«Quem secretamente detrai a fama alheia é como a serpente que morde em silêncio» (Ecl. 10, 11).
Com sua imprudência ou malícia, o maledicente fere seu irmão, perturba a paz, destrói a caridade, rompe a união, escandaliza quem o ouve e dá origem a contendas, litígios, ódios, ressentimentos e desejos de vingança. A língua da serpente é tripartida e, por isso, causa três feridas ao mesmo tempo; assim também é a língua do detrator: com ela, fere a própria consciência, pecando; dilacera a reputação do próximo; ofende o ouvido e a alma de quem o escuta. Por isso, o maledicente causa uma chaga mais profunda que a serpente, porque sua mordida é mais oculta, mais nociva e mais dolorosa. A serpente não fere senão o corpo; a maledicência fere a fama, o coração e a inteligência. Enquanto morde, a serpente não fere a si mesma; o maledicente, ao contrário, fere a si mesmo e aos outros.
O maledicente pode ser comparado à víbora, porque, assim como esta injeta o veneno na ferida que abre, assim aquele dá mordeduras envenenadas; antes, pode-se dizer que morde somente para espalhar o seu veneno. Sua conduta faz vir à mente aquela frase do Salmista: «Veneno de áspide se esconde sob seus lábios» (Sl 139, 4). A mordedura da áspide torna todo o sangue negro; a maledicência enegrece a reputação do próximo.
«Grande mal é a maledicência, escreve o Crisóstomo (1), demônio turbulento que não deixa o homem em paz nem por um instante. Dela nascem os ódios, produzem-se as dissensões, inflamam-se as contendas, geram-se as suspeitas. De um amigo ela faz, sem motivo razoável, um inimigo; põe as famílias em desordem; arma cidades pacíficas; desfaz os vínculos da paz, que é tão bela; rompe o poderoso vínculo da caridade. Quem se entrega à maledicência torna-se escravo do demônio». A maledicência rompe a amizade; mata o amor fraterno; pode arruinar uma família, uma sociedade e até mesmo uma nação; é a inimiga mortal da ordem.
O homem que fala mal do próximo é comparado pelo Sábio a uma flecha, a uma espada, a um dardo (Pr. 25, 18). São Bernardo diz: «A língua maledicente não é porventura uma víbora? Sim, certamente, e cruelíssima, porque envenena com um só sopro três pessoas (a que fala mal, aquela de quem se fala mal e a que escuta). Tal língua não é porventura uma lança? Sim, e quão aguda! pois fere de um só golpe três pessoas. Sua língua é espada afiada, diz o profeta. E espada de dois gumes, ou melhor, de três, e muito mais funesta do que a lança com que foi traspassado o lado de Jesus crucificado. Coisa levíssima é uma palavra, porque voa rapidissimamente, mas às vezes fere gravissimamente; passa como um relâmpago, mas queima e rasga como um raio; penetra facilmente na alma, mas dela sai com enorme dificuldade» (2). O maledicente é, pelo mesmo santo, comparado a um leproso, a um pestilento que comunica seu mal a quem dele se aproxima. A morte do homem, enquanto ser corporal, começa pela língua e pouco a pouco se estende ao coração; a morte do homem, enquanto ser moral, também muitas vezes começa pela língua, isto é, pelas palavras, e passo a passo infecciona a vontade e o coração. O maledicente e aquele que de bom grado lhe dá ouvidos levam ambos o demônio no peito (3).
«Falar mal do próximo, escreve Cícero, é mais contrário à natureza do que a morte, a dor ou qualquer desgraça que possa acontecer ao corpo ou à fortuna; porque a maledicência elimina a concórdia e torna impossível a vida social (4)». «Quem maltrata um amigo ausente, diz Horácio, quem pode fingir e inventar aquilo que não viu e não consegue guardar dentro de si o que lhe foi confiado, esse é um mau cidadão, de quem tu, ó romano, deves manter-te afastado (5)».
O maledicente revela os segredos dos outros, mas também trairá os vossos e abusará da vossa confiança. «Com a murmuração, diz o Crisóstomo, devorais o vosso irmão, causais profundas mordeduras ao próximo. São Paulo escrevia estas terríveis palavras: «Se vos mordeis e devorais uns aos outros, cuidai para que não vos destruais reciprocamente (Gl. 5, 12). Vós não mordestes, é verdade, com os dentes as carnes de vosso irmão, mas perfurastes sua alma, espalhastes sobre ele funestas suspeitas e atraístes sobre vós e sobre muitos outros males inumeráveis (6)». São Bernardo diz: «Todo maledicente revela a si mesmo, mostrando que seu coração está vazio de caridade. E a que outra coisa visa ele ao detratar, senão a tornar desprezado ou odioso aquele de quem fala mal, diante daqueles que toma por confidentes de suas murmurações? (7)».
Mas ouvi como o próprio Senhor fala do maledicente no Eclesiástico: «O murmurador mancha a própria alma e será odiado por todos» (21, 31). Se soprares sobre um carvão, ele se acenderá e se tornará brasa; mas, se cuspirdes sobre ele, apagar-se-á; ora, uma e outra coisa são obra da boca. A língua de três pontas arruinou muitas pessoas e fez com que andassem errantes entre os povos. Derrubou cidades florescentes e fortes castelos; muitas vezes arruinou a casa dos grandes. Destruiu as virtudes de nações inteiras; prostrou povos belicosíssimos. A língua de três gumes fez expulsar de casa mulheres de caráter viril e privou-as do fruto de seus trabalhos. Quem lhe dá ouvidos não gozará de paz e não terá um amigo em quem possa repousar. O golpe de um açoite produz uma equimose, mas um golpe da língua quebra os ossos. Muitos caíram sob o corte da espada, mas seu número é muito inferior ao daqueles que pereceram pelo corte da própria língua. Feliz aquele que está a salvo da língua pérfida, que nunca teve de experimentar sua cólera nem carregar seu jugo, que não foi apertado por seus grilhões; porque esse jugo é um jugo de ferro, esses grilhões são grilhões de cobre. A morte que ela causa é morte terrível, e é preferível desejar o sepulcro a experimentá-la (Eclo. 28, 14-25).
A Escritura compara a língua murmuradora a uma espada, a um açoite, a uma língua de serpente e de víbora, ao fogo, ao leão, ao leopardo, à morte e ao inferno, para indicar quão perigosa ela é, quantas devastações causa e como é necessário dela guardar-se, temê-la e detestá-la; diz que as correntes são de cobre e o jugo, de ferro, para que entendamos que ela é coisa cruel, insuportável, dura, inquebrantável e mortal.
«Os maledicentes, diz Jeremias, estenderam a língua como um arco para lançar mentiras; tornaram-se temíveis sobre a terra, porque vão de mal a pior e não quiseram conhecer o Senhor. Cada um se acautele contra seu próximo e não confie em seu irmão, porque encontrará aqueles que o suplantarão… Sua língua é uma flecha que fere: falam para enganar; têm na boca palavras de paz para com os amigos, enquanto com a mão estendem às escondidas o laço (Jr 9, 3-4, 8). Esses traços do profeta nos dizem: 1° Que a língua nos foi dada para Deus, isto é, para que seja um arco posto a serviço da verdade e da bênção; e o murmurador emprega-a para a mentira e a maldição… 2° Os detratores são temíveis, porque arrastam consigo a multidão que os segue e aplaude, seja por temor, seja por fraqueza, seja por respeito humano… 3° Vão de mal a pior, de uma maledicência a outra, de uma murmuração a uma calúnia etc… 4° Já não conhecem o Senhor, já não se preocupam com ele… 5° Estudam como prejudicar aqueles que deles se aproximam… 6° Em vossa presença fingem ser vossos amigos e vos louvam; na vossa ausência voltam-se contra vós e vos dilaceram… 7° Atacam as pessoas de índole mansa, de caráter doce e puro; zombam delas, escarnecem-nas e maltratam-nas… 8° Informam-se de tudo, espionam tudo; em tudo põem a mão e a boca, de tudo querem sentenciar, para expor ao desprezo, censurar, insultar, difamar, vingar-se, despedaçar e destruir… 9° São mestres diplomados em fingimentos, artimanhas, abusos, hipocrisias, mentiras e injustiças, e não recuam diante de vício algum para enredar sua vítima, golpeá-la e exterminá-la.
A língua maledicente nunca encontra nada de bom. Sois pobre? Ela vos torna vil, abjeto, desprezível… Sois rico? Acusa-vos de avareza, cupidez e ambição… Mostrais-vos afável, educado e prestativo? Ela vos lança a suspeita de hipócrita, libertino e traidor… Tendes inteligência? Sois um orgulhoso, um vaidoso… Permaneceis em silêncio? Sois um embrutecido, um inútil… Falais? Ela vos dá o título de tagarela, enfadonho e maçante… Jejuais? Mortificais-vos? Chama-vos de beato, papa-hóstias… Comeis e bebeis? Batiza-vos com os nomes de glutão, folgazão, beberrão etc.… A Sagrada Escritura dá à língua do detrator o nome de dente, e com razão; porque tal língua rompe e despedaça a reputação do próximo, assim como os dentes quebram e trituram o pão.
«Eis que, diz o Salmista, os pecadores retesaram o arco e prepararam as flechas para ferir na escuridão os retos de coração» (Sl 10, 2). «Tua língua, ó murmurador, foi fecunda em malícia, e tua língua tramava enganos» (Sl 49, 19). Os maledicentes alegram-se com os efeitos produzidos por sua língua infame. A eles se pode aplicar de modo especial aquela sentença dos Provérbios: «Gloriam-se do mal que fazem, exultam de alegria em meio às maiores perversidades» (Pr. 2, 14). O desejo dos maledicentes é mortificar, ferir, prejudicar… Não há pessoa mais má e mais cruel que o detrator; sem hipérbole, poderia ser chamado de antropófago vivo no meio das nações civilizadas…
Segundo a opinião de homens prudentes e sábios, são muitos os que se condenam por causa do pecado da maledicência e da calúnia. Tanto mais grave e perigosa é a murmuração quanto mais comum é considerá-la pouco importante, julgá-la uma ninharia, obscurecê-la dando-lhe aparência de zelo. «Lançando a tocha da discórdia e da desordem no meio de uma sociedade de irmãos, os maledicentes imitam Judas e traem Jesus Cristo», diz o Venerável Beda (8). São Bernardo diz: «Se no dia do juízo deveremos prestar contas de toda palavra ociosa e inútil, quanto mais rigorosamente nos será pedida conta de toda palavra mordaz, injuriosa e mentirosa! (9)».
Todos os que murmuram pecam contra a caridade, que é a rainha das virtudes; ora, sem a caridade, todo o restante é nada… «Pensem e vejam os maledicentes, diz São Gregório, em quantos pecados se enredam com suas maledicências: esfriam e muitas vezes extinguem por completo o amor do próximo na alma daqueles que os escutam; são amigos e servos do demônio, assaltantes e adversários de Deus» (Homil. in Evang.). Além disso, a maledicência é um mal quase irremediável…
A gravidade da murmuração se manifesta: 1° pela qualidade daquele que difama; 2° pela condição daquele de quem se fala; 3° pelo mal que dele se diz…; 4° pelo número dos ouvintes…; 5° pelos efeitos e pelas consequências da maledicência…; 6° pela intenção e pelo motivo que levam a murmurar.
«Onde está aquele que jamais tenha pecado com a língua?», pergunta o Sábio (Eclo. 19, 17); e chama feliz aquele que jamais se viu exposto às setas de uma língua maledicente, que jamais teve de enfrentar sua vingança, que jamais suportou o seu jugo, que jamais foi atado pelas suas cadeias (Id. c.28).
A murmuração é um vício tão divulgado e comum que se encontra por toda parte… Ninguém escapa às feridas das línguas maledicentes, e poucas são as línguas que, mais ou menos, não se manchem com esse lodo. «Nós imitamos os ratos, diz Plauto: roemos quase sempre e diariamente nos alimentamos de coisas que não nos pertencem» (Ita LAERT.). Também São Jerônimo lamenta, escrevendo a Celância, que poucas pessoas saibam abster-se da murmuração, e constata que esta paixão, que leva o homem a soltar a língua em prejuízo do próximo, é universal. Chega-se a remediar todos os outros defeitos; mas muito raramente este.
De cem maneiras se pode murmurar: 1° descobrindo o mal; 2° exagerando-o…; 3° disfarçando e incriminando as ações do próximo…; 4° negando suas boas intenções…; 5° diminuindo os elogios que outros lhe dirigem…; 6° espalhando a dúvida…; 7° calando-se quando se deveria falar…; 8° louvando-o sem entusiasmo…; 9° observando um silêncio malicioso…; 10° por meio de cartas, escritos, livretos, canções e semelhantes…
Tendo Davi se tornado réu de um duplo delito, isto é, de adultério e de homicídio, o Senhor enviou-lhe o profeta Natã, que lhe disse: Dois homens, um rico e outro pobre, habitavam o mesmo país. O rico tinha ovelhas e bois em abundância, enquanto o pobre não possuía outra coisa senão uma pequena ovelha, que ele comprara e criara consigo, junto com seus filhos, alimentando-a com o próprio pão e fazendo-a repousar sobre o seu próprio peito. Aconteceu que um estrangeiro chegou à casa do rico, e este, para dar-lhe de comer, roubou do pobre a sua ovelhinha e com ela preparou a ceia para o seu hóspede… Indignado com tamanha iniquidade, Davi jurou a Natã que aquele homem, filho do pecado, por ter roubado a ovelha do pobrezinho, lhe restituiria quatro vezes mais. E então Natã disse a Davi: «Tu, ó rei, és esse homem» (2Sm 12, 7). Ó Davi! Tu condenas o rico de quem te falou o profeta; pois bem, este é o teu retrato: ― Tu es me viro ― A mesma resposta se pode dar ao maledicente. Vós encontrais, poder-se-ia justamente censurar-vos, defeitos em todas as pessoas; ninguém, aos vossos olhos, é perfeito. Ora, sois vós mais do que os outros? Reservai para vós as censuras e os conselhos de que fazeis alarde para com os outros; voltai contra vós, que bem os mereceis, os raios que arremessais contra os outros. Vós dizeis: fulano não tem religião; mas vede que falais de vós mesmos: ― Tu es me vir; ― porque o apóstolo São Tiago nos assegura que quem não refreia a língua tem uma religião que não é verdadeira (Tg. 1, 26). Acusais o próximo de orgulho; mas vós mesmos vos mostrais orgulhosos: ― Tu es me vir; ― pois, se fôsseis humildes, não proferiríeis sentenças sobre os outros… Tício é imprudente, dizeis, e não percebeis que acusais a vós mesmos, mostrando quão grande é a vossa imprudência ao atacá-lo: Tu es ille viro ― Caio é injusto, andais dizendo, mas onde está a vossa justiça ao censurá-lo? Quem vos constituiu juiz? ― Tu es ille viro ― Aquele se entrega à intemperança, dizeis; mas haverá porventura coisa mais intemperante, ou intemperança mais odiosa, do que a da língua maledicente? ― Tu es ille viro ― Acusais ora este, ora aquele, de falta de caridade; mas ninguém demonstra tão pouca caridade quanto o murmurador. Vós pintais o vosso próprio retrato.
Notai que o maledicente ataca todas as virtudes e não possui nenhuma: ataca a religião, a humildade, a prudência, a justiça, a temperança e a caridade de seus irmãos; e isto é uma prova palpável de que nele não há nem religião, nem justiça, nem humildade, nem prudência, nem reserva, nem caridade… A língua que açoita os outros começa por açoitar sem piedade a si mesma. Vós fazeis o retrato de todos aqueles que conheceis, mas pintais somente o seu lado vicioso ou defeituoso, e muito é se deixais entrever, ao longe e em cores esmaecidas, alguma virtude! Não pensais que esse falso retrato reproduz a vossa fisionomia; a vossa língua rivalizou com o mais hábil pincel; vós sois precisamente aquele: ― Tu es ille vir.
«Quem se aplica a conhecer a si mesmo louva os outros», dizia o abade João (10). Atacando a honra e a reputação do próximo, acusando-o e difamando-o, acusamos, condenamos e cobrimos de opróbrio a nós mesmos; com efeito, haverá coisa mais odiosa do que a maledicência? Haverá ação que tanto nos desonre quanto sermos conhecidos como difamadores? Vós atacais os outros, mas estais sem mancha? Por que não vos lembrais do desafio de Jesus aos judeus maliciosos e invejosos que lhe haviam conduzido a mulher adúltera, que queriam apedrejar (Jo 8, 7)? «Por que, dizia-lhes outra vez o Salvador, por que vedes o cisco no olho de vosso irmão e não percebeis a trave que está no vosso? Com que semblante podeis dizer a vosso irmão: deixa que eu tire esse cisco do teu olho, enquanto não vedes a trave que suja o vosso? Hipócrita! Começa por tirar a trave do teu olho; depois limparás o do teu próximo» (Lc 6, 42).
O cúmulo da injustiça está, pois, em que o mais mordaz murmurador, que pretende e se arroga o direito de maltratar, denegrir e dilacerar o próximo, se empina e grita se outro se permite feri-lo com uma ironia. Ele, o perfeito, o inviolável! Ó cegueira!
«O murmurador é maldito», lemos no Eclesiástico (26, 15), e o autor dos Provérbios nos adverte de que Deus odeia e abomina aqueles que semeiam a discórdia entre os irmãos (6,19). Ora, como não há pessoa que semeie discórdias, brigas e contendas entre os indivíduos e as famílias mais do que o murmurador, segue-se que ninguém é mais abominado por Deus do que ele; e, se Deus ama acima de tudo a caridade, não deve odiar nada mais do que a maledicência, sua inimiga e principal destruidora.
Tomar parte na detração é tornar-se participante da culpa daquele que a pratica. «O maledicente e aquele que lhe dá ouvido levam ambos Satanás no coração», diz São Bernardo (11). Mais ainda: é dever do bom cristão impedir, quanto possível, toda murmuração. Davi afirma de si mesmo que castigava aquele que falasse mal secretamente de seu próximo (Sl C. 5). Possidônio nos narra, na Vida de Santo Agostinho, c. 22, que este grande bispo mandara escrever na parede da sala de jantar este dístico:
Quisquis amat dictis absentum rodere vitam.
Hanc mensam indignam noverit esse sibi»
(“Ninguém aqui ouse murmurar de quem está ausente; antes, quem pensasse em deixar-se levar por isso, procure levantar-se da mesa!”)
O primeiro meio para impedir a maledicência consiste em fugir dos maledicentes. «Mantende longe de vós a boca maledicente, dizem os Provérbios, e fugi dos lábios murmuradores» (IV, 24). «Não façais aliança com os detratores, porque repentinamente virá a sua perdição» (Pr. 24, 21-22). «Fazei aos vossos ouvidos uma sebe de espinhos, diz o Eclesiástico, não deis ouvidos à língua mordaz e fechai com porta e ferrolho a vossa boca» (Eclo 28, 28). Não frequenteis os tagarelas nem os maledicentes, dizia Sócrates (Anton. in Meliss.).
O segundo meio para deter e evitar a maledicência consiste em usar grande prudência ao conversar. Ouvi o aviso do Sábio: «Funde o teu ouro e a tua prata e forma com eles uma balança para pesar as tuas palavras, um freio com que controles a tua boca. E cuida para não pecar com a língua» (Eclo. 28, 29-30). «Se ouviste alguma conversa contra o teu próximo, que ela se extinga em ti, e fica certo de que isso não te fará morrer» (Id. 19, 10). Daí a advertência de Santo Ambrósio: «Não macules a tua boca com o relato das culpas alheias; não fales mal de quem peca, mas compadece-te dele (12)».
O terceiro meio é falar com doçura àquele que fala mal dos outros. «Uma resposta branda acalma a ira», lemos nos Provérbios (15, 1). São João Crisóstomo conclui daí que está em nosso poder tornar bons os maliciosos, contanto que, imitando Davi, nos apresentemos humildes, doces, mansos e caritativos nos atos e nas palavras (Homil.).
O quarto meio é mostrar semblante triste e severo diante do maledicente. «Pois, se mostrais boa face ao murmurador, diz o Venerável Beda, vós o encorajais a continuar; se, ao contrário, o recebeis friamente e lhe mostrais semblante severo, vós o afastareis de dizer de bom grado aquilo que ele sabe não ser ouvido de bom grado (13)».
Muitos outros meios podem ser úteis para impedir ou evitar a murmuração: 1° opor-se abertamente ao maledicente, repreendendo-o com vigor e sem respeito humano; 2° mostrar que não se dá atenção ao que ele diz…; 3° mudar a conversa para outro assunto…; 4° puni-lo, se isso depender de nós…; 5° fazê-lo conhecer a sua falta…; 6° uma das causas da maledicência é o amor-próprio; arranquemo-lo do nosso coração, e não falaremos mal de ninguém…; 7° nunca nos esqueçamos de que vemos tão bem os defeitos dos outros porque somos cegos para os nossos.
Se levamos uma vida ordenada e boa, não devemos inquietar-nos absolutamente por nada do que se diz de nós… Repitamos o que dizia Santo Agostinho a Segundo, o maniqueu: «Faze de Agostinho o juízo que te agradar; contanto que a consciência não me repreenda em nada diante de Deus, não me importo absolutamente com as vossas palavras e os vossos juízos (14)».
Colocando em prática esses meios, será possível deter ou prevenir a maledicência; mas como reparar as suas consequências? Embora seja muito difícil, não é, contudo, impossível. É preciso: 1° falar bem da pessoa cuja reputação foi atingida; 2° desculpar a sua culpa ou justificar as suas intenções; 3° dizer que ela não havia refletido o bastante; 4° confessar francamente que se estava errado; 5° sobretudo, reparar, quanto possível, os danos causados pela murmuração.