Tesouro n.º 167 · Volume III

PROVIDÊNCIA PROVVIDENZA

6 seções · 15 parágrafos · pp. 2013–2019 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. EXISTE UMA PROVIDÊNCIA QUE É ADMIRÁVEL

«Somente Deus, diz São Cipriano, governa o mundo; com a palavra ordena a tudo o que existe; regula tudo com a sua suprema razão; conduz tudo ao fim com o seu imenso poder (1).» A Providência é a vontade permanente de Deus de conservar a ordem física e moral que ele estabeleceu no universo, ao criá-lo. A Providência divina, que tudo conserva e governa, é uma criação contínua… A integridade, a perfeição, a diversidade, a ordem, a união, a sucessão, a força, o poder, a vida de todas as coisas, tomadas separadamente e unidas em conjunto, são maravilhosos, e quem os observa fica tomado de assombro; por isso disse o Poeta: Deus, infinitamente grande, faz resplandecer o seu poder até nas coisas mais pequenas (2).

A Providência de Deus não se manifesta menos num átomo do que no sol, tanto num grão de areia quanto nas montanhas mais elevadas, assim numa gota de água como no Oceano, tanto num mosquito quanto na águia, no menor e mais fraco dos insetos como no leão, tanto sobre a terra quanto no firmamento, em todos os elementos, em todas as estações, em todos os diversíssimos produtos do solo…

2. NECESSIDADE DA PROVIDÊNCIA

Se Deus não cuidasse de modo algum das coisas do mundo, principalmente das criaturas inteligentes, ele seria para nós como se não existisse, e pouco nos importaria saber se ele existe ou não. A sabedoria, a bondade, a justiça, a santidade que lhe atribuímos seriam nomes vazios de sentido; a moral cairia numa vã especulação, e a religião seria um absurdo. Portanto, a primeira lição que Deus deu ao homem, quando o tirou do nada, foi ensinar-lhe que o seu Criador era também o seu senhor, seu pai, seu legislador, seu benfeitor, sua Providência. Deus deu-se a conhecer ao homem não somente como um ser de natureza superior, eterna e infinita, mas como o autor e conservador de todas as coisas, como o remunerador da virtude e o vingador do mal. Deus, ao criar o mundo, não agiu de modo algum com o ímpeto cego de uma causa necessária, mas com a inteligência de um ser livre e independente, com reflexão, previdência e atenção à perpetuidade da sua obra e ao bem-estar das suas criaturas. Ele falou, e tudo foi feito; mas também viu que tudo era bom.

Aquilo que chamamos acaso é uma palavra vazia: tudo acontece pela Providência de Deus. Se ela cessasse por um instante de conservar, sustentar, dirigir e vivificar todas as coisas, o universo cairia naquele mesmo instante no caos: o sol não percorreria mais a sua órbita; a lua, os planetas e as estrelas desapareceriam do firmamento; a terra cessaria de produzir, o Oceano sairia dos seus limites; as feras deixariam os desertos, e os animais domésticos tornar-se-iam ferozes…; o próprio céu seria aniquilado…

3. PROVIDÊNCIA NA ORDEM FÍSICA

Eis a magnífica descrição que o Rei Salmista faz da Providência na ordem física: Bendize o Senhor, ó minha alma; ó Senhor, meu Deus, quão grande sois na vossa magnificência e providência! Estais revestido de glória e beleza, envolto em esplendor e luz. Estendeis os céus como um pavilhão; as águas ficam suspensas ao redor do vosso santuário; as nuvens formam o vosso carro, que voa levado sobre as asas dos ventos; tendes as tempestades por mensageiras e as chamas por ministras. Firmastes a terra sobre as suas bases, e os séculos não bastarão para abalá-las. O abismo das águas a envolvia como em faixas; sepultava nos seus redemoinhos os cumes das montanhas mais altas; mas, a um sinal vosso, fugiu; ao estrondo do vosso trovão, deteve o seu curso; cobria as montanhas e desceu aos vales, encaminhando-se pelo leito que lhe destinastes. Fixastes-lhe limites além dos quais não avançará. Enviais fontes aos vales, fazendo correr as águas entre os penhascos dos montes; nelas bebem as feras do deserto; em suas margens pousam as aves do céu; no meio da folhagem dos bosques murmuram as águas, divididas em frescos regatos. Do alto da vossa morada regais os montes; a terra se sacia com os frutos que as vossas mãos espalham. Fazeis brotar a erva dos prados para os rebanhos e as searas para o homem. Fazeis nascer da terra o vinho que alegra o coração do homem; dais-lhe o pão que o alimenta e os dons que lhe adornam o rosto. Regais as árvores das florestas, os cedros do Líbano, plantados pelas vossas mãos. Ali estão os ninhos dos pássaros; ali os abetos dão abrigo às garças; os cumes dos montes são percorridos pelos cabritos-monteses; as tortuosas fendas das rochas oferecem asilo aos animais de natureza tímida.

A lua marca os tempos; o sol conhece a hora do nascer e do pôr. Conduzis as trevas, e eis a noite; então as feras das florestas saem das suas tocas e vão procurando alimento nas sombras. Os leõezinhos rugem em busca de presa e pedem a Deus o seu alimento. O sol se levanta, e os animais selvagens se recolhem às suas cavernas, deitam-se em seus abrigos; então o homem sai para o seu trabalho diário, para cultivar os campos até a tarde. Ó Deus, quão magníficas são as vossas obras! (Quão rica e admirável é a vossa Providência!) Tudo foi feito por vós, tudo é governado por vós em vossa sabedoria; a terra está cheia dos vossos bens. Eis o grande mar, que se estende imenso; nele se movem animais sem conta, pequenos e grandes; em seus redemoinhos se esconde aquele Leviatã, que formastes para brincar no abismo; sobre as suas ondas navegam inumeráveis navios. Todas as criaturas esperam de vós o seu alimento no tempo determinado. Vós o dais, e elas o recolhem; abris a mão, e elas se saciam dos vossos dons (Sl 103). Se descobris o vosso rosto, elas se perturbam; se retirais o vosso sopro, expiram e retornam ao pó. Enviais o vosso alento, e elas renascem, e a face da terra se renova (Sl 10,30). A glória do Senhor subsista para sempre; alegre-se o Senhor em suas obras. Ele olha para a terra, e ela treme; toca os montes, e eles lançam chamas… Celebrai o Senhor, invocai o seu nome; anunciai as suas obras entre os povos; cantai os seus louvores; proclamai as maravilhas da sua Providência. Os olhos de todas as criaturas estão fixos em vós, ó Senhor; distribuís a todas o seu alimento no tempo oportuno. Abrais a vossa mão e saciais tudo o que tem espírito de vida (Sl 144,15-16). «A Providência de Deus é o armazém, o celeiro, a renda dos pobres, diz São João Crisóstomo; renda segura, perpétua, inesgotável» (Homil. ad pop.).

4. PROVIDÊNCIA NA ORDEM MORAL E SOBRENATURAL

Se na ordem moral ocorrem infrações e perturbações, a culpa não é da Providência, mas do homem rebelde contra a Providência. Esta, contudo, é tão poderosa que do próprio mal tira o bem e faz brotar a ordem do desregramento. E, como diz Santo Agostinho, Deus jamais teria permitido o mal se não soubesse ser tão poderoso a ponto de convertê-lo em bem maior.

A Providência divina, por si só e como lhe apraz, regula a ordem sobrenatural. Desde o princípio do mundo, teve em vista a salvação do gênero humano, e esse foi, em todos os séculos, o objetivo da sua ação. Ela, porém, executa esse desígnio por meios impenetráveis às nossas débeis luzes; ilumina uma nação com a tocha da fé, enquanto deixa outra jazer nas trevas da infidelidade, sem que esta tenha o direito de se queixar, nem aquela de se ensoberbecer. Do mesmo modo, Deus concede a cada indivíduo aquela medida de graça e de dons sobrenaturais que julga conveniente, sem que pessoa alguma no mundo tenha o direito de lhe pedir contas da sua conduta. A Providência divina abraça a todos, quer bem a todos e a todos faz o bem! E, se algumas vezes se arma do flagelo, é forçada a isso pelas desobediências, pelas revoltas e pelos ultrajes dos culpados.

5. É PRECISO CONFIAR NA PROVIDÊNCIA

Ó quanta sabedoria está encerrada nestas palavras do divino Mestre: Não vos inquieteis com a vossa existência, pensando com demasiada ansiedade em como vos alimentareis e vestireis! A vida não vale mais que o alimento, e o corpo mais que as vestes? Olhai para as aves do céu; não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celeste as alimenta. Ora, não valeis vós muito mais do que elas? Quem de vós poderia, por mais que se esforçasse, acrescentar um côvado à sua estatura? E por que vos preocupais tanto com as vestes? Vede como crescem os lírios do campo; e, sem trabalhar nem fiar, estão tão magnificamente vestidos que vos digo, em verdade, que nem Salomão, em todo o esplendor da sua glória, se vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje floresce e amanhã é lançada ao fogo, quanto mais não cuidará de vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, portanto, dizendo: que comeremos? ou que beberemos? ou com que nos vestiremos? Os gentios se preocupam com essas coisas, mas vós não, porque vosso Pai celeste sabe que tendes necessidade delas. Buscai, pois, antes de tudo, o reino de Deus e a sua justiça, e todo o resto ele vo-lo dará por acréscimo (Mt 6,25-33). Também o Salmista dizia: «Depõe todas as tuas preocupações no seio do Senhor, e ele te alimentará» (Sl 54,23).

6. OBJEÇÕES CONTRA A PROVIDÊNCIA

Os filósofos modernos, diz Bergier, limitam-se a repetir contra a Providência os sofismas dos antigos e caem nos mesmos preconceitos que eles. Estes opinam que é impossível que uma só inteligência possa ver todas as coisas em seus mínimos pormenores e conservá-las na memória; aqueles julgam indigno da majestade divina, e degradante para a sua sabedoria e poder, confiar-lhe o cuidado de tantas coisas pequenas e vis; outros pretendem que tal economia perturbaria a sua felicidade e o seu repouso. Uma prova, dizem, de que o mundo não foi feito nem é governado por Deus sumamente sábio e poderoso está no fato de que, sob muitos aspectos, esta obra se mostra defeituosa: como se pode afirmar que Deus, sumamente e essencialmente bom, preside ao governo do mundo, se se consideram as desordens que o transtornam? E que desordem maior do que deixar a virtude sem recompensa e o vício sem castigo?

Por isso, entre os filósofos pagãos, alguns, como os epicureus, sustentavam que no mundo tudo se deve atribuir ao acaso; que os deuses, adormecidos em profundo repouso, não se importam minimamente com ele. Outros, principalmente os estoicos, imaginavam que tudo fosse regido pela lei do destino, lei à qual a própria divindade estaria submetida. Finalmente, não faltaram aqueles que, dóceis às lições de Platão, imaginavam que o mundo tivesse sido feito e fosse governado por certos espíritos, ou gênios, ou demônios, inteligências inferiores a Deus; que esses artífices, impotentes e inábeis, não haviam sabido corrigir as imperfeições da matéria e não podiam impedir as desordens deste mundo. Nenhum desses sistemas honrava as divindades, nenhum servia de consolação aos homens; e, contudo, era o melhor que a razão humana pudera encontrar. É evidente que aquele amontoado de erros se apoiava em quatro noções falsas: a primeira, relativa à criação, que os filósofos de modo algum queriam admitir; a segunda, relativa ao bem e ao mal, que eles consideravam termos absolutos, quando não passam de termos de comparação; a terceira, relativa ao poder infinito, que comparavam ao poder limitado do homem; a quarta, enfim, relativa à justiça divina, que supunham falsamente dever cumprir-se neste mundo. E, com efeito:

1. Se os filósofos tivessem compreendido que Deus possui o poder criador e que opera somente com a sua vontade; que, a um simples aceno seu, a um ato de sua vontade, tudo foi feito, teriam compreendido igualmente que o governo do universo não pode custar a Deus mais, nem degradar mais a sua soberana majestade, do que lhe custou a criação. Aqui os filósofos já colocavam em paralelo a inteligência e o poder divinos com a inteligência e o poder humanos e, como seria enfadonho e aviltante para um rei ocupar-se das mais minuciosas providências de seu império, concluíam que o mesmo se deve dizer de Deus. Consequência ridícula e falsa. É, pois, a ideia do poder criador que elevou o espírito e a imaginação dos escritores sagrados e lhes inspirou, ao falar do poder divino, frases e conceitos tão superiores a todos os conceitos filosóficos. Deus, segundo o estilo deles, nada mais fez que chamar os seres do nada, e eles se apresentaram; ele sustenta as águas dos mares e conduz o globo terrestre na palma da mão; os céus são obra de seus dedos; é ele quem dirige os astros em seu majestoso curso; e pode, com uma palavra, precipitar céu e terra no abismo e reduzi-los ao nada primitivo etc. Basta-lhe conhecer o poder para ver não somente tudo o que existe, mas também tudo o que pode existir.

II. A sã filosofia demonstra que no mundo não há bem nem mal absoluto, mas somente por comparação; e, por isso, quando se diz que há mal, isso significa somente que há um bem menor do que poderia haver. É certo que não existe criatura à qual Deus não tenha feito algum bem, embora pudesse ter-lhe feito mais e lhe tenha feito menos do que a outras. Ora, é absurdo pretender que tudo é mal, porque nem tudo é tão bom quanto poderia ser; e é absurdo supor que um ser criado e, por conseguinte, essencialmente finito, possa ser absolutamente bom sob todos os aspectos; ele seria então, como Deus, a perfeição infinita.

III. Engana-se grosseiramente acerca da noção do infinito quem supõe que Deus, por ser onipotente, deve fazer todo o bem que pode: isso é impossível, porque ele pode fazê-lo infinitamente. Essa suposição contém uma contradição, que consiste em querer que Deus não possa fazer melhor. Depois, volta a campo a falsa comparação entre o poder de Deus e o poder do homem: este deve fazer todo o bem e todo o melhor que pode, porque seu poder é limitado; mas não se pode dizer o mesmo de Deus, porque o seu poder é infinito.

IV. Os filósofos não raciocinavam com mais sensatez quando se mostravam escandalizados porque Deus não pune nem sempre nem todos os delitos deste mundo; se Deus assim fizesse, não trataria talvez com excessivo rigor um ser tão fraco e tão inconstante como é o homem? Não lhe tiraria o tempo e os meios de fazer penitência? Além disso, às vezes acontece que uma ação que aos olhos dos homens tem aparência de culpa é, na realidade, coisa inocente e louvável; ao contrário, muitas vezes aquilo que lhes parece um ato de virtude provém de má intenção. Injusta seria, pois, a Providência se se conformasse ao juízo dos homens. Ademais, as recompensas deste mundo não são prêmio suficiente para uma alma virtuosa e, por sua natureza, imortal; é preciso que a virtude seja provada na terra para que mereça uma felicidade eterna no céu. O ímpio que, em sua cegueira, murmura e fala mal da Providência diz: Se eu fosse Deus, procederia de maneira bem diferente; mas poder-se-ia responder-lhe: Se Deus fosse homem, faria também de modo diferente… Calemos, admiremos, adoremos, agradeçamos à Providência de Deus, submetamo-nos ao seu governo paterno, e ela nos conduzirá a bom termo.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.