Tesouro n.º 197 · Volume III

SOLIDÃO SOLITUDINE

4 seções · 22 parágrafos · pp. 2226–2237 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. OS SANTOS E OS GRANDES HOMENS PRATICARAM A SOLIDÃO

Davi, ainda menino, fugia da cidade e da multidão, diz São João Crisóstomo; habitava os desertos e não mantinha relações com o século; não se ocupando nem de negócios, nem de compras, nem de vendas, vivia silencioso na solidão e, ali, como em tranquilo porto, repousando em paz no seu isolamento, guardava o rebanho; meditava no reino dos céus, abatia e matava os ursos e os leões que se lançavam sobre suas ovelhas; derrubava-os não tanto com a força de seus braços quanto com o vigor de sua fé, que haurira na solidão (Homil. ad pop.). A respeito de Judite, narra a Sagrada Escritura que ela escolhera, no andar superior de sua casa, um pequeno aposento secreto, onde permanecia retirada com suas servas (Jt 8,5).

A Igreja canta, em honra de São João Batista, que ele, ainda tenra criança, fora esconder-se nas grutas do deserto, fugindo das multidões dos cidadãos, para não manchar sua vida com a menor mácula, nem sequer de palavra (1). São João retirou-se para a solidão a fim de imitar, a exemplo de Moisés e de Elias, o espírito e a virtude de Jesus Cristo; isto é, por esse afastamento do mundo e dos vícios do mundo, adquiriu a perfeição da santidade e tornou-se digno de ser acreditado mais tarde, quando mostrou Jesus Cristo. Por isso, os Padres chamam João Batista de chefe, modelo e guia dos monges e dos eremitas. Ele habita a solidão também para mostrar os perigos do século e sua corrupção, e para provar às gerações futuras que o deserto, ninho de feras ferozes e de répteis venenosos, é menos perigoso que o tumulto do mundo.

Quantos milhões de homens e mulheres, de todas as idades e condições, retiraram-se para a solidão a fim de trabalhar pela própria santificação! Leiam a vida dos Santos e, especialmente, a dos Padres do deserto…

As pessoas piedosas e contemplativas sempre desejaram, amaram e buscaram a solidão. Os maiores entre os Santos, diz o Autor da Imitação de Jesus Cristo, sempre evitaram, quanto podiam, o trato com os homens e escolheram a solidão para viver de Deus e para Deus (2). Os grandes homens, em todos os tempos, consideraram a solidão como morada de verdadeiras riquezas, de felicidade, de delícias, de paz, de segurança, de virtude e de perfeição, como lugar seguro contra os perigos e as seduções… Os próprios gentios conheceram a vida solitária, tiveram-na em grande estima e vários a praticaram. Segundo o testemunho de Plutarco, Cipião Africano dizia que não estava menos só do que quando se encontrava sozinho, e nunca era menos ocioso do que na solidão.

2. EXCELÊNCIA E VANTAGENS DA SOLIDÃO

Assim como a terra esconde o ouro em suas entranhas, como o mar conserva as pérolas sepultadas em seu seio, como o solo cobre as raízes das árvores, assim também a virtude dos humildes e dos Santos está sempre escondida neste mundo, seja por eles mesmos, seja por Deus, seja principalmente pelo amor à solidão… E o próprio Jesus não age porventura em segredo, com sua graça e seus dons? … A vida dos anacoretas e dos eremitas foi uma vida escondida na solidão. O próprio Salmista dizia: «Fugi, afastei-me e fixei minha morada na solidão»! — E por quê? «Porque vi a violência e a discórdia correrem como senhoras pelo mundo, e a iniquidade nele se assentar como rainha. O crime, a fraude, a usura e o engano nunca se afastam das praças públicas» (Sl 54,8-12).

No Apocalipse lê-se que à mulher perseguida pelo dragão foram dadas duas asas, para que voasse para o deserto, longe da vista da serpente (Ap 12,14). Eis o preceito que Deus dá a todo cristão: subtrair-se às ciladas da serpente infernal, refugiando-se na solidão. Por isso, São Jerônimo dizia a Rústico: «Considera a tua cela como um paraíso. Para mim, a cidade é uma prisão; a solidão, um paraíso (3)». E São Nilo, discípulo do Crisóstomo, afirma que tem a alma invulnerável às flechas do inimigo aquele que ama a solidão; mas quem ama estar com a multidão receberá frequentes e cruéis feridas (4).

Ouvi como Isaías descreve magnificamente, no capítulo 35, a excelência e as múltiplas vantagens da solidão: O deserto se alegrará; a solidão exultará e florescerá como um lírio. Ela brotará por toda parte e, cantando hinos de louvor, dará saltos de alegria. A ela é dada a glória do Líbano, a beleza do Carmelo, a fertilidade de Saron; reconhecereis a glória do Senhor e a grandeza do meu Deus. Eis que vosso Deus vem em pessoa e vos salvará. Então os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos se abrirão; o coxo correrá ágil como um cervo; a língua dos mudos falará pronta e claramente; as pedras do deserto se fenderão e rios de água correrão para irrigar a solidão. A terra mais árida será transformada em um lago, fontes borbulhantes molharão os torrões ardentes e ressequidos; onde as serpentes tinham seu leito, verdejarão as canas e os juncos. E ali haverá uma estrada, a estrada santa; o impuro não passará por ela, nem os insensatos nela caminharão. Nem leões nem feras ferozes porão ali os pés; é o caminho dos homens que foram libertados. O Senhor os resgatou; eles retornam a ele, acorrem a Sião cantando seus louvores; uma alegria perpétua coroa-lhes a cabeça; viverão na alegria e no êxtase; a dor e o gemido partiram para sempre de seu coração. O Senhor consolará Sião, diz o mesmo Profeta em outro lugar (Is 51,3), restaurará suas ruínas; seus desertos se tornarão lugar de delícias, sua solidão, um novo Éden. Tudo exalará alegria e júbilo; ouvir-se-ão ressoar por todos os lados ações de graças e cânticos de louvor. «Por isso, saí do meio do mundo e separai-vos, diz o Senhor; e não toqueis em nada de impuro; e eu vos acolherei, serei vosso pai, e vós sereis meus filhos e minhas filhas» (2Cor 6,17-18).

Quantas graças, quantos favores particulares e abundantes promete e concede o Senhor às almas eleitas e privilegiadas que deixam o mundo para se retirarem à solidão! «A solidão é a forma e a regra da sabedoria, escreve São Jerônimo; a solidão é, por si mesma, uma pregação e uma exortação à virtude; preparamo-nos o céu quando nos afastamos do mundo (5)». Outro amante da solidão exclamava: Ó quão baixos e desprezíveis me parecem todas as honras e todas as grandezas do mundo! Somente os desertos me atraem; as cidades e o mundo inteiro me causam tédio (6). Ó bem-aventurada solidão! Ó única bem-aventurança, companheira e rival dos Anjos! … Por isso Deus diz pela boca de Oseias: «Eu a conduzirei à solidão e lhe falarei ao coração!» (Os 2,14). Eis o que levou os Antônios, os Paulos, os Hilariões, os Estilitas e os Macários a deixar o mundo e internar-se na solidão, onde, livres do trato com os homens, dos perigos, dos atrativos, dos enganos e dos escândalos, consagraram-se à oração e ao estudo das coisas celestes; e onde, ardendo de amor e cheios de santos desejos, não respiraram senão pelo céu, por Jesus Cristo, em Jesus Cristo e de Jesus Cristo.

«Eu porei o caminho verdadeiro na solidão» (Is 43,19), diz o Senhor pela boca de Isaías, e os desertos se transformarão em lagos, e as terras áridas serão banhadas por canais de água que farei brotar nas encostas dos montes e no meio dos campos. Farei nascer no deserto o cedro, a madeira de Setim, a murta e a oliveira. O abeto, o olmo e o buxo entrelaçarão a sombra de sua folhagem no meio da solidão. Saibam os mortais que a mão de Deus realizou estes prodígios (Is 41,18-20). «Ó solidão, exclama São Jerônimo, primavera carregada das flores de Jesus Cristo! Ó solidão, na qual nascem as pedras preciosas de que, diz o Apocalipse, é construída a cidade do grande Rei! Ó solidão, que falas familiarmente com Deus na alegria! Que fazes tu, meu irmão, no século, tu que és maior que o mundo inteiro? Por quanto tempo ainda a sombra dos telhados te esmagará? Até quando, ó Heliodoro, a bela prisão das cidades te manterá prisioneiro? (7)».

Quereis outras provas das imensas vantagens que a solidão proporciona? Eis Abraão, Isaac e Jacó: Deus aparece a eles e os instrui em seus mistérios na solidão. Ali aprendem a vinda e a encarnação do Messias, no qual todas as nações seriam abençoadas. Na solidão, Deus escolhe Moisés como chefe e libertador do povo de Israel; na solidão, o Senhor lhe aparece no meio da sarça ardente e lhe manifesta suas vontades. Na solidão de quarenta anos, ele aprende a governar a nação judaica. O deserto é para ele uma terra santa, na qual o Senhor lhe revela maravilhas jamais vistas. Na solidão, os hebreus foram alimentados milagrosamente, durante quarenta anos, com um pão descido do céu; na solidão, tiveram como guia uma coluna de fogo que lhes iluminava os passos durante a noite e, durante o dia, os defendia, como uma nuvem, dos ardentes raios do sol; no deserto, viram as águas jorrarem das rochas e a serpente de bronze que os salvou do extermínio. No deserto, e não no Egito, Deus se manifestou a eles e lhes deu a sua lei. Na solidão, Elias se vê arrebatado e levado ao céu sobre um carro de fogo; Davi é escolhido para ser rei; João Batista é preparado para o seu ministério. Na solidão, o anjo aparece a Maria e lhe anuncia que o céu a elegeu como mãe do Redentor. Na solidão, Jesus Cristo nasce e passa os primeiros trinta anos de sua vida. Na solidão, os Apóstolos recebem todos os dons do Espírito Santo e são transformados em homens divinos. Na solidão, formam-se as virgens de Jesus Cristo, pérola do seu povo, joia e glória da Igreja.

«Ó alma santa, exclama São Bernardo, fica só, para que te conserves para aquele Deus único, que escolheste somente para ti. Crê naquele que te fala por experiência: a solidão é a cerca e o baluarte das virtudes. Aprenderás muito mais nas florestas do que nos livros; as árvores e as rochas te ensinarão aquilo que não poderias aprender dos mestres» (8). A solidão não somente tira a ocasião de pecar, mas, além disso, eleva a alma até Deus. «Sentar-se-á solitária e silenciosa, porque se elevará acima de si mesma» (Lm 3,28). «Quem habita em ti, ó solidão, exclama São Basílio, eleva-se acima de si mesmo, porque a alma, tendo fome de Deus, se ergue acima de tudo o que é terreno; agarra-se e permanece suspensa à rocha da contemplação; separada do mundo, voa para o céu e, esforçando-se por ver aquele que está acima de todas as coisas, eleva-se, com nobre desprezo, acima de si mesma e de todas as criaturas» (9). A solidão torna a alma tranquila, recolhida e presente a si mesma; enche-a da unção das coisas celestes.

Mas ninguém melhor que o grande solitário São Basílio nos descreve a felicidade da solidão. «A vida solitária é escola de doutrina celeste e de artes divinas. Ali não se aprende senão Deus, o caminho que conduz a Deus e tudo o que é preciso saber para chegar ao conhecimento da verdade suprema. O eremitério é paraíso de delícias, onde exalam os aromas das virtudes, onde as rosas da caridade flamejam com o calor do fogo; onde os lírios da castidade resplandecem com cândida brancura e, misturadas aos lírios e às rosas, perfumam as violetas da humildade. Aqui goteja a mirra da mortificação, não somente da carne, mas, glória maior, da própria vontade, e evapora continuamente o incenso de uma oração assídua. Ó solidão, delícia das almas santas e doçura inesgotável das consolações interiores! Tu és aquela fornalha caldeia na qual os santos jovens apagam, com o poder de suas orações, as chamas do incêndio que os envolve. Tu és o forno no qual o Rei supremo põe a cozer os seus vasos de glória, forjados pelo martelo da penitência, para que sejam aperfeiçoados e purificados com a lima da salutar correção, a fim de adquirirem brilho. Ó cela solitária, na qual se negocia o céu! Feliz comércio, em que se troca a terra pelo paraíso, o que passa por aquilo que permanece eternamente! Ó cela solitária, admirável oficina de exercícios espirituais, na qual a alma humana restaura em si a imagem do seu Criador e a faz retornar à sua pureza e beleza originais! Ó solidão, tu fazes que veja a Deus com coração puro aquele homem que, pouco antes, envolto em densas trevas, ignorava a Deus e a si mesmo; tu fazes que o homem, postado na torre de sua mente, veja correr abaixo de si e desaparecer tudo quanto há de terreno, e a si mesmo passar com as demais coisas. Ó solidão, ó celazinha, campo de Deus, torre de Davi, espetáculo dos Anjos, morada daqueles que combatem valorosamente! Ó deserto, morte dos vícios, lar e alimento das virtudes! A ti Moisés deve ter recebido duas vezes o Decálogo; por ti, Elias viu o Senhor passar; por ti, Eliseu recebeu o duplo espírito de seu mestre. Tu és a escada de Jacó, que leva os homens ao céu e traz à terra o auxílio dos Anjos! Ó vida solitária, banho das almas, purgatório que lava as manchas! Ó cela, tu és o lugar onde Deus e o homem vêm aconselhar-se. Ó eremitério, feliz refúgio contra as perseguições do mundo, repouso dos atribulados, consolação dos aflitos, frescor contra os ardores do século, divórcio do pecado, reclusão dos corpos, liberdade das almas, depósito de gemas celestes, cúria dos senadores divinos! Onde o homem, vencedor dos demônios, se torna companheiro dos Anjos; exilado do mundo, se torna herdeiro do paraíso; renegando a si mesmo, se torna seguidor de Jesus Cristo (10)».

Ouvi também São Bernardo: «A habitação de uma cela e a habitação do céu são irmãs; pois, assim como o céu e a cela parecem ter certa afinidade no nome, também a têm na piedade. Com efeito, céu e cela parecem derivar do verbo celar, e aquilo que está oculto ou escondido nos céus também está oculto e escondido nas celas. O que se procura nos céus encontra-se nas celas. Qual é a vida que se vive no céu, e qual é aquela que se leva nas celas? Na verdade, nenhuma outra senão ocupar-se de Deus, gozar de Deus. Quando nas celas tudo se cumpre segundo a ordem, piedosa e fielmente, não hesito em afirmar que os santos Anjos de Deus encontram os céus nas celas; e tanto se deleitam nas celas quanto nos céus. Ordinariamente, das celas se sobe ao céu, e quase nunca da cela se desce ao inferno, porque raramente acontece que alguém permaneça na cela até a morte, se não estiver predestinado ao céu. A cela é uma terra santa, um lugar sagrado no qual a alma fiel se une frequentemente ao Verbo de Deus; a esposa se une ao esposo, a terra ao céu, o divino ao humano. A cela do servo de Deus é como o santo templo de Deus; com efeito, no templo e na cela tratam-se as coisas divinas, mas com maior frequência na cela. Se, por amor de Deus, vós vos afastardes na terra da sociedade dos homens, obtereis de Deus, no céu, a sociedade dos Anjos (11)». Ó afortunada solidão, exclama Musio Cornélio, ó única beatitude que saboreiam aqueles que te amam! Como são felizes as almas privilegiadas e cândidas que voam para os teus braços e se afastam deste mundo, todo ele perfídia! (In Laud. Vitae solitariae).

3. MOTIVOS PARA PROCURAR E AMAR A SOLIDÃO,

Os motivos que devem nos levar a buscar a solidão são indicados sob figura nestas palavras de Isaías: Ouve-se uma voz que clama no deserto: Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as veredas que conduzem a ele, abaixai os montes, enchei os vales, aplainai o que é montanhoso. Uma voz me ordena clamar: e o que clamarei eu? Todos os mortais não passam de erva, e sua beleza se assemelha à flor do campo. O Senhor envia um sopro ardente, e a erva do prado languesce e murcha, sua flor cai desvanecida (Is 40,3-4,6-8). Ah! Afastai-vos, parti, distanciai-vos, saí do tumulto dos homens, não toqueis em nada impuro, purificai-vos. O Senhor caminhará diante de vós (Is 52,11-12). Ó, com quanta verdade se pode dizer, daquele que habita no meio do tumulto do século, o que Jeremias lamentava acerca do povo judeu: «Judá habitou no meio das nações, encontrou aflição e escravidão e não achou repouso; seus perseguidores o apanharam entre as angústias» (Lm 1,3). Não, não há repouso no meio do mundo, mas aflição, escravidão, perseguições e tormentos. A solidão não é afligida por esses males. Ah! Clamemos também nós com o mesmo Profeta: Por que, então, não me é dado ir sepultar-me no fundo de um deserto, para estar com Deus ou com os seus Anjos e não afligir a minha alma com a visão de tantos delitos e transgressões? (Jr 9,2).

«Foge do público, escrevia São Bernardo, foge até mesmo dos teus familiares, afasta-te dos amigos mais íntimos. Não sabes que tens um esposo tão recatado e reservado que não quer mostrar-se a ti na presença de outros? (12)». «É difícil, diz São João Crisóstomo, que uma árvore plantada à beira de uma estrada conserve seus frutos até a maturidade; assim também é raro que uma alma conserve, no meio das pessoas do século, sua inocência até o fim. Quanto menos uma pessoa participa dos negócios do mundo, tanto mais sua alma se inflama de fervor e de amor a Deus (13)». Assim como a peste causa mortandade num exército ou numa cidade populosa, deixando ilesos o campo e a solidão, assim acontece com a peste dos vícios; ela rasteja continuamente e ceifa vítimas no meio do mundo. «Quantas vezes estive entre os homens, tantas vezes voltei menos homem», diz o autor da Imitação, e conclui: «Aquele, portanto, que pretende chegar ao recolhimento e à espiritualidade precisa afastar-se da multidão com Jesus (14)». Sim, levantemo-nos e vamos para a solidão, porque no meio do mundo não temos repouso (Mq 2,10). Fujamos da Babilônia, e cada um salve a sua alma (Jr 51,6).

Útil para todos, a solidão é especialmente vantajosa para aqueles que devem deliberar sobre a escolha do estado de vida. Eis o aviso de São Bernardo sobre este ponto: «Quem deseja ouvir a voz de Deus, retire-se para a solidão. Quem prepara o ouvido interior para escutar a voz do céu, voz mais doce que o mel, fuja dos negócios exteriores, para que a alma, desembaraçada e livre, possa dizer com Samuel: Falai, Senhor, porque o vosso servo vos escuta. Esta voz de Deus não ressoa nas praças, nem se ouve entre os lugares públicos; um conselheiro secreto requer um ouvinte secreto. Este grande Deus vos dará certamente consolação e alegria, se o ouvirdes atentos e recolhidos. Assim se preparava Davi quando dizia: Eu ouvirei o que falará o Senhor, porque ele falará a linguagem da paz ao seu povo, aos seus santos e àqueles que entram em si mesmos; significando com isso que Deus não conversa com aqueles que estão fora de si mesmos, ocupados em afazeres exteriores, mas sim com aqueles que estão recolhidos em pensamentos interiores» (15). Consultemos as Escrituras, escreve Hugo de São Vítor, e veremos que Deus quase nunca falou em meio à multidão. Quando quis dar ao mundo alguma de suas ordens, manifestou-se não a um povo ou a uma nação inteira, mas somente a alguns em particular, e a estes ainda não em meio ao tumulto, mas ou no silêncio da noite, ou na solidão, sobre as montanhas, nas florestas, nos vales desertos. Assim fala a Noé, a Abraão, a Isaac, a Jacó, a Moisés, a Samuel, a Davi, a todos os Profetas. Ora, por que Deus fala somente na solidão, senão para nos chamar a ela? E por que fala a poucas pessoas, senão para nos animar a viver na solidão e a unir-nos a ele? (Lib. 4, de Arca Noe, c. IV). Oh! Quão poderosas razões nos impelem a afastar-nos do tumulto do mundo corrompido, a retirar-nos e a viver, tanto quanto possível, em meio às riquezas e às doçuras da solidão!

Nem de outro modo pensaram sobre este ponto os sábios pagãos. «A tranquila segurança da solidão mantém a dor afastada; temer o tumulto traz consolação», diz Ptolomeu (16). Poucas pessoas me bastam, diz Demócrito; contento-me com uma, e passo muito bem sem nenhuma. Eu me afastei não somente dos homens, mas dos negócios e, antes de tudo, das minhas múltiplas ocupações. É preciso tratar duramente o corpo, quem não quer perder miseravelmente a alma. Tu me perguntas, escrevia Sêneca a Lucílio, o que se deve evitar acima de tudo? Eu te respondo: a multidão, pois jamais poderás estar nela com segurança. Confesso francamente a minha fraqueza: nunca levo de volta para casa, inteira, a medida de bondade que trouxe de casa para o meio da multidão; aquilo que resolvi fazer de bem se desvanece, e alguma migalha do que havia decidido evitar volta a se apegar a mim. O público com que convivemos é nosso feroz inimigo; todos procuram comunicar-nos algum vício, inoculá-lo em nós, sem que nem nós nem eles o percebamos. É também coisa muito reprovável assistir, sem motivos suficientes, a algum espetáculo; porque então os vícios se apoderam de nós por meio do prazer. Que dirás de mim, se te disser que sempre me retiro da multidão mais inclinado à ambição, à avareza, à luxúria? Que dela saio mais cruel, mais desumano, porque estive em meio aos homens? Ah! Crê em mim: nenhum de nós tem em si força bastante para suportar o ímpeto violento dos vícios que chegam acompanhados de tão grande caterva de homens; um orador hábil e astuto enfraquece e debilita pouco a pouco; um vizinho rico excita a cobiça; um companheiro mau comunica-te o seu mal, por mais cândido e inocente que possas ser. Recolhe-te quanto puderes em ti mesmo; não te acompanhes senão daqueles que podem tornar-te melhor, não admitas à tua sociedade senão aqueles que julgas poderem tornar-te assim. Isso se faz reciprocamente; os homens aprendem instruindo-se uns aos outros (Epist. ad Lucil. c. VII).

4. COMO SE DEVE COMPORTAR NA SOLIDÃO

É preciso, diz São Jerônimo, que o cristão, à imitação de Abraão, que saiu de sua terra e abandonou sua parentela, afaste-se dos caldeus, que são os demônios, e vá habitar na terra dos vivos. Não lhe basta sair de seu país; deve ainda esquecer o seu povo, a casa de seu pai, para que, desprezando os vínculos da carne, possa unir-se em celeste abraço ao Esposo divino (In Gen.) … A terra que devemos abandonar, a exemplo de Abraão, é também a nossa carne, que é preciso mortificar e castigar… É necessário manter-nos prontos para suportar e sofrer as diversas provações que se encontram na solidão… Uma vontade aniquilada…, uma obediência pronta, constante, cega…, uma humildade profunda…, o silêncio…; eis os fundamentos da vida solitária… Quando Santo Antão viu e ouviu São Paulo, o primeiro eremita, disse, voltando-se para os seus discípulos: Miserável de mim, pecador, que indignamente trago o nome de monge! Vi Elias, vi João no deserto e vi, na verdade, São Paulo no paraíso (17).

A solidão do corpo não basta, se não lhe estiver unida a solidão da alma; e esta não se obtém se a alma se detém naquilo que viu ou ouviu fora da solidão, se, estando o corpo na solidão, ela se distrai e passeia pelo mundo; se, à imitação do povo hebreu no deserto, ainda se lamenta da escravidão do Egito da qual se libertou, se sente saudades das vantagens materiais que dela obtinha… Deus é espírito, observa São Bernardo; pede-nos, portanto, a solidão espiritual, e não a corporal…. A única e verdadeira solidão é a da alma e do espírito. Estás só, se não pensas nas coisas terrenas e desprezíveis, se não conservas o coração nos bens presentes, se nada te importa daquilo que o mundo mais deseja, se te causa repugnância aquilo de que a maior parte dos homens goza, se evitas as discórdias, se não te deixas abater pelos prejuízos temporais, se esqueces as injúrias. Do contrário, ainda que estejas só de corpo, nunca estarás só. É preciso que te eleves acima de ti mesmo para desposar-te com o Senhor dos Anjos. Não é acaso teu dever elevar-te acima de ti mesmo, para abraçar-te a Deus e ser com ele um só e mesmo espírito? Sê, pois, solitário como a pomba; não haja relação alguma entre ti e o mundo; esquece o teu povo e a casa paterna, e o Rei do céu será vencido pela tua beleza espiritual. Ó alma eleita, sê só para servir dignamente ao Deus único que só tu preferiste. Sê, pois, na solidão, mas com o espírito, com a alma, com o coração, e não somente com o corpo. Sê na solidão com a intenção e com a devoção: permanece nela toda inteira, sem reserva (De vita contempl.).

Quem deixou o onagro em liberdade, quem lhe desatou os laços? diz Jó: Quem lhe deu por morada a solidão e por retiro o deserto? Ele ri-se do tumulto das cidades, não ouve os gritos de nenhum senhor; corre pelas pastagens dos montes, procurando a erva florida (Jó 39, 5-8). Sobre estas palavras, São Gregório Papa faz o seguinte comentário: As pessoas contemplativas habitam a solidão da alma como onagros e, libertas dos negócios tumultuosos do século, têm sede somente de Deus; com efeito, de que vale a solidão do corpo se estiver separada da solidão do coração? Por isso, é necessário o recolhimento, o retiro da alma, para quem quer levar uma vida conforme à própria vocação, aplacar o movimento interior dos desejos terrenos que se contradizem, acalmar com a graça divina os cuidados e as solicitações estranhas à salvação, expulsar dos olhos do espírito todas as distrações que voam diante deles como moscas venenosas. Por isso, é preciso procurar estar a sós, em segredo, com Deus e, despojando-nos de tudo o que tem aparência de exterioridade, esforçar-nos por falar-lhe em silêncio, com ardentes afetos interiores (Moral. l. 30, c. XII).

Deus derrama os seus doces perfumes somente onde encontra uma alma inteiramente livre de todo embaraço terreno e, principalmente, desapegada de si mesma, uma alma pura e morta para todas as coisas do mundo. E isso é justo. É, pois, necessário, para quem pretende aproveitar todas as vantagens da solidão: 1° renunciar ao mundo exterior, ao corpo, aos parentes, aos amigos, à casa, à pátria, aos bens, às riquezas, às honras; 2° renunciar ao mundo interior, aos próprios desejos, afetos e vontades.

Vem aqui a propósito uma singular observação do Abade João Malbúrnio, que queremos reproduzir também a título de documento histórico. Ele constata, portanto, que, por várias razões, diversas ordens religiosas haviam decaído, em seus dias, do esplendor e da santidade primitivas. Os Bernardinos caíram por ociosidade; a terceira ordem dissolveu-se pelas ocupações rurais demasiado grandes; os Premonstratenses relaxaram-se por causa do número excessivamente desmedido de missas e das demasiadas ocupações do coro; os mendicantes não se sustentaram em razão de sua familiaridade excessiva com os seculares: frequentavam demais a multidão e sucedeu-lhes o que diz o Profeta: «Misturaram-se entre as nações, aprenderam as suas obras, e isso foi a sua ruína» (Sl 105, 35-36); os Beneditinos decaíram por causa de suas riquezas excessivas. Se os Cartuxos conservaram até o presente o primitivo lustro e vigor, devem isso ao amor da solidão e do silêncio e à rigorosa observância das visitas ordenadas pela regra. Estas três coisas estão encerradas no verso latino: ― Per tria, si, so, 6, carthusia permanent in 6, idest vigore (In Roseto lib. 1, c. III). Si indica silêncio; so, a solidão; 6, a visita (dos religiosos inspetores e visitadores).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.