Tesouro n.º 153 · Volume III

PERDÃO DAS INJÚRIAS PERDONO DELLE INGIURIE

19 seções · 68 parágrafos · pp. 1800–1822 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. OBRIGAÇÃO DE PERDOAR

Deus ordenou aos cristãos não somente que perdoassem as injúrias, não odiassem os inimigos e não se vingassem, mas também que os amassem e lhes fizessem o bem. São peremptórias estas palavras de Jesus Cristo em São Mateus: «Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo; mas eu vos digo: Amai os vossos inimigos, fazei o bem àqueles que vos odeiam e orai por aqueles que vos perseguem e caluniam» (Mt 5, 43-44). Não menos explícitas são estas outras em São Lucas: «Eu vos digo que ameis os vossos inimigos e façais o bem àqueles que vos odeiam. Bendizei os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos caluniam. Àquele que vos bate numa face, oferecei também a outra» (Lc 6, 27-29).

Aliás, este preceito de amar os inimigos já está contido naquele outro, universalíssimo, pelo qual Deus nos ordena amá-lo com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente, sendo este o primeiro e principal mandamento; e depois amar o próximo como a nós mesmos. Nestes dois preceitos se resume toda a lei (Mt 22, 37-40). «Eu vos ordeno, diz ainda o Salvador em São João, que vos ameis uns aos outros» (Jo 15,17). Por isso, este Apóstolo escrevia assim: «Recebemos de Deus este preceito: quem ama a Deus ame também o próprio irmão» (1Jo 4, 21). E como não nos teria dado este preceito aquele que havia ordenado, na lei do temor, que, se acontecesse alguém ver o jumento de seu inimigo caído sob a carga, não passasse adiante sem levantá-lo? (Ex 33, 5).

Diz São Gregório: «Suportai os vossos inimigos, mas amai como irmãos aqueles a quem suportais» ― (Moral.).

2. JESUS CRISTO NOS DEU O EXEMPLO DO AMOR AOS INIMIGOS

O Salvador, impondo-nos o dever de amar os nossos inimigos, deu-nos também o exemplo disso. Isaías havia predito que o Messias haveria de rezar pelos pecadores (Is 53,12). E eis que, do alto da cruz, aos pés da qual via agitar-se uma multidão de inimigos ferozes, que lhe vomitavam os mais vis e blasfemos ultrajes, Jesus pronuncia aquela oração: «Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lc 13,34). Jesus Cristo imprime em todo o mistério de sua paixão o selo de seu admirável e inefável amor. Esquecendo, de certo modo, seus atrozes sofrimentos, esquecendo-se de si mesmo, reza por seus inimigos e por aqueles que o crucificam. Jesus Cristo ensina-nos assim a triunfar do mal fazendo o bem, a retribuir com benefícios as ofensas recebidas, a amar os nossos inimigos e a vencê-los de modo tão heroico, que os obrigue a se tornarem nossos amigos e amigos de Deus.

Jesus Cristo é um espelho vivo de misericórdia, e seu exemplo é o estímulo mais poderoso para nos levar a perdoar. Pelas entranhas de sua misericórdia, ele se elevou às alturas dos céus para nos visitar (Lc 1,78). Veio para aliviar e curar as numerosíssimas e gravíssimas misérias que nos afligem. Embora fôssemos seus inimigos, derramou abundantemente sobre nós todos os tesouros de sua bondade, tanto na encarnação como durante sua vida, e principalmente na cruz. Quereis uma imagem viva da ternura, da misericórdia, da caridade de Jesus Cristo? Contemplai-o na cruz, onde tudo é miséria, dores e feridas, porque ele é todo caridade, ternura e misericórdia. E não somente na encarnação, em vida e na morte, derramou sobre nós esses tesouros, mas também depois da ressurreição, e continuará a derramá-los pelos séculos dos séculos: ele foi, é e será todo amor, bondade e misericórdia. Jesus, segundo a bela frase de São Tomás, em seu nascimento fez-se para nós irmão e companheiro; ao fim de sua vida, deu-se a nós em alimento; em sua morte, entregou-se como preço de nosso resgate; no céu, onde reina, espera-nos para fazer-se nosso prêmio (1).

Diz São Bernardo: «Jesus Cristo é açoitado com varas, coroado de espinhos; mostra as mãos e os pés traspassados pelos cravos; está pregado à cruz, saciado de opróbrios, e, entretanto, esquecendo todos esses sofrimentos, clama: Meu Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem. Oh! como está pronto a esquecer e perdoar as injúrias! Ó quão grandes são, Senhor, as vossas misericórdias! Quão diferentes são os vossos pensamentos dos nossos! Como tendes piedade do ímpio! Coisa singular! Jesus exclama: Perdoai-lhes; e os judeus gritam: Seja crucificado. ― Ó judeus, vós tendes corações de pedra; castigais a misericórdia encarnada, da qual brota o óleo da caridade. Que delícias fareis provar, ó Senhor, aos vossos amigos no céu, vós que derramais o óleo de vossa misericórdia sobre aqueles que vos crucificam enquanto vos amaldiçoam! (Serm. de pass.). Ah! a caridade ignora, como diz o Crisóstomo, o que sejam o opróbrio e a desonra; ela cobre com suas asas de ouro os vícios de todos aqueles que abraça (In Catena).

3. OS SANTOS IMITARAM JESUS CRISTO

E os Santos não seguiram eles as pegadas de Jesus Cristo? Não nos oferecem, por acaso, estupendos exemplos de perdão aos inimigos? Observai o casto e amoroso José, e não podereis deixar de exclamar com Santo Ambrósio: «É verdadeiramente digno de admiração José, o qual, antes ainda da pregação do Evangelho, procedeu de tal modo que, ofendido, perdoou; atacado e vendido, não se vingou, mas retribuiu as injúrias com benefícios. Isto, que todos aprendemos a fazer do Evangelho, ó quão poucos, na realidade, o fazemos! (2)».

Cegos de furor, os judeus empenham-se em apedrejar Estêvão; e ele, caindo de joelhos, exclama: «Senhor, não lhes leves em conta este pecado» (At 7,58-59). Ah! Pudéssemos também nós repetir com o Apóstolo: «Somos amaldiçoados, e bendizemos; somos perseguidos, e suportamos; somos injuriados, e rezamos» (1Cor 4,12-13). Certamente isso podia dizer-se de Santo Ambrósio, a respeito do qual atesta Santo Agostinho que sempre retribuía o mal com o bem e não se vingava das injúrias senão com benefícios.

Antes de travar batalha contra Eugênio, o imperador Teodósio promulgou um edito pelo qual perdoava todas as injúrias que alguém pudesse ter cometido contra sua pessoa, quer por palavras, quer por atos. «Se, dizia ele, alguém falou mal de nós por indiscreta leviandade, não se deve dar atenção a isso; se foi por loucura, devemos compadecer-nos dele; se foi por má intenção, devemos perdoá-lo» (SOCRATE, Storia eccles. L 7, c. XXII). Tendo os habitantes de Antioquia se insurgido contra o mesmo imperador, por causa de um novo imposto por ele decretado para a guerra contra o tirano Máximo, levaram a insolência a tal excesso que arrastaram ignominiosamente pelas ruas as estátuas do imperador, da imperatriz, de seus dois filhos e de seu irmão. Teodósio decidiu vingar-se severamente. Então Flaviano, bispo de Antioquia, assumindo o papel de pacificador, procurou acalmar a cólera do soberano e, tendo ido até ele, disse-lhe, entre outras coisas, que se apresentava diante dele como delegado dos habitantes de Antioquia, para implorar de sua misericórdia o perdão de que eles se confessavam indignos; mas que vinha também em nome do Senhor dos anjos e dos homens, para declarar-lhe que, se perdoasse as faltas cometidas contra ele, também Deus lhe perdoaria os pecados. Diferentemente dos outros enviados, que se apresentam com ricos presentes, ele se apresentava a ele trazendo apenas a lei de Deus, para exortá-lo a imitar o exemplo que lhe dera o Salvador agonizante na cruz. Ao que o imperador, comovido até às lágrimas, respondeu: Se Jesus Cristo, nosso Senhor, perdoou a seus algozes e rezou por eles, devo eu hesitar em perdoar àqueles que me ofenderam, eu que sou um homem mortal como eles e servo do mesmo senhor? (Id. Ib.).

Não se pode, dizia São Pemene, expulsar o mal com o mal; quando alguém vos faz mal, fazei-lhe o bem, para que possais vencer o mal com o bem (Vit. Pat.). Como são belas as palavras proferidas por São Leão mártir enquanto era cruelmente torturado! Senhor, que não quereis a morte, mas a conversão dos pecadores, fazei que os autores de minha morte vos conheçam e obtenham o perdão de seus crimes, pelos méritos de vosso Filho unigênito, Jesus Cristo, nosso Salvador (In Vita).

Alguns monges miseráveis e transviados haviam posto veneno no cálice de São Bento. Antes de levar a bebida aos lábios, o Santo fez, conforme seu costume, o sinal da cruz sobre o cálice, que se quebrou no mesmo instante. Por esse milagre, o santo Abade compreendeu que a bebida estava envenenada; mas, em vez de punir os culpados, contentou-se em dizer com doçura àqueles monstros: Deus vos perdoe (SURIUS. In Vita). Santo Antonino perdoou generosamente a um sicário que lhe desferira um golpe de espada (SURIUS. In Vita). São Ubaldo foi derrubado ao chão por um homem furioso; o povo, indignado, ameaçava despedaçar o culpado, que, não encontrando outro meio de escapar, lançou-se aos pés do Santo. Este, como único castigo, abraçou-o e salvou-o do furor da plebe. Quem não conhece o fato de São João Gualberto, o qual, tendo visto seu irmão assassinado, jurou vingar-se a qualquer custo? A ocasião não tardou a apresentar-se propícia, pois o assassino veio a encontrar-se com ele numa rua estreita e deserta. João põe imediatamente a mão na espada; o assassino, vendo-se em má situação, lança-se aos pés dele e, pela paixão de Jesus Cristo, suplica-lhe que lhe poupe a vida. Era a Sexta-Feira Santa. Diante de tal espetáculo, João lhe diz: Eu não posso negar-vos o que me pedis em nome de Jesus; concedo-vos não só a vida, mas também a minha amizade; e estreita-o contra o peito. Abençoado por Deus, principalmente por essa ação generosa, João Gualberto tornou-se um grande santo e o fundador de uma Ordem célebre na Igreja, sob o nome de Vallombrosa (In Vita).

4. EXEMPLOS DE PAGÃOS

No décimo segundo livro de suas Histórias diversas, Eliano conta que Fócion, general ateniense, condenado, embora inocente, a morrer por veneno, e interrogado, enquanto lhe ofereciam a taça fatal, se nada tinha a recomendar ao filho, respondeu: Recomendo-lhe que não se lembre da bebida que hoje os atenienses me dão a beber (3). Tendo Demóstenes sido insultado por um de seus rivais, disse-lhe, como única vingança: Que o céu me guarde de travar convosco uma luta na qual é melhor ser vencido que vencedor (PLUTARCO, Vite). A um homem que o insultava, o filósofo Aristipo de Cirene disse: Vós tendes o poder de me ultrajar, mas eu tenho o de vos escutar com calma (Id. Ib.).

O rei Antígono costumava dizer que o perdão era mais poderoso que a vingança (Anton. in Meliss.). Cina havia conspirado contra a vida de César Augusto. Tendo este tomado conhecimento, chamou-o à sua presença e disse-lhe: Cina, eu vos concedo a vida, embora saiba que primeiro fostes meu inimigo, depois conspirador e parricida; ofereceu-lhe, além disso, o consulado. Tamanha generosidade comoveu Cina de tal modo que, a partir daquele momento, foi sempre muito afeiçoado a Augusto, que, ao morrer, lhe deixou parte de sua fortuna particular (SENECA, De Clement.).

5. O PERDÃO DAS INJÚRIAS É SINAL DE GRANDEZA DE ÂNIMO

Eis o que pensavam os filósofos pagãos: «O sábio, diz Sêneca, é superior à injúria» (De Clement.); e, em louvor de Júlio César, escrevia Cícero: «Nenhuma outra coisa costuma esquecer, exceto as injúrias» (Orat. pro Marcello). Os mundanos consideram ato vil e vergonhoso perdoar uma injúria; enganam-se, porque é ação honrosíssima aproveitar a ocasião para praticar um ato de virtude heroica, como é o de perdoar, reconciliar-se e amar o próprio inimigo. Eis por que o homem que sabe esquecer e perdoar uma ofensa é, sem dúvida, um homem superior aos demais. Senhor de sua cólera e de sua vingança, merece glória e estima.

De um nada, diz Eurípides, a língua imprudente faz nascer altercações, rixas, ódios profundos, lutas deploráveis; mas o homem sábio guarda-se bem de suscitar litígios ou provocar ofensas; com sua magnanimidade, apaga as iras mais inflamadas (PLUT. Vite). «Coisa mais útil e mais digna de uma grande alma, diz Musônio, é perdoar uma afronta do que vencer uma demanda (4)». Quem sabe calar-se diante de quem o insulta e não responde palavra a quem o provoca, esse, segundo Valério Máximo, alcança uma vitória difícil e gloriosa (5). Com efeito, o homem que assim procede encontra sua recompensa e sua glória na própria paciência e na cura do próximo. Assim como é coisa de insensato responder a um furioso, também é ação belíssima e utilíssima conservar o silêncio em meio às provocações: o homem sensato e grave não se comove com as palavras injuriosas que um canalha lhe dirige; recorda a sentença de Sêneca: «A censura dos celerados é louvor» (De Clement.). Antes, pareceu a Plutarco coisa tão grande e rara saber calar-se em meio aos insultos, que a chamou ação própria de Sócrates e de Hércules; pois um e outro desprezavam, como zumbido de insetos, as palavras injuriosas (Anton. in Meliss.).

Pitágoras julgava grande habilidade poder suportar a inexperiência dos outros (6). «Quem se vinga de um inimigo para seu próprio dano, dizia Teofrasto, castiga mais a si mesmo do que ao outro: não exerçais, portanto, contra vossos inimigos uma vingança que prejudique mais a vós do que a eles (7)». Lemos ainda que Pítaco, um dos sete sábios da Grécia, tendo ocasião de vingar-se de uma injúria, não quis aproveitá-la, dizendo: «O perdão vale mais que a vingança; aquele é próprio de uma alma doce, esta só agrada a um coração feroz (8)».

Sobre essa grandeza de alma, sobre essa vitória que perdoa as injúrias, assim fala o Crisóstomo: «Nos combates olímpicos consagrados ao demônio, é lei vencer fazendo mal ao adversário: bem diversamente acontece na arena aberta por Jesus Cristo. Aqui não deve ser coroado aquele que golpeia e fere, mas aquele que é golpeado e ferido. Se estamos cheios de brandura e mansidão, somos invencíveis, e nenhuma ofensa pode ferir-nos. Perguntai ao vosso inimigo se ele não sofre e não se sente humilhado e vencido quando vos vê rir e não dar atenção às suas contumélias? (9)». Em seguida, o mesmo Santo concluía: «Nada nos torna tão dignos de respeito e veneração quanto saber suportar uma injúria (10)». E o Nazianzeno: «As ofensas dão matéria para exercitar a virtude; as adversidades dão-lhe lustro e esplendor. Nada vence em fortaleza aqueles que estão dispostos a tudo suportar (11)». Santo Inácio de Loyola anima-nos a manter-nos firmes como bigornas sob os golpes dos ultrajes; pois é próprio do atleta generoso ser golpeado e vencer (12).

A alma em que reinam a clemência e a caridade assemelha-se ao céu. Assim como o céu vastíssimo circunda a terra, aquece-a com os raios do sol, rega-a com chuvas benéficas, refresca-a com suaves orvalhos e a torna fecunda, assim também uma alma sublime abraça, em sua generosidade, os habitantes do mundo inteiro, sejam bárbaros, sejam até inimigos; faz o bem a quantos pode; banha, como de chuva celeste, com sua misericórdia, os lugares mais áridos, os desertos mais inóspitos, isto é, os corações cheios de ódio e de vícios, e deles faz o campo fértil de Jesus Cristo. Depois, assim como o firmamento e todos os astros conservam sempre sua pureza e esplendor, e como as nuvens mais obscuras, os ventos e as tempestades, o relâmpago e o trovão não podem prevalecer contra eles, assim também uma alma grande e caritativa está acima de toda ofensa e de toda irritação; nada disso chega até ela.

Ah! Compreendei-o bem: não há nada maior, mais nobre, mais generoso do que esquecer uma afronta. Ao mundo cego parece um paradoxo a sentença que ensina a vingar-se perdoando e amando; contudo, esta é a mais bela das vinganças, é uma vingança gloriosa e divina; é a vingança que Jesus Cristo exerceu contra o gênero humano culpado; é a vingança que, por sua vez, todos os Santos praticaram. Não, não há coração tão grande, nem tão nobre, nem tão venerável quanto aquele que é sempre tão espaçoso a ponto de dar lugar ao perdão em todo encontro. Não há coração mais vil, mais mesquinho, mais desprezível do que aquele que jamais soube perdoar.

6. VANTAGENS DO PERDÃO

Meditemos estas palavras de Jesus Cristo: «Se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste vos perdoará as vossas; mas, se não perdoardes aos outros, também vosso Pai não vos perdoará» (Mt 6, 14-15).

Quem nos insulta oferece-nos a ocasião de praticar um ato de grande virtude e de muito mérito; coloca-nos em condição de alcançar uma vitória insigne e de ganhar uma esplêndida coroa; não nos faz, portanto, um mal, mas nos proporciona um bem, contanto, porém, que saibamos suportá-lo com paciência. Eis a razão pela qual os Santos dizem que o ofensor não deve encontrar de nossa parte ódio e rancor, mas antes reconhecimento, agradecimento e amor. Aqueles que nos atacam com palavras ou com fatos não devem ser chamados inimigos, mas entrelaçadores de coroas; em vez de nos prejudicar, beneficiam-nos.

Aqueles que sofrem resignadamente uma afronta saem vencedores do demônio, que deu origem ao insulto e os impeliu à vingança; do ofensor, que vê seu ataque cair por terra; e de si mesmos, que poderiam ter cedido ao desejo de punir o adversário. Triunfam diante de Deus, que os recompensa com graças escolhidíssimas e com a glória eterna; e diante daqueles que veem e admiram a prudência, a calma, a caridade e a paciência… «Quando alguém vos ultraja, diz o Crisóstomo, não olheis para ele, mas para o demônio que o move, e fazei cair sobre este toda a vossa cólera; quanto ao infeliz de quem ele se serve como joguete, compadecei-vos dele (13)».

Devemos sofrer tudo por Deus, para que ele nos tolere. Suportemo-nos uns aos outros com paciência, para que Deus nos suporte a todos com indulgência e misericórdia. «É coisa útil, escreve São Gregório Nazianzeno (14), acorrentar a audácia com a mansidão e tornar melhores aqueles que nos ofendem, suportando pacientemente aquilo que nos fazem sofrer».

Tertuliano diz: «Se suporto com paciência as injúrias, não sofro nem me entristeço com elas; se não sofro nem me entristeço, não me vem o pensamento de vingar-me. O próprio Deus se faz depositário daquilo que a paciência lhe entrega. Se lhe entregais em depósito a ofensa que vos foi feita, ele será seu vingador; se o dano que vos foi causado, ele o reparará; se a dor que vos foi infligida, ele a curará; se a morte sofrida sem lamentos, ele vos ressuscitará (15)».

Três notáveis vantagens provêm da paciência que mostramos para com aqueles que nos ofendem: alcançar a vitória sobre nosso inimigo, edificar o próximo e merecer as recompensas do Senhor. Assim, Saul, tocado por um benefício de Davi, reconheceu seus erros e lhe disse: Vós sois melhor do que eu, porque me fizestes o bem, e eu vos retribuí com ingratidões… Se mantendes boa conduta para com vosso inimigo, mandais embora, envergonhado e confundido, o demônio, verdadeiro autor das inimizades que vosso adversário nutre contra vós. Nossa caridade e paciência afligem e torturam o demônio, consumido pelo rancor, pela inveja, pela malícia e pelo ódio…

As pessoas cruéis e vingativas estão expostas à vingança de todos; a cada passo devem temer sua ruína, porque sua iniquidade as precede, e o ódio de Deus, não menos que o dos homens, as segue; ao contrário, as pessoas mansas e misericordiosas que sabem perdoar não têm de temer nem injúria nem violência, porque sua doçura, a graça de Deus e a amizade do próximo as precedem, acompanham e seguem…

Ouvi ainda Jesus Cristo: «Amai os vossos inimigos, fazei o bem àqueles que vos querem mal, rezai por aqueles que vos caluniam e perseguem, para que sejais verdadeiros filhos de vosso Pai celeste, que faz nascer o sol sobre bons e maus e derrama a chuva sobre os bens dos maus tanto quanto sobre os dos justos. Pois, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem também isso os publicanos? E, se não saudais senão os vossos irmãos, acaso os pagãos não fazem igualmente? Sede, portanto, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celeste» (Mt 5,44-48).

Devemos, pois, concluir, com São João Crisóstomo, que a misericórdia é verdadeiramente rainha, porque nos torna semelhantes a Deus (Moral.); e que não perdoar as injúrias é, para um cristão, um delito: «Todo aquele que odeia seu irmão é homicida», diz formalmente São João (1Jo 3,15). Ele o mata em seu próprio coração, expulsando-o dele e desejando-lhe o mal. O perdão das injúrias não pode coexistir com o ódio, e o ódio ao próximo não pode coexistir com o amor de Deus: «Se alguém diz — escreve o mesmo Apóstolo —: Eu amo a Deus, e entretanto odeia seu irmão, é mentiroso, porque, se não ama o irmão que vê, como pode amar a Deus, que não vê?» (1Jo 4,20). É culpabilíssimo o homem que alimenta o ódio, diz São Basílio (Homil.).

7. DEUS FARÁ CONOSCO COMO NÓS TIVERMOS FEITO COM O PRÓXIMO

Não perdoar é uma falta que provoca da parte de Deus para conosco o mesmo tratamento: perdoar é um ato de tamanho mérito que, cumprindo-o, temos a certeza do perdão. Deus procede conosco como nós procedemos com o próximo: se perdoamos, Deus nos perdoa; se nos vingamos, Deus se vinga. Assim, Ele deixou em nossas mãos a escolha do juízo que nos espera: doce, se perdoarmos; severo e inexorável, se alimentarmos ódio contra o próximo que nos ofendeu. Jesus, como já ouvimos, disse-nos isso em termos claros e precisos: «Se perdoardes aos outros as suas ofensas, vosso Pai celeste vos perdoará as vossas; mas, se não perdoardes aos outros as suas faltas, tampouco vosso Pai celeste vos perdoará as vossas» (Mt 6,14-15).

Outra vez, sob a figura de um senhor que chama seu servo a prestar contas, diz a este, que havia tratado duramente um companheiro seu: «Servo malvado, eu te perdoei a tua dívida, porque me suplicaste. Não era justo que também tu tivesses para com o teu companheiro a bondade que eu tive para contigo?» E, justamente indignado, entregou-o aos executores da justiça, até que pagasse toda a sua dívida. «Assim — conclui Jesus — fará convosco o meu Pai celeste, se não perdoardes de coração aos vossos irmãos» (Mt 18,34-35): «recebereis com a medida que tiverdes usado para com os outros» (Mt 7,2).

Ouvi e tremei, ó vingativos: «Um julgamento sem misericórdia — exclama São Tiago — espera aquele que não praticou misericórdia» (Tg 2,13). «Quem quer vingar-se — diz o Eclesiástico — encontrará a vingança de Deus, que levará em conta os pecados que tiver cometido. Perdoai, portanto, ao próximo que vos prejudica e, quando rezardes, os vossos pecados vos serão perdoados» (Eclo 28,1-2). Deus não perdoa àquele que não perdoa ao seu próximo: o ódio é, portanto, um delito.

8. QUEM NÃO PERDOA CONDENA-SE A SI MESMO

Se alimentamos ódio contra o próximo, pronunciamos com a própria boca a nossa condenação, quando dizemos a Deus, no Pater, que nos perdoe como nós perdoamos aos nossos irmãos que nos ofenderam (Mt 6,12). Com efeito, é como se disséssemos: se nós não perdoamos, não nos perdoeis também, ó Senhor. Ah, sim, nesse ato Deus pode dizer ao vingativo, ao que odeia: «Servo iníquo, eu te condeno pelas tuas próprias palavras» (Lc 19,22). «Ninguém, portanto — direi com o Crisóstomo —, se guarda no coração rancores e vinganças, ouse aproximar-se de Deus com a oração (16).» Aqui vêm muito a propósito as palavras do Eclesiástico: «O homem conserva a sua ira contra outro homem e pede a Deus a sua cura? Não tem compaixão de um homem semelhante a ele e intercede por suas próprias faltas? Ele, que não passa de carne, alimenta a ira e implora a clemência de Deus? Quem, então, há de implorar perdão pelos pecados dele?» (Eclo 28,3-5).

O ódio é comparado à vespa, a qual, para vingar-se, finca o ferrão no corpo daquele que persegue e, não podendo retirá-lo, perde a vida juntamente com o ferrão. Assim, aquele que não quer perdoar murmura, clama, debate-se e, para vingar-se e ferir o próximo, fere a si mesmo, dando morte à sua alma pelo pecado. A isso pensava o Salmista quando escreveu: «Cercaram-me como um enxame de abelhas» (Sl 117,12).

9. CEGUEIRA E MALDADE DE QUEM NÃO QUER PERDOAR

Quem afirma viver na luz — da razão, do Evangelho, da fé, da graça — e, entretanto, alimenta rancor contra seu irmão, caminha nas trevas, escreve São João. Quem ama seu irmão — e manifesta esse amor perdoando-lhe as ofensas — permanece no meio da luz, e nele não há motivo de escândalo. Mas quem odeia o próprio irmão está nas trevas e caminha no escuro, sem saber para onde vai, porque as trevas o cegam» (1Jo 2,9-11).

«Se é verdade que começaste a ser um homem da luz — escreve São Cipriano —, comporta-te como convém a um discípulo de Cristo, porque Cristo é luz e dia. Por que, abandonando-te à cegueira do ódio, apagas em ti toda a luz da paz e da caridade? Por que retornas ao demônio, a quem havias dito adeus? Por que te assemelhas a Caim? (17)» São Basílio diz então claramente que, assim como quem tem a caridade tem Deus em si, do mesmo modo quem alimenta o ódio abriga o demônio (Homil. in Epl. S. Ioannis).

Quem persegue seu irmão caminha nas trevas e não sabe para onde vai: «Com efeito, vai, sem o saber, para o inferno — comenta São Cipriano. Ignorante e cego, corre para o próprio castigo, porque se afasta da luz de Cristo, que o adverte e lhe diz: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida (18).» … É certo que não há vício que obscureça e desvie mais a razão e torne o homem mais infeliz do que a cólera, o ciúme, o ódio e o desejo de vingança… As verdadeiras causas das injúrias que fazemos aos outros e da recusa do perdão estão na cegueira do espírito e na maldade do coração.

10. VINGAR-SE É FRAQUEZA

Esta verdade foi proclamada por Aristóteles, que disse: «Assim como é sinal e efeito de um estômago fraco não poder suportar alimentos um pouco substanciosos, assim é indício de ânimo pusilânime e abjeto não saber digerir uma palavra um pouco pungente e dura (19).» Que proveito há — diz Sêneca — em ser forte contra o mal? Não é esta, porventura, a força da peste? (De Clement. l. I).

«Ó vergonha! — exclama Santo Agostinho. Será verdade que, enquanto tantos homens e mulheres, meninos e tenras donzelas, suportaram magnanimamente o fogo, o ferro e as feras, nós dizemos que não podemos suportar as injúrias dos homens? Quanto a mim, não sei compreender com que rosto, com que consciência desejamos participar, juntamente com os Santos, da eterna bem-aventurança, nós que nos desculpamos de seguir seus exemplos nas coisas mais pequenas (20).» Em matéria de afrontas e maus-tratos, o vencedor mostra-se mais fraco e mais miserável que o vencido, observa São Basílio, porque sai da luta carregado de pecados (Regol. Brev. CLXXVI). «Vale mais — diz o Nazianzeno — ser vencido, conservando a decência, do que vencer com risco e injustiça. Aqueles que amam as contendas buscam sua glória em algo evidentemente mau e vangloriam-se de sua desonra (21).»

Ponderai esta sentença de Santo Ambrósio: «Quem se deixa facilmente comover por um insulto, enquanto quer mostrar que não o merece, prova que ele lhe assenta bem. Quem não dá atenção às injúrias é muito mais digno de estima do que aquele que delas se queixa. Pois quem as despreza, rejeita-as como se não as sentisse; ao passo que quem delas se queixa dá a entender, com isso, que está atormentado por elas (22)». Também São Basílio escreve: «Se te irritas contra quem te ultraja, provas que bem te assenta o ultraje que te é feito. Com efeito, que coisa mais insensata do que a cólera? Se, ao contrário, te manténs calmo, cobres de vergonha e rubor aquele que te insulta (23)».

O impaciente, o odiento, o vingativo, é tão fraco e vil que é vencido: 1º por uma injúria…; 2º por aquele que lha lança…; 3º pela cólera…; 4º pelo demônio…; 5º pelas testemunhas da sua incapacidade, que o censuram e condenam…; 6º por Deus, que o abandona e o destina a penas eternas… Diz São Gregório Nazianzeno: «Ninguém é tão forte como aquele que está resolvido a sofrer tudo; ninguém é tão fraco e desprezível como aquele que nada pode suportar, nem sequer uma palavra» (Distich.).

De maneira bem diferente dos homens, Deus se comporta diante dos insultos! O homem planeja a vingança; Deus prepara o perdão e a reconciliação. O homem age mal para perder; Deus se mostra severo para corrigir e salvar. O homem obedece à paixão, à cólera, ao ódio; Deus age sem perturbação e por razão. O homem se vinga; Deus exerce a sua justiça, a sua clemência e a sua doçura. O homem age impetuosa e cegamente; Deus, lenta e inteligentemente. O homem não pondera nem o que diz nem o que faz; Deus ordena tudo com peso e medida.

11. CASTIGOS DE QUEM NÃO PERDOA

Quem insulta e quem não sabe tolerar o insulto são ambos atormentados e dilacerados pela injúria, pela cólera, pelo ciúme, pelo rancor, pelos planos de vingança, pelo demônio: são abomináveis aos olhos de Deus e dos homens… São Jerônimo compara os pensamentos do homem encolerizado por uma ofensa ao parto da víbora que rói as entranhas da mãe (24). «Não querendo humilhar-se, diz Santo Agostinho, querem vingar-se, como se o mal alheio pudesse aproveitar a alguém. Quem se sente ofendido deseja a vingança; mas, enquanto busca alívio para a sua pena no mal alheio, atrai sobre si um grave tormento. Pensais que seja grande coisa vingar-se de um inimigo; mas, se quereis vingar-vos dele de qualquer modo, não vos lanceis contra ele, mas contra a vossa cólera, porque esta é a vossa verdadeira inimiga; é ela que mata a vossa alma. Por isso, deveis pedir a Deus que mate não o inimigo, mas a vossa inimizade; esta é a santa vingança (25)».

Vingar-se, saboreando um prazer cruel, é imitar os demônios, que nos fazem todo o mal que podem, por pura maldade. Mas, assim como o vão prazer que experimentam ao perseguir-nos e tornar-nos infelizes em nada abranda os seus tormentos, assim também a alegria que o vingativo sente no ódio e na vingança não alivia os seus males e tormentos; ao contrário, aumenta-os e os torna mais cruéis… Não há homens mais infelizes do que aqueles que não querem perdoar. A vista do seu inimigo os entristece; pensar nele os dilacera. Se ouvem alguém louvá-lo, ou demonstrar estima por ele, ou prestar-lhe auxílio, adoecem de inveja e furor; se o veem afortunado, a prosperidade do inimigo é uma faca que lhes traspassa o coração. Nunca desfrutam um instante de repouso; a consciência os morde, os seus crimes estão sempre diante dos seus olhos, a justiça de Deus os persegue, a imagem do seu inimigo os acompanha, o ódio e a indignação pública os seguem; os demônios os rodeiam; eles próprios não cessam de afligir-se; em suma, encontram o inferno aqui na terra: «Quem procura atormentar o próximo, diz o Crisóstomo, não lhe faz mal algum, enquanto prepara para si um tesouro de tormentos que jamais terão fim. Que obtiveram os irmãos de José com a sua inveja e perseguição? Encheram-no de glória, e a si mesmos de ignomínia (26)».

12. DEIXEMOS A DEUS O CUIDADO DE VINGAR-NOS

«Não vos vingueis por vós mesmos, ó caríssimos, escrevia o grande Apóstolo aos Romanos, mas deixai agir a cólera de Deus; pois está escrito: A mim pertence a vingança, e eu saberei executá-la, diz o Senhor» (Rm 12,19). «Mas, se o vosso inimigo tem fome, continuava o Apóstolo, dai-lhe de comer; se tem sede, dai-lhe de beber; pois, fazendo isso, amontoareis brasas ardentes sobre a sua cabeça» (Id. 20). Deixai agir a cólera de Deus, isto é, permanecei em silêncio, cedei ao homem enfurecido, suportai pacientemente as suas ofensas, perdoai-lhe, dilatai o vosso coração, para que nele entre a caridade; e, se o vosso inimigo não tirar proveito do exemplo que lhe dais, terá de prestar contas a Deus da sua conduta.

«A mim pertence a vingança e a recompensa», já havia dito Deus no Deuteronômio (Dt 32,35); não parece pagão, mas cristão, este conselho de Platão: «Qualquer coisa que tenhas sofrido, jamais deves vingar-te dela com injúrias e insultos» (De Legib.). Também o Sábio nos admoesta a jamais dizer: «Eu me vingarei», mas a esperar o Senhor, que nos libertará (Pr 20,22). Não digais, nem em pensamento nem com a voz: Eu me vingarei; pois retribuir o mal com o mal não é ato de justiça, mas de vingança, ato proibido pelo direito e por todas as leis. É preciso repelir a injúria com o escudo da paciência, não com o dardo da vingança… Esperai no Senhor, e ele vos libertará. Isso significa que o ofendido deve desejar a sua libertação, não o castigo do provocador. Quer dizer também que o homem insultado e ferido não deve recorrer aos amigos, nem às armas, nem a si mesmo, mas a Deus; não deve ver senão a Deus, confiar somente nele e dele obter a sua libertação. Deve abraçar com toda a alma a cruz e aplicá-la às suas feridas, como remédio salutar. Jesus está sempre pronto a correr em socorro do aflito que o invoca. O Salmista dizia: «Como o servo que mantém fixo o olhar no seu senhor, como a serva que jamais tira os olhos da pessoa de sua senhora, assim estejam os nossos olhos voltados para o Senhor nosso Deus, até que tenha piedade de nós» (Sl CXXII, 2). Ah, sim, olhemos para Jesus quando nos sentimos ofendidos; não tiremos mais dele os olhos, e ele nos dará a graça da paciência e tomará a nossa defesa. Façamos tesouro desta palavra do Sábio: «Quando um vosso inimigo cair, não vos alegreis com a sua queda. Não digais: Farei com ele o que merece, pagar-lhe-ei na mesma moeda» (Pr 24,17.29).

13. É PRECISO PERDOAR SEMPRE

«Reconciliai-vos prontamente com o vosso adversário enquanto estais a caminho com ele, diz Jesus Cristo, para que não aconteça que ele vos entregue ao juiz e vós sejais lançados na prisão. Dela, asseguro-vos, não saireis mais senão depois de haverdes pago até o último centavo» (Mt 5,25-26).

Instruído por Cristo, São Paulo escrevia aos Efésios: «Cuidai para que o sol não se ponha sobre a vossa cólera» (Ef 4,26). Estas palavras indicam que é preciso reprimir prontamente os movimentos de cólera e que o perdão das injúrias deve ser concedido imediatamente. Não se ponha o sol quer dizer também: não desapareça Jesus Cristo, que é o verdadeiro sol, antes que tenhais perdoado… Diz Santo Agostinho: «Não se ponha o sol sobre a vossa ira, para que Jesus não se retire da vossa alma; pois Cristo não quer habitar sob o mesmo teto juntamente com a ira. Expulsai o rancor do coração antes que esta luz visível decline, para que não vos abandone. Jesus, luz invisível (27)».

Nem devemos perdoar uma só vez, ou duas, ou dez, ou cem, mas todas as vezes que formos ofendidos, como ensinou Jesus Cristo a Pedro: Quanto ao perdão que se deve conceder ao irmão que te ofendeu, não te digo que lhe perdoes sete vezes, mas setenta vezes sete (Mt 18,22).

«Não vos deixeis vencer pelo mal, mas vencei o mal com o bem», escrevia São Paulo aos Romanos (12,21). E Santo Agostinho comenta: «Não triunfa do mal com o bem aquele que é bom somente na aparência, mas interiormente é mau; aquele que não passa a atos odiosos, mas mastiga fel no coração; aquele que tem a mão mansa, mas a vontade cruel (28)». Tal é o homem que, por hipocrisia, oculta o seu rancor e o seu desejo de vingança. O perdão que não procede do coração vale tanto quanto o arrependimento que fica à flor dos lábios… O perdão deve existir no coração e manifestar-se ao mesmo tempo exteriormente pela reconciliação. O perdão exterior é exigido para a edificação do próximo; o perdão interior, para satisfazer a Deus, que perscruta os corações: Deus exige um e outro. Perdoar interiormente, sem querer perdoar exteriormente, é um escândalo; perdoar exteriormente, sem perdoar de coração, é uma impostura. Santo Agostinho diz: «Há muitas espécies de obras de misericórdia que, praticadas por nós, nos ajudam a obter o perdão das nossas culpas; mas nenhuma é mais eficaz do que perdoar de verdadeiro coração as injúrias recebidas (29)». Quem, ao contrário, esconde no coração a lembrança das ofensas, assemelha-se, segundo São Efrém (30), àquele que cria uma serpente no próprio seio; prejudica mais a si mesmo do que aos outros.

14. É PRECISO DAR OS PRIMEIROS PASSOS PARA A RECONCILIAÇÃO

«Se, enquanto estás para oferecer o teu dom ao altar, te recordas de que o teu irmão tem algum ressentimento contra ti, deixa, diz Jesus Cristo, o dom diante do altar; vai reconciliar-te com ele e depois vem e oferece o teu dom» (Mt 5,23-24). Notai como Jesus não diz: Se tendes rancor contra o próximo, abandonai-o; mas, se o vosso irmão tem algum ressentimento contra vós, ide vós primeiro suplicar-lhe que o abandone. Ide antes de oferecer a Deus o dom do vosso coração e da vossa oração, antes de entrar no lugar santo, antes de vos confessar ou de vos comungar… É cegueira e desgraça não procurar reconciliar-se e não ser também os primeiros a tentar fazê-lo.

Aos mundanos, sepultados nas trevas do erro, parece uma degradação dar os primeiros passos para se reconciliar com um inimigo; mas se enganam, porque não há coisa tão honrosa e gloriosa quanto realizar um ato de virtude heroica, como é aquele de que se trata. Eis por que aquele que, sem considerar se é o menos culpado, ou mesmo não o sendo de modo algum, vai primeiro ao encontro de seu inimigo e o convida à paz, é sem dúvida um homem respeitável, generoso, nobre, magnânimo. Vencedor da cólera e do ódio, merece louvores, glória e recompensa; porque afasta os pensamentos e desfaz os desígnios hostis que existiam nele e em seus adversários. Ele imita a divindade; com efeito, Deus infinitamente grande, a quem são devidos todas as honras, os louvores e as glórias, não se antecipa acaso com a graça aos pecadores, seus inimigos? Não os adverte, não os exorta acaso a se reconciliarem com ele e a aceitarem o seu perdão? Não enviou ele por isso à terra o seu Filho Unigênito, Jesus Cristo, segundo aquela frase de São Paulo: «Deus estava em Cristo para reconciliar consigo o mundo»? (2Cor 5,19). Assim, Deus, com o seu próprio exemplo, tornou honroso e glorioso o ato de se reconciliar com o inimigo e, para isso, dar os primeiros passos. Não foi Jesus Cristo o primeiro a ir ao encontro de Judas, que vinha até ele para traí-lo e entregá-lo aos carrascos? Não o chamou pelo doce nome de amigo? Quem ousará considerar desonroso aquilo que um Deus julgou para si mesmo sumamente honroso?

As pessoas insensatas, nas quais não há nem religião nem caridade, imaginam que a grandeza de alma, a honra e a nobreza de caráter consistem em se manterem duras e inflexíveis diante das ofensas recebidas. Engano gravíssimo, conduta do demônio, imitação de Satanás. Por causa da soberba, da obstinação e da estúpida teimosia que não quer se curvar para dar os primeiros passos, as inimizades, os ódios e as vinganças perpetuam-se entre os pecadores no mundo; nenhum dos dois culpados consente em pedir primeiro a reconciliação, muito menos o perdão. Antes, ordinariamente, é mais culpado aquele que mais se obstina em rejeitar um procedimento tão belo, tão honroso e digno de louvor. «Que o meu inimigo dê os primeiros passos», dizeis vós, «e eu correrei imediatamente ao seu encontro»; e, se o vosso adversário diz o mesmo, ambos morrereis sem vos terdes reconciliado, sem vos terdes visto nem tratado; partireis do mundo com o ódio no coração, deixando como lembrança um escândalo espantoso; e comparecereis nesse estado diante do tribunal de Deus! Ah, já estais julgados, ou melhor, condenados. Este é o caso em que não saireis das mãos do supremo Juiz dos vivos e dos mortos sem terdes pago antes até o último centavo. Mas, não tendo mais, nem podendo mais obter, os meios para pagar, sereis encerrados para sempre no lugar do ódio eterno…

Quem é o primeiro a reconciliar-se mostra um ânimo liberal, senhor da cólera e do ódio, doce e generoso; direi melhor: celeste e divino. São João Crisóstomo diz que é um ato de honra e de mérito antecipar-se ao próprio inimigo e convidá-lo à reconciliação, porque é um ato de virtude heroica e um bem grandíssimo para ambos. Ora, o autor desse grande bem não é aquele que é procurado e suplicado, mas aquele que se antecipa e suplica ao seu inimigo que faça a paz e perdoe. Quem dá os primeiros passos, diz o santo Doutor, tem todo o mérito e a recompensa da ação. Com efeito, que mérito resta àquele que não renuncia ao ódio e à vingança senão quando é suplicado e vê o rival ou contendor humilhar-se diante dele? Tudo isso pertence àquele que se antecipou a vós e vos suplicou. Não foi por obediência a Deus que cumpristes a lei do perdão, mas concedendo altivamente uma graça àquele que vo-la pediu humildemente (31).

Jesus Cristo desceu primeiro até nós, para nos chamar a si, dar-nos o perdão e readmitir-nos em sua amizade; contudo, ele era inocente, e nós somos sumamente culpados. Portanto, é cristão e seguidor de Jesus somente aquele que imita o Salvador e vai primeiro ao encontro de seu inimigo… É próprio de uma alma pequena e mesquinha fomentar inimizades; ao contrário, é próprio de um coração nobre e grande apagá-las. Eis por que Moisés, pedindo a Deus que perdoasse aos judeus rebeldes, proferiu estas notáveis palavras: «Manifeste-se a força do Senhor em toda a sua glória, como jurastes quando dissestes: O Senhor é paciente e rico em misericórdia; ele apaga as iniquidades e os delitos. Perdoai, eu vos suplico, o pecado deste povo, segundo a grandeza da vossa misericórdia» (Nm 14,17-19).

15. MOTIVOS QUE OBRIGAM A PERDOAR

1° Nós temos ofendido a Deus muito mais frequentemente e muito mais gravemente do que outros nos tenham ofendido; temos, portanto, imensa necessidade de que Deus nos perdoe… Mas Deus não nos perdoará, a não ser sob a condição de que também nós perdoemos; portanto, devemos perdoar.

2° A nossa fraqueza. «Não há delito, por mais enorme que seja, diz Santo Agostinho, cometido por um homem, que outro homem não possa cometer, se aquele Deus que o criou e o dirige o abandona (32)». Sejamos, portanto, indulgentes para com quem erra.

3° O nosso parentesco em Adão e em Jesus Cristo. Lembremo-nos de que somos membros uns dos outros, diz São Paulo (Ef 4,25).

Além desses motivos, há outros que devem nos determinar a dar o beijo do perdão ao nosso inimigo. Todos nós fomos criados à imagem de Deus…, filhos de Deus…, resgatados pelo sangue de Jesus Cristo…, membros de Jesus Cristo…, filhos da mesma Igreja…, irmãos em Adão, em Jesus, na Igreja…, destinados ao céu…, brotados do mesmo tronco e todos mortais; sob estes dois aspectos, somos todos perfeitamente iguais…, todos temos necessidade de indulgência, porque somos todos fracos e pecadores…, o preceito de Deus é tão peremptório, claro e universal que não excetua pessoa alguma…, a nossa salvação e felicidade eterna estão colocadas sob esta condição.

«Facilmente nos dispomos a suportar as injúrias que outros nos fazem, diz São Gregório, quando nos lembramos dos males que cometemos e reconhecemos ter merecido males piores. Todo insulto que nos possam fazer é um simples nada em comparação com aquilo que merecemos; por isso, deveríamos responder às ofensas mais com gratidão do que com ira» (33). Cada um deve dizer a si mesmo, com o coração contrito e humilhado: «Ofendi mortalmente a Deus: mereci queimar por toda a eternidade no inferno e ser escarnecido, insultado e maltratado pelos demônios, e hesitarei em suportar com resignação esta palavra pungente, esta pequena injúria de um semelhante meu?… Ah, se o mundo soubesse quão culpado sou de fato, bem outras ofensas e insolências me diria e faria… Esta afronta não vale a milésima parte daquilo que mereço».

Há ainda dois outros poderosos motivos que nos impelem ao perdão: o primeiro é a sorte do homem que não perdoa; atormentado no inferno, detestado por Deus, abominado pelos homens, amaldiçoado pelo céu e pela terra, leva uma vida triste; o segundo é a felicidade de que goza aquele que sabe perdoar generosamente; ele possui a paz do coração, a tranquilidade da consciência; é amado e honrado, bendito por Deus e pelos homens; passa anos felizes, morre da morte dos justos e assegura para si o paraíso…

16. É PRECISO PERDOAR-SE MUTUAMENTE

«Seja banida de vós, escrevia São Paulo aos efésios, toda amargura, cólera, indignação e maledicência, juntamente com toda malícia. Sede bons e misericordiosos uns para com os outros, e perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Jesus Cristo» (Ef 4,31-32). Ó sublime e verdadeiramente divina moral! Quão feliz seria o universo, se ela fosse observada!

O mesmo Apóstolo diz ainda: «Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos caríssimos; e caminhai no amor, seguindo as pegadas de Jesus Cristo, que nos amou e se entregou por nós a Deus em oblação e como vítima de agradável odor (Ef 5, 1 2). Acolhei a todos com caridade…, conservai-vos em paz com todo o mundo… Nós vos exortamos a conter os turbulentos, a confortar os pusilânimes, a sustentar os fracos, a usar de paciência com todos. Vede que ninguém retribua o mal com o mal, mas procurai em tudo o bem uns dos outros e de todos» (1Ts 5,12-15). Por que nos ofendermos?, conclui o Crisóstomo; por que fazermos guerra uns aos outros? Não nos foi acaso ordenado que nos amemos mutuamente e que amemos também os nossos inimigos mais encarniçados? (Moral.).

17. PRETEXTOS PARA NÃO PERDOAR

1° Eu não quero perdoar… 2° Eu não posso perdoar… 3° Sou eu o ofendido… 4° Não dei motivo… 5° Minha honra ficaria rebaixada… 6° Eu me tornaria a fábula do país… 7° A injúria é demasiado enorme… 8° Meu inimigo é um sujeito ruim… 9° Se eu lhe perdoar, ele recomeçará com novos insultos… 10° Ele procura tirar-me aquilo que possuo… 11° Atentou contra a minha vida… 12° Arruinou o meu crédito… 13° Que ele seja ao menos o primeiro a abrir negociações… 14° Eu lhe perdoo, mas não quero nem vê-lo nem falar-lhe… 15° Falarei com ele, mas conservarei no coração a amargura… Todos esses pretextos, esses subterfúgios, cedem o campo diante dos argumentos em contrário apresentados acima.

18. MANEIRA DE VINGAR-SE NOBREMENTE

«Amai os vossos inimigos, fazei o bem àqueles que vos querem mal, orai por aqueles que vos perseguem e caluniam» (Mt 5, 14). Eis a vingança que Jesus Cristo nos ensina com as palavras e com o exemplo. Ó bela, ó sublime, ó divina vingança! Não é diferente desta a vingança que São Paulo nos ensina quando diz: «Se o teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer; se tem sede, dá-lhe de beber; fazendo assim, amontoarás brasas ardentes sobre a sua cabeça» (Rm 12, 20). O vosso inimigo ficará confundido, corará de sua conduta e mudará de procedimento. Amontoarás brasas ardentes sobre a sua cabeça, isto é, cercá-lo-ás com o fogo da caridade e do amor.

Quem obedece ao ódio e se vinga não é vencedor de seu inimigo, mas permanece vencido. Com efeito, segundo a observação de Tertuliano, aquele que nos fere o faz para que soframos; o fruto que deseja colher de sua ferida é a vossa dor. Quando, portanto, vós frustrais a sua esperança, não dizendo uma palavra de lamento, ele necessariamente sofre por não ter alcançado o seu intento. E, desse modo, não somente vos retirais sem ferida, mas ainda com o prazer de haverdes enganado a expectativa de vosso inimigo e de vos haverdes preservado de todo sofrimento (34).

Quando se recebe uma afronta, é preciso armar-se de paciência, de calma, de doçura, de resignação, de esperança em Deus: por esses meios triunfa-se da injúria, do ofensor, de si mesmo, do demônio e, de certo modo, do próprio Deus, a quem se arrebatam as recompensas celestes… As injúrias e os ultrajes detêm-se diante da doçura, diz o Nisseno (Serm. XLII). Assim como a água apaga o fogo, a paciência e a bondade extinguem o ódio e a sede de vingança. A mansidão é para as injúrias como um saco de lã para uma bala de canhão. O eco não devolve a voz àquele que a proferiu, para usar a comparação de São Basílio, como a injúria retorna em dano daquele que a lançou, quando encontra no ofendido o escudo da paciência (Serm. contr. Irascent.). É preciso pedir a Deus que destrua não aquele que nos insulta, mas o pecado que resulta de suas ofensas e de seu ódio. A amargura se adoça nas lágrimas da caridade. Feliz e segura vitória!

Se quereis viver felizes e vingar-vos nobremente de vosso inimigo, fazei-vos semelhantes, dizia o abade Agatão, a uma estátua que, injuriada, não se ressente; louvada, não se ensoberbece (Vit. Patr. 1. VII). São Doroteu, interrogado sobre o meio a ser empregado para não se comover com as injúrias, respondeu: «Desprezai-vos a vós mesmos, e não sofrereis perturbação» (Id.). «Foste injuriado? diz o Crisóstomo, desprezaram-te? Mantém a boca fechada; se a abrires, agitarás ainda mais este vento. Observa o que acontece numa sala onde estejam abertas duas portas opostas e se levante um vento impetuoso; bem depressa tudo ali é posto em desordem. Fecha uma delas, e o vento cessa. Assim também aqui há duas portas: uma é a tua boca, a outra é a boca de teu irmão, que te insulta (35)».

19. DIVERSOS GRAUS NO AMOR AOS INIMIGOS

São João Crisóstomo indica nove graus no amor aos inimigos: o 1° consiste em não procurar fazer mal…; o 2°, em não responder à injúria com injúria…; o 3°, em manter-se calmo…; o 4°, em não se esquivar aos insultos…; o 5°, em estar disposto a receber uma afronta mais grave que aquela que se sofre…; o 6°, em não odiar aquele que nos quer mal…; o 7°, em amá-lo…; o 8°, em fazer-lhe voluntariamente benefícios…; o 9°, em pedir a Deus por ele (Homil. XVIII).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.