesse as carnes com as setas do seu temor; porque este temor é uma seta prodigiosa para traspassar mortalmente os desejos da carne. E São Paulo, que castiga e reduz o seu corpo à escravidão, não vos parece acaso, pergunta o mesmo Doutor, que ele próprio estenda a mão ao Senhor para que este o golpeie e atravesse? (4)».

7° É preciso temer o Senhor por causa dos seus juízos. «Os vossos juízos, ó meu Deus, diz Davi, enchem a minha alma de terror. Ah! por piedade, não entreis em juízo com o vosso servo, porque diante de vós nenhum homem vivo pode encontrar desculpa» (Sl 118,120; 142,2).

8° Finalmente, temos mil outros motivos para temer a Deus: 1) a incerteza da graça; nós a mereceremos? … 2) a nossa ignorância; vemos nós o fundo do nosso coração? … 3) os segredos impenetráveis de Deus; um orgulho interior, uma negligência, até mesmo um pecado venial podem ser causa de que Deus retire pouco a pouco de nós a sua graça e permita que caiamos em culpas graves, expondo-nos a perigos e tentações… 4) a nossa fragilidade e inconstância… 5) temos de lidar com inimigos péssimos, fortíssimos, astutissíssimos… 6) somos incertos quanto à nossa perseverança.

Quem, pois, não viverá no temor? Lúcifer, o anjo mais belo e mais sábio, estava no céu e dele caiu… Adão estava no paraíso terrestre, e caiu… Sansão, Davi, Salomão, São Pedro, Orígenes, Tertuliano e outros fiéis servos e amigos de Deus caíram… Quantos heresiarcas não eram, no princípio, modelos de virtude? … Quantos anacoretas de virtude consumadíssima não se desviaram? … Quantos confessores, quantos mártires, no momento de cingir a coroa, naufragaram? … Não faltaram aqueles que perseveraram na santidade até idade muito avançada, e depois mancharam a própria velhice, desonraram-se e se perderam… Quem, pois, não temerá cair? Se as árvores mais robustas foram abaladas pelo furacão e partidas pelo raio, que não devemos temer nós, frágeis caniços?

Contudo, jamais devemos desanimar, desesperar ou entregar-nos aos escrúpulos; pois, em vez de um remédio, encontraríamos nessa conduta um veneno. O temor de Deus é o caminho que conduz à salvação; o desânimo e o desespero são a via que leva ao inferno; os escrúpulos são o purgatório deste mundo. Este é o ensinamento de São Bernardo, que escreve: «O temor é o fundamento mais firme da esperança, porque o temor é um dom de Deus, que nos dirige e conduz à salvação; as graças recebidas por nós nos dão justo motivo para esperar os dons futuros; Deus se compraz naqueles que o temem e, assim como a nossa vida depende da sua vontade, a nossa salvação eterna depende do seu beneplácito (5)». Quase todos os que caíram devem atribuir a própria queda ou à presunção, ou à demasiada segurança, ou a um orgulho secreto; confiavam excessivamente na própria virtude e santidade.

2. VANTAGENS DO TEMOR DE DEUS

Lemos nos Atos dos Apóstolos que a Igreja de Deus se expandia, caminhando no temor de Deus (At 9,31). Este temor filial deve ser unido à caridade, ou melhor, ele mesmo é caridade; pois, assim como a caridade, não ama senão a Deus e evita acima de tudo ofendê-lo e desagradá-lo. «O amor e o temor de Deus conduzem o homem a toda boa obra, diz Santo Agostinho, enquanto o amor e o temor do mundo o precipitam em todo pecado. Para fazer o bem e evitar o mal, é preciso discernir aquilo que se deve amar e aquilo que se deve temer (6).» «O temor estimula, a caridade cura as feridas causadas pelo temor. É, pois, necessário que o temor entre primeiro num coração, para nele introduzir o amor. O temor é o remédio; a caridade é a cura. O temor é o servo da caridade e o guardião da lei, até a chegada do amor (7).» A mesma observação faz São Basílio sobre a função do temor no tocante à conversão e santificação do homem. Ele o chama de porteiro e introdutor necessário da piedade; a ele, porém, sucede prontamente o amor, que conduz à perfeição os filhos adotivos do Senhor (Homil. VIII in Psalm. XXXIII). Tertuliano assegura-nos que, onde há o temor de Deus, encontram-se gravidade conveniente, exatidão admirável, cuidado assíduo, escolha prudente, relações fruto da reflexão, elevação merecida, submissão religiosa, exterior piedoso, assembleia unida e todo bem de Deus (8)».

Mas consideremos mais de perto a excelência e a utilidade do temor de Deus, no sublime quadro que dele faz o Espírito Santo: «Deus glorifica aqueles que o temem» (Sl 14,4). «Qual é o homem que teme o Senhor? Deus o guiará pelo caminho que empreendeu; sua alma gozará em paz de todos os bens, e sua posteridade terá a terra por herança; porque o Senhor é o amparo daqueles que o temem e lhes manifesta a sua aliança» (Sl 24, 12-14). «Os olhos do Senhor repousam sobre aqueles que o temem; ele livrará a alma deles da morte e os alimentará no tempo da fome. Temei o Senhor, vós que sois seus Santos; pois nada falta àqueles que o temem» (Sl 32, 18-19; 33,10).

«No segredo do seu coração, o ímpio tomou coragem para fazer o mal; porque não tem diante dos olhos o temor de Deus» (Sl 35,1). O Profeta alude aqui às duas primeiras raízes do pecado: uma está na vontade, que decidiu fazer o mal; a outra, na inteligência, que perde de vista o temor de Deus. Quem teme um homem não ousa fazer o mal em sua presença; quem teme a Deus não ousa afagar o pecado em seu coração, porque Deus é o escrutador dos pensamentos. Por isso, «o princípio da sabedoria é o temor de Deus, e a salvação do Senhor está próxima daqueles que o temem. Ele lhes prodigaliza os tesouros da sua misericórdia, e esta repousa sobre eles eternamente. Neles se compraz, abençoa-os; cumpre a vontade deles, atende às suas orações e lhes assegura a salvação» (Sl 110,10; 84,10; 102, 11, 17; 144,19).

Todos os bens imagináveis, todos os deveres, toda a felicidade, toda a perfeição, em suma, o princípio e o fim do homem estão, como ensina o Espírito Santo, no temor de Deus e na observância de seus mandamentos (Ecl 12,13); porque, como dizia Samuel aos hebreus, damos prova de temer a Deus, se o seguimos (1Sm 12,14). E quem assim o teme tem, para seu consolo, a garantia dele de que o livrará das mãos de todos os seus inimigos (2Rs 17,39). E, com efeito, lemos no Êxodo que Deus fez prosperar as casas das parteiras egípcias, porque haviam temido o Senhor (Ex 1,21). E de Judite lemos que gozava de grande fama, porque temia muito o Senhor (Jt 8,8); e ela mesma dizia: «Aqueles que vos temem, ó Senhor, serão grandes em todas as coisas, aos vossos olhos» (Ibid. 16,19). Por isso, Santo Ambrósio sentencia que «o temor de Deus expulsa de nós todo terror hostil (9)», e São João Crisóstomo diz: «Não há mal que não seja destruído pelo temor de Deus. O fogo que envolve um ferro enferrujado purifica-o, limpa-o e torna-o brilhante; assim também o temor de Deus, em pouquíssimo tempo, leva a bom termo toda empresa; aqueles que dele estão penetrados tornam-se invencíveis (10)».

Verdadeiro modelo do homem temente a Deus, Tobias não se afligiu de modo algum nem murmurou contra o Senhor por tê-lo privado da vista, mas permaneceu firme no temor de Deus, dando-lhe graças por todos os dias de sua vida; e recomendava ao filho que não temesse coisa alguma, porque, embora vivessem pobremente, seriam muito ricos enquanto temessem o Senhor (Tb 4,23).

«Quem caminha pela estrada reta teme o Senhor», dizem os Provérbios (14,2); este temor salutar jamais o deixa desviar-se do caminho da justiça, que agrada a Deus. Ao contrário, quem caminha pela estrada da iniquidade põe o temor de Deus atrás das costas e, sacudindo de si esse temor, cai pouco a pouco em todo delito, porque rompeu o mais poderoso dos freios. A vida que o homem leva indica se ele teme ou despreza a Deus; a virtude gera o temor e leva a servir a Deus; o vício gera o desprezo de Deus, da religião e da piedade… «O homem», escreve Santo Agostinho, «começa por temer o dia do juízo; esse temor o leva a corrigir-se de seus vícios, torna-o vigilante contra seus inimigos, faz que evite o pecado, restitui-lhe a vida interior e o induz a mortificar sua carne (11)».

«O temor do Senhor é um elemento de força», lemos ainda nos Provérbios (14,26). Aqueles que temem a Deus são fortes, corajosos, heroicos, porque depositam toda a sua confiança no Onipotente. Sabendo que estão nas mãos benfazejas e no coração de Deus, não temem coisa alguma; superam generosamente todas as tentações, tribulações, perseguições e contrariedades, porque neles o temor de Deus domina todos os outros temores, assim como a luz do sol supera e eclipsa todas as outras luzes. Dizem eles com São Paulo: «Se Deus é por nós, quem será contra nós?» (Rm 8,31). Quem quiser vencer-nos comece por vencer o próprio Deus, porque Deus é nosso protetor. Este é o sentimento do Papa São Gregório: «Na estrada do Senhor», diz ele, «parte-se do temor para chegar a uma fortaleza invencível. No caminho do século, a audácia produz a força; no caminho do Senhor, produz a fraqueza. Naquele, o temor gera a debilidade; neste, do temor nasce a força. Enquanto permanecemos unidos, por meio de um temor reto, ao Criador de todas as coisas, gozamos de certo poder que nos faz dominar sobre todas as coisas (12)».

Aqueles que temem o Senhor respeitam-no; caminham solícitos em sua presença, esforçando-se por agradar-lhe em todas as coisas e acautelando-se de ofendê-lo ainda que levemente. O temor de Deus fez que tantos mártires alcançassem esplêndidas coroas…, povoou de anjos terrestres as solidões…, conduz miríades de virgens ao retiro do claustro…, torna, de um lado, os pais vigilantes e exemplares e, de outro, os filhos humildes, submissos e respeitosos…, faz evitar o pecado e as más companhias e praticar a virtude… O temor de Deus fecha o inferno, abre o paraíso…, de um réprobo forma um santo; de um demônio, um anjo. Ao contrário, por falta do temor de Deus, um santo se torna réprobo, um eleito transforma-se em demônio.

O temor de Deus é, como diz o Sábio, a fonte da vida que preserva dos ataques da morte (Pr 14,27). Com efeito, o temor de Deus é como uma fonte inesgotável da qual brotam as águas da vida da graça, das virtudes, da salvação e da glória eterna; ele nos livra das ciladas da morte, isto é, do demônio, do mundo, da concupiscência… Aqueles que temem o Senhor assemelham-se às pombas que permanecem junto aos lagos e às fontes límpidas, para que, vendo nesse espelho a imagem da ave de rapina, possam, a tempo, subtrair-se à morte; jamais perdem de vista nem o temor nem a lei de Deus, na qual se retratam não somente os pecados, o demônio e o inferno, mas até mesmo as sombras deles; e, tão logo esses inimigos aparecem, fogem e vão refugiar-se nos braços do Senhor.

Outra sentença do Espírito Santo é esta: «É melhor possuir pouco com o temor de Deus do que grandes tesouros com perturbação» (Pr 15,16). As razões disso são:

1° Assim como o temor de Deus vale mais do que todos os tesouros, também aquele que o possui é, na realidade, mais rico do que os que acumulam ouro e prata. São João Crisóstomo pregava: «Tende o temor de Deus, e nada vos será desagradável: nem a pobreza, nem a doença, nem a prisão, nem a servidão, nem qualquer outra aflição; antes, essas contrariedades se transformarão para vós em motivos de alegria. A pobreza vos será mais conveniente do que as riquezas, a doença vos tornará mais robustos do que a saúde, a prisão e a servidão vos serão mais gloriosas e mais doces do que a liberdade (13)». E de onde tira o temor de Deus essa força para destruir o mal? Do fato, responde o Doutor citado, de que o temor de Deus arranca do nosso coração as paixões (Homil. in Epl. ad Hebr.). É certo que as paixões são a raiz de todos os males. Ora, ninguém melhor do que o temor de Deus pode arrancar essa raiz; e então os males se convertem em bens, a pobreza se torna riqueza, a doença, saúde, a escravidão, liberdade.

2° O temor de Deus é mais precioso do que muitos tesouros, porque torna o espírito tranquilo e nos faz contentes com o estado em que Deus nos colocou; ora, quem não preferirá esta tranquilidade, este repouso, este contentamento da alma às perturbações e agitações que as riquezas necessariamente trazem consigo?

3° O temor de Deus enche e sacia a alma, porque a une a Deus; e que mais resta ainda a desejar àquele que possui a Deus? Pelo contrário, o que poderá jamais bastar ao homem a quem Deus não basta?

4° As riquezas exigem cuidados, solicitudes, trabalhos e fadigas; geram contrariedades, inquietações, tristezas e contendas; o temor de Deus produz efeitos inteiramente diversos.

5° Para quem teme a Deus, aquilo pouco que possui é muito mais útil do que os muitos tesouros para quem não tem o temor de Deus. Somente as riquezas que vêm de Deus são duradouras e sólidas.

6° Quem possui pouco, mas tem o temor de Deus, é modesto, humilde, sóbrio… «Todo homem que teme a Deus evita o pecado», diz o Sábio (Pr 15,27); «aprende a sabedoria» (Ibid. 33); «chega à vida» — Timor Domini ad vitam (Id. 19,23). Sim, o temor de Deus é fonte de vida, porque, reprimindo com severa disciplina os vícios, nos adestra à verdadeira sabedoria, isto é, à virtude na qual se encontram a dignidade e a suprema glória do homem. «Eu pude verificar por experiência, diz São Bernardo, que nada tanto ajuda e aproveita para merecer, conservar e recuperar a graça de Deus quanto o baixo conceito de si mesmo e o temor de Deus (14)». O temor de Deus é rico e precioso colar ao pescoço do homem, diadema real e coroa de vencedor sobre sua cabeça; o homem que teme a Deus reina sobre seus inimigos, triunfa do pecado, do mundo, da carne e de Satanás. São João Crisóstomo diz: «Se há em nós o temor de Deus, não precisamos mais de coisa alguma; se, porém, não o temos, somos os mais miseráveis dos homens, ainda que possuamos um reino. Quem teme a Deus nada tem a temer, porque o temor de Deus supera todas as coisas; possuamo-lo, pois, e procuremos adquiri-lo por todos os meios. Ele é um muro, uma fortaleza, uma torre inexpugnável; e nós precisamos de poderosa defesa, tão numerosas são as ciladas e as emboscadas que, de todos os lados, nos são armadas! (15)».

O temor de Deus deve ser um temor filial, e não servil… São Bernardo, escrevendo a Oggero, dizia-lhe: O temor que procuro inspirar-vos não é aquele que conduz ao desespero, mas o que dá a esperança da bem-aventurança. O temor que não merece o perdão, porque não o procura, é um temor inútil, cruel, que produz tristeza; o verdadeiro temor, ao contrário, é piedoso, humilde, vantajoso, invoca a misericórdia sobre qualquer pecador, por mais culpado que seja; gera e alimenta a humildade, a doçura, a paciência, a longanimidade; e quem não se alegraria com uma família assim? De família inteiramente diversa se cerca o outro temor, que leva ao desespero; ele produz o tédio, a melancolia desmedida, o desânimo, o desgosto, o desprezo e o desespero. Por recear que não tenhais esse temor que inspira confiança, ou que o tenhais em medida demasiado pequena, julguei conveniente fazer-vos apagar a vossa culpa, recordando-vo-la.

O temor é, segundo Santo Agostinho, a primeira das virtudes que se apoderam da alma, mas não permanece nela, porque entrou somente para introduzir o amor. Aquele prepara o lugar e, quando este começa a reinar, o temor se retira, tendo terminado o seu ofício. O temor diminui à medida que cresce o amor; e quanto mais interior e sólida é a caridade, tanto mais o temor se afasta. Quanto maior é o amor de Deus, tanto mais fraco se torna o temor; quanto mais débil é o primeiro, tanto mais forte é o segundo. Onde o temor é nulo, a caridade não tem lugar (De Civit. Dei). Dessas palavras de Santo Agostinho se conclui que, quanto mais o homem ama a Deus, menos o teme, isto é, teme os seus juízos; pois, nesse caso, a alma, estreitamente unida a Deus pelo amor, recebe certa segurança da própria salvação. Mas quanto mais uma alma ama a Deus, tanto mais teme e foge do pecado; e, nesse sentido, a caridade não somente não diminui o temor, mas o aumenta. O temor essencial é o do pecado. São Tomás faz eco ao grande Bispo de Hipona, dizendo: «Quanto mais se ama a Deus, menos se teme o castigo (16)».

O temor de Deus arranca os vícios pela raiz e destrói as paixões. «Onde não reina o temor de Deus, observa o Venerável Beda, domina o pecado; mas onde há o temor de Deus, há o reino de Deus e da santidade (17)». «Vede, diz São Bernardo, que, assim como a confiança excessiva é origem e mãe de todos os pecados, assim o temor de Deus é raiz e guardião de todos os bens. Por isso está escrito que, se não vos mantiverdes continuamente no temor de Deus, a vossa casa logo ficará arruinada: com efeito, todo o edifício das virtudes desmorona se perde o apoio desta graça (18)».

Diz ainda o Espírito Santo: «Conservai-vos no temor de Deus e envelhecei nele. Vós que temeis o Senhor, esperai na sua misericórdia. Vós que temeis o Senhor, crede nele, e a vossa recompensa não se perderá; esperai nele, e a sua misericórdia vos cumulará de alegria; amai-a, e os vossos corações serão inundados de luz. Aqueles que temem o Senhor não serão incrédulos à sua palavra; procurarão o que lhe agrada; prepararão os seus corações e santificarão as suas almas na sua presença» (Pr 2,6-20); prepararão os seus corações humilhando-se, desapegando-se e purificando-se dos desejos terrenos, rezando e desejando receber as luzes, as inspirações e os dons de Deus. «Aqueles que temem o Senhor observarão os seus mandamentos e conservarão a paciência até o dia do juízo» (Ibid. 21). Nestas sentenças são indicados seis principais efeitos do temor de Deus: conserva: 1° a fé; 2° a esperança; 3° a caridade; 4° faz observar a lei; 5° leva o homem a tornar-se agradável a Deus; 6° assegura-lhe a perseverança no bem até a morte. O temor de Deus não cessa de refrear as más tendências; destrói a falsa confiança; inspira o desejo da salvação; enfraquece o orgulho; alimenta a humildade; aumenta a caridade; multiplica as virtudes. A primeira das graças, escreve São Bernardo, é o temor de Deus; quem o acolhe em si e escuta os seus conselhos detesta todo pecado, pois está escrito: «O temor do Senhor odeia o mal»; e ainda: «Temei o Senhor e afastai-vos do mal». Lemos acerca de Jó que era homem temente a Deus e afastado do mal. Sem esta graça, que é o princípio da piedade, não há bem que germine, crie raízes e se multiplique (De Don. Spir. S. c. I). «Quem teme o Senhor, diz Santo Efrém (19), está sempre vigilante e sóbrio. Nada negligencia para não ofender a Deus: aprova, empreende e realiza tudo quanto sabe ser agradável ao seu Senhor».

«O temor de Deus encerra em si toda a sabedoria, diz o Eclesiástico, e não há coisa melhor que o temor de Deus» (Eclo 19,18; 23,37). «Grande é aquele que encontrou a sabedoria e a ciência; mas não é maior que o homem que teme o Senhor» (Id. 25,13). «O temor do Senhor vence todo outro bem» (Id. 25,14). O temor de Deus é uma gema preciosíssima, é o ornamento e a beleza do homem: é o último grau da sabedoria e da ciência. É o cumprimento, a coroa, o brilho, o guia e o rei de todas as virtudes; sem ele, o homem só pode errar, enfraquecer-se e cair na lama dos vícios e das paixões. «O mal não atingirá aquele que teme o Senhor; mas, na tentação, Deus o conservará e o livrará do mal» (Ib. 1). Deus o livrará do mal, isto é, do pecado e das penas, consequência do pecado. O temor de Deus faz evitar as culpas, principalmente as graves, e preserva, de certo modo, das penas que são consequência do pecado; pois, para o homem que teme a Deus, essas penas já não são um mal, mas um ganho. Assim pensavam os mártires e os confessores. As penas, efeito do pecado, são de tal modo adoçadas pelo temor e pelo amor de Deus que se transformam em delícias. O mal não atingirá o homem temente a Deus, isto é, os males eternos não serão a sua herança, pois não há outro verdadeiro mal senão o mal eterno, nem outros verdadeiros bens senão os eternos.

Eis o que o Senhor promete ainda àqueles que têm o seu santo temor: «O sol da justiça se levantará sobre aqueles que temem o meu nome, e eles encontrarão a salvação à sombra das suas asas; calcarão aos pés os ímpios, quando estes forem cinza sob os seus pés» (Ml 4,2-3). O temor de Deus, em outro lugar da Escritura, é comparado a um paraíso de bênção, cheio de uma glória que supera toda outra glória (Eclo 40,28). Estas expressões significam que Deus abençoa aquele que o teme, cumula-o de favores, carícias e toda sorte de bens, adorna-o e o enriquece esplendidamente. Por isso, com belíssima imagem, São Gregório Papa chamou o temor de âncora do coração (Mor. 1. 6, C. XXVII); São Jerônimo viu nele o guardião das virtudes (Ad Fabiol, De XLII Mans.); e Tertuliano, «o fundamento da salvação: porque, temendo, mantemo-nos em guarda e, vigiando, chegaremos à salvação (20)». Retirai o temor, e vereis os homens, feitos semelhantes a loucos furiosos, romper todo freio às inclinações perversas e precipitar-se no abismo de crimes horrendos.

3. FELICIDADE QUE O TEMOR DE DEUS PROPORCIONA

«Quão grandes, exclamava Davi, quão suaves e numerosos são, ó Senhor, os bens que tendes reservado para aqueles que vos temem!» (Sl 30,20). «Bem-aventurado o homem que teme o Senhor; ele se alegrará em cumprir os seus mandamentos. Poderosa será sobre a terra a sua descendência, e bendita pelo Senhor será a sua estirpe. A glória e as riquezas abundarão em sua casa, e a sua justiça ressoará por todos os séculos» (Sl 21,1-3). «Felizes os que temem o Senhor, que caminham pelos seus caminhos!» (Sl 127,1). «Feliz o homem, repete o Sábio, a quem foi dado possuir o temor de Deus! Quem poderá comparar-se com ele?» (Eclo 25,15).

«O temor de Deus dá firmeza e estabilidade inalterável, diz São João Crisóstomo; proporciona tamanha alegria que nos torna insensíveis a todos os males; pois, temendo a Deus como se deve e confiando nele, adquire-se o próprio princípio da felicidade e a fonte de toda alegria (21)». São Hilarião, segundo o testemunho de São Jerônimo, dizia no momento da morte: Sai, que temes tu, minha alma? Já faz setenta anos que serves ao Senhor com temor; alegra-te. Com razão falava assim à sua alma, porque o Espírito Santo nos assegura que «quem teme a Deus terá felicidade no fim da vida» (Eclo 1,13). Encontrará o seu bem-estar e a tranquilidade no momento da morte e do juízo, no céu e por toda a eternidade. «Permaneçamos sempre no temor de Deus, e a esperança será a nossa porção no último dia, e a nossa felicidade jamais nos faltará» (Pr 23,17-18). «Bem-aventurado o homem que vive sempre no temor» (Ibid. 28,14). Este temor não somente não tira a segurança, mas antes a mantém e confirma; dá uma confiança inabalável, faz nascer a paz, a força e a alegria, segundo aquela outra sentença do Sábio: «O temor do Senhor é glória, triunfo, fonte de júbilo, coroa de alegria. O temor do Senhor alegra o coração, traz-lhe felicidade e longos dias» (Eclo 1,11-12). O temor de Deus é princípio de alegria, de felicidade e de glória na terra e no céu; conduz ao triunfo e torna invencível. Faz nascer a paz da consciência e inspira uma grande confiança em Deus, duas coisas que proporcionam a verdadeira felicidade; delas provêm as consolações da graça e as alegrias divinas.

4. MEIOS DE ADQUIRIR O TEMOR DE DEUS

Os meios para adquirir o temor de Deus são: 1° Estar sempre na presença de Deus… 2° Levar uma vida boa. «Por meio de uma vida boa, diz Santo Agostinho, adquirimos uma boa consciência, e, com uma boa consciência, não tememos os castigos. Aprenda, portanto, a temer agora aquele que não quer tremer de pavor um dia; aprenda a ser, por algum tempo, cheio de solicitude aquele que quer estar sempre seguro. O temor diminui tanto mais quanto mais se aproxima a pátria. Grande é o temor do viajante; menor, o daquele que já vê as muralhas da cidade santa; nulo, o daquele que já chegou a ela (22)». 3° «A sabedoria faz nascer o temor, a inteligência o ilumina, o conselho o dirige, a virtude o fortalece, a ciência o governa, a piedade o embeleza (23)»; este é o terceiro meio sugerido por Santo Ambrósio.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.