«A prudência é, segundo São Tomás, o olho e o piloto da alma, não menos que de todos os seus movimentos e de todas as suas ações». O vocábulo prudens, prudente, deriva de porro ou procul videns, para significar aquele que vê de longe; e prudentia vem de procul videntia, isto é, faculdade de ver as coisas de longe (1)».
Para conhecer quão necessária é ao homem a virtude da prudência, basta abrir a Sagrada Escritura, onde vê-la recomendada e ordenada quase em cada página, se serve para nos dar dela uma altíssima ideia, também nos insinua a sua absoluta necessidade. «Meu filho, dizia o Eclesiástico, nunca empreendas coisa alguma sem antes pedir conselho, e assim jamais te acontecerá ter de arrepender-te» (Eclo 32, 24). «Meu filho, repete o Sábio nos Provérbios, provê-te da minha sabedoria e presta ouvido à minha prudência, se queres vigiar sobre os teus pensamentos e guardar a ciência. Pois, onde falta a prudência, todo projeto fracassa, ao passo que se consolida e prospera quando é auxiliado pelos conselhos de muitos. A alma que não é prudente nunca acerta uma» (Pr 5, 1-2; 15,22; Ali 19,2). Aprendei, diz o Senhor, onde está a prudência, onde a força, onde a inteligência; para que saibais ao mesmo tempo onde estão a longevidade da vida, o verdadeiro alimento, a luz dos olhos e a paz» (Br 3, 14).
Querendo Deus criar o homem, a Santíssima Trindade reúne-se em conselho, como parecem insinuar-nos aquelas palavras: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança» (Gn 1, 26). Façamos com conselho o homem capaz de conselho, para que ele aprenda de nós, de seu Criador, a fazer tudo com prudência e conselho. Por isso São Paulo exortava os Efésios a que cuidassem bem de como deveriam proceder, agindo como sábios, não como insensatos; remindo o tempo, porque os dias são maus. «Não sejais, pois, conclui o Apóstolo, sem discernimento, mas procurai compreender qual é a vontade de Deus e enchei-vos do espírito do Senhor» (Ef 5, 15-18). Aos Romanos ensinava que a verdadeira prudência consiste em não querer ser mais sábios, mais perspicazes do que convém, mas em ser sábios com sobriedade; e com isso queria dizer: não vos lanceis a nenhum excesso, nem mesmo por zelo do bem, sem antes terdes pedido conselho e ponderado a coisa com toda a prudência (Rm 12, 3). Pois, como observa São Bernardo, «se tiras a prudência, também a virtude se torna vício» (Serm. L, in Cantic.). Eis por que o mesmo Apóstolo escrevia aos Coríntios que muitas coisas lhe era permitido fazer, mas que não as fazia, por serem desaconselhadas, como inconvenientes, pela prudência (1Cor 6, 12).
Recorda-nos a necessidade da prudência o Venerável Beda, quando nos dá como regra fundamental da vida estudar atentamente o caminho da justiça no qual devemos entrar; e, antes de empreender qualquer empresa, lançar o olhar para prever-lhe o fim (2); esta mesma coisa nos inculca São Bernardo com aquela sua sentença: «Faze que as tuas palavras sejam polidas duas vezes antes de serem proferidas uma só» (Tract. de Perfect.). Finalmente, a especial necessidade da prudência para um cristão resulta daquele ensinamento de Jesus Cristo aos Apóstolos: «Eis que eu vos envio como ovelhas entre lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes» (Mt 10,16).
A prudência exige do homem que tudo o que ele faz: 1° não esteja infectado de falsidade; 2° seja, antes, franco e sincero, sem sombra de fingimento e hipocrisia; 3° seja grave e sem leviandade; 4° seja justo e isento de toda injúria contra o próximo; 5° seja útil e não resulte em dano para ninguém; 6° seja maduro, bem ponderado, oportuno, conveniente às pessoas, aos lugares e aos tempos; 7° finalmente, que não diga nem faça coisa alguma de que deva arrepender-se.
O homem prudente pratica o conselho de São Tiago: ser pronto para ouvir, lento para falar, tardio para irar-se (Tg 1, 19); pratica a máxima de São Bernardo, que diz que o homem sensato nada empreende sem antes ter previsto e examinado três pontos, a saber: primeiramente, se aquela ação que tem em mente realizar é permitida; em segundo lugar, se é conveniente; em terceiro lugar, se é vantajosa (3); jamais se esquece destas palavras de Santo Ambrósio: «O homem prudente mede os seus discursos e os pesa nas balanças da justiça, para que haja gravidade em seus conselhos e ponderação em suas palavras. Quem assim procede torna-se manso, dócil, modesto (4)».
Observa o Evangelho que, quando o Anjo saudou Maria para anunciar-lhe que Deus a havia escolhido como mãe do Verbo encarnado, ela foi tomada de perturbação, porque o Anjo tinha aparência de homem (Lc 1, 29). Isso foi um ato de prudência; pois, como observa Santo Ambrósio, «é próprio de uma virgem sensata e prudente temer e tremer à vista de um homem que venha até ela (5)»; e o Sábio nos assegura «que aquele que caminha cauteloso e circunspecto em meio às armadilhas sai delas ileso» (Pr 11, 15).
O homem prudente desconfia de si mesmo, humilha-se e preserva-se dos pecados…; para não desviar-se, abraça a lei do Senhor; medita nessa lei, pondera as suas recompensas e os seus castigos, compara-a com aquilo que lhe sugerem a paixão, o mundo e o interesse e, então, escolhe sempre o bem e evita o mal: prevê os dias infaustos (Ecl 7, 15). Fala pouco, nunca imprudentemente nem com demasiada pressa (Ibid. 5, 1); diz o Senhor com o Salmista: «Põe uma guarda em minha boca e uma porta em meus lábios» (Sl 140, 3); nunca se desvia, nem para a direita nem para a esquerda, e afasta do mal os seus passos (Pr 4, 27). Regula-se pela norma da sã razão, da lei e da vontade divina. Não desviar-se para a direita quer dizer que, também ao fazer o bem, é preciso proceder com prudente reserva; não voltar-se para a esquerda significa evitar o pecado. Voltar-se para a direita, comenta Santo Agostinho, é enganar a si mesmo, julgando-se sem culpa; voltar-se para a esquerda é entregar-se ao pecado com uma segurança perversa e corrompida (De. Morib.). A direita e a esquerda assinalam o vício; a virtude está no meio, e é nele que se mantém o homem prudente. Se, em razão de seu ofício, ele manda nos outros, recorde sempre aquela máxima de São Bernardo: «Quem manda observe todas as coisas, feche os olhos a muitas e puna poucas» (De Consider.).
O homem prudente examina tudo com sabedoria, pesa cada coisa na balança das razões divinas e eternas. O imprudente, ao contrário, pesa as coisas na balança das razões humanas, temporais e caducas, e as prefere — ó suma loucura! — às razões divinas e eternas. São Luís Gonzaga, modelo de prudência, é representado com uma balança na mão; num de seus pratos estão colocadas as razões temporais, e no outro, as eternas; e estas, sobrepujando infinitamente aquelas, induzem-no e impelem-no a fazer sempre tudo segundo as razões divinas, nunca segundo as razões humanas. É precisamente disso que nos adverte um sábio: «Tudo quanto fizerdes, fazei-o com prudência e tendo os olhos no fim» — «Ó homem — exclama São Bernardo —, considera de onde vens; envergonha-te do estado em que te encontras; chora e treme ao pensar para onde vais (6)». Aquilo que uma vez pensamos, dizemos e fazemos é eterno. Vivamos, pois, estudemos e trabalhemos para a eternidade. Esta é a prudência, esta é a sabedoria dos Santos… Perguntaram a São Tomás de Aquino como se pode atravessar esta vida sem erro e sem queda grave, e ele respondeu: «Se alguém, em cada uma de suas obras, se comportar de tal modo que saiba dar a si mesmo a razão por que assim procede. Agindo desse modo, não permite que nela entre a cobiça, ou a paixão, ou o acaso, ou qualquer outra coisa semelhante que possa induzir ao erro (7)».
Excelente regra de prudência sugeria Tobias a seu filho, quando lhe dizia: «Em toda necessidade tua, recorre, para pedir conselho, a um homem sábio» (Tb 4,19). Com efeito, o conselho é coisa sagrada, escreve São Basílio; ele é a união das vontades, o fruto da caridade, o fundamento da humildade (Homil. in Psalm.). O homem prudente não é curioso acerca dos mistérios da fé; nunca leva coisa alguma ao extremo; atende ao seu dever e às suas funções; cuida de si mesmo e não se ocupa dos assuntos alheios… «A prudência — diz o Eclesiástico — manifesta-se no falar; o discernimento, a ciência e a doutrina aparecem nos discursos do sábio, e sua constância, em suas obras de justiça» (Eclo 4,29). «Os homens sensatos em seus discursos procedem como sábios; possuem a inteligência da verdade e da justiça» (Ib. 18,29).
Célebre é aquela sentença de Sêneca: «Não sabe falar quem não sabe calar» (In Prov.), e digno de ser praticado por todos é aquele outro aviso seu: «Delibera ponderadamente e depois age depressa; é loucura não refletir (8)».
«O homem prudente governará os outros», dizem os Provérbios (Pr 1,5). Do rei Davi atesta o Espírito Santo que em todas as suas obras agia com prudência, e o Senhor estava com ele; e, porque procedia com mais prudência que todos os súditos de Saul, seu nome se tornou célebre (1Sm 18,14.30). «Onde abunda a prudência, aí está a salvação… E quem se conduz em tudo com prudência nunca erra», lemos nos Provérbios (11,14; 13,10). «O homem prudente — diz o Eclesiástico — é uma lição viva para o bem dos outros e enche de doçura a própria alma; será cumulado de bênçãos, e aqueles que o virem lhe darão louvor; será honrado no meio do povo, e seu nome será famoso para sempre» (Eclo 37,22.27-29). Que mais dizer? Basta afirmar que, segundo o testemunho do Espírito Santo, «a prudência é a ciência dos Santos» (Pr 9,10).
Segundo São Basílio, a barquinha da vida humana, governada e conduzida pela prudência, que exerce o ofício de piloto, deve navegar por três mares perigosíssimos e cheios de tempestades e naufrágios. O primeiro mar é o século, no qual domina o vento da fortuna, que eleva uns até as estrelas e submerge outros no abismo. Nesse mar, a nave é o homem, impelido pela sorte próspera ou adversa; então a prudência previne as tempestades e impede os naufrágios. O segundo mar é o coração, continuamente agitado e transtornado, como um oceano em tempestade, por diversas paixões, ideias e desejos; aqui, o vaso é a alma ou a vontade, e a prudência escolta uma e outra. O terceiro mar é a passagem traçada para a vida humana. Essa passagem, que deve conduzir-nos ao céu, está infestada pelos demônios que, como terríveis piratas, capturam e saqueiam a nave com todos os seus tesouros, isto é, a alma com todas as suas boas obras, ou fazem-na chocar-se contra os escolhos, para que naufrague; e a rapidez do tempo é um vento fortíssimo que continuamente a impele contra o banco da morte. A prudência, em parte evita, em parte combate esses corsários; salva do saque e do naufrágio as riquezas da nave e a própria nave, e conduz esta, por meio de uma boa morte, ao porto suspirado da eterna salvação (Homil. in Psalm.).
São Bernardo faz este elogio da prudência: «A prudência purifica a alma, regula os afetos, dirige as ações, corrige os excessos, forma os costumes, adorna a vida, torna o homem honrado e perfeito, comunicando-lhe a ciência das coisas humanas e divinas. Esclarece o que é obscuro, modera os desejos violentos, reúne o que está dividido, busca a verdade, estuda as coisas secretas, examina o que parece verossímil, investiga o que é falso ou fictício. A prudência distribui convenientemente o que se deve fazer, reconsidera o que foi feito, para que nada se encontre na alma de incorreto ou necessitado de emenda. Ela prevê e torna presentes as adversidades desde o próprio seio das prosperidades; e tão grande é sua força na fortuna adversa que não somente a suporta com heroica coragem, mas dir-se-ia que nem sequer a sente (9)». A prudência — dizia já o abade Moisés — é a mãe, a guardiã e a moderadora de toda virtude (10)». Daí se compreende o sentido daquelas sentenças do Sábio: «Quem guarda sua boca preserva sua alma das angústias» (Pr 21,23). «Se invocares a prudência, se a buscares como a prata, se a descobrires como um tesouro escondido, então compreenderás o temor de Deus, encontrarás a ciência do Senhor; porque o Senhor Deus dá a sabedoria, e de sua boca se difundem a prudência e o saber» (Ib. 2,3-6). «Considera tua conduta à luz da prudência, e serás firme e estável em tuas obras» (Ib. 4,26). «No coração do homem prudente reside a sabedoria; ele instruirá os outros» (Ib. 14,33).
Dos textos citados resulta que a ciência da alma está na prudência, pela qual a alma examina não somente as coisas presentes, mas também as passadas e as futuras, para regular tão bem suas ações que, podendo justificá-las no dia do juízo aos olhos de Jesus Cristo, que tudo penetra, obtenha a coroa e o prêmio da glória celeste. Pois a prudência é o olho da alma, e quem a possui vê claramente todas as coisas, prevê-as e provê a elas, e observa atentamente suas próprias ações e sua conduta; por isso caminha livre e seguro, como quem caminha nas trevas precedido por uma lanterna. A ciência da alma é, pois, a prudência, que vela pela salvação do homem, considera seus prêmios e castigos, encoraja-o a viver bem, a fugir da culpa, a praticar a virtude e a morrer bem. Eis por que o Sábio a chama a virtude dos Santos (Pr 9,10), e São Lucas a apresenta como a virtude dos justos (Lc 1,17).
São Pambo dizia, no momento da morte: «Até agora não tenho de me arrepender de nenhuma imprudência» (Vit. Patr.). Feliz o homem que pode dizer assim!… Quem é prudente nos pensamentos, nas palavras e nas ações é homem perfeito e, portanto, felicíssimo… Segundo a sentença do Espírito Santo, a sabedoria é a herança do homem prudente; ora, a sabedoria traz consigo a felicidade… Além disso, ouvimos o próprio Senhor assegurar-nos que a prudência é a ciência dos Santos e que a salvação se encontra onde há prudência; portanto, quem possui a prudência possui a felicidade… «Os bons conselhos de um amigo aliviam e alegram a alma», lemos nos Provérbios (Pr 27,9); ora, ninguém senão o homem prudente ama e busca os conselhos. «O homem prudente possui sua alma em paz e está cheio de bênçãos» (Eclo 37,22-27).
«Evita as disputas inúteis e absurdas, sabendo muito bem que delas nascem as contendas» (2Tm 2,23). Quem quer ser prudente não se esqueça jamais desta regra dada por São Paulo a Timóteo… «Ele ordenou o meu amor» (Ct 2,4), dizia a Esposa dos Cânticos; e com razão, porque, como observa São Bernardo, «o zelo que não é ordenado nem guiado pela prudência é sempre menos eficaz, menos útil, quando não chega a ser nocivo. Quanto mais ardente é o zelo, quanto mais ativo o espírito, quanto maior é a caridade, tanto mais se requer prudência e ciência para regular o zelo, refrear o espírito e ordenar a caridade (11)». Finalmente, aquela sentença dos Provérbios: «Quem confia inteiramente em seu próprio engenho e poder é insensato» (28,26), adverte-nos de que grave escolho a evitar, para quem quer ser prudente, é o amor-próprio, o apego à própria opinião.
«Se há entre vós, diz São Tiago, alguém que se julgue religioso e, entretanto, não refreie a língua, mas engane o próprio coração, sua religião é vã» (Tg 1,26). Sem prudência não há planos sólidos; onde há imprudência, já não há bem algum, já havia dito o Sábio (Pr 15,22; 19,2).
Quem não prevê o que deve fazer caminha como cego, escreve São Gregório; tropeça e cai (Pastor. Admonit. XVI). Os imprudentes não consultam ninguém, desprezam os conselhos salutares, porque são dominados pela cobiça e pelas paixões, e lhes pesa sacudir-lhes o jugo. À semelhança dos judeus, nada compreendem e, contudo, são duros e obstinados; sua vida e seu fim são deploráveis… O imprudente caminha nas trevas, sem jamais saber para onde vai. A concupiscência chama-o, e ele corre ao seu chamado; por isso vemo-lo escorregar para vícios, escândalos e abismos sem número… O imprudente viola os segredos. É detestado por Deus e pelos homens… Prejudica os outros… Prejudica a si mesmo… É infeliz e torna os outros desventurados.