«Desde a eternidade fui escolhida e consagrada, antes que a terra existisse» (Pr. 8, 23). A Igreja, os Padres e os doutores aplicam à Bem-aventurada Virgem Maria estas palavras pelos seguintes motivos:
1° Maria foi escolhida desde toda a eternidade, porque é uma obra divina, obra não de uma hora, de um mês, de um ano, de um século, mas de todos os séculos. Deus a escolheu ab aeterno e a anuncia por meio de tipos, figuras, símbolos e fatos proféticos. Assim, por exemplo, predisse a sua virgindade na virgindade dos anjos; a caridade, no ardor dos serafins; a sabedoria, no esplendor dos querubins; a pureza, na candura do firmamento; a majestade, no fulgor dos astros e das estrelas; a beleza, no verdor dos prados; a abundância das virtudes, na fecundidade das árvores frutíferas. Todas as virtudes de todos os santos não são senão a sombra das virtudes de Maria; todas as suas perfeições não apresentam senão uma amostra, um esboço daquelas com que Deus a adornou. Eis por que São Bernardo a chama: «O grande empreendimento de todos os séculos» (Serm. II de Pentec.); eis por que foi escolhida e predestinada por Deus para ser rainha do céu e da terra, dos anjos e dos homens.
2° Maria foi escolhida desde toda a eternidade para ser o sacerdote místico que oferecesse a Deus, pela redenção do gênero humano, o preço da salvação, Cristo Jesus, seu Filho, em holocausto e vítima de expiação.
3° Maria foi escolhida para ser apresentada como o mais belo e perfeito modelo de todos os pensamentos, de todas as palavras e de todas as ações santas…
4° Maria foi escolhida para dar ordenamento à Igreja inteira; por isso, no Cântico, recebe o nome de «exército disposto em ordem de batalha» (Ct. 6, 9). Ela adorna e dispõe as fileiras dos santos, instruindo-as a vencer os demônios, o mundo, a carne e toda sorte de paixões…
5° Maria foi predestinada a estar unida por vínculos de parentesco à Santíssima Trindade, porque deu à luz Jesus Cristo, Filho de Deus Pai; e é Esposa do Espírito Santo. Pela ação divina desta terceira pessoa da Trindade, sem a participação do homem e permanecendo virgem, ela concebeu e deu à luz Jesus Cristo. Ela é filha do Pai, mãe do Filho, Esposa do Espírito Santo.
6° Maria foi escolhida e predestinada para unir o homem a Deus, tanto dando ao mundo Jesus Cristo, Deus e homem, quanto reconciliando, por meio de Jesus Cristo, Deus com os homens e os homens com Deus. Por isso, todos os séculos, todas as gerações e todos os povos desejaram ver a concepção imaculada e o nascimento da Virgem Maria e, segundo a frase de São João Damasceno, todas as idades disputavam a glória de vê-la nascer (De Laud. Virgin.).
Ó Virgem sem mancha e toda santa, fostes, pois, escolhida e predestinada antes mesmo da criação. O homem esmagado sob o peso da culpa, incerto de sua salvação, afogado na aflição e abandonado por todos, elevou para vós o olhar e a esperança, para que em vós e por vós o réu encontrasse graça; o aflito, conforto; o abandonado, refúgio; o insensato, sabedoria; o pecador, justificação; o justo, perseverança. Maria é a verdadeira cidade de refúgio, o porto seguro dos náufragos, o socorro de todos os que depositam nela a sua confiança. Ela é a fonte que brota da mais alta montanha e cujo jorro é muito mais abundante que o de todas as fontes das colinas, pois, para chegar à concepção do Verbo, ela elevou, escreve São Gregório, os seus méritos acima dos de todos os coros angélicos, até o trono da divindade (In lib. Reg. c. 1). Eis por que foi concebida no espírito de Deus e predestinada desde toda a eternidade, antes da formação dos montes e das colinas.
«Quando Deus preparava os céus, eu estava presente» (Pr. 8, 27), faz a Igreja dizer a Maria. A Santa Virgem estava diante de Deus quando ele criava os céus e ordenava o firmamento; pois tudo quanto Deus formava de belo no universo, tudo dispunha para que figurasse em Maria, que devia ser o céu vivente, no qual devia habitar corporalmente a plenitude da divindade. «Aquele que havia feito e elevado ao alto o firmamento, hoje, diz São João Damasceno, tratando do nascimento de Maria, fez de uma criatura terrestre o céu sobre a terra. E este céu da terra mostra muito mais marcada a impressão da divindade do que aquele outro; pois o mesmo Deus que havia criado o sol e o havia colocado no firmamento nasceu como sol de justiça neste céu da terra (Orat. de Nativ. virg.)».
«Com ele (Deus) eu estava, dispondo todas as coisas, e era meu deleite brincar continuamente diante dele no universo» (Pr. 8, 30-31). Estas palavras também se aplicam à Virgem Maria, no sentido de que a sabedoria de Deus se comprazia em no-la anunciar por meio de figuras, simbolizada em Eva, na arca de Noé, na arca da aliança, na vara florescida de Aarão, na sarça ardente e em semelhantes figuras… Maria é a mãe da eterna Sabedoria, que nela tomou corpo. Jesus é a Sabedoria encarnada, descida à terra; Maria é a Sabedoria na qual Jesus Cristo se encarna e da qual nasce. Por isso, assim como Jesus Cristo é chamado por São Paulo o primogênito de toda criatura, assim também Maria é chamada aquela que nasceu primeiro: porque foi predestinada por Deus antes de todas as criaturas. Jesus é o primogênito dos predestinados, dizem a Escritura e os teólogos; Maria é também a primeira predestinada. Jesus Cristo e a sua encarnação foram estabelecidos desde toda a eternidade, e assim também, desde toda a eternidade, foram decretados a concepção e o nascimento de Maria.
«Eu saí da boca do Altíssimo, nasci antes de todas as criaturas» (Eclo. 24, 5). Estas palavras se aplicam a Maria, porque: 1° Desde toda a eternidade, a Bem-aventurada Virgem Maria foi predestinada a ocupar o primeiro lugar entre as obras de Deus, isto é, entre todas as criaturas… 2° Ela foi o modelo de santidade sobre o qual Deus formaria os anjos, os
apóstolos, os mártires, os confessores, as virgens, em uma palavra, todos os santos. Assim como Deus concebeu e predestinou em sua mente a Bem-aventurada Virgem, assim também predestinou nela e por ela todos os eleitos… 3° Desde toda a eternidade, Deus decretou para Maria o primado da graça e da glória, da santidade e do domínio; pois a destinou a ser a primeira das criaturas e a tornar-se a senhora e a rainha… 4° Deus a fez como as primícias de suas obras. Havia o costume de oferecer ao Senhor as primícias dos frutos da terra, como símbolo da oferta e da consagração que se lhe fazia de todo o restante; assim, a criação ofereceu a Deus a Bem-aventurada Virgem, como as primícias da natureza humana, símbolo da oferta da purificação, da santificação dos homens e de toda a natureza. Por isso, Ruperto, abade, põe na língua de Maria estas palavras: «Antes que eu nascesse, já estava presente para Deus; antes que eu existisse, ele já me conhecia. Ele me escolheu antes da fundação do mundo, para que eu estivesse em sua presença, santa e imaculada na caridade. Se as delícias de Deus consistem em estar entre os filhos dos homens, quanto mais lhe será agradável a morada desta serva do Senhor, maravilha de todos os filhos dos homens?» (De Beata Virg.). Eis a razão por que São João Damasceno chama a Virgem Maria de «abismo e arsenal de milagres (Serm. I de Nativ. B. Virg.)».
A criação foi decretada e teve lugar para a justificação e glorificação dos santos, em Jesus Cristo, por Maria, pois a ordem da natureza foi instituída para a ordem da graça. Ora, como a Santíssima Virgem é a mãe de Jesus Cristo, é também o meio de nossa redenção e de toda a ordem da graça; ela é, por conseguinte, a causa final da criação do mundo. O fim do universo é Jesus Cristo, sua Mãe e os santos; isto quer dizer que o mundo foi feito para que os santos sejam cumulados de graças aqui na terra e cheguem ao céu da glória por Jesus Cristo e por Maria. Ora, embora Jesus e sua bendita Mãe constituam apenas uma parte da criação e lhe sejam posteriores como causa material, precederam-na, contudo, como causa final.
Segue-se, pois, que há uma relação recíproca entre a criação do universo e o nascimento de Jesus Cristo e da Santa Virgem. Deus não quis que Jesus e Maria nascessem em outro lugar que não a terra; assim também não quis que o universo existisse sem Jesus Cristo e a Bem-aventurada Virgem; ou melhor, criou-o tendo-os em vista. Dispôs tudo para que o universo se referisse a Jesus, a Maria e à ordem da graça, como ao seu próprio cumprimento e fim. Jesus e Maria são, portanto, a causa final da criação. São também a sua causa formal, isto é, a ideia e o modelo; pois a ordem da graça, na qual Jesus e Maria ocupam o primeiro lugar, é o exemplar e o modelo segundo o qual Deus plasmou e dispôs a ordem da natureza.
Pelo amor de Deus à Bem-aventurada Virgem, não somente o mundo foi criado e embelezado, mas, por consideração a ela, é também sustentado e conservado. A terra já teria afundado sob o peso das
inumeráveis culpas dos pecadores, se a gloriosa Virgem não a tivesse, por sua bondade e clemência, preservado da destruição, rogando pelo gênero humano. «Por ela o mundo foi feito, diz São Bernardo, por ela é salvo da ruína» (De Beata Virg.). «Em virtude de vossa proteção, ó Santíssima Virgem, diz São Boaventura, persiste este mundo que vós criastes desde o princípio em acordo com Deus (De Laud. Virgin.)». Sim, por Jesus e por Maria o mundo foi feito e é conservado; pois Maria é muito mais nobre e maior que todo o mundo; ela constitui o seu decoro e a sua beleza.
«Ó Senhor, pregava o profeta Habacuc, completai a vossa obra no meio dos anos. No meio dos tempos, manifestá-la-eis; e, nos dias da vossa ira, lembrar-vos-eis da vossa misericórdia» — (Hab 3,2). Essa obra, a obra de Deus por excelência, que o profeta suplica ao Senhor que manifeste prontamente ao mundo, é, por uma parte, Jesus; por outra, Maria, porque por meio deles e para eles o mundo viu a sublime obra da encarnação, à qual o profeta aludia, apressando o dia da misericórdia.
Deus não tem senão um filho e não pode ter vários, porque, ao gerar esse Unigênito, comunicou-lhe toda a sua substância. O mesmo se deve dizer de Maria. Maria será eternamente a única Mãe de Deus, o qual não pode ter duas mães. Um só filho, uma só mãe: Deus nunca fez, nem poderá jamais fazer, uma criatura igualmente perfeita. Maria nunca teve, nem jamais terá, quem a iguale, exceto o Verbo encarnado. Deus, segundo São Tomás, nada pode fazer que supere em nobreza, perfeição e grandeza Maria, enquanto ela é Mãe de Deus (1-1, q. 25, art. 8). Maria é uma obra-prima de Deus tal que podemos dizer que Deus, ao formá-la, esgotou todos os tesouros de sua sabedoria e poder (Santo Agostinho, de Civit. Dei). De modo que, falando da Bem-Aventurada Virgem, podemos dirigir a Deus aquelas palavras que o próprio Deus já dirigira ao oceano: «Até aqui chegarás e não mais além» (Jó 28,11). São Bernardo chama Maria de magnificência de Deus (Tom. 1, Concil. 61, art. 6, c. 4); e ela mesma é obrigada, em sua humildade, a exclamar: «Aquele que é poderoso fez em mim grandes coisas; mostrou a força de seu braço» (Lc 1,49,51).
Ao contrário de nós, que tudo devemos a Deus, sem que Deus nos deva coisa alguma, Maria, enquanto é devedora de Deus, é também sua credora; com efeito, Jesus Cristo recebeu de Maria toda a sua humanidade, e tudo o que tem como homem, deve-o à sua mãe. Por sua concepção e nascimento, Jesus Cristo, Deus e homem, tornou-se devedor de Maria, e deve-lhe mais do que os outros filhos devem às suas mães, porque ela reúne em si a condição de pai e de mãe. Jesus Cristo, como homem, está obrigado a cumprir para com sua mãe o preceito da lei: «Honra teu pai e tua mãe». E isso ele cumpriu perfeitamente, prestando até mesmo a São José o dever de filho, como nos assegura o Evangelista, dizendo que permanecia plenamente submetido às ordens deles (Lc 2,51). «Que mais? Pela boca de Salomão, Jesus Cristo promete à augusta mãe conceder-lhe quanto lhe pedir, não lhe sendo permitido negar-lhe coisa alguma» (1Rs 2,20).
Este dogma foi definido pelo pontífice Pio IX, em sua Bula dogmática Ineffabilis, datada de 8 de dezembro de 1854: «Cheios de confiança em Deus e persuadidos de que chegou o tempo oportuno para definir a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus; depois de ponderarmos e discutirmos tudo com a mais diligente atenção e de suplicarmos a Deus com assíduas e fervorosíssimas orações, pareceu-nos que não devíamos adiar por mais tempo a sanção e definição, com o Nosso supremo juízo, da Imaculada Conceição da Virgem, para assim satisfazer os piedosíssimos desejos do mundo católico, corresponder à nossa devoção para com a Bem-Aventurada Virgem e honrar cada vez mais nela o seu Filho Unigênito, Nosso Senhor Jesus Cristo, pois redunda em honra e louvor do Filho tudo quanto se faz para exaltar a Mãe.
«Por isso, elevadas a Deus Pai, por meio de seu Filho, orações privadas e públicas, feitas na humildade e no jejum, implorada a assistência de toda a corte celeste, invocado com gemidos o Espírito Consolador e inspirados por ele, Nós, para honra da Santa e Indivisa Trindade, para glória da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica e incremento da religião cristã, pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Bem-Aventurados Apóstolos Pedro e Paulo e Nossa, declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que ensina que a Beatíssima Virgem Maria foi, desde o primeiro instante de sua Conceição, por graça especial e privilégio singularíssimo de Deus onipotente, em consideração aos méritos de Cristo Jesus, Salvador do gênero humano, preservada imune de toda mancha de culpa original, é de revelação divina e, por conseguinte, deve ser firme e constantemente crida por todos os fiéis. E, se alguém — Deus não permita! — ousar, de agora em diante, pensar em seu coração de modo diferente daquilo que foi por Nós definido, saiba que, condenado por seu próprio juízo, naufragou na fé e se separou da unidade da Igreja; e que, além disso, incorrerá, por esse seu ato, nas penas estabelecidas pelo direito, se ousar manifestar esse sentimento de seu coração por palavras, escritos ou qualquer outro meio exterior». O Sumo Pontífice alude, nas frases citadas, ao fato de que o dogma da Imaculada Conceição se apoia nos oráculos divinos e na tradição de toda a Igreja.
Com efeito, na primeira página da Sagrada Escritura lemos que Deus disse à serpente: «Porque fizeste isso — isto é, enganaste Eva —, porei inimizade entre ti e a mulher... ela te esmagará a cabeça» (Gn 3,14-15). Estas palavras, segundo a autorizada explicação de todos os Padres, não podem ter outro sentido senão o de indicar que haveria entre a Virgem e o demônio uma inimizade inteiramente especial, diferente da inimizade que com ele teriam todos os outros santos; uma inimizade, isto é, funesta para Satanás e vitoriosa para a Virgem. Ora, como se poderia dizer com verdade que a Virgem teve uma inimizade própria e singular com Satanás, se, contaminada pela culpa original, tivesse sido, ainda que por algum instante, sua escrava? Que vitória teria ela alcançado sobre o demônio, diferente da dos outros santos, se seu triunfo consistisse em ter-se conservado imune do pecado atual, ainda que levíssimo, ou do original, mas somente do modo como dele foram imunes Isaías e São João Batista?
No que diz respeito à tradição, temos este dogma da própria boca de Santo André Apóstolo. Com efeito, nos atos de sua paixão lê-se que, dando razão de sua fé ao procônsul Egeias, ao tratar da encarnação do Verbo, falou assim: «E, porque o primeiro homem fora formado de terra imaculada, era também necessário que de uma Virgem imaculada nascesse um homem perfeito, etc.». Esta comparação nada diria, se não quisesse significar que o primeiro homem foi plasmado de uma terra que jamais fora manchada e que também Maria foi imaculada no sentido de que jamais foi manchada, nem sequer por um instante. E, na verdade, a economia da redenção do gênero humano pareceria, de certo modo, defeituosa se, assim como ao velho Adão pecador e propagador do pecado corresponde, em ordem à reparação, o novo, que é Cristo, o qual, puro de toda culpa, expulsou e destruiu o pecado, também não correspondesse à antiga uma nova Eva que, sempre pura de todo pecado, merecesse apagar a culpa daquela e restaurar a honra de seu sexo. Sobre esse confronto de Maria com a primeira mulher, como de duas coisas entre si contrárias, das quais a perfeição de uma nasceu para reparar o defeito da outra, fundamentam seus raciocínios em louvor de Maria os Santos Ireneu, em seus livros Adversus Haereses, e Justino, no Diálogo com Trifão.
Trecho ainda sem tradução — texto em italianoTra i Padri più antichi, S. Dionigi d’Alessandria così ragiona di Maria: «Quest’unica e sola vergine fìgliuola di vita generò il Verbo vivente” (Epl. cont. Paul. Samosat.), e continua a chiamarla abitacolo santo, dal capo alle piante tutta benedetta, verginal Paradiso ricco d’ogni bene. In una Omelia di Origene (I int. Divers.), la troviamo chiamata: «Degna di Dio, santa e immacolata del Santo e Immacolato, unica dell’Unico, pienissima santità, perfetta giustizia, che non fu mai sedotta dagli inganni del serpente, né avvelenata mai dal pestilenziale suo alito». S. Efrem nelle sue orazioni o panegirici di Maria, con una copia inesauribile di figure, di titoli, ne celebra in mille diverse forme la sempre illibata ed originale purezza. La chiama «Immacolata, affatto scevra da ogni neo di colpa, più santa dei serafini in tutto pura e casta, dono sommamente nuovo di Dio, immacolatissima, pienamente immacolata». E quasi fosse questo poco, la chiama «la purità, l’immacolatezza, la santità medesima sub Deo». L’anonimo autore dell’orazione -. De Laudibus Mariae Deiparae che va sotto il nome di S. Epifanio, Scrive: «Dopo Dio soltanto Ella sovrasta ad ogni cosa; per natura più bella dei cherubini stessi e dei serafini».
São Proclo, bispo de Constantinopla, deixou escrito sobre a Bem-Aventurada Virgem: «Bem podia ela ser feita templo de Deus, pois fora formada de terra pura; ela é esfera celeste de nova formação, da qual o Sol da justiça, que não conhece ocaso, manteve afastada toda treva do pecado» (Orat. in S. Deiparam).
Caio Célio Sedúlio, poeta do século V, com feliz imagem simboliza Maria «na tenra rosa que desponta em meio aos agudos espinhos, a qual, não tendo em si nada que fira, obscurece com sua beleza o espinho pungente que a produziu; assim, Maria, nascendo da estirpe de Eva, nova virgem, cancelou a dívida da antiga virgem». São Máximo de Turim observava que «Maria foi morada adequada para Cristo, que nela habitou, não pelo mérito da beleza corporal, mas pela graça original» (Hom. 8, ante Natal. Dom.). O abade Saba, finalmente, assim fala a Maria em sua Ode III: «Em ti deposito a minha esperança, ó Senhora, que jamais estiveste sequer próxima de alguma culpa; e quem é tão puro de culpa quanto tu? Ninguém, exceto tu, é assim incontaminado, ó puríssima, isenta de toda mancha». E, na XIV: «Em ti repousou o pecado do primeiro pai e não pôde passar adiante». Depois chama-a de Lâmpada claríssima «na qual não se vê nenhum vestígio de sombra» (In Tipic.).
Trecho ainda sem tradução — texto em italianoMonumenti della fede universale sono, oltre gli scritti dei padri, le liturgie e le feste che si celebrano nella Chiesa; anche questi depongono in favore dell’Immacolata Concezione. La liturgia di S. Giacomo dà alla Beata Vergine il nome di santissima ed illibata. Quella di S. Marco la chiama santissima, gloriosissima, immacolata, piena di benedizione. La costantinopolitana di S. Giovanni Crisostomo la chiama beatissima e per ogni verso incolpata. In quanto alla festa dell’Immacolata Concezione, noi la troviamo già stabilita fin dal secolo V nelle chiese d’Oriente, come ce ne fece fede il Tipico di S. Saba. S. Andrea di Gerusalemme compose egli medesimo inni e preghiere proprie di tale solennità da lui segnata nel suo Canone con questa formola: «Die 9 Decembris Conceptio Sanctae ac Dei aviae Annae». Il dottissimo Assemani Simone ci rende testimonianza di aver trovata in antichissimi codici greci anteriori all‘800, nell’indice delle feste che suole aggiungersi in fine, nei menologi greci e basiliani, nel Calendario rutenico, indicata al giorno 9 dicembre la Concezione di S. Anna, quando concepì la Beata Vergine Maria, madre di Dio. Manuele Comneno poi, che regnò dal 1143 al 1181, ordinò che il giorno della Concezione di Maria fosse feriato come le altre solennità maggiori.
Que, com esta festa, os gregos pretendessem honrar, antes que o milagre da fecundidade de Ana, sobretudo a santidade da prole concebida, resulta evidente, além dos testemunhos dos Padres acima apresentados, destas palavras de Damasceno: «A esta condição paradisíaca não teve acesso a serpente; pois o Unigênito de Deus formou para si mesmo um homem desta terra pura e virgem» (Homil. II de Dormit. B. V.); e destas outras de João, cognominado Geômetra, escritor do século X: «Alegra-te, ó filha do céu, jamais tocada pelo nosso pecado comum; alegra-te, ó mãe de Cristo, livre da mancha do primeiro pai (6)».
Na vida de Santo Ildefonso, arcebispo de Toledo, lemos: «estabeleceu que se celebrasse a festa da Conceição de Santa Maria, isto é, o dia em que ela foi concebida, e por seu mandato esta festa é celebrada solenemente em toda a Espanha no dia 8 de dezembro». Quanto à Igreja da Itália, basta observar este fato: o conde Uspinelli, na região de Cremona, no ano de 780, edificou uma capela pública em honra da Bem-aventurada Virgem concebida sem pecado; e, em 1047, Hugão de Summo, da mesma família Uspinelli, in festo Sanctae et Immaculatae Conceptionis Beatale Virginis Mariae, doou, como benefício perpétuo da referida capela, uma casa com horta, campos e vinha; estabelecendo, entre outras prescrições, também esta: que, de madeira incorruptível ou de mármore, se fizesse uma estátua representando a Virgem coroada de doze estrelas, tendo sob os pés a serpente que «pareça vomitar inutilmente o veneno, e a Virgem lhe esmague a ímpia cabeça, como convém àquela que, pela graça do Filho, mediante redenção antecipada, foi preservada da mancha original e sempre permaneceu íntegra e imaculada de alma e de corpo».
Pascásio Radberto nos dá testemunho desta mesma crença no que diz respeito à França e à Alemanha no século IX, onde escreve: «O dia em que foi começada a feliz natividade da Virgem chama-se bendito e é celebrado com grande devoção, pois consta que ela foi imune de todo pecado original (7)». Outros documentos atestam-nos que, no século XII, a festa da Imaculada Conceição de Maria era celebradíssima em toda a França por todo o povo cristão (MARTENE, De antiq. Ecclesiae ritibus, Tom. III). Finalmente, em 1215, por sugestão dos legados do papa Inocêncio II junto a Filipe Augusto, foi canonicamente estabelecida e solenizada com grande pompa na Igreja de Reims e, por decreto da Igreja Galicana, estendida a todas as dioceses das Gálias (Gravois ct Bochet. tit. 9).
Esses testemunhos e esses fatos revelam-nos qual era, nos tempos antigos, o sentimento dos bispos, dos papas, dos doutores e do povo cristão acerca da concepção de Maria; sentimento que, a partir do século XIII, foi manifestando-se cada vez mais: nas disputas que surgiram para sustentar a piedosa crença universal contra a opinião particular contrária de alguns; nas instituições que foram criadas para demonstrar concretamente o sentimento religioso; e nas Bulas e Constituições dos sumos pontífices, que pouco a pouco foram dissipando as dúvidas e favorecendo tudo o que contribuía para o desenvolvimento do dogma que ia abrindo caminho ao longo dos séculos.
Prova manifesta disso é o fato de São Bernardo, abade de Claraval, cuja oposição aos cônegos de Lião, por causa da festa da concepção por eles estabelecida em sua igreja, teve como efeito não impedi-la, mas, ao contrário, consolidá-la ainda mais e divulgá-la. Ora, tão grande era na Igreja a autoridade de São Bernardo que, se aquela crença fosse uma opinião humana e não um ensinamento divino, a oposição que ele lhe fez não poderia deixar de sufocá-la e extingui-la. Coisa verdadeiramente surpreendente! Levantou a voz contra a crença e a festa da imaculada concepção de Maria o oráculo dos papas, o árbitro dos soberanos, o pacificador das cidades, o agitador e condutor dos povos, o doutor da Santa Igreja; e os pontífices, os reinos, os povos e a Igreja confirmaram-se cada vez mais nessa crença e competiram entre si para ver quem mais a exaltaria e celebraria sua festa com maior solenidade. Os maiores veneradores de Bernardo levantaram-se para contradizê-lo, e não se sabe que o santo doutor tenha respondido ao livro De Conceptu Virginis, escrito em defesa da imaculada concepção contra seus argumentos na carta aos cônegos de Lião.
Este dogma, embora definido recentemente, não é uma verdade nova que agora se propõe a crer pela primeira vez; mas é uma explicação da crença que a Igreja universal sempre teve acerca da Santíssima Virgem, quanto à sua puríssima excelência.
Das poucas citações apresentadas, resulta claramente que o conceito que os santos Padres tinham da santidade e pureza de Maria era tal que superava em muito a santidade e a pureza de qualquer outra criatura; nesse conceito, portanto, estava implicitamente e virtualmente compreendido o conceito de sua imaculada concepção. Que diferença há, senão apenas de nome, entre a fórmula de Santo Ambrósio, que diz ser Maria isenta de toda mancha de culpa (Serm. 22, in Psalm. CXVIII, 30), ou aquelas expressões de Santo Efrém, que chama Maria ― Immaculata, intemerata, incorrupta, ab omni sorde et labe peccati alienissima (In Orat. ad sanctissimae Dei Genitr.); e a fórmula e as expressões com que é definido o dogma da Imaculada Conceição?
A imaculada concepção esteve sempre incluída, implícita ou explicitamente, na crença católica e foi verdade de fé; mas não se tornou artigo de fé senão agora, quando a Igreja a definiu expressamente: eis o progresso religioso que o Lerinense admite não somente como possível, mas como utilíssimo na Igreja de Deus. Progresso pelo qual «se há nela algumas coisas esboçadas e iniciadas ab antico, aperfeiçoa-as e purifica-as; se outras já expressas e desenvolvidas, consolida-as e confirma-as; se outras já consolidadas e definidas, conserva-as (Commonit. n. 23)».
Com toda a razão, escreve São João de Eubeia, a propósito da festa da Conceição: «Se justamente se celebram as dedicações dos templos, quanto mais devemos, com todo empenho, piedade e temor de Deus, celebrar esta solenidade, na qual não foram lançados fundamentos de pedras, nem se edificou um templo para Deus com as mãos dos homens; mas, antes, no seio materno foi concebida a santa mãe de Deus, Maria, sendo ela própria edificada por Deus, Filho de Deus, pedra angular, com o beneplácito de Deus Pai e a cooperação do Espírito vivificante!» (Serm. sulla Concez. della Santa Madre di Dio).
Maria, concebida sem pecado e nascida sem culpa, viveu também sem culpa; jamais experimentou qualquer rebelião em seus sentidos, na carne, na alma, no espírito ou no coração. Maria nunca cometeu, em toda a sua vida, o mais leve pecado venial. Esta é a firme crença da Igreja, o ensinamento formal por ela sancionado no Concílio de Trento (Sess. 6, c. XXIII).
Exteriormente, Deus afastava de Maria as ocasiões de pecado; interiormente, sugeria-lhe santos pensamentos e sublimes desejos. Deus era toda a sua ocupação; sua inteligência estava repleta de luzes; sua vontade, abrasada de afetos celestes. Sentia um horror indizível e invencível pelo demônio e pelo pecado e, como uma torrente impetuosa, avançava a cada dia no caminho da mais sublime perfeição. Suas forças e seu ardor pelo bem não diminuíam nela com o passar do tempo; ao contrário, adquiriam força e vigor.
Duas coisas concorreram para manter afastada de Maria a sombra da menor culpa. A primeira é a proteção e a contínua assistência de Deus, que nela governavam tudo de tal modo que preveniam, mais ainda do que haviam feito em Adão inocente, todo movimento, mesmo indeliberado, da concupiscência. Esta foi a verdadeira causa do adormecimento, ou melhor, da completa extinção, em Maria, do foco da concupiscência e de sua imunidade de todo pecado. A segunda foi a perfeita correspondência que ela demonstrou a todas as graças e seu ardentíssimo amor por Deus…
É justo confessar que, por sua dignidade de Mãe de Deus, Maria merecia este favor de ser confirmada na graça e tornada impecável. Além disso, era sumamente conveniente que assim fosse, porque ela é a advogada, a medianeira e, de certo modo, a redentora dos homens. Vários doutores, entre os quais São Boaventura, Ricardo de São Vítor, Marsílio e Almano, afirmaram que Maria era absolutamente impecável. A maioria crê que Maria era ao menos moralmente impecável e, por esta impecabilidade moral, entende a certeza de que ela jamais cometeria pecado algum.
Não; aquela que fora destinada por Deus a esmagar a cabeça da serpente não devia conhecer sua peçonhenta baba; a corredentora do homem não devia cair nas armadilhas do inimigo do gênero humano. Pura e sem sombra de culpa devia ser aquela que fora escolhida para trazer em seu seio o Salvador do mundo, o destruidor do pecado.
«Destilem os céus o orvalho; as nuvens chovam o justo; abra-se a terra e faça germinar o Salvador” (Is 45, 8). Estes suspiros, admirável expressão do desejo com que Isaías apressava o nascimento do Messias, podem também ser dirigidos a Maria, sem a qual o Verbo não se teria encarnado, nem o justo teria chovido sobre a terra.
«Uma estrela nascerá de Jacó” (Nm. 24,17), disse Balaão. Ora, esta estrela é Maria; ela vem ao mundo como a rósea aurora anunciadora da próxima chegada do sol da justiça. Por isso, a Igreja invoca Maria sob o título de «Estrela da manhã» (Litan. Lauret.). «Um rebento brotará do tronco de Jessé; uma flor surgirá de sua raiz. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade, e ele será investido do temor do Senhor» (Is 11, 1-3). Eis outras tantas profecias que se cumpriram em Maria.
«Levanta-te, apressa-te, minha amiga, minha pomba, minha formosa, e vem» (Ct. 2, 10). Antes da vinda de Jesus Cristo ao mundo, o céu e a terra disputavam entre si a apropriação destas frases para expressar quanto ardentemente esperavam o nascimento daquela que devia ser a mãe do libertador prometido. Vem, repetiam eles, vem, ó libertadora do gênero humano; em vós, como em Jesus Cristo, ou antes, em vós por Jesus Cristo, todas as nações da terra serão abençoadas. Nós vos saudamos ao entrardes no mundo, ó cheia de graça, o Senhor é convosco e vós sois a bendita entre todas as mulheres (Lc 1, 28).
Ao nascer desta Virgem incomparável, os anjos exclamam, extasiados: «Quem é esta que avança como a aurora nascente, bela como a lua, resplandecente como o sol, terrível como um exército ordenado para a batalha?» (Ct. 6, 9). E não se poderia talvez repetir, por ocasião do nascimento de Maria, aquilo que o anjo disse aos pastores no nascimento de Jesus Cristo: «Anuncio-vos uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje um salvador; glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade»? (Lc 2, 10, 11, 14).
Criando Maria, Deus pensava em Jesus Cristo e trabalhava para ele, escreve Tertuliano (De Resurr. carn., n. 2). «Por isso, não vos admireis, diz Bossuet, de que ele a tenha formado com todo o cuidado, de que a tenha feito nascer repleta de tantas graças; basta-vos considerar que a criou para o Salvador. Para torná-la digna de seu Filho e antes de nos dar o seu Verbo encarnado, já nos fez ver hoje, na natividade de Maria, um Cristo esboçado e, perdoe-se-me a expressão, um Cristo in fieri, por meio de uma expressão viva e natural de suas infinitas perfeições» (Serm. I sur la Nativ.).
O Senhor escolheu Maria para si mesmo! Pensai, pois, nas graças, nos favores, nos tesouros com que a terá enriquecido em seu nascimento. Já vejo irradiar-se sua cabeça com a inocência de Jesus Cristo. «Ao nascer da Virgem, escreve São Pedro Damião, surgiu a aurora do grande e esplêndido dia de Jesus Cristo. A serenidade da manhã é sinal da serenidade do dia. Maria, vindo finalmente anunciar-nos a luz, trouxe-nos, com seu nascimento, a mais esplêndida das manhãs (Serm. XL in Assumpt.)».
Nascido o Batista, o povo perguntava-se: «Que virá a ser este menino?» (Lc 1, 66). Ó, com quanta mais razão se poderia dizer isso por ocasião do nascimento de Maria! Quem será ela? A Mãe de Deus! Eis a medida de sua grandeza… Ela é o templo vivo em que repousará corporalmente Iehovah! … Com ela chegará a nossa salvação… Quem será esta menina? A mãe de todos os mortais… A natividade dá Maria à terra… Em seu nascimento, Maria recebe todas as graças para no-las comunicar…
O vocábulo Maria significa doutor, senhor, guia sobre o mar. Maria, segundo Santo Isidoro, significa luz e estrela do mar; porque Maria deu ao mundo a luz eterna (Etymol. lib. 8, c. X). E a esta Virgem, mãe da luz, convêm aquelas palavras proféticas de Tobias: «Invocando-te, invocarão um grande nome» (Tb 13, 15).
De Maria, figurada em Judite, disse o Espírito Santo: «Tu serás grande e teu nome será célebre em todo o mundo» (Jt 11, 21). Particularmente, porém, do dia de sua natividade pode repetir-se: «Hoje o Senhor tornou tão glorioso o teu nome, que as bocas dos homens jamais cessarão de exaltá-lo» (Ib. 12, 15).
«O nome de Maria, escreve São Pedro Crisólogo, equivale a uma profecia. Significa salvação para aqueles que renascem; é a marca da virtude, o decoro do pudor, a insígnia da castidade; denota sacrifício de um Deus, ternura misericordiosa que não rejeita ninguém, reunião de tudo o que há de santo. Por justo título, portanto, à Mãe de Deus foi dado este nome materno (Serm. CXLVI)». São Leão chama a Virgem de portadora da salvação (Serm. de Annunt.); e São Metódio exclama: «Cheio de bênçãos é o vosso nome, ó Mãe de Deus!» (Orat. in Hyp.).
«Não temem assim os nossos inimigos visíveis um numeroso exército, como tremem, espantadas, as potências aéreas ao ouvirem pronunciar o nome de Maria, diz São Bernardo; em toda parte onde o ouvem proferido com frequência e devotamente invocado; em toda parte onde veem imitadas as virtudes daquela que dele é distinguida: elas desaparecem e se dissipam como cera aos raios do sol (Specul. B. V., c. IX)». Além disso, São Anselmo não hesita em dizer que a invocação do nome de Maria nos traz, por vezes, socorro mais pronto do que a própria invocação do nome de Jesus: não como se o nome de Maria fosse em si maior e mais poderoso que o nome de Jesus; ele não tira de Maria, de modo algum, sua excelência e seu poder, mas de Jesus. Todavia, Jesus é o Senhor e o juiz universal; ele conhece e discerne os méritos de cada um. Quando, portanto, não nos atende, embora invoquemos seu nome, age segundo as exigências da justiça; mas quando se invoca o nome de sua mãe, se aquele que a invoca não merece ser atendido, os méritos de Maria intercedem em seu favor e fazem que obtenha aquilo que, em nome dela, pede (De Excellent. Virg. C. 1). O nome de Maria é o nome da mais terna entre as mães. Ele não recorda um senhor, um juiz, mas uma advogada, uma intercessora, uma protetora… Assim como a respiração não é apenas sinal de vida, mas também causa da vida, assim a frequente invocação do santíssimo nome de Maria é, segundo São Germano de Constantinopla, prova segura e certo argumento de que ali floresce a vida da graça; esse nome a conserva, comunicando alegria e força em toda ocasião (Serm. de B. Virg.). Falando de Jesus, São Paulo diz que Deus lhe impôs um nome que supera todo outro nome, de modo que, ao nome de Jesus, reverente, se dobra todo joelho no céu, na terra e nos infernos (Fl 2, 9-10). Proporcionalmente, o mesmo se pode dizer do nome de Maria. O nome de Maria é a própria Maria; esse nome é sua fama, sua glória, sua grandeza, sua santidade, enfim, tudo aquilo que a dá a conhecer. Depois do nome de Jesus, não há outro nome que nos dê tanta segurança de salvação quanto o nome de Maria. Esse nome encerra em si toda a economia da encarnação e da redenção…
O nome bendito, nome cheio de suavidade e doçura! Ah, o vosso nome, ó Maria, é óleo de consolação e de força! (Cant. 1, 2). «O óleo, observa São Bernardo, serve para produzir luz e fogo, nutre e alimenta, fortalece o corpo e mitiga a dor; é, ao mesmo tempo, fonte de luz, alimento e remédio. Assim, o nome de Maria é um óleo dulcíssimo; pronunciado, ilumina; invocado, nutre; meditado, cura e abranda o ardor das feridas. A lembrança do nome de Maria reanima, fortalece, ajuda a praticar a virtude, sustenta os bons costumes, protege a pureza. Sem o sal, sem o tempero de tal nome, todo alimento se torna insípido. O nome de Maria dá a fé, a esperança e a caridade; reconduz o pecador, mantém firme e sólido o justo, esmaga a cabeça da serpente, fecha o inferno, abre o acesso à morada dos bem-aventurados. Este nome é a chave do paraíso; basta pronunciá-lo para que a porta do céu se abra e se escancare. Expulsa a preguiça, a tibieza, a cólera, o orgulho e a luxúria; apaga as chamas da libidinagem. O nome de Maria: ele me recorda ao pensamento a humildade, a pureza, a paciência e o amor da Mãe de Deus, e me convida a imitá-la. Este nome traz consigo a paz, a virtude, a ordem, a harmonia e a prosperidade» (Serm. XV in Cantic.).
O nome de Maria: 1° acalma a cólera; 2° traz a graça e a misericórdia; 3° sustenta a alma e lhe comunica o fogo da caridade; 4° protege a honra e a reputação; 5° consola os aflitos; 6° dá vitória sobre as paixões; 7° inunda a alma de delícias; 8° cura todos os males. Pode-se dizer do nome de Maria aquilo que São Bernardo deixou escrito sobre o nome de Jesus: que ele é mel para o paladar, doce melodia para o ouvido, júbilo para o coração (Serm. XV in Cantic.).
«Enviai, ó Senhor, eu vos suplico, aquele que deveis enviar», diz Moisés a Deus (Ex 4, 13). E o desejo de Moisés, os votos dos patriarcas e as promessas de Deus foram cumpridos. Consultai São Lucas, e ele vos narrará que, chegada a plenitude dos tempos, «foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma virgem chamada Maria, habitante de Nazaré, cidade da Galileia. Quando o anjo entrou onde ela se encontrava, disse-lhe: Eu vos saúdo, ó cheia de graça; o Senhor está convosco; vós sois bendita entre todas as mulheres» (Lc 1, 26-28).
«Eu vos saúdo, exclama aqui São Gregório Taumaturgo, templo do Deus vivo; porque dareis à luz a suprema alegria do mundo; sereis a glória das virgens, o júbilo das mães (Serm. II de Annunt.)».
Gratia plena; cheia de graça, porque a graça se derramou sobre ela desde as fontes divinas, à maneira de um imenso rio que a envolveu toda: os santos, em comparação com ela, não receberam senão regatos. Ela, como a predileta de Deus, recebeu todas as graças de toda espécie. Sim, ela é cheia de graça, ― gratia plena; ― e de que graça, afinal, comenta São Pedro Crisólogo: «daquela graça que deu glória ao paraíso, um Deus à terra, a fé aos povos, a morte aos vícios, a ordem à vida, uma regra aos costumes. Esta é a graça que o anjo trouxe, esta é a graça que recebeu a Virgem destinada a ser o farol da salvação para todos os séculos (Serm. CXLIII)». Ao saudar Gabriel, «Maria está repleta de graça, diz Santo Agostinho, Eva é purificada de sua culpa; a maldição de Eva transforma-se na bênção de Maria (Serm. XVIII de Sanctis)». Uma jovem virgenzinha concebe um Deus e o recebe em seu seio imaculado, para dar paz ao mundo, triunfo ao céu, salvação aos homens, vida aos mortos; para unir o homem a Deus, para abaixar Deus até o homem e fazer deste quase um deus.
O Senhor está convosco ― Dominus tecum. ― Estas palavras explicam a plenitude das graças com que Maria foi enriquecida; o Senhor a assiste, está com ela de modo inteiramente especial, para realizar a obra divina da encarnação do Verbo. Por isso, Santo Agostinho, comentando esta passagem, assim se exprime: O Senhor, ó Maria, está convosco, convosco porque está em vosso espírito, convosco porque está em vosso seio, convosco porque é vosso sustento (Serm. XVIII de Sanct.).
Observa São Bernardo a este respeito: «E que maravilha, se é chamada cheia de graça aquela com quem estava o Senhor? Antes, devemos admirar-nos de que aquele que enviara o anjo à Virgem tenha sido encontrado pelo anjo já presente em Maria. Deus foi mais ágil que o anjo e o precedeu. Sim, Deus está com todos os santos; mas estava de modo particular com Maria, à qual se uniu por um vínculo tão estreito que não somente se uniu a ela pela vontade, mas também pelo corpo; como se, de sua substância e da substância da Virgem, formasse um só Cristo que, sem ser inteiramente obra de Deus ou inteiramente obra de Maria, fosse ao mesmo tempo todo de Deus e todo de Maria, e não formasse dois filhos, mas um só filho de um e de outra (Serm. III super Missus est)».
O mesmo doutor ensina ainda como a Santíssima Trindade inteira se encontra em Maria. «E não se encontra em vós, diz ele, somente Deus Filho, a quem revestis de vossa carne; mas também Deus Espírito Santo, por cuja virtude concebeis, e Deus Pai, que gerou aquele que concebeis. Convosco está o Pai, que fez seu Filho vosso filho; convosco está o Filho, que realiza o admirável mistério da encarnação; convosco está o Espírito Santo, que, de comum acordo com o Pai e o Filho, santifica vosso seio virginal (Serm. III super Missus est).
Vós sois bendita entre as mulheres ― Benedicta tu in mulieribus. «Verdadeiramente bendita, diz São Pedro Crisólogo, é aquela que foi mais sublime que o céu, mais poderosa que a terra, maior que o universo; aquela que, sozinha, conteve aquele que o mundo inteiro não pode conter. Ela trouxe aquele que sustenta o mundo; gerou seu próprio criador; alimentou aquele que alimenta toda criatura. Houve tempo em que a bênção dos patriarcas invocava a fecundidade da terra; agora, eis que a nossa terra, o seio de Maria, deu seu fruto divino (Serm. CXIV)».
«Sede, pois, bendita, ó virgem venturosa, diz Santa Brígida; sede bendita vós, na qual o Onipotente se fez criança; vós, na qual o Senhor eterno se tornou filho no tempo; vós, na qual Deus, o criador invisível, se fez criatura visível!» (Revel. lib. 3, c. XXIX).
«Quando Maria ouviu a voz do anjo, perturbou-se com suas palavras e pensava no que significaria aquela saudação. Mas o anjo lhe disse: Não temas, Maria; encontraste graça diante do Senhor» (Lc 1, 29-30). «Ah, não temas, ó Maria, comenta aqui São Bernardo; não te admires de que venha um anjo, porque vem a ti aquele que é muito maior que o anjo. Como te surpreende a vinda de um anjo, quando tens contigo o Senhor dos anjos? Por acaso não és digna de ver um anjo, tu que vives como anjo? Por que não poderá um anjo visitar uma companheira de sua vida? E certamente a virgindade é uma vida verdadeiramente angélica, pois a Escritura diz que aquele que permanece virgem será como um anjo de Deus (Serm. in Nativ. B. M. V.)». Vinde, Senhor Jesus, retirai os escândalos do vosso reino, que é a minha alma, e reinai nela como soberano absoluto! Vinde, Senhor Jesus, por meio de Maria, salvar-nos! ….
«Como prova disso, continuou o anjo a Maria, conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; e ele reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e seu império não terá fim. ― E Maria respondeu: ― Como poderá acontecer isso, se não conheço homem? E o Anjo lhe replicou: ― O Espírito Santo virá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o fruto santo que nascer de tuas entranhas será chamado Filho de Deus» (Lc 1, 35).
O Espírito Santo virá sobre ti: por conseguinte, a concepção de Jesus Cristo é santa. Como homem, Jesus é santo, não somente em virtude de sua união hipostática com o Verbo, mas também em virtude de sua divina concepção, pois foi concebido não por homem nem por anjo, mas pelo Espírito Santo. Por seu divino concebimento, Jesus não era absolutamente filho de Adão, não podia herdar dele o pecado original e nascer pecador, mas era todo puro e todo santo.
«Um Deus, observa São Bernardo, não podia nascer senão de uma Virgem; uma Virgem não podia conceber nem dar à luz outro que não fosse um Deus (Homil. II sup. Missus est)». São Clemente de Jerusalém adverte que o Senhor quis nascer de uma virgem para significar que seus membros nasceriam, segundo o Espírito Santo, da Igreja virgem (Catech. XII).
E a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra, isto é, como comenta São Gregório, o Verbo de Deus tomará em ti um corpo que será como a sombra da divindade, que a velará e ocultará como sombra (Moral. lib. 33, c. II). Pela palavra sombra, Santo Ambrósio entende a vida presente e mortal que o Espírito Santo deu a Jesus Cristo; ela é, com efeito, como a sombra da verdadeira vida da eternidade (In psalm. 108, Serm. V). O mesmo Santo Ambrósio, Santo Agostinho e vários outros Padres assim explicam as citadas palavras do Evangelho: Sombra refrescante, a graça do Espírito Santo vos protegerá, ó Virgem bem-aventurada, das chamas da concupiscência carnal, para que concebais Jesus sob a única influência de um amor puríssimo.
Santo Agostinho dá ainda esta outra explicação: «A virtude do Altíssimo vos cobrirá com sua sombra, isto é, unir-se-á a vós, adaptar-se-á ao vosso ser como a sombra ao corpo, porque a fraqueza humana não seria capaz de suportar toda a força e o efeito desta virtude» (Lib. Vet. et Nov. Testam. c. LI). Expressões semelhantes emprega Santo Hilário: «A virtude do Altíssimo vos cobrirá com sua sombra, isto é, proteger-vos-á e vos fortalecerá, para que possais experimentar a força do Espírito Santo no grande e incomparável prodígio da concepção do Filho de Deus».
O Espírito Santo vos cobrirá com sua sombra, isto é, ocultará o segredo dos segredos, o mistério dos mistérios que em vós se realiza, ó Maria! Ele velará aos olhos de todos o mais estupendo dos milagres; sua sombra produzirá o efeito de uma nuvem. Esta esconde o sol e produz a chuva, cobre a terra e a fecunda, banhando-a; assim acontece convosco, ó Virgem Imaculada; cobrindo-vos, a sombra do Espírito Santo vos tornará fecunda, segundo aquelas palavras de Isaías: «Derramai, ó céus, o vosso orvalho; chovei, ó nuvens, o justo; abra-se a terra e brote o Salvador» (Is 40, 5, 8).
São Bernardo diz: «A maravilhosa encarnação do Verbo é um mistério que a Trindade quis operar por si mesma em Maria somente e com Maria somente. Somente à Bem-aventurada Virgem foi dado compreender aquilo que somente ela deveria experimentar. Quando o anjo, à pergunta que ela lhe fizera sobre como aconteceria esse prodígio, respondeu: O Espírito Santo vos cobrirá com sua sombra, é como se tivesse dito: Por que me perguntar aquilo que em breve encontrareis em vós? Vós o sabereis com ciência certa e o sabereis para vossa grande ventura; mas o sabereis pelo próprio autor do prodígio. Minha missão é somente anunciar-vos a vossa concepção virginal e divina (Serm. IV sup. Missus est)».
Por isso, o fruto que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Ele será santo em virtude da operação do Espírito Santo e em força de sua união hipostática com o Verbo: será Filho de Deus por natureza, diferentemente de nós, que o somos somente por graça, por adoção… «E eis, continua o mensageiro celeste, que tua parenta Isabel também concebeu um filho em sua velhice» (Lc 1, 36). O anjo confirma o milagre da encarnação com outro milagre, «para que, diz São Bernardo, acrescentando-se milagre a milagre, aumente-se a alegria até atingir o auge (Ib.)». Porque nada é impossível a Deus (Ib. 37). «Em Deus, como observa o citado São Bernardo, a palavra não difere da intenção, porque ele é a verdade; nem a obra difere da palavra, porque ele é a onipotência; nem o modo difere do fato, porque ele é a sabedoria (Ib.)».
Neste ponto, o enviado de Deus detém-se e cala, esperando respeitosamente o consentimento e a resposta de Maria. «Ó Virgem bem-aventurada, exclama São Bernardo, Adão, Abraão, Davi, os patriarcas, os profetas, o mundo inteiro prostrado a vossos pés espera ansiosamente este vosso consentimento libertador. E não sem grande razão, porque de vossa boca dependem a consolação dos aflitos, a redenção dos escravos, a libertação dos condenados e, em suma, a salvação de todos os filhos de Adão, do universo inteiro. Dai, ó Virgem incomparável, uma resposta pronta e afirmativa. Ah! apressai-vos, ó Senhora, a proferir esta palavra que esperam, trepidantes, a terra, o limbo e o céu. Mas que digo? O Senhor, o Rei do universo, deseja também ele mesmo este vosso consentimento com tanto ardor quanto se compraz na vossa beleza; pois por meio desse consentimento quer salvar o mundo (Serm. VI sup. Missus)».
Céu, limbo, terra, alegrai-vos e exultai, Maria consente! Maria responde: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 28). Fiat, faça-se, seja como dizes, ó anjo do Senhor; e, ao som desta palavra, naquele instante feliz e supremo, o Verbo se fez carne (Jo. 1, 14). A esta palavra, fiat, Deus se faz homem, o homem se torna Deus; o céu se abaixa, a terra se eleva; Deus tem uma mãe, uma virgem tem um Deus por filho; os anjos se maravilham, a terra exulta, o inferno estremece. Tudo está salvo! … Com um só fiat, o mundo é tirado do nada; com um só fiat de Maria, o mundo é redimido, está salvo. “Torne-se eu também mãe”, diz Maria, “mas de modo que permaneça ao mesmo tempo virgem”; e então, do precioso sangue da Virgem, o Espírito Santo forma o corpo de Jesus Cristo; e a alma e a divindade unem-se a esse corpo com a mesma prontidão com que a hóstia se torna o corpo e o sangue de Jesus Cristo ao som daquelas palavras: «Este é o meu corpo” — Um fiat de Deus cria o mundo; um fiat de Adão o perde; um fiat de Maria permite a encarnação do Verbo e salva o universo; um fiat do sacerdote coloca Jesus Cristo sobre o altar; um fiat do Onipotente ressuscitará todos os homens e os transportará ao lugar do juízo.
Faça-se em mim segundo a tua palavra; e Maria torna-se, naquele momento, a esposa, a mãe de Deus; nossa carne, a esposa do Verbo. «O Verbo se fez carne, exclama São Pedro Damião; eis o que a natureza admira, o anjo venera, o homem anseia, o céu contempla maravilhado, a terra se consola, o inferno se atemoriza» (Serm. da Annunt.). «Um anjo anuncia, diz São Bernardo, a virtude do Altíssimo cobre Maria, o Espírito Santo sobrevém, a Virgem crê e, crendo, concebe, permanecendo virgem (Serm. 1, in vig. Nativ.)».
«E o anjo despediu-se dela» (Lc 1, 38). O anjo retirou-se depois de cumprir sua missão e obter o consentimento de Maria, portanto depois da encarnação do Verbo. Crê-se que o arcanjo Gabriel, ao retirar-se, prostrou-se aos pés de Maria, tanto para venerar a Mãe de Deus como para adorar o Verbo divino nela encarnado; justamente à imitação do anjo, nós, ao repetir aquelas palavras ― Et Verbum caro factum est ―, inclinamos a cabeça e dobramos o joelho…
São Bernardo afirma que a Virgem se tornou digna de ser a mãe de Deus em virtude do ato de fé e de obediência que praticou, consentindo, à palavra do anjo, na encarnação do Verbo, e que esse único ato foi mais meritório do que todos os atos de virtude praticados pelos anjos e pelos santos (Concl. 61, c. 12, art. 1). E Suárez, comentando essas palavras, destaca que, pelo ato de que falamos, Maria mereceu a dignidade de mãe de Deus; dignidade que exigia a maior graça e a mais elevada glória (De B. Virg.).
Muitos milagres estão contidos no milagre da encarnação. O primeiro é que uma virgem concebeu, permanecendo virgem…; o segundo foi que o Espírito Santo cobriu Maria com a sua sombra, formou instantaneamente nela todo o corpo de Jesus Cristo e lhe uniu uma alma perfeita…; o terceiro, que o Verbo se uniu, naquele mesmo instante, àquela alma e àquele corpo…; o quarto, que Deus se fez homem…; o quinto, que o homem se tornou Deus…; o sexto, que, no próprio momento da encarnação, o Menino Jesus foi cheio de sabedoria e de inteligência…; o sétimo, que foi concebido sem a mancha original e cheio de graça…; o oitavo, que a santa alma de Jesus viu, desde o primeiro momento de sua criação, a essência de Deus e se ofereceu a Ele para sofrer o suplício do Calvário e resgatar os homens…
Eva, a primeira virgem, foi formada pelo primeiro homem virgem, Adão; ao contrário, Jesus Cristo, o segundo homem virgem, foi formado do corpo da segunda virgem, Maria.
«Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo» (Mt 1, 16). O evangelista não diz: José gerou Jesus, como havia dito a respeito dos antepassados do Messias: Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó, e assim por diante. Tampouco diz: Maria gerou Jesus, embora isso seja verdade, mas escreve: Maria, da qual nasceu Jesus. Com esse modo de falar, indica: 1° que Jesus nasceu de Maria não por efeito de uma causa natural, mas de virtude sobrenatural, isto é, pelo poder e pela operação do Espírito Santo; 2° que Jesus não foi gerado por José, mas que nasceu somente de sua mãe e, consequentemente, de uma virgem; 3° que a encarnação é obra do Espírito Santo, como causa principal. Maria foi sua causa secundária: ativamente, pelo consentimento que deu ao anjo; passivamente, fornecendo o seu sangue para que fosse a matéria do Corpo de Jesus Cristo…
Tu sei benedetta fra le donne ― Bendita sois vós entre as mulheres (Lc 1, 28). Essas mesmas palavras foram ditas a Jael, que matou Sísara, e a Judite, que derrubou Holofernes, mas convêm a Maria de modo muito mais verdadeiro e perfeito. Vós sois, ó Maria, a única especialmente bendita entre todas as mulheres, porque, permanecendo virgem, vos tornareis mãe; e, assim como concebereis sem prazer, também dareis à luz, sem dor, o Unigênito de Deus…
― Benedicta tu in mulieribus ― Bendita sois vós entre as mulheres. Assim o anjo saúda Maria para indicar que nela se encontra tudo quanto há de mais perfeito nos três estados da mulher, que são a virgindade, o matrimônio e a viuvez. Na virgem, louva-se a integridade, e não a esterilidade; na viúva, a liberdade, e não a solidão; na esposa, a boa educação da prole, e não a perda da virgindade. Somente Maria é virgem sem esterilidade, é livre apesar de seu matrimônio com São José e é fecunda sem prejuízo da virgindade. Por isso, nela se encontra reunido tudo quanto há de bom nas três condições da mulher, e evitado tudo quanto há de defeituoso. Eis por que o anjo a declara bendita entre todas as mulheres.
Sim, vós sois, ó Santa Virgem, aquela mulher venturosa de quem, setecentos anos antes, Isaías havia profetizado: «Eis que a virgem conceberá e dará à luz um Filho, cujo nome será Emanuel» (Is 7, 14). «Ele será grande, acrescenta o evangelista que descreve o seu nascimento, e será chamado Filho do Altíssimo; reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e o seu império não terá limites» (Lc 1, 32-33). Ele reinará na Igreja; reinará sobre a terra pela graça e no céu pela glória…
Como me tornarei mãe?, retomou a Virgem, enquanto fiz voto de virgindade e quero fielmente conservá-lo? Sou virgem e virgem quero permanecer. Sim, José é verdadeiramente meu esposo, mas ele também é virgem e é seu propósito permanecer só… Ó quão amante da virgindade era Maria! Ela teria preferido essa virtude à honra infinita de ser mãe de Deus, se, para gozar desse privilégio, tivesse de lhe custar a perda da virgindade. «Ouvi, diz aqui o Nisseno, a pudica voz da Virgem; o anjo lhe anuncia que será mãe, mas ela se apega mais do que nunca à sua virgindade; e a antepõe a qualquer outro título (Orat. de Nativ. Christi)».
Maria foi a primeira mulher que ofereceu a Deus, dom inestimável!, a sua virgindade. Sem ser obrigada por preceito, nem convidada por conselho, nem animada pelo exemplo, ela consagrou a Deus a sua virgindade e se tornou a mãe de todas as virgens que, à sua imitação, quiseram viver nesse estado feliz e glorioso. Certamente desejava conceber o Filho de Deus, mas temia não poder conservar a sua integridade virginal; por isso, obteve ambas as graças, diz Toledo (Annot. XCVII). Não consentiu em tornar-se mãe senão quando o anjo lhe prometeu, da parte de Deus, que conceberia pela obra do Espírito Santo. Somente depois dessa garantia ela disse: Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.
«Maria era esposa de um homem justo, observa Santo Agostinho, o qual se uniu a ela não para lhe tirar a virgindade, mas para ser o seu guardião. São José conhecia o voto que Maria havia feito antes de se casar com ele e havia consentido que ela o mantivesse. Nem Maria se sujeitou a aceitá-lo como esposo sob outra condição que não esta: permaneceria virgem e observaria o seu voto (De Incarn.)». E a prova incontestável de que José respeitou o voto de virgindade feito por Maria é que pensou em abandoná-la assim que, ainda não conhecendo o mistério da encarnação, percebeu que ela estava grávida. E, para detê-lo em seu propósito, foi necessário que o anjo lhe dissesse: «José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua esposa, porque o que nela foi concebido é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados. José fez conforme lhe havia ordenado o anjo do Senhor e recebeu consigo a sua esposa. E não a conhecia até que ela deu à luz o seu filho primogênito e lhe pôs o nome de Jesus» (Mt 1, 20-21, 24-25). São José viveu e morreu virgem; e é por isso que é representado com o lírio, emblema da virgindade.
Maria concebeu e deu à luz permanecendo virgem; Jesus Cristo saiu do seio de Maria sem nenhuma lesão de sua integridade, do mesmo modo que os raios solares atravessam o vidro. Tal é o ensinamento unânime dos Padres, dos doutores e dos teólogos; tal é a doutrina da Igreja, que, pela boca de São Bernardo, nos assegura que a virgindade de Maria supera em imaculada pureza a pureza dos anjos (Serm. de Nativ.). E era muito conveniente, observa Santo Anselmo, que a Bem-aventurada Virgem resplandecesse com uma pureza sem igual, pois Deus Pai queria dar-lhe como Filho o seu Unigênito, que Ele havia gerado inteiramente semelhante a si e que amava como a si mesmo (De Concept. Virg. c. XVIII).
«Depois da ressurreição, escreve Suárez, o corpo de Jesus Cristo penetrou na sala em que estavam reunidos os apóstolos, embora suas portas estivessem fechadas; o mesmo aconteceu no nascimento do Senhor; Jesus Cristo saiu do seio de Maria sem de modo algum ofendê-la» (De B. Virg.). «Um homem qualquer», diz Guilherme de Auvérnia, «não pode ter uma virgem por mãe; mas Deus, fazendo-se homem, não podia nascer senão de uma virgem». «Que coisa», pergunta São Pedro Crisólogo, «poderia ter ofendido o pudor e a virgindade de Maria, enquanto a divindade se unia a essa Virgem querida, enquanto um anjo servia de paraninfo, a fé de pronuba, a castidade de ministra; enquanto a virtude lhe era o dote, a consciência o vínculo, Deus o autor; enquanto a virgindade concebeu e deu à luz, e a esposa se tornou mãe permanecendo virgem? (Serm. CXLVIII)».
«Eu sou, diz Maria, pela boca da Esposa dos Cânticos, a flor dos campos e o lírio dos vales» (Ct. 2, 1). E dela se pode, com toda a verdade, afirmar que nasceu da virtude de Deus; que é uma pura emanação da glória do Onipotente; e que, por isso, nela não se encontra sombra de mácula (Sb 7, 25).
«Ó milagres, ó prodígios! exclama Santo Agostinho; as leis da natureza foram mudadas; um Deus faz-se homem; uma virgem concebe sem obra de homem; a palavra de Deus torna mãe aquela que não conhece homem, e esta mãe, virgem e mãe ao mesmo tempo, dá à luz permanecendo intacta e sem mancha; uma virgem não tocada por homem tem um filho e, embora virgem, é fecunda (Serm. IX de Nativ. Dom.)». «Símbolo e tipo da Igreja, como observa São Gregório, a qual, na qualidade de mãe dos fiéis, dá à luz todos os dias filhos para Deus, sem dor e sem deixar de ser virgem» (Serm. de Nativ.). Com razão, portanto, canta de Maria um antigo poeta que, tendo unido em si as alegrias da maternidade à honra da virgindade, ela é tal mulher que o mundo não teve igual antes dela nem verá outra semelhante depois dela (PETRARCA).
São João Crisóstomo, São Basílio, Prudêncio, São Bernardo e, seguindo-os, Canísio, ensinam que, por sua pureza angélica de alma e de corpo, a Bem-aventurada Virgem mereceu de congruo, segundo a expressão da escola, ser a Mãe de Deus.
O Senhor promete ao rei Acaz um prodígio; e este é que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho (Is 7, 14). Ora, que milagre haveria se essa virgem devesse conceber e dar à luz com perda de sua virgindade? Não é esse, por acaso, o caso ordinário de toda mulher que se torna mãe? Para que, portanto, o texto citado tenha sentido razoável, é necessário que contenha o anúncio de um milagre; isto é, a profecia de que Maria conceberia e daria à luz de modo inteiramente diferente daquele de qualquer outra virgem que se torne mãe, o que significa: sem ofensa de sua integridade virginal. Além disso, que tal seja o sentido dado à referida profecia pelo povo hebreu e que, por seu intermédio, se tenha divulgado e radicado na tradição dos povos, temos um indício naqueles versos de Virgílio nos quais a Sibila de Cumas, predizendo a felicidade futura do século de ouro, diz, entre outras coisas, que o mundo renovado veria a Virgem e uma nova progênie descer do céu (VIRG., Eglog. IV). Versos que a opinião comum considera não tanto como expressão particular do poeta, mas como o eco enfraquecido de uma antiquíssima crença popular no Messias.
As causas pelas quais Deus quis nascer de uma virgem são estas: 1° convinha a Deus, diz São Bernardo (Serm. in Cant.), um nascimento inteiramente novo, inteiramente sublime, jamais visto nem ouvido. 2° Fazendo-se homem, aquele que dá a incorruptibilidade não se revestiu da corrupção; pois o autor da incorruptibilidade não poderia macular coisa alguma. 3° A Santíssima Trindade é a primeira virgem, virgem incriada, virgem por essência, como se exprime São Gregório Nazianzeno. O Pai virgem gera o Verbo, que também é virgem; e um e outro são o princípio do ato de espiração ou de amor que produz o Espírito Santo. Convinha, portanto, que Jesus viesse à terra sem pai, assim como no céu é sem mãe em sua geração divina e eterna, e que ele mesmo, virgem tanto no céu como na terra, nascesse de uma virgem. Tendo no céu um pai virgem, devia também ter na terra uma mãe que fosse virgem. 4° Jesus Cristo devia nascer de uma virgem, porque era necessário que o vencedor da concupiscência e do pecado fosse concebido sem concupiscência e sem pecado. Era igualmente conveniente que fosse puríssima a concepção daquele que vinha purificar todos os homens e transformá-los em anjos. 5° Jesus Cristo quis nascer de uma virgem para mostrar quanto, tanto para ele como para Deus, é cara a virgindade…
― Ecce Virgo concipiet ― Eis que a Virgem conceberá. Aproximai-vos, patriarcas, profetas, judeus e povos do universo: vede, escutai e maravilhai-vos. Eis um prodígio inteiramente novo, a maior maravilha de que os séculos serão testemunhas, a obra-prima da mão de Deus. Uma Virgem conceberá e dará à luz. Esta Virgem, filha, mãe e esposa de Deus, será a rainha dos anjos. Ela une Deus ao homem, o céu à terra, a maternidade à virgindade, os pecadores à santidade. Eis por que os espíritos celestes a veneram; a Igreja lhe presta um culto não de dulia, como aos santos, mas um culto especial que se chama hiperdulia e que é inferior somente ao culto prestado a Deus.
Maria conceberá e dará à luz. Eis como a virgindade é fecunda: ela concebe e dá à luz o Deus criador de todas as coisas. «O corpo da Virgem é o céu de Deus» ― diz Santo Ambrósio (De Nativ.). «Eva, deixando-se corromper, escreve São Fulgêncio, introduziu em erro pelo primeiro pomo; Maria, permanecendo virgem e sem mácula, concebeu o segundo homem. A malícia do demônio deprovou a alma da esposa de Adão, por ele seduzida; a graça de Deus conservou perfeitamente puros tanto a alma como o corpo da mãe do novo Adão (Epist.)».
«Ó concepção única, que se realizou sem dor! exclama São Bernardo; concepção que foi a única pura, a única isenta de pecado e que, longe de macular um seio virginal, o consagrou como um templo! Ó nascimento superior à natureza, tanto pela grandeza do milagre como pela virtude do mistério!» (Serm. I in Vig. Nativ.).
«Maria, da qual nasceu Jesus» (Mt 1, 16). Estas palavras significam que Maria é a mãe de Jesus feito homem; mas, estando o homem Jesus unido hipostaticamente a Deus, é Homem-Deus; e, como em Jesus há uma só pessoa, que é a pessoa divina, segue-se que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus. Isso se evidencia ainda por aquelas palavras de São João: «O Verbo se fez carne e o Verbo era Deus» (Jo 1, 14, 1). Ora, se o Verbo-Deus se encarnou no seio de Marta, ela é necessariamente Mãe de Deus. Ó dignidade sublime e única!
Maria, mãe de Jesus! São Tomás ensina que Deus não pode fazer coisa maior que a encarnação do Verbo e a maternidade divina da Bem-aventurada Virgem. Com efeito, a encarnação une a humanidade à divindade por meio da união hipostática e, por outro lado, a maternidade divina é a consanguinidade com Deus. Em virtude dessa maternidade, Maria é para Deus aquilo que uma mãe é para seu filho, e ainda mais; porque Maria é mais plenamente mãe do que as outras mães, se se observa que as outras mães o são com o concurso do pai, ao passo que Maria é, ao mesmo tempo, pai e mãe de Jesus, tendo ela sozinha concebido, ela sozinha dado à luz, não naturalmente, mas sobrenaturalmente; o que é muito mais perfeito e sublime, tanto que não se pode comparar com a concepção e geração das outras mulheres (Summa I.a, I.ae., q. 25, art. 6 ad 4).
Da dignidade de Mãe de Deus derivam todos os dons e todos os privilégios concedidos a Maria, não somente sobre os homens, mas também sobre os próprios anjos. Assim como a humanidade de Jesus, unida à divindade, é Deus, Maria, em virtude dessa união, tornou-se Mãe de Deus e recebeu, em grau supremo, todos os dons divinos.
«Que uma mulher tenha concebido e dado à luz Deus é tal milagre, escreve São Bernardo, que supera todo milagre. Com efeito, foi necessário, se assim é lícito dizer, que, por uma infinidade de perfeições e de graças, essa mulher fosse elevada a uma espécie de igualdade divina, igualdade que nenhuma criatura jamais alcançou. Por isso, penso que nenhuma inteligência, nem humana nem angélica, jamais tenha penetrado aquele imperscrutável abismo de todas as graças que a Bem-aventurada Virgem recebeu do Espírito Santo na hora de sua divina concepção. A dignidade de Mãe de Deus é dignidade quase infinita, que exige uma graça proporcionada. Daí podemos inferir que a Bem-aventurada Virgem, na concepção do Filho de Deus, adquiriu, com o seu consentimento, um tesouro mais rico de méritos do que aquele que todas as criaturas, tanto angélicas como humanas, conquistaram com todas as suas ações, seus afetos e seus pensamentos. Com efeito, todos os que merecem não merecem outra coisa senão a glória eterna, em diferentes graus. A Bem-aventurada Virgem, ao contrário, mereceu, com o seu admirável consentimento, a inteira extinção da concupiscência, o primeiro lugar entre as criaturas, o império do universo, a plenitude de todas as graças, de todas as virtudes, de todos os dons, de todas as bem-aventuranças, de todos os frutos do Espírito Santo, de todas as ciências, a inteligência das línguas, o dom da profecia, o conhecimento dos espíritos, a ciência das virtudes. Mereceu ser fecunda permanecendo virgem e tornar-se a mãe do Filho de Deus. Mereceu ser a estrela do mar, a porta do céu e, sobretudo, ser chamada a rainha da misericórdia e sê-lo de fato. Por isso, bem lhe convêm aquelas palavras dos Provérbios: Entre as filhas dos homens, muitas acumularam grandes tesouros, mas vós a todas ultrapassastes (Concl. 61, CXII)».
Santo Agostinho e São Tomás pensam que São Paulo, arrebatado ao terceiro céu, tenha visto a essência de Deus. Ora, se tal graça recebeu São Paulo, como não a teria recebido, com maior razão, a Bem-aventurada Virgem? É esta a opinião de muitos Padres, entre os quais São Bernardo, e de célebres teólogos. Santo Antonino, por exemplo, diz explicitamente que a Virgem Maria, na concepção do Verbo, viu a própria essência de Deus, porque a recebia em si mesma (Sum. theol. p. 4, tit. 15, c. 17). São João Damasceno e Santo Anselmo ensinam que Maria, no momento em que se tornou Mãe do Verbo, recebeu uma clara revelação de sua predestinação e de sua exaltação acima de todas as ordens angélicas (De Dormit. Deip. ― De Excell. Virg. c. 3, et IV).
A exclamação da mulher evangélica: «Bem-aventurado, ó Jesus, o ventre que vos trouxe, bem-aventurado o seio que vos amamentou” — (Lc 11, 27) — sugeriu esta outra a São Metódio: «Virgem incomparável, vós contendes aquele que contém todas as coisas; levais aquele que tudo sustenta, em virtude de uma só palavra; possuís aquele que tudo possui» (Orat. in Hyp.). «Servir a Deus é reinar, diz São Bernardo; levá-lo não é um peso, mas um ornamento. Ora, vós, ó Maria, vestis este grande Deus, e ele vos veste; vós o vestis com a vossa carne, e ele vos reveste da glória de sua majestade; vós emprestais uma nuvem ao sol, e ele vos envolve inteiramente com seus raios (Serm. VII in psalm.)». «Que trono glorioso, que carruagem real», exclama São Gregório de Nissa, «deve ser aquela sobre a qual é levado o Verbo feito carne! (Orat. de Praesent. B. Virg.)».
«O incompreensível», diz Santo Ambrósio, «operava de modo incompreensível em sua mãe (Serm. de B. Virg.)». Ninguém, portanto, se lisonjeie de compreender a grandeza da Mãe de Deus, que trouxe em seu seio a grandeza da suprema majestade. Grande é a dignidade dos serafins, mas é muito inferior à de Maria: somente Deus está acima dela (Id. Serrn. de Nativ. B. Virg.). «Maria», diz o Damasceno, «foi mãe de Deus segundo a carne; seu seio é o céu no qual habitou aquele que lugar algum pode conter (De Laud. Virg.)». Maria é a criatura que acumulou o maior tesouro de méritos; pois, diz São Gregório, para chegar a conceber o Verbo, elevou o cúmulo de seus méritos tão acima do dos anjos, que chegou a tocar o trono de Deus (Serm. de Nativ.). Eis por que ela foi concebida desde toda a eternidade no desígnio divino; o mundo não existia, e ela já existia. Diz ainda São Bernardo: «Se alguém considerar que efeito teve, na encarnação do Verbo, o consentimento de Maria, verá facilmente que toda dignidade e toda perfeição, tanto da alma como do corpo, estão compreendidas no augusto título de Mãe de Deus. Maria ultrapassa infinitamente, em méritos, tudo o que se pode imaginar ou expressar abaixo de Deus. Para que Jesus Cristo, termo inefável de todas as coisas, se encarnasse em seu seio virginal, foi necessário que encontrasse nela uma perfeição digna dele» (Serm. LI, art. 3, c. X).
O título de mãe de Deus prevalece sobre qualquer outro título e sobre todas as dignidades possíveis, assim como o ouro prevalece sobre o chumbo e o céu supera a terra. Incomparável e incompreensível é a maternidade divina, porque, como já observamos, ela exprime uma estreita parentela com Deus. Por ela, a Bem-aventurada Virgem é elevada a tal altura que toca a ordem divina e tem por filho consubstancial, enquanto homem, esse mesmo Deus que o Pai tem por filho consubstancial enquanto Deus. Por isso, assim como o Pai diz ao Verbo: «Tu és meu Filho; hoje eu te gerei» (Sl 2, 7); assim também Maria pode dizer-lhe: «Tu és meu Filho; eu te gerei». Maria tem, como o Pai, por filho seu, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. O Verbo, que tem Deus por Pai, tem Maria por mãe. Maria é superior a todas as criaturas; é a mãe, a esposa, a filha de Deus; a mãe do Verbo, a esposa do Espírito Santo, a filha do Pai.
Que título é, pois, este título de Mãe de Deus? Que dignidade é esta? Ser mãe de Deus implica, em certo sentido, ser superior a Deus; conceber e dar à luz um Deus é dar-lhe a essência humana, a própria substância dele, a carne, o corpo, o sangue; é reivindicar sobre ele os direitos que competem a uma mãe sobre seus próprios filhos; é vê-lo submisso, como convém a um filho, de modo que ele a chama de sua mãe, a respeita, a honra e lhe obedece como à sua mãe. Um Deus deve cumular sua mãe de dons e graças em tal medida que ela seja digna de semelhante mãe e de um filho que é Deus eterno; porque a honra de um filho corresponde à honra da mãe. Para que seja digna de seu filho, é necessário que a mãe de um rei seja rainha; semelhantemente, para que seja digna de Deus, é necessário que sua mãe possua honra e poder quase divinos. Seria uma desonra para um rei ter uma mãe em condição indigna dele; seria inconveniente para Deus ter uma mãe que não estivesse adornada das virtudes e qualidades convenientes a um Deus… Estupefato e como que deslumbrado diante do pensamento da alta honra da maternidade divina, São Bernardo exclama: «Ó duplo milagre! De um lado, um Deus que obedece a uma mulher, ó humildade sem exemplo! De outro, uma mulher que manda em Deus, ó sublimidade sem igual! (Hom. II sup. Missus)».
Excetuando-se a união hipostática da humanidade com o Verbo, não se encontra outra união mais íntima e estreita que a união do Verbo com sua mãe pela encarnação; nem o próprio Deus, diz São Tomás, poderia estabelecer outra mais íntima e mais sublime. Deve-se dizer que a humanidade de Jesus Cristo, pelo fato de estar unida a Deus, e a Bem-aventurada Virgem, pelo fato de ser mãe de Deus, possuem certa dignidade infinita proveniente do bem infinito que é Deus; portanto, nada pode haver de melhor que elas, assim como nada há de melhor que Deus (1-1 q. 15, art. 6 ad 4). Daqui podemos concluir que a dignidade de mãe de Deus, se considerada pelo lado do ser que a recebe, mostra-se circunscrita por limites, pois, por sua natureza, este ser não é infinito; é, porém, infinita quanto ao objeto, que é Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem.
Nos dias de Josué, o sol ficou imóvel; nos tempos de Ezequias, retrocedeu; agora, eis uma maravilha ainda mais extraordinária: uma virgem torna-se mãe de Deus, o sol da eterna justiça detém-se no seio de Maria. A Moisés mostrou-se uma sarça que ardia sem se consumir, conservando, antes, o seu verdor; aqui se mostra uma mulher que conserva a sua virgindade tornando-se mãe. Embora ressequida, a vara de Aarão floresceu; aqui o tronco de Jessé dá o fruto esperado pelas nações. O faraó vê a vara de Moisés transformada em serpente; aqui vemos Deus fazer-se homem e tornar-se semelhante aos pecadores. O povo de Israel recolheu todas as manhãs, durante quarenta anos, o maná que caía do céu; aqui encontramos o Verbo que desce do seio do Pai e se encarna no útero de Maria. Eliseu contemplou Elias transportado acima das nuvens; aqui contemplamos a natureza humana elevar-se até à divindade e unir-se ao Verbo eterno. Com toda razão, portanto, canta a Igreja, em seu hino Alma Redemptoris mater: Tende piedade dos pecadores, vós que, em meio ao assombro e ao aturdimento de toda a natureza, gerastes o vosso Criador.
Maria, mãe de Deus, é a maravilha dos séculos, o encanto da natureza, o prodígio do universo. Ó milagre novo, inaudito, jamais visto, nem jamais visto novamente! Uma mulher é mãe do Verbo, o gigante da eternidade. Este grande Deus não se desonra tornando-se filho de Maria; e Maria não fica reduzida a cinzas pelos raios da majestade divina. Jesus Cristo é a obra por excelência do Senhor, é a maravilha que impressiona os olhos de todos. Jesus Cristo nasceu do Pai nos arcanos do céu; Jesus Cristo nasceu de uma mãe na terra: nasceu da eternidade do Pai e da virgindade da mãe; foi gerado pelo Pai sem o concurso de uma mãe; e pela mãe sem o concurso de um pai; ele descende de um pai que não conhece o tempo, de uma mãe que põe fim à morte; de um pai que regula a ordem dos dias, de uma mãe que tornou sagrado o dia em que lhe nasceu um filho e a nós foi dado um irmão.
«Depois da encarnação, Maria, saindo de sua casa, foi apressadamente a uma cidade situada entre as montanhas da Judeia» (Lc 1, 39). Maria parte: 1° para anunciar que o Filho de Deus se encarnou nela e para obter para seus parentes os favores do Verbo feito homem; tendo Jesus querido começar, desde o primeiro instante de sua concepção, o seu ministério de Salvador…; 2° para que o Verbo apagasse o pecado original contraído por São João, que ainda se encontrava no seio materno, e cumulasse a ambos, mãe e filho, dos dons do Espírito Santo; 3° para felicitar Isabel pela concepção miraculosa do Batista…; 4° para oferecer aos séculos futuros um memorável exemplo de humildade e caridade; pois, tendo-se tornado mãe de Deus, rainha do céu e do universo, Maria visitou Santo Isabel, sua inferior… Não nos ensina porventura este ato de Maria que é nosso dever visitar os pobres e os inferiores?
A Bem-aventurada Virgem dirige-se às montanhas. ― Uma alma cheia de Deus, como era a sua, eleva-se ao mais alto grau de virtude… Bem podia Maria repetir com Habacuc: «O Senhor Deus é a minha força: ele dará a meus pés a velocidade do cervo; conduzir-me-á triunfante às alturas, onde cantarei hinos à sua glória» (3, 19).
Maria parte apressadamente. ― A Bem-aventurada Virgem caminha a passos rápidos para seu destino, a fim de não permanecer por muito tempo em público, fora de casa. «Com isso aprendei, ó virgens, comenta Santo Ambrósio, a não vos demorardes a conversar pelas ruas e praças. Maria, circunspecta em casa, caminha apressadamente em público (In Luc. l. 2, n. 19)». Uma alma cheia do Espírito Santo não conhece delongas, não dorme, mas corre e voa pelo caminho dos preceitos divinos e da perfeição.
«Maria entra na casa de Zacarias e saúda Isabel» (Lc 1, 40). Esta casa é uma casa santa, pois é a morada de São Zacarias, de Santa Isabel, sua esposa, e de São João Batista, filho deles… Aprendamos a frequentar somente casas de boa reputação, a conviver apenas com pessoas irrepreensíveis; fujamos com todas as forças das casas e das pessoas de reputação duvidosa ou perigosas. Maria é, então, a primeira a oferecer a saudação; com efeito, convinha, diz Santo Ambrósio, que fosse tanto mais humilde quanto mais pura e favorecida por Deus (In Luc. lib. 2, n. 19). Que belo exemplo para nós, a imitar! E que estímulo para aproveitarmos todas as ocasiões de enraizar em nós a virtude da humildade.
«E como Isabel ouviu a saudação de Maria, eis que o filho exultou em seu seio, e Isabel ficou repleta do Espírito Santo» (Lc 1, 41). Pela exultação de seu filho, Isabel soube que Maria havia concebido o Verbo de Deus. Esse exultar de João Batista foi algo sobrenatural, assim como o uso da razão que lhe foi concedido naquele momento pelo Verbo presente no seio de Maria. Observai aqui quão útil e eficaz é a saudação dos santos, a oração que a eles se dirige e, sobretudo, aquela que eles fazem por nós; mas não há devoção que se possa comparar à devoção para com Maria, nem proteção que iguale a sua.
Notai ainda com Santo Ambrósio que «embora Isabel tenha sido a primeira a ouvir a voz da Virgem, todavia João foi o primeiro a sentir a graça. O menino exultou, e a mãe foi, naquele momento, repleta de graça. A mãe não recebeu a graça antes do filho; mas, depois que o filho se encontrou cheio de graça, comunicou-a à sua mãe (In Luc. lib. 2, n. 19)».
O anjo, saudando Maria, lhe havia dito: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo, tu és bendita entre as mulheres (Lc 1, 28); Isabel acrescenta à saudação angélica estas outras palavras: «E bendito é o fruto do teu ventre». ― Depois acrescentou: «E de onde me vem esta felicidade, que venha à minha casa a mãe de meu Senhor?» (Lc 1, 42-43); como se quisesse dizer: Vós sois a mulher escolhida desde toda a eternidade para esmagar a cabeça da serpente, para dar à luz o Verbo divino, para fechar o inferno, para abrir o céu… Vós sois bendita entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso seio. E não foi somente Isabel, com o menino, que experimentou os prodigiosos efeitos da visita de Maria; também Zacarias teve parte nela, porque profetizou dizendo: «Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo e suscitou no meio de nós um poderoso Salvador, da família de seu servo Davi» (Lc 1, 68, 69).
«Em vós somente, exclama São Bernardo, em vós somente, Maria, o rei do universo se oculta e se aniquila: o Altíssimo se abaixa, o Imenso se apequena. O verdadeiro Deus, o Filho de Deus, encarnou-se, e por quê? Para enriquecer-nos a todos com a sua pobreza, para reerguer-nos e elevar-nos com a sua humildade, para engrandecer-nos com o seu aniquilamento, para unir-nos a Deus com a sua encarnação e para que comecemos a ser um só e mesmo espírito com ele» (Sup. Missus).
Devemos reconhecer que o Salvador é um Deus oculto, cuja virtude opera nos corações de modo secreto e impenetrável. Aqui vemos Jesus e Maria, Isabel e João. Isabel saúda Maria como Mãe de Deus e se humilha; João sente a presença de Jesus e salta de alegria; Maria refere tudo a Deus, Jesus somente parece não fazer nada; e, contudo, é ele que move Isabel, Maria e João.
Quantas vezes Deus nos visita secretamente! … E quanto mais vezes nos visitaria, se não lhe puséssemos obstáculo! … E quantas vezes Jesus vem a nós, suscita em nosso coração, como já em Isabel, sentimentos de fé, de reverência, de amor e de adoração à majestade divina…; leva-nos a humilhar-nos…; impele-nos e eleva-nos a piedosos desejos, a santos transportes, como já fez o Batista exultar…; finalmente, atrai-nos a entregar-nos inteiramente a ele, a bendizê-lo, louvá-lo e amá-lo, à imitação de Maria.
O abraço de Maria e de Isabel representa a união da lei antiga com a nova, as quais se fundiram com a vinda de Jesus Cristo… Isabel representa a lei antiga, Maria representa a nova, João denota o fim das profecias, ele é o último dos profetas… O Salvador aparece, o ministério dos profetas terminou…
No instante de seu abraço com Isabel, Maria soltou os lábios para o sublime cântico do Magnificat. Nele, depois de dizer que sua alma louva e exulta no Senhor, confessa que, se todas as gerações a chamarão bem-aventurada, se todos os séculos rivalizarão em exaltá-la, é porque Deus havia olhado com benevolência para a baixeza e a humildade de sua serva e mostrado a potência de seu braço, fazendo nela coisas admiráveis e inauditas; de tal modo que derrubou os grandes e elevou os pequenos, cumulou de bens os pobres famintos e deixou os ricos na indigência. E tudo isso fez por sua misericórdia e em cumprimento das promessas feitas a Abraão e à sua descendência (Lc 1, 46-55).
O parto de Maria foi, segundo o unânime ensinamento dos padres, dos doutores, dos teólogos e da Igreja, tão sem dor quanto sem lesão da integridade de seu seio virginal… Que aflição para Maria não encontrar senão um estábulo e uma manjedoura para nela dar à luz o seu divino menino! … Corria a estação mais rigorosa do ano, era noite avançada, e Maria se encontrava privada de todo auxílio quando deu à luz aquele que era a salvação do mundo, o Messias, o Esperado das nações, o Verbo feito carne … «Ela deu à luz o seu Filho; e, envolvendo-o em faixas, deitou-o numa manjedoura» (Lc 2, 7).
Quem descreverá a alegria, a felicidade, o êxtase de Maria ao receber pela primeira vez o divino infante em seus braços? … De que carícias não o terá cumulado! … Que doces lágrimas não terá derramado sobre ele! … que suaves beijos, que ternos abraços não lhe terá dado! … Quão grande era o amor do celeste menino por sua mãe e quão entranhado o amor de Maria por Jesus! … Que caros e doces sorrisos de uma parte, que ternas efusões da outra! … «Ó único parto sem dor, exclama São Bernardo, único puro, único isento de corrupção! Ó nascimento sobrenatural! Quem narrará as tuas maravilhas?» (Serm. I in vig. Nativ.).
O recenseamento ordenado por César Augusto ocorreu num tempo em que o mundo gozava de uma paz tão universal e profunda que se havia fechado o templo de Jano. Ora, isso aconteceu por singular disposição de Deus, que queria mostrar que Jesus Cristo, ao nascer, trazia a paz entre o céu e a terra. Narra a tradição que a Virgem Maria apareceu, com o filho nos braços, a César Augusto e que, precisamente em memória de tal aparição, o imperador romano mandou erguer no Capitólio um altar com a inscrição: Altar do primogênito de Deus (SUID. ― NICEP. BARON. ― Lex. Hist. et Annal. Eccl.). É opinião de não poucos doutores que os anjos receberam Jesus em seu nascimento e o colocaram novamente nos braços de Maria… A manjedoura em que Jesus foi colocado depois de seu nascimento encontra-se atualmente em Roma, na Basílica de Santa Maria Maior.
Maria acolheu os pastores enviados pelos anjos e guardava zelosamente e meditava em seu coração tudo o que se dizia a respeito do menino (Lc 2, 19).
«Maria e José levaram Jesus a Jerusalém para oferecê-lo ao Senhor» (Lc 2, 22). Que obediência absoluta! Que profunda humildade não manifesta Maria em sua purificação! … Essa virgem, essa imaculada, não desdenha tomar lugar entre as mulheres comuns… E Maria não nos dá no templo apenas exemplo de obediência e humildade, mas também de heroica resignação, pois ali seu seio foi traspassado pela espada da dor, segundo a palavra do velho Simeão (Lc 2, 35).
Maria ofereceu a Deus, no dia da purificação, seu desapego das coisas terrenas, sua submissão e sua penitência. Para a cerimônia da purificação, submeteu-se ao jugo da antiga lei, lei de servidão da qual estava formalmente isenta… O silêncio de Maria, que calava o grande mistério de sua maternidade divina, não obstante Simeão já tivesse levantado uma ponta do véu, era prova segura, indício certo de uma reserva extraordinária, de uma modéstia incomparável. Sua presença no templo e a oferta que ali fazia davam motivo para crer que ela era mãe como todas as outras… Ó humildade incrível e inefável! … Simeão a louva e proclama sua glória; Ana, a profetisa, divulga suas grandezas: somente ela se cala, adorando a Deus… Ela é virgem; Deus o sabe, Jesus o sabe, José o sabe, e isso lhe basta…
A predição feita por Simeão à Bem-aventurada Virgem, no dia de sua purificação, de que sua alma seria traspassada pela espada da dor (Lc 2, 35), cumpriu-se plenamente; pois em cem ocasiões e de mil maneiras a ponta aguda da dor dilacerou o coração de Maria.
1° Maria sofreu os padecimentos de seu Filho, e suas dores foram proporcionais ao seu amor… Nos mártires e nos santos, o amor foi sempre um doce alívio nas dores, foi um bálsamo divino que cicatrizou suas chagas, embora profundas. Quanto mais amavam a Deus, menos sentiam suas dores… Ao contrário, quanto mais Maria amou, tanto mais sofreu e, como seu amor era, de certo modo, infinito, também infinitos foram seus padecimentos. 2° Maria sofreu por efeito da compaixão…; todas as dores de Jesus Cristo tiveram nela sua repercussão…; 3° Ela sofreu em razão de sua dignidade… 4° Sofreu na proporção da longa duração de seus padecimentos… Desde o momento de sua encarnação, Jesus viu e suportou toda a sua paixão; desde então, também Maria conheceu e sofreu todas as dores de seu Filho, de seu Deus… 5° Sofreu por solicitude… Viu Jesus sofrer tudo sozinho, abandonado por seus apóstolos, pelos homens e pelos anjos… 6° Sofreu com as blasfêmias e as horríveis calúnias lançadas contra Jesus Cristo… 7° Sofreu ao ver e pela presença contínua de seu amado Filho crucificado.
Eis por que os doutores ensinam que a Bem-aventurada Virgem foi mártir e mais que mártir. A dor dos mártires dilacerou-lhes o corpo; a dor de Maria, como a de Jesus, dilacerou-lhes a alma. ― Assim como Jesus Cristo sofreu infinitamente mais que cada mártir e que todos os mártires juntos, assim também as dores de Maria superam todas as dores dos mártires… Jesus foi crucificado; também sua Mãe o foi com ele, por causa dos indizíveis sofrimentos que experimentou aos pés da cruz! … Ao perseguir Jesus, persegue-se também sua terna Mãe; pois ela fez da morte de Jesus a sua própria morte. «A dor da Virgem foi tão grande, escreve São Bernardino, que, dividida entre todos os homens, bastaria para lhes dar instantaneamente a morte (Tom. 2, serm. LXI)».
Que angústia apertou o coração da Virgem, quando soube que José havia concebido o projeto de abandoná-la! … Que ferida para ela, ver-se rejeitada pelas pessoas, de tal modo que é obrigada a dar à luz seu Filho numa cabana, no campo, e colocá-lo numa manjedoura entre dois animais! … Que aperto, ver já escorrer o sangue de Jesus Cristo sob a faca da circuncisão! … Que ansiedade lhe causa a fuga para o Egito! … Que angústia, ter perdido seu Jesus e procurá-lo durante três dias! … Que aguilhão, ouvi-lo acusado de malefícios, encantamentos, sedições e crimes, ele que era a inocência e a mansidão por essência! … Que tormento, quando soube da traição de Judas, da negação de Pedro, do abandono dos apóstolos! … Que aflição, ao som das calúnias e dos falsos testemunhos apresentados no tribunal do sumo sacerdote! … Que tormento inefável, ser testemunha da agonia, dos tapas, dos escarros, dos ultrajes, das zombarias, dos sarcasmos, das invectivas, das maldições, dos gritos de raiva, da flagelação, da coroação de espinhos, da apresentação de Jesus ao povo, de sua condenação, de sua ida ao lugar do suplício com a cruz sobre os ombros e banhando de seu sangue o caminho!
Mas eis Jesus no Calvário, e eis também Maria! … Jesus está sobre a cruz e Maria está aos seus pés (Jo 19, 25). Ó Deus, que padecimentos inenarráveis para sua alma! Com o Filho, a Mãe está crucificada; os cravos que traspassaram as mãos e os pés de Jesus chegaram, com sua ponta, a traspassar o Coração de Maria; a veste que foi arrancada em farrapos da carne do Salvador, reabrindo-lhe as chagas, o fel com que foi dessedentado, as injúrias, as imprecações e os ludíbrios de que foi alvo foram outros tantos golpes de espada que traspassaram o coração da Virgem! … Que pena para ela sentir João colocado em seu lugar, em vez do Filho Jesus! … Que suprema dor, enfim, ver este seu Jesus dar o último suspiro sobre a cruz! …
Não, não: os padecimentos dos mártires nada são em comparação com o martírio de Maria… São Bernardo diz: «Nenhuma mente pode compreender, nenhuma língua pode expressar os inefáveis tormentos que dilaceraram o coração de Maria. Vós pagais na cruz, ó Virgem bendita, diz ele, com abundantes juros aquele tributo de dor do qual fostes isenta em vosso parto. Vossas entranhas experimentaram, sob a cruz de vosso Filho moribundo, uma carnificina muito mais cruel do que haviam experimentado em Belém, quando ele nascia de vós (Serm. XXIX in Cant.)».
Aos pés da cruz, Maria, segundo a expressão do Crisóstomo, afogava-se num mar de padecimentos: ― Stabat doloribus immersa (Serm. in Pass.). Não obstante isso, sob o peso de tamanha angústia, Maria não abre a boca para um lamento; conforma-se com inteira resignação à vontade de Deus…
Quando os dias da vida mortal da Mãe de Deus chegaram ao seu ocaso, todos os apóstolos, que estavam espalhados pelo mundo, encontraram-se, por especial desígnio da Providência, reunidos em Jerusalém e fizeram coroa ao seu leito de morte. O bispo Juvenal de Jerusalém e São João Damasceno, com não poucos outros autores, recordam precisamente esse fato. A tradição também nos diz que a Bem-aventurada Virgem morreu no ano 58 da Era comum, vinte e quatro anos depois da morte de Jesus Cristo, contando ela setenta e dois anos.
É certo que Maria morreu. Mas que bela, que doce morte, ó grande Deus! Depois de uma vida tão santa, tão perfeita, tão sublime! Não foi senão um sono plácido. Ela morria de amor, como de amor havia vivido; nela se cumpria literalmente aquele dito do Espírito Santo: «Forte como a morte é o amor” (Cant. 8, 6).
Pouco depois de sua morte, a Santíssima Virgem ressuscitou, o céu se abriu e Jesus Cristo foi ao seu encontro, acompanhado de toda a corte celeste, para recebê-la… «O templo de Deus se abriu no Céu, diz o Apocalipse, e foi vista a arca da aliança de Deus em seu próprio templo” (Ap 11, 19). Essa arca da aliança de Deus é Maria. Dela também se diz no mesmo livro, para indicar sua assunção ao céu: «Uma estupenda maravilha resplandeceu no Céu; uma mulher vestida de sol, com a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça” (Ib. 12, 1). Dela também dizia o Salmista: «A vossa rainha e esposa, ó Senhor, sentou-se à vossa direita, com um manto de ouro e resplandecente de toda espécie de pedras preciosas” (Sl 44, 9). Sim, ó Santa Virgem, o Rei celeste está cativado por vossa beleza (Ib. 11). Apresentai-vos a ele em vossa beleza resplandecente, ó Maria, subi ao céu, sentada no carro do triunfo, e reinai lá eternamente (Ib.)
Arrebatados de admiração, os coros dos anjos se aglomeram reverentes ao longo de sua passagem e dizem: «Quem é esta que avança como a aurora nascente, bela como a lua, esplêndida como o sol? — Quem é esta que vem do deserto, toda formosa e rica, abraçada ao seu amado?» (Ct. 6, 9; 8, 5).
Escreve São Pedro Damião que a glória com que é recebida a augusta rainha Maria ao sair deste mundo não conhece nem começo nem fim (Serm. de Assumpt. Virg.); dela podemos dizer com a Sabedoria: «Vossa magnificência, ó Deus, resplandece sobre o diadema que lhe cinge as têmporas» (Sb 18, 24). Mas como pode um mortal falar do triunfo e das glórias de Maria? Aqui se podem repetir as palavras de São Paulo: «Olho algum jamais viu, ouvido algum jamais ouviu, coração de homem algum jamais compreendeu o que Deus preparou para aqueles que o amam» (1Cor 2, 9). Como Maria amou sozinha a Deus mais do que todos os anjos e homens juntos, recebeu uma coroa mais rica e uma glória mais esplêndida do que aquela de que gozam todos os anjos e santos… Admiremos e calemo-nos…
Refere a Escritura que, tendo-se levantado Salomão à chegada de sua mãe, foi ao encontro dela; depois, sentando-se em seu trono e fazendo-a sentar-se também em outro trono à sua direita, disse-lhe: «Pede, ó mãe, o que desejares, pois não convém que eu te desagrade» (1Rs 2, 19-20). Eis uma pálida imagem da recepção triunfal de Maria no céu e do modo como Jesus Cristo acolheu sua mãe. É também uma imagem disso o fato de Ester; dela se conta que o rei Assuero a amou acima de todas as virgens que lhe foram apresentadas em casamento; e que ela encontrou graça e favor diante dele, que lhe cingiu o diadema e a constituiu rainha (Est 2, 17). Ao entrar no céu, ó Maria, vosso Filho vos revestiu de glória, cingiu-vos de esplendor, vestiu-vos de majestade incomparável; de modo que, com toda a razão, podeis aplicar a vós aquelas palavras do Sábio: «A riqueza e a glória são minha herança» (Pr. 8, 18).
Tendo Maria sido cheia de graça, como não estaria ela repleta de honras e de glória? Tendo possuído na terra mais virtudes, perfeições e méritos do que todas as criaturas, convém que goze no céu de uma glória muito superior à de todas as criaturas angélicas e humanas.
O Pai a acolheu e coroou como filha dileta, tendo-se ela tornado o augusto santuário do Verbo eterno… O Filho a acolheu e lhe deu poder e o título de mãe… O Espírito Santo a abraçou e a cumulou de glória como esposa… Todas as ordens angélicas a receberam, veneraram e celebraram como sua senhora e rainha. Todos vieram cercá-la para formar-lhe uma coroa, admirá-la e prestar-lhe honra. O céu e a Santíssima Trindade a declararam rainha, e rainha eternamente. Ó triunfo único de grandeza, de majestade, de glória! … Ó Maria, nossa mãe, atraí-nos a vós; obtende-nos a graça de imitar-vos na terra e de ir contemplar-vos no céu! …
O Espírito Santo põe, na pessoa da Esposa dos Cânticos, nos lábios de Maria estas palavras: «Eis que o meu amado vem dizer-me: Levanta-te, apressa-te, ó minha amada, ó minha pomba, tu que és toda bela aos meus olhos; levanta-te e vem» (Ct. 11, 10). Este amado que fala a Maria é Deus, que quer e deseja salvar o mundo por meio dela…
E, com efeito, assim que Adão peca, dá prova desse seu desejo de que Maria apareça no mundo, prometendo-a a ele como reparadora de seu pecado. Anuncia-a a Abraão, a Isaac, a Jacó e aos profetas; cumula-a de graças quando chega, envia-lhe um anjo para dizer-lhe que o Onipotente a escolheu para mãe…
Maria é, juntamente com o Salvador do mundo, o objeto da expectativa das nações durante quatro mil anos. «Senhor — dizia o Eclesiástico, aludindo a Maria —, fazei aparecer prodígios jamais vistos, transformai vossas maravilhas. Glorificai vossa mão e vosso braço direito. Destruí Satanás e reduzi à impotência vosso inimigo (por aquela que deve esmagar-lhe a cabeça). Apressai a hora e lembrai-vos do desígnio, para que o mundo proclame vossas maravilhas» (Is 36, 6-7, 9-10). «Ó céus — exclamava Isaías, contemplando Jesus e a Bem-aventurada Virgem Maria —, derramai o vosso orvalho; deixai, ó nuvens, chover o justo; abre-te, ó terra, e faze germinar o Salvador» (45, 8). A terra é estéril e ressequida; não produz senão espinhos e abrolhos; o profeta deseja uma terra nova, isto é, o seio virginal de Maria, que produzirá um fruto novo, um fruto divino…
A Sagrada Escritura está repleta de testemunhos, de votos, de clamores de esperança, de suspiros e de preces dirigidas ao Senhor para que enviasse o Messias e aquela de quem Ele devia nascer. «Ó Sabedoria que saístes da boca do Altíssimo, vinde ensinar-nos o caminho da prudência» (Eclo. 24. — Is. 40). «Ó Adonai, chefe da casa de Israel, vinde resgatar-nos com a força de vosso braço» (Ex VI).
Os anjos desejavam a vinda de Maria ao mundo, para que finalmente fossem ocupados os lugares deixados vazios no céu pelos anjos rebeldes… No limbo, as almas dos justos; na terra, as nações apressavam ansiosamente o aparecimento de Maria.
Mas não somente a Escritura nos deixou monumentos e recordações da expectativa universal de Maria, como também magníficas profecias da homenagem que o mundo lhe prestaria, homenagem de invocação, de oração e de louvores. Se coube aos judeus a bela sorte de ver satisfeitos os votos da expectativa, foi reservada a nós, cristãos, a invejável fortuna de ver a humanidade prostrada aos pés de Maria, invocando-a e louvando-a, em cumprimento da glorificação profetizada.
Aludindo à Virgem, o Salmista havia dito que as filhas de Tiro lhe ofereceriam ricos presentes e que os grandes da terra solicitariam, como graça insigne, o favor de poder contemplar-lhe o rosto (Sl 44, 12). O Senhor afirma nos Cânticos que sua pomba (Maria) é única, é perfeita; tendo-a visto, as donzelas a proclamaram venturosa; as matronas e as rainhas celebraram seus louvores (6, 8). Nas províncias que se aglomeravam ao redor do trono de José no Egito, para comprar trigo e aplacar a fome (Gn 41,57), não veem porventura os intérpretes sagrados a imagem das nações aglomeradas ao redor do altar da Virgem, invocando sua proteção e auxílio?
«Vós sois bendita pelo Senhor, ó minha filha — disse Booz a Rute —; todo o povo sabe que sois uma mulher virtuosa acima de todas as outras» (Rt 3, 10-11). Rute não era senão a figura de Maria, à qual, na verdade, melhor que a Rute, convêm, no sentido mais amplo, as palavras citadas. Como também a ela aludia o velho Tobias, quando pronunciava aquele oráculo: «Resplandecereis com luz fulgidíssima, e os povos mais distantes da terra vos venerarão. A vós acorrerão as nações das praias mais remotas, trazendo-vos presentes; em vós adorarão o Senhor e vos chamarão terra santa, porque em vós invocarão o grande nome do Senhor… E vós vos alegrareis e exultareis por causa de vossos filhos, porque todos serão benditos e reunidos aos pés de um mesmo Senhor» (Tb 13, 15-17).
A Escritura nos narra como, tendo Judite retornado a Betúlia depois da morte de Holofernes, todo o povo, dos meninos aos anciãos, correu ao seu encontro e se comprimiu jubiloso ao redor dela para festejá-la; e, louvando a Deus, chamavam-na bendita pelo Senhor acima de todas as mulheres da terra, porque Ele havia tornado, naquele dia, tão claro e ilustre o nome dela, que seus louvores jamais cessariam nos lábios de quantos haveriam de recordar o poder do Altíssimo (Jt 13, 15, 22-25). Não é isto, porventura, o que vemos cumprir-se e renovar-se todos os dias, há dezenove séculos, com o universo prostrado diante dos altares da Imaculada? Sim, ouvimos todos os dias a humanidade cristã exclamar, voltada para Maria: «Vós sois a glória de Jerusalém, a alegria de Israel, a honra de vosso povo; vós, a bendita por Deus entre todas as tendas de Jacó; porque o Senhor será glorificado em vós por todas as nações que ouvirem pronunciar o vosso nome» (Jt 15, 10 ― 13, 31). Maria é louvada, exaltada, bendita e invocada onde quer que o nome de Jesus Cristo seja conhecido, louvado e invocado.
Virá o tempo, diz Maria no sublime cântico do Magnificat, em que «todas as nações me chamarão bem-aventurada» (Lc 1, 48). Chamar-lhe-ão bem-aventurada porque o Senhor escolheu nela a sua morada (Sl 131, 14). Chamar-lhe-ão bem-aventurada porque o Verbo nela se encarnou. ― Chamar-lhe-ão bem-aventurada, enfim, porque, humilhando-se, mereceu tornar-se a Mãe de Deus e a corredentora do gênero humano (Lc 1, 48).
Maria anuncia e prediz aqui a sua grandeza presente e futura; e esta sua profecia cumpriu-se de modo admirável em todos os séculos e cumprir-se-á até o fim do mundo e por toda a eternidade. Os templos, as capelas, os altares erigidos a Maria, as honras a ela prestadas, os ex-votos oferecidos a ela, as peregrinações, as orações, os cânticos etc., que em todos os lugares e em todos os tempos tiveram por objetivo invocá-la ou agradecer-lhe, são outros tantos monumentos que atestam o cumprimento das palavras da Bem-aventurada Virgem: ― Beatam me dicent omnes generationes. ― A eternidade se une ao tempo para prestar-lhe esta homenagem. Na morada da glória, os anjos e os bem-aventurados se aglomerarão eternamente ao seu redor para louvá-la, honrá-la, bendizê-la e proclamá-la bem-aventurada. ― A augusta Trindade também unirá a sua voz à da corte celeste.
Não há recanto da terra onde não se erga uma igreja ou uma capela dedicada à Nossa Senhora. As que se elevam no alto dos montes foram ali construídas para manter o raio e a tempestade longe das planícies subjacentes e para atrair sobre elas a chuva benéfica, imagem da chuva celeste da graça que desce aos corações… No fundo dos vales, recordam que Maria vem ali para abençoar os humildes e os fracos… Em meio às florestas e às sombrias solidões, servem de farol ao viajante, que avista de longe suas torres e ouve o sino de Maria dar o toque do Angelus. Os povos acorrem a esses santuários para invocar Maria e proclamá-la bem-aventurada.
Não há igreja no mundo onde não se veja um altar consagrado a Maria; por toda parte, o culto e o altar de Deus se unem ao culto e ao altar da Virgem… Aliás, a maior parte das mais suntuosas basílicas, dos mais magníficos templos que adornam as capitais dos reinos e dos Estados, é consagrada a Maria. Não é, pois, verdade que todas as nações a proclamam bem-aventurada?
À mercê de uma tempestade assustadora, já no ponto de afogar-se, o marinheiro avista, do alto das ondas revoltas, um ponto culminante: é um santuário erigido a Maria por outros navegantes que, alguns séculos antes, foram salvos de certo naufrágio, em cumprimento do voto feito à Virgem de erigir-lhe aquele modesto monumento de sua gratidão. Diante de tal visão, o marinheiro volta confiante o olhar para aquele lado; invoca Maria e escapa da morte certa. Milhares de semelhantes santuários erguem-se assim à vista dos litorais, para glorificar e agradecer àquela que a Igreja invoca sob o nome de Estrela do mar. As paredes dessas pequenas igrejas mostram-se cobertas de tabuletas, indício tanto dos votos feitos como dos socorros obtidos. Aqui está a Virgem do Carmo, ali a Nossa Senhora de Loreto; sobre aquele promontório ergue-se Nossa Senhora da Neve; sobre aquele outro eleva-se Nossa Senhora da Guarda; mais adiante alveja a cúpula de Nossa Senhora do Socorro, e assim por diante; e sob as abóbadas de todos esses edifícios ressoa a voz do povo que, devoto e agradecido, proclama bem-aventurada a Virgem, saudando-a como Estrela do mar.
Todas as idades, todas as condições, todos os séculos, todas as línguas; judeus, gentios convertidos, homens e mulheres, ricos e pobres, todos rezam, todos invocam, todos honram Maria; todos, a uma só voz, a proclamam bem-aventurada.
- «Para ela dirigem o olhar — diz São Bernardo — tanto os que habitam no céu como os que peregrinam na terra e os que passam pelo purgatório; desejando os primeiros que sejam preenchidos os lugares deixados vagos entre eles pelos anjos rebeldes; implorando os segundos a sua reconciliação com Deus; pedindo os terceiros que sejam libertados (Serm. II de Pentec.)».
«Ó santa Virgem — exclama o cardeal Hugo —, todas as gerações vos proclamam bem-aventurada, porque destes à luz para todos a vida, a graça e a glória: a vida aos mortos, a graça aos pecadores, a glória aos infelizes. Um admirável concerto de vozes vos dirige os louvores já tributados a Judite. Vós sois a glória de Jerusalém, a alegria de Israel, a honra do povo; vós agistes com fortaleza. A primeira palavra vem dos anjos, cuja ruína Maria reparou; a segunda, dos homens, cuja tristeza foi por ela transformada em alegria; a terceira, das mulheres, que por ela foram libertadas da infâmia e da desonra; a quarta, dos mortos, aos quais desatou as cadeias (In lib. Iudith)».
Eis que todas as gerações me chamarão bem-aventurada. Esta palavra Eis ― Ecce ― denota, em primeiro lugar, a admiração. Eis uma coisa nova, um fato desconhecido a todos os séculos, maravilhoso acima de toda expressão: que uma mulher seja bendita e feliz; mais ainda, mais feliz que os próprios homens e os anjos. Com efeito, até aquele dia, todas as mulheres haviam sido humilhadas por Deus na pessoa de Eva e condenadas a suportar três penas: a escravidão, a dor e o trabalho… 2° Eis ― Ecce ― significa o começo, o princípio. Eis que, a partir deste instante, sou declarada bem-aventurada e continuarei a sê-lo por todos os séculos… 3° Eis ― Ecce ― significa ainda advertência; como se dissesse: prestai atenção, ó miseráveis mortais que buscais a felicidade, e aprendei de mim onde ela se encontra: na humildade, na obediência e na graça de Deus; sabei que obtereis aquelas e esta por meu intermédio. Porque fui a primeira a saborear a felicidade, sou aquela por meio de quem Deus quer tornar felizes todos os homens. Correi, pois, ao meu seio; implorai o meu patrocínio, se quereis subtrair-vos à infelicidade e alcançar a felicidade…
«Permiti-me — exclamava o piedoso Gersão —, permiti-me, ó santa Virgem, que vos louve e vos exalte como mais que três vezes bem-aventurada. Com efeito: 1° sois bem-aventurada, segundo a palavra de Isabel, porque crestes. ― 2° Sois bem-aventurada porque sois cheia de graça, segundo a saudação angélica. ― 3° Sois bem-aventurada porque sois bendita por causa do fruto de vosso seio, que é a bênção por essência. ― 4° Sois bem-aventurada porque o Onipotente operou em vós coisas admiráveis. ― 5° Sois bem-aventurada por serdes a Mãe de Deus. ― 6° Sois bem-aventurada por terdes unido a fecundidade à virgindade… ― 7° Sois bem-aventurada porque não houve quem vos igualasse antes de vós, nem haverá quem vos iguale depois. Sim, todas as nações vos chamarão bem-aventurada (Tract. 4, not. I sup. Mar.)».
Mais uma vez: Maria predisse que seria proclamada bem-aventurada, honrada e invocada como tal por todas as nações, em todos os lugares e por todos os séculos, e essa profecia vê-se plenamente cumprida. Tudo o atesta: as igrejas, as capelas, os altares, os monumentos, as peregrinações, as congregações religiosas, as confrarias leigas instituídas em sua honra, as orações, as procissões, os cânticos dos fiéis. Somente a ela se presta o culto de hiperdulia, e o culto da Virgem vence em esplendor, em extensão e em frequência o culto prestado a todos os anjos e santos juntos; sobre a terra e sobre o mar, nos países civilizados e entre os bárbaros, por toda parte ressoa, glorioso e venerado, amado e invocado, o nome da grande Mãe de Deus, Maria.
Em todos os tempos e em todos os lugares, os cristãos e toda a Igreja celebraram e celebrarão, ó augusta Virgem, a vossa conceição imaculada, a vossa virgindade ilibada, a vossa maternidade divina, a vossa humildade, obediência, paciência, santidade e toda a vossa virtude; o vosso poder, bondade, misericórdia, as graças que obtendes para os vossos servos, os milagres que operais em seu auxílio. ― Ah! Que o vosso culto prospere, cresça e se dilate até que haja homens na terra e anjos no céu! Até que Deus seja Deus, por toda a eternidade e além! (Ex 15,18). Assim será certamente, e eu me alegro com isso, ó minha mãe! porque disso sois digna. Obtende-me que eu vos honre, vos rogue, vos ame e vos imite aqui embaixo, para que possa gozar para sempre da vossa visão e companhia no céu…
Se Maria tivesse sido uma mulher qualquer e não fosse, na realidade, a Mãe de Deus, como poderia ter anunciado que seria exaltada a tão grandeza e que tão grande, tão universal e tão constante seria a sua devoção e o seu culto? Se ela não fosse Mãe de Deus, ter-se-iam cumprido tão plenamente as suas profecias, como o atesta a voz de dezenove séculos? Teria Deus permitido que semelhante impostura reinasse em todos os tempos e sobre toda a Igreja, a ponto de cegar, seduzir e desviar todos os teólogos, todos os doutores, todos os bispos, todos os padres, todos os concílios, todos os papas, todos os santos, em uma palavra, toda a Igreja e sempre?
Ah, viva Maria! Viva o seu nome, o seu culto, o seu amor! Oh, como é doce rogá-la, honrá-la, amá-la, imitá-la! Tanta sabedoria e tanta felicidade estão reservadas aos seus servos, que quero, anseio, suspiro e protesto viver em Maria e para Maria, para que me seja dado morrer entre os seus braços maternos.
O anjo exalta Maria, dizendo-lhe: «Eu vos saúdo, ó cheia de graças, o Senhor está convosco, vós sois bendita entre todas as mulheres» (Lc 1,28); ― e Maria imediatamente refere essa honra a Deus, declarando-se a humilde serva do Senhor (Lc 1,38). Isabel glorifica Maria, chamando-a bendita entre as mulheres, porque bendito é o fruto de suas entranhas, e professando-se indigna da alta honra de acolher em sua casa a mãe de seu Senhor (Lc 1,43). Ora, que faz Maria ao ouvir tamanho elogio? Derrama-o todo em Deus, cantando: «A minha alma glorifica o Senhor» (Lc 1,46). Maria dá a Deus os louvores que lhe são tributados e os derrama em Deus, como na única e verdadeira fonte de todo bem. Vós, ó Isabel, parece dizer, exaltai a mãe do Senhor, mas a minha alma exalta e glorifica a Deus. Com estas palavras, Maria anuncia e proclama a bondade, a misericórdia, o poder e a majestade de Deus. Com aquelas outras — o meu espírito exultou em Deus, meu Salvador —, ela dá a conhecer a doçura e as delícias que hauriu em Deus no momento da conceição do Verbo. Dessa maneira, imitava os anjos, que admiram, exaltam e celebram a majestade incompreensível de Deus e, ao mesmo tempo, gozam da sua doçura. Admiram para amar e exaltar.
De um modo, Deus exalta o homem, elevando-o acima dos outros homens por meio das riquezas, das honras, das graças e dos dons especiais; mas o homem não pode, dessa maneira, exaltar a Deus, porque não tem poder de acrescentar coisa alguma à grandeza divina. Exalta-o, portanto, louvando-o, proclamando a sua bondade, majestade, poder, santidade, misericórdia, providência, ciência, glória, imensidade, eternidade, enfim, todos os atributos divinos… Deus é glorificado pelo homem quando este o honra e o serve com as suas virtudes… É glorificado quando nos conformamos a Jesus Cristo e nele nos miramos como em nosso modelo… A nossa alma glorifica o Senhor pelo uso das mãos, dos olhos, da língua, do coração, da memória, da vontade e da inteligência… Cada um pode, diz Santo Agostinho, conceber o Verbo crendo nele, dá-lo à luz anunciando-o aos outros e exaltá-lo amando-o; então pode repetir com Maria: A minha alma glorifica o Senhor (Super Magnificat).
Maria disse: «A minha alma» ― Anima mea, ― porque: 1° ela possuía inteiramente a sua alma; assim, infelizmente, não acontece conosco, em quem o demônio ou a carne, o orgulho ou a acídia etc. são senhores e tiranos. 2° Ela havia dado sem reserva toda a sua alma a seu Filho; ora, dar a própria alma, sem exceção, a Deus quer dizer sermos nós mesmos seus senhores inteiros e absolutos… 3° Ela amava ardentemente a Deus; ora, quanto mais se ama a Deus, tanto mais se possui inteiramente a própria alma…
Maria glorificou a Deus durante todo o curso de sua vida e referiu a ele todas as coisas; também em sua morte proclamou a grandeza de Deus, porque morreu de amor… «Aquele que é poderoso fez em mim grandes coisas e o seu nome é santo» (Lc 1,49). Maria refere tudo somente a Deus e nada a si mesma, os grandes feitos pelos quais Isabel a louvava; ela bendiz o nome do Senhor e diz que Deus a santificou porque a destinava a ser sua mãe… Visto que tudo recebemos de Deus — corpo e alma, vida e saúde, bens temporais e espirituais —, devemos, a exemplo de Maria, atribuir tudo a Deus, reconhecê-lo, confessá-lo e agradecer-lhe como doador de todas as coisas. Este é o verdadeiro e seguro meio de agradar-lhe e de nos tornarmos sempre mais dignos de seus dons abundantes.
Ninguém foi mais amante do recolhimento e da solidão do que Maria… Sua ocupação é o trabalho… Não conhece senão o templo e a casa, Deus e seus pais… Fala raramente, nunca se mostra em público… Evita o mundo e busca somente a Deus… Lemos que fez uma única visita; e esta foi a Santa Isabel, sua prima, para dar-lhe a conhecer o grande mistério da encarnação do Verbo… Encontramo-la uma única vez em um banquete, mas é conduzida ali pela caridade para com o próximo e pela honra de seu Filho, que queria, por meio dela, manifestar aos homens o seu poder… O anjo que vai anunciar-lhe a sua destinação de Mãe de Deus encontra-a só e recolhida em seu quartinho… Quando a encontramos fora de casa, está a caminho do templo, do Calvário ou seguindo as pegadas de seu Filho… Do Evangelho não podemos concluir que Maria tenha falado mais de quatro vezes: 1° quando o anjo lhe pediu o consentimento para a encarnação do Verbo; 2° quando se elevou a voo tão sublime nos louvores a Deus e se abaixou tão profundamente em humildade, no cântico do Magnificat; 3° quando encontrou seu Filho no templo; 4° nas bodas de Caná… Ora, quem poderia dizer tudo o que de maravilhoso e divino aconteceu no sagrado coração de Maria, em meio ao profundo silêncio e recolhimento em que viveu durante setenta e dois anos?.. Que orações fervorosas! Que atos de fé, de esperança, de caridade, de humildade, de obediência, de paciência, de prudência, de modéstia, de vigilância, de pureza, de zelo! … Que meditações, que contemplações, que êxtases! … Que íntima união com Deus! … Ah! Aprendamos de Maria a ter em apreço o silêncio, o recolhimento, a solidão…
A rainha está à direita do rei, diz o Salmista, e em seu séquito se verá uma multidão de virgens; ó rei, as companheiras da esposa vos serão apresentadas. Serão conduzidas com alegria e festa e introduzidas nos aposentos reais. Ó Maria, esposa e virgem imaculada, em lugar de vossos maiores nasceram-vos filhos; vós os constituireis príncipes sobre toda a terra. Eles eternizarão a memória do vosso nome através das gerações, e os povos vos glorificarão e louvarão por todos os séculos e pela eternidade (Sl 44,9.14.17). Por esses filhos, aos quais é prometido o império do mundo, o profeta entende principalmente os virgens de ambos os sexos, que ocupam o primeiro lugar na hierarquia dos santos e que, pela sua voluntária renúncia aos deleites e às alegrias passageiras do século, são colocados acima de todas as coisas terrenas.
A Maria convêm também aquelas palavras de Tobias: «Vós vos alegrareis em vossos filhos, porque serão todos benditos e reunidos em torno do Senhor» (Tb 13,17). Com efeito, quem não vê nesses filhos abençoados por Deus, aos quais fazem coroa, os virgens e as virgens recolhidos à sombra do templo cristão, cantando os louvores de Deus e da Virgem no silêncio dos claustros e dos mosteiros, reunidos em torno do santo tabernáculo que encerra o rei dos virgens?
São Jerônimo ilustra a dignidade desses filhos prediletos de Maria quando diz: A morte veio por meio de Eva, a vida por meio de Maria; Maria deu à luz uma família inteiramente nova, formou uma família de corações virgens, para que seu Filho, adorado no céu pelos anjos, tivesse também na terra, nos virgens, anjos que o adorassem (Ad Eustoch. de Cust. Virg.).
Antes de Maria, a virgindade voluntária e perpétua era virtude inteiramente desconhecida… Esta incomparável Virgem produziu, com seu exemplo, milhões de virgens de todos os estados, idades e condições, que floresceram e florescem onde quer que lance raízes a árvore do culto católico e que levam na terra a vida dos anjos no céu… Mas que digo? Elas superam em mérito os espíritos celestes; pois permanecer virgem em um corpo corrompido é elevar a virtude ao grau mais heroico… Dupla coroa, da virgindade e do martírio, cingirá as virgens; se é verdadeira a sentença dos Padres, que chamam a conservação da virgindade um longo martírio, digno de receber o prêmio destinado ao martírio de sangue… «As virgens, diz o Apocalipse, seguem o Cordeiro (e sua austera mãe) por onde quer que vá, porque são sem mácula diante do trono divino” (Ap 14, 4, 5). Que triunfo, que glória, que alegria, que coroa não são para Maria, no céu e na terra, esta inumerável multidão de virgens! …
Maria pode ser chamada, em certo sentido, o centro do céu e da terra, de Deus e daquele homem… Nela e por ela, Deus, suprema grandeza e fim de todas as criaturas, uniu-se à terra e à nossa humanidade, quando Maria deu um corpo ao Verbo eterno e o revestiu de sua carne. Nisso resplandece uma obra admirável da sabedoria de Deus, que soube relacionar com tanta fineza a divindade com a humanidade, que a dignidade infinita de Deus pôde unir-se à humanidade, sem que a divindade diminuísse em nada a sua glória e majestade.
A divindade unida à humanidade em Maria e por Maria é também o centro para o qual convergem todas as perfeições das criaturas, todas as prerrogativas e qualidades dos anjos e dos homens, bem como as orações destes últimos, suas provações e tentações, para que o Verbo encarnado os sustente, os eleve, os cuide e os cure.
«Eu vos saúdo, ó cheia de graça, disse o anjo a Maria; o Senhor está convosco” (Lc 1, 28). Nestas palavras é manifestada a causa, a origem e a amplitude daquele mar de graças que é Maria. «Maria é cheia de graça, escreve São Boaventura; por isso, um oceano de graças. Assim como todos os rios desembocam no mar, também todas as graças que tiveram os anjos, os patriarcas, os profetas, os mártires, os apóstolos, os confessores e as virgens, todas convergiram em Maria (Specul, c. II)». «A graça de Maria, diz o Crisólogo, deu glória ao céu, um Deus à terra, a fé às nações, a morte aos vícios, ordem à vida e regra aos costumes (Serm. CXLIII)».
«Verdadeiramente cheia de graça é Maria, escreve São Jerônimo. Nas outras criaturas, a graça cai gota a gota; em Maria foi derramada sem medida, pois nela desceu, embora de modo diferente, toda a plenitude da graça que se encontra em Jesus Cristo (De Assumpt.)». É sentença dos teólogos que Maria tenha recebido, no próprio momento de sua imaculada conceição, uma graça mais excelente que a dos mais sublimes entre os anjos… São Gregório não hesita em afirmar que a primeira graça de Maria supera todas as graças recebidas por todos os santos juntos; pois todas as graças dos santos lhes foram concedidas para que se tornassem santos, ao passo que a primeira graça concedida a Maria teve por finalidade obter a encarnação do Santo dos Santos, Jesus Cristo (Serm. de Nativ. B. Virg.).
A graça da Virgem crescia a cada instante; ora, tendo ela vivido setenta e dois anos, podemos calcular por isso o tesouro de graças que acumulou… Maria, sozinha, é mais querida e presta maior glória a Jesus Cristo do que todos os anjos e santos juntos. Devemos, portanto, dizer com São Cirilo: «Sede louvada, ó santa Mãe de Deus, porque sois a joia do universo, uma lâmpada inextinguível, a coroa da virgindade, o cetro da fé ortodoxa (Homil. Cont. Nestor.)». E com o Crisóstomo: «Eu vos saúdo, ó Maria, mãe, céu, trono de Deus, honra, ornamento e força da Igreja (Serm. de Deip.)». Santo Efrém saúda Maria como a única esperança dos patriarcas, a glória dos profetas, a voz dos apóstolos, a honra dos mártires, a alegria dos santos; a luz de Abraão, de Isaac e de Jacó, a glória de Aarão, o esplendor de Moisés, o velo de Gedeão; como aquela que encerra em si as santas hierarquias e é, por sua beleza e seu incomparável esplendor, a coroa das virgens (Serm. de Laud. Virg.). «Ave, ó Maria, cheia de graça, exclama São Bernardo; sois querida por Deus, pelos anjos e pelos homens; pelos homens, por vossa fecundidade; pelos anjos, por vossa virgindade; por Deus, por vossa humildade (Serm. III inter parvos)».
«O Altíssimo santificou o seu tabernáculo», canta o Salmista (Sl 45, 4). Este tabernáculo é Maria… Deus encarnou-se nela… Da substância dela, que se tornou Mãe de Deus, foi formado o corpo de Jesus Cristo: não são estes títulos suficientes para atrair necessariamente sobre Maria a plenitude de todas as graças e fazer dela um oceano sem fundo e sem margens? … Em Jesus Cristo habita corporalmente, como diz o Apóstolo, a plenitude da divindade (Cl 2, 9). Mas o corpo de Jesus pertence a Maria; nela, portanto, podemos dizer que se encontra, de certo modo, a plenitude da divindade. Digamos, pois, com São Boaventura, que, assim como o oceano recolhe todas as águas dos rios, também Maria reúne em si todas as graças (De Laud. Virg. c. VII).
Os rios vão para o mar e nele misturam suas ondas; Maria, rio de graças, une-se ao mar divino e, por assim dizer, nele se perde. Quem é esta, perguntam os anjos, arrebatados de admiração à vista da imensidade das graças que enriquecem Maria, quem é esta que vem do deserto do mundo, embriagada de delícias e abraçada ao seu amado? (Ct. 8, 5). «A virgem é o tesouro da vida, diz São João Damasceno, abismo imenso de graça (De Dormit. Virg. orat. II)». «Imensa chama também São Efrém a graça da Virgem (Orat. de Laud. Virg.)»; e confessa que, para quem tenta fixar nela os olhos, a mente não resiste e a língua balbucia (De Excell. Virgin.).
A graça, em Maria, deve ser proporcional à dignidade; ora, a dignidade de Mãe de Deus toca quase o infinito; não será, portanto, imensa e infinita a graça que lhe foi dada? «Ah! a medida da graça que Maria recebeu, exclama aqui São Lourenço Justiniano, foi certamente grande, plena, transbordante (De B. Virg.)»; e assim devia ser para ela, diz São Cipriano, por ser Mãe de Deus (Serm. de Nativ. Christi). E, falando São Sofrônio da imensa glória e da sublime altura a que Maria foi elevada no céu, observa que não há motivo para admirar-se disso, se se considerar como ela já tivera, no exílio, uma graça completa e superabundante; pois, se aos outros santos foi concedida com medida, sobre Maria foi derramada a mãos cheias (Serm. de Assumpt.).
A este respeito, diz São Bernardo: «A graça de Maria foi imensa, porque o Evangelho nos diz que ela estava cheia dela. Um vaso imenso não pode estar cheio, a menos que seja imenso aquilo que o enche; mas, sendo imensíssimo o vaso de Maria, pois foi capaz de conter aquele que é maior que o céu, imensa também teve de ser a sua graça. Ó Virgem quase infinita, sim, tu és mais extensa que os céus, porque deste em ti acolhida àquele para conter o qual os céus são estreitos; és mais ampla que o mundo, porque encerraste em tuas entranhas aquele que o mundo inteiro não basta para conter. Mas, se tão grande foi o seio de Maria, que dizer de sua alma! Se sua capacidade não teve medida, devemos dizer que também era desmedida a graça de que foi repleta (Specul. c. V). Todos os rios das graças e dos carismas dos santos, diz o mesmo doutor, desembocam em Maria. Nela desemboca o rio da graça dos anjos; nela, o rio da graça dos apóstolos (Ib. c. III)», e assim percorre toda a hierarquia dos santos.
Todos os santos Padres afirmam concordemente que a Bem-aventurada Virgem, quanto à graça e à glória, está imensamente acima de todos os anjos, de todos os santos, dos querubins e dos serafins; que, enfim, nenhuma criatura lhe é igual, e somente o Criador está acima dela… «Vós sois superior a todos, exceto Deus (Orat. de Laud. Virg.)», diz-lhe, em nome da Igreja, Santo Efrém. E Alberto Magno, fazendo um jogo de palavras com o nome de mar, deixou escrito: «Deus chamou mar à reunião de todas as águas; chamou Maria à reunião de todas as graças (Homil. sup. Missus est)».
Também São Boaventura deriva o nome de Maria de mar, por causa da abundância das graças depositadas e, por assim dizer, reunidas nela por Deus. Maria é a raiz de Jessé, sobre cuja flor pousava o espírito de Deus: espírito de sabedoria, de inteligência, de conselho, de fortaleza, de ciência, de piedade e de temor de Deus. Ela pode, portanto, apropriar-se destas palavras do Sábio: «Sou célebre como o cedro do Líbano, como a palmeira de Cades, como as rosas de Jericó. Cresci como uma oliveira vigorosa em meio a uma campina fértil, como um plátano frondoso plantado junto às águas. Espalhei o perfume do cinamomo e do bálsamo, exalei o aroma da mirra; meu perfume é como o bálsamo sem mistura. Estendi meus ramos como um terebinto, e meus ramos produzem honra e graça; como a videira, lancei flores de aroma delicadíssimo, e minhas flores produzem frutos de glória e riqueza. Sou a mãe do belo amor; em mim há toda a graça para conhecer o caminho da verdade; vinde a mim, todos vós que estais enamorados de mim, e saciai-vos de meus frutos… Os que se alimentam de mim têm sempre fome; os que bebem de mim têm sempre sede. Quem me escuta jamais terá de envergonhar-se, e os que agem por meu intermédio não pecarão. Os que me tornam conhecida terão a vida eterna. Eis o livro da vida, a aliança do Altíssimo e o conhecimento da verdade» (Eclo. 24, 17-32).
Jesus Cristo é o sol do mundo espiritual. Maria é a sua lua… Assim como é suave o raio da lua, assim a luz que vem de Maria, por sua mansidão e suavidade, é a mais conveniente e adequada às pupilas enfermas. A lua resplandece na noite; Maria ilumina as trevas com que a heresia, a idolatria e o pecado cobrem o mundo. Quando a lua chega à sua plenitude, então brilha em todo o seu esplendor; Maria, cheia de graça e de virtudes, derrama uma luz verdadeiramente fulgurante e celeste… Nossos pais tinham a lua não somente como emblema de pureza, mas também como princípio de fecundidade: Maria, concebida sem culpa, deu à luz o Verbo de Deus sem macular o seu candor virginal.
Ela pode ser chamada, com a Sabedoria, de «uma emanação, um reflexo do esplendor do Deus onipotente; candor da luz eterna, espelho puríssimo da majestade de Deus. Com efeito, ela é mais bela que o sol e que toda constelação; comparada com a luz, ela a supera” (Sb 7,25-26,29). Dela ainda profetizava Tobias quando disse: «Aparecerás revestida de luz resplandecente” (Tb 13,13).
Um grande prodígio apareceu no céu, diz o Apocalipse; foi vista uma mulher vestida de sol, a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça (12, 1). «Com toda razão, comenta aqui São Bernardo, Maria nos é representada vestida de sol; pois, imersa na luz inacessível de Deus, ela penetrou, mais profundamente do que o homem pode imaginar, o infinito abismo da sabedoria divina (Serm. sup. Signum magn.)». E em outro lugar o mesmo doutor chama Maria de «nobre estrela de Jacó, cujo raio ilumina o mundo inteiro, resplandece nos céus, penetra nos infernos; circunda a terra e aquece as almas; vivifica as virtudes, reduz os vícios a cinzas (Homil. II sup. Missus est)». São Cirilo chama a Mãe de Deus de «Lâmpada inextinguível» (De B. Virg.). São João Damasceno chama-a de «porta da vida, fonte de luz» (Orat. de Nativ. Virg.). Eu vos saúdo, ó Virgem santa, exclama Santo Epifânio, mãe da luz eterna, daquela luz que no céu ilumina a multidão dos anjos, enche o olho incompreensível dos serafins, dá ao sol o seu esplêndido fogo, afugenta as trevas do mundo e lhe inspira a fé na Trindade; eu vos saúdo, ó mãe daquele que disse: Eu sou a luz do mundo; e ainda: Eu, que sou a luz, vim ao mundo; eu vos saúdo, mãe da luz que subiu ao céu e que ilumina o céu e a terra. Maria possui as sete luzes do Espírito Santo, que são os seus sete dons (Serm. de laud. Virg.). E Crisipo: Eu vos saúdo, fonte da luz que ilumina todos os homens; eu vos saúdo, aurora daquele sol que jamais conhecerá ocaso (Orat. in Deipar.).
Maria, diz Santo Ildefonso, é um vocábulo hebraico que significa Estrela do mar. Maria é a estrela da qual partiu o raio que ilumina o mundo inteiro. Aproximai-vos, pois, desta Virgem, louvai-a e sereis iluminados; porque somos devedores a ela de que a verdadeira luz resplandeça sobre o mar deste século (Serm. I de Assumpt.). Por isso, nas ladainhas lauretanas, a Igreja dá à Senhora Imaculada o título de Estrela da Manhã. Título que já lhe fora aplicado por Santo Efrém, que assim a saudava: «Ave, estrela da manhã, astro esplendidíssimo do qual saiu Cristo» (Serm. de laud. Virg.).
Comentando aquelas palavras do Cântico, «bela como o sol» (6, 9), São Pedro Damião diz: «Tão luminoso é o sol que eclipsa, a ponto de não deixar perceber vestígio algum, a luz dos astros e da lua; semelhantemente Maria, aurora do verdadeiro sol de justiça. Deus resplandece com esta luz inacessível e obscurece o esplendor dos espíritos celestes; de tal modo que estes, diante de sua rainha, são como se não existissem, e o seu fulgor se cala inteiramente em comparação com o de Maria» (Serm. de Assumpt.). Maria é um sol resplandecente de méritos, que fulgura por toda parte com os raios de sublimes exemplos… «Maria, continua o mesmo santo, é obra escolhida e singular como o sol, porque, assim como este sozinho ilumina o mundo inteiro, assim Maria sozinha ilumina, com luz muito mais viva, os anjos e os homens (Serm. de Assump.)». São Fulgêncio observa que «ao dar à luz o Verbo divino, Maria se tornou como a janela do céu, pela qual Deus derramou sobre todos os séculos a verdadeira luz (Serm. De laud. Virg.)».
Segundo o sentimento unânime dos Padres, aquela mulher que o Apocalisse diz ter aparecido no céu como meteoro insólito, vestida de sol, apoiada sobre a lua e coroada de estrelas (Ap. 11,1), representa a Bem-aventurada Virgem, em cujo diadema cintilam, segundo São Bernardo, como outras tantas estrelas, doze prerrogativas: 1° um singular esplendor de sua concepção imaculada…; 2° a saudação que lhe foi feita pelo anjo…; 3° a descida do Espírito Santo sobre ela…; 4° a concepção inefável do Verbo…; 5° ter sido a primícia das virgens…; 6° ter-se tornado fecunda, permanecendo virgem…; 7° não ter experimentado os trabalhos da gravidez…; 8° ter dado à luz sem dor…; 9° ser modelo de pudor…; 10° exemplar de humildade…; 11° exemplo de fé magnânima…; 12° forma dos mártires de coração (Serm. sup. Signum magnum).
«Glorioso privilégio da glória de Maria, escreve São Boaventura, é ser a mais elevada em glória, depois de Deus. Glorioso privilégio da glória de Maria é que tudo quanto há de mais belo, de mais doce, de mais jubiloso na glória, depois de Deus, é Maria, está em Maria, é por Maria. Gloriosíssimo privilégio da glória de Maria é que a nossa maior glória, a nossa maior alegria, nos vêm, depois de Deus, de Maria (Specul. c. VII)». Eis por que São Bernardo exclama: «Depois da visão de Deus, o sumo da glória está em ver-vos, Maria» ― Summa gloria est, o Maria, post Dominum, te videre (Serm. in Cantic.).
Também na eleição divina, a mãe não foi separada do filho, diz Suárez (De B. Virg.). Ela foi predestinada: 1° a ser a primeira e a mais perfeita das obras de Deus; 2° a ser a forma de santidade segundo a qual Deus moldaria os anjos, os apóstolos, os mártires, as virgens, os confessores e, em geral, todos os santos; tendo Deus predestinado Maria, predestinou por ela e depois dela todos os santos…; 3° a gozar do privilégio de ser a mais elevada em graça, em glória, em santidade e em poder, destinada, desde o princípio dos séculos, a ser a senhora e rainha de todas as criaturas; 4° a tornar-se a primícia das obras divinas. Nos frutos escolhidos que outrora eram oferecidos ao Senhor, consideravam-se oferecidos e santificados a ele todos os frutos; assim, a terra oferece a Deus a Virgem Maria como primícia da natureza humana, para que, por meio desta Virgem bendita, todos os homens e a natureza inteira sejam, de certo modo, oferecidos a Deus, purificados e santificados.
«Muitas mulheres acumularam tesouros, mas vós superastes a todas» (Pr. 31, 29). Maria, com efeito, supera todas as criaturas tanto quanto a luz do sol supera toda outra luz. Ao aparecer o sol, todos os demais astros emudecem, por assim dizer, para prestar-lhe homenagem; o seu esplendor eclipsa todo outro fulgor. Assim é Maria… «Ela realizou, diz o Nazianzeno, todas as suas ações, e cada uma delas, de modo tão perfeito, que uma só bastaria para santificar todos os homens (Serm. de Nativ.)».
«A Santíssima Virgem, escreve São Bernardo, que concebeu, deu à luz e amamentou o Salvador do mundo, esteve continuamente ao seu lado; acompanhou-o em todos os seus passos; melhor que qualquer outro, recolheu suas palavras e seus feitos. Somente ela compreendia as obras insignes do Salvador, as estupendas maravilhas de sua pregação, suas palavras fortes e suaves, sua severidade divina contra o mundo corrompido e orgulhoso, contra o pecado e contra o príncipe do inferno; somente ela foi testemunha assídua de todos esses fatos; viu-os em seu verdadeiro aspecto; estudou-lhes mais atentamente o sentido, compreendeu-o melhor e o gravou mais profundamente na memória; ela imprimiu no espírito dos apóstolos e dos discípulos aquilo que tinha ouvido e visto; comunicou-lhes fielmente e transfundiu no íntimo de seus corações tudo quanto sabia do Verbo. É precisamente isso que o Evangelho quer significar quando diz que Maria guardava e confrontava em seu coração tudo quanto ouvia e via (Lc 2,19). Eis por que Salomão, aludindo a ela, diz que superou, em acumular tesouros, todas as outras que se dedicaram a isso (Prov. 31,29). A Mãe do Filho de Deus teve, mais que qualquer outro, a inteligência das parábolas, dos enigmas, das cerimônias legais, das ações milagrosas e das palavras do Redentor; ela as acolheu com fé mais firme, e lhes deu uma explicação mais exata e inteligível» (Serm. in Cant.).
«Deus, diz São Boaventura, havia preparado para Maria não somente os mais excelentes dons do céu, mas também lhos havia concedido em toda a extensão e abundância possíveis; de modo que nenhum anjo nem homem algum, por mais santo que fosse, jamais chegou a aproximar-se da cópia superabundante de bens que se encontrava em Maria, segundo aquelas palavras: Muitas filhas enriqueceram-se, mas tu as superaste a todas. Aqueles a quem Maria ultrapassou são os santos e as inteligências celestes. E como não teria riquezas incomparáveis aquela que é a primeira e a mais perfeita das virgens, que é o modelo dos confessores, que resplandece entre os mártires como a rosa entre as flores, que é a guia dos apóstolos, o oráculo dos profetas, a filha dos patriarcas, a rainha dos anjos? Que tesouros e prerrogativas terão todos estes que tenham faltado a ela? Ah, ela não somente reuniu todas em si mesma, mas de longe as supera!» (Specul. c. II).
Somente por seu consentimento em tornar-se Mãe de Deus, Maria mereceu, segundo a opinião de São Bernardo, a extinção total do fogo da concupiscência e do pecado. Mereceu o império sobre o mundo, a plenitude de todas as graças, de todas as virtudes, de todos os deveres, de todas as bem-aventuranças, de todos os frutos do Espírito, a inteligência de todas as ciências e de todas as línguas, o dom da profecia, o conhecimento dos espíritos, a ciência das virtudes (Serm. LI).
Segundo São Boaventura, são sete os grandes privilégios concedidos por Deus à Virgem Maria (Spec. c. VI e VII): 1° São Cirilo chama-a «forma de Deus» ― forma Dei. ― 2° O mesmo doutor chama-a «pérola do universo» ― margarita orbis terrarum (Homil. Cont. Nestor.). 3° São João Damasceno intitula-a «imagem viva de Deus” (Orat. I de Nativ. Virg.). 4° São Bernardo vê nela a obra em torno da qual trabalharam todos os séculos e para a qual mantêm fixa a pupila os espíritos celestes, as almas retidas no limbo, os filhos de Adão já nascidos e aqueles que ainda hão de nascer (Serm. II de Pentec.). 5° Santo Inácio chama-a «prodígio celeste e espetáculo santíssimo» (Epl. I ad Ioann. Apost.). 6° São João Crisólogo exalta-a como «a reunião de tudo o que constitui a santidade» (Serm. CXL VI). 7° Finalmente, Hesíquio, bispo de Jerusalém, chama-a «cumprimento universal da Trindade» (Homil. II de S. Maria); porque o Espírito Santo a cobriu com sua sombra, o Pai a cumulou de seus dons, o Filho habitou em seu seio.
Visto que Maria é tão grande por suas prerrogativas e privilégios, haveremos nós de crer que ultrapassamos a medida ao honrá-la, em vez de nos empenharmos em crescer sempre mais em sua devoção? Não recorreremos a ela com maior frequência?
Os Padres da Igreja exaltam, em santa competição, as perfeições de Maria. Ouvi São Ildefonso: Como aquilo que Maria realizou é de uma perfeição inatingível e é impossível à língua humana expressar os dons que recebeu, não há mente que possa compreender ou avaliar sua recompensa e sua glória (Serm. de Assumpt.). «Ó santa, e mais santa que todos os santos, e tesouro perfeito de toda santidade», exclama Santo André de Creta (In Vita). Ela é, com efeito, segundo São Bernardo, «a violeta da humildade, o lírio da castidade, a rosa da caridade, o ornamento e a alegria do paraíso» (In Deprec. ad B. Virg.).
Deus comunicou-lhe toda a sabedoria, todas as virtudes, todas as perfeições que podia conceder-lhe, embora Deus seja onipotente! Maria, portanto, é um abismo de bondade, de humildade, de castidade, de beleza, de graça, numa palavra, de toda virtude. É um mar de milagres (Orat. I de Nativ.), segundo a expressão do Damasceno; e é incomparavelmente mais gloriosa que os serafins ― segundo a expressão do Crisóstomo (Orat. de B. Virg.).
«Ó Virgem santa, exclama São Ildefonso, há em vós tantas prerrogativas quantas são as estrelas no céu (De laud. Virg.)». «Se considerarmos atentamente Maria, diz São Jerônimo, nada encontramos nela que não resplandeça de candor, de virtude, de beleza, de glória; assim como o Senhor, infinitamente rico, se encontra nela com todos os seus tesouros, devemos dizer que ela é a mais rica e a mais esplêndida depois de Deus; e não se afasta da verdade quem afirma que ela supera, por sua natureza, pelas graças recebidas, por suas perfeições e por sua glória, quase infinitamente os anjos e os santos» (Epist.).
Maria é o espelho no qual se veem todas as perfeições. Muitas delas tiveram os santos, mas ninguém as teve todas em grau eminente. Nestes resplandecem mais umas; naqueles, outras; em Maria, todas brilham com a mesma luz vivíssima… Ela possuiu em grau supremo a força heroica dos mártires, a pureza das virgens, o zelo dos apóstolos, a paciência dos confessores, a austeridade dos anacoretas, a humildade, a pobreza e a obediência dos religiosos. Quanto o céu se eleva acima da terra, tanto as perfeições de Maria superam as perfeições de todos os anjos e de todos os santos reunidos. Assim como a cabeça, sede do sentimento e da razão, princípio do movimento dos outros membros, é superior a eles e vale, sozinha, mais que todo o restante do corpo reunido; assim Maria vence em perfeição os anjos e os santos. Ela é a cabeça deles, ela governa tudo, instrui tudo, sustenta tudo…
Jesus é a perfeição encarnada e gerada; Maria é a perfeição que concebe e que gera… Desde o instante de sua imaculada concepção, Maria foi mais perfeita que todos os santos juntos, considerados no término de sua vida repleta de virtudes e de obras santas. Tendo vivido setenta e dois anos e tendo, em cada instante de sua existência, duplicado suas perfeições, chegou a tal grau de santidade que somente Deus pode conhecer e compreender…
«Minha morada, diz ela mesma pela boca do Sábio, está na plenitude das perfeições de todos os santos» (Eclo. 24, 16). Com efeito, Maria teve: 1° a fé dos patriarcas, a inspiração dos profetas, o zelo dos apóstolos, a constância dos mártires, a sobriedade dos confessores, a castidade das virgens, a fecundidade das esposas, a pureza dos anjos, a caridade dos serafins. Maria possui todas as qualidades e todas as graças que cada santo e todos os santos juntos possuíram; e estas estão nela não como um ou mais rios, mas como um oceano… 2° Tendo Maria possuído a plenitude das virtudes de todos os santos, consequentemente deve também possuir a plenitude da glória, de modo que supera em esplendor, magnificência e riqueza a glória de todos os santos reunidos. Mas notai, diz São Boaventura (Speculo B. V.), que não somente está em Maria a plenitude da glória de todos os santos, mas todos os santos estão na plenitude de Maria. Com efeito, a plenitude das perfeições de Maria, como já observamos em outro lugar, começa no ponto em que termina a perfeição dos santos, aumenta e não para senão junto de Deus.
Maria Santíssima é comparada na Escritura ao cedro do Líbano. Ora: 1° o cedro cresce nas montanhas; Maria habita o ápice das perfeições. 2° O cedro eleva-se sempre reto a uma altura grandíssima; Maria vai diretamente da terra ao céu. 3° O cedro é robusto e vigoroso; Maria é a força e o vigor personificados. 4° O cedro é incorruptível; Maria é imaculada e sem mácula. 5° O cedro é como que imortal; Maria é imortal em tudo. 6° O cedro é perfumado; Maria enche o céu e a terra com o suave perfume de suas virtudes. 7° A madeira do cedro serve para remédio; Maria cura toda espécie de enfermidade e restitui até a vida aos mortos…
OLIVEIRA. ― Maria é comparada à oliveira, porque: 1° a oliveira é sempre verde; Maria está sempre revestida dos mais ricos e preciosos ornamentos das virtudes… 2° A oliveira é símbolo da misericórdia; ora, quem é mais misericordiosa que aquela que é chamada mãe de misericórdia? 3° A oliveira é símbolo da paz; e a paz nos vem por meio de Maria, tão abundante como as águas de um rio régio: quem possui Maria possui a paz. 4° A oliveira é emblema da vitória; por meio de Maria triunfamos sobre nossos inimigos. 5° A oliveira é figura da doçura e da alegria; Maria é a mãe amável por sua doçura, é a fonte da verdadeira alegria para nossa alma. 6° A oliveira é sinal da esperança; em Maria se apoia a esperança dos cristãos. 7° A oliveira representa a força, a sabedoria e a castidade; Maria possui todas essas virtudes em grau quase infinito e as alcança àquele que lhas pede…
A Bem-aventurada Virgem é ainda comparada ao cipreste, à palmeira, às rosas de Jericó, ao plátano, ao cinamomo e à mirra: porque o cipreste simboliza a retidão; a palmeira, a vitória; a rosa, a fragrância da virtude; o cinamomo, o perfume dos bons exemplos; a mirra, a mortificação e a penitência; o plátano oferece ao homem o frescor de sua sombra… Quem não vê como essas comparações convêm maravilhosamente a Maria? Para as criaturas, as virtudes e as perfeições da Virgem-Mãe são sem número, sem peso e sem medida; somente Deus pode enumerá-las, pesá-las e medi-las.
A arca salvou do dilúvio Noé com sua família e, nela, o gênero humano; Maria salvou o gênero humano por meio de Jesus Cristo… A arca de Noé flutuava sobre aquelas mesmas águas nas quais o mundo naufragava; Maria jamais foi tocada pelas águas lodosas da concupiscência e do pecado… Aqueles que se refugiaram na arca de Noé foram salvos da morte; aqueles que se refugiam em Maria não se afogam no dilúvio das paixões… O mundo foi repovoado pelas pessoas refugiadas na arca; o paraíso é habitado pelos fiéis servos de Maria…
«O templo de Deus foi aberto nos céus, diz São João no Apocalipse, e neste templo foi vista a arca da aliança” (Apoc.. 11, 19). A arca da aliança vista no templo de Deus é Maria… a qual tem com a arca da aliança estes traços de semelhança: 1° A arca da aliança era feita de madeira incorruptível; Maria jamais foi tocada pela corrupção do pecado… 2° A arca era toda revestida interiormente de lâminas de ouro; Maria é interiormente toda de ouro puríssimo, segundo a frase do Salmista: «Toda a glória da filha do rei vem de sua alma” (Sl 44, 13). 3° Sobre a arca estendia-se o propiciatório; Maria é o refúgio de todos e mostra-se propícia a todo aquele que a invoca… 4° Dois querubins cobriam com suas asas a arca; os coros dos anjos fazem coroa, escabelo e pavilhão para Maria… 5° Na arca conservavam-se as tábuas da lei; Maria é a lei viva… 6° Na arca estava guardada a vara florida de Aarão; e Maria gerou a flor de Jessé, o Salvador do mundo. 7° Na arca conservava-se uma porção do maná; Maria é a mãe e a guardiã do verdadeiro pão da vida, Jesus Cristo.
Também Santo Ambrósio exprime os pontos de semelhança entre a arca da aliança e a Bem-aventurada Virgem Maria. A arca, diz ele, continha as tábuas da lei; Maria acolheu em seu seio o herdeiro do Testamento. A arca levava a lei; Maria levava o Evangelho. Na arca fazia-se ouvir a voz de Deus; Maria nos deu a palavra e o Verbo de Deus. A arca resplandecia de ouro puríssimo; Maria resplandecia, interior e exteriormente, com o esplendor da virgindade. Mas o ouro que adornava a arca era extraído das entranhas da terra, ao passo que o ouro com que Maria resplandecia era todo extraído das minas do céu. Com razão, portanto, a Igreja invoca Maria sob o título de Arca da aliança: ― Faederis arca (Homil. XIII).
«Quando virdes a arca da aliança do Senhor vosso Deus, disse Josué ao povo hebreu, levantai-vos e segui-a” ― Quando videritis arcam foederis Damini Del vestri, consurgite et sequimini (Js.3, 3). À vista de Maria, é nosso dever inclinar-nos diante dela, honrá-la, testemunhar-lhe o nosso respeito e caminhar sobre seus passos. «Ao ver a arca, cantava o Salmista, o mar fugiu e o Jordão se deteve” (Sl.13,3): a presença de Maria põe os demônios em fuga e aterroriza o inferno… Ao aparecer a arca, desmoronaram-se as muralhas de Jericó; ao mostrar-se Maria, rompem-se as cadeias dos pecadores… A arca tornava vitorioso o povo de Deus; Maria nos assegura a vitória sobre todos os nossos inimigos… Oza tocou imprudentemente a arca e caiu morto; quem despreza Maria vive e morre miseravelmente… Colocada na casa de Obededom, a arca trouxe-lhe fortuna; quem acolhe Maria fica repleto de graças e favores.
O velo de Gedeão nos apresenta outro símbolo de Maria, e o orvalho que, no silêncio da noite, o banha indica a descida do Verbo nas castas entranhas da Santíssima Virgem: encarnação que, assim como o orvalho, realizou-se em segredo, em meio à calma da solidão, mediante a casta operação do céu, que produziu a fecundidade e a vida, sem diminuir a ilibada virgindade de Maria e sem causar-lhe as dores do parto. O velo de Gedeão é o seio de Maria; a humanidade de Jesus Cristo, concebida nesse seio virginal e à qual o Verbo se uniu hipostaticamente, pode ser comparada a um orvalho celeste. Esta é a razão pela qual Santo Ambrósio, Santo Efrém e outros Padres invocam a Bem-aventurada Virgem sob o título de Velo de Gedeão. «Com muita propriedade, diz Santo Ambrósio, Maria é comparada ao velo de Gedeão; porque concebeu o Senhor de tal modo que o recebeu e ficou toda impregnada dele, como de suave orvalho, sem que sua virgindade sofresse dano algum” (Homil. XV). «Considerai o pensamento de Deus, escreve São Bernardo; reconhecei o desígnio de sua sabedoria e de seu amor: antes de umedecer toda a atmosfera, começa por cobrir o velo de orvalho; antes de redimir o gênero humano, colocou em Maria todo o preço dessa redenção (In Lib. Iudic.).
«Eu disse: regarei o jardim dos meus frutos, banharei a relva dos meus prados” (Eccli. 24, 42). Este jardim é Maria… Quem o rega é Deus… A água de que se serve é a graça, que foi derramada em torrentes sobre Maria.
Escreve o abade Rupert: «Eis aqui um novo jardim, um novo paraíso, novas plantações feitas por aquele que outrora criou o paraíso terrestre. O antigo paraíso era terrestre; o novo, que é Maria, é um paraíso celeste; um só, porém, e o mesmo, é o seu jardineiro, isto é, Deus. No antigo Éden, colocou o homem que havia criado; no novo, forma a humanidade daquele que vive nele desde toda a eternidade. Do solo do paraíso terrestre, Deus fez surgir toda espécie de plantas belas à vista e de frutos deliciosíssimos ao paladar; colocou nele, no meio, a árvore da vida; abençoou aquela terra e os que nela habitavam; Maria produz em abundância os deliciosos frutos das virtudes; ela é a árvore da vida, cujo fruto é Jesus encarnado, no qual são benditas todas as gerações. Do delicioso jardim do Éden brotava uma fonte que, dividindo-se em quatro rios, o irrigava por inteiro; de Maria, segundo paraíso, brotou o rio de que fala o Salmista: Um rio de alegria inundou a cidade de Deus, verdadeiro santuário do Altíssimo (Sl.45, 4). Este rio é Jesus Cristo, que inunda de delícias Maria, verdadeira cidade de Deus, verdadeiro santuário do Altíssimo. Este rio divide-se em quatro correntes para irrigar, fecundar e vivificar, por meio de Maria, o Oriente, o Ocidente, o Norte e o Sul. Com razão, portanto, a Bem-aventurada Virgem é chamada por São Jerônimo, por São Pedro Damião e por outros doutores, e finalmente pela própria Igreja, Paraíso de delícias, que Deus encheu de todas as riquezas da graça. Maria é um jardim no qual Deus colocou as mais belas flores e os mais delicados frutos de todas as virtudes” (Lib. IV in Cantic.). Ao perder o Éden, o homem perdeu o paraíso celeste; por meio de Maria, segundo e novo Éden, retoma posse daquele que havia perdido.
Por aquele ardentíssimo amor que lhe inflamava a mente e o coração, Maria suspirava dia e noite pela redenção dos homens e pela vinda do Messias. Para apressar essa graça das graças, nunca cessava de orar, até obtê-la. «Encontrastes, ó Maria, aquilo que buscáveis, diz São Bernardo; obtivestes o que ninguém pudera obter antes de vós; encontrastes graça diante de Deus! E que graça? A paz do homem com Deus, a destruição da morte, a restauração da vida» (Homil. III sup. Missus est).
Maria afirma de si, nos Cantici, que o seu amado é todo dela, e ela é toda do seu amado (Cant. 2, 16); de fato, diz Santo Ildefonso, «o Espírito Santo une-se e conjuga-se a Maria como o fogo ao ferro, inflama-a, consome-a e transforma-a em seu amor, de tal modo que nela nada mais se vê senão as ardentes chamas do Espírito Santo, e ela nada mais sente senão o incêndio do amor divino” (Serm. I de Assumpt.). Por isso, a Igreja aplica à Virgem Maria aquelas palavras da Sabedoria: «Eu sou a mãe do belo amor” ― Ego mater pulchrae dilectionis (Eccli, 24, 24); e sob este gracioso título a invoca.
O amor de Maria para com Deus supera o dos anjos, dos querubins e dos serafins… Oceano de caridade e de amor é o seu coração… Deus jamais amou criatura alguma, nem todas as criaturas juntas, com aquele amor com que amou Maria; mas nenhuma criatura, nem todas as criaturas juntas, jamais amaram a Deus à semelhança de Maria. Sendo Maria, ao mesmo tempo, pai e mãe de Jesus, este a amou sem reserva; mas, pertencendo Jesus inteiramente a Maria, também ela teve por ele um amor sem igual… Seu Filho pertencia inteiramente a ela, e ela pertencia inteiramente a seu Filho.
Eva, enganada por sua insensatez, deixou-se arrastar a perder o mundo; Maria, tornada prudente por sua sabedoria, mereceu cooperar para restaurá-lo e salvá-lo… Eva foi um espinho envenenado que feriu Adão, causou-lhe a morte e inoculou o veneno do pecado nas entranhas do gênero humano; Maria, Virgem prudentíssima e Sede da sabedoria, como a invoca a Igreja: ― Virgo prudentissima. Sedes sapientiae ― esmagando a cabeça da serpente, fez que ela vomitasse de volta o veneno e preparou o remédio para curar a ferida mortal. Eva nos traspassou, deixando-nos a lâmina no coração; Maria no-la arrancou. Eva ouviu a serpente e introduziu a morte no mundo; Maria ouviu o anjo e nos restituiu a vida. Dando ouvidos à voz da serpente, Eva abriu a entrada de seu coração ao demônio; consentindo nas palavras de Gabriel, Maria recebeu em seu seio Jesus Cristo. Eva comeu o fruto da morte e transmitiu no sangue de seus descendentes a morte; Maria alimentou-se do fruto da vida e, por meio dela, a vida voltou a circular nas veias dos homens. A insensatez de Eva arruinou tudo; a sabedoria de Maria reparou tudo.
«A malícia não consegue vencer a sabedoria», diz o Sábio (Sb 7, 30); e São Bernardo faz este comentário: A malícia da serpente venceu e prostrou Adão e Eva, que se haviam tornado insensatos; mas Jesus e Maria detiveram, com sua sabedoria, os desastrosos efeitos da insensatez de nossos progenitores e da malícia do demônio. Que dizes, Adão? A mulher que me destes por companheira ofereceu-me o fruto daquela árvore, e eu o comi. Estas são palavras de malícia, que não diminuem, mas agravam a vossa culpa. Mas felizmente Eva foi substituída por outra mulher, tanto mais sábia quanto aquela foi mais insensata; tanto mais humilde quanto aquela foi mais orgulhosa. Cheia de sabedoria, ela te oferece, em vez do fruto da morte, o fruto da vida; em vez de um alimento amargo e envenenado, oferece-te a doçura de um alimento eterno. Muda, pois, ó Adão, as palavras de tua culpável desculpa em palavras de agradecimento e dize: A mulher que me destes ofereceu-me o fruto da árvore da vida; eu o comi e o achei mais doce que o mel, porque, por meio dele, destes-me a vida… A malícia da serpente enganou Eva, a insensata… mas precisamente ali onde essa malícia pareceu vencer por algum tempo, foi vencida para a eternidade; porque a sabedoria de Maria influi sobre nossa alma e sobre nosso corpo, para que, tendo-nos tornado insensatos por causa de uma mulher, nos tornemos sábios por meio de outra mulher (Homil. III sup. Missus).
Podemos dizer da Virgem Maria que, por sua sabedoria, nos foram abertos os tesouros da graça, e que ela será a vida e a graça de nossa alma (Pr. 3, 20, 22). Aquela que devia ser a mãe da Sabedoria incriada não podia ser senão sabedoria e prudência…
Somente Deus é santo por essência… Ninguém é santo senão aquele que se aproxima de Deus e conversa com ele; a santidade aumenta à medida que o homem se aproxima e se comunica com Deus. Por isso, Maria, sendo a mais próxima e a mais intimamente unida a Deus, é também a mais santa de todas as criaturas. Nunca houve, nem pode haver, aproximação e união mais íntimas com Deus do que aquela que resulta da maternidade divina; pouco ou nada, porém, teria aproveitado a Maria essa proximidade e parentesco com Deus, se ela não tivesse levado Jesus Cristo ainda mais no coração do que no seio. Muito mais bem-aventurada se deve chamar a Virgem por ter recebido Jesus Cristo mediante a fé do que por tê-lo recebido na encarnação… Maria ouvira e compreendera aquelas palavras de Zacarias: «Caminharemos diante dele em santidade e justiça todos os dias de nossa vida» (Lc 1, 75).
Se a santidade consiste em manter-se separado do século e aborrecer o pecado, abraçar a virtude e unir-se a Jesus Cristo, onde poderemos encontrar uma pessoa que fuja do mundo, aborreça o pecado, esteja unida a Jesus Cristo e seja devotada à virtude mais do que Maria? Se a santidade consiste, segundo o ensinamento do Apóstolo, em oferecer a Deus o próprio corpo como hóstia viva, santa e agradável a ele (Rm. 12, 1), quem mais do que Maria observou tal conduta? Ela podia dizer de si ainda mais do que São Paulo: «Meu viver é Cristo» (Fl 1, 21). «Eu vivo, mas já não sou eu que vivo: é Jesus que vive em mim» (Gl. 2, 20). Maria foi santa nos olhos, nos ouvidos, na língua, nas mãos e nos pés; santa nos pensamentos, nos desejos, no coração, no espírito e em toda a alma; santa em seu trato, em seu porte e em todas as suas ações. «Caminhou com Deus» (Gn 5, 22), mais perfeitamente do que Henoc. Vivendo corporalmente na terra, sua alma já habitava continuamente no céu. Ninguém jamais cumpriu mais exatamente do que ela o preceito do Senhor: «Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo» (Lv. 19, 2).
Ao cumprimento do anjo, que a proclamava cheia de graça e bendita entre as mulheres, que lhe anunciava estar o Senhor nela e que ela se tornaria mãe de Deus, Maria, longe de ensoberbecer-se com uma honra tão elevada, com um título tão sublime e com um favor tão extraordinário, declarou-se a humildíssima serva do Senhor: ― Ecce ancilla Domini (Lc 1, 38). Rainha do céu e da terra, destinada a ter domínio sobre Jesus Cristo, ela se chama serva do Senhor. ― Saudada pelo mensageiro celeste como a futura mãe de um Deus, ela não quer ser senão sua serva. «Com toda a razão, observa aqui São Bernardo, tornou-se senhora e rainha de todos aquela que se considerava serva de todos (Serm. in Apoc.)». Àquele que se alegra com ela por sua elevada destinação, responde: «Porque o Senhor se dignou voltar o olhar para a pequenez de sua serva, por isso todas as gerações me chamarão bem-aventurada» (Lc 1, 48). «Com razão, observa Santo Agostinho, Maria afirma que o Senhor considerou e amou sua humildade; porque a salvação que a humanidade havia perdido pelo orgulho dos primeiros pais, reencontrou-a pela humildade de Maria (Serm. XXXVI)».
Deus se compraz na humildade de Maria e a cumula de graças… Movidas por certo orgulho, todas as mulheres judias desejavam ser mães do Messias; somente Maria, embora desejasse mais ardentemente do que qualquer outra o nascimento do Redentor prometido, jamais acariciou em seu coração, tão humilde era, o pensamento de ser ela a feliz mãe; mas precisamente sua humildade atraiu ao seu seio virginal o Verbo de Deus. A mais humilde das criaturas tornou-se, por sua humildade, a maior e mais excelente: cumprindo-se em toda a sua plenitude a frase do Salmista: «Do alto de seu trono, o Senhor contempla os humildes e não olha para os soberbos senão de longe» (Sl 137, 7).
«Ó verdadeira humildade, exclama Santo Agostinho, verdadeira e preciosa humildade que deste à luz um Deus para os homens, deste a vida aos mortais, renovaste os céus, purificaste a terra, abriste o paraíso, libertaste as almas da escravidão (Serm. II de Assumpt.)». A humildade é designada por São Basílio como a mais segura salvaguarda, a raiz, o fundamento de toda virtude (Constit. monast. c. XVII). Nela vê o Crisóstomo o mais excelente dos sacrifícios (Homil. 2, in Psalm. L). Por isso São Bernardo não hesita em afirmar que a Bem-aventurada Virgem certamente agradou infinitamente a Deus por sua virgindade; mas jamais teria sido eleita Mãe de Deus se não fosse dotada de profundíssima humildade (Homil. super Missus).
«Eva, diz Santo Irineu, deixa-se induzir a desobedecer e a fugir de Deus; Maria deixa-se persuadir a obedecer-lhe; por isso a virgem Maria mereceu tornar-se a advogada da virgem Eva (De Laud. virg.)». E, com efeito, ao anúncio do anjo que lhe manifesta o desígnio de Deus de encarnar nela o Verbo, inclina obediente a cabeça e responde com toda humildade: Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38). A desobediência de Eva havia arruinado o mundo; a obediência de Maria o repara e restaura.
O anjo ordena a Maria que empreenda a longa e desastrosa viagem ao Egito e leve ao colo o menino; e ela parte sem demora… A obediência de Maria é de todos os instantes: obedece em tudo, em toda ocasião; e não somente cumpre as ordens, mas se antecipa a elas… Está escrito de Jesus que foi obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2, 8). O mesmo se pode afirmar de Maria; foi obediente até o martírio e até o martírio do coração, mais atroz que o do corpo… Mas, tendo Maria feito em tudo e sempre a vontade do céu, o céu fará eternamente a vontade dela.
Maria foi sempre virgem e, portanto, sempre puríssima… Era necessário, diz Santo Anselmo, que a Virgem Maria tivesse tal pureza que fosse a maior depois da de Deus (De Laud. Virg.). E assim foi verdadeiramente, pois sabemos que ela tremeu à vista de um anjo (Lc 1, 29). Aprendei, ó virgens cristãs, a temer e a permanecer vigilantes, para que não vos seja roubada a mais bela e delicada das virtudes…
O anjo anuncia a Maria que ela será Mãe de Deus; mas ela é tão pura e tão enamorada desta virtude angélica que, como diz São Gregório de Nissa, prefere conservar esta virtude a tornar-se Mãe de Deus, se essa maternidade não puder ser obtida sem ofensa à pureza imaculada (Orat. de Nativ. Christi). A Igreja, nas ladainhas, exalta Maria como Mãe puríssima, Mãe castíssima, Mãe inviolada e ilibada.
V. acima n. 9.
Pode-se afirmar que Maria é a imagem da bondade de Deus (Sb 7, 26) e que, à semelhança de Jesus, ela encontra suas delícias em estar no meio dos filhos dos homens (Pr. 8, 31). Com efeito, observa São Bernardo, jamais se ouviu dizer, em século algum, que tenha sido abandonado quem recorreu a Maria (Memorare, etc.). «Mas ela abriu o seio de sua misericórdia a todos, para que todos hauram de sua plenitude: o pecador, o perdão; o justo, a graça; o anjo, a alegria; a Trindade, a glória (Serm. de Assumpt.)». «Ó Virgem bem-aventurada, exclama o mesmo doutor, cale-se a respeito de vossa misericórdia aquele que, se é possível encontrá-lo no mundo, se lembre de não ter sido por vós socorrido em alguma necessidade. Quem poderá, ó Virgem santa, compreender o comprimento, a largura, a profundidade e a altura de vossa misericórdia? (Serm. IV de Assumpt.)».
«Será talvez, pergunta São Pedro Damião, a vossa exaltação, ó Maria, à dignidade de Mãe de Deus, um motivo para que vos esqueçais de nossa humanidade? Oh! não, Senhora nossa. Vós bem sabeis em meio a quais perigos nos deixastes ao subir ao céu e como vossos servos estão expostos a cair. Ah, não! Não convém a tamanha misericórdia esquecer tamanha miséria. Pois, se a vossa glória vos afasta de nós, a natureza vos aproxima; nem vos tornastes tão impassível que já não saibais compadecer-vos de nossos males (Serm. de Nativ. Virg.)».
A bondade de Maria é toda amável e graciosa; ela pode ser chamada mãe das misericórdias e rainha de toda consolação, aplicando-se a ela o título que São Paulo dá a Deus (2Cor 1, 3). Seus sentimentos de ternura e de inefável amor para com os homens são como asas com as quais voa em socorro de quem a invoca. E tão pronto é o seu socorro que Santo Anselmo não hesita em afirmar que «às vezes somos atendidos mais prontamente implorando o nome de Maria do que invocando o Nome do Senhor Jesus; pois a Jesus, como juiz, cabe também punir; ao passo que a Maria, como protetora, cabe somente compadecer-se (De Excellent. virg.)». São Bernardino diz que quem quiser pode participar da bondade de Maria (De Laud. B. Virg.); São Bernardo afirma que, por sua imensa caridade, Maria se constituiu devedora tanto dos pecadores quanto dos justos; e a todos abre suas entranhas de misericórdia (Hom. V sup. Missus).
«Cobri a terra como uma névoa, diz de si Maria, pela boca do Sábio; estabeleci meu trono em todas as regiões do globo e sentei-me no meio de todos os povos” (Eclo. 24, 6, 9).
A Bem-aventurada Virgem envolve o mundo como uma névoa, porque: 1º ela cobre com sua misericórdia e proteção o homem miserável e desnudo… 2º Assim como, com as névoas da primavera, eleva-se um vento tépido e suave que derrete as neves e prepara a terra para a vegetação, assim, ao aparecer Maria, dissolve-se o gelo acumulado pelo demônio sobre o coração do pecador; nele nasce o arrependimento, nele germinam os bons desejos, nele amadurecem os frutos das virtudes.
«Estendi meus ramos, diz ainda Maria no Eclesiástico, e meus ramos são ramos de graça” (Eclo. 24, 22). Esses ramos são os braços misericordiosos de Maria, estendidos para convidar e acolher os pecadores. Lê-se no Êxodo que o Senhor olhou, da coluna de fogo e de nuvem que precedia os hebreus no deserto, para o exército egípcio, e o pôs em fuga, derrubou os carros e sepultou tudo nas ondas (Ex 14, 24, 25, 27). Ora, quem é, para o povo cristão, a coluna de fogo e de nuvem? «Nossa coluna de nuvem, responde São Boaventura, é Maria; pois, como nuvem benfazeja, ela nos protege dos ardentes raios da justiça divina e do ardor das paixões (Specul.)».
«Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos» (1Cor 9, 22). Estas belas palavras que uma imensa caridade fazia brotar dos lábios do Apóstolo das gentes, quanto mais eficazes soam ainda nos lábios de Maria! Ela, refúgio dos pecadores, consolação dos aflitos, auxílio dos cristãos, saúde dos enfermos, como a chamam as ladainhas lauretanas, abre a todos os homens seu coração misericordioso, para que todos experimentem os efeitos de sua bondade. Por ela, o escravo vê rompidas suas cadeias; o enfermo recupera a saúde; o aflito encontra consolação; o pecador obtém a reconciliação. Jesus Cristo lhe é devedor de sua substância corporal; os anjos e os homens, o céu e a terra, todos receberam alguma coisa de Maria: onde está aquele que tenha podido subtrair-se à bondade e à caridade de Maria? Ninguém se esquiva do calor do sol, ninguém escapa ao terno amor de Maria (Sl 18, 7). Do alto da cruz, Jesus amorosamente estende os braços e estreita o mundo contra o peito; também Maria estende os braços e estreita, com misericordiosa bondade, contra o seu seio materno, todos aqueles que deliberadamente não fogem dela.
Quem é aquele que, falando desta admirável mãe, não possa aplicar-lhe aquelas expressões da Sabedoria: «Todo bem me veio juntamente com ela, e riquezas imensas recebi de suas mãos… Pois ela é para os homens uma mina inesgotável de tesouros, da qual quem se aproveitou tornou-se amigo de Deus” (VII, 11,14).
Lê-se a respeito de José que abriu os celeiros cheios de trigo, e que, de todas as regiões, o povo acorria para comprar com que se alimentar e mitigar os horrores da fome (Gn 41, 56-57). Maria se comporta como o filho de Jacó; ou melhor, infinitamente melhor do que ele; pois seus cuidados se estendem não a alguns povos e por algum tempo, mas ao mundo inteiro e a todos os tempos; ela não vende, como José, mas dá, e em abundância; não mitiga apenas a penúria, mas a elimina inteiramente e sacia todos os que se apresentam a ela famintos.
Conta-se também na Sagrada Escritura que Assuero, por consideração a Ester, sua esposa, concedeu repouso a todas as suas províncias e lhes fez liberalidades verdadeiramente régias (Est. 2,18). Bela, mas pálida imagem do que Deus faz aos homens por respeito a Maria; não há desejo que ele não satisfaça, nem pedido que não atenda, se lhe é apresentado em nome da Virgem Maria… Que fortuna inestimável não é esta para os homens, tão pobres, tão fracos, tão frágeis, terem em Maria um apoio tão firme e um tesouro tão grande! …
Servindo-nos, pois, das palavras de Isaías e aplicando-as à Santa Virgem, diremos: «Vinde, vós todos que tendes sede, vinde à fonte das águas vivas; apressai-vos, vós que não tendes dinheiro, comprai e comei; vinde, não há necessidade nem de moeda nem de qualquer outra coisa; procurai vinho e leite” (Is 55,1). Quereis Jesus Cristo? Onde encontrá-lo com mais segurança do que nos braços de sua mãe? Desejais a graça? A Igreja vos diz que Maria é a mãe da graça divina; é o canal pelo qual vêm de Deus até nós todas as graças.
Acaspirais à salvação, ao céu? Tendes em Maria e por Maria a garantia e a segurança.
Qual será a grandeza daquela de quem São Boaventura diz que nem mesmo Deus poderia criar coisa maior? Poderia Deus, escreve esse doutor, fazer um mundo mais amplo; poderia formar um céu mais vasto; mas não poderia fazer uma mãe maior que a Mãe de Deus (Specul.). Maria é tão grande que contém em si aquele que nem o céu nem o mundo podem conter. «Ela é maior que o céu, diz São Boaventura, maior que o mundo. Mas, se tão amplo é o seu seio, que encerra um Deus, qual não será a grandeza de sua alma? (Specul.)». «Ó Virgem bendita acima de todas as mulheres, exclama Santo Anselmo, vós superais os anjos em pureza e os santos em piedade (De Laud. B. Virg.)».
«Vossa magnificência, ó Senhor, supera os céus» (Sl 8,2), disse o Salmista; e São Bernardino de Sena aplica essas palavras a Maria, dizendo que ela é essa magnificência de Deus. ― Com efeito, na grandeza de Maria e até em sua devoção, em seus agradecimentos, enfim, no uso que fez de todos os bens divinos, Deus foi mais honrado do que jamais o foi por todas as criaturas do céu e da terra reunidas; por isso se diz que Maria foi elevada acima do céu, isto é, acima de todos os coros angélicos (De B. Virg.).
Não é de admirar que Maria, em seu sublime cântico, exclame: Aquele que é onipotente fez em mim grandes coisas (Lc 1,49), porque a grandeza de Maria supera todas as grandezas criadas, assim como o ouro vale mais que o ferro, o céu dista da terra e a luz do sol vence toda outra luz. Em comparação com a grandeza de Maria, todas as demais grandezas criadas diminuem e desaparecem, como a luz dos astros e os próprios astros ao nascer do sol. «Ó Maria, exclama Santo Agostinho, se vos chamo céu, vós sois mais alta; se vos chamo mãe dos povos, digo muito pouco (Serm. XXV de Sanct.)». Com efeito, como se pode indicar convenientemente a grandeza daquela a quem estava sujeito o Homem-Deus? (Lc 2,51). Digamos também com São Bernardo que esta é uma grandeza sem igual (Serm. I sup. Missus). Maria recebeu todas as qualidades, graças, virtudes e perfeições que adornaram todos os santos juntos; ela as reuniu em si como o oceano reúne em si todas as águas que banham a terra. Não somente recebeu toda a grandeza, mas também toda a glória de quantos são bem-aventurados no céu. «Minha morada, pode dizer, está na plenitude dos santos» (Eccli. 24,16). São Boaventura, explicando estas palavras, diz que a Bem-Aventurada Virgem não somente habita na plenitude dos santos, mas contém os santos em sua plenitude, para que a deles não diminua; possui todas as virtudes, para que não se afastem dos outros; contém todos os méritos, para que não se percam; detém os demônios, para que não causem dano; retém seu Filho, para que poupe os pecadores (Spec. B. V. c. VIII). São Bernardino de Sena diz que Maria assentou os fundamentos de sua santidade e grandeza no cume da grandeza dos anjos e dos bem-aventurados (Serm. 11, art. 3, c. 1).
Os grandes homens da antiga Lei, como Enoque, Noé, Abraão, Isaac, José, Moisés, Aarão, Josué, Samuel, Davi, Salomão, Gedeão, Sansão, Elias, Isaías, Jeremias, Daniel etc., foram figuras da grandeza de Jesus Cristo. Todas as mulheres célebres do Antigo Testamento, como Sara, Débora, Jael, Susana, Judite, Ester etc., foram símbolos da grandeza de Maria. De Judite, por exemplo, diz-se que era famosíssima em toda parte (Jt 8,8). O próprio Holofernes predisse-lhe que ela seria grande e que seu nome seria célebre em todo o mundo (Ib. 11,21). Acorrendo ao seu redor o povo de Betúlia, aclamou-a: «Glória de Jerusalém, alegria de Israel, honra da nação» (Ib. 15,10). Oh! Como todos esses títulos convêm infinitamente melhor a Maria! Ela está acima de tudo e de todos; somente Deus lhe é superior. Basta dizer que, para fazer o mundo, Deus não empregou senão uma palavra; para fazer Maria, emprega a força de seu braço.
São Bernardo (Serm. in Cant.), para indicar o poder de Maria, diz que Deus colocou nela o sol e a lua, isto é, Cristo e a Igreja, e que por meio dela o céu se povoa de habitantes e o inferno se esvazia de condenados. (Neste sentido: obtendo ela, por sua intercessão, a conversão dos pecadores, retira-os, de certo modo, do inferno ao qual, enquanto permanecem pecadores, já pertencem, embora ainda estejam vivos.) Em outro lugar, assim se exprime: «Nada foi restaurado sem Maria, assim como nada foi feito sem Deus. Pelas mãos de Maria passou tudo o que Deus quis que tivéssemos, e é sua vontade que todo dom seu nos venha por Maria (Serm. de B. Maria)». Ela nos atende; Jesus Cristo atende a ela; o Pai atende a Jesus Cristo: eis a escada dos pecadores, eis a minha mais firme confiança, eis toda a minha esperança! exclama o mesmo Padre (Serm. de Aquaeductu).
De Maria se diz no Gênesis: Ela esmagará a cabeça da serpente (Gn 3,15); a ela diz o profeta Davi: «Tu esmagaste a cabeça do Leviatã e lançaste seu cadáver como pasto aos povos do deserto» (Sl 73,14). Maria é, por seu poder, a torre de Davi, cercada de baluartes, dos quais pendem mil escudos e toda espécie de armadura de guerra (Cant. 4,4). Por isso a Igreja a chama Turris davidica. ― Ela avança contra o demônio e o inferno como um exército formado para a batalha (Cant. 6,9). A este respeito diz São Bernardo: «Os inimigos visíveis não temem tanto um numeroso exército que se prepara para travar combate quanto os demônios temem o nome, o patrocínio e o exemplo de Maria. Onde quer que encontrem a lembrança frequente, a devota invocação e a fiel imitação da Bem-Aventurada Virgem, imediatamente se dissipam como cera ao sol (Specul. c. IX)».
Dela se pode dizer, como da Sabedoria, que «sendo uma só (porque somente ela é Mãe de Deus), pode tudo, tudo renova e se une e se identifica com as almas fiéis que estão sobre a terra; ela forma os profetas e os amigos de Deus» (Sb 7,27).
«Tu terás o primeiro lugar em minha casa, disse o Faraó a José, e todo o povo dependerá de tuas ordens. Eu te constituo senhor de toda a terra do Egito; não reservo para mim outra prerrogativa senão a de sentar-me no trono… E deu-lhe o nome de Salvador do mundo… Depois, quando sobreveio a fome, o povo se dirigiu ao Faraó pedindo pão, e este respondeu: Ide a José e fazei tudo o que ele vos disser» (Gn 41,40-41,45,55). Esta é precisamente a condição de Maria junto de Deus e dos homens; Senhora do céu, ela é poderosíssima sobre a terra; Deus lhe entregou o cetro do comando, reservando para si somente a majestade do trono. Ó mortais! Ide a Maria e fazei tudo o que ela vos inspirar, e não tereis mais de sofrer penúria, porque ela vos abrirá os tesouros do céu e da terra (Ib. 56).
«Foi extinta a raça dos poderosos em Israel, até o dia em que surgiu Débora, até o tempo em que se levantou uma mãe em Israel» (Jz. 5,7). Bela profecia e símbolo de Maria! Durante quarenta séculos, no universo reinavam a fraqueza em lugar da força, a covardia em vez da coragem, a indolência em vez do fervor. Surge Maria, a mãe de todos os homens, e a raça humana recupera energia, atividade e vigor. Os demônios estão acorrentados, o inferno está fechado, os vícios estão prostrados; a graça superabunda onde antes abundava o pecado; o céu se reabre; tudo estava perdido, e tudo está salvo! …
Quando Betsabeia, mãe de Salomão, se apresentou diante dele para falar-lhe, o rei levantou-se, foi ao seu encontro e, inclinando-se diante dela, sentou-se no trono; depois de fazê-la sentar-se também à sua direita, disse-lhe: ― Pedi o que quiserdes, ó minha mãe, porque não posso deixar-vos partir de mim com o semblante contrariado (1Rs 2,19-20). Eis a figura do poder que Maria tem sobre seu adorável Filho, o Rei dos reis. Lê-se ainda que Salomão deu à rainha de Sabá tudo o que ela lhe pediu (Ib. X,13). Muito mais liberal e generoso, porque infinitamente mais poderoso que Salomão, mostra-se Deus para com Maria ao conceder.
Ao retornar Judite a Betúlia, vinda dos acampamentos dos assírios, com a cabeça de Holofernes decepada na mão, disse ao povo que a aplaudia: ― O Senhor cumpriu, por meio de mim, sua serva, a misericórdia que prometera a Israel, matando pela minha mão o inimigo de seu povo. Eis a cabeça de Holofernes, morto pela mão de uma mulher. O Senhor não permitiu que eu fosse minimamente contaminada e me reconduziu a vós sem mancha e toda alegre por sua vitória, por minha salvação e por vossa libertação. Confessai, portanto, o Senhor, porque ele é bom, porque eterna é a sua misericórdia. ― E o povo aplaudia-a e aclamava-a, pela boca de seu chefe Ozias, como bendita pelo Senhor entre todas as mulheres da terra; e assegurava-lhe que seu nome seria célebre pelos séculos e bendito por todos os que se lembrassem das obras do poder do Senhor (Jt 13,16-25). A narrativa dos feitos prodigiosos de Judite era uma profecia da parte que Maria deveria tomar na obra da redenção. Muito mais que Judite, ela pode dizer: «O Onipotente tirou o inimigo do juízo, entregou-o nas mãos de uma mulher, e ela o matou» (Ib. 16,7). Com efeito, Maria calcou a antiga serpente e todos os dias põe em fuga as hostes dos inimigos. «Maria, diz São Pedro Damião, é a vara onipotente que detém o ímpeto de nossos adversários, os demônios; é a vara de Aarão que opera prodígios (De B. Virg.)».
Quando Assuero viu apresentar-se diante dele a rainha Ester, agradou-se dela e, estendendo-lhe o cetro de ouro, disse-lhe: ― Que queres, rainha Ester? Estou disposto a dar-te qualquer coisa, até a metade do meu reino… ― O mesmo faz o Rei do céu com Maria, senhora do universo… Maria é o seu deleite; com ela divide o reino e nada lhe pode recusar. Maria é a mais poderosa das criaturas, e Deus no-la deu para que obtenhamos por meio dela tudo o que nos é necessário. Ela dispõe de todas as graças, porque Jesus Cristo a fez sua dispensadora; e em suas mãos estão as chaves da clemência divina… Mas que favor pediu Ester? ― Se encontrei graça diante de vós, ó rei, respondeu ela, e se assim vos agrada, concedei-me a vida, pela qual vos suplico, e a vida de meu povo, pela qual vos imploro. Pois foi decretado que fôssemos desonrados, mortos e exterminados (Est 5,2-8). Também Maria procede assim: Ester obtém a salvação de Mardoqueu, condenado por Aman à forca; salva seu povo do perigo que o ameaça… Mais soberbo e mais cruel que Aman, o demônio decidiu calcar-nos aos pés, matar-nos e exterminar-nos; mas a Santíssima Virgem, com seu poder, torna vãos os seus esforços, frustra suas tramas e dispersa seus cruéis desígnios.
«Todas as criaturas, diz São Bernardino de Sena, que servem devotamente à Trindade, servem também à Virgem Maria. Com efeito, todas as criaturas, qualquer que seja o grau que ocupem na criação, sejam anjos, homens, elementos do céu, eleitos ou condenados, todas estão sujeitas ao império de Deus e, por isso, dependem do poder da Bem-aventurada Virgem (De Laud. Virg.). São Boaventura diz: «Todos os anjos e arcanjos, os tronos e as potestades vos servem fielmente, ó Maria; todas as potências e virtudes dos céus, todas as dominações vos obedecem; todos os coros dos querubins e serafins vos assistem, cortejando-vos e servindo-vos; todos os anjos cantam em disputa: Santa, santa, santa é a mãe de Deus, virgem e mãe” (Specul.).
Ninguém, disse a Santíssima Virgem a Santa Brígida, por mais inimigo de Deus que seja, se não estiver já absolutamente maldito, invocará a minha proteção sem que retorne a Deus e obtenha misericórdia (Revelat. lib. 6, c. 10). O próprio Deus revelou este poder de Maria a Santa Catarina de Sena, assegurando-lhe que a sua bondade concedeu à gloriosa mãe de seu Unigênito, em consideração à encarnação do Verbo nela, que qualquer pecador que a invoque com piedoso afeto não possa ser enganado e seduzido pelo espírito infernal; pois Ele a escolheu e colocou como doce isca para apanhar os homens e principalmente as almas dos pecadores (In Vita).
São Bernardo, explicando aquelas palavras do Apocalipse: «Um grande prodígio apareceu no céu” (12, 1), escreve que o pecador, consciente da própria indignidade, pode temer que lhe aconteça como à cera diante do fogo, que a aniquila, se ousar aproximar-se de Deus, que é fogo ardente; mas o que poderá temer se se aproximar de Maria? Nela não há nada de terrível, nada de severo: ela é toda doçura e oferece a todos o leite e a lã; tudo nela respira graça, benignidade e ternura; suas mãos derramam o perdão e a misericórdia.
Além disso, se tanto poder teve Maria na terra, sendo sempre atendida por seu Filho, o que não obterá no céu?
«O rei se enamorará da tua beleza, disse de Maria o profeta Davi; mostra-te, pois, em teu esplendor e em tua formosura, avança de triunfo em triunfo e reina” (Sl 44, 11, 4). À vista da incomparável beleza de Maria, o céu a convida a tomar o cetro que lhe preparou… Verdadeiramente inefável e única é a beleza de Maria, se atrai o olhar do Rei dos reis! … Em Maria estão todas as belezas: a do nascimento, do sangue, do corpo, do espírito, do coração e, principalmente, a da graça e da virtude… Tão esplêndida é esta beleza que levou Deus Pai a escolhê-la por filha; Deus Filho, a escolhê-la por mãe; Deus Espírito Santo, a escolhê-la por esposa.
«Eu sou negra, mas bela», dizia de si a Esposa dos Cânticos (Ct. 1, 4). Estas palavras também convêm a Maria; com efeito:
1° ela é negra, não em si mesma, mas em Adão, seu pai; é negra porque descendente de um pecador, mas é bela ao mesmo tempo por sua imaculada conceição, que a preservou da culpa original, e pela plenitude de todas as graças que Deus nela depositou…
2° Ela foi primeiro negra aos olhos de José que, vendo-a grávida e ignorando o mistério da encarnação do Verbo, pensou em abandoná-la; mas, na realidade… ela era bela, porque havia concebido do Espírito Santo e conservado a sua virgindade…
3° Ela foi negra porque a sua profunda humildade a tornou exteriormente semelhante às outras mães que, dando à luz os filhos segundo as leis da natureza humana, ficavam maculadas e obrigadas a purificar-se depois de quarenta dias. Humilde e obediente, Maria foi ao templo e submeteu-se às cerimônias da purificação…
4° Ela pareceu vil, desprezível e, portanto, negra aos judeus e aos infiéis; mas aparece belíssima aos olhos dos fiéis, da Igreja, dos anjos e especialmente de Deus, que tudo vê, tudo conhece, tudo aprecia…
5° Maria foi negra no tempo da paixão, porque era mãe das dores; mas tornou-se bela na ressurreição de Jesus Cristo e belíssima no triunfo de sua Assunção.
O próprio Deus diz a Maria: «Tu és bela, ó minha dileta; sim, tu és bela, e teus olhos são olhos de pomba” (Ct. 1, 14). Maria é chamada bela duas vezes, porque o é por dentro e por fora… É duplamente bela também sob outro aspecto, a saber: 1° na terra, pela virtude e pela graça…; 2° no céu, pela glória. Como se não pudesse cessar de admirar a beleza de Maria, o Senhor lhe repete novamente: «Ó quanto és bela, minha dileta, quanto és bela!” (Ib. 4, 1). «Tu és toda bela, e não há nenhuma mancha em ti” (Ib. 7). «Tu és bela e exalas suavidade e graça” (Id. 6, 3).
À beleza natural de Judite, Deus acrescentou tal esplendor, que ela apareceu aos olhos de todos como um prodígio de formosura e graça; quando os anciãos e o povo de Betúlia a viram, ficaram maravilhados; depois, nos acampamentos dos assírios, foi tão grande o espanto entre os soldados ao aparecer aquela mulher, que não conseguiam tirar os olhos dela. O próprio Holofernes, mal a viu, ficou vencido e subjugado (Jt 10, 4, 7, 14, 17). Na beleza de Judite temos uma imagem da beleza de Maria… Judite era bela aos olhos dos homens; Maria, aos olhos de Deus, que ficou tão arrebatado por ela, que escolheu esta virgem sem mancha para encarnar-se nela… Judite foi o ornamento de sua nação; Maria é o ornamento do céu e da terra.
Também Ester era belíssima, elegantíssima em suas formas, amável e graciosa no trato (Est 2, 7, 15). De tal modo que conquistou o favor de Assuero, o qual a amou mais do que a todas as outras mulheres, pôs-lhe na cabeça o diadema e a fez rainha (Ib. 17). Ester é outra figura de Maria, cuja beleza agrada mais a Deus do que a de todos os anjos e de todos os santos juntos. «Bela e graciosa é em todos os seus modos», dizem os Provérbios (Pr. 3, 17).
Que criatura se pode encontrar mais doce, mais bela, mais maravilhosa do que a mãe de Deus? Ela é um mundo de beleza; arrebata em êxtase de admiração o criador e as criaturas, os homens e os anjos, os quais, ao vê-la pela primeira vez, exclamaram extasiados: «Quem é esta que avança como a aurora nascente, bela como a lua, resplandecente como o sol?” (Ct. 6, 9). Que maravilha! Deus colocou somente em Maria, diz São Bernardo, todas as belezas do universo (Serm. IV de Assumpt.). Sim, em Maria se encontra reunido e acumulado, quase até o infinito, tudo o que há de belo nos anjos e nos homens mais perfeitos. Maria é a honra do gênero humano, o ornamento da Igreja, o esplendor dos séculos. Sua beleza se reflete nos santos, nos anjos e no próprio Deus.
«Ó união admirável — exclama Hugo de São Vítor —, a beleza incriada une-se àquela que é toda beleza. Eu sou todo beleza, diz-lhe seu Deus, e também vós sois toda beleza, ó virgem admirável; eu, por natureza, e vós, por graça. Eu sou todo beleza, porque tudo o que é belo se encontra em mim; vós sois toda beleza, porque em vós não se encontra nada do que mancha. Vós sois bela de corpo e de alma. A integridade da virgindade vos torna bela de corpo; a virtude da humildade vos confere a beleza da alma. Sois, portanto, toda bela, branca de corpo mais que a neve e de alma imaculada. Nenhuma outra senão vós convinha a Deus, e ninguém senão Deus era digno de vós. Ó virgem digna daquele que é a dignidade por essência, bela diante da beleza infinita, imaculada diante daquele que não conhece corrupção, grande diante do Altíssimo e mãe de Deus, esposa do Rei eterno! (Serm. II de Assumpt.)».
«Minha pomba é única; ela é perfeita, disse o Senhor, aludindo a Maria, no Cântico dos Cânticos; as filhas de Sião a viram e a proclamaram feliz; as rainhas a aclamaram» (6, 8). E que disseram as criaturas ao aclamá-la? Exclamaram: «Quem é esta que vem do deserto toda feliz, apoiada em seu amado? (Ct. 8, 5).
Maria 1º foi predestinada desde toda a eternidade a ser a mais perfeita das criaturas…; 2º foi escolhida para ser a mãe de Deus…; 3º foi preeleita para a glória mais sublime…; 4º foi preservada da culpa original e permaneceu sem mancha em sua concepção…; 5º foi cumulada de graças…; 6º correspondeu a todas as graças…; 7º permaneceu sempre virgem…; 8º foi virgem e mãe…; 9º recebeu todos os dons e frutos do Espírito Santo, em toda a abundância de que é capaz uma criatura inferior somente a Deus…; 10º foi triunfalmente assunta ao céu, em corpo e alma…; 11º cinge a coroa de rainha do céu e da terra… Onde se podem encontrar razões e fontes de contentamento, de felicidade e de bem-aventurança mais poderosas do que estas? … Com razão, pois, compreendendo a sua felicidade, Maria predisse que «todas as gerações a chamariam bem-aventurada” (Lc 1, 48).
«A vossa esposa rainha, disse a Deus o Salmista, está sentada à vossa direita, com vestes de ouro e formosamente adornada (Sl 44, 9). Esta rainha é Maria, a qual, por sua maternidade divina, tornou-se rainha do céu e da terra, dos anjos e dos homens. Todos os cristãos a reconhecem como sua rainha, estão sujeitos a ela e se consideram seus servos; mais ainda, desejam e se julgam afortunados por sê-lo.
A dignidade de rainha é superior a toda outra dignidade e é igual à dignidade de rei. A Bem-aventurada Virgem Maria, sendo rainha do céu e da terra, por essa sua condição incomparável é de longe superior a todas as dignidades que podem ter os homens e os anjos, os quais todos são seus súditos.
Maria supera em graça, mérito e dignidade não somente cada homem e cada anjo em particular, mas todos os homens e anjos tomados em conjunto; e, se se colocassem, dizem os doutores da Igreja, sobre uma balança, de um lado, todos os méritos, todas as graças, todas as honras e toda a glória dos anjos e dos homens, e, de outro, as graças, os méritos, as dignidades e a glória de Maria, a balança penderia para o lado desta única e incomparável rainha. Por isso, Maria é mais querida por Deus, mais preciosa aos seus olhos e mais amada por ele do que todos os anjos e homens juntos; têm maior peso diante de Deus as orações de Maria do que as súplicas de todos os anjos e santos reunidos. Ela é mais digna do que eles de ser atendida, pois sua dignidade de mãe lhe assegura esse direito e, nessa qualidade, ela se aproxima de Deus como mãe do filho. Uma mãe qualquer é superior aos servos, às servas e aos próprios filhos, aos quais manda com autoridade, como senhora da casa. Assim, a Bem-aventurada Virgem foi colocada por Jesus Cristo, de quem é Mãe, à frente da Igreja, sua família; portanto, ela supera em dignidade todos os seus filhos, todos os fiéis… «Por que, pergunta Santo Irineu, o mistério da encarnação do Verbo não se cumpriu sem o consentimento de Maria? Porque Deus quis que ela fosse o princípio de todo bem (De B. Virg.)».
Maria, ocupando o primeiro lugar depois de Deus no céu, sendo rainha eternamente, goza de um poder correspondente ao seu título; ela pode o que quer; portanto, tudo temos, tudo encontramos em Maria. Ela quer a nossa felicidade, a nossa salvação; conformemos a nossa vontade à dela.
«Nós precisamos, escreve São Bernardo (Serm. in illud. Apos. Signum magnum), de ter um mediador junto de nosso advogado Jesus Cristo, e não há outro mais útil que Maria». Ela foi constituída por Jesus Cristo mediadora entre Deus e o homem e, por isso, enriquecida com graças especiais não somente para si, mas também em benefício de todos os fiéis, na qualidade de sua cabeça. Podemos repetir aqui com Santo Anselmo: «Quem, refletindo sobre estas coisas, pode julgar de quanto louvor é digna aquela que, sozinha entre todas as criaturas, foi escolhida para ser a mediadora de tantos favores? (De excell. Virg. c. IX)».
Eva foi o instrumento da perdição de Adão, porque foi ela quem ofereceu ao nosso primeiro pai o fruto proibido (Gn 3, 13). Maria foi o instrumento do perdão, da redenção e da ressurreição do homem, porque dela nasceu o fruto da vida, Jesus Cristo; e ela o apresentou ao mundo. Consentindo em tornar-se mãe do Salvador, ela se tornou, na realidade, a mediadora da nossa salvação. A raça humana caiu por culpa de Eva; foi erguida pelo mérito de Maria. Sem Maria, o que teria acontecido ao mundo? Havia necessidade de um redentor; ele teria vindo sem ela? Desde toda a eternidade, Deus havia disposto salvar o mundo por meio do Verbo feito carne; mas desde toda a eternidade também havia determinado tomar Maria por mãe do Verbo encarnado e, consequentemente, servir-se dela para a nossa salvação. Maria teve tanta participação na redenção quanta Eva teve na queda… Por Maria, a serpente infernal teve a cabeça esmagada (Gn 3, 15).
«A morte nos veio de Adão, escreve o Crisóstomo, e a vida, de Jesus Cristo: a serpente seduziu Eva, Maria deu o seu consentimento ao anjo Gabriel; mas a sedução de Eva causou a morte ao mundo, ao passo que o consentimento de Maria lhe deu um salvador. Aquilo que havia perecido por culpa de Eva foi restaurado por meio de Maria; Cristo resgatou o gênero humano que Adão havia reduzido à escravidão; o anjo Gabriel veio prometer o retorno daqueles bens que o demônio nos havia roubado, sem esperança de que pudéssemos recuperá-los (Serm. de Incarn. Verb.)».
Depois do dilúvio, Deus fez aparecer no céu o arco-íris, como sinal de aliança com o homem: «Porei, disse ele, o meu arco nas nuvens, como sinal da aliança entre mim e a terra. Lembrar-me-ei da aliança concluída convosco, e não haverá mais outro dilúvio para destruir a terra” (Gn 9, 12, 13, 15). O arco-íris é figura de Maria, que Deus colocou entre o céu e a terra, como indício e penhor de sua amizade com os homens, etc. … E como poderia Deus negar alguma graça a Maria, se quis que tudo nos viesse por meio de Maria? …
São Bernardo dá à Bem-Aventurada Virgem os nomes de escada de Jacó, sarça ardente, arca da aliança, estrela da manhã, vara de Aarão, velo de Gedeão, leito nupcial, porta do céu, jardim cercado, aurora da salvação (Serm. In Assumpt.).
Maria reconciliou Deus com o homem. Em razão de sua humildade e pureza, chamou Jesus Cristo do céu à terra; com suas palavras, seus exemplos e sua proteção, abriu-nos a porta do céu e nos indicou o caminho para ele. Eis por que Jesus Cristo a elevou acima de todos os eleitos e não quer que ninguém se salve nem chegue ao céu senão com o consentimento, o auxílio e a direção de Maria. Portanto, quem quer salvar-se deve manter-se fiel e constante servo de Maria e procurar progredir sempre mais no amor e na devoção a esta poderosa Virgem.
Maria é nossa mãe: ora, os braços e o coração de uma mãe estão sempre abertos para receber, desculpar, defender, abraçar, acariciar e abençoar seus filhos… Os méritos de Maria intercedem sempre por nós junto de Deus e nos obtêm toda graça… Tendo ela sido a mãe de Deus e tendo cooperado ativamente na encarnação e, por conseguinte, na redenção, Santo Anselmo e os outros Padres a chamam de mediadora de toda a Igreja e dos fiéis…
Por meio de Maria, mãe da grande família humana e mediadora entre nós e Jesus Cristo, Deus dá aos mártires a força; às virgens, a castidade; aos apóstolos, o zelo; aos confessores, a paciência; aos anacoretas, a austeridade; aos religiosos, a pobreza, a obediência e a humildade; aos viúvos, a continência; aos esposos, a fidelidade conjugal; a todos os fiéis, os dons, as virtudes e as graças convenientes ao seu estado e condição…
Nem os anjos nem os homens poderiam, ainda que todos unidos, merecer e obter a reabilitação do mundo. Foi necessário Jesus Cristo e, depois dele e por meio dele, a Bem-Aventurada Virgem; por conseguinte, Maria, sozinha, tem diante de Deus maior poder e autoridade que todos os homens e anjos juntos. Isso fez São Anselmo dizer que o universo é devedor a Maria, por ter saído de suas ruínas, por ter-se reerguido e sido renovado. «Ó mulher — exclama São Boaventura —, que recebestes a plenitude e a superabundância da graça! Abundância que se derramou sobre toda criatura e lhe restituiu a vida! (Specul. c. VII)».
Jesus Cristo, que escolheu Maria para revestir-se de nossa natureza, quer também receber-nos por meio de Maria. Assim como ele se encarnou e se fez, segundo São Paulo, nossa sabedoria e justiça, santificação e redenção (1Cor 1, 30), assim concedeu à sua mãe que fosse, por sua cooperação, nossa sabedoria, justiça e santificação, a redenção da qual ele é o princípio… Sendo mãe de Jesus Cristo, a Bem-Aventurada Virgem é necessariamente o meio e o instrumento de nossa redenção e de toda a ordem da graça instituída por Jesus Cristo…
Deus nos deu Maria por mãe, para que, nas tentações, nas dúvidas, nos desânimos e nas dificuldades, recorramos a ela como à melhor das mães; para que recebamos de suas mãos todo bem e, por conseguinte, nela e por ela, demos continuamente graças ao Senhor nosso Deus… Feliz Virgem — exclama São Pedro Crisólogo —, feliz virgem que, sozinha no universo, mereceu ouvir estas palavras: Encontrastes graça aos olhos do Senhor! E que graça? Aquela que o anjo lhe anunciou ao saudá-la, graça plena e superabundante: ― Ave, gratia plena: ― Sim, verdadeiramente abundante, porque a derramais sobre toda a terra. Encontrastes graça diante de Deus; e, depois de assim falar, o anjo admira ele próprio que uma mulher seja dotada de tamanha grandeza e que os homens sejam devedores da vida a uma mulher (Serm. CXLI).
«Maria — diz São Bernardo — pede esta superabundância para a salvação do universo. ― O Espírito Santo virá sobre vós, ó Maria, e vos cumulará de tanta graça que ela transbordará por todos os lados; será plena e perfeita para vós, superabundante para nós. ― O Deus de toda bondade deu a plenitude e a superabundância da graça a Maria, para que nela depositássemos a nossa esperança; esta superabundância, esta inundação de graça derrama-se sobre nós» (Serm. de Aquaeductu).
Maria é uma nuvem grávida das águas incorruptíveis da graça, uma nuvem que banha, vivifica e fecunda as almas, abranda o ardor do fogo das vinganças celestes e extingue as chamas da concupiscência… Maria se assemelha à coluna que precedia Israel no deserto: ela traz Deus em seu coração e guia o povo cristão pelo deserto deste mundo… Maria é a mãe do belo amor, da ciência e da santa esperança (Eclo. 24, 24).
«Meus filhos — pregava São Bernardo aos seus religiosos —, Maria é a escada dos pecadores, é a mais firme confiança, é o fundamento de toda a minha esperança (Serm. de Aquaed.)». E em outro lugar ele a chama de comprimento, largura, altura e profundidade sem medida da misericórdia. O comprimento desta misericórdia estende-se até o último dia, para socorrer todos os que a invocam; sua largura enche o mundo; sua altura chegou até à reedificação da cidade celeste; sua profundidade estendeu-se até obter a salvação daqueles que jaziam sepultados nas trevas e nas sombras da morte (Serm. IV de Assumpt.).
Também São Fulgêncio vê em Maria a escada celeste pela qual Deus desceu à terra, para que os homens se tornassem dignos de subir por meio dela ao céu (De Laud. Mar.). Maria é o dulcíssimo anzol que pesca todas as almas retas… São Efrém, depois de havê-la chamado esperança dos desesperados, auxílio dos pecadores, consolação do mundo, porta dos céus (De Laud. B. V.), assim prossegue: Por vós, ó Maria, somos reconciliados com Jesus Cristo, nosso Deus e vosso Filho; vós sois a advogada dos pecadores e dos abandonados, vós, o refúgio e o sustento; vós, o porto seguríssimo dos náufragos, consolação do mundo, famosíssima libertadora daqueles que gemem entre ferros. Vós recolheis os órfãos, resgatais os escravos, curais os enfermos; vós sois a salvação de todos os homens, a estabilidade dos monges e dos solitários, a esperança dos seculares, a glória dos virgens, a felicidade da terra; vós sois, ó piedosa Auxiliadora, nossa piloto e nosso refúgio. Eu vos saúdo, sustento dos fracos, doce liberdade, fonte de graça e de consolação; eu vos saúdo, asilo aberto aos pecadores; eu vos saúdo, repouso daqueles que trabalham; eu vos saúdo, chave do reino celeste; eu vos saúdo, ó protetora e glória do mundo inteiro (Ut sup.).
Digamos, pois, também nós com São Bernardo: «Fazei, ó Maria, que por meio de vós encontremos acesso ao vosso Filho. Ó Virgem bendita, que encontrastes graça, que destes à luz a vida, ó mãe da salvação! Ah! por vós nos receba aquele que nos foi dado por vosso intermédio (Serm. de Assumpt.)».
Pela sublimidade de suas virtudes, Maria mereceu ser a digníssima reparadora do gênero humano. Esta é a sentença de Santo Anselmo e do Damasceno; São Boaventura acrescenta que Maria não somente levantou o mundo caído, mas, com sua proteção, o mantém para que não torne a cair (Specul.). Nem poderia ser de outro modo, se nela se encontram todas as riquezas, a glória e a justiça (Prov. 8, 18). Deus criou tudo; a serpente infectou e arruinou tudo; Maria reparou tudo por meio de Jesus Cristo.
A verdadeira vida veio ao mundo por meio de Maria, diz São Epifânio, para que, gerando ela a vida, fosse a mãe dos viventes. Eva é a mãe dos mortos; Maria é a mãe dos vivos. O demônio serviu-se de uma mulher para levar o gênero humano à ruína; e Deus serviu-se de uma mulher para restaurá-lo (Serm. de Nativ.). A mesma coisa repete Santo Agostinho em seu Sermão XXXV de Sanctis: «Vós sois bendita entre todas as mulheres, ó Maria; vós que destes à luz aquele que é a nossa vida. A mãe do gênero humano causou a morte do mundo; a mãe de nosso Senhor restituiu-lhe a vida. Eva é causa do pecado, Maria é causa do mérito; Eva fere, Maria cura; Eva mata, Maria ressuscita. A obediência de Maria reparou os danos causados pela desobediência de Eva». E novamente no Sermão XVIII: «Maria está repleta de graça e a culpa de Eva permanece apagada; de modo que a maldição desta se converte em bênção por aquela (Serm. XVIII de Sanct.)».
«A malícia da serpente, observa São Bernardo, triunfou sobre a primeira mulher, que se tornou insensata; mas a malícia da serpente, que venceu por algum tempo, viu-se vencida por toda a eternidade por Maria. Desfigurados por Eva, recuperamos pelas mãos de Maria nossa primitiva semelhança» — (Homil. 2, Sup. Missus). Uma virgem, diz São Pedro Crisólogo, recebe um Deus em seu seio e proporciona a paz aos homens, a salvação aos pecadores, a vida aos mortos; torna-se a mãe dos viventes na terra e no céu» (Serm. CXLI). «A graça de Maria, escreve também São Lourenço Justiniano, foi tão grande e superabundante que deu glória ao céu, alegria aos anjos, paz ao mundo, fé aos povos, fim aos vícios» (Serm. de Annunt.).
«Deus é nosso rei desde antes dos séculos, canta o Salmista; ele operou a nossa salvação no meio da terra», isto é, no seio de Maria (Sl 73,12). Por Maria nos tornamos bons e generosos, possuímos a alegria… Por Maria alcançamos a eternidade bem-aventurada…
«Sede louvada, ó santa Mãe de Deus, exclamemos com São Cirilo, vós sois a joia, vós, a luz do mundo; vós, a coroa da virgindade, o cetro da fé» (Homil. contro Nestor.). E com o Crisóstomo: «Eu vos saúdo, ó mãe, ó céu, ó trono de nossa Igreja; eu vos saúdo, ó ornamento, glória e sustento do mundo (Serm. de Deip.)».
Jesus, tendo visto da cruz sua mãe, que estava junto dela com o discípulo predileto, «disse-lhe: Eis aí, mulher, o teu filho; depois disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe. E, desde aquele momento, este a tomou por mãe» (Jo 19, 26-27). Enquanto estava prestes a expirar pela salvação dos homens, Jesus Cristo deu-nos Maria por mãe, sendo nós representados na pessoa de São João, apóstolo e evangelista.
Maria, nossa mãe, deu-nos Jesus, seu Filho, para nosso resgate, como remédio para nossos males, como alimento e recompensa; e com ele nos deu o reino dos céus e todo bem… Maria é a mãe de todos os crentes; por isso os Padres a chamam Mãe dos viventes, em contraposição a Eva, por eles chamada Mãe dos mortos.
Santo Antonino e Alberto Magno apresentam quatro razões pelas quais Maria é a mãe de todos os homens: a 1.ª é que ela gera espiritualmente todos os santos…; a 2.ª é que cuida de todos os homens…; a 3.ª é que nasceu antes de toda criatura e é a mais excelente de todas…; a 4.ª é que foi predestinada antes mesmo que existisse o tempo, para ser o instrumento de uma nova criação…
Comentando Orígenes as palavras do Redentor na cruz, exprime-se assim: Quando Jesus disse: — Eis aí, mulher, o teu filho —, foi como se tivesse dito, indicando João: Este é Jesus Cristo que tu deste à luz. Com efeito, o cristão perfeito já não é ele quem vive, mas é Jesus que vive nele; por isso foi dito a Maria a respeito dele: Eis aí o teu filho Jesus Cristo (Comment. in Ioann. Praefat.).
O Evangelho nos diz que Maria deu à luz seu filho primogênito (Lc 2, 7). Ora, estas palavras nos fazem compreender que, sendo Jesus Cristo o primogênito de Maria, os outros filhos por ela gerados são todos os homens. «Dando seu consentimento à encarnação, diz São Bernardo, a Bem-aventurada Virgem pediu com todo o ardor de sua alma e obteve a salvação de todos os eleitos; e, desde aquele momento, trouxe a todos em seu seio, como a mais terna das mães traz seus próprios filhos (Tom. 3, serm. 6, art. 2, c. 2)». Santo Anselmo observa que: «reparando a Bem-aventurada Virgem todas as coisas com seus méritos, é a mãe de todos (De Excell. virg c. XI)». Jesus Cristo, fazendo-se homem, fez-se nosso irmão, e São Paulo nos assegura que somos membros de Jesus Cristo (1Cor 12, 27). Maria é, pois, nossa mãe, como Deus é nosso pai! … Ó quão grande e feliz é o homem! … Ter Maria por mãe! Ó fortuna, vantagem, tesouro inestimável! … tornemo-nos dignos disso…; sejamos outros tantos Cristos…; invoquemo-la, honremo-la, imitemo-la…; digamos com a Igreja: Maria, mãe da graça, mãe da misericórdia, defende-nos contra nossos inimigos e acolhe-nos na hora de nossa morte.
Quando Jesus, do lenho da cruz, pronunciou aquelas doces palavras: «Tudo está consumado» (Jo 19,30), últimas palavras que saíram de sua boca divina, o mundo estava resgatado e salvo, a cólera celeste desarmada, o inferno fechado, os demônios prostrados, nossos grilhões quebrados; terminara a escravidão do gênero humano, apagado o anátema gravado na fronte do homem, o céu estava novamente aberto e nós havíamos readquirido o direito à herança celeste. Tudo está consumado: ― Consummatum est. ― Jesus Cristo havia feito tudo quanto exigiam a justiça do Pai, o cumprimento das profecias e a redenção do mundo. Mas — coisa digna de singular atenção e que prova quão necessária à salvação é a devoção a Maria — somente então Jesus Cristo anuncia que tudo está consumado, quando disse a Maria, indicando-lhe João, e nele toda a humanidade cristã: Eis o teu filho — e a João, apontando-lhe Maria: Eis a tua mãe (Jo 19,26-27).
O divino Redentor diz que nada mais lhe resta cumprir, depois de nos ter dado Maria por mãe; ele coloca, portanto, as relações maternas e filiais entre Maria e os homens entre as coisas necessárias à redenção e à salvação: a devoção a Maria é, pois, necessária para salvar-se.
Jesus Cristo nos deu Maria por mãe; ora, um filho deve à sua mãe amor, respeito e obediência, e nisso precisamente consiste a devoção. Amemos, pois, respeitemos, sirvamos Maria e obedeçamos-lhe, se quisermos ir para o céu.
Jesus Cristo coloca sua mãe acima de todos os eleitos e dispõe que ninguém entre no céu sem o consentimento, o auxílio e a direção dela. Portanto, quem deseja assegurar a própria salvação deve ser fervoroso servo de Maria e crescer cada dia mais na devoção para com ela.
Além disso, Maria traz o título de mediadora e reparadora do gênero humano; poderá, pois, esperar salvar-se sem a devoção à Virgem Santíssima aquele que pode dizer que não caiu, que não necessita de mediação… Todas as graças que Deus concede ao mundo passam pelas mãos de Maria; ora, a salvação é a obra suprema da graça, portanto a devoção a Maria é necessária para quem queira salvar-se…
São Germano, patriarca de Constantinopla, afirma formalmente que ninguém se salva senão por meio da beatíssima Virgem (Serm. de Zona B. Virg.). São Boaventura também afirma que «quem serve dignamente e venera Maria será salvo; quem não se importa com isso morrerá em seus pecados», e depois, voltando-se para ela, exclama: «Aquele que vós quereis salvar será salvo; aquele de quem afastais o olhar perecerá (In Psalm. Virgin.)». Eis por que São João Damasceno escreve que «o mais perfeito dos dons celestes é Maria, porque somente ela é digna de seu Criador; ela é um céu vivo, maior que os próprios céus (Orat. de Nativ. Virgin.)».
Santa Inês apareceu um dia a Santa Brígida e lhe deu a conhecer as admiráveis grandezas da Mãe de Deus, os louvores que lhe eram tributados, e acrescentou: Assim como é próprio do sol iluminar e vivificar o céu e a terra, assim é próprio da doçura de Maria obter o dom da piedade para todos aqueles que a servem (Revelat.).
Ensina São Tomás que a Santíssima Virgem é honrada com um culto especial, não prestado nem aos anjos nem aos santos, e que se chama culto de hiperdulia, isto é, culto superior a qualquer outro, exceto aquele devido a Deus. E a razão é esta, diz o santo doutor: «Maria, por sua ação e cooperação, aproximou-se mais que todos dos confins da divindade; pois, na encarnação de Jesus Cristo, ela alcançou o grau supremo a que pode chegar a força da natureza, e, onde esta foi insuficiente, a divindade interveio para realizar sozinha a substância da obra (2-2 q. 103, art. 4 ad 2)».
É ensinamento unânime dos doutores da Igreja que a Santíssima Virgem supera, em graça, virtude, perfeição, dignidade, honra, poder e glória, todos os anjos e santos. A Igreja honra os santos com o culto de dulia, isto é, com culto ordinário, mas presta à Santíssima Virgem o culto de hiperdulia, o mais próximo do culto de latria, devido somente a Deus, porque é um culto de adoração. Se reunirmos todas as honras que são devidas e prestadas a cada anjo, a cada santo e a todos juntos, essas honras jamais constituirão outro culto senão o de dulia, nem, por grandes que se tornem, chegarão jamais a receber o nome de culto de hiperdulia, culto inteiramente especial e próprio de Maria. Esse culto é de uma ordem superior ao mérito de todos os anjos e de todos os santos reunidos: ele é tão superior ao culto devido aos anjos e aos santos quanto Maria é, por sua dignidade e por seu poder, superior a todos os membros da corte celeste.
Maria se exaltará a si mesma, diz a Escritura, honrar-se-á em Deus e glorificar-se-á no meio de seu povo: abrirá a boca nas assembleias do Altíssimo e se glorificará diante das hostes do Senhor. Será elevada no meio de seu povo e admirada nas assembleias dos santos; será louvada pela multidão dos eleitos e bendita pelos benditos de Deus (Eccli. 24,1-4). A Igreja inseriu no ofício da Santíssima Virgem e aplica diretamente a Maria estas palavras que a Escritura coloca nos lábios da Sabedoria. Por meio de Maria, com efeito, realizou-se a obra suprema da divina sabedoria. Nessa obra admirabilíssima, que é a concepção e o nascimento de Maria, a geração humana do Verbo, a santificação e a glorificação dos homens, Deus manifestou uma sabedoria infinita e muito superior àquela que mostrou na criação do céu e da terra, e também na dos anjos e dos homens…
Maria é mãe, filha e esposa de Deus; ela uniu a divindade à humanidade, o céu à terra, a maternidade à virgindade, os pecadores à santidade. Todos esses títulos lhe conferem, de direito, o culto de hiperdulia.
De Maria se pode dizer, como da Sabedoria, que «resplandece, e seu brilho não sofre obscurecimento; quem a ama a vê, e quem a procura facilmente a encontra. Ela se antecipa àqueles que a procuram e manifesta-se primeiro a eles» (Sb 6,13-14). Aquele que invoca Maria, deseja-a, conhece-a, ama-a e encontra-a; e desejar, conhecer, amar e encontrar Maria é, para o cristão, o maior dos tesouros. «Pensar nela, diz ainda o Sábio, é suprema sabedoria; vigiar por seu amor traz pronta segurança» (Sb 6,16).
Quando sopra o vento das tentações, diz São Bernardo, quando os espinhos das tribulações vos dilacerarem, olhai para a estrela, invocai Maria. ― Se a cólera, a avareza e a volúpia ameaçarem submergir a vossa frágil barquinha, voltai-vos prontamente para contemplar Maria. ― Se o peso de vossos delitos vos abater, se o miserável estado de vossa consciência vos entristecer, se começardes a perturbar-vos e a perder a coragem ao pensar no tremendo juízo de Deus, pensai em Maria. Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensai em Maria, invocai Maria; que ela jamais cesse de estar em vossos lábios, jamais se aparte de vosso coração (Homil. II sup. Missus).
«Todas as vezes que suspiro e respiro, aspiro a vós, Jesus e Maria», dizia um santo. Quem procura Maria e a invoca, encontra-a prontamente e dela recebe em abundância, como de um mar, toda espécie de auxílio e de bens. Além disso, como disse o concílio de Blois, ao instituir a festa da Visitação da Santa Virgem, Maria não espera ser rogada para atender, mas, segundo o costume de sua clemência, previne as orações daqueles que pretendem recorrer a ela.
São Anselmo, para encorajar os fiéis a invocar frequente e confiadamente Maria, não hesita em afirmar que às vezes se obtém mais prontamente o auxílio desejado invocando o nome de Maria do que o de Jesus; não porque ela seja maior e mais poderosa do que ele, pois não é Jesus que recebe de Maria, mas Maria que recebe de Jesus a sua grandeza e poder, mas porque Jesus é o Senhor e o juiz de todos; ele discerne e pesa os méritos de cada um. Quando, portanto, não atende àquele que invoca o seu nome, age como juiz e procede segundo a justiça; ao contrário, quando alguém invoca o nome de Maria, ainda que não mereça ser atendido, os méritos de Maria intercedem por ele. Ela se comporta como mãe, não como juíza (De excell. Virg. 1. 1).
Maria ouve as súplicas daqueles que imploram o seu patrocínio.
No ano de 552, Narses, general do imperador Justiniano, vendo-se reduzido pelos godos a uma situação duríssima e desesperada, e não tendo auxílio humano que o socorresse, volta-se para o divino, invoca Maria de todo o coração e, em seguida, lança-se à frente de um punhado de homens armados contra as numerosíssimas hostes daqueles bárbaros; massacra-os e liberta a Itália da opressão sob a qual gemia (EVAGR. Stor. eccles. p. I).
Cosroes, rei da Pérsia, havia invadido grande parte dos territórios pertencentes ao Império Romano e ameaçava avançar ainda mais. Então o imperador Heráclio, sem desprezar as providências humanas, que tampouco havia negligenciado, depositou sua confiança em Maria, invocou-a com fé e, depois, medindo-se em batalha com o exército inimigo, derrotou-o várias vezes, até que o próprio Cosroes perdeu a vida, e a verdadeira cruz foi recuperada pelo imperador cristão no ano de 626 (PAULO DIÁCONO, Storia Longob. lib. 18, e TEÓFANES, Chronogr.).
Pelágio, rei das Astúrias, implora o socorro da Bem-aventurada Virgem e reconquista, em 1718, depois de um combate terribilíssimo, no qual passa ao fio da espada oitenta mil infiéis juntamente com o rei deles, o seu principado, que lhe fora ocupado pelos mouros (Lc TUD. MARIAN. et alior. Histor. Hisp.).
No ano de 867, Basílio I, imperador de Constantinopla, com o auxílio de Maria, derrotou os sarracenos que haviam insultado Jesus Cristo e a Santíssima Virgem, e retomou-lhes quase todas as conquistas que haviam feito.
À proteção de Maria se deve ainda a conquista de Jerusalém, realizada em 1099 pelos cruzados comandados por Godofredo de Bulhão. Com efeito, juntamente com o manejo das armas, aqueles que fossem capazes deviam unir a recitação diária do pequeno Ofício da Bem-aventurada Virgem (GUIL. TIR., Belli sac. hist. ― BARON. et alii).
No ano de 1212, Afonso VIII, rei de Castela, levando consigo um punhado de soldados e precedido pela cruz e por um estandarte no qual se destacava a imagem de Maria e de seu divino Filho, penetrou no acampamento dos mouros e massacrou cerca de duzentos mil deles, sem perder dos seus mais que vinte e cinco ou trinta homens. Contudo, os espanhóis celebram todos os anos essa insigne vitória, com uma festa que ocorre no dia 16 de julho e se chama festa do Triunfo da Cruz.
Finalmente, à intercessão e ao auxílio da Bem-aventurada Virgem os exércitos cristãos devem a assinaladíssima vitória naval que alcançaram sobre os turcos, no golfo de Lepanto, no dia 7 de outubro de 1571, durante o pontificado de Pio V, que em Roma recebeu a notícia por divina revelação no mesmo instante em que ocorria a derrota dos muçulmanos e o triunfo dos cristãos. Para agradecer a Maria por esse penhor de sua proteção e perpetuar-lhe a memória, foi instituída a festa de Nossa Senhora das Vitórias, também chamada do Rosário, porque a batalha foi travada e vencida enquanto, por ordem do Sumo Pontífice, todas as Confrarias de Roma se dedicavam à recitação da oração do Rosário.
Sendo Maria a mulher que, segundo a promessa de Deus, devia esmagar a cabeça da serpente infernal, podemos sempre estar certos de frustrar os desígnios e tornar vãos os esforços do inferno… Por meio de Maria triunfa-se em todo combate contra o mundo, a concupiscência da carne, todas as paixões e tentações. Nada lhe resiste, nem mesmo Jesus Cristo, seu divino Filho…
O culto e a devoção para com a Mãe de Deus são um sinal seguro de predestinação; assim como a indiferença, a desobediência e o desprezo por Maria são causa e sinal de reprovação. Nestório, Elvédio, Constantino Coprônimo, Juliano o Apóstata e mil outros o provaram e foram para o mundo inteiro um terrível exemplo.
Quem serve, honra e invoca Maria, invoca, honra e serve a Jesus Cristo. Quem, porém, despreza e ultraja Maria, desconhece e calca aos pés seu divino Filho. Na Igreja, Jesus é como o pai de família no meio de seus filhos, e, semelhantemente, Maria, por dom e especial vontade de Jesus Cristo, tanto na Igreja militante como na padecente e na triunfante, ocupa o lugar de mãe de família e reveste-se de sua dignidade e poder. Por isso, São Germano de Constantinopla pregava que, assim como a respiração não é somente um sinal, mas também uma causa da vida, assim a frequente invocação de Maria não somente demonstra que se vive da verdadeira vida, mas também dá essa vida e a conserva (Serm, de Zona B. Virg.).
A Bem-aventurada Virgem é a guia, a rainha, a mãe e a guardiã dos eleitos… Boa parte dos teólogos apresenta como nota característica e infalível da eleição divina e da salvação eterna a sincera devoção à Santíssima Virgem… Ninguém, disse a Virgem a Santa Brígida, por mais desregrado e inimigo de Deus que seja, se já não estiver absolutamente condenado, me invocará sem que volte para Deus e obtenha misericórdia (Revelat.). Tão boa e poderosa é Maria, que não recusa nada a seus fiéis servos; e Jesus Cristo, por sua parte, ama tanto sua divina Mãe, que atende a todas as suas orações. Além disso, a experiência cotidiana nos mostra que o verdadeiro servo de Maria aborrece o pecado e caminha fielmente pela via da virtude; ora, a salvação eterna é obtida a esse preço.
«Felizes aqueles que vos amam, ó Maria, exclamava em espírito profético Tobias, bem-aventurados aqueles que se alegram em vossa paz» (Tb 13, 18). Maria é a árvore da vida para aqueles que se apegam a ela; feliz quem se conserva abraçado a ela! Ela será a vida da alma e o ornamento do coração (Prov. 3, 18-22).
«Bem-aventurado aquele que ouve minhas palavras, diz Maria pela boca do Sábio; feliz quem passa seus dias vigiando à entrada de meus pavilhões, no limiar de minha morada! Quem me encontra encontra a vida e obterá por meu intermédio a salvação do Senhor» (Prov. 8, 34-35). São Bernardo diz que Maria é toda suavidade e oferece a todos leite e lã; depois exclama: «O ápice da felicidade e da glória consiste, depois da visão de Deus, em ver-vos, ó Maria! (Sup. Cantic.)». Santo Ambrósio, querendo dar uma ideia da doçura da beatíssima Virgem e das suaves delícias com que cumula seus servos, compara-a ao maná (De B. Virg.).
Para uma criança, não há felicidade mais desejada nem mais querida do que encontrar-se nos braços de sua terna mãe. Ora, que mãe igualará Maria em ternura? A ela aplica a Igreja aquelas palavras do Ecclesiastico: «Eu sou a mãe do belo amor e da santa esperança. Em mim está a graça da honestidade, a esperança da virtude e da vida. Vinde a mim, todos vós que me desejais, e saciai-vos de meus frutos; porque meu espírito é mais doce que o mel, e minha herança é melhor que o favo de mel. Quem se alimenta de mim terá sempre fome, e quem bebe de minhas águas terá sempre sede de mim. Quem me ouve não ficará confundido, e quem age sob meu impulso não cairá em pecado. Quem quiser dar-me a conhecer chegará à vida eterna» (Eccli. 24, 24-31).
Nenhum servo fiel de Maria jamais se perdeu; não é, portanto, uma felicidade inestimável honrar, invocar, amar e imitar Maria? Além disso, o verdadeiro filho, o devoto cliente de Maria, recebe dela mil graças, auxílios e consolações para assegurar a própria salvação; feliz, pois, e infinitamente bem-aventurado aquele que se apega a ela e a venera com fervoroso culto!
Maria é a verdadeira arca da aliança, que guardou em seu seio e depois deu ao mundo Jesus Cristo, autor do Novo Testamento. Ora, se foi tão severamente punida a impudência de Uzá, como não será punida a impudência daquele que, irreverente, investe contra a santa arca do cristianismo? Ah! Para este foi proferida aquela sentença de Tobias: «Malditos serão aqueles que vos desprezarem; condenados, os que vos escarnecerem» (Tb.13, 16).
O ímpio Nestório, que ousou negar a maternidade divina de Maria, foi atingido pela justiça de Deus; sua língua blasfema, roída pelos vermes, apodreceu-lhe na boca (Stor. eccles.). Constantino Coprônimo, por ter ultrajado as imagens de Maria, sentiu suas entranhas arderem com um calor tão intenso que não cessava de gritar que fora lançado vivo no inferno por causa de seus insultos à Mãe de Deus; vencido pelo mal, empenhou-se em fazer restabelecer o culto a Maria (Stor. eccles.). E quantos outros exemplos espantosos poderiam ser citados dos castigos divinos infligidos aos inimigos de Maria, àqueles que, com sarcasmos e zombarias, ridicularizam seu culto, suas imagens, seus templos, seus altares, sua virgindade, sua maternidade divina etc.! …
Quem quer que enfrente a mãe, enfrenta também o filho… As glórias de Maria são as glórias de Jesus, que foi, é e será sempre o severo vingador dos direitos e da honra de sua santa Mãe… «Quem me ofende, diz Maria nos Provérbios, prejudica a própria alma; e aqueles que me odeiam amam a morte» (8,36).
Vós dizeis, Santa Virgem, pela boca do Sábio, que quem se empenha em conhecer-vos e em dar-vos a conhecer terá como prêmio a vida eterna (Eccli. 24, 31). Farei, pois, tudo quanto me for possível para conhecer-vos, honrar-vos, invocar-vos, amar-vos e imitar-vos; não pouparei esforços nem estudos para pôr em evidência vossas virtudes, vossos méritos, vossas perfeições e prerrogativas, vossa misericórdia, vossa glória e as graças de que o mundo vos é devedor. Esforçar-me-ei por propagar vosso culto e por fazer-vos conhecer, honrar, amar, invocar e imitar. Oh! Se me fosse dado conduzir o mundo inteiro a vossos pés! … Quero viver e morrer em vossos braços, sobre vosso coração de Mãe… Ah! Que meus trabalhos suportados por vossa glória sirvam para reconduzir os pecadores ao vosso seio, para manter na perseverança todos aqueles que vos servem e para me obter a preciosa graça de servir-vos com fervor até o último instante de minha vida. Que a última palavra que eu pronunciar ao sair desta vida seja vosso amabilíssimo nome, ó Maria!