Uma vida gasta em farras é, na verdade, diz São Bernardo (1), «uma morte e a sombra da morte; pois tal vida está tão próxima do inferno quanto a sombra está próxima do corpo que a produz». Estas palavras são o comentário daquela sentença de São Paulo: «A pessoa que se entrega aos prazeres está morta, embora ainda viva» (1Tm 5,6). São Jerônimo escrevia a Juliano (2): «É difícil, para não dizer impossível, que alguém possa desfrutar dos prazeres presentes e dos futuros; que encha aqui embaixo o ventre de iguarias e, lá em cima, a mente de delícias; que passe dos deleites da terra aos do céu».
O guloso engorda sua carne para as chamas eternas… Uma vida demasiado delicada, uma mesa demasiado requintada, um alimento demasiado abundante conduz muitas vezes à morte da alma e não raramente à do corpo; essas alegrias transformam-se numa tristeza eterna… Temos disso o exemplo no Epulão do Evangelho, que de uma mesa esplêndida precipitou-se no inferno.
«Do viver demasiado opulento nasce o mal agir», diz o Salmista (Sl 72,7). Ah! jamais nos saia da mente a ameaça de Jesus Cristo: «Ai de vós, que estais fartos, porque tereis fome!» (Lc 6,25).
«Do vício da gula somente, diz São Gregório, saem mil exércitos de vícios para combater contra a alma (3)»; a qual, diz São Bernardo, «se se acostuma a alimentos saborosos, mancha-se de muitas imundícies (4.)».
Os excessos da mesa conduzem à luxúria, à maledicência, ao orgulho, à cólera, aos perjúrios, às rixas, aos ódios, às disputas…; destroem a razão, escreve Teodoreto, e fazem do corpo do homem um sepulcro no qual ele se deita, nele se encerra e apodrece.
Os principais efeitos da gula são: 1° tornar o espírito obtuso, e o homem estúpido e inepto… 2° Causa dores na cabeça e no estômago, febres, apoplexias, paralisias e vários outros males que encurtam a vida… 3° Muitas vezes reduz o homem à miséria. Daí vêm depois o furto, o desespero e, às vezes, o suicídio… 4° Destrói a harmonia das faculdades; extingue as ideias nobres e generosas: torna o homem petulante, briguento, provocador, litigioso… 5° Tira a aptidão e o desejo do trabalho, dos esforços, do estudo, da luta contra as tentações do mundo, do demônio e da carne: numa palavra, embrutece a pessoa.
Os gulosos são incapazes de disciplina: fecham o coração à graça divina, à ação dos sacramentos e das verdades eternas… A gula é a perda da saúde temporal, da honra, da fortuna, da castidade do corpo e do espírito… «Ninguém, diz São João Crisóstomo, é tão íntimo amigo do demônio quanto o glutão, o guloso, porque este vício é a fonte, o princípio, a origem de todos os vícios. O guloso não se diferencia do endemoninhado; ele faz de sua boca, de seus olhos, de seu olfato e de seus outros sentidos outras tantas cloacas impuríssimas de volúpia (5)».
Velhice prematura, sentidos entorpecidos, pensamentos lânguidos e animalescos: eis os frutos da gulodice. O espírito fica enevoado, o corpo se assemelha a um navio desgastado pelo longo uso, que faz água por todos os lados e naufraga por excesso de carga… Ora, por que, pergunta o Crisóstomo, por que vos empenhais em engordar o vosso corpo? Não é acaso para conduzi-lo à morte ou apresentá-lo morto à mesa? (Homil. ad pop.).
Os excessos da mesa produzem abundância de humores mórbidos, perturbam o sono, entorpecem os membros, trazem consigo enfermidades e dores. Todas as faculdades da alma, vontade, memória, inteligência, tudo se enfraquece, perde o vigor e desaparece.
O fogo e a água, diz São Bernardo, não podem estar juntos; assim também as delicadezas carnais são incompatíveis, na mesma pessoa, com as delícias espirituais. Onde se eleva a fumaça de guisados requintados e raros, o pão celeste deixa a alma de boca seca (6). Tanto mais que a refinada delicadeza da gula nunca se dá por satisfeita, como já observava Clemente de Alexandria (7), mas vai de excesso em excesso.
Santo Agostinho crê que a gula tenha sido a mãe da luxúria: «Por sua intemperança», diz ele, «Adão e Eva se tornam voluptuosos; enquanto se mantiveram dentro dos limites da sobriedade e da temperança, permaneceram virgens; assim que cedem à gulodice, ei-los escravos da concupiscência: durante o tempo em que foram sóbrios, conservaram-se castos, pois a sobriedade é amiga da virgindade, inimiga da carne corrompida; ao passo que a intemperança trai a castidade e fomenta a impureza» (Serm. 77, de Temp.).
«Quem ama banquetear-se irá mendigar», lemos nos Provérbios (21,17); «e quem alimenta com delicadeza o seu escravo (isto é, a sua carne) deverá suportá-lo rebelde e insolente» (Id. 29,21). O corpo é escravo da alma quando ela o governa com o freio da temperança; ao contrário, a alma torna-se escrava do corpo quando a gula faz as vezes de senhora. Quem cuida excessivamente da própria carne tê-la-á rebelde, e a alma será, em breve, ferida de morte.
O destino do homem, nos desígnios do Criador, é viver espiritualmente. A alma deve comandar a carne; a ela cabe reinar, e ao corpo servir e obedecer. A alma, sendo espiritual, deve, de certo modo, espiritualizar o corpo. Ora, o que acontece no guloso? A carne reina sobre a alma e a torna carnal. Ó horrível subversão! O cuidado excessivo do corpo é o esquecimento da virtude: desde o momento em que se afaga o corpo, descuida-se da alma; quando se alimenta delicadamente o corpo, a alma padece miséria e morre de fome. Também aqui se pode aplicar o dito de Jesus Cristo: «Ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo; se amar um, odiará o outro; se obedecer a um, desprezará o outro» (Mt 6,24).
Crates, vendo um jovem entregar-se à devassidão, disse-lhe: «Deixa, ó miserável, de fortificar a prisão contra ti mesmo (8)».
«Quando se tem excessivo cuidado com o corpo e se o engorda, a alma se torna lânguida e entorpecida, e não pode cumprir bem as suas próprias funções. Ao contrário, se a alma está vigorosa e, pelo exercício das boas obras, se eleva à sua grandeza, segue-se necessariamente que o corpo seja mortificado (9)».
«A insônia, os tormentos das vísceras e as dores serão a herança do glutão» (Eclo. 31, 23): «Porque muitos alimentos produzem doenças, e a gula conduz até à cólica. Ó quantos foram mortos pela intemperança!, enquanto o homem sóbrio prolonga a sua vida» (Eclo 37, 33-34). A Escola Salernitana dava este aviso: quem quiser repousar tranquilamente à noite, tome à tarde alimento moderado; porque comer muito se torna para o estômago um peso sufocante (10).
Os Santos Padres não encontram palavras suficientes para fulminar este vício, pondo à mostra os danos que ele causa. «A volúpia frequentemente gera danos e incômodos», diz Clemente de Alexandria; «mas o excesso de alimento sempre produz desejos perversos, o esquecimento dos próprios deveres, a perda da sabedoria (11), e ainda por cima abate o corpo e prostra a alma», acrescenta São Jerônimo (12). São Gregório Nazianzeno chama de sepulcro vivo o corpo daquele que se enche de comida e vinho (13); coloca num mesmo feixe a voracidade, a luxúria, a inveja e os demônios, porque todos nos tiram o juízo quando nos vencem (14); para ele, a devassidão é mãe da vergonha e da insolência (15). «Não há tirano tão exigente como o ventre (16)», diz São Bernardo, «e a gula precipita o homem no esquecimento e na penúria dos bens eternos» (Serm. I de Adventu). Por isso, São Jerônimo sabiamente adverte Paulino a fugir dos banquetes, como se fossem cadeias de volúpia, de desonra e de ruína (17).
Ao homem entregue à voracidade poder-se-ia dizer, com São Basílio: «Se em ti houvesse uma alma de porco, tratá-la-ias de modo diferente? Pois, não saboreando senão coisas vis e tendo o ventre por teu deus, tornas-te inteiramente carne e mistura de afetos viciosos (18)». O Crisóstomo sentencia que «a voracidade transforma os homens em porcos (19)». Santo Euchério escreve: «As devassidões embrutecem o homem; este, em nada se diferencia dos animais imundos, pois põe a sua felicidade na carne, adora o seu ventre e faz do lodo e da vergonha o objeto da sua glória (20)».
O glutão alimenta e engorda a sua carne para os vermes e a corrupção. Nobre ofício! Gloriosa ocupação! Empregar-se em preparar alimento para os vermes! Ah, infelizes! Quanto mais ganharíeis se distribuísseis aos pobres aquilo que consumis de maneira tão vergonhosa! … E não é uma vergonha encher-se tanto de comida a ponto de já não poder digeri-la? A esses tais diz o profeta Habacuc: «Ai de ti! E até quando acumularás contra ti montes de lama?» (2, 6). Ah, sim, digamos também com Clemente de Alexandria (lib. II Stromat.), que tal homem é um ser ignóbil e degradado; e, com o Crisóstomo, que ele é um monte de esterco, uma cloaca de fedor pestilencial, pior que um porco; pois o porco se revolve no lamaçal e se alimenta de imundícies, mas o glutão prepara para si uma mesa mais abominável: vive somente para o ventre e está morto para todos os outros sentidos; já não vê o que deveria ver; já não ouve o que deveria ouvir; já não diz o que deveria dizer; vive todo sepultado nas orgias (21). Também São Máximo vê na gordura uma espessa lama com a qual o homem constrói para si uma prisão onde encerra e acorrenta a própria alma (22).
São João Clímaco diz com vigorosa expressão: «O glutão esforça-se por embrutecer o seu espírito; lança óleo sobre o fogo; o seu ventre empanturrado animaliza o coração (Apud. Anton. in Meliss. cap. XXXIX). Ele já não tem nem alma nem espírito», diz o Crisóstomo. «Comer com quatro mandíbulas é coisa de urso e de leão; mas as dores, o peso da cabeça, a estupidez do olhar, o cansaço das mãos, o tremor e as febres dilacerantes são as suas consequências» (Ut. sup.).
O próprio Sófocles, falando do homem entregue aos prazeres da gula, diz «não acreditar que este viva, mas julga-o um cadáver». Dizei, pois, com um filósofo: «Nasci para algo muito mais nobre do que tornar-me escravo do meu corpo (23)».
A função mais vil que o homem desempenha é a de comer; nisso ele não se distingue em nada do animal irracional. Por isso, quem põe a sua felicidade no alimento busca a felicidade dos animais… E, no entanto, é nisso que o glutão coloca o seu único prazer! …
«Disse comigo», confessa o Eclesiastes: «Irei e me embriagarei com os prazeres da mesa, gozarei e saborearei toda sorte de delícias; mas vi por experiência que também isto é vaidade e fumaça» (2, 1). Com efeito, os prazeres da mesa estão cheios de corrupção, são vãos, leves e de pouca duração; obtê-los custa grandes despesas e muito esforço; são um veneno; uma injustiça para com os pobres, aos quais, em consciência, se deve o supérfluo.
De Adão até Noé, isto é, durante mil e seiscentos anos, os homens não comiam carne nem bebiam vinho; seu alimento eram frutos e legumes, sua bebida, a água das fontes; e, não obstante, viviam novecentos anos. A sobriedade é mãe da saúde, da sabedoria e da santidade. «A frugalidade», diz o Crisóstomo, «é ao mesmo tempo alimento, deleite e saúde (24)». Santo Agostinho confessa ter aprendido do Senhor a servir-se dos alimentos como de remédios (25). E Fílon diz: «A saúde e o vigor acompanham a temperança» (Apud. Anton. in Meliss. c. XXXIX).
Ouvi, a este respeito, as belas sentenças do Sábio: «O princípio da vida do homem está na água, no pão e no vestuário» (Eclo 29, 28). «O homem sóbrio gozará de um sono tranquilo, dormirá até pela manhã, e sua alma será por isso restaurada» (Eclo 31, 4). «Quem vive frugalmente terá vida longa» (Eclo 37, 34). A sobriedade é, pois, mãe da saúde, da sabedoria, da castidade, da longevidade e da santidade. Esta verdade também a encontramos confirmada pelos filósofos pagãos, entre os quais Epicteto, por exemplo, deixou escrito: «Enquanto estás sentado à mesa, pensa que deves prover a dois convivas, isto é, ao corpo e à alma; e que aquilo que dás ao corpo entra para logo sair; mas aquilo que dás à alma permanecerá nela para sempre (26)».