Milagre significa obra maravilhosa e extraordinária, que não pode ser efeito de uma causa natural. O milagre é uma derrogação às leis da natureza: ele excede em muito as forças do homem; somente Deus pode realizá-lo, e os homens não podem operar milagres senão por meio de Deus… Ora, quem poderá duvidar de que Deus possa fazer milagres? Esse Deus que há cerca de seis mil anos faz nascer o sol no oriente, por que não poderia, se quisesse, fazê-lo nascer no ocidente? E isso seria, certamente, um verdadeiro milagre. Negar que Deus possa fazer milagres é negar que Deus seja Deus; é privá-lo de poder e de liberdade, é aniquilá-lo…
As pragas do Egito, a passagem do Mar Vermelho, a promulgação da lei de Deus no Sinai, o maná, a água que jorrou do rochedo de Oreb, os prodígios operados por meio da arca da aliança; a conservação dos três jovens na fornalha ardente, o castigo de Heliodoro, açoitado com varas pelos anjos, a ressurreição de Lázaro, a ressurreição de Jesus Cristo, a conversão do mundo pagão à voz de doze pobres pescadores: todos esses e outros acontecimentos extraordinários semelhantes, dos quais está repleta a Sagrada Escritura, estão aí para testemunhar que houve milagres, e grandes e estupendos milagres.
No que diz respeito aos milagres de Jesus Cristo, era tão fulgurante o seu esplendor, diz São Cirilo, que encerrava toda questão acerca de sua divindade entre aqueles que não fossem completamente pervertidos (1). É evidente que os milagres de Jesus Cristo deviam manifestá-lo como o Messias tão claramente prometido desde o princípio do mundo. Com efeito, 1° para esse fim Jesus dizia realizar os seus milagres; 2° ele realizou todos os milagres que os profetas haviam predito acerca do Messias; 3° operou-os em seu próprio nome, por sua própria virtude, ordenando e dispondo como revestido de autoridade soberana; 4° realizou milagres públicos, visíveis, incontestáveis, grandíssimos; realizou-os com muita frequência, em grande quantidade, de toda espécie e por toda parte, ora com um sinal, ora com uma palavra etc…. Tal poder absoluto, tal virtude extraordinária e contínua não podiam pertencer a ninguém senão a Jesus Cristo…
Que os verdadeiros milagres sejam uma prova certa e peremptória daquela verdade para cuja confirmação são operados é coisa que facilmente se compreende, se se considerar: 1° que eles só podem vir de Deus, como único senhor da natureza; 2° que Deus, sendo a verdade por essência, jamais pode, em caso algum, sem aniquilar a si mesmo, confirmar com um milagre uma falsidade. Quando, portanto, em favor de alguma religião ou revelação intervêm milagres certos e verdadeiros, é preciso dizer que ela é verdadeira. Assim, provamos (Veja-se o art. IGREJA) que a Igreja católica, apostólica, romana é a única Igreja verdadeira, porque somente nela ocorreram milagres verdadeiros e comprovados. Eis por que Santo Agostinho escrevia que o que o retinha na Igreja católica romana era a autoridade dos milagres; e Ricardo de São Vítor não hesitava em dizer a Deus: «Ó Senhor, se é erro aquilo em que cremos, sois vós que nos enganastes; porque a nossa fé teve como confirmação tais milagres e prodígios, que não podem ter outro autor senão vós (2)».
Deus permite, às vezes, que também os maus façam milagres; mas não em seu próprio nome nem por seus méritos, e sim em nome de Jesus, e isso acontece para utilidade do próximo.
Não se encontra exemplo de verdadeiro milagre operado em apoio do erro. O milagre, com efeito, é o testemunho mais autêntico e incontestável que se possa ter da verdade de uma doutrina, contanto que seja obra própria e sobrenatural de Deus, que dele se serve para confirmar aquilo que diz e que faz. Ele não pode, portanto, permitir milagres em favor do erro; do contrário, zombaria dos homens e lhes tiraria todo meio de distinguir o erro da verdade. Mais ainda: confirmá-los-ia — coisa impossível e absurda! — nas falsas doutrinas que tivessem recebido. Pensar isso seria um crime enorme; dizê-lo, uma horrível blasfêmia.
Para indicar de que modo Deus nos faz distinguir os verdadeiros milagres dos falsos, apresentaremos as três diferenças essenciais que Teodoreto observa e indica entre os milagres de Moisés e os pretensos milagres dos magos do Faraó.
VERDADEIROS E FALSOS MILAGRES. ― 1° Os magos do Faraó transformaram suas varas em serpentes, mas a vara de Aarão, igualmente transformada em serpente, devorou as deles; eles transformaram a água em sangue, mas não puderam fazê-la voltar ao estado anterior; fizeram aparecer rãs, mas não puderam, como Moisés, livrar delas os egípcios. Deus, portanto, permitiu aos magos que operassem semelhantes prodígios unicamente para castigar os egípcios, sem lhes conceder o poder de fazer desaparecer as pragas que haviam provocado.
2° Quando Deus viu que o rei, por causa dos pretensos prodígios, se obstinava cada vez mais, tirou-lhes todo o poder; e então aqueles que haviam sabido produzir rãs já não souberam produzir moscas, e viram-se obrigados a confessar publicamente a própria impotência, dizendo: «Aqui está o dedo de Deus» (Ex 8,19).
3° Moisés cobriu de úlceras o próprio corpo dos magos (Ex 9,10); Moisés, que realizava verdadeiros milagres em favor da verdade, foi porventura impedido em seu poder em algum momento? Jamais; mas todos os dias, na corte do Faraó, na presença de todo o Egito, dava provas cada vez mais esplêndidas dele, com milagres contínuos e sempre novos. Suas ordens e suas proibições obtinham imediatamente efeitos maravilhosos (Teodoreto, In Exod.).
Santo Agostinho ensina que um meio para discernir os verdadeiros dos falsos prodígios é considerar o poder e a autoridade de que eles procedem. «Os feiticeiros, diz ele, fazem obras maravilhosas pelo comércio secreto que mantêm com os demônios; os santos, ao contrário, operam milagres pela força da providência e por ordem daquele a quem toda criatura está sujeita. Os maléficos, portanto, operam em virtude de um pacto particular; os santos, em virtude de um direito evidente (3)». Além disso, aqueles que fazem verdadeiros milagres são homens probos, piedosos e ordinariamente santos; ao passo que aqueles que fazem falsos milagres são sempre homens entregues à impiedade ou ao vício.
Os feiticeiros fazem prodígios simulados, imaginários, fantásticos e que não duram absolutamente nada, descobrindo-se bem depressa o que neles há de verdadeiro ou de falso; fazem prodígios inteiramente inúteis ou até nocivos. Mas os verdadeiros milagres são fatos certos, verídicos, genuínos, cujos efeitos permanecem e que não acontecem senão para uma grande utilidade ou para livrar os homens de alguma necessidade.
Para obter suas pretendidas maravilhas, os feiticeiros servem-se de mentiras, de prestidigitações, de meios estudados expressamente para enganar as pessoas, de certos sinais, de certas figuras, por exemplo, letras ou palavras que nada significam, quando não são absurdas; servem-se ainda de práticas supersticiosas; misturam e deturpam o sagrado com o profano. Os santos, ao contrário, fazem milagres com suas orações, com as mortificações, com o sinal da cruz e com outros objetos sagrados e santos, e sempre em nome de Jesus Cristo.
Os feiticeiros e os demônios fazem prodígios com fins maus, por exemplo, para ganhar alguma aposta, por vã ostentação, para granjear glória e honras, para alcançar fama, para formar uma clientela de devotos; ou para prejudicar a fé e inocular seus erros; ou ainda para cometer ou fazer cometer delitos, como furtos, adultérios, homicídios e semelhantes. Os santos, ao fazer milagres, visam à honra e à glória de Deus, à exaltação e edificação da Igreja, ao auxílio de seus semelhantes… «Os magos, escreve Santo Agostinho, fazem coisas que parecem milagres, buscando a própria glória; os santos fazem verdadeiros milagres, visando à glória de Deus (4)».