«Quem odeia seu irmão é homicida», diz o Apóstolo João (1Jo 3, 15). Homicida não de fato, mas de afeto e de vontade, é homicida pela disposição de tornar-se tal, porque o ódio dispõe ao homicídio… É homicida do próximo em seu coração, porque o mata expulsando-o dele… É homicida de si mesmo, porque se mata com a gravidade do crime do ódio… De três modos se comete homicídio: com o ferro, com a calúnia, com o ódio… Quem alimenta ódio no coração é um demônio, um anticristo, isto é, um adversário do Deus da caridade e do amor.
O ódio é uma espada de dois gumes: fere aquele que a maneja, isto é, aquele que alimenta ódio, e aquele contra quem é usada. Que loucura! Quer-se matar outro e mata-se a si mesmo; enforca-se no patíbulo aquele mesmo que queria ali pendurar outros: é a história do cruel Amã…
São João nos diz claramente que é impossível amar a Deus e odiar o próximo, e não hesita em chamar de mentiroso aquele que ousasse afirmar que ama a Deus enquanto alimenta ódio ao irmão (1Jo 4, 20). Ora, quem não ama a Deus está morto (Ibid. 3, 14), conclui o mesmo Apóstolo… Como o ódio é pecado digno de morte diante de Deus, segue-se que é pecado grave… O ódio é pecado oposto ao Espírito Santo, que é o Deus do amor; o Espírito Santo não pode deixar de abominar a alma que alimenta ódio e vingança.
«Não vos deixeis vencer pelo mal, escrevia São Paulo aos Romanos, mas triunfai do mal por meio do bem» (Rm. 12, 21). «Aquele que é bom somente na aparência, mas mau no interior, não vence o mal com o bem, diz Santo Agostinho; é moderado nas obras, mas se enfurece no coração; tem a mão mansa, mas a vontade cruel (1)»: tal é aquele que odeia.
«Vingar-se não é ato de força, mas de fraqueza e covardia, diz Santo Ambrósio; quem odeia e se vinga não vence o inimigo, mas é vencido por ele (2)». Também o pagão Aristóteles, segundo Laércio, disse: «Assim como um estômago delicado não pode digerir alimentos um pouco duros, assim é indício de coração pusilânime e vil ressentir-se e guardar rancor por uma palavra um pouco mais áspera (3)».
Um coração cheio de ódio é vil, e duplamente vil! 1° porque conserva em si o ódio, coisa abjeta e abominável…; 2° porque não pode encontrar nele lugar para fazer entrar o perdão… Ó coração estreito e estéril! Não digais que não se pode perdoar; que é grandeza de alma não esquecer a injúria; que perdoar traria desonra; que seria ganhar fama de vil…
O homem dominado pelo ódio crê punir o inimigo e pune a si mesmo. «Aquele que vos insulta, diz Tertuliano, o faz para mortificar-vos e causar-vos incômodo; pois o gozo, a vantagem daquele que insulta, está no desprazer daquele que é insultado. Portanto, vós o privais de sua esperança e o obrigais a arrepender-se do que fez, quando não vos irritais nem sequer dais mostras de haver tomado conhecimento de seu ódio. O mal que ele vos deseja recai sobre ele; então não somente permaneceis ilesos, mas podeis rir-vos ao vê-lo apanhado no laço que havia preparado para vós (4)».
Se, ao contrário, vos deixais arrastar pelo ódio, tornais feliz o vosso inimigo, porque ele alcançou o seu objetivo, e tornais infelizes a vós mesmos, dando abrigo a um abutre em vossas entranhas. Ora, ser o próprio carrasco para agradar a um inimigo não é o mais estúpido e deplorável dos cegueiras?
Não há vício que tanto transtorne e cegue a razão quanto o ódio e a ira; e, cegando, torna infeliz a sua vítima: 1° porque é, por sua própria natureza, um veneno, um verme roedor…; 2° torna-a infeliz por causa da prosperidade do adversário…; 3° mantém o pensamento continuamente ocupado com aquele em quem jamais se desejaria pensar… Foge-se dele e pensa-se nele incessantemente…; 4° o que odeia é infeliz pela busca dos meios com que desafogar o seu mau gênio…; 5° é ainda infeliz por ver aquele que detesta…; 6° o ódio não deixa repousar nem dormir tranquilamente…; 7° atrai sobre si o ódio e a maldição de Deus e dos homens.
Caim deixa que o ódio contra seu irmão Abel penetre-lhe no coração e acaba por assassiná-lo (Gn 4, 5, 8). A que excessos jamais arrastou os irmãos de José o ódio que haviam concebido contra ele! Primeiro deliberam matá-lo; depois, lançam-no numa cisterna; finalmente, vendem-no como escravo e enchem de desgosto e angústia a velhice de seu pai Jacó.
O ódio alimenta as contendas e as rixas, conduz às agressões, ao derramamento de sangue, aos roubos e assim por diante… Quem nutre ódio é inimigo de sua própria alma, ultraja a si mesmo…, atenta contra os outros às suas próprias custas…, vingando-se de seu inimigo, inflige a si mesmo uma ferida mortal.
O ódio, esse veneno mortífero da vida humana, faz sentir antes de tudo sua funesta influência no coração que o concebeu; depois, extingue nele a caridade e expulsa dele a graça. Dele disse o Salmista: «O maligno concebeu a iniquidade, concebeu a dor e deu à luz o delito» (Sl 7, 14). «Abriu um precipício, escavou-o e caiu na voragem que ele mesmo havia preparado. Com ele descerá a sua injustiça, e sua iniquidade pesará sobre sua cabeça» (Ibid. 15-16).
Não é acaso o ódio que impele os demônios a fazer guerra contínua e cruel aos homens? … Não é o ódio que desune as famílias e frequentemente as conduz à ruína? … não é o ódio que trama as revoluções e rompe o vínculo da paz e da sociedade… Não foi o ódio contra Jesus Cristo que arrastou o povo judeu a crucificar o Salvador do mundo e a tornar-se deicida? E não é o ódio contra o nome cristão que mantém esse povo infeliz na cegueira, na obstinação e no endurecimento, impedindo-o de reconhecer Jesus Cristo como o verdadeiro Messias prometido e a religião católica como a única religião verdadeira? … O ódio gera todas as desordens, os malfeitos, os delitos… O ódio será a herança eterna dos demônios e dos réprobos no inferno… Sua maior desgraça será não poderem mais amar coisa alguma.
«Não vos admireis, ó irmãos, dizia o apóstolo São João, se o mundo vos odeia» (I, 3, 13); porque é palavra do divino Mestre que seus seguidores seriam odiados por todos por causa de seu nome (Mt 10, 22); nem poderia ser de outro modo, pois o mundo odiou, antes e mais que a qualquer outro, o próprio Jesus Cristo (Jo 15, 18). E isso é mais que natural, porque, se o cristão fosse do mundo e vivesse do mundo, o mundo amaria aquilo que lhe pertence; mas, como ele não é do mundo e foi tirado do meio do mundo pelo Salvador Jesus Cristo, por isso o mundo o odeia (Ibid. 19). Mas lembrai-vos, diz Jesus, «de que sereis bem-aventurados quando o mundo e os homens vos amaldiçoarem e perseguirem, e disserem falsamente todo mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque grande recompensa vos espera no céu» (Mt 5, 11-12).