A verdadeira Igreja começa com Adão, porque Deus manifestou ao primeiro homem suas ordens e suas vontades. De Adão a Moisés houve uma revelação não escrita, uma tradição constante que transmitia, de século em século e de geração em geração, os preceitos do Senhor. Quem observar a longevidade dos homens daqueles primeiros tempos verá como era impossível que a revelação se extinguisse. Com efeito, Matusalém viveu trezentos anos com Adão; Lameque, filho de Matusalém e pai de Noé, também viveu mais de um século com Adão. Abraão viveu sessenta anos com Noé; depois vêm os patriarcas Isaac e Jacó, cujos doze filhos formam as doze tribos do povo de Deus…
No tempo de Moisés teve lugar a revelação escrita. Essa revelação, feita a Moisés sob os olhos de todo o povo hebreu e por ele escrita, foi transmitida intacta até Jesus Cristo. Nesse momento aparece o Evangelho, a mais sublime das revelações, que reúne a revelação primitiva, a revelação escrita por Moisés e a tradição não escrita, de modo que todos os séculos possuem essas três revelações que constituem a verdadeira Igreja.
A Igreja romana data sua existência desde Adão, porque declara crer e observar a lei natural, a lei revelada não escrita e a lei revelada a Moisés, em tudo o que têm de essencial.
O essencial da antiga lei consistia nos preceitos do Decálogo e no anúncio da vinda do Messias, que devia substituir as figuras pela realidade. Os preceitos cerimoniais e judiciais, bem como as purificações legais que formavam o conjunto das leis mosaicas, eram prescrições temporárias, que não deviam durar além da vinda do Messias, o qual devia aperfeiçoar essa lei, fazendo suceder a realidade às figuras, e os sacramentos aos ritos e às purificações. Aquilo, portanto, que havia de essencial na religião dos judeus perpetuou-se em Jesus Cristo, nos seus Apóstolos e nos sucessores dos Apóstolos, os quais se encontram unicamente na Igreja romana. E os judeus que viveram depois de Jesus Cristo até o presente foram e são desertores da religião judaica, porque não quiseram reconhecer o Messias, o que constituía o ponto capital de sua religião.
Mas essa lei natural, essa lei revelada não escrita, essa lei antiga revelada e escrita, essa lei evangélica, não formam senão uma só religião, proveniente de Deus desde a origem do mundo, de modo verdadeiramente um tanto imperfeito no princípio, mas por Ele aperfeiçoada ao longo dos séculos, mediante a revelação, de tempos em tempos, de novos mistérios aos homens, até que a levou à sua consumação final por meio de seu único Filho, Jesus Cristo Salvador, o qual é o centro de todos os séculos passados e futuros: o fim da lei (Rm 10, 4), segundo a expressão do Apóstolo.
Jesus Cristo tomou, por assim dizer, a antiga Igreja e a colocou na nova, substituindo a sinagoga pela Igreja católica, apostólica, romana. A Igreja antiga é uma só e mesma coisa com a Igreja nova; a Igreja dos judeus transformou-se na Igreja dos cristãos romanos.
Com efeito, os judeus, antes de Jesus Cristo, acreditavam no Messias que havia de vir; os judeus chamados por Jesus Cristo creram n’Ele, já vindo e presente; é, pois, a mesma Igreja, a mesma fé, a mesma esperança, a mesma caridade, a mesma justiça, a mesma glória, a mesma bem-aventurança; é o mesmo Jesus Cristo que governa e instrui a uma e outra, as justifica e as torna bem-aventuradas. Se os judeus modernos meditassem essas verdades, já não seriam judeus, mas cristãos.
Em toda seita, tudo é novo. Sabe-se muito bem, diz o Padre Campion (Metodo per discernere la vera religione), em que tempo, em que lugar, em que ano começou cada seita; sabe-se o nome de seu autor, de seus fautores e de seus primeiros partidários. Toda religião nova, precisamente por ser nova, é falsa.
Em vão os sectários procuram fazer remontar sua genealogia aos Apóstolos; são muitos os séculos nos quais não se encontra nenhum vestígio deles em parte alguma. Nunca se tinha ouvido mencionar semelhante espécie de religiões, nem adquiriram fama senão pelas espantosas dissensões e pelas terríveis perturbações que suscitaram na Igreja. Uma vez introduzida a corrupção dos costumes entre os católicos, a libertinagem do espírito segue-se à do coração. As pessoas dissolutas mudam de religião com a facilidade e a leviandade com que se mudam roupas e modas; a primeira religião torna-se para elas odiosa e intolerável, porque condena suas desordens. As novas religiões que afagam as paixões têm atrativos para os corações corrompidos, e tanto mais sedutores quanto trazem a máscara da reforma e da severidade: reforma e severidade que consistem em palavras, mas que, todavia, serviram muito bem a todos os heresiarcas para seduzir o povo. Com efeito, os inovadores vangloriam-se de ser discípulos novos, ou quase novos, ressuscitados por milagre das cinzas dos antigos profetas, dos discípulos de Lutero, de Calvino e também dos discípulos de Santo Agostinho; de fato, quem não sabe que Calvino se gloriava publicamente de ter a seu favor, em tudo, o santo bispo de Hipona? Mas, ainda que sejam especiosos os pretextos, austeras as máximas e severa a moral que esses homens difundem, desde que haja novidade em matéria de religião, há sinal de falsidade. Por mais que digam que sua doutrina não é nova, mas antiquíssima; por mais que, para dar-lhe aparência de antiguidade, procurem mascará-la com textos de Santo Agostinho, de São Próspero, dos antigos cânones e dos Padres da Igreja; permanece, contudo, sempre firme que todo partido que se obstina em discutir depois que a Igreja romana o condenou não é senão uma seita herética…
Todas as seitas saíram da Igreja romana por meio de separações escandalosas; mas esta não saiu de nenhuma outra, porque teve origem em Jesus Cristo e nos seus Apóstolos. Não se pode dizer que o papismo saiu da religião cristã dos primeiros quatro séculos, porque, para prová-lo, seria necessário provar que nos primeiros quatro séculos não houve Papas e que o papismo teve origem no quinto. Ora, é evidente, pelo testemunho de toda a história, que sempre houve Papas em todos os séculos. Os cristãos romanos foram, portanto, católicos e papistas, e existiram antes de toda heresia; tiveram seu berço em Roma, sob o pontificado de São Pedro, e, consequentemente, sua religião não saiu de nenhuma outra. Ao contrário, todos os heresiarcas, antes de sua revolta, foram católicos e papistas. Simão Mago, primeiro herege e heresiarca, tendo recebido o batismo, pertencia à religião de São Pedro, primeiro Papa constituído por Jesus Cristo. Simão era, portanto, papista antes de ser herege, e os papistas já existiam antes de Simão e, portanto, anteriormente a toda seita. Ário era sacerdote da Igreja romana; Nestório, bispo pertencente à Igreja romana; Lutero, monge na Igreja romana; Calvino, cônego, e Zuínglio, arquidiácono na Igreja romana, governada pelos Papas.
Antes que todos estes, assim como muitos outros chefes de partido, dessem origem às seitas que deles receberam o nome, eram todos papistas, todos sujeitos ao Sumo Pontífice de Roma e haviam feito pública declaração dessa submissão. Separaram-se, portanto, do Papa e saíram da Igreja romana, ao passo que a Igreja romana, não menos que os Papas, teve origem em Jesus Cristo e em São Pedro, o primeiro dos Papas. Ora, separar-se da Igreja universal é um sinal visível de erro, e tão evidente que o mundo cristão sempre e em toda parte reconheceu como verdadeiros hereges aqueles — quaisquer que sejam — que se separaram da Igreja que tem como chefe o Pontífice romano e é guiada pelos bispos que lhe obedecem.
Basta lançar um olhar sobre os anais dos séculos para convencer-se deste fato: toda e qualquer separação sempre foi considerada, tanto sob a revelação não escrita como sob a lei mosaica e sob a evangélica, um erro digno de anátema e de proscrição…
A Igreja romana ainda hoje se chama, como no passado, Igreja católica. Ela é a mesma na sucessão ininterrupta de seus pastores… E é a mesma se considerarmos a forma visível de seu governo, segundo a qual, antigamente como no presente, os fiéis estavam submetidos aos párocos, os párocos aos bispos e os bispos ao Sumo Pontífice, chefe de toda a Igreja.
Ela ainda é a mesma quanto à forma judiciária, pois a todos é lícito apelar do julgamento dos bispos para o tribunal do Sumo Pontífice; como sabemos com certeza que fizeram Santo Atanásio e o Crisóstomo, os quais, depostos pelos bispos do Oriente, após o recurso por eles interposto junto aos Pontífices romanos, foram por estes restabelecidos em suas sedes.
Ela é a mesma quanto aos ritos, às cerimônias, ao modo de celebrar a Missa, de administrar os sacramentos, de dedicar as basílicas, de consagrar os altares, de observar os jejuns, as vigílias, as orações e as festas dos Santos, embora nessas coisas tenham ocorrido ligeiras mudanças, pelo próprio consentimento da Igreja.
Permanece a mesma na forma exterior de todas as ordens do cristianismo: leigos, clérigos, religiosos, cenobitas e monges que fazem profissão dos conselhos evangélicos e cantam noite e dia os louvores do Senhor.
Permanece a mesma quanto ao espírito interior de santidade, que de modo algum muda na Igreja, como o demonstra a vida dos Santos, embora alguma mudança se introduza na disciplina. Permanece a mesma pelo espírito de zelo e de sacrifício que, em todos os séculos, impeliu e ainda impele tantos apóstolos de toda ordem a levar a luz do Evangelho às nações bárbaras, atravessando os mares mais tempestuosos e enfrentando os perigos mais assustadores.
A Igreja romana é a única que dá a conhecer o Evangelho aos infiéis e converte os idólatras, não pela força das armas nem pelas astúcias da avidez, mas unicamente pelo impulso da caridade. Todas as outras seitas não procuram senão seduzir, obter dinheiro e corromper; semelhantes nisso, diz Lactâncio, àqueles vermes que roem a madeira na qual nascem (lib. 3, c. V);
Por que, então, em meio a tamanha multidão de pastores, ministros e pregadores, não se encontra um só que, por puro amor cristão, sacrifique tudo, exponha a vida a mil mortes e derrame o próprio sangue pela propagação e pela glória de sua fé em meio aos bárbaros? Esse zelo apostólico foi sempre hereditário na Igreja romana e vê-se resplandecer em nossos dias não menos que no passado…
1° Unidade da fé. — Todos os membros da Igreja católica, apostólica, romana professam a mesma fé, e a unidade da fé não se encontra senão na Igreja romana.
Diz-se que uma Igreja possui a unidade da fé quando, em primeiro lugar, desde a sua fundação, creu em todos os artigos revelados por Jesus Cristo, pelos Evangelistas e pelos Apóstolos; quando, em segundo lugar, jamais variou em sua profissão e em suas fórmulas de fé; quando, em terceiro lugar, possui uma regra segura e infalível para conservar essa unidade; quando, finalmente, desde o princípio, corta de seu corpo e separa de sua comunhão todos aqueles que alteram, rejeitam ou inventam um só artigo de fé. Ora, a Igreja romana sempre creu e ainda crê em tudo o que foi ensinado por Jesus Cristo e pelos Apóstolos; e onde quer que se encontrem pessoas de sua comunhão, ali se encontra a mesma crença. Ela jamais variou em suas profissões e em seus símbolos de fé, porque, quando os concílios decidiram algum ponto de doutrina, não revelaram um novo artigo de fé, mas declararam que tal artigo havia sido revelado. Ela possui uma norma segura para conservar a unidade da fé: isto é, as decisões dos concílios confirmadas pela Santa Sé; ou, na falta de concílios, cuja convocação nem sempre é possível, os decretos da própria Santa Sé. E os concílios assim confirmados jamais variaram em sua doutrina. Finalmente, ela afasta de seu seio todo aquele que se atreve a adulterar, negar ou introduzir um só artigo de fé.
As seitas, ao contrário, jamais tiveram a unidade da fé, porque, antes de tudo, houve um tempo em que criam em certos artigos e outro em que neles não criam; aumentaram ou diminuíram o número de seus dogmas conforme o próprio interesse e as necessidades dos tempos; os calvinistas, por exemplo, deram esse espetáculo quando, para fortalecer seu partido, aprovaram a doutrina dos luteranos, embora fosse muito diferente da sua. Em segundo lugar, os protestantes, para nos atermos ao mesmo caso, muitas vezes variaram em suas fórmulas de fé; mas que admiração isso causa, se seus ministros jamais chegaram a pôr-se de acordo quanto ao número dos dogmas fundamentais: uns querendo dez, outros seis e outros somente quatro? E isso é possuir a unidade da fé? Em terceiro lugar, nenhuma seita jamais teve uma regra segura para conservar essa unidade. Finalmente, não encontramos de modo algum que tenham separado de sua comunhão aqueles que dissentiam em algum ponto de sua doutrina geral. Os protestantes aliaram-se a outras seitas, ou melhor, não formam senão uma liga de seitas que se despedaçam mutuamente, unidas apenas no ódio contra a Igreja romana. Mas, apesar dos hereges, somente nesta Igreja se encontra sempre uma perfeita unidade de crença: um só Deus, uma só fé, um só batismo, como diz o grande Apóstolo (Ef 4, 5).
Ouvi Santo Agostinho (1): “O Espírito Santo é o amor e o vínculo do Pai e do Filho: a Ele pertence a sociedade pela qual formamos uma só coisa. O corpo do homem é composto de muitos membros, e uma só alma dá movimento a todos os membros, vendo com os olhos, ouvindo com os ouvidos e assim também quanto aos outros membros. Assim, o Espírito Santo une e anima os membros do corpo de Jesus Cristo, que é a Igreja”.
“Todas as nações são coerdeiras, diz São Paulo, e formam um só corpo, e participam da mesma promessa de Jesus Cristo” (Ef 3, 6). “Seguindo a verdade na caridade, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, isto é, Cristo; dele, todo o corpo, bem ajustado e unido por meio de todas as articulações de comunicação, conforme a operação proporcionada a cada membro, recebe o próprio crescimento do corpo para sua perfeição, mediante a caridade” (Ef 4, 15-16).
A Igreja é um só corpo, cuja alma é a fé e a caridade.
Saulo, perseguindo a Igreja, ouve uma voz que lhe brada: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” — (At 9, 4.). Jesus Cristo tem a cabeça no Céu e conserva o corpo na terra; pois a Igreja é o corpo místico de Jesus Cristo, e os fiéis são seus membros. Observa Santo Agostinho (In Act.) que Jesus não disse a Saulo: — Por que persegues a minha Igreja, os meus fiéis? — mas: — por que me persegues? — É tão verdade que a Igreja é sua esposa, ou antes, uma só coisa com Ele; Jesus Cristo uniu-se tão intimamente a ela que quer ser sua cabeça, seu espírito, sua alma, sua vida.
“Nós vos anunciamos, dizia São João, aquilo que vimos e ouvimos, para que também vós entreis em comunhão conosco, e a nossa comunhão seja com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1, 3).
“Ninguém, escreve o Venerável Beda, pode unir-se em comunhão com Deus, se antes não estiver unido à comunhão da Igreja (2).” “E aquele, acrescenta São Cipriano, que, separado da Igreja, se une a uma seita adúltera, já não participa das promessas feitas à Igreja, nem chegará às recompensas de Jesus Cristo. Quem abandona a Igreja de Cristo é um estrangeiro, um profano, um inimigo. Não pode ter Deus por pai quem não tem a Igreja por mãe. Se houve alguém que se tenha salvado fora da arca de Noé, então também poderá salvar-se quem está fora da Igreja. Grave e peremptório é o aviso do Senhor: Quem não está comigo está contra mim, e quem comigo não recolhe, dispersa. Quem rompe a paz e a concórdia de Cristo age contra Cristo; quem quer colher fora da Igreja trabalha para dispersar a Igreja de Cristo. Não podem permanecer com Deus aqueles que não querem conservar-se na unidade da Igreja. Morram eles consumidos pelas chamas ou dilacerados pelas feras, nem por isso receberão a coroa da fé, mas o castigo da perfídia: podem muito bem fazer-se matar, mas jamais serão coroados (3)”.
Os maus, segundo a comparação de Santo Agostinho, estão na Igreja, que é o corpo de Jesus Cristo, como os humores maléficos correm no corpo humano; e, assim como este recupera a saúde e o vigor quando os expeliu, assim também a Igreja resplandece com nova luz quando se livra dos maus, como de um humor venenoso; e diz, quando estes saem dela: Saíram de meu meio, mas não eram dos meus (4). O mesmo santo Doutor, escrevendo a Bonifácio, observava-lhe que todas as heresias contrariam Jesus Cristo encarnado, porque se opõem à sua doutrina, à sua Igreja, aos seus sacramentos, ao seu sumo pontífice e à ordem hierárquica por Ele estabelecida. “Somente a Igreja católica, conclui ele, é o corpo de Cristo, do qual Ele é a cabeça e o salvador. Fora deste corpo, o Espírito Santo não vivifica pessoa alguma, porque já não participa da caridade divina aquele que é inimigo da unidade (5)”.
“Caríssimos, assim nos adverte São João, não queirais crer em todo espírito, mas provai os espíritos para ver se são de Deus; porque muitos falsos profetas saíram pelo mundo. Nisto se conhece o espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio na carne é de Deus; mas todo espírito que divide Jesus não é de Deus; e este é um anticristo, do qual ouvistes que vem, e que já agora está no mundo” (1Jo 4, 1-3).
“Uma só é a minha pomba, a minha perfeita” (Ct 6, 8), diz Deus, falando de sua Igreja; e, por sua unidade, ela é onipotente, imutável, enquanto renova todas as coisas; ela caminha em meio às nações para habitar nas almas santas; ela faz os amigos de Deus e os profetas (Sb 7, 27). As nações e os reinos que não se submeterem à Igreja perecerão, segundo a profecia de Isaías (Is 60, 12). Perecerão no tempo e, sobretudo, na eternidade, como pereceram no dilúvio todos os que estavam fora da arca: pois fora da Igreja, que é a arca de Deus, não há salvação…
Naquele dia, dizia Zacarias, aludindo ao reino da Igreja, haverá um só Senhor; Ele se tornará o rei da terra, e não ressoará mais senão o seu nome (Zc 14, 9).
2° Unidade da lei e dos Sacramentos. — A Igreja jamais ensinou outra lei senão a do Decálogo e do Evangelho… Ela possui a perfeita unidade da lei quanto ao ensino e à prática, ao menos em tudo aquilo que contém de essencial… Como também sempre houve sete sacramentos.
3° Unidade de Cabeça. — A Igreja sempre reconheceu como sua cabeça invisível Jesus Cristo e como sua cabeça suprema visível o Papa. Desde São Pedro até o presente, os Pontífices romanos sempre foram, e sempre serão, o centro da unidade. Retirai este centro, e já não haverá Igreja, porque ela deixará de ser una…
“Foi escolhido um só entre os doze, diz São Jerônimo, para que, estabelecida uma só cabeça, fosse eliminada toda ocasião de cisma (6).” E escrevia ao Papa Dâmaso: “Quem não recolhe convosco dispersa (7)”. Também São Cipriano admite que o primado foi dado a Pedro, para que uma só fosse a Igreja e uma só a cátedra de Jesus Cristo.
Lemos em São Mateus, no capítulo 16, que, tendo Jesus perguntado aos Apóstolos quem julgavam que Ele era (v. 15), Simão Pedro tomou a palavra e disse: “Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo” (v. 16); e Jesus lhe disse: — Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue, mas meu Pai que está nos Céus, quem te revelou isso. E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno jamais prevalecerão contra ela. Dar-te-ei, além disso, as chaves do reino dos Céus, de modo que tudo o que ligares ou desligares na terra será também ligado ou desligado no Céu” (v. 17-19).
São Leão comenta assim estas palavras: “E eu te digo: isto é, assim como meu Pai te manifestou a minha divindade, assim também eu te faço conhecer a tua excelência, a tua autoridade suprema. Eu te digo que tu és Pedro, e, assim como eu sou a pedra intangível, inamovível, também tu és pedra, tornando-te, por minha virtude, inabalável, para que possuas comigo as coisas que me pertencem. Tu és Pedro, isto é, a pedra angular da Igreja (8).” E Santo Agostinho observa que, sendo Jesus Cristo, segundo a palavra de São Paulo (1Cor 10, 14), a pedra, o fato de Ele ter dito que sobre Pedro edificaria a Igreja equivale a ter feito de Pedro outro Ele mesmo; e é como se tivesse dito: sobre mim mesmo estabelecerei a Igreja (9).
Jesus Cristo é chamado pedra por Davi e por Isaías; este, com efeito, já anunciava que o Senhor haveria de pôr como fundamento em Sião uma pedra quadrada, preciosa, angular, imutável, na qual quem cresse viveria em paz (Is 28, 16); e aquele previa que a pedra que seria rejeitada pelos arquitetos se tornaria a pedra fundamental (Sl 117, 21). Ora, sendo Jesus a pedra, comunica, dizem São Jerônimo e São Gregório, a Pedro o seu nome, a sua dignidade, a sua autoridade e a sua missão.
“São Pedro é chamado pedra, diz Santo Ambrósio, porque, como rochedo inabalável, sustenta sobre si todo o edifício da instituição cristã (10)”; e São Jerônimo, escrevendo ao papa Dâmaso, assim se exprimia: “Sei que a Igreja está edificada sobre esta pedra, e é profano todo aquele que, fora desta casa, comer o cordeiro (11)”.
Et portae inferi non praevalebunt adversus eam: as portas do Inferno, isto é, todos os demônios unidos, todos os ímpios, os perseguidores, os falsos profetas, todas as seitas e heresias, jamais poderão derrubar a Igreja que está fundada sobre ti, ó Pedro, que és, com os teus sucessores, a pedra sólida e fundamental. As portas do Inferno não prevalecerão; pois, se a Igreja é inabalável por tua causa, com muito mais razão o és tu mesmo. A promessa de Deus é clara, e dezoito séculos são testemunhas do seu cumprimento.
Jesus Cristo e o Espírito Santo assistem e sustentam continuamente o Pontífice romano, para que não erre na fé e conserve e administre a Igreja. “Contai, dizia já Santo Agostinho, os Papas desde São Pedro até o presente; e neles encontrareis a pedra que os soberbos poderes do Inferno jamais poderão remover (12)”.
Et tibi dabo claves regni coelorum: e a ti, ó Pedro, darei as chaves do reino celeste. E é certo que, sob o nome de chaves, se deve entender o supremo poder, tanto de ordem como de jurisdição, sobre toda a Igreja, prometido e concedido a Pedro e aos seus sucessores por Jesus Cristo, que declara e explica com a própria boca a coisa, acrescentando estas palavras: “Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; e tudo o que desligares na terra será desligado também nos céus”. Ora, quem tem as chaves de uma casa ou de uma cidade não é acaso o seu senhor? Por isso, São Gregório escrevia: “Todos os que conhecem o Evangelho sabem que o cuidado de toda a Igreja foi confiado, segundo a palavra do Senhor, ao príncipe de todos os Apóstolos, São Pedro; pois a ele foi dito: A ti confiarei as chaves do reino dos céus (13)”.
E o que ligares ou desligares na terra será também ligado ou desligado nos céus. De que modo? 1° Recusando-se a absolver…; 2° impondo uma penitência àqueles que caem…; 3° ligando o culpado com interditos, suspensões, excomunhões, anátemas…; 4° obrigando por meio de leis e preceitos, por exemplo, de jejuns, de festas etc.…; 5° com definições de fé etc.…; 6° absolvendo dos pecados…; 7° concedendo indulgências etc.….
Escrevendo São Bernardo ao papa Eugênio, dizia-lhe: “Quem és tu? O grande sacerdote, o Sumo Pontífice; tu, o príncipe dos bispos, o herdeiro dos Apóstolos; tu, Abel pelo primado, Noé pelo governo, Abraão pelo patriarcado, Melquisedeque pela ordem, Aarão pela dignidade, Moisés pela autoridade, Samuel pelo julgamento, Pedro pelo poder, Cristo pela unção. Tu és aquele a quem foram entregues as chaves, confiadas as ovelhas (14)”.
“Disse um dia o Senhor: Simão, Simão, eis que o demônio procurou peneirar-vos como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé jamais desfaleça; e tu, uma vez convertido, volta-te para confirmar os teus irmãos” (Lc 22, 31-32). Em sua oração por Pedro, Jesus Cristo pede e obtém para ele, em particular, dois insignes privilégios. O primeiro é pessoal, e consiste na força necessária a Pedro para jamais perder a fé em Jesus Cristo. E, se uma vez o renegou, isso não foi senão exteriormente, com a boca, e prontamente se reergueu.
O segundo é a indefectibilidade da fé não somente para Pedro, mas também para os seus sucessores…
Se a Igreja romana é a cabeça de todas as igrejas, escrevia já Baronio, e sempre se manteve florescíssima; se as sedes dos outros Apóstolos desapareceram, enquanto a de Pedro resistiu inabalável a todos os assaltos; se, no curso dos séculos, hoje não menos que no princípio, a sua fé sempre indestrutível é anunciada em todo o universo, isto é uma prerrogativa única e excelente, um privilégio divino concedido somente a ele, porque é um dom de Deus e não um efeito de suas obras, para que ninguém se glorie de si mesmo (De Pontif. Rom.).
São Cipriano chama a sede de Roma de cátedra de São Pedro e de Igreja principal, da qual teve origem a unidade sacerdotal. Chama-a mãe e raiz de todas as igrejas (Tract. de unit. Eccl.).
“Apascenta os meus cordeiros e as minhas ovelhas” (Jo 21, 16-17), disse o Salvador a São Pedro; e estas palavras declaram São Pedro e os seus sucessores chefes supremos da Igreja. Isto se prova:
1º Pelo fato de que aqui Jesus Cristo interroga, e por três vezes, somente a Pedro, na qualidade de príncipe dos Apóstolos. 2º Pela própria evidência destas palavras: “Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas”; que querem dizer: dirige, governa, ordena aos bispos, aos sacerdotes, aos fiéis…
Davi, contemplando à luz profética a sede inabalável de Pedro, exclama: “O Senhor me estabeleceu sobre uma alta rocha e elevou a minha cabeça acima da cabeça de todos os meus inimigos” (Sl 26, 6). “Firmou os meus pés sobre este rochedo e dirigiu os meus passos” (Sl 39, 3).
“São muitas as vagas furiosas e frequentes as ondas tempestuosas que rugem ao meu redor, escrevia São João Crisóstomo, mas não temo afundar, porque estou sobre a pedra. Ainda que o mar se agite de alto a baixo, nada poderá contra a pedra (15)”; e Santo Agostinho confessava encontrar um grande argumento de fé na sucessão ininterrupta do sacerdócio desde São Pedro, a quem o Senhor confiou, depois da sua ressurreição, o cuidado de apascentar as suas ovelhas, até os bispos seus contemporâneos (16).
Em seu tratado dos Nomes divinos (cap. III), São Dionísio Areopagita chama São Pedro de glória suprema, ornamento celeste, teto e fundamento da Igreja; porque Pedro não é somente o seu monarca, mas, depois de Jesus Cristo, a pedra fundamental.
Quem examinar seriamente todos os dons e promessas feitas pelo Redentor a São Pedro não tardará a concluir que imensos e incomparáveis são os privilégios e a autoridade concedidos a Pedro.
Mesmo sem falar dos privilégios particulares, cuja lista se pode ver em Belarmino (lib. 1, de Pontif. rom. c. 17, etc.), doze são os principais privilégios concedidos por Jesus Cristo a São Pedro e a seus sucessores, em suas relações com a Igreja universal.
O primeiro é que Pedro foi estabelecido por Jesus Cristo como fundamento de sua Igreja.
O segundo é que ele foi a cabeça, o diretor e o juiz de todos os Apóstolos. Por isso, escrevendo São Jerônimo a Santo Agostinho, dizia-lhe: “Tão grande autoridade possuía Pedro, que Paulo escreveu: Depois de três anos fui a Jerusalém para ver Pedro (17)”. E Teodoreto observava a Leão que Paulo, o panegirista da verdade, a trombeta do Espírito Santo, recorreu a Pedro para obter uma decisão que levasse àqueles que em Antioquia divergiam sobre certas prescrições legais (18). Santo Evódio, sucessor de São Pedro na cátedra de Antioquia, afirma em uma carta que Jesus Cristo não batizou com as próprias mãos a nenhum outro senão a Virgem, sua mãe, entre as mulheres, e São Pedro, entre os homens; mas que Pedro batizou André, Tiago e João; e estes, os outros Apóstolos.
O terceiro privilégio de São Pedro consiste em ser ele a cabeça de toda a hierarquia: a ordem hierárquica dos bispos, dos sacerdotes e dos outros ministros da Igreja, não menos que a sua jurisdição, dele deriva. Isso fez o Papa Inocêncio I dizer, em sua carta ao concílio de Cartago, que é a XCI entre as Epístolas de Santo Agostinho, que todo o episcopado e a autoridade deste nome saíram de Pedro (19); e o Papa Júlio I, em sua sexta carta aos orientais, afirma também que a cátedra de Pedro é a mãe da dignidade sacerdotal (20).
São Leão finalmente diz (81) que, se Jesus Cristo concedeu aos outros príncipes da Igreja favores que lhes são comuns com Pedro, somente por meio deste, porém, receberam aquilo que não lhes foi negado. E, em sua carta LXXXIX, afirma que o Senhor quis que Pedro se distinguisse em todos os poderes concedidos aos Apóstolos, para derramar por meio dele, como cabeça suprema de toda a Igreja, os seus dons sobre todo o corpo.
O quarto privilégio dado a São Pedro e a seus sucessores pelo Redentor é a assistência contínua do Espírito Santo para governar a Igreja e ensinar a verdade, a fim de que jamais possam errar na fé, e para que as heresias por eles condenadas fossem condenadas por toda a Igreja. Eis por que Inocêncio I, em sua Carta ao concílio de Milevo, que é a XCIII nas obras de Santo Agostinho, diz: “Creio que, sempre que surgem disputas acerca da fé, nossos irmãos bispos não devem recorrer a ninguém além de Pedro, isto é, àquele de quem se origina o nome e a dignidade deles (23)”. Tal, de resto, foi a prática constante de todos os séculos; pois, em matéria de fé, os Pontífices romanos tudo esclareceram, tudo decidiram; dissiparam todas as dúvidas e condenaram todas as heresias.
O quinto privilégio é que Pedro e todos os seus sucessores representam a pessoa de Jesus Cristo, assim como o vice-rei representa o rei. Por isso, São Pedro teve, por sua vida, por seu zelo, pela pregação da fé, por sua morte e por seu martírio, uma semelhança extraordinária com Jesus Cristo, seu divino Mestre, e esteve estreitissimamente unido a Ele. Por isso, São Gregório, em seus Comentários sobre o Salmo IV (23), faz Jesus falar assim a Pedro: “Venho a Roma para ser crucificado uma segunda vez. Pois aquele que já havia sido crucificado em sua própria pessoa vinha a sê-lo novamente na pessoa de Pedro” — Tertuliano, em seu livro das Prescrições, diz: Vós tendes Roma, onde se encontra para nós toda autoridade. Feliz Igreja, na qual os Apóstolos espalharam sua doutrina e seu sangue; Pedro sofreu como o Senhor, Paulo foi coroado, enquanto João era exilado!
O sexto privilégio é que Pedro e seus sucessores presidem à Igreja na qualidade de monarcas; por isso, são o princípio da unidade da Igreja, que é o reino de Deus. Pois, assim como há um só império onde governa um só imperador, um só reino onde governa um só rei, um só mundo que Deus fez e governa, um só céu que um único sol ilumina, assim também a Igreja não seria o único reino visível de Jesus Cristo se não tivesse um único chefe visível, ao qual toda ela se submetesse e que a governasse; esse chefe é Pedro e cada um de seus sucessores. O corpo deve ter uma só cabeça; se tivesse várias, seria um monstro privado de razão e também de vida.
Por isso, Santo Ambrósio pregava: “Nesta única nave da Igreja embarcou Jesus Cristo, nave da qual Pedro foi constituído timoneiro e piloto quando o Senhor lhe disse: Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Assim como a arca de Noé, no tempo do dilúvio, salvou do naufrágio todos os que nela se refugiaram, assim a Igreja de Pedro, na grande catástrofe do mundo, conservará ilesos quantos levar em seu seio; e, assim como, cessado o dilúvio, a pomba levou à arca de Noé o sinal da paz, assim, passado o juízo, Cristo levará à Igreja de Pedro a alegria da paz eterna (24)”.
“Somente Pedro, entre todos os Apóstolos, diz Santo Agostinho, mereceu ouvir aquelas palavras: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Digno, na verdade, de ser a pedra fundamental dos povos chamados a formar a Igreja de Deus, a coluna de sustentação, a chave do reino (25).” E, em outro lugar, o mesmo Doutor acrescenta que Jesus Cristo cura as enfermidades de todo o corpo da Igreja, curando-lhe a cabeça, e nesta cabeça colocou a saúde de todos os membros (26),
Ouçamos ainda São Leão: “Em meio a tamanha multidão, somente Pedro é escolhido para ser proposto à vocação das nações e a todos os Apóstolos e a todos os Padres da Igreja, para que, qualquer que fosse o número de sacerdotes e bispos, todos fossem propriamente governados por Pedro, embora principalmente por Cristo (27)”.
O sétimo privilégio consiste nisto: os direitos, o poder e o comando de Pedro não somente são mais excelentes, mas também mais extensos que os dos maiores monarcas; pois sua autoridade se estende a todos os fiéis espalhados pelo mundo e também aos infiéis, para agregá-los a Cristo e à Igreja: é seu encargo pensar na salvação e providenciar por ela para os bárbaros e antropófagos que vivem sem lei e sem Deus. Roma pagã, com seu poder e seus triunfos, não dominou senão uma parte do mundo; Roma cristã domina, sem armas, o universo. Pois, como já dizia São Cirilo: “Por vontade divina, todos inclinam a cabeça diante de Pedro e a ele, como ao próprio Senhor Jesus Cristo, obedecem os primazes da terra. Nós, que somos membros, devemos permanecer unidos à nossa cabeça, o Pontífice romano, e à Sé Apostólica (38)”.
Isso quer dizer que, assim como os membros separados da cabeça não podem viver, assim também todo fiel que está separado de Pedro ou de seus sucessores é um membro morto, não participando da saúde dada à cabeça. Pois Jesus cura, governa e sara somente por meio de Pedro.
O oitavo privilégio é que os direitos e o poder de Pedro se estendem não somente à terra, mas também ao Purgatório e ao Céu, porque ele abre o Céu não apenas ao homem que está neste mundo, mas também às almas que se encontram no Purgatório. De Jesus Cristo recebeu as chaves do Céu. Por isso, São Bernardo escrevia ao papa Eugênio: “Tu podes fechar o Céu a um bispo, depô-lo do episcopado e até entregá-lo ao poder de Satanás (29)”. “Pedro, acrescenta o Crisóstomo, é o guardião da fé, o fundamento da Igreja, o porteiro do Céu (30)”.
O nono privilégio de Pedro consiste em perpetuar-se de geração em geração em seus sucessores: os outros Patriarcas desaparecem; ele atravessa os séculos, permanecendo sempre o mesmo até o fim do mundo. Por isso, São Jerônimo escrevia ao papa Dâmaso: “Eu me volto para o sucessor do pescador, para o discípulo da cruz. Uno-me em comunhão à Vossa Beatitude, isto é, à cátedra de Pedro (31)”. O Concílio de Éfeso I conferia a Celestino I, papa, o título de “sucessor ordinário e vigário do bem-aventurado Pedro, príncipe dos Apóstolos (32)”; e, tendo sido lida no Concílio de Calcedônia a Epístola do papa Leão I, todo o concílio exclamou unanimemente: “Leão é o intérprete da voz de Pedro (33)”. São Cipriano, em uma carta ao papa Cornélio, admira-se de que os sectários ousem vir de além-mar à cátedra de Pedro, à Igreja mãe, donde teve origem a unidade sacerdotal, levando para lá cartas dos cismáticos e dos pagãos, sem atentar para o fato de que ali está aquela Roma junto à qual a perfídia não pode encontrar acesso (34).
Em uma carta escrita a Eutiques, Pedro, bispo de Ravena, dizia-lhe: “Nós te exortamos, irmão, a submeter-te com toda obediência ao que foi escrito pelo bem-aventurado Papa de Roma. Pois o bem-aventurado Pedro, que vive e preside em sua própria cátedra, dá a quem a procura a verdade da fé (35)”.
O Sumo Pontífice Sirício ao bispo de Tarragona, Immerico: “Nós carregamos o peso de todos os que estão sobrecarregados, ou melhor, o carrega em nós o bem-aventurado apóstolo Pedro, o qual, como firmemente confiamos, assiste a nós, herdeiros de sua administração, e em tudo nos protege (36)”.
Décimo privilégio: o poder e a dignidade de São Pedro e de seus sucessores excedem o poder de Abraão, de Moisés, de Aarão, de Melquisedeque, de todos os grandes sacerdotes antigos, de todos os Patriarcas e de todos os Profetas; o poder desses homens de Deus não é senão uma sombra, uma figura do poder dos Pontífices romanos.
Undécimo privilégio: São Pedro fundou, por meio de seus discípulos, igrejas em todo o mundo. Enviou-os com o título e os poderes de bispo: para a Sicília, Pancrácio, Marciano e Berilo; para Cápua, Prisco; para Nápoles, Aspreno; para Terracina, Epafrodito; para Fiésole, Rômulo; para Lucca, Paulino; para Ravena, Apolinário; para Verona, Euproprio; para Pavia, Siro; para Aquileia, Hermágoras; para a Borgonha e o Limosino, Marcial; para Tours, Materno; para Reims, Sisto; para Arles, Trofimo; para Soissons, Sabiniano; para Viena, no Reinnato, Crescêncio; para a Auvérnia, Austremônio; para a Germânia, Eugério, Egisto e Marciano; para a Espanha, Torquato, Clesifonte, Segundo, Guidalério, Cecílio, Hesíquio etc., como prova o Martirológio Romano. A história da Inglaterra, por sua vez, atesta que Pedro enviou para lá José de Arimateia.
O décimo segundo privilégio consiste na nobreza, no lustre que São Pedro deu a Roma e na superioridade que lhe assegurou sobre todas as cidades do mundo; de modo que, para designar a verdadeira Igreja, é preciso dizer Igreja romana…
Apraz-nos reproduzir aqui, entre mil outros testemunhos acerca da supremacia e da infalibilidade do Pontífice romano, o de Santo Afonso de Ligório, extraindo-o de sua Dissertação acerca da autoridade do Pontífice romano. Em 1690, Alexandre VIII condenou, com sua Bula Inter multiplices, os quatro artigos da Igreja galicana. Os bispos da França que haviam sustentado, em sua assembleia de 1682, os referidos artigos, retrataram-se em 1693, por meio de uma carta dirigida ao papa Inocêncio XII; e o próprio rei Luís XIV, que havia promulgado um édito para que os mencionados artigos fossem postos em prática, retirou-o e revogou-o publicamente. Quando o Papa fala na qualidade de doutor universal, definindo ex cathedra, isto é, em virtude do supremo poder concedido a Pedro para ensinar a Igreja, então dizemos que ele é infalível nas decisões referentes à fé e à moral. Assim o entendem Santo Agostinho, São Tomás, São Boaventura, Escoto, Caetano, Belarmino, Baronio, Alexandre de Hales, São Francisco de Sales e quase todos os teólogos. Este sentimento, fundado naquelas palavras evangélicas (Mt 16, 18):
“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno jamais prevalecerão contra ela”; apoia-se nas seguintes provas:
“Segundo esta promessa de Jesus Cristo a Pedro, diz São Cirilo de Alexandria, a Igreja apostólica de Pedro permanece pura de toda sedução (37) n; e Orígenes acrescenta que, se algum dia acontecesse de o Inferno prevalecer contra Pedro, sobre o qual está fundada a Igreja, prevaleceria contra esta mesma Igreja (38). O concílio de Calcedônia reconheceu e confessou em Pedro a pedra da Igreja católica (Sessão III).
“Eu roguei por ti, ó Pedro, disse-lhe o Salvador, para que a tua fé não desfaleça” (Lc 22, 32); e justamente porque “na fé superava todos os outros, por isso, diz São Basílio, a Igreja foi edificada sobre ele (39)”. Nisso concorda São Leão, quando afirma que “Pedro, pela sublimidade de sua fé, avançou tanto nas graças de Jesus Cristo que, repleto de graças, mereceu receber a sagrada solidez da pedra inviolável; fundada sobre ela, a Igreja é mais forte que as portas infernais (40)”.
O concílio de Calcedônia diz: “Tudo aquilo que o Papa define deve ser considerado e crido como palavra vinda do vigário do trono apostólico? (41)”.
O segundo concílio ecumênico de Lião confessou que: “A santa Igreja romana detém o supremo principado que obteve, com a plenitude do poder, das próprias mãos do Senhor, no bem-aventurado Pedro, de quem o Pontífice romano é o sucessor; por isso, ao seu tribunal devem ser levadas e decididas as questões que possam surgir acerca da fé (42)”.
Na última sessão do Concílio de Florença, os Padres disseram: “Nós definimos que o Pontífice romano tem o primado sobre toda a Igreja; que é o sucessor de São Pedro, o chefe de toda a Igreja, o senhor e mestre dos cristãos; que a ele, na pessoa do bem-aventurado Pedro, foi dada por Nosso Senhor Jesus Cristo plena e” absoluta potestade de governar a Igreja, como nos ensinam os sagrados cânones e os Atos dos concílios ecumênicos (43)”. Ora, se é certo que o Papa é o doutor de toda a Igreja, é igualmente certo que deve ser infalível; caso contrário, a Igreja poderia ser induzida ao erro por seu mestre.
No concílio geral de Viena, sob Clemente V, foi declarado: “Não compete a ninguém, exceto à Sé apostólica, a definição das dúvidas acerca da fé (44)”.
São Ireneu: “É necessário que todos dependam da Igreja romana, como de sua fonte e cabeça (45)”,
Depois de ter dito ao papa Félix que a Igreja romana conserva em todo tempo a verdadeira doutrina de Deus, Santo Atanásio, dirigindo-se a ele, acrescentava: “A ti, príncipe, doutor e chefe de todos os seguidores da doutrina ortodoxa, compete condenar as heresias profanas, os imprudentes inovadores e todos quantos infestam a Igreja (46)”.
Escrevendo ao papa Leão I, Teodoreto, bispo da Ásia, diz-lhe que aguarda o julgamento de sua Sé apostólica, que suplica e roga à Sua Santidade que venha em seu auxílio, visto que apela ao seu tribunal justo e reto. E Santo Agostinho proferia esta sentença: “Depois da decisão do Papa, a causa dos pelagianos está encerrada (47)”.
São Tomás ensina que se deve antes dar atenção e apoiar-se na decisão do Papa, a quem pertence de direito decidir em matéria de fé, do que na opinião de qualquer autor, por mais douto que seja (48). Em outro lugar (2-2 q. 11, art. 2 ad 5), o mesmo autor assevera que, quando a Igreja decidiu um ponto de fé, aquele que não se submete a ele é herege; e essa autoridade da Igreja reside principalmente no Sumo Pontífice.
São Boaventura dá por certo que o Papa não pode errar, supondo-se estas duas coisas: 1º, que decida como Papa; 2º, que tenha a intenção de estabelecer um dogma de fé (49).
O citado São Tomás ensina que a promessa da infalibilidade nas coisas da fé foi feita somente aos sucessores de São Pedro; portanto, este grande Doutor estabelece que a Igreja não pode enganar-se: 1º, porque o Papa não pode errar (50); 2º, porque não se poderia conservar na Igreja a unidade da fé, se as questões relativas à fé não pudessem ser definidas pelo Papa, que é o chefe da Igreja (51).
Deve-se, além disso, acrescentar o uso antigo e constante da Igreja: pois não é em Alexandria, em Jerusalém, em Antioquia ou em Lião, mas em Roma, que se recorre para as decisões de fé; e a decisão romana sempre teve força de lei. Outras cátedras foram derrubadas ou desapareceram; nunca, porém, a de Roma.
Somente Roma sanciona os concílios ecumênicos e nacionais…
O concílio de Constança declara herege aquele que, acerca dos artigos de fé, pensa de modo diverso do que ensina a Igreja de Roma. Santo Afonso de Ligório diz estar plenamente convencido de que aqueles que sustentam que qualquer Romano Pontífice pode errar em seus decretos sobre a fé introduzem na Igreja a peste e a ruína; e a história prova que aqueles que resistiram soberbamente aos decretos da Santa Sé começaram pelo cisma e terminaram na heresia.
Apoiados em todas estas razões, Suárez (Lib. 3, de Fid. defen..), Bañez e Belarmino (lib. 4, de Pontif. rom. c. II) declaram a infalibilidade do Papa quase um dogma de fé e dizem ser errônea e próxima da heresia a opinião contrária.
Excetuados os galicanos, que são pouquíssimos, todos os bispos, em geral, reconhecem a infalibilidade do Papa. Na prática, também os galicanos se atêm às decisões de Roma. Se os decretos dos Papas não fossem infalíveis sem o consentimento dos bispos, dever-se-ia dizer não que a Igreja está fundada sobre Pedro, mas que Pedro está fundado sobre a Igreja. Seria preciso, além disso, afirmar não que os irmãos devem ser confirmados por Pedro, mas que Pedro deve ser confirmado pelos irmãos. Seria preciso sustentar que os membros, que são os bispos, estão mais seguros em suas decisões do que o chefe, que é o Papa.
Nenhum concílio, mesmo ecumênico, jamais se reuniu nem teve valor senão quando sancionado pelo Romano Pontífice. Belarmino assegura que a doutrina que considera infalíveis os decretos dogmáticos proferidos pelo Papa é a antiga doutrina de todos os católicos, de todos os teólogos e dos Padres. (De Rom. Pontif.). São Tomás dá-a por certa, dizendo: “Pertence à autoridade do Soberano Pontífice determinar em última instância aquelas coisas que são de fé, para que sejam professadas por todos com inabalável certeza (52)”.
Antes de inclinar-se ao galicanismo, João de Paris escrevia (Lib. de Potest. reg. et papae, c. III) que a Igreja estaria dividida se a unidade não fosse conservada pela decisão de um só; e que tal poder reside em Pedro e em seus sucessores.
Muitos Papas declararam a infalibilidade do Romano Pontífice. O Papa Anacleto escrevia que as causas maiores fossem levadas à Sé Apostólica, sobre a qual Jesus Cristo edificou a Igreja universal (53). Mais explícito é Nicolau I, cujas palavras são estas: “Viola a fé aquele que se volta contra a Igreja romana, mãe da fé (54)”.
Inocêncio III, em sua Epístola CCIX ao patriarca de Constantinopla, depois de citar as palavras de Jesus Cristo: — Eu roguei por ti, Pedro, para que a tua fé nunca desfaleça —, deduz delas que o Redentor declarou formalmente que os sucessores de Pedro jamais se afastarão da fé católica; pelo contrário, reconduzirão a ela os outros, porque receberam o poder de confirmá-los; e assim Jesus Cristo quis que todos fossem obrigados a obedecer-lhes. Também São Gregório VII afirmava que a Igreja romana jamais errou e que não se deve considerar católico aquele que não está unido a esta Igreja (55). Os papas Evaristo, Alexandre I, Sisto I, Pio I, Vítor, Zeferino, Marcelo, Eusébio e outros sustentam a mesma doutrina.
Mil vezes os Papas promulgaram decretos contra os hereges, e esses decretos tiveram força imediatamente. Assim, por exemplo, em 150, Valentiniano foi condenado pelo Papa Higino; os montanistas, por Zeferino, em 215; Joviniano, por Sirício, em 300; Pelágio, por Inocêncio I, em 416; e logo os católicos os tiveram por hereges.
Depois da condenação fulminada por Inocêncio X contra as proposições de Jansênio, os bispos da França escreveram-lhe: “Não somente em virtude da promessa feita por Jesus Cristo a Pedro, mas também pelos atos dos antigos Pontífices, os juízos proferidos sobre matérias de fé pelos sumos Pontífices, consultados pelos bispos, obrigam os cristãos”. Portanto, todos estão obrigados a submeter-se aos decretos de Roma antes do consenso dos bispos; portanto, o Papa é infalível. Já o observamos: somente os galicanos sustentam opinião diversa; mas os galicanos não são a Igreja universal.
Não é raro que transcorram vários séculos antes que se reúna um concílio geral; ora, não é necessária uma autoridade suprema, infalível e permanente para deter o erro e condená-lo? Se fosse de outro modo, que perigo não haveria de ele insinuar-se na Igreja? E será esta, que possui também um governo divino, menos sábia que os governos lituanos, e estaria privada dos auxílios que não faltam a estes? Um tribunal de cassação não encerra toda contenda? Roma é o tribunal supremo, onde tudo termina, se define e se conclui.
É certo que, se se admitisse o parecer dos galicanos, que torna o Papa falível e requer o consenso dos bispos, já não haveria meio algum, nem mesmo por meio dos concílios gerais, de convencer os hereges de erro. Pois estes jamais se submetem ao juízo de um concílio de que não participem, porque, considerando-se a parte mais sã da Igreja, entendem que, estando eles ausentes, nenhum concílio pode proferir sentença. Por isso vemos os heterodoxos apelarem ao concílio ecumênico quando seus erros são levados perante o tribunal de Roma, para evitar a condenação romana, sabendo que, contra a sentença do concílio, não lhes faltará meio de subtrair-se.
Opõe-se contra esta tese, em primeiro lugar, que o Papa Libério subscreveu a heresia ariana. Mas é preciso observar que esse Papa se encontrava no exílio, por ordem do imperador Constâncio; que não era livre; que não havia falado ex cathedra na qualidade de supremo governante, mas como simples indivíduo. Assim, restituído à liberdade, fulminou a referida heresia.
2° Que o Papa Virgílio, em uma carta à imperatriz Teodora, lançara o anátema contra aqueles que professassem duas naturezas em Jesus Cristo, o que significa cair na heresia de Êutiques. Ora, deve-se observar que, segundo a história, Virgílio se encontrava de certo modo no exílio e não era o verdadeiro Papa quando cedeu aos desejos de Teodora. Mas, depois que Silverio morreu, aquele que naqueles dias ocupava a Sé de Roma, e tendo-se tornado Virgílio o Papa legítimo, negou diante de Teodora e de Justiniano o que havia prometido ou subscrito como arquidiácono e apocrisário.
3° Diz-se ainda que o mesmo Papa Virgílio aprovou os Três Capítulos, posteriormente condenados pelo concílio geral de Constantinopla. Isso, porém, teria pouca importância, seja porque nesses capítulos não se tratavam questões de fé; seja porque o mesmo Papa também os condenou; seja, finalmente, porque esse assunto é tão intrincado, e as cartas de Virgílio sofreram tantas alterações e interpolações, que se torna muito difícil descobrir a verdade.
4° Apresenta-se São Cipriano como vigoroso opositor do decreto do Papa Estêvão; e não se atenta para o fato de que se tratava de uma questão disciplinar, e não de fé, e de que, posteriormente, São Cipriano subscreveu o decreto.
5° Faz-se grande alarde da condenação proferida por um concílio contra o Papa Honório, por causa de uma carta sua a Sérgio, chefe dos monotelitas. A isso se responde: 1) é opinião de muitíssimos autores que a referida carta foi inventada pelos gregos; 2) mesmo que seja realmente do dito Papa, ela pode muito bem ser interpretada em sentido ortodoxo; 3) Honório escreveu não como Papa, mas como doutor particular…
Quanto a nós, diz Liguório, adotamos a opinião daqueles que colocam o Papa acima do concílio geral, ou de todas as Igrejas, mesmo tomadas coletivamente. Esse é o parecer de Santo Agostinho, São Tomás, São Boaventura, São Bernardo, São João de Capistrano, de Alexandre de Hales, de Baronio, de Belarmino, de Sfondrati, de Pallavicini e de muitos outros. É o parecer do V Concílio de Latrão, sob Leão X, sessão 11. Nesse concílio, foi solenemente recebida a constituição do referido Papa, Pastor aeternus. Ora, nessa constituição lê-se que somente o Romano Pontífice, por ter autoridade sobre todos os concílios, pode, de pleno direito e por sua própria autoridade, convocar, transferir e dissolver os concílios; e isso, como testemunham não somente a Escritura, os Santos Padres e os Pontífices, mas também os próprios concílios.
Quanto ao que os adversários objetam, isto é, que seria inútil os Papas reunirem concílios para decidir questões de fé, se são superiores a estes, pode-se dar uma resposta fácil e convincente, observando que os Papas convocaram os concílios não porque não pudessem, eles mesmos, por si sós, definir as controvérsias de fé, mas para que, sendo as questões debatidas mais solenemente, os hereges fossem combatidos com maior rigor e condenados de forma mais solene; e para que, examinados pela Igreja inteira os dogmas da fé, fossem estabelecidos com publicidade mais esplêndida e aceitos com maior facilidade pelos povos fiéis.
Em vão outros opõem os concílios de Constança e de Basileia; em vão se apresenta o decreto de Constança, que diz: Este sagrado concílio, representante da Igreja, recebe imediatamente seu poder de Jesus Cristo; e todos, qualquer que seja a dignidade que ostentem, ainda que seja a papal, devem obedecer-lhe naquilo que diz respeito à fé, à extirpação da heresia e à reforma geral da Igreja em sua cabeça e em seus membros. — Com efeito, antes de tudo, a maioria concorda que a sessão em que tal decreto foi promulgado é nula; em segundo lugar, ele foi promulgado em uma circunstância especialíssima, quando, por haver três Papas que disputavam o supremo pontificado, não se sabia com certeza qual deles era o verdadeiro e legítimo. Além disso, eleito pelos cardeais o Papa Martinho V, todos lhe prestaram obediência, e os decretos do concílio de Constança tiveram força de verdadeiros decretos na parte que foi por ele aprovada.
Unindo agora tudo quanto a Escritura, os Padres, os bispos e os próprios concílios dizem em favor de nossa tese, conclui Ligório: cada um pode ver por si mesmo como a opinião por nós defendida deve ser chamada, antes que nossa, a opinião, a regra e o juízo da Igreja universal; e como a opinião contrária é sem fundamento, perigosa, contaminada de novidade, oposta à prática da Igreja e, portanto, deve ser rejeitada como fonte de escândalos, tumultos e discórdias (56).
Jesus Cristo deu sua palavra de que as potências do Inferno, isto é, do erro, jamais vencerão a Igreja (Mt 16,18); ora, se a Igreja pudesse enganar-se ou enganar, seria presa do Inferno, e Jesus Cristo sofreria uma desmentida. Em outra passagem, prometeu que pediria ao Pai que desse aos seus Apóstolos o Espírito Santo, o espírito de verdade, o qual permaneceria com eles eternamente (Jo 14,16-17); que dizer agora da oração do Redentor, se a Igreja pudesse errar? Que pensar da veracidade de sua palavra: «Eu vos envio revestidos do mesmo poder que o Pai me deu» (Jo 20,21); e, como este meu poder se estende sobre o Céu e sobre a terra, ide, portanto, por toda parte, e eu estarei convosco até a consumação dos séculos (Mt 28,18-20).
«Quem vos ouve, ouve a mim», disse ainda Jesus Cristo aos seus Apóstolos e, neles, à Igreja; «quem vos despreza, despreza a mim e àquele que me enviou» (Lc 10,16); e «se alguém não obedecer à Igreja, seja tido como pagão e publicano» (Mt 18,17). Jesus Cristo nos impôs o sagrado dever de ouvir e seguir o ensinamento da Igreja, sob pena de sermos considerados pagãos e idólatras; ora, se a Igreja não fosse infalível, como teria Jesus Cristo ordenado que lhe obedecêssemos, ameaçando-nos com pena tão grave? «Ah, Senhor!», exclamava Ricardo de São Vítor, «se é errôneo aquilo que cremos por indicação da Igreja, sois vós que nos enganais» (57).
Ouvi São Paulo, que chama a Igreja coluna e sustentáculo da verdade (1Tm 3,15), e diz que Jesus Cristo será sempre, por todos os séculos, aquele que era ontem e que é hoje (Hb 13,8). Ele era ontem, isto é, existe desde toda a eternidade e esteve nos Profetas; é hoje, isto é, está nos Apóstolos e na Igreja para dirigi-la; estará pelos séculos com a Igreja militante, para torná-la infalível, e com a Igreja triunfante, para coroá-la. Quem não ouviu aquela confissão de Santo Agostinho: «Não creria no Evangelho, se a isso não me impelisse a autoridade da Igreja?» (58). Que outra coisa é isso senão reconhecer a infalibilidade da Igreja?
A razão basta para provar que a verdadeira Igreja deve ser infalível: com efeito, surgindo controvérsias entre os fiéis, quem dirimiria as dificuldades, se a Igreja de Jesus Cristo estivesse sujeita ao erro? Talvez a Escritura? Mas quem ignora que é justamente da Escritura que nascem as dificuldades? Que foi da Escritura mal compreendida que se originaram as heresias? Que da má interpretação da Escritura se espalhou pelo mundo aquela espantosa confusão de opiniões que se chocam entre si, de sentimentos ímpios, de cismas escandalosos, de contradições extravagantes, de deploráveis conflitos: em suma, aquele horrível caos de inumeráveis heresias que vemos infestar a terra? Não vale comparar as diversas passagens para encontrar a verdade? Os adversários comparam essas mesmas passagens e nelas descobrem um sentido inteiramente oposto. Ora, se Jesus Cristo não tivesse estabelecido um juiz vivo, falante, perpétuo e infalível, assistido e inspirado pelo Espírito Santo, que se pronunciasse infalivelmente sobre todas as controvérsias e decidisse com segurança — «Esta é uma verdade de fé; isto é um erro; neste sentido, e não naquele outro, deve ser entendida tal passagem da Escritura» —, sem isso, digo eu, estaríamos sempre na dúvida e na incerteza, sempre errantes de uma opinião para outra. Não haveria religião segura: estes escolheriam qualquer uma ao acaso; aqueles, uma conforme o próprio interesse ou a moda; uns, segundo o seu capricho; outros, conforme as suas paixões, e todos sem jamais terem certeza de coisa alguma. Portanto, para prevenir desordens tão espantosas, para tornar firme a religião, sólida a fé e invariável a Igreja, para conservar em toda a sua pureza e integridade, até o fim dos séculos, o depósito da fé, era necessário que Deus estabelecesse um juiz perpétuo e infalível nas matérias relativas à fé.
Que desordens, que espantosas confusões não se veriam num reino onde não houvesse um juiz com autoridade para pôr fim às contendas, decidir as demandas e compor as diferenças, ou onde houvesse apenas volumes de leis e constituições? Cada um pretenderia que a lei o favorecesse e a interpretaria segundo os seus interesses; os mais poderosos oprimiriam os mais fracos; a injustiça e a violência ocupariam o campo da equidade e da justiça: em suma, tudo seria desordem e confusão.
Assim também, se Deus não tivesse constituído um juiz para definir soberana e infalivelmente os pontos de fé em matéria de religião, a religião cristã não apresentaria senão uma confusão de sentimentos equívocos, opostos e contraditórios, como dão prova os inovadores de todos os tempos, que não quiseram submeter-se às decisões do tribunal estabelecido por Deus. Ou, se Jesus Cristo tivesse se contentado em nos dar um grande acervo de leis e revelar-nos sublimes mistérios no Novo Testamento, sem designar e estabelecer um juiz que explicasse e esclarecesse tais leis e mistérios com magistério seguro e infalível, cada um os orientaria para o sentido que lhe agradasse ou os interpretaria segundo o juízo da seita por ele adotada, como precisamente sempre fizeram os hereges; e assim Jesus Cristo teria deixado o seu Evangelho à mercê de todos os caprichos, de todas as fantasias e de todas as obstinações do espírito humano, e principalmente de todas as paixões humanas.
Uma segunda razão que torna necessário o magistério de um juiz dirigido pelo Espírito Santo é a grande quantidade de Bíblias falsificadas em diversos lugares. Os rabinos corromperam o exemplar hebraico, principalmente nas profecias relativas ao Messias; os santos Padres do Oriente queixam-se de que os hereges de seus dias haviam adulterado o texto grego; os reformadores dos séculos passados falsificaram o latim. E houve versões do Novo Testamento tão maltratadas e maliciosamente deturpadas, que foram necessários vários volumes para demonstrar sua falsidade e suas distorções. Este sempre foi o grande artifício de todos os inovadores, que ordinariamente são espíritos soberbos e presunçosos. Querem, a todo custo, sustentar suas opiniões contra a autoridade da Igreja; uma vez enveredados pelo mau caminho, obstinam-se nele; não querem que se diga no mundo que se enganaram; por isso, quando seus erros são condenados, seu grande empenho e único recurso consiste em fazer versões da Escritura e corromper aquelas passagens que condenam de modo demasiado evidente seus falsos dogmas. Depois, compõem em estilo floreado, imprimem com elegância, encadernam com graça e vendem a baixo preço pequenos livros cujo próprio título serve para ofuscar o povo. São, por exemplo, Notas sobre a Escritura, Paráfrases dos Evangelhos, Análise das Epístolas de São Paulo, Reflexões morais sobre cada versículo do Evangelho e semelhantes, como se pretendessem selar, com a autoridade dos Livros santos, suas notas, paráfrases e reflexões errôneas e heréticas. Esta foi, em todos os tempos, a arma de combate dos hereges. Lutero, Calvino e seus adeptos encheram a Europa de semelhantes livros, compostos com todo o artifício e a malignidade de que pode ser capaz um espírito seduzido, trazendo na capa os títulos mais pomposos e insidiosos, para enganar os simples, os ignorantes e os fracos. Livros envenenados que os partidários do erro faziam então e ainda fazem agora espalhar por seus emissários, ordinariamente às custas comuns. Daí, disputas, jogos de palavras, sofismas e diatribes escandalosas.
Se cada indivíduo tivesse, como querem os hereges, o dom da infalibilidade, jamais teria havido discordâncias entre os fiéis, nem quanto ao número e à canonicidade dos Livros santos, nem quanto à diversidade das versões, nem quanto ao sentido dos textos; todos inspirados pelo Espírito Santo, não poderiam falar senão uma única linguagem. É preciso, portanto, buscar essa infalibilidade em outro lugar que não nos indivíduos; e ela não pode estar em outro lugar senão na Igreja. Além disso, para nos confirmar nessa conclusão, apresentam-se as divergências surgidas no seio dos protestantes e dos hereges acerca do número dos Livros santos, da diversidade das traduções e do sentido dos textos.
Lutero rejeita a Epístola de São João e considera o Apocalipse apócrifo; Calvino é de opinião inteiramente contrária: logo, o juízo particular está sujeito ao erro. Lutero faz uma versão da Escritura, e Zuínglio publica que essa versão corrompe a palavra de Deus; desnecessário dizer que os luteranos afirmam a mesma coisa da versão de Zuínglio. Ecolampádio e os teólogos de Basileia fazem outra tradução, que Beza considera ímpia em muitos lugares, enquanto os de Basileia atribuem a mesma pecha à de Beza, e assim por diante. Consideradas, portanto, essas diferenças, a fé deles não pode ser senão muito duvidosa e, de qualquer modo, não se eleva acima da fé puramente humana. Neles não existe o dom da infalibilidade, porque se contradizem, nem são inspirados pelo Espírito Santo, porque o Espírito Santo é espírito de verdade, ou melhor, a própria Verdade por essência.
Concordam, ao menos entre si, os hereges no que diz respeito ao texto? Aqui se encontra um caos ainda maior de contradições. Sobre este único texto: — Hoc est corpus meum (Mt 26, 26), há mais de sessenta explicações diferentes. Lutero o interpreta no sentido da realidade, mas pretende que o pão subsista sempre. Zwínglio sustenta que estas palavras devem ser entendidas no sentido de que haja no pão a simples figura do corpo do Salvador. Calvino não encontra Jesus Cristo na Eucaristia senão pela fé. A fé dos protestantes deve, portanto, ser incerta, duvidosa, vacilante; e, contudo, todos esses famosos reformadores, ao sair da Igreja Romana, vangloriam-se de possuir uma perfeita compreensão da Escritura. Essa horrível diversidade de interpretação, que com muita frequência recai sobre uma mesma passagem, não revela acaso claramente que eles não estavam tomados pelo Espírito de Deus, que é uniforme em toda parte, mas por um espírito de vertigem e de erro? O que dissemos dos protestantes pode ser dito dos hereges de todos os tempos, os quais não agiram de modo diferente…
É preciso, portanto, que haja um juiz infalível; sem isso, discutir-se-ia até o fim do mundo, jamais se saberia com certeza coisa alguma, cair-se-ia de erro em erro e nada se creria. Se Jesus Cristo não tivesse constituído uma autoridade infalível, teria colocado sua Igreja sobre uma base instável, não sobre a pedra imóvel; as portas do Inferno prevaleceriam, apesar de sua solene promessa; não teria provido suficientemente à conservação do depósito da fé; não estaria com sua Igreja até a consumação dos séculos; sua Igreja não seria a coluna da verdade; a oração feita por Ele, para que a fé de sua Igreja jamais viesse a faltar, seria uma oração inútil e não atendida. Vê-se, portanto, que todas as controvérsias se reduzem a este único ponto; mais ainda, que este é o único ponto de controvérsia discutido em todos os tempos entre católicos e hereges; e, se houve e ainda há heresias, é precisamente porque houve e ainda há, nos dias de hoje, aqueles que se recusam a submeter-se às decisões de tal juiz infalível.
Qual é o juiz estabelecido por Jesus Cristo para decidir, em última instância, todas as controvérsias? Vimos que não pode ser nem a Escritura por si só, porque ela é o testamento sobre o qual se litiga e que constitui o objeto de todas as disputas, nem cada indivíduo, porque todos se contradizem; é, portanto, a Igreja. Mas, entre tantas Igrejas que tiveram ou têm o nome de cristãs, certamente não a ariana, nem a nestoriana, nem a pelagiana, nem qualquer outra das antigas heréticas. Deus comunicou a infalibilidade, pois todas aquelas igrejas caíram em ruína, e a verdadeira Igreja deve permanecer até o fim dos séculos. Tampouco se pode dizer que a infalibilidade tenha sido concedida à Igreja luterana, ou à calvinista, ou à zwingliana, ou à sociniana, ou à anglicana, porque essas Igrejas são novas, contradizem-se e combatem-se mutuamente; e, mesmo dentro de cada uma delas, encontram-se tantas variações e contradições que nem seus próprios autores seriam capazes de reconhecê-las se retornassem à terra.
Este dom da infalibilidade, portanto, não pode ter sido comunicado a ninguém senão à única Igreja católica, apostólica, romana, a qual é a única que traz consigo todos os caracteres da verdade, todos os motivos de credibilidade; e, ainda aqui, não a cada indivíduo da Igreja, porque isso seria uma confusão, um labirinto do qual não se poderia sair. Por isso, Jesus Cristo, que é a Sabedoria incriada e encarnada, não concedeu este dom da infalibilidade a ninguém mais senão ao Papa, quando fala ex cathedra, e ao corpo dos bispos reunidos em concílio geral, unidos ao Sumo Pontífice e agindo de comum acordo com ele.
Para que, porém, a Igreja seja este juiz infalível, é necessário que nela se encontrem certas qualidades ou prerrogativas que não somente a distingam, mas também certifiquem a sua fé. É necessário, portanto, em primeiro lugar, que ela dure sempre e em todos os tempos. “É necessário, diz São Paulo, que haja heresias” (1Cor 11,19); é preciso, pois, em todo momento, um oráculo infalível que as descubra e condene. 2° Que seja governada pelo Espírito Santo; sem isso, jamais estaríamos seguros de coisa alguma. 3° Que essa assistência do Espírito Santo jamais lhe falte, porque, se durasse apenas por algum tempo, Deus não teria provido suficientemente à conservação da fé nos cristãos. 4° Que o Espírito Santo ilumine esta Igreja acerca de todas as verdades reveladas que devemos crer, acerca da canonicidade dos Livros santos, da exatidão fiel das versões, do sentido dos textos e das tradições que são verdadeiramente divinas e apostólicas; pois, supondo que ela não fosse iluminada acerca de uma dessas verdades, já não poderíamos estar seguros das demais. 5° Que esta Igreja seja sempre visível, porque uma Igreja invisível não pode ser consultada nem ensinar. 6° Que ela mesma esteja convencida de ser assistida pelo Espírito Santo. Uma Igreja infalível supõe e exige todas essas prerrogativas. Por isso, Jesus Cristo cuidou de que todos esses pontos essenciais fossem assinalados no Evangelho…
A primeira razão que prova que todas as qualidades de juiz infalível não se encontram senão no corpo dos primeiros pastores está nas palavras de Jesus Cristo. Falando a São Pedro como ao Sumo Pontífice da Igreja católica, apostólica, romana, diz-lhe: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18); ora, quem não vê aqui designada a firmeza inabalável desta infalibilidade contra todos os esforços da terra e do Inferno e contra os assaltos dos erros? Depois de ter falado ao povo, certa vez chamou os Apóstolos à parte e lhes disse: “Ide, ensinai, batizai todos os povos, e eu estarei convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28,19-20). Quem não reconhece, por estas palavras, que a dita infalibilidade será perpétua e ininterrupta, uma vez que Jesus promete estar com eles todos os dias? Em outra passagem, promete aos seus Apóstolos o Espírito Santo, o espírito da verdade, para governar infalivelmente a Igreja, a fim de que permaneça com eles para sempre (Jo 14,16). Ele não promete este Espírito Santo somente para os quatro primeiros séculos, como querem os protestantes, mas para todos os tempos: e eis que daí procede a perpetuidade da infalibilidade. Acrescentando, depois, Jesus Cristo que este Espírito da verdade ensinará aos Apóstolos todas as coisas (Jo 14,26), isto é, toda a verdade (Jo 16,13), indica claramente a infalibilidade universal acerca de todas as verdades.
Ora, considerando-se que, em todas as passagens citadas, Jesus Cristo falava somente aos Apóstolos e, nas pessoas deles, a todos os seus sucessores, que são os únicos bispos unidos e que falam com o Papa, entende-se facilmente quão caro lhe era este artigo de nossa fé, se quis declarar e especificar com tanta precisão tudo o que a ele se podia referir; e isso para prevenir todas as dúvidas, contendas e disputas. E aqui está verdadeiramente o ponto decisivo de toda controvérsia, porque, quando se mantém firme este artigo de fé, tudo está terminado; não há senão que inclinar a cabeça diante deste oráculo infalível, iluminado pelo Espírito Santo e que não pode errar em virtude das promessas de Jesus Cristo, e eis-nos imediatamente seguros da própria fé e religião. Eliminado isso, tudo seria confusão de opiniões diferentes, de religiões diversas, forjadas segundo o capricho, os preconceitos e as paixões de espíritos inquietos e perturbadores. Vede por que o Filho de Deus nada negligenciou para gravar profundamente na mente dos homens este artigo de fé.
Além disso, Jesus Cristo compara a sua Igreja a uma cidade situada no alto de um monte, à vista de todo o mundo; a uma vela acesa e colocada para arder sobre um candeeiro; e aos Apóstolos ordenava que percorressem toda a terra e ensinassem aos homens a ciência e a prática de todas aquelas coisas que dele haviam aprendido, prometendo que ele estaria sempre com eles (Mt 28,20), isto é, que pregaria, ensinaria e decidiria com eles. Mas pode-se pregar e administrar os sacramentos numa Igreja invisível? Não! Eis, portanto, estabelecidas a visibilidade da Igreja e a perpetuidade de sua infalibilidade por todos os séculos.
Finalmente, a Igreja deve estar convencida da própria infalibilidade: ela vê no Evangelho tudo quanto Jesus Cristo disse para que ela fosse tal. Os Apóstolos ensinaram aos seus sucessores como deveriam falar em tais circunstâncias: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15,28); isto quer dizer: pareceu bem a nós, que falamos segundo o Espírito Santo, ou pareceu bem ao Espírito Santo falar por nossa boca. Embora cada um dos Apóstolos tivesse recebido a plenitude do Espírito divino e pudesse decidir a célebre questão suscitada a propósito da observância da lei mosaica, visando, contudo, dar um modelo de conduta a ser observado pelos primeiros pastores ao longo dos séculos, quiseram reunir-se em Jerusalém para pôr fim a uma causa que já começava a causar perturbação entre os fiéis. E assim se fez depois, sempre que surgiram heresias para provocar tumultos e cisões na Igreja.
A segunda razão que estabelece que Jesus Cristo prometeu o dom da infalibilidade somente aos primeiros pastores deduz-se do seguinte: se eles estivessem sujeitos ao erro quando decidem de acordo com a Santa Sé, seria preciso afirmar ou que Jesus Cristo zombou deles, prometendo-lhes, na pessoa dos Apóstolos, este grande dom, ou que o prometeu somente durante o tempo da vida dos Apóstolos, ou que nele não havia poder para cumprir a sua promessa; mas essas suposições seriam outras tantas horríveis blasfêmias, porque lhes havia prometido mil vezes que a sua Igreja existiria até o fim dos séculos.
Os protestantes admitem que a doutrina da Igreja se manteve pura durante os quatro primeiros séculos, mas pretendem que, no quinto, ela sofreu a mistura de grosseiros erros e até mesmo de princípios idolátricos. Mas então é preciso que cheguem também a dizer que Jesus Cristo é aquele insensato de quem ele mesmo fala no Evangelho, o qual fundou a sua casa sobre a areia, de modo que, ao primeiro embate dos ventos, viu-a derrubada. Sim, o divino Salvador não teria, nessa hipótese, fundado a sua Igreja melhor nem mais solidamente, porque, segundo eles, ela caiu em ruína; ou então teria se enganado e teria enganado São Pedro quando lhe dizia: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, de modo que os poderes do Inferno nada poderão contra ela”; ou teria sido obrigado, por falta de poder, a permitir que ela desmoronasse. Não adianta objetar que ele fazia essas magníficas promessas somente aos Apóstolos, porque, para provar que as estendia também aos sucessores, basta recordar aquelas palavras: “Eis que estou convosco até a consumação dos séculos”, e estas outras: “O Espírito Santo permanecerá em vós eternamente”. Ele sabia certamente que os Apóstolos não viveriam até o fim do mundo; de quem, portanto, falava, senão também de seus sucessores? Por isso, pretender que a Igreja fundada por Jesus Cristo caiu em erro não é somente uma horrível blasfêmia, mas, além disso, uma estúpida mentira e a maior das loucuras.
É preciso, portanto, concluir ou que o Salvador não fundou Igreja alguma, o que é manifestamente falso, ou que, se fundou uma, tornou-a firme, inabalável, infalível, sem que jamais erro algum em matéria de fé pudesse infectá-la; e vemos esta promessa cumprida até o presente.
A terceira razão que prova que Deus comunicou o dom da infalibilidade somente aos primeiros pastores de sua Igreja, isto é, aos bispos unidos e agindo de comum acordo com o Papa, que fala como supremo chefe, ou seja, ex cathedra, é esta: somente eles, em todos os tempos, condenaram todas as heresias. Todos os que não estavam unidos a eles na fé foram sempre cortados do corpo da Igreja e considerados, com razão, cismáticos e hereges.
Que artigo de fé, desde Jesus Cristo até o presente, foi alguma vez sustentado com maior vigor em todos os séculos do que o da infalibilidade da Igreja? Houve alguma vez tradição mais antiga, mais constante, mais universal do que esta? Com efeito, ela não foi somente a fé dos simples fiéis, mas também a fé dos maiores Santos, dos mais sublimes Doutores da Igreja.
Do que foi exposto até aqui, é fácil a qualquer um concluir que é nosso dever submeter-nos, sem oposição nem exame, às decisões da Igreja, sob pena de sermos declarados hereges e reprovados, pois o Senhor nos diz abertamente no Evangelho que aquele que não crê já está julgado e condenado (Jo 3,18).
Além disso, estando nós certos de que os primeiros pastores, unidos à Santa Sé, não podem errar na fé, em virtude das promessas de Jesus Cristo, que não pode enganar-se nem enganar e que prometeu aos primeiros pastores a assistência do Espírito Santo até o fim do mundo, não deveria isso bastar para dissipar todas as nossas dúvidas, acalmar as inquietações e tranquilizar a consciência? Sem isso, como já dissemos e convém repetir, jamais estaríamos seguros de coisa alguma, nunca saberíamos o que crer ou o que rejeitar; e haveria tantas religiões quantas são as pessoas, como vemos acontecer entre os protestantes. Mesmo quando às vezes nos parecesse que esses primeiros pastores se equivocam, devemos desconfiar de nossas próprias luzes e submeter nossa mente às suas decisões; e por quê? Porque, de um lado, estamos certos de que nossa ciência é fraca, deficiente e exposta a mil erros, e que não nos foi confiada a missão de julgar; de outro, sabemos com não menor certeza que é infalível o juízo dos primeiros pastores acerca dos pontos relativos à fé, que suas decisões são outros tantos oráculos do Espírito Santo; e tudo isso em virtude das promessas de Jesus Cristo. Ainda que alguém vos mostrasse, com passagens da Escritura e dos Padres, com sutis raciocínios e razões especiosas, o contrário daquilo que foi decidido, permanecei sempre inviolavelmente ligados ao sentimento da Igreja e persuadi-vos sempre firmemente de que tudo quanto se lhe opõe não passa de falsidade, erro, sofisma, sutileza tramada pelo espírito da mentira…
Resta ver sob quais condições Jesus Cristo prometeu a infalibilidade aos primeiros pastores. E aqui, porventura, a primeira dessas condições será que os referidos pastores, chamados a decidir em última instância todas as controvérsias, sejam todos santos? Mas, nesse caso, Jesus Cristo não teria providenciado coisa alguma, porque, consistindo a santidade no coração, onde ninguém nesta terra pode julgar, jamais poderíamos saber quem é santo e quem não é: um parece grande santo e é um refinadíssimo hipócrita. Se, portanto, essa condição fosse necessária, nossa fé seria sempre duvidosa.
2° Exigir-se-á talvez que sejam todos arcas de ciência? Mas os fiéis deveriam ser ainda mais sábios para julgar se eles o são e qual grau de ciência seria necessário para bem decidir. Isso, da parte de Jesus Cristo, teria sido procurar a estabilidade da fé ou, antes, torná-la certíssima?
3° Será sob a condição de que todos tenham reta intenção e não ajam senão movidos por motivos puros e sobrenaturais? Mas quem penetrará no segredo da mente, quem sondará o abismo do coração? E eis-nos novamente diante da incerteza e da dúvida, em vez da firmeza e da segurança.
4° Será necessário que concorra o voto de todos os Bispos? Então seria inútil este dom de Jesus Cristo à sua Igreja, porque jamais será possível reunir todos os bispos, nem materialmente em pessoa, nem moralmente numa só sentença; sempre haverá algum que terá opinião contrária.
5° Será ao menos sob a condição de que sejam banidos de tais assembleias os conluios, as cabalas e as intrigas? Além de isso significar pretender de Deus um milagre desnecessário, pouco se proveria com isso à conservação do depósito da fé, porque ninguém conseguiria tirar da mente dos mais obstinados e insolentes que não tenha havido manobras e cabalas às claras, e, como numerosas delas teriam ocorrido em segredo e às ocultas, os hereges condenados não deixariam de agarrar-se a esse pretexto.
6° Será necessário que o juízo de cada bispo tenha sido precedido por um exame escrupuloso, no qual se tenha confrontado o ponto controvertido com a Escritura e com os monumentos da tradição, e que tudo isso seja conhecido publicamente? Mas como certificar-se e persuadir-se de que isso foi feito? Por acaso os hereges, depois de sua condenação, não se queixaram sempre de que a questão não fora bem examinada, de que a dificuldade não fora bem compreendida? Certamente é necessário que um exame sério preceda a decisão, e seria culpado o bispo que decidisse sem ter discutido com toda a atenção as matérias sobre as quais sentencia: e todos sabem que assim se costuma fazer; mas não foi a essa condição que Jesus Cristo vinculou a infalibilidade prometida aos primeiros pastores, porque ela ainda nos deixaria motivo para temer que não tivessem rezado e examinado suficientemente, e nossa fé, consequentemente, jamais seria firme.
7° Deverá a dificuldade ser resolvida num concílio geral? Mas onde foi que Jesus Cristo falou de concílio geral ou particular? Ele nos encaminha à Igreja, mas não diz que pretende enviar-nos à Igreja reunida. Portanto, a Igreja dispersa, unida ao Sumo Pontífice, é tão infalível quanto a Igreja reunida em concílio.
8° Exigir-se-á finalmente que se tenha certeza de que a sentença dos primeiros pastores é proferida sinceramente, sem que nela entre de modo algum a política, ou qualquer consideração humana, ou temor, ou interesse, ou complacência para com algum poder terreno? Esse, na verdade, sempre foi o ridículo pretexto dos hereges para não se submeterem à condenação proferida contra eles. Mas, se sob essa condição tivesse sido prometida a infalibilidade da Igreja, quem ainda estaria seguro de alguma coisa? Sempre e com a maior facilidade nasceria a suspeita de que os bispos tivessem cedido a objetivos políticos, de interesse ou de temor, e eis-nos sempre hesitantes quanto à validade de seu juízo.
Logo, de nenhuma das condições referidas depende a infalibilidade prometida à Igreja: as promessas de Jesus Cristo são absolutas e não estão ligadas a condições. A infalibilidade está unida à decisão do maior número dos bispos unidos em comunhão e também em sentimento ao Papa. Portanto, sejam os primeiros pastores santos ou não; estejam dispersos ou reunidos; tenham reta ou má intenção; tenham ocorrido intrigas ou não; tenham julgado por objetivos políticos, de interesse ou de qualquer outra natureza; pretenda-se que se tenha faltado à forma canônica ou à uniformidade dos sentimentos; que o juízo dos bispos não tenha sido precedido por exame suficiente; que não se tenha recorrido à Escritura nem ponderado a questão à luz dos monumentos da tradição; que se aleguem todos os pretextos, sofismas, manobras, sutilezas, artifícios e argúcias imagináveis; que se murmure que o procedimento não foi regular, que a sentença não foi canônica: nada disso, nem qualquer outra coisa que a malícia da mente humana, aguçada pela heresia, possa inventar, importa absolutamente coisa alguma: permanece firme que a Igreja, quando se trata da fé, não descuida de nada do que é necessário para tornar certa, indubitável e inviolável a sua decisão.
Repitamo-lo: as promessas de Jesus Cristo são absolutas, não estão ligadas a condições de espécie alguma. Quaisquer que sejam as disposições dos primeiros pastores que julgam sobre a fé, sua decisão é sempre infalível e soa como oráculo do Espírito Santo quando estão unidos ao centro da unidade católica e julgam com o Papa. Pois então a divina Providência disporá infalivelmente os espíritos de tal modo que eles decidirão sempre conforme a verdade e nunca em favor do erro, e isso em virtude das promessas de Jesus Cristo. Se assim não fosse, jamais estaríamos seguros de coisa alguma, nem sequer das decisões dos concílios gerais.
Mas uma decisão clara e precisa da maioria dos bispos, unidos num mesmo sentimento com o Papa, torna a nossa fé firme, certa, isenta de toda dúvida, inquietação, incerteza e perplexidade. Eis a regra infalível do nosso crer, à qual nenhum católico contradiz, pois ela foi, em todos os tempos, a regra de toda a Igreja; e ninguém pode repudiá-la sem declarar-se herege e cismático. A este único ponto se reduzem todas as controvérsias que já houve e haverá no mundo; aqui está o último e supremo tribunal, do qual nunca é permitido apelar. E, na verdade, a Igreja seria um corpo muito mal organizado e pouco firme se não tivesse cabeça nem juiz que compusesse, sem possibilidade de recurso, as diferenças e decidisse infalivelmente as controvérsias às quais a Escritura pode dar origem em matéria de religião; e, para certificar-se disso, basta lançar os olhos sobre todas as demais religiões que se dizem cristãs: nelas não se veem senão corpos monstruosos, precisamente porque não têm cabeça nem juiz que possa decidir de modo seguro e infalível as suas dúvidas e objeções; seguem como única regra a Sagrada Escritura, por elas maltratada, falsificada e interpretada ao próprio capricho; por isso pululam entre elas tantas seitas quantas são as cabeças. Mas, enquanto isso, a verdade só pode ser uma; logo, elas permanecem no erro.
Eis agora as regras que é preciso observar e que sempre foram observadas para um concílio geral: nelas se reconhecem a prudência, a sabedoria e o espírito de Deus, que guiam a Igreja; são, em suma, tais que bastam para fechar a boca a qualquer adversário que não tenha perdido o bom senso e todo o pudor.
1° É preciso, diz Belarmino (De homil, lib. 1, 9, 17), que a convocação seja publicada nas principais regiões do mundo cristão. 2° Nenhum bispo deve ser dela excluído sem causa legítima e grave, como seria o caso de ser herege ou cismático, notório ou excomungado. 3° Que nela se encontre algum bispo, ao menos, das províncias mais ilustres e insignes. 4° O Papa deve presidi-la, pessoalmente ou por meio de seus legados; de outro modo, ela figuraria um corpo sem cabeça, que não representaria a Igreja. 5° Que não seja dissolvida pelo Papa: esta condição decorre da anterior, pois, quando o Papa já não a preside, por si mesmo ou por seus legados, o concílio deixa de existir. 6° Que haja liberdade de voto. 7° Quando terminado, deve ser confirmado pelo Papa: esta confirmação é garantia, para os fiéis, da legitimidade do concílio e a certeza de que nele tudo foi feito canonicamente.
“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 15); “porque eu roguei por ti, Pedro, para que a tua fé jamais desfaleça” (Lc 22, 32).
As ameaças, as perseguições, as heresias, a morte e o Inferno jamais poderão abater a Igreja: Jesus Cristo a anima, a sustenta, a fortalece e a torna invencível; assiste-a nas lutas e combate por ela; por isso, São João Crisóstomo dizia: “Os bárbaros derrubam as muralhas e as fortalezas, mas nem mesmo os demônios podem destruir a Igreja (59)”.
Além disso, prossegue dizendo Santo Agostinho, perseguindo-a, exercitam a sua paciência; caluniando-a, põem à prova a sua sabedoria; tratando-a como inimiga, exercitam a sua bondade, a sua benevolência e a sua caridade. Mas, se pensam em aniquilá-la, enganam-se; ela é mais forte do que eles e, quando os vê arquejando, uns após os outros, a seus pés (60)… É sempre verdadeira a palavra de São Paulo: a Igreja é a coluna e o sustentáculo da verdade (2Tm 3, 15).
Onde se encontram plantas mortíferas, encontra-se também o antídoto contra o veneno. Quando a Igreja é assaltada, combatida e traspassada, Deus fornece remédios poderosos para curar-lhe as feridas. Mal uma heresia ergue a cabeça, Deus já providenciou o doutor que deve cortá-la. Assim, opôs Atanásio a Ário; a Nestório, Cirilo; aos origenistas, Jerônimo; a Pelágio, Agostinho; a Abelardo, Bernardo; aos albigenses, Domingos; a Lutero e Calvino, Belarmino, Bossuet e outros doutores; e, no fim do mundo, fará aparecer, para o extermínio do Anticristo, os seus dois grandes profetas, Elias e Henoc.
“Deus, canta o Salmista, está no meio da sua Igreja, e ela não cairá” (Sl 45, 6).
No mar tempestuoso do mundo, diz Santo Ambrósio, devemos permanecer no navio da Igreja; ventos impetuosos o atormentam, ondas bramantes o assaltam, numerosos piratas ficam à espreita, procurando despedaçá-lo e fazê-lo naufragar; mas ele jamais naufragará, porque a cruz de Jesus Cristo é o seu mastro, o Pai eterno governa-lhe a popa e lhe serve de piloto, o Espírito Santo é o vento que o conduz ao porto, e doze hábeis remadores, que são os doze Apóstolos, guiam-no entre as areias e os rochedos, de modo que ele os vence sem encalhar (Serm. V).
“Estou elevado sobre a pedra, exclama São Bernardo; aqui permaneço seguro e me mantenho firme; apoiado sobre ela, não temo as adversidades, não receio os inimigos; o mundo ruge, a carne me lisonjeia, o demônio arma-me ciladas, mas eu não caio, porque estou fundado sobre uma pedra imóvel (61)”.
“Tu saberás, ó minha Igreja, diz o Senhor pela boca de Isaías, que eu sou o Senhor, tua salvação, tua redenção, o Forte de Jacó” (Is 60, 26). E, por meio de Daniel, predissera que estabeleceria um reino que jamais seria destruído; ao contrário, venceria, subjugaria e faria desaparecer todos os outros reinos, permanecendo ele para sempre (Dn 2, 44).
A Igreja foi violentamente assaltada por todas as forças da terra e do Inferno. Os imperadores pagãos nada deixaram de tentar para sufocá-la em sangue desde o seu nascimento; vários príncipes, em diferentes épocas, saquearam Roma, expulsaram ou barbaramente trucidaram os Pontífices; centenas de seitas heréticas e milhares de escritores furibundos lançaram-se a dilacerar-lhe as entranhas; que não fizeram as heresias de Lutero e Calvino, tão terríveis pelo número de seus seguidores e apoiadas por tantos reis e príncipes? Não puseram elas em ação, durante mais de um século, o ferro e o fogo para exterminar os católicos e derrubar a Sé de Pedro?
Ora, de que lhes valeram seus formidáveis ataques, senão para torná-la sempre mais firme e inabalável? Eis um milagre vivo, um milagre perpétuo…
Todas as seitas que atacaram a Igreja romana e se vangloriavam de ser a verdadeira Igreja de Jesus Cristo caíram; e muito é que ainda reste algum miserável vestígio delas no Oriente, desfigurado, porém, por tantos erros novos, que já não podem ser chamadas as mesmas seitas. Somente a Igreja romana persiste há cerca de dezenove séculos; e quem a sustenta? Se ela não fosse a legítima Igreja, ou se tivesse caído no erro, como dizem os inovadores, sustentá-la-ia Deus de modo tão prodigioso? E, contudo, é a única que se manteve continuamente de pé. E teria Deus mantido por mais de dezoito séculos uma religião falsa e mestra do erro, enquanto teria destruído ou reduzido quase a nada a verdadeira! …
“Ainda que nós mesmos ou um Anjo do Céu, escrevia São Paulo aos Gálatas, vos anunciasse um Evangelho diferente daquele que vos pregamos, não lhe deis crédito e seja anátema” (Gl 1, 8). Eis a regra de fé que nos dá o Apóstolo: se em algum lugar aparecer um novo dogma, examine-se para ver se está conforme à doutrina católica, pregada desde o princípio por São Paulo e pelos outros Apóstolos; se em algum ponto dela discordar, tenha-se por heresia e rejeite-se. Todos os Padres e a Igreja inteira seguiram e ainda seguem esta regra.
Santo Irineu diz (Contra Haeres. lib. III): Se surge uma disputa acerca de um artigo de doutrina, não se deverá, por acaso, recorrer às Igrejas antigas e delas extrair o modo de decidir a questão?
Tertuliano observava que é preciso ver o que os Apóstolos pregaram, aquilo que lhes foi revelado por Jesus Cristo, e apegar-se a isso; nada se deve receber senão pelas mãos daquela Igreja que foi fundada pelos Apóstolos. Toda doutrina que concorda com a fé da Igreja apostólica, com a fé das antigas Igrejas-mães, é uma doutrina verdadeira; toda outra que dela se afasta ou a ela se opõe é erro e mentira. O que foi anunciado desde o princípio provém do Senhor e é a verdade; o que veio depois e não concorda com aqueles primeiros ensinamentos é estranho e falso (De Praescript.).
Orígenes sentencia categoricamente que “se deve considerar herege aquele que professa crer em Cristo e, entretanto, mantém acerca da verdade da fé uma crença diferente daquela definida pela tradição da Igreja (62)”.
Poderiam muito bem ser dirigidas a Lutero, Calvino e a todos os outros heresiarcas aquelas palavras que encontramos numa carta de São Jerônimo a Pammáquio: “Por que vos empenhais em ensinar-nos, depois de quatrocentos anos, aquilo que nunca ouvimos pregar? O mundo foi cristão até agora sem essa vossa doutrina (63)”.
O que se deve crer e manter como doutrina da Igreja católica? “Aquilo, responde o Lirinense, que foi crido por todos, em todos os tempos e em todos os lugares; porque isso é verdadeira e propriamente católico (64)”. A antiguidade e a universalidade da doutrina devem servir-nos de norma: eis por que o grande Apóstolo nos adverte a não dar crédito sequer a um Anjo, quando nos anunciasse doutrina diversa daquela pregada no princípio. Investindo contra o imperador Leão, o iconoclasta, São João Damasceno exclama: Ouvi, povos, tribos, homens, mulheres, meninos, jovens, velhos, santa nação dos cristãos; se alguém vos anunciar algo contrário àquilo que a Igreja católica recebeu e conserva como transmitido pelos santos Apóstolos, pelos Padres e pelos Concílios, não lhe empresteis ouvido, não deis crédito ao seu conselho diabólico, para que não vos suceda como a Eva que, seduzida pela serpente, encontrou a morte. Seja ele um Anjo, seja um rei aquele que ensina algo diferente da Igreja católica, fugi dele, e seja anátema (lib. 2, De imag.). A Igreja romana jamais se afastou de normas tão sábias… Nos tempos de Donato, Santo Agostinho derrubava Gaudêncio com este terrível dilema: Dizei-me, por favor, a Igreja morreu ou não? Se morreu, qual é a Igreja que deu Donato à luz? Se não morreu, que loucura é essa de Donato querer estabelecer outra? (Contra Gaud. lib. 2, c. 8). O mesmo raciocínio pode ser repetido contra todas as Igrejas que se dizem tais.
A verdadeira fé e a verdadeira Igreja são tão inseparáveis que, se a Igreja se afastasse da verdadeira fé acerca de um só ponto, por exemplo, o da invocação dos Santos, necessariamente seria herética, deixaria imediatamente de ser a Igreja de Deus e se tornaria a Igreja de Satanás; do mesmo modo que uma pessoa que erra em qualquer artigo de fé já não é ortodoxa, mas herética, embora em todos os outros pontos pense como os ortodoxos. Raciocino, pois, assim: quando Calvino apareceu, a Igreja havia desaparecido ou não? Admitindo que tivesse desaparecido, e desde os tempos de São Gregório Magno, como querem os inovadores, segue-se que o mundo teria ficado privado, durante novecentos anos, de religião, de sacramentos, de Igreja e de meios de salvação: nesta hipótese, Jesus Cristo teria abandonado sua Esposa, teria cessado o seu reino eterno e, por consequência, as portas do Inferno teriam prevalecido contra a Igreja, apesar da solene e explícita palavra do Redentor; portanto, Jesus Cristo teria mentido. Então Calvino nasceu fora da Igreja, nunca foi um de seus membros, mas um infiel, um pagão, um herege; não deveria, portanto, ter sido recebido e ouvido como fiel pelo povo e pelo mundo, mas antes desprezado e rejeitado como alguém que não pertencia à Igreja. Se, ao contrário, a Igreja não havia desaparecido, se Calvino nasceu, foi batizado, criado e instruído na fé sincera e na verdadeira Igreja, tornou-se apóstata. Por consequência, ao instituir uma Igreja reformada, não estabeleceu a verdadeira Igreja, a Igreja apostólica, mas uma Igreja de apostasia, de cisma e de heresia…
“Em Deus, diz São Tiago, não pode haver mudança nem sombra de variação” (Tg 1, 17). Tal é também a Igreja, à qual convêm aquelas magníficas palavras de Isaías: “Contemplai Sião, a cidade de nossas festas; vossos olhos verão Jerusalém, morada da abundância, tenda inamovível; as estacas que a mantêm fincada ao solo jamais serão arrancadas, nem se desgastarão as cordas que a prendem conjuntamente” (Is 33, 20). “Sim, o Senhor do Céu suscitará um reino que jamais será destruído, mas durará eternamente” (Ib. 2, 44). “E ele mesmo, acrescenta Miqueias, o Senhor Deus, reinará sobre sua Igreja por todos os séculos” (Mq 4, 7).
Digam-nos os protestantes quando teve início a Igreja romana, indiquem-nos o autor da religião católica, assinalem-nos a época e o lugar em que ela deu seus primeiros passos. Onde estavam, trezentos anos atrás, as Igrejas dos luteranos e dos calvinistas? Em lugar nenhum; mas a Igreja romana já existia. Ela existia antes que tivessem vida Ário, Nestório, Cerinto, Ebion, Simão Mago, e desafiamos os adversários a indicar o início da Igreja romana num tempo posterior ao dos Apóstolos… E o que não é menos prodigioso: não se pode acusar esta perpétua Igreja apostólica e romana de qualquer variação. As seitas transbordam de mudanças, a ponto de produzir uma confusão, um caos horrível. Hoje há uma fórmula de fé, amanhã outra, e chegou-se a vê-las surgir várias ao mesmo tempo, como se aquilo que ontem era verdade de fé já não devesse sê-lo hoje, porque mudaram os tempos e os interesses. E de onde provém essa infinidade de variações, senão do fato de que, apenas subtraindo-se à autoridade da Igreja e impugnando suas decisões, os hereges já não tiveram regra segura a seguir? Entregam-se a todos os desvios de seu espírito individual e tornam-se guias de si mesmos. Todos os sectários, antigos e recentes, voltaram a Escritura para interpretações diferentes, segundo o particular desígnio de religião que forjaram em sua mente, e todos condenaram reciprocamente essas explicações. Os calvinistas, por exemplo, rejeitam a interpretação dos arianos, que consideram hereges; mas quem não vê que, pela mesma razão, deveriam condenar a sua própria, porque não são nem mais iluminados nem mais infalíveis que os arianos? E se, como pretendem os calvinistas, cada um tem o direito incontestável de interpretar a Escritura, os arianos também o tinham, portanto, tanto quanto os calvinistas. Por isso, os protestantes e os hereges, quaisquer que sejam, são obrigados, em virtude de seu princípio, tanto a condenar sua própria interpretação da Escritura quanto a aprovar a dos arianos, sendo iguais de ambas as partes a autoridade e o direito.
Depois de terem desprezado o testemunho dos mais célebres Doutores, os hereges perceberam de repente que não podiam sustentar seus dogmas sem violentar a palavra de Deus; e, obrigados a lançar-se nesse abismo extremo, deixaram bem claro quão má e insustentável era a sua causa. Com efeito, nada mais os levou a declarar apócrifos e a fazer com que fossem tidos como tais vários livros canônicos senão o desespero em que se encontravam de poder, ao menos uma vez, torcê-los para o sentido de seus erros. Por que os maniqueus rejeitavam o Evangelho de São Mateus e os Atos dos Apóstolos, senão porque seus princípios os levavam a crer que Jesus Cristo não havia nascido da Virgem e que o Espírito Santo não havia descido sobre os fiéis senão quando o ímpio Manes, seu mestre e paráclito, apareceu na terra? Por que os ebionitas rejeitavam as Epístolas de São Paulo, senão porque queriam restabelecer o uso da circuncisão, condenado pelo Apóstolo? Por que Lutero fala tão insolentemente da Epístola de São Tiago, que não se envergonha de chamá-la viveiro de disputas, coisa vazia, vã, ignóbil como o lodo e o esterco, e, de ponta a ponta, indigna do espírito apostólico? Não é necessário grande estudo para compreender que a isso o obriga o princípio por ele defendido contra a doutrina do admirável Apóstolo: o de que somente a fé, sem as obras, basta para justificar o homem. Por que os seguidores desse heresiarca e os rebentos de sua seita procuram expulsar do cânon das Sagradas Escrituras Tobias, o Eclesiástico e vários outros livros? Porque neles está escrita, em caracteres garrafais, a sua condenação, e neles são claramente convencidos de erro no que diz respeito à proteção dos Anjos, ao livre-arbítrio, ao Purgatório e à intercessão dos Santos.
Se lhes pergunto, acrescenta o padre Campion, com que direito se arrogam o poder de truncar e corrigir as Escrituras, respondem-me que conservam respeitosamente as verdadeiras Escrituras, separando-as das falsas e supostas. A intenção é boa, mas em que autoridade fundamentam essa distinção, e quem é o seu juiz? — O Espírito Santo, replicam eles; e eis de que modo Calvino procura esquivar-se ao juízo da Igreja, à qual somente compete examinar e discernir os espíritos. Mas o Espírito Santo é um só; ora, donde provém que, sendo em todos o mesmo espírito, eles concordem tão pouco em seus sentimentos e vivam continuamente em guerra?
O espírito de Lutero não vê com bons olhos seis Epístolas canônicas; o espírito de Calvino olha-as favoravelmente; e, contudo, ambos têm o mesmo mestre, que, segundo dizem, nada menos é que o Espírito Santo. Os anabatistas riem do Livro de Jó, como se fosse uma fábula, uma verdadeira comédia. Castaglione julga ser uma canção de amor o sagrado Cântico dos Cânticos, no qual são expressas, por símbolos e figuras sensíveis, as mais ternas comunicações da alma com Deus, da Igreja, Esposa de Jesus Cristo, com seu divino Esposo. Quem lhes inspira essa linguagem? O Espírito Santo. Eis de que modo esses reformadores dividem o Espírito Santo e fazem-no dizer tudo quanto lhes passa pela cabeça. Mas o Espírito Santo, que é o Deus da verdade, não pode inspirar contradições; resta, portanto, que seja o espírito do erro, o gênio do mal.
O declínio e a ruína de todas as seitas provam a sua falsidade. Com efeito, nada põe mais a descoberto a falsidade de uma religião do que a sua queda; pois a verdadeira religião de Deus, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, deve permanecer inabalável e invariável até o fim dos séculos, como justamente disse um fariseu chamado Gamaliel, doutor da lei e respeitado por todo o povo. Tendo-se ele levantado no meio do conselho em que se deliberava condenar à morte os Apóstolos que pregavam Jesus Cristo, disse-lhes: “Homens israelitas, cuidai bem do que estais para fazer com relação a estes homens. Porque, antes destes dias, levantou-se Teudas, dizendo ser alguém, ao qual se associou um número de cerca de quatrocentos homens; ele foi morto, e todos os que lhe davam crédito foram dispersos e reduzidos a nada. Depois dele, levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e arrastou o povo consigo; também ele pereceu, e todos quantos o seguiam foram dispersos. E agora vos digo: Não vos ocupeis destes homens e deixai-os; porque, se este desígnio e esta obra vêm dos homens, será desfeita. Mas, se vêm de Deus, não podereis desfazê-los; não vos oponhais, portanto, para não parecer que também combateis contra Deus” (At 5, 34-39). O conselho seguiu esse sábio aviso. Contra a obra de Deus, nada podem os homens. Eis por que a religião romana nunca deixou, nem jamais deixará, de existir. Ao contrário, todas as seitas, que não são senão obra do homem inspirada pelo demônio, caem por si mesmas. Em que se transformaram e em que se transformam todas as heresias? Depois de terem durado mais ou menos tempo, de terem causado maior ou menor alvoroço e passado por muitas ou poucas fases, por fim a morte as espera e as prostra. Sucumbem porque não são criação do Deus da imortalidade e da vida.
A Igreja católica, apostólica, romana permaneceu invariável desde Jesus Cristo até hoje, por sua unidade na fé, nos sacramentos, em suas leis e em sua cabeça. Ela viu sucederem-se à sua frente uma ininterrupta genealogia de sumos Pontífices e de bispos; temos certeza disso pelas histórias e pelos monumentos autênticos que nos registram a sucessão dos primeiros pastores não somente de século em século, mas de ano em ano. E não importa que, por vezes, a eleição de um novo Papa se tenha prolongado por meses e até por anos, ou que tenham surgido antipapas; o intervalo de modo algum destrói a sucessão, porque então o clero e o corpo dos bispos continuam existindo na Igreja, com a intenção de dar um sucessor ao Pontífice falecido assim que as circunstâncias o permitam…
“Seria mais fácil, pregava o Crisóstomo, apagar o sol do que obscurecer a Igreja (65)”.
São Paulo podia dizer, escrevendo aos Colossenses, que o Evangelho havia sido pregado a toda criatura vivente debaixo do céu, isto é, quase em toda parte (Cl 1, 23), e alegrava-se com os Romanos, dando graças a Deus, porque a sua fé era conhecida em todo o mundo (Rm 1, 8).
Isaías compara a Igreja a um alto monte, para o qual todas as nações dirigem o olhar e os passos (Is 22). Jesus Cristo chamava os seus Apóstolos de luz do mundo e dizia-lhes que uma cidade situada no alto de uma montanha não pode ficar escondida; e ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim sobre o candelabro, a fim de que ilumine todos os que se encontram na casa (Mt 5, 14-15).
Estes e tantos outros trechos semelhantes da Escritura não dizem abertamente que a Igreja é visível e que, de modo visível, instrui e nos confirma na verdade por meio de seus pastores, de seus bispos e, especialmente, por meio de sua cabeça suprema, o Papa?
Ah, sim, da Igreja se pode dizer, como do sol, que em seu curso não deixa terra, margem, recanto ou abismo que não ilumine (Ecl 1, 6), e que ela é, à semelhança de seu divino fundador, a verdadeira luz que ilumina toda pessoa que vem a este mundo (Jo 1, 9). Luz sempre resplandecente e que jamais se extingue, facilmente visível àqueles que a amam e encontrada por quem a procura (Sb 6, 13). De modo que, com razão, escrevia Santo Agostinho: “A Igreja católica se estende e abraça toda a terra. Ninguém pode deixar de vê-la, porque, pela palavra de Jesus Cristo, ela não pode permanecer escondida (66)”.
Tobias, contemplando a Igreja, exclamava: “Jerusalém, cidade de Deus, tu brilharás com esplêndida luz, e todos os povos se prostrarão diante de ti. As nações virão de longe para adorar em ti o Senhor, pois invocarão ali um grande nome” (Tb 13, 11-15),
A Igreja católica, apostólica, romana está muito acima de qualquer outra sociedade religiosa por sua elevação, dignidade e glória; e é muito superior, por sua doutrina, por sua vida, por seus costumes e por seu culto, a toda filosofia, a toda sabedoria, a todo gênio, a toda assembleia, em qualquer tempo e lugar. Descendo do Céu, é visível como o firmamento; a ela disse o Senhor pela boca de Isaías: “Constituí-te como luz das nações, para que leves a minha salvação até os confins da terra” (49, 6).
É dogma de fé que fora da Igreja não há salvação; portanto, a razão exige que ela seja tão visível que todos, em geral, possam contemplá-la; e ela faz ressoar a sua voz por toda margem e toda terra, diz o Salmista (Sl 18, 5).
«Estenderei a minha mão sobre as nações, já havia anunciado Deus pela boca de Isaías, e erguerei o meu estandarte diante dos povos (Is 49, 22)». Este estandarte é a cruz. «Levantarei entre as nações um sinal, e enviarei alguns dos que forem salvos à África e à Lídia, outros à Itália e à Grécia, outros às ilhas longínquas, aos povos que não ouviram falar de mim e não viram a minha glória; e eles lha anunciarão» (Is 66, 19). Por isso, o Profeta, em santo entusiasmo, exclamava: «Levanta-te, Jerusalém, abre os teus olhos à luz que já avança em tua direção, e a glória do Senhor te envolve» (Is 60, 1). «Até mesmo os povos que tateavam nas trevas viram uma esplêndida luz, e fez-se dia claro para aqueles que habitavam a região das sombras da morte» (Is 9, 2).
«Penetrarei até as entranhas da terra, diz de si mesma a Igreja no Eclesiástico, lançarei o olhar sobre todos os que dormem e iluminarei todos os que esperam no Senhor; difundirei a minha doutrina como profecia, deixá-la-ei como herança àqueles que buscam a sabedoria e não cessarei de anunciá-la à sua posteridade até que chegue o século santo» (Eclo 24, 45-46). A Igreja, à imitação de seu divino fundador, destruiu a morte, como se exprime São Paulo, «e fez resplandecer, por meio do Evangelho, aos nossos olhos, a luz da vida e da incorruptibilidade» (2Tm 1, 10). Esta luz é a ciência, a graça, o esplendor, a glória do Evangelho, que a Igreja recebeu o mandato de anunciar. Por isso, São Jerônimo comenta assim as palavras citadas: «Chegou a luz que todos os Profetas prometiam, que o universo aguardava» (Comment.).
A Igreja é a luminosa estrela que se ergueu sobre o mundo, é o astro que conduz aos pés de Jesus Cristo os homens de boa vontade…
É necessário que a verdadeira Igreja seja sempre visível; de outro modo, como culpar e negar a salvação àquele que não entra numa Igreja que não se vê? E, contudo, é palavra de Deus que fora da Igreja não há salvação…
Ora, a Igreja romana sempre foi visível, mesmo em meio à mais densa fumaça das perseguições; portanto… Quando se pergunta aos arianos, aos donatistas, aos luteranos e semelhantes em que parte do mundo estavam as suas igrejas antes que Ário, Donato, Lutero etc. houvessem estabelecido as suas seitas, respondem-nos que viviam invisíveis e não conhecidas pelos católicos; que conservavam em seus corações a pureza da religião de Jesus Cristo, até que chegasse o dia designado por Deus.
Mas qual é a falsa religião que não possa ser enxertada e legitimada sobre este princípio? Antes de Lutero e Calvino, isto é, durante o curso de mil e quinhentos anos, a religião deles não existia, a menos que queiram fazer-se descendentes dos hereges anteriores. Não há, portanto, outra Igreja verdadeira senão a Igreja católica, apostólica, romana, que não somente sempre existiu, mas sempre foi visível ao mundo inteiro…
O que mais me toca na Igreja romana, dizia Santo Agostinho, é o seu nome de católica. Só ela, entre as mil igrejas que assim se intitulam, possui legitimamente este precioso título, porque, mesmo quando os hereges se vangloriam de ser católicos, se acontecer de um estrangeiro perguntar-lhes onde se encontra a Igreja católica, não ousam indicar as suas basílicas ou o seu templo, mas o encaminham à Igreja romana (67).
«Assim como não há senão um Senhor, uma fé, um batismo, um Deus, Pai de todos, assim também não há, escreve o venerável Beda (68), senão uma única Igreja católica, que abrange a multidão de todos os eleitos espalhados por todas as regiões da terra, por todos os séculos do mundo e sujeitos a um só e mesmo Deus».
Cristão é o meu nome, dizia o santo bispo Paciano; católico é o meu sobrenome: aquele me designa, este me aponta. O nome de cristão me distingue dos infiéis; o de católico me distingue entre os cristãos, pois todo católico é sempre cristão, mas nem todo cristão é sempre católico (69).
«Alegre-se e exulte no Senhor o mundo inteiro, escreve Santo Agostinho; ninguém se alegre sozinho, mas toda a terra esteja em júbilo: exulte a Igreja católica, porque só ela ocupa a terra. Quem quer que se mantenha à parte e separado dos outros não quer exultar, mas uivar (70)».
A Igreja se eleva até o Céu e se aprofunda no Purgatório, que é a prisão da Igreja; abrange todos os tempos e todos os séculos e preenche o universo. A Igreja romana é a única Igreja que, diante de tantas seitas heréticas, traz o belo nome de católica. O Profeta a contemplava e exaltava quando predisse que ela dominaria de um mar a outro e estenderia o seu cetro até as extremidades da terra (Sl 71, 8); e, assim como o Espírito do Senhor encheu o universo, também a Igreja, animada pelo Espírito Santo, abraça todas as nações.
A catolicidade da Igreja começou na pessoa dos Apóstolos com um estupendo prodígio, isto é, a diversidade das línguas no dia de Pentecostes. Cada um, atestam os Atos dos Apóstolos, os ouvia falar em sua própria língua. Partos, medos e elamitas, os habitantes da Mesopotâmia, da Judeia, da Capadócia, do Ponto, da Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito, da Lídia, os de Cirene e os estrangeiros vindos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses ou árabes, todos ouviam narrar, em sua língua, as grandezas de Deus (At 2, 6-11). A partir dos Apóstolos, a Igreja se dilatou por todas estas e por mil outras regiões…
O monte sobre o qual habita o Senhor, diz Isaías, está acima das colinas e dos mais altos cumes; as nações afluirão a ele como ondas (Is 2,2). Notai o milagre: os rios correm para baixo; aqui, porém, vão para o alto, as nações sobem; à graça se deve este prodígio, pois ela eleva os corações. Jesus Cristo predisse esta afluência de povos e nações ao seio da Igreja, profetizou a sua catolicidade com estas palavras: “Quando eu for elevado da terra (erguido na cruz), atrairei tudo a mim” (Jo 12,32). E as nações dirão umas às outras: Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó (Is 2,3).
A Igreja, pela sua universalidade, é comparada por São Bernardo a um imenso céu que se estende sobre o mundo inteiro: nele, a lua é a fé; a estrela da manhã é a esperança; o sol é a caridade; as estrelas são as virtudes e os Santos (Serm. in Cantic.).
Levanta e volve ao redor os teus olhos (ó minha Igreja), diz-lhe o Senhor pela boca de Isaías; todos estes povos que vês agitar-se reuniram-se para vir a ti, e eu te juro que serão para ti como a veste com que se adorna a esposa. Os teus desertos, as tuas solidões, a terra semeada de tuas ruínas já não serão suficientes para conter a multidão que vem a ti. Os filhos da tua esterilidade (os filhos da antiga lei) irão repetindo-te: O lugar é demasiado estreito; dá-nos espaço onde habitar. E tu dirás contigo mesma: Quem deu estes filhos a mim, que era estéril (sob a sinagoga) e não dava à luz? Eu estenderei a mão sobre as nações, erguerei diante dos povos o meu estandarte, e eles, ao vê-lo, correrão para ti, levando nos braços os seus filhos e sobre os ombros as suas filhas. Teus nutridores serão os reis e as rainhas; diante de ti se prostrarão e lamberão o pó dos teus pés (Is 49,18-23). Alarga o espaço de tuas tendas; estende as peles de teus pavilhões, prolonga as cordas, reforça as estacas, porque te expandirás à direita e à esquerda, e a tua descendência dominará as nações e habitará as cidades desertas (Ib. 54,2-3). Então verás a tua multiplicação, e o teu coração se admirará e exultará quando se voltar para ti a multidão do outro lado do mar, quando povos poderosos vierem a ti. Serás inundada de camelos, dos dromedários de Madiã e de Efa; virão os sabeus, trazendo ouro e incenso e cantando louvores ao Senhor. Quem são todos estes que voam como nuvens e como pombas para os seus pombais? É porque as ilhas me esperam e, desde o princípio, os navios do mar, para que eu conduza de países longínquos os teus filhos com os seus tesouros, a fim de honrarem o Deus que te cumulou de glória. Os filhos dos estrangeiros reconstruirão as tuas muralhas, e os seus reis te servirão… As tuas portas estarão sempre abertas; não se fecharão nem de noite nem de dia, para que te seja trazida a multidão das nações com os seus príncipes à frente; pois a nação e o reino que não te servirem perecerão; as terras que não te acolherem tornar-se-ão desertas. A ti virá a glória do Líbano, e a ti se apresentarão humildes e arrependidos aqueles que te insultavam, e te chamarão cidade do Senhor… Farei de ti a glória dos séculos, a alegria de geração em geração… Porei a paz como teu governo e a justiça como teu supervisor (Ib. 60,5-17). Estas magníficas palavras, nas quais é vaticinada e descrita a Igreja católica, podem ser chamadas antes história que profecia.
Ah, sim, a Igreja católica é aquela pedra que Daniel viu desprender-se do monte, sem que mão humana a tocasse, e que, crescendo enormemente em pouco tempo, tornou-se um vastíssimo monte que ocupou toda a terra (Dn 2,34-35).
“O número dos filhos de Israel crescerá a tal ponto que igualará os grãos de areia do mar, que não podem ser medidos nem contados” (Os 1,10). Esta profecia de Oseias começou a cumprir-se nos dias de Jesus Cristo, que anunciou o seu Evangelho aos israelitas e aos judeus; continuou sob os Apóstolos e seus sucessores, os bispos e os missionários, por meio dos quais as nações entraram no seio da Igreja.
A Igreja estabelecida sob a autoridade do Romano Pontífice é a única em favor da qual se cumpriu a promessa feita por Deus à Igreja de Jesus Cristo, quando lhe anunciou pela boca do Salmista que lhe daria as nações em herança e lhe concederia o domínio sobre toda a extensão da terra (Sl 2,8).
Foi ela que executou a ordem dada por Jesus Cristo aos Apóstolos: “Ide, ensinai todas as nações. Espalhai-vos por toda a terra para pregar o Evangelho a toda criatura” (Mt 28,13; Mc 16,15). Portanto, somente a ela convém propriamente e verdadeiramente o sinal visível da universalidade, da catolicidade. Pelo testemunho de seus inimigos, ela sempre possuiu, com exclusão de qualquer outra Igreja, este glorioso e divino distintivo… O fato fala claramente e não teme contestação.
Nenhuma seita pode oferecer um espetáculo semelhante. Que Lutero, Calvino e todos os demais sectários nos demonstrem, se forem capazes, que Deus prometeu às suas Igrejas dar-lhes as nações em herança e toda a terra por império; que nos enumerem, ao longo dos séculos, os reinos e as províncias conquistados por suas Igrejas: não poderão indicar-nos outros senão os que possuem atualmente, e estes já arrancados à força, outrora, da Igreja romana. E quanto tempo duraram as seitas? E em quantas outras não se dividiram? Ora, podem estas ser chamadas Igrejas universais ou católicas? … A Igreja romana conta fiéis em todo o mundo; onde estão os deles? …
Lemos em São Paulo que “Jesus Cristo amou a Igreja a ponto de entregar-se por ela, para santificá-la, purificando-a pelo batismo de água, com a palavra da vida, a fim de apresentá-la diante de si cheia de glória, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e imaculada” (Ef 5,25-27).
A Igreja é chamada cidade dos santos (Is 25,8), pomba única (Ct 4,3), sustentáculo da verdade (1Tm 3,15). Ora, todos estes títulos, que convêm somente à Igreja católica, apostólica, romana, são títulos de glória que provam a sua santidade. Ela é a Igreja de Jesus Cristo, habitada e governada por Deus, espiritualmente, por sua graça, e corporalmente, na Eucaristia. Além disso, santo é o Evangelho…; santos são os sacramentos…; santa, a doutrina; santa, a moral; santo, o culto da Igreja…; todos os seus membros são chamados à santidade, e em todos os tempos houve muitos deles verdadeiramente santos e grandes santos…
A que Igreja pertenciam tantos milhões de ilustres mártires? À Igreja católica romana. De que Igreja eram filhos um Santo Atanásio, um São Jerônimo, um São João Crisóstomo, um Santo Agostinho etc., e tantos outros personagens ilustres pela ciência e pela santidade? Da Igreja católica romana. E os Antônios, os Paulos, os Hilariões, os Simeões Estilitas etc., e aquele exército de anacoretas que povoaram os desertos do Egito e da Tebaida, de que outra Igreja eram membros senão da católica romana? Que Igreja seguiram, em todos os séculos, aqueles milhões de virgens que renunciam a todas as coisas no mundo para se consagrarem a Deus no claustro; aquelas religiosas hospitalares que se esquecem de si mesmas para prodigalizar, noite e dia, nos hospitais, nas prisões, nas galés e nos campos de batalha, os mais assíduos e penosos cuidados a uma multidão incontável de infelizes? A Igreja católica romana. Qual Igreja nutre, educa, forma e envia aqueles milhares de grupos de zelosos missionários que, em todos os séculos, foram vistos abandonar parentes, amigos, pátria, honras e fortuna, e partir para regiões remotas, submetendo-se a toda espécie de privações, expondo a vida a perigos terríveis e à morte, para salvar almas que jamais conheceram? A Igreja católica, apostólica, romana. A quem deve o mundo as grandes instituições de caridade e beneficência que honram os ricos e socorrem os pobres? À Igreja católica…
Em qual das outras religiões encontrais vós todas, ou mesmo apenas algumas destas coisas? … Em qual das seitas encontrais as profecias e os milagres, selo da santidade? Tudo é frio e silencioso, até mesmo as suas cerimônias, os seus templos e os seus altares; mas que digo, os altares? Já não possuem nenhum; destruíram-nos… Uma prova invencível da santidade da Igreja católica deduz-se disto: todos aqueles que verdadeiramente querem santificar-se recolhem-se ao seu seio; ao passo que todos aqueles a quem apraz viver segundo as paixões e os desejos da carne, sem obediência, sem freio, sem regra, saem dela para entrar em alguma seita…
A religião católica romana é, de todas as religiões, a mais santa ou, para melhor dizer, a única santa. Todas as outras se mostram muito fáceis e complacentes com a carne e o sangue, deixam soltas as rédeas do libertinismo do espírito e da corrupção do coração; negam à Igreja e às autoridades eclesiásticas, estabelecidas por Deus, a sujeição que lhes é devida; insinuam um espírito de revolta até mesmo contra os soberanos da terra, igualmente constituídos por Deus para governar os povos; rejeitam de suas práticas as austeridades, as abstinências, os jejuns, a confissão, o celibato, tudo aquilo, em uma palavra, que se torna molesto aos sentidos e às paixões corrompidas… Compareis a pretensa santidade de todas as seitas com a sincera santidade da Igreja católica, apostólica, romana, e as vereis tão diferentes entre si quanto o Céu é diferente do Inferno.
Esta não se contenta em expor, em teoria, máximas santas e austeras, mas conforma a elas sua conduta, e é a única religião na qual se observam as mortificações, tão e tão calorosamente recomendadas na Escritura, sobretudo no Novo Testamento; nela se professam os conselhos evangélicos por muitíssimas comunidades, tanto de homens como de mulheres. Em todas as outras religiões assim chamadas não encontrais sequer a sombra de todas essas observâncias, que são o caminho e o foco da santidade.
“Não há salvação em nenhum outro, diz São Pedro, pois não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4, 12). Somente Jesus Cristo é a salvação do mundo; Ele, portanto, é a única verdade; ora, foi Ele quem fundou a Igreja católica romana, e esta Igreja é sua esposa; ela é, pois, a única Igreja verdadeira.
“O Senhor me ensinará os seus caminhos, lemos em Isaías, porque de Sião sairá a lei” (Is 2, 3). A lei sairá de Sião, isto é, da Igreja, mas não a lei judaica, e sim a lei evangélica, a lei cristã, a lei da graça, a lei vivificante dada não menos aos gentios que aos judeus.
Não há seita que não pretenda ser superior a todas as outras e que não jure ser a verdadeira Igreja de Jesus Cristo; entretanto, é necessário que todas essas seitas, que se chamam cristãs, estejam enganadas, exceto uma; pois Deus não pode ter revelado duas religiões opostas, contrárias e contraditórias uma à outra. Quem poderá, por exemplo, persuadir-se de que Deus revelou que um mesmo mistério é e não é; que em Deus há e não há três pessoas; que o Verbo eterno se encarnou e não se encarnou; que Jesus Cristo está realmente presente na Eucaristia e que nela não está; que o Inferno será eterno e que não o será; e assim por diante? Não, não é possível que Deus tenha revelado essas contradições, porque isso seria absurdo e, em um ou em outro caso, mentiroso. Ora, Deus não pode ser nem absurdo nem mentiroso; logo, não pode haver senão uma única religião que seja verdadeira, e esta não pode ser outra senão aquela revelada por Deus…
Entre todas essas seitas, permitam-me escolher duas, a de Lutero e a de Calvino, por exemplo, e eu lhes dirigirei as seguintes perguntas:
1° Direis vós que a vossa religião vem em linha reta dos Apóstolos? Mas onde estava a vossa Igreja antes de Lutero e de Calvino? Nem tenteis remontar a João Huss, a Jerônimo de Praga, a Wiclefo, aos albigenses, aos valdenses, porque nada ganhareis com isso. As religiões destes eram diferentes entre si e diferentes da vossa: medeia um longo intervalo entre a morte deles e o vosso nascimento; e, antes dessas seitas, onde estava a vossa? Pois elas apareceram muito depois da religião estabelecida pelos Apóstolos…
2° Direis que credes tudo o que contém a pura palavra de Deus; que encontrais clara e manifesta a vossa religião na Escritura; que comparastes texto com texto? … Mas todas as outras seitas dizem o mesmo… Acrescentais que as outras seitas não entendem a Escritura, que se enganam? Mas também nos é permitido dizer-vos a mesma coisa. E, se tendes a coragem de afirmar que o Espírito Santo vos guia, elas também o juram; e, como tanto vós quanto elas vos contradizeis, resulta evidentemente que nem vós nem elas sois governados pelo Espírito Santo.
3° Defendereis vossa posição dizendo que credes em muitos mistérios da religião romana e em todas as verdades necessárias à salvação? Mas nós vos observamos que jamais houve seita herética que não proclamasse conservar tudo o que é necessário à salvação e ter preservado algum dogma da Igreja romana. Como vedes, nisso caminhais lado a lado com todos os demais hereges…
4° Direis que em vossa religião há muitas coisas boas? Mas toda heresia, e até mesmo o maometismo, nisso procede do mesmo modo que vós…
5° Ireis ao ponto de dizer que a vossa religião é a mais santa? Mas como desculpá-la do sensualismo, quando ela não só não louva, mas condena as austeridades do corpo, as mortificações da carne, os jejuns, as abstinências, o celibato, a confissão; ensina que basta a fé, sem as obras, para alcançar a salvação; rejeita os conselhos evangélicos? Os vossos pretensos reformadores, não satisfeitos em eliminar tudo o que se opõe à concupiscência, foram além, legitimando toda espécie de vícios, pois sustentaram como dogma de sua religião que nenhum pecado é imputado àqueles em quem há fé; e Calvino, vosso grande patriarca, não se envergonhou de apresentar esta horrível impiedade: que um homem que tenha fé, ainda que esteja manchado por qualquer das mais enormes perversidades, está, contudo, tão certo de sua própria salvação quanto o próprio Jesus Cristo. E uma Igreja assim será ela a verdadeira Igreja? …
6° Direis que a vossa Igreja é a mais universal? Mas como? Se está circunscrita a alguma região e, mesmo ali, por causa dos cem partidos em que se divide, ocupa um espaço quase imperceptível em comparação com a vasta extensão de terra em que floresce a Igreja romana…
7° Recorrereis aos milagres para confirmação de vossa religião? Mas onde estão eles? Mostrai-me uma seita na qual tenha acontecido sequer um só, enquanto a Igreja católica romana vos apresenta, ao longo de todos os séculos, grande quantidade deles, certos, públicos e autênticos.
8° Direis vós, Lutero e Calvino, que recebestes vossa missão imediatamente de Deus? Mas, além de jamais conseguirdes prová-lo, seria facílima a tarefa de quem quisesse demonstrar que a recebestes do demônio, pois a árvore se conhece pelos frutos; causa admiração que Deus vos tenha enviado tão tarde; e que fazia Ele, durante o curso de quinze séculos, de sua Igreja, à qual havia solenemente prometido estar com ela até a consumação dos tempos? …
9° Direis finalmente, ó protestantes, que vossos reformadores purificaram a Igreja de seus erros, de suas superstições, de sua idolatria; que a poliram, reformaram e restituíram à pureza primitiva? Mas onde surgiu jamais herege tão pouco zeloso que não tenha pretendido reformar a Igreja romana e reconduzir a religião à pureza primitiva? E, depois, que autoridade tinham Marcião e Ário, não menos que Lutero e Calvino, para se constituírem reformadores da Igreja universal? Quem eram eles? De onde vinham? De quem haviam recebido poderes tão plenos? Ó reformadores, que todos tendes necessidade de ser reformados, saístes do seio da verdadeira Igreja, porque nada aborrecíeis mais do que serdes reformados por ela! Qualquer canalha faccioso e turbulento pode, como todos esses pretensos reformadores, erigir-se em censor da Igreja universal; terá, de qualquer modo, direito e autoridade iguais aos do monge Lutero e do cônego Calvino; poderá, por sua vez, reformar a reforma deles, do mesmo modo que esses dois reformadores tiveram o poder de reformar a Igreja católica, apostólica, romana. Mais ainda: será absolutamente necessário reformar a reforma de Lutero e de Calvino, pois eles confessam estar sujeitos ao erro e à mentira; daí se segue que também puderam errar em sua reforma. Portanto, segundo seus princípios, será preciso substituir reformadores por reformadores até o fim dos séculos, sem que jamais se possa saber qual tenha sido a reforma boa e verdadeira… A Igreja católica, apostólica, romana, que está isenta de todas essas falhas, é, portanto, a única Igreja verdadeira…
Quão poderosa não deve ser a Igreja que tem por cabeça aquele Pedro a quem Jesus Cristo prometeu tamanha firmeza e força, que em vão contra ele combateriam as forças do Inferno; a quem deu as chaves do Céu, assegurando-lhe que aquilo que fizesse na terra seria ratificado no Céu! (Mt 16, 18-19).
Que poder, autoridade e força não deve ter aquela Igreja que tem por fundamentos aqueles que foram enviados pelo mundo pelo Verbo divino, revestidos desse mesmo poder, munidos das mesmas credenciais que o Pai eterno havia dado a Ele! (Jo 20, 31); aqueles aos quais o Filho de Deus disse: “Foi-me dado todo o poder no Céu e na terra; ide, portanto, e ensinai todas as nações” (Mt 28, 18-19); “quem crer será salvo; quem não crer será condenado” (Mc 16, 16).
A pregação dos Apóstolos triunfa; a fé abate a incredulidade; a verdade fulmina a mentira; a caridade de Jesus Cristo extingue o ódio; a paciência vence as tribulações, as perseguições, a morte… “A Igreja, diz Santo Hilário, tem esta particularidade: perseguida, floresce; oprimida, cresce; desprezada, resiste; ferida, conserva suas forças; atacada pelos sofismas, mordida pela calúnia, aguça a inteligência, manifesta sua ciência; e mostra-se tanto mais vigorosa e firme quanto mais parece estar agonizante e vencida (71).”
“Nenhuma força, diz o Crisóstomo, pode vencer a Igreja, porque Deus, que é mais forte que toda criatura, é Ele mesmo a Igreja (72).” Sim, acrescenta São Bernardo, o Deus único, que é o esposo, é a cabeça; e a esposa, que é a Igreja, é o corpo (Serm. in Cantic.).
“Minha predileta, diz o Senhor, eleva-se entre as filhas como o lírio entre os espinhos” (Ct 2, 2). Assim como o lírio nasce, cresce e floresce também em meio aos espinhos, assim a Igreja se desenvolve, cresce e se fortalece em meio aos hereges e aos maus cristãos, que, semelhantes a espinhos cruéis, a pungem, ferem e dilaceram; ela se assemelha ao lírio por seu esplendor, pela pureza e pelo suave perfume de sua doutrina e santidade. Que mais? As perseguições lhe dão vigor, e, nas provações, sua fama e seu poder se consolidam.
“Vós sereis”, anunciava Jesus Cristo, “como cordeiros no meio de uma matilha de lobos.” Ó grande milagre do poder da Igreja! Os cordeiros são mais robustos que os lobos, a tal ponto que os superam, derrubam-nos e os transformam em cordeiros. Vede Salilo… A Igreja é a torre de Davi, cercada de bastiões, munida de elmos, escudos e toda a armadura dos fortes (Ct 6, 4). É um campo entrincheirado, uma fortaleza inexpugnável; é mais terrível que um exército valoroso disposto em ordem de batalha (Ct 4, 3). Dela se pode dizer, como de Maria, que esmaga a cabeça da serpente infernal (Gn 3, 15); e, embora sendo uma só, pode tudo (Sb 7, 27).
Quem jamais teria acreditado, exclama o Crisóstomo, que a cruz de Jesus Cristo esmagaria os ídolos, e que os discípulos do Crucificado chegariam a tamanha glória e poder? Ó, que terríveis e ferozes inimigos a Igreja teve de enfrentar! Contudo, jamais foi vencida. Quantos tiranos, príncipes e imperadores a combateram com ataques encarniçados! Augusto, Tibério, Cláudio, Diocleciano, Domiciano, Décio, Nero, Juliano, o Apóstata, etc., tentaram abatê-la e destruí-la com as prisões, o ferro, o fogo, a força e a astúcia; e agora jazem cobertos da execração de todos os séculos, enquanto a Igreja, por eles ferozmente combatida, sobe às estrelas. Os doze Apóstolos, furiosamente maltratados tanto pelo mundo como pelo Inferno, triunfam, e aqueles que se lhes opuseram desapareceram; aqueles doze cordeiros dispersaram inumeráveis bandos de lobos ferozes e os venceram somente com as armas da paciência, do Evangelho, da cruz e do próprio sangue (Homil. de Cruce).
É belo ver, acrescenta Santo Agostinho, as potências deste século subjugadas e domadas não pelas conquistas, mas pela morte dos cristãos; e os templos dos falsos deuses, por cuja causa os discípulos do Senhor eram mortos, desertos e arruinados. É belo contemplar as grandezas terrenas prostradas aos pés de um pescador, de um Pedro, deporem seus diademas e rezarem (De coelest. Vita).
O Deus do Céu, já predizia Daniel, fará surgir um reino que jamais será destruído, e cujo cetro não passará às mãos de nenhum outro povo: esse reino vencerá e unirá a si todos os demais reinos, e subsistirá eternamente (Dn 2, 44). Uma pedrinha desprendeu-se do monte e, rolando, veio atingir a estátua em seus pés de ferro e argila, fazendo-a em pedaços. Então se despedaçaram todos juntos o ferro, a argila, o bronze, a prata e o ouro, e se tornaram como pó varrido pelo vento de verão, sem que sequer se encontrasse o lugar onde haviam estado; mas a pedra que havia quebrado a estátua tornou-se uma imensa montanha, que encheu toda a terra (Ib. 2, 34-35). Essa pedra, desprendida por si mesma de uma montanha, é a Igreja toda celeste de Jesus Cristo; a estátua composta de ouro, prata, bronze, ferro e argila é o paganismo, são as heresias que a Igreja vence e das quais triunfa, enchendo o mundo inteiro de seu esplendor divino e de seus inúmeros benefícios.
O reino de Jesus Cristo, que é a Igreja católica, apostólica, romana, supera todo outro reino por oito poderosas e preciosas prerrogativas: 1º por sua duração…; 2º por sua extensão…; 3º pela força e eficácia com que Jesus Cristo nela domina os espíritos, as almas e os corações, transformando homens soberbos, corrompidos, rebeldes, endurecidos, incrédulos e perseguidores em homens mansos, humildes, puros, obedientes, cheios de fé e ardentes de amor divino…; 4º pelos efeitos que nela se produzem, pois aqueles que se submetem ao reino de Jesus Cristo são libertados do demônio, do pecado e do Inferno, e se tornam filhos de Deus, herdeiros do Céu…; 5º pela maneira como Jesus Cristo, que é seu monarca, triunfou sobre os outros reinos; não foi pelo terror das armas nem pelas astúcias da política que os Apóstolos o ampliaram e tornaram poderoso, mas por meio da cruz, da pobreza e da humilhação; refreando as paixões com a paciência, o desinteresse e o martírio; inspirando o desprezo das honras, das riquezas e dos prazeres terrenos, e acendendo o desejo das coisas celestes…; 6º pelas leis sapientíssimas, santíssimas e facílimas de observar que o governam e que prescrevem a castidade, a inocência, a caridade, a santidade e a perfeição…; 7º pelo fim que determinou sua instituição, isto é, criar e formar reis para o Céu…; 8º por seu rei, que é Jesus Cristo, Rei dos reis, Senhor dos senhores, eterno e imutável…
“Deus, já profetizava Daniel, dará à sua Igreja o poder, a honra e o império; todos os povos, todas as tribos e todas as línguas lhe estarão submetidos. Seu poder é um poder eterno, que jamais lhe será tirado, e seu reino é um reino que nunca será desmembrado” (Dn 7, 14).
“O Senhor sairá, havia também dito Zacarias, e combaterá contra as nações” (Zc 14, 3). Deus saiu para combater contra as nações quando Jesus Cristo começou a submeter à sua Igreja, por meio do Evangelho, homens outrora rebeldes e inimigos.
A Igreja romana não se sustentou, nem ainda se sustenta, senão com as armas espirituais, a ameaça dos castigos divinos, a oração e a paciência. Todas as seitas se estabeleceram e se mantiveram com o auxílio dos facciosos e das potências terrenas. Mas nisso não há somente nada de sobrenatural e divino: tudo é grosseiramente natural e humano, e os mais estúpidos bárbaros saberiam fazer isso tão bem quanto os mais hábeis hereges…
O poder da Igreja exerce-se por meio da caridade; com efeito, em todos os tempos ela se vingou de seus inimigos pela bondade, pela paciência, pelo perdão e pela oração… Ela sempre praticou aquele mandamento do Salvador: Fazei o bem àqueles que vos fazem mal… Orai por aqueles que vos perseguem e caluniam… Se algumas vezes brande a espada da excomunhão, fá-lo unicamente constrangida, para a salvação de seus filhos.
“Sou morena, mas bela” (Ct 1, 5), pode repetir a Igreja com a Esposa dos Cânticos. Está enegrecida pelas paixões que ao seu redor se agitam, a golpeiam e a esmagam, tentando sufocá-la; mas é bela pela constância invencível que manifesta seu espírito e por sua sublime paciência. Está enegrecida, lívida pelas pancadas que lhe desferem seus agressores, mas é bela: 1º pelo esplendor e pela graça inerentes à sua força, à sua humildade e às demais virtudes que adquire e põe em prática com a resignação que demonstra em meio aos diversos assaltos de que é alvo… 2º é bela pelas coroas que prepara para si no Céu… 3º é bela pelo imenso cortejo dos Santos que a reconhecem como mãe. “O suor e a poeira da luta tornam-na negra, diz Santo Ambrósio, mas ela aparece bela quando reveste as insígnias da vitória. O ouro puro não teme a ferrugem, mas ganha em beleza; assim acontece com a Igreja (73).” Por isso o Senhor lhe diz: “Tu és bela, ó minha amada; sim, tu és bela; teus olhos são de pomba” (Ct 1, 16).
A Igreja possui uma dupla beleza: exterior e interior. É bela em si mesma e em seus filhos que lhe estão sujeitos; bela na terra e no céu; bela no combate e no triunfo; bela na vida presente pela graça, e na futura pela glória.
“Tu és toda bela, em cada parte, repete-te o divino Esposo, e não há em ti sombra de mancha” (Ct 4, 7). A estas palavras certamente aludia o grande Apóstolo quando anunciava aos Efésios que Jesus Cristo amou tanto a sua Igreja que se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a, a fim de que ela comparecesse diante dele resplandecente de glória, sem nenhuma mancha, nem ruga, nem coisa semelhante; mas santa e imaculada (Ef 5, 25-27).
A Igreja é bela: 1º pela beleza da lei evangélica que professa…; 2º pelo conhecimento de Deus, da verdadeira fé e do verdadeiro culto…; 3º bela em suas cerimônias, em seus ritos, nos ornamentos e na magnificência dos templos…; 4º bela pela beleza dos sacramentos…; 5º bela pela graça e pela justiça inerentes aos fiéis, aos justos e aos Santos…; 6º bela por seus religiosos, Doutores, Confessores, Virgens, Mártires etc.…; 7º bela, finalmente, por todas as suas prerrogativas, suas qualidades, suas virtudes e sua divindade… Por isso é sentimento comum de todos os comentaristas que não somente da Virgem, sua Mãe, mas também da Igreja, sua Esposa, fala o Senhor quando diz: “Quem é esta que avança como a aurora nascente, bela como a lua, resplandecente como o sol, terrível como um exército pronto para a batalha? Quem é esta que sobe do deserto, repleta de delícias, apoiada em seu amado?” (Ct 6, 9; 8, 5).
À lei convém igualmente aquele elogio da Sabedoria: “Posta em comparação com o sol e com todas as outras estrelas, ela as vence em beleza; comparada com a luz, ela a supera” (Sb 7, 29). Isto quer dizer que a Igreja é mais resplandecente, mais luminosa, mais ornada e mais elevada que o sol e todos os astros; sua luz é a própria luz de Deus.
Jacó teve duas esposas, Lia e Raquel: aquela, de olhos enfermos; esta, formosa (Gn 29, 17). Eis a figura da Igreja: repleta das graças e dos dons do Espírito Santo, a Igreja, esposa de Jesus Cristo, é interiormente bela como Raquel, ao passo que, desfigurada pelas cruzes e adversidades, representa exteriormente Lia. Mas, assim como esta foi mais fecunda que a outra, assim também a Igreja se torna tanto mais fecunda quanto mais aumentam suas provações e quanto mais se aproxima do Calvário, para unir-se, pela imitação, ao seu divino Esposo crucificado.
São Bernardo chama a Igreja de ampla e bela vinha plantada pela mão do Senhor, resgatada com seu sangue, regada por sua palavra divina, dilatada por meio da graça e fecundada pelo Espírito Santo. Nessa vinha nasce toda espécie de flores: a violeta da humildade, o lírio da castidade, a rosa da caridade etc. (Serm. in Cantic.).
«Alegra-te — exclama São Paulo com Isaías — ó estéril, que não dás à luz; irrompe em louvores e alegres brados, tu que não és fecunda, porque são muito mais numerosos os filhos da abandonada do que os daquela que tem marido» (Gl 4,27). A gentilidade, antes de Jesus Cristo, era estéril e abandonada por Deus; não tinha nem a fé nem a graça: era desprovida de filhos, de fiéis, de santos; mas tornou-se, pela graça de Jesus Cristo, fecundíssima…
«Estéril por longo tempo — diz São Jerônimo — a Igreja não se tornou fecunda antes que Cristo nascesse de uma Virgem; mas, depois que esta deu Jesus Cristo ao mundo, também ela deu muitas gerações a Deus (74).» De modo que pode repetir com Isaías: «Quem deu estes filhos a mim, que era estéril? Eu estava só e abandonada, e de onde me vieram eles? Eu estava banida de minha terra e gemia como escrava; quem os alimentou?» E os filhos da esterilidade dirão: «O lugar é estreito demais; alargai as muralhas, para que possamos habitá-lo» (Is 49,21).
«A santa Igreja — escreve Santo Ambrósio — imaculada no matrimônio, fecunda nos partos, é virgem pela castidade e mãe pela prole. Esta virgem, portanto, fecundada não pelo homem, mas pelo Espírito Santo, nos dá à luz; e não em meio às angústias, mas entre as alegrias angélicas; alimenta-nos não com o leite de seu seio material, mas com o leite espiritual dos Apóstolos. É virgem pelos sacramentos e pelas virtudes; é, ao mesmo tempo, mãe dos povos… Ela não tem marido, mas esposo. E o esposo da Igreja é o autor da sã doutrina, porque, sem nenhum detrimento do pudor, une-se ao Verbo de Deus, como a seu esposo eterno: estéril de culpa, fecunda de inteligência (75).»
Jesus Cristo — diz Santo Agostinho no livro Da virgindade, cap. 1 — filho da Virgem, esposo das virgens, nascido corporalmente de um seio virginal, une-se espiritualmente à alma por um esponsal virginal; e, também ela virgem, a Igreja católica é a esposa de Jesus Cristo. De quanta honra não são dignos os membros desta Igreja, que conservam a virgindade também no corpo, assim como a Igreja a conserva na fé — a Igreja que reproduz em si a mãe de Jesus Cristo! Sendo também ela, como Maria, virgem e mãe. Louvamos sua virgindade enquanto falamos de sua fecundidade. Maria deu corporalmente à luz a Cabeça do sagrado corpo da Igreja; a Igreja gera espiritualmente os membros desta Cabeça divina. Na Igreja, como em Maria, a virgindade não impede a fecundidade; tanto numa como na outra, a fecundidade não faz perder a virgindade.
Maria concebeu do Espírito Santo; também a Igreja concebe do Espírito Santo seus numerosos filhos; Maria gera o Filho de Deus; a Igreja gera filhos para Deus; Maria deu à luz Aquele que desceu do Céu; a Igreja dá à luz filhos que sobem ao Céu; Maria deu à luz Aquele que abre o Paraíso; a Igreja dá à luz aqueles que nele entram. Maria é virgem e mãe fecunda; tal é também a Igreja; e tanto nesta como naquela, a fecundidade unida à virgindade encerra um grande milagre. É o Espírito Santo que torna fecundas as duas virgens: Maria e a Igreja! …
Esta velha mãe, a Igreja, que conta mais de mil e novecentos anos, sempre perseguida, sempre no Calvário com seu divino esposo, é sempre virgem e sempre fecunda. Esposa de Jesus Cristo, dá-lhe numerosa prole, não de nove meses como as outras, mas todos os dias, a cada instante, em todos os lugares do mundo. Ela concebe inumeráveis filhos para Deus e para Deus os gera, amamenta, educa, veste, alimenta, corrige, instrui, acompanha no tempo e conduz à eternidade da glória, seguindo as pegadas e permanecendo ao lado de seu divino Esposo, que coroa juntos a mãe e os filhos…
A teoria e a experiência proclamam que a Igreja católica, apostólica, romana é a mãe da verdadeira ciência. Se a Europa detém o primado nas ciências, deve-o unicamente ao Cristianismo, diz De Maistre (Soirées de Saint Pétersbourg); e não alcançou por outro caminho aquele elevado grau de civilização e de ciência ao qual a vemos chegar, senão porque começou pela teologia; pois as universidades, de início, não foram outra coisa senão escolas de teologia, e as ciências, enxertadas nessa planta divina, sorveram dela e derramaram a seu tempo a seiva celeste mediante uma imensa vegetação.
A Igreja e a ciência são irmãs; aqueles que pretendem — diz o autor dos Anais de filosofia — que uma deva excluir a outra, aqueles que se gloriam de amar esta e odiar aquela, não possuem a verdadeira ciência, por não terem a verdadeira religião… Certamente não era esse o sentimento dos antigos, pois não há povo entre o qual não se encontrem a ciência e a religião, unidas em fraterno abraço, caminhando lado a lado. E, primeiramente, vemos claramente em nossos Livros santos que a invenção e o aperfeiçoamento de todas as obras da arte são atribuídos à intervenção imediata de Deus, começando pelas primeiras vestes com que o homem foi revestido e chegando até à construção dos navios. Entre os egípcios e entre os celtas, em Atenas como em Roma, os depositários da ciência eram os sacerdotes; eles inventaram as artes, acumularam a experiência, transmitiram as tradições e escreveram as histórias que nos restam. Sobre o altar, por assim dizer, as ciências tiveram seu berço; nos templos, sua educação e desenvolvimento; sob o olhar dos sacerdotes, vigor e beleza. Por isso vemos nos povos profundamente gravado o pensamento de que a ciência devia à religião seus progressos, e os sábios não relutam em atribuir-lhe seus triunfos.
Mas, assim que o orgulho invadiu a ciência, ela enlouqueceu. Em seu nome, tudo foi desfigurado, posto em dúvida, desviado. As artes prostituíram-se a serviço das paixões; as ciências deliraram atrás de soluções absurdas; a filosofia, tendo-se inimizado com a razão, caiu em contradições tão grosseiras, enormes, palpáveis e evidentemente irracionais que as pessoas mais simples, aquelas que ainda conservam algum resto de bom senso, zombaram de suas sentenças, de suas demonstrações e de suas descobertas. Por isso, as grandes questões do mundo — os átomos, o éter, o movimento, a matéria, Deus, a alma, a vida futura — são para nós motivo de piedade e tristeza, ao vermos em que miseráveis sutilezas se consumiam aqueles doutos que trabalhavam longe de Deus e sem Deus.
Surge no horizonte a viva luz do Evangelho, e todo o universo é por ela iluminado. Então a ciência começa a entrar em seu verdadeiro caminho; a civilização separa-se do paganismo, vergonha da humanidade, e todas as artes, reunidas, vêm prestar homenagem à religião.
Depois, nos séculos de barbárie, enquanto tudo ao redor desaparecia — a religião civil, os ritos, os costumes e os usos eram violentamente interrompidos e, diria quase, sepultados vivos; toda a antiga civilização desmoronava juntamente com as artes —, a Igreja chamou a si as ciências e, em seu santuário, único asilo inviolável, acolheu-as. Ali, enquanto em toda parte reinavam a ignorância, a barbárie e a ferocidade, lançavam-se em segredo e no silêncio as bases sobre as quais se deveria erguer o novo estado social. Espetáculo maravilhoso e estupendo! Como se as ciências tivessem precisado ser regeneradas e purificadas, por meio da penitência, dos excessos aos quais se haviam prostituído, eram sacerdotes austeros, cenobitas fervorosos, cristãos que pensavam que uma só coisa é necessária — salvar a alma —, aqueles que pregavam contra a ciência que incha, que professavam, à imitação do grande Apóstolo, não saber de outra coisa senão de Jesus crucificado, aqueles que nos conservaram a língua do circo e do foro, as tradições das ciências e os segredos das artes. E a religião, agindo assim, quis conservar para nós as histórias do mundo e mostrar-nos os homens que figuram no teatro da humanidade.
Onde estavam então os doutos e os sábios que, por tanto tempo, haviam elevado seus pensamentos contra Deus? Tinham desaparecido como palha ao sabor do turbilhão. De que valiam aqueles eternos reproches, aqueles contínuos lamentos sobre a ignorância dos cristãos e, especialmente, do clero? Se restava algum vestígio do passado, se havia um historiador, um poeta, um verdadeiro filósofo, um erudito em qualquer ciência, era preciso procurá-lo na Igreja ou no claustro, entre as pessoas de jejum e penitência, entre aqueles que mais se aproximavam dos altares, a tal ponto que literato e clérigo, sábio e sacerdote soavam, na boca do povo, como sinônimos… A eloquência latina e grega, a história, a literatura, a arquitetura, a jurisprudência, a ciência da guerra, todos os conhecimentos, numa palavra, saíram dos claustros, que se haviam tornado seus guardiães, e mostraram-se novamente ao mundo, puros e regenerados…
E então, em meio a essa sociedade cristã, bela pela verdade e rica de virtudes, surgiu em determinado momento e manifestou-se o propósito de emular e, se o Céu o quisesse, até mesmo superar tudo quanto a ciência e a arte antigas haviam sabido produzir de mais perfeito. Tendo como modelos e guias as obras conservadas pelos sacerdotes, como estímulo os encorajamentos dos Papas e sob a luz daquelas sublimes inspirações que a religião sabe comunicar àqueles que se dedicam a seu serviço, surgiram em breve Michelangelo e Rafael, ergueu-se a Basílica de São Pedro em Roma; todas as artes voltaram a ser honradas; e, antes que terminasse o século XVII, já não havia campo algum em que os modernos tivessem de invejar alguma coisa aos antigos.
A Igreja possui a verdadeira ciência, e nada teme mais do que a ignorância, assim como não tem outros adversários senão os ignorantes e os orgulhosos… O cristão pode dizer com a Esposa dos Cânticos: “Eu te tomarei, ó Senhor, na casa de minha mãe (a Igreja), e ali tu me instruirás” (Ct 8, 2). E à Igreja se aplicam aquelas palavras da Sabedoria: “Nela reside o espírito de inteligência, santo, único, múltiplo, sutil, eloquente, ativo, incontaminado, infalível, suave, amante do bem, penetrante, irresistível, benéfico, amigo dos homens, benigno, constante, seguro, tranquilo, que tudo pode, tudo prevê e contém todos os espíritos, inteligente, puro” (Sb 7, 22-23).
Quando Montesquieu, arrebatado de admiração diante dos benefícios espalhados pelo Cristianismo sobre a sociedade, exclamava cheio de entusiasmo: — Admirável coisa! A religião cristã, que parece voltada exclusivamente para alcançar a felicidade da outra vida, também constitui a nossa prosperidade na presente; — pagava ao Cristianismo, diz o autor dos Anais da filosofia, a dívida da humanidade; proclamava uma verdade que, para sua desgraça, povos e governos pareciam ter esquecido com demasiada frequência.
Universal era a escravidão antes que surgisse o Cristianismo, e nosso ânimo não suporta percorrer as cenas daquele monstruoso poder que impiedosos senhores exerciam sobre infelizes escravos. Considerava-se coisa insignificante condená-los aos trabalhos mais penosos, sem que quase nunca os alegrasse a esperança de voltar a ser livres; julgava-se coisa de nada que, sendo escravos do Estado e dos cidadãos, fossem açoitados em determinadas ocasiões, para que jamais esquecessem sua condição; introduzira-se também o costume de aviltá-los mediante a embriaguez, para que pudessem ser tratados como feras e, como tais, se pudesse dar-lhes caça.
Com semelhante crime abominável, os espartanos preludiavam e se adestravam no ofício das armas. Atenas, de costumes menos atrozes, compensava a crueldade espartana com a multidão de escravos. Contra vinte mil cidadãos que a cidade de Péricles encerrava, contavam-se quatrocentos mil escravos.
Roma, que devia seu nascimento a escravos fugitivos, pareceu recordar-se por algum tempo de sua origem e tratou humanamente seus prisioneiros. Mas logo a escravidão ali se introduziu, e essa cidade matava seus escravos quando envelheciam. Excluídos da sociedade humana, despojados, tanto quanto possível, do caráter que a natureza lhes conferira, não eram, por sua condição, muito diferentes das bestas de carga, felizes quando não tivessem de invejar a sorte dos animais com os quais compartilhavam o trabalho. Aqueles que eram destinados ao cultivo das terras arrastavam continuamente grilhões nos pés; pouco e vil era o alimento que lhes forneciam, e passavam as noites sobre um leito de palha, encerrados em subterrâneos mofados e infectos. Não havia tribunais aos quais pudessem levar suas queixas, nem asilos onde se subtraíssem à crueldade de seus tiranos. A fuga, único meio que lhes restava para se livrarem da opressão, apresentava-se horrenda, cercada de tantas e tão espantosas ameaças, de um futuro tão sombrio, que, só de contemplá-lo de longe, sentiam desfalecer-lhes a coragem e abandonavam o propósito. Que dizer dos maus-tratos a que deviam submeter-se caso fossem surpreendidos na fuga? Lançados no circo para servirem de alimento às feras, ou marcados com ferro em brasa, lembravam a cada instante a seus companheiros de infortúnio que o mais enorme delito do escravo era horrorizar-se com a escravidão e suspirar pela liberdade. Falaremos depois daqueles jogos horrendos, nos quais o sangue de milhares de escravos corria em regatos para divertir e ocupar os ócios do povo rei? Daqueles jogos em meio aos quais as vítimas, impelidas à morte, ainda se inclinavam diante do tirano e, ao passar, dirigiam-lhe a saudação: Morituri te salutant?
A legislação era toda cúmplice desses excessos horríveis: havia deixado ao senhor um direito absoluto sobre a pessoa e a vida de seus escravos. Dir-se-ia que a maior parte do gênero humano não devia nascer, viver e morrer senão para proveito de alguns seres privilegiados, que fundamentavam seus direitos na força bruta e haviam extraído do sangue seu odioso poder. Tal era o infeliz estado da sociedade quando apareceram sobre a terra Jesus Cristo e a Igreja com o Evangelho, destinados a renovar-lhe a civilização, destruir a escravidão e trazer-lhe a verdadeira liberdade, a igualdade possível e a sincera fraternidade.
Mas essa mudança tão desejável não foi realizada pelo Verbo de Deus, pela Sabedoria eterna, de modo imediato e violento, mas pouco a pouco e lentamente. Jesus Cristo não disse bruscamente aos escravos: — Eu vim quebrar os vossos grilhões; retomai, pois, os vossos direitos; — nem investiu contra os senhores com palavras de cólera e ameaça: teria convulsionado e destruído, em vez de salvar, a sociedade; apareceu, ao contrário, entre os homens, humilde, pobre e revestido da forma de servo e quase da condição de escravo (Fl 11, 7); desse modo começou a elevar-lhes a alma, mostrando-lhes que não a condição terrena, mas o coração e a virtude formam o homem. Voltando-se depois para os senhores, disse-lhes: “Quero que aprendais de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29).
Elevando finalmente a voz e preparando a emancipação do mundo, ao recordar ao homem a dignidade de sua origem, pronunciou abertamente estas palavras, que haveriam de soar tão duras ao orgulho dos senhores da terra e tão consoladoras ao coração do pobre: “Um só é o vosso mestre, um só é o vosso pai, que está nos céus, e vós sois todos irmãos” (Mt 23, 8-9). Em breve essas palavras simples provocaram uma revolução no mundo. Proferidas num obscuro recanto da Ásia, espalharam-se rapidamente pelo mundo e nele operaram prodígios. Exponhamos em breves palavras o progresso dessa obra sublime e maravilhosa de emancipação, liberdade, igualdade e fraternidade, benefícios exclusivos do Cristianismo.
Jesus Cristo havia encerrado sua missão e deixado a terra, confiando aos discípulos o cuidado de completar sua obra divina. A humilde simplicidade do pescador estava para triunfar sobre a orgulhosa ciência do filósofo. São Paulo já comentava as palavras de seu divino Mestre e percorria o universo, que acolhia, estupefato, suas doutrinas de amor puro e caridade ardente, jamais ouvidas até então; ele impregnava dessa moral, descida do Céu, as admiráveis instruções que temos dele sob o nome de Epístolas, dirigidas por ele mesmo aos diversos povos que havia convertido à fé. “Senhores, pregava ele, dai a vossos servos aquilo que a justiça e a equidade exigem, sabendo muito bem que também vós tendes, assim como eles, um senhor no Céu” (Ef 6, 9). E outras vezes: “Já não há escravo nem livre, porque vós sois todos um só corpo em Jesus Cristo” (Gl 3, 28). Ou ainda: “Não há gentio nem judeu, nem circunciso nem incircunciso, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre; mas Jesus Cristo é tudo em todos” (Cl 3, 11). E isso ele não dizia apenas de passagem, mas comprazia-se em recordar com muita frequência essa igualdade, liberdade e fraternidade que o Cristianismo veio trazer e estabelecer, pela virtude de Jesus Cristo, em meio aos homens.
A Igreja nascente formava seu espírito segundo o espírito de seu divino fundador e de seus primeiros discípulos. Oh! como eram rápidos os felizes efeitos que poucas palavras da Igreja produziam nas relações entre os senhores que se haviam tornado cristãos juntamente com seus escravos! E poderiam eles porventura inspirar-se em outros sentimentos que não os de pais e filhos, quando se encontravam, no seio da família, na presença daqueles servos que pouco antes haviam visto na assembleia dos fiéis, rezar ao lado deles; acolher com eles a mesma palavra do bispo, exortando à caridade de Jesus Cristo; alimentar-se, à mesma mesa, do Corpo e do Sangue do Cordeiro imaculado? Como saía bom e doce o mandamento de sua boca, quando se dirigiam àqueles escravos, purificados como eles na fonte sagrada, revestidos como eles de Jesus Cristo e admitidos em sua companhia à fração do pão! Há, pois, motivo para admirar que tais senhores e tais servos logo chegassem a formar um só coração e uma só alma?
Aqueles escravos, porém, que ainda não haviam sido iluminados pelo Cristianismo, tocados, comovidos e maravilhados pela doçura e afabilidade que viam em seus senhores, perguntavam-se que religião seria aquela que inspirava tanta benevolência para com os escravos; e eis que logo se tornavam adoradores do Deus da caridade, do Deus dos cristãos…
Novas conquistas fazia o Cristianismo a cada dia, tão logo foi conhecido no mundo. O espírito de doçura e humanidade, que é sua alma, ia-se insinuando lentamente nas entranhas da sociedade, de tal modo que até os imperadores pagãos chegaram a sentir, sem o saber, algum efeito de sua benéfica influência. O imperador Adriano retirou dos senhores o direito de vida e de morte, que lhes fora concedido pela feroz legislação da república; e, sob esse aspecto, os escravos quase partilharam da condição dos cidadãos, pois a pena capital foi posta sob o poder do magistrado, que não a ordenava senão depois de certo julgamento. Ainda mais longe avançou Adriano, decretando um castigo que necessariamente feriu o orgulho romano: estabeleceu a pena de morte contra os senhores que tivessem matado os escravos sem razão; e essas ordenanças, em alívio da condição servil, foram confirmadas por Antonino Pio. Depois de terem posto a salvo sua vida da crueldade dos senhores, deram passos mais adiante e encerraram dentro de certos limites a violência e a brutalidade; os templos abriram-se para servir de asilo às vítimas; a estátua do príncipe, seu benfeitor, à qual os infelizes iam agarrar-se quando toda outra esperança estava perdida, estendia sobre eles uma mão protetora.
Não acompanharei passo a passo os progressos dessa feliz e grandiosa revolução realizada pela Igreja, nem me deterei a enumerar os atos legislativos de cada um dos imperadores cristãos no que diz respeito à emancipação dos escravos e à liberdade. Constantino, Justiniano, Leão, o Sábio, Basílio, rivalizaram entre si para dar a verdadeira liberdade, estabelecer, dentro do possível, a igualdade e afirmar a fraternidade. Tudo aquilo que era consagrado pela religião trazia consigo ideias de liberdade tão intimamente ligadas, que se chegou até a crer que a bênção nupcial conferida pelo sacerdote a um casal de escravos deveria assegurar-lhes a liberdade; e senhores avarentos, apavorados com tal pensamento, não permitiam que seus escravos fizessem abençoar, aos pés dos altares, a união matrimonial. Foi necessário um édito do imperador Basílio para remediar essa desordem de senhores estúpidos e desnaturados.
Em todos os tempos e em todos os lugares onde teve império, ou mesmo apenas influência, a Igreja católica, apostólica, romana, viu-se a sã liberdade, a justa igualdade e a verdadeira fraternidade caminharem com ela lado a lado; e adulterarem-se, corromperem-se e desaparecerem onde quer que ela tenha sido impedida ou proscrita. Basta lançar um olhar à miserável e desonrosa condição que o maometismo impôs a regiões outrora católicas.
Só a religião sustenta o oprimido contra o opressor e abranda as leis. Foi o espírito do Evangelho que proscreveu a exposição dos filhos; foi o espírito do Evangelho que ditou aquelas leis cheias de humanidade para com os devedores, as quais substituíram a legislação das Doze Tábuas, que permitia despedaçá-los. É a Igreja que, terna para com o pobre e severa para com o rico, proibiu a usura. E a quem se deve, senão à influência da Igreja, o abrandamento das leis penais? Esta máxima: a Igreja abomina o sangue, é a regra do sacerdócio católico. O concílio de Sardica ordenou aos bispos que interviessem como mediadores nas sentenças de banimento e exílio.
Além disso, não é porventura a religião que torna o homem senhor de suas tendências desregradas? «Onde está o espírito de Deus — e, por conseguinte, o espírito da Igreja, que é o mesmo espírito —, aí está a liberdade», diz São Paulo (2Cor 3,17). E «quem comete pecado — acrescenta Jesus Cristo — torna-se escravo do pecado» (Jo 8,34). Ora, a religião, isto é, a Igreja de Jesus Cristo, combate e destrói o pecado, favorece e concede o espírito de Deus; traz, portanto, a verdadeira liberdade, a liberdade dos filhos de Deus. Observai, ao contrário, o homem sem religião, fora da Igreja: ele é, pobre infeliz, ludíbrio e escravo de tantos tiranos quantas são as paixões a que serve; nunca é livre…
A Igreja católica, apostólica, romana, é verdadeiramente a esposa de Jesus Cristo, a única e verdadeira Igreja por Ele estabelecida: e nós o provamos por meio de sua antiguidade, unidade, infalibilidade, perpetuidade, firmeza, visibilidade, catolicidade, santidade, poder, veracidade, caridade, beleza, virgindade fecunda, ciência, por meio de seu zelo e de seus benefícios…
A falsidade das outras igrejas é provada por sua fundação, sua novidade, suas variações, a diversidade de seus sentimentos acerca da Escritura, o mau uso que dela fazem, as falsificações dos textos a que recorreram, suas invectivas, sua separação da Igreja universal, sua indivisibilidade, suas contradições, sua corrupção e as blasfêmias de seus fundadores etc.
Compare-se, finalmente, a religião desta Igreja com todas as outras religiões do mundo; apresente-se-nos outra religião mais antiga, mais firme, mais santa, mais universal, mais animada de zelo e mais santa na mesma unidade de crença. Apresente-se-nos outra religião, outra Igreja, que tenha sido atacada com maior furor e violência por todas as potências da terra e do Inferno, e por milhares de seitas heréticas, desde Jesus Cristo e os Apóstolos até nós; e que, entretanto, se tenha mantido, como esta Igreja, sempre mais firme e inabalável em meio às furiosas tempestades, sempre vitoriosa e triunfante sobre toda sorte de inimigos. Mostre-se-nos outra religião que traga consigo sinais mais numerosos e seguros da verdade, motivos mais numerosos, fortes e poderosos de credibilidade, caracteres mais indubitáveis de divindade; mas esperaremos em vão por longos séculos. E, enquanto eu não descobrir nas outras religiões nada que não seja inteiramente natural, humano, carnal, nada que exale verdadeira piedade e santidade, mas antes sensualidade terrena e grosseira; enquanto não vir nas outras igrejas que se dizem cristãs senão novidades e litígios, variações e contradições, calúnias e imposturas para denegrir a Igreja romana, desacreditar o Sumo Pontífice e os primeiros pastores, lançar má fama sobre os defensores da verdadeira religião, um caos inesgotável de opiniões diferentes, não somente dentro da mesma seita, mas ainda, com frequência, acerca de um mesmo artigo; enquanto encontrar nas outras Igrejas uma multidão de apóstatas que renegam uma profissão divina para se casar e viver dissolutamente, renovando continuamente o exemplo de Lutero e Calvino; desses novos apóstolos que seus partidários pretendiam ter sido suscitados milagrosamente para reformar a Igreja e que, não obstante, contradiziam-se a cada passo, lançavam uns contra os outros as mais sanguinárias injúrias e excomungavam-se mutuamente; enquanto esses novos reformadores se apresentarem a mim sob a aparência de homens orgulhosos, soberbos, obstinados, trapaceiros, gente de espírito farisaico, que prega aos outros uma moral severíssima que de modo algum pratica, que faz de Deus um ser cruel, um salvador que não quer salvar todos os homens e que não morreu por todos; inovadores profanos cujo sistema sobre a liberdade e a graça conduz ao mais infame relaxamento; que, sempre condenados, sempre zombam de toda condenação, ainda que seja a dos concílios gerais, e, obstinados em seus erros, não se dobram para ouvir nem obedecer; enquanto, no tumulto das seitas proteiformes, luterana, calvinista, sociniana, jansenista, metodista etc., eu não encontrar senão excessos espantosos e, ao mesmo tempo, nenhuma razão que prove a verdade de sua Igreja, nenhum caráter de verdade, nenhum motivo de credibilidade, mas sinais de erro e falsidade como os acima alegados; enquanto, repito, eu vir tudo isso, manter-me-ei sempre inviolavelmente unido à Igreja católica, apostólica, romana, a única que Deus sustenta firme ao embate de tantos e tão formidáveis assaltos, a única que Deus tornou invencível, inabalável e indefectível, e terei em abominação todas as seitas, que não transbordam de outra coisa senão de erros e escândalos; e todo homem sensato não poderá deixar de aprovar minha conduta.