Tesouro n.º 115 · Volume II

MARTÍRIO MARTIRIO

6 seções · 31 parágrafos · pp. 1392–1402 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. EXCELÊNCIA DO MARTÍRIO

«Muitos, diz Daniel, serão escolhidos, purificados e provados como pelo fogo. Cairão sob a espada, serão lançados na escravidão e às chamas. Abatidos, levantar-se-ão… Cairão para serem examinados, polidos e purificados até o tempo determinado» (Dn.11, 33-35).

O martírio é, segundo São Cipriano, o fim dos pecados, o termo dos perigos, o guia para a salvação, o caminho da paciência, o senhor do céu. De valor inestimável é a glória do martírio: vitória sem mácula, triunfo sem opressão. Imitando Jesus, o mártir tem a honra de compartilhar seus sofrimentos. Quão preciosa é esta morte, que compra a imortalidade com a efusão do sangue! Ó quanto Jesus Cristo se compraz em combater e vencer por meio de tais servos! «Os tormentos são asas que me transportam ao céu»: (De laud. Martyr.). Quão preciosas são as feridas dos mártires!, exclama Santo Euchério; elas nos oferecem a ocasião de transformar esta breve e miserável vida na vida eterna e bem-aventurada. Quantas feridas recebe o mártir, tantas palmas recebe da própria mão de Deus (Epl. de Martyr.).

«Todos os tormentos, escreve São Leão, foram inventados para a glória dos mártires, e os instrumentos de seu suplício serviram para a pompa de seu triunfo (1)». Sentença veríssima, considerada não somente a outra vida, mas também a presente, porque os instrumentos dos mártires se tornaram relíquias e objetos de veneração. Neste duplo sentido, Tertuliano chamava o martírio de «gênero de morte nobilíssimo e honrosíssimo» (Apolog. c. XXXIX).

O sangue dos mártires extingue o fogo do inferno. Morte bem-aventurada, que recebe a coroa eterna de uma vida de virtude! Aquele que é condenado por causa do nome de seu Deus é um mártir, diz Clemente Alexandrino; ele é irmão de Jesus Cristo, filho do Altíssimo, tabernáculo do Espírito Santo (Strom. lib. II).

São Cipriano chama o martírio de batismo de fogo e o exalta acima do batismo de água, como mais fecundo em graças, de ordem mais elevada e de honra mais esplêndida. ― Os anjos são seus ministros; depois de recebê-lo, já não se peca; ele coroa a fé e une para sempre a Deus aqueles que tira deste mundo. Com o martírio, os olhos se fecham para a terra, mas se abrem para o céu; o anticristo ameaça e atormenta, mas Cristo protege e salva; o mártir encontra a morte, mas a imortalidade o segue; perde o mundo, mas ganha o paraíso. Ó rica permuta! A vida temporal e transitória se extingue, mas é sucedida pela eterna (Exhort. ad Martyr.).

Que felicidade sair deste mundo perigoso, mau, perverso, semeado de misérias e enganos! Que ventura escapar gloriosamente de um mar de angústias e tormentos, fechar de uma vez e para sempre os olhos, para não mais ver o mundo e os homens corrompidos, e abri-los no mesmo instante para ver Jesus Cristo, a Santíssima Trindade, a coroa e o trono de glória reservado ao mártir!

Mas ouçamos o que dizem os próprios mártires, escrevendo a São Cipriano: Qual felicidade maior, qual glória mais esplêndida para um homem do que confessar Jesus Cristo em meio aos algozes, aos carrascos e sob o cutelo, confessá-lo entre os mais atrozes e variados tormentos, quando o sangue corre em torrentes, as carnes pendem em pedaços, os ossos estalam, deslocados, e tudo isso por efeito da própria vontade livre! Que ventura mais gloriosa e mais feliz do que deixar a terra e ir para o céu, abandonar os homens e voar com os anjos; quebrar os grilhões e ser libertado dos obstáculos do século, conquistar a liberdade e encontrar-se na presença de Deus? Que há que nos dê mais brilho, honra e riqueza do que tornar-nos, confessando o nome de Jesus Cristo, companheiros de sua paixão, coerdeiros de sua glória; conservar a própria alma imaculada pela profissão da fé; recusar-nos a obedecer a leis desumanas, injustas e sacrílegas, que violam a religião, e vingar, mediante o testemunho público, as leis de Deus; vencer a morte, terror de todo homem, e receber, por meio desta morte, que não dura mais que um momento, a vida eterna; triunfar de todos os carrascos e de todas as torturas; amar os suplícios em virtude dos ensinamentos da fé; não dar importância nem à vida nem à morte? Ó nobre, heroico e imaculado triunfo! (S. CYPR. Epist. lib. 5, c. XII).

De sua prisão, Paulo escrevia aos Efésios: «Eu, Paulo, prisioneiro de Jesus Cristo» (Ef 3, 1). Estar acorrentado por Jesus Cristo é título mais nobre e mais excelente, diz o Crisóstomo, do que ser apóstolo, doutor ou evangelista; é tal dignidade que, em comparação com ela, a dignidade de rei perde o seu valor. Quem ama Jesus Cristo e arde de zelo por ele prefere ser prisioneiro pela glória de seu nome a gozar tranquilamente a felicidade do céu. Não forma coroa tão esplêndida para sua cabeça um diadema cravejado de gemas quanto uma cadeia de ferro portada por amor de Jesus Cristo. Se me deixassem escolher entre estar com os anjos ao redor do trono de Deus e permanecer encerrado na prisão com Paulo, eu não hesitaria em preferir a prisão. Nada pode comparar-se com esta escravidão! Paulo, arrebatado ao terceiro céu, era menos feliz do que entre as cadeias; prefiro sofrer com Jesus Cristo a reinar com ele. Ó bem-aventuradas cadeias! Às quais também Pedro foi preso e depois libertado por um anjo. Ora, se me dissessem: Queres ser o anjo que solta os grilhões de Pedro ou Pedro acorrentado? Eu escolheria, diria, a condição de Pedro; o ferro que lhe apertou as carnes é dom maior que o poder de deter ou pôr em movimento o mundo, de comandar os elementos e expulsar os demônios. O martírio é o ato mais perfeito de fé, de esperança, de caridade, de religião e de fortaleza; por isso, proporciona a mais esplêndida coroa, na terra e no céu (Homil. VIII). O sublime triunfo de Jesus Cristo, diz também Prudêncio, consiste nos sofrimentos dos mártires; sofrer, morrer entre os mais atrozes suplícios e permanecer calmo, sereno e jubiloso: eis o triunfo dos triunfos (In Martyr.).

2. FORÇA E CORAGEM DOS MÁRTIRES

É para nós um título de glória vencer quando somos conduzidos diante dos tribunais, açoitados, insultados e condenados; isto é para nós uma veste de palmas, um carro triunfal, dizia Tertuliano em nome dos cristãos em seu Apologético. Os mártires são invencíveis: 1° porque têm a fé e a esperança em Jesus Cristo, por cujos méritos Deus lhes concede abundância de graças, mantendo-os firmes, corajosos e fortes; 2° porque vivem da esperança de uma vida melhor e da gloriosa ressurreição, e porque sabem como Deus tornará incorruptos e gloriosos aqueles membros que expõem aos tormentos; 3° porque pensam que os tormentos são coisa pequena e breve em comparação com a recompensa imensa e eterna que deles receberão. Esses pensamentos sustentam, encorajam e alegram os mártires em meio às mais violentas torturas e às mais atrozes dores. Todos os mártires manifestaram uma coragem extraordinária e invencível. Vede os sete irmãos de que se fala no 2º livro dos Macabeus: preferem deixar a vida entre suplícios inauditos a macular-se comendo alimentos proibidos. Mantêm-se fiéis à lei de Deus e respondem ao feroz perseguidor que os tenta: ― Que procuras de nós e que queres saber? Estamos prontos a morrer antes que violar as leis que nos foram transmitidas por nossos pais… E que força heroica não resplandece em sua mãe! Ela os encoraja ao vê-los morrer sob seus olhos e, mártir de sua fé, perde ela mesma a vida… O juiz Asclepíades ordena que as carnes de Romano de Antioquia sejam dilaceradas de modo a fazê-las em pedaços. «Faze-o», responde-lhe o santo mártir; «fere-me e dilacera-me por toda parte; quanto mais me dilacerares, tanto mais te agradeço, porque estas feridas serão outras tantas bocas com as quais louvarei e pregarei Jesus Cristo; quantas forem as chagas, tantas serão as vozes que bendirão e glorificarão a Deus» (In Vita).

De São Celerino, mártir, escreve assim São Cipriano: Ele estava carregado de cadeias, mas tinha o espírito livre; submetido a diversos tormentos, mostrou-se mais forte que eles; prisioneiro, dominou aqueles que o mantinham preso com ferros; estendido sobre a fogueira, pareceu maior que aqueles que permaneciam de pé; vítima, mostrou-se mais vigoroso que seus algozes; condenado, apareceu mais nobre que seus juízes; e, embora tivesse os pés atados, contudo derrubou a serpente, venceu-a e esmagou-lhe a cabeça (São CYPR. Epist. 1. 4, c. V). Prudêncio atesta, a respeito de São Vicente, mártir nas Espanhas, que o cavalete, a prisão, os ganchos de ferro, os pentes, os carvões ardentes, as grelhas incandescentes e a morte, tudo foi para ele um brinquedo (In Martyr.).

«Verdadeiramente, jamais encontrei pessoa», gritava o prefeito Modesto, referindo-se a São Basílio, que ali estava presente, «que tenha ousado falar-me com tamanha audácia!» ― «Isso acontece porque até agora não te deparaste com um bispo», respondeu-lhe o ilustre pontífice (Stor. eccles.).

«Insulta Cristo», dizia o procônsul de Esmirna a Policarpo, «e terás a vida salva». «Faz noventa anos», respondia o santo bispo, «que o sirvo; ele nunca me fez senão o bem, e por que eu haveria de insultá-lo? De modo algum; serei fiel até a morte» (In Vita).

«Sou trigo de Jesus Cristo», escrevia o bispo de Antioquia, São Policarpo; «é preciso que eu seja moído pelos dentes das feras, se quero tornar-me pão digno de ser oferecido a Jesus Cristo… Que o fogo me reduza a cinzas, ou uma cruz me consuma com morte lenta e cruel, ou tigres furiosos e leões famintos me dilacerem, ou me pisoteiem o corpo, ou me desloquem os ossos, ou me façam em pedaços; enfim, façam de minha pessoa o que quiserem os demônios: suportarei tudo com alegria, contanto que eu chegue à posse de Cristo» (Epist. ad Rom.).

Enquanto caminhava para o suplício, Santa Cecília dizia: Morrer mártir não é sacrificar a juventude, mas trocá-la por outra melhor; é dar barro e receber ouro; é deixar uma pequena e arruinada choupana por um amplo e magnífico palácio, resplandecente de gemas; é dar uma coisa perecível e vil para receber outra imperecível e preciosíssima (At S. Caecil. mart.).

Assim interpelava Santa Ágata o enviado do juiz Quinziano: Que esperas, ó Afrodisio? Açoita, corta, abre, dilacera, queima, esmaga este meu corpo, tira-me a vida; quanto mais me fizeres sofrer, tanto maiores graças e favores me alcançarás de meu esposo Jesus Cristo. Quer Quinziano lançar contra mim os leões, quer aquecer ao rubro as caldeiras, quer afiar as pontas das facas; abra também, se puder, as portas do inferno e empregue para me atormentar não somente toda a violência dos homens, mas também a fúria dos demônios; eu suportarei tudo e morrerei virgem cristã. Não temo nem suas ameaças nem suas crueldades, porque Deus, a quem consagrei meu corpo e minha alma, me guardará. Afrodisio, dando depois conta a Quinziano do que havia visto e ouvido e da impressão que haviam causado em Ágata os elogios, as promessas e as ameaças, dizia que seria mais fácil transformar em cera mole as duras pedras ou o ferro em chumbo do que arrancar do coração de Ágata o seu amor por Jesus Cristo e pela castidade. Por amor de Jesus, ela tudo despreza, e nenhum tormento lhe parece grave; não pensa em outra coisa, dia e noite, senão em morrer por ele (SURIO, Vite de’ Santi).

Conta Santo Ambrósio que a virgem Inês, pedida em casamento pelo filho do prefeito de Roma, respondeu-lhe que Jesus, seu esposo, era infinitamente mais belo, mais nobre, mais rico e maior do que ele. E acrescentou: Afasta-te de mim, fomento do pecado, alimento da morte; pertenço a Jesus Cristo; vê este anel, penhor da fidelidade que lhe prometi; sua generosidade é maior, seu poder mais extenso, seu olhar é mais atraente, seu amor é mais doce do que tudo quanto me podes oferecer. Sou esposa daquele cuja mãe é virgem, cujo pai não conhece mulher; os anjos o servem; o sol e os astros inclinam-se diante de seu esplendor; ressuscita os mortos com seu sopro, cura os enfermos com o simples toque; infinitas e eternas são as suas riquezas. Somente a ele conservo minha fidelidade, somente nele me confio; amando-o, sou casta; tocando-o, sou pura; desposando-o, permaneço virgem (SANTO AMBRÓS. Serm. XC).

Tendo o procônsul perguntado à virgem mártir Serápia onde ficava o templo daquele Jesus que ela adorava e qual sacrifício lhe oferecia, ouviu como resposta: ― Conservando-me na castidade, sou o templo de Jesus Cristo, a quem ofereço a mim mesma em sacrifício. ― Pois bem, replicou o procônsul, se te for tirada a castidade, deixarás de ser o templo de Jesus Cristo? ― A virgem respondeu-lhe então com aquelas palavras de São Paulo: Se alguém ultraja o templo de Deus, o Senhor o exterminará. E, com efeito, tendo aquele ímpio e cruel juiz tentado ultrajá-la, Deus a preservou por meio de um grande e poderoso prodígio (SURIO, In Vita).

Tal foi a coragem e a força que todos os mártires manifestaram. Admirável é a sua vida, mas ainda mais admirável é a sua morte.

3. A FORÇA DOS MÁRTIRES VEM DE DEUS

De onde tiravam os mártires tanta força e tanto heroísmo? Do auxílio de Deus. Eles zombavam dos juízes e dos carrascos, como se não sentissem dor alguma ou sofressem em um corpo estranho, escreve São Efrém. Se tendes suplícios mais duros e atrozes, ponde-os em prática, diziam alguns. Outros gritavam do meio das chamas: Como assim? O vosso fogo nos parece gelo, as vossas torturas são fracas, as pancadas, leves, os vossos aguilhões são de madeira carcomida. Não tendes suplício que baste aos nossos desejos e às nossas forças; estamos dispostos a tormentos muito mais longos e cruéis. Nem as grelhas em brasa, nem as chamas ardentes, nem as caldeiras cheias de óleo ou de piche fervente, nem as lâminas incandescentes, nem os pentes de ferro, nem os cavaletes, nem as fogueiras, nem as feras podiam intimidar aqueles generosos e fiéis soldados de Jesus Cristo; Jesus padecia neles e suavizava-lhes as penas (Encom. Martyr.).

Eis como o braço de Deus sabe vir em socorro daqueles que vivem, combatem e morrem pela fé. Não poucos mártires atestaram que nem sequer sentiam os tormentos que os dilaceravam. Ó comovente milagre dos felizes efeitos que produzem a graça e a bondade de Deus!

4. PAZ E ALEGRIA DOS MÁRTIRES EM MEIO AOS TORMENTOS

Mas o espetáculo que mais surpreende e comove nos mártires é vê-los alegres e jubilosos em meio aos mais cruéis suplícios. Cantando hinos de ação de graças a Deus, repetiam com o grande Apóstolo: «Assim como abundam em nós os sofrimentos de Cristo, assim também abunda em nós, pela graça de Jesus Cristo, a consolação e a alegria» (2Cor 1, 5). Ou então: «Nós nos alegramos e exultamos em meio às penas que nos dilaceram» (Ib.7,4). Caminhando atrás das pegadas de Jesus Cristo, também eles buscavam, à sua imitação, a felicidade e a alegria na cruz (Hb 12, 2). São Vicente, por exemplo, zombando do tirano Daciano, chamava banquete nupcial às mais horríveis torturas e dizia que sempre o havia desejado e que ninguém mais o havia servido melhor do que ele nesse seu desejo (SURIO, In Vita).

Tão grande e segura era a felicidade que os mártires esperavam; tão gloriosa a recompensa que lhes era prometida e tão doce a sua posse, escreve Santo Agostinho, que a luz deste mundo era para eles um nada; desprezavam a espada como enferrujada, escarneciam dos suplícios como impotentes; o coração nadava em alegria. Iam da fogueira para o céu! (De Martyr.). A alegria dos mártires em meio às torturas é o triunfo do próprio Deus, diz São Jerônimo.

Não somente os mártires se alegravam em meio aos suplícios, mas sua alegria crescia à medida que se multiplicavam e aumentavam os seus sofrimentos. Essa alegria lhes vinha do céu, jorrava do coração de Jesus Cristo e era uma amostra antecipada da alegria eterna.

5. TRIUNFO DA RELIGIÃO NOS MÁRTIRES

O sangue dos cristãos é uma semente fecunda, dizia Tertuliano aos perseguidores pagãos, e quanto mais a nossa foice o ceifa, tanto mais aumenta o seu número (2). Com efeito, quem considera a paciência, a força, a serenidade e a perseverança dos mártires, o seu número imenso, os diversos gêneros de suplícios inventados para abater-lhes a constância e aplicados aos seus corpos das maneiras mais cruéis, sem jamais abalar-lhes o ânimo; quem contempla atentamente aquela multidão de pessoas de todas as idades e condições, velhos, meninos e donzelas que corriam alegres para o suplício; esse não pode deixar de reconhecer que a religião pela qual se morre assim é uma religião divina, é a única religião verdadeira. Por isso, somente na Igreja católica, apostólica, romana se encontram mártires dignos desse nome. Os mártires difundiam o celeste perfume do conhecimento de Deus e da sua lei; as nações pagãs admiravam-se disso, e um impulso secreto, às vezes lento e não raro súbito, impelia-as a crer na verdade do Evangelho e em Jesus Cristo. Desse modo, a pregação do Evangelho triunfou da boca dos apóstolos; a fé subjugou a infidelidade, a verdade dissipou o erro, a caridade extinguiu o ódio, a paciência venceu toda sorte de tormentos e as mortes mais cruéis. Muitas vezes, diante do número, da resignação e da alegria dos mártires, os juízes, os carrascos e os guardas das prisões convertiam-se, abraçavam o Cristianismo e tornavam-se mártires por sua vez. Viam-se transformados de pecadores em apóstolos, de leões em cordeiros, de grandes pecadores e réprobos em grandes santos e habitantes do céu…

«A vida se manifestou, diz São João, e nós a vimos e lhe damos testemunho, e vos anunciamos a vida eterna, que estava junto do Pai e se manifestou a nós. Nós vos pregamos aquilo que vimos e ouvimos» (1Jo 1, 2-3). Nós vo-la pregamos pelos ensinamentos, pela vida, pelos sofrimentos, pelo martírio, pela morte.

6. VÁRIAS ESPÉCIES DE MARTÍRIO

A feliz sorte dos mártires é certamente digna de ser desejada. Ora, todos nós podemos participar dela, cada qual em seu estado, porque há outros gêneros de martírio, além do de sangue, e também eles são dignos de grande mérito e rica recompensa. O martírio não consiste somente na efusão do sangue pela fé, escrevia São Jerônimo, mas também a perfeita submissão à vontade de Deus merece tal nome (Epitaph. S. Paul.). Nem sempre, nem para todos, apresenta-se a ocasião de serem perseguidos, adverte São Gregório; mas também a paz tem o seu martírio, pois quem não precisa inclinar a cabeça sob o cutelo do carrasco pode ao menos submeter ao golpe da espada espiritual os desejos carnais que sente nascer dentro de si (Homil. III In Evang.). E este gênero de martírio, pelo qual a carne se submete ao espírito, embora, como observa São Bernardo, não aflija tanto a vista quanto aquele que tem por instrumento o ferro e o fogo, não é, contudo, menos digno de recompensa, porque é mais penoso em razão de sua duração (Serm. XXX in Cant.).

Há três martírios que não exigem o derramamento de sangue e são, contudo, muito meritórios: 1° ser rico e viver inteiramente desapegado dos bens da terra, como Jó e Davi; 2° dar esmolas generosas em uma condição modesta, a exemplo de Tobias e da Viúva do Evangelho; 3° conservar-se casto na juventude, à imitação de José no Egito… «Conservar intacta a pureza, diz São Jerônimo, traz consigo certo tipo de martírio» (Ut sup.).

Também a pobreza voluntária é um verdadeiro martírio; verdadeiro e contínuo martírio são os três votos que se fazem na vida religiosa: castidade, pobreza e obediência, quando são zelosamente observados… Uma vida empregada nas obras de piedade e de caridade cristã equivale a um admirável martírio… Todo o mérito do martírio tem, finalmente, a morte encontrada no serviço dos enfermos atingidos pela peste. Um exemplo memorável nos oferece o Martirológio Romano, onde, sob a data de 28 de fevereiro, se lê: Em Alexandria, comemoração dos santos presbíteros, diáconos e numerosos outros fiéis que, no tempo do imperador Valeriano, em dias nos quais grassava uma horrível peste, socorreram os enfermos, expondo a própria vida à morte; por isso, são venerados como mártires da piedade dos primeiros cristãos.

Quereis saber, pergunta São Pedro Damião, como, no seio da paz que agora goza a Igreja, podeis sustentar o martírio? Subi ao tribunal da vossa razão e condenai-vos à tortura. Seja o pensamento o acusador, o espírito o juiz, a consciência arrependida o executor e o verdugo; um torrente de lágrimas jorre de vossos olhos e sulque vossas faces. Com esta imitação do martírio, chegareis à dignidade daqueles que derramaram o próprio sangue pela fé (Serm. de S. Apollinar.). Grande e sublime martírio, diz São Lourenço Justiniano, é expor a própria vida por Jesus Cristo. Os piedosos missionários, as veneráveis religiosas que deixam suas casas, amigos, parentes e pátria para ir a regiões remotas e bárbaras, a fim de arrancar almas do erro, do crime e do demônio e entregá-las a Cristo; esses heróis e heroínas da fé, que se expõem a toda privação, a mil riscos e a cem mortes por tão nobre fim, terão mérito igual ao dos mártires. Ouvi o que diz um verdadeiro mártir, que foi também mártir da caridade, São Paulo: «Meus irmãos, escrevia ele aos Coríntios (1Cor 15,31), eu morro todos os dias por vossa glória, em Jesus Cristo, nosso Senhor» (Serm. de S. Martin.).

Ninguém se desculpe, dizendo: Os tempos felizes do martírio já passaram; os perseguidores desapareceram; Nero, Décio e Diocleciano chegaram ao fim; pois cada um é espiado por inimigos que o perseguem. Não passa um instante sem que algum inimigo — seja ele o demônio, o mundo ou a carne — esteja ao vosso lado; às vezes, os três se unem para conspirar contra vós. Resisti como bravos; triunfai, e tereis a palma do martírio. Se fugis daqueles que vos convidam ao vício, se os repelis resolutamente, como o casto José, sereis mártires do pudor. Se suportais sem vos cansar as injúrias e as injustiças, sereis mártires da paciência. Se aceitais com alegria os insultos e os opróbrios, sereis mártires da humildade… Se cumpris exatamente as ordens dos superiores, ainda que demasiado graves e penosas, sereis mártires da obediência. Que coisa mais confortadora e consoladora? Haverá porventura martírio mais rigoroso do que aquele pelo qual alguém voluntariamente sofre fome em meio aos banquetes, veste-se com simplicidade e pobreza em meio às riquezas, prefere a penúria à abundância? Acaso não merecerá a coroa de mártir aquele que tapa os ouvidos às promessas do mundo, repele as tentações do demônio e, coisa ainda mais gloriosa, triunfa de si mesmo e refreia a concupiscência que se rebela? Lembrai-vos, para serdes corajosos na luta, de que tal vida é um batismo de sangue, um martírio contínuo. Sim, é um martírio e certo derramamento de sangue afligir todos os dias o próprio corpo e reduzi-lo à servidão: o confessor que derramou o próprio sangue por Jesus Cristo recebe uma coroa de rosas; o mártir da pureza, uma coroa de lírios. Isto não ignorava São Pacômio, que respondeu sensatamente a um monge que queria sair do claustro para ir em busca do martírio: Corre valorosamente, meu filho, a carreira do monge, e combate constantemente; se observares a regra e procurares agradar a Jesus Cristo, terás diante de Deus o mérito do martírio (Vite de’ Padri).

Regozijemo-nos com aqueles que sacrificaram a vida pelo nome de Jesus Cristo…; invejemos a sua felicidade e, uma vez que há várias espécies de mártires, procuremos também nós tornar-nos tais de algum modo, para merecer a sua esplêndida coroa…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.