Alguns derivam a palavra Missa do vocábulo hebraico missah; mas é mais provável, segundo Santo Agostinho, Santo Avito de Viena e Santo Isidoro de Sevilha, que derive da palavra latina missio, que significa envio, despedida; porque, na antiga liturgia, depois das orações e das instruções que precediam a oblação dos dons sagrados, despediam-se da igreja os catecúmenos e os penitentes, permanecendo presentes à celebração dos divinos mistérios somente os fiéis, que se supunham dignos de assistir ao santo sacrifício.
A missa é o sacrifício da nova lei, no qual a Igreja oferece a Deus, pelas mãos do sacerdote, o corpo e o sangue de Jesus Cristo, ocultos sob as espécies do pão e do vinho. É de fé que a oblação feita na missa é o sacrifício do corpo e do sangue de Jesus Cristo, e disso se deve concluir com segurança que a missa não é somente um sacramento, mas é verdadeiramente também um sacrifício. E em todo o mundo católico não se oferece outro sacrifício além deste.
Depois do pecado, houve sempre e em toda parte sacrifícios… Abel, Noé, Abraão, Isaac, Jacó, Melquisedeque, os hebreus no Egito e no deserto, e na terra prometida, ofereceram a Deus sacrifícios… Não há nação, bárbara ou civilizada, que não tenha tido e não tenha os seus sacrifícios… Eles são necessários para aplacar a Deus…; para lhe prestar honra e culto…; para expiar as culpas dos indivíduos e da sociedade…; para obter graças…; para agradecer as graças recebidas…
Na antiga lei havia três espécies de sacrifícios: 1° o sacrifício de holocausto, destinado unicamente a louvar e honrar a Deus; nele, a vítima era inteiramente consumida e reduzida a cinzas, para indicar com isso que se reconhecia e professava o supremo domínio de Deus sobre todas as coisas criadas. 2° O sacrifício pacífico e salutar, que se oferecia para obter a paz, isto é, a saúde daquele que o oferecia ou de outra pessoa, de um indivíduo em particular, de uma família ou da nação. 3° O sacrifício de expiação, que tinha por fim obter o perdão dos pecados e também se chamava sacrifício de propiciação.
Sendo imperfeita a lei antiga, eram imperfeitos também os sacrifícios que dela faziam parte: «É impossível, escrevia São Paulo aos Hebreus, que o sangue de touros e de bodes apague os pecados» (Hb 10, 4). Para aplacar a Deus e santificar os homens, era necessário outro pontífice e outro sacrifício, que não fossem o sumo sacerdote e o sacrifício de animais… Requeria-se um sacrifício verdadeiramente digno de Deus e suficientemente eficaz para lavar os pecados…
Os antigos sacrifícios não eram senão a figura do sacrifício da nova lei, e eram agradáveis a Deus na medida em que simbolizavam o sacrifício da cruz e do altar… E a lei que ordenava que as vítimas daqueles sacrifícios fossem absolutamente sem mancha extraía precisamente daí a sua razão, porque deviam significar a perfeição de Jesus Cristo feito vítima…
Eis a declaração explícita que o Senhor fez pela boca de Malaquias, o último dos profetas, que viveu em tempo muito próximo da vinda de Jesus Cristo: «Meu afeto não é por vós, e não aceitarei mais dons de vossa mão. Porque, do oriente ao ocidente, o meu nome é grande entre as nações; em todo lugar se sacrifica, e me é oferecida uma oblação pura» (Ml 1, 10-11). É manifesto que o profeta fala do sacrifício da cruz e do altar, pois, depois de Jesus Cristo, não há outro sacrifício senão este, que é oferecido com toda a verdade em todo lugar e a todas as horas, do nascer ao pôr do sol…
Vindo Jesus Cristo à terra, cessaram todos os sacrifícios, rejeitados por Deus, assim como já não se dá atenção à figura quando se possui a realidade, ou se apaga a vela quando chega a luz do sol. Por isso, São Paulo, tomando as palavras do Salmista, escrevia aos Hebreus: «Entrando o Filho no mundo, disse: Tu, ó Pai, já não quiseste nem hóstia nem oblação, mas me preparaste um corpo; e eu então, vendo que já não te agradavam os holocaustos, disse: Eis que venho para fazer a tua vontade, ó meu Deus. Ele ab-roga o primeiro sacrifício para estabelecer o segundo» (Hb 10, 5-6, 9). Tu não quiseste, isto é, já não aceitaste as vítimas oferecidas, os holocaustos, os sacrifícios que se oferecem segundo a lei; agora eis-me aqui, eu, o Messias, o Salvador, o Redentor, pronto e disposto, ó Pai, a fazer a tua vontade; para ser imolado primeiro no Calvário, depois todos os dias sobre os altares, em perpétua recordação e renovação cotidiana do sacrifício do Calvário.
O sacrifício de Jesus Cristo ocupa o lugar de todos os outros sacrifícios e lhes é superior em dignidade e excelência, como o corpo é superior à sombra. Por isso, os muitos sacrifícios da lei mosaica desapareceram todos, com os seus ministros, diante deste único, para jamais reaparecerem… Somente Jesus é a nossa vítima e o nosso sacrifício… «Jesus Cristo, diz São Paulo aos Efésios, entregou-se a si mesmo por nós como oferta a Deus, e como hóstia e sacrifício de agradável odor» (Ef 5, 2).
O sacrifício da missa é um holocausto, porque Jesus Cristo nela é oferecido inteiro a Deus em virtude da consagração… É sacrifício pacífico, que aplaca a justiça de Deus e dá a paz aos homens… É sacrifício de propiciação, que nos obtém o perdão dos nossos pecados… É sacrifício de ação de graças, que restitui a Deus tudo o que lhe é devido; porque aqui há um Deus que se oferece a Deus.
A missa é um sacrifício que, por si mesmo, nos obtém a graça preveniente, a qual nos move à fé, à penitência e a receber os sacramentos cuja virtude nos justifica. A esse respeito, devemos observar que pertence à ação dos sacramentos justificar, e à ação do sacrifício inclinar Deus em nosso favor e torná-lo propício para conosco. Enquanto sacrifício, portanto, a missa nos obtém primeiramente a graça preveniente, depois a remissão da pena devida aos pecados e o perdão das culpas veniais; mas não tira nem apaga por si mesma o pecado mortal, exceto se aquele que a celebra ou participa do sacrifício por meio da comunhão ignorar de boa-fé o estado em que se encontra. Nesse caso, a Eucaristia lhe remete a culpa mortal e lhe confere a primeira graça e a justiça; mas a missa não opera isso enquanto é sacrifício, e sim enquanto é sacramento…
«O sacerdote que celebra a missa, diz o autor da Imitação de Cristo, dá glória a Deus, alegria aos anjos, sustento à Igreja, auxílio aos vivos, sufrágio aos defuntos e torna a si mesmo participante de todos os bens (1)». São João Crisóstomo nos assegura que, enquanto o Cordeiro de Deus é imolado sobre os nossos altares, os serafins assistem com veneração, cobrindo o rosto com as suas asas; depois acrescenta que, enquanto estamos na vida presente, este sacrifício transforma para nós a terra em céu (2).
A missa é a recordação da paixão e da morte do Salvador, como ele mesmo afirmou aos apóstolos quando disse: «Fazei isto em memória de mim» (Lc 22, 19). Mas que digo, memorial da paixão do Salvador? Ela é o mesmo sacrifício que foi oferecido na cruz: com efeito, tanto na cruz como no altar, uma e mesma é a vítima que é oferecida, um e mesmo é o sacerdote que a oferece; na cruz, Jesus Cristo foi ao mesmo tempo sacrificador e sacrifício, e o mesmo acontece sobre o altar; e, embora aqui seja incruento, enquanto ali foi com derramamento de sangue, isso nada tira ao fato de que ambos têm o mesmo valor e a mesma eficácia… «Era conveniente, observa São Paulo, que tivéssemos um sacerdote santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e mais elevado que os céus; um pontífice que não tivesse necessidade, como os sacerdotes, de oferecer vítimas primeiro pelos seus próprios pecados e depois pelos do povo; pois isto ele fez uma vez, imolando a si mesmo» (Hb 7, 26-27). «E, oferecendo-se, foi atendido por causa da sua dignidade e da veneração que lhe é devida» (Id. 5, 7).
Deus, nos seus estratagemas de amor pelo homem, ordenou o sacrifício da missa de tal modo que o pontífice que o oferece para nos reconciliar com Deus se une, formando uma só coisa, àquele a quem o sacrifício é oferecido e àqueles por quem é oferecido; para que este sacrifício seja plenamente aceito por Deus e eficaz, também a vítima se encontra nas mesmas condições. Por isso, o apóstolo São João escreve que «Jesus Cristo é ele mesmo a propiciação pelos nossos pecados; e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo» (Jo 1, 2, 2).
A santa missa basta por si só para dar abundante satisfação a Deus, porque supera infinitamente em valor todo o peso da iniquidade do mundo. Este sacrifício vale muito mais para aplacar o Pai do que vale a nossa iniquidade para indigná-lo, segundo a sentença de São Paulo: «Onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rm 5, 20). Tão grande é o sacrifício do altar que não pode ser oferecido a ninguém senão somente a Deus! …
Na sua bondade infinita, Jesus Cristo quis deixar à Igreja visível e indefectível um sacrifício visível e permanente. O sacrifício da cruz foi a primeira missa celebrada neste mundo… De que imenso amor ardia o coração do Salvador, se quis perpetuar todos os dias, até o fim do mundo, o sacrifício do seu corpo e do seu sangue!
Cinco são os principais frutos que se podem colher da santa missa: 1° um aumento de graças…; 2° a remissão da pena devida ao pecado…; 3° a obtenção mais fácil daquilo que se pede…; 4° a profissão de atos de fé, de esperança, de caridade e de religião…; 5° aquele que assiste ao sacrifício da missa, encontrando-se na presença de Jesus Cristo, não vê nenhuma de suas orações permanecer sem efeito.
Em três partes principais se divide a missa: 1º o ofertório; 2º a consagração; 3º a comunhão do sacerdote.
A primeira parte, que vai da confissão ao ofertório, é a preparação para o santo sacrifício. Com o Confiteor, ato de humildade e contrição, dispomo-nos para o grande acontecimento que está para começar. Com o Kyrie, imploramos o socorro e a misericórdia de Deus… Com o Glória, cantamos os seus louvores e entoamos hinos em sua honra… O Oremus une todos os presentes para rezarem juntos… Com o Dominus vobiscum, o sacerdote e os fiéis desejam uns aos outros os dons do Espírito Santo… A Epístola faz-nos comunicar com os santos da antiga lei… O Gradual assinala a penitência que o povo fazia por exortação de São João Batista… O Aleluia é o brado de alegria do pecador reconciliado… O Evangelho, figura da nova lei, recorda a doutrina e a moral pregadas por Jesus Cristo… O sinal da cruz sobre a fronte diz que não devemos envergonhar-nos da fé; sobre a boca, denota que o cristão deve ser prudente nas palavras e que deve falar frequentemente da cruz de Jesus Cristo; sobre o peito, significa o amor de que deve arder o coração do homem por Deus; sobre o Evangelho, representa que é preciso anunciar e seguir Jesus crucificado… As luzes que se levam acesas simbolizam a luz que o Evangelho espalhou pelo mundo… Ficamos de pé para declarar-nos prontos a obedecer aos ensinamentos do Salvador. Segue-se depois a profissão de fé com o Credo… Aos catecúmenos só era permitido assistir a esta parte da missa.
A segunda parte, que é a principal, a mais santa, a mais divina, e que constitui propriamente o sacrifício, parte à qual assistiam somente os cristãos, vai do Ofertório ao Pai-Nosso. O Ofertório assim se chama porque então se faz a oferta do pão e do vinho que devem ser consagrados… A água que se derrama no cálice figura aquela que saiu misturada ao sangue do lado de Jesus Cristo, traspassado na cruz… O vinho e a água são oferecidos por aquele que serve à missa, para indicar que os fiéis têm parte no sacrifício… O pão, composto de muitos grãos de trigo, e o vinho, produzido por muitos bagos de uva, representam a Igreja, composta de muitos membros tirados da massa corrompida dos homens, para que sejam transformados em Jesus Cristo e, entre todos, não tenham senão um só coração e uma só alma. Sob outro aspecto, pode-se dizer que, assim como o pão e o vinho formam o nosso principal alimento, oferecendo a Deus esses dois produtos, oferecemos-lhe, por isso, a nossa vida… O sacerdote lava a extremidade dos dedos, para mostrar quanta pureza se requer para oferecer o santo sacrifício.
Ao Orate fratres, o celebrante recomenda-se às orações dos fiéis, para que o sacrifício que oferece em união com eles seja recebido por Deus; e os fiéis respondem que desejam que se cumpram as intenções e os votos do sacerdote… Chega-se ao Prefácio, nome que indica prelúdio, preâmbulo. Com efeito, o prefácio se destina a preparar os ânimos para as orações do cânon e especialmente para a elevação. É um cântico de triunfo e de glória, um convite a elevar-se até o céu, para louvar, em concerto com os coros angélicos, o Deus do universo… O Sanctus vem do céu; lá o aprenderam e de lá o trouxeram à terra Isaías e João Evangelista…
A palavra cânon quer dizer regra… A exemplo de Moisés, o sacerdote mantém as mãos elevadas, para elevar a terra até o céu e fazer descer o céu sobre a terra. No Memento dos vivos, o sacerdote reza em nome da Igreja, por todos os fiéis e especialmente por aqueles a pedido de quem oferece o sacrifício, e por aqueles que assistem à missa… Estamos no momento maravilhoso e divino da Consagração; a assembleia prostra-se por terra diante da vista do milagre dos milagres… Um grande fiat tem lugar, e o rei dos reis encontra-se sobre o altar… O pão e o vinho tornaram-se o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Jesus Cristo… Os múltiplos sinais da cruz feitos pelo sacerdote têm por finalidade recordar-nos Jesus sobre a cruz… As suas genuflexões indicam a adoração que se deve a Deus e o profundo respeito devido à sua augusta pessoa… O Memento dos mortos é uma lembrança das almas do purgatório, uma oração dirigida a Deus por elas, em nome de toda a Igreja… Depois disso, recita-se a oração por excelência, o Pai-Nosso; e a partir deste ponto começa a terceira parte da missa.
O sacerdote divide a hóstia sacrossanta, para imitar Jesus Cristo, que tomou o pão, partiu-o e o distribuiu aos seus apóstolos, dizendo: «Tomai e comei: isto é o meu corpo». Depois deixa cair no cálice uma pequena porção da hóstia, para indicar que a paz que ele há pouco desejou aos fiéis com o Pax Domini é selada pelo próprio sangue de Jesus Cristo… A mistura da hóstia com o sangue de Jesus significa: 1° a união de Deus com o homem, na encarnação; 2° a união de Deus com o homem, na santa comunhão; 3° a união dos eleitos com Deus, no céu… Mas, para gozar desta paz tão preciosa, desta união tão querida e gloriosa, é preciso estar livre do pecado. Eis por que o sacerdote recita o Agnus Dei e o Domine non sum dignus… O sacerdote comunga; os fiéis dispõem-se ao redor da sagrada mesa… O restante da missa consiste em dar graças a Deus.
Tudo o que se relaciona com a missa representa o adorável sacrifício da cruz: o amito figura o véu que cobria o rosto de Jesus Cristo quando era esbofeteado…; a alva, a veste branca com que Herodes mandou cobri-lo por escárnio…; o cíngulo, as cordas e as correntes com que foi amarrado no jardim das Oliveiras e flagelado no Pretório…; o manípulo, as cordas retorcidas com que foi amarrado à coluna; e é aplicado ao braço esquerdo, mais próximo do coração, como que para nos fazer notar o grande amor de Jesus Cristo…; a estola representa os três laços que o prenderam à cruz; indica ainda o poder do ministro consagrador…; a casula recorda o manto de púrpura com que o Redentor foi coberto e a túnica da qual foi despido e sobre a qual lançaram sortes…; a cruz que se vê figurada sobre os paramentos sacros põe continuamente diante dos olhos do sacerdote e dos assistentes o instrumento do suplício do Salvador… Cada ornamento, portanto, representa uma circunstância da paixão e da morte de Jesus Cristo. Tudo incita os fiéis a meditar seriamente e a rezar com fervor… Tudo lhes inspira confiança.
1º Os fiéis devem procurar unir-se em intenção ao celebrante e, para isso, lembrar-se de que o santo sacrifício é oferecido por três motivos principais: 1) em ação de graças pelos bens recebidos…; 2) para dar satisfação pelos pecados cometidos…; 3) para implorar os auxílios e as graças de que necessitamos.
2º É preciso oferecer-se a si mesmo a Deus juntamente com a vítima eucarística.
3º Durante o santo sacrifício, é útil considerar: 1) quem é aquele a quem se oferece…; 2) aquele que o oferece…; 3) aquele que é oferecido…; 4) por que se oferece.
4º Uma vez que o sacrifício da missa é o memorial do amor de Jesus Cristo pelos homens e a representação, ou melhor, a renovação incruenta de sua paixão e morte, que ocupação poderia ser mais útil e natural do que meditar, durante o tempo em que ele é oferecido, sobre os sofrimentos e o amor do Salvador? Este é o verdadeiro meio de ouvir a missa com proveito.
5º É preciso assistir à santa missa com aquele profundo respeito interior e exterior que naturalmente provoca, em quem lhe presta atenção, a vista do lugar santo, a presença de Deus, a companhia dos anjos e dos fiéis e, finalmente, o pensamento do grande mistério que se realiza… Quem está penetrado dessas verdades assistirá à santa missa com fé, humildade, compunção, temor, confiança etc.…