Alguns derivam a palavra Lei do verbo ler: porque, dizem, a lei foi dada para que o homem possa lê-la, instruir-se e iluminar-se. Cícero (De Offic.) faz derivá-la do verbo deligere, ou escolher, porque, pela lei, sabemos o que se deve escolher. São Tomás pensa que ela deriva do verbo ligare, porque verdadeiramente a lei impõe um vínculo; ela obriga a fazer ou omitir alguma coisa; por isso os teólogos a chamam jugo ou vínculo (la p. q. art. 9).
A lei de Deus não é outra coisa senão a religião, a inteligência, a vontade de Deus…
«Ó Deus, exclama o profeta Davi, a vossa lei é a verdade por essência; os vossos mandamentos são a própria verdade» (Sl 118, 142, 86). «Os vossos oráculos merecem toda a nossa fé» (Sl 92, 7). «Fazei-me conhecer o bem, ensinai-me a sabedoria e a ciência, porque acreditei na vossa palavra» (Sl 118, 66). «O homem sensato, diz o Eclesiástico, confia na lei de Deus, e a lei lhe é fiel» (Eclo. 33, 3).
A lei divina é um oráculo que vem de Deus. Se quereis saber com certeza o que deveis fazer, qual é o caminho da salvação, qual a vontade de vosso Criador, deveis consultar a lei de Deus: ela vos instruirá perfeitamente, e tereis a certeza de não errar. A lei de Deus se apoia na ciência, na sabedoria e na veracidade infinita; não pode, portanto, induzir ao erro. «Eu sou — disse Jesus Cristo, isto é, o Filho de Deus — o caminho, a verdade e a vida. Quem me segue (isto é, observa a minha lei) não caminha nas trevas, mas terá como guia a luz da vida» (Jo 8,12). Deus não pode enganar-se nem enganar; portanto, desde que uma obrigação nos seja imposta pela lei de Deus, somos indesculpáveis se duvidamos ou hesitamos.
A lei natural é eterna… Os preceitos judiciais e cerimoniais da lei mosaica tiveram força de obrigação até a promulgação da nova lei, a qual foi promulgada pela ressurreição e pela ascensão de Jesus Cristo, mas especialmente no dia de Pentecostes… Esta lei é verdadeiramente o código dos mandamentos divinos; é a lei que foi dada para a eternidade (Br 4,1). Foi dada para a eternidade: 1° porque durará para sempre, não devendo jamais os preceitos de Deus deixar de ser justos e observados… 2° porque conduz à vida eterna aqueles que a observam…
Considerai, diz o Senhor no Deuteronômio, que eu vos pus diante a vida e o bem, a morte e o mal, para que ameis o Senhor vosso Deus, caminheis por seus caminhos e observeis seus preceitos, suas cerimônias e seus juízos (Dt 30,15-16). A Josué ordena que jamais esqueçamos o livro da lei, mas o mantenhamos sempre aberto diante dos olhos, meditemos nele dia e noite, para observar e cumprir tudo quanto nele está escrito (Js 1,8). Ordena a mesma coisa a Abraão, fazendo-lhe o mandamento formal de observar, ele e sua posteridade depois dele, a aliança que havia feito com ele (Gn 17,9).
«Escuta, ó meu povo, diz o Senhor, escuta a minha lei; inclina o ouvido às palavras da minha boca» (Sl 77,1). E Davi dizia ao Senhor: «Vós me ordenastes guardar fielmente os vossos preceitos, e eu propus e jurei obedecer aos mandamentos da vossa justiça. É para o meu bem; pois, se não tivesse mantido os olhos fixos na vossa lei, talvez a esta hora já tivesse sucumbido à aflição» (Sl 118,4, 106,92). «Ouçamos todos, diz o Sábio, estas últimas palavras: Teme a Deus e observa os seus mandamentos, porque nisso consiste o homem todo» (Ecl 12,13).
Deus ordena que observemos a sua lei com atenção, fidelidade, solicitude e perseverança, e isto por várias razões: 1° Deus promete aos que observam a sua lei recompensas infinitas… 2° Ameaça os que a transgridem com castigos eternos… 3° O homem deve temer, servir e adorar a Deus com toda a alma, o que certamente não se pode cumprir senão observando as suas vontades… 4° Deus impõe, sob pena de morte, a observância da sua lei… 5° Exige que a cumpramos inteiramente… 6° Quer que a observemos durante toda a vida… «Verdadeiramente grandes — exclama Santo Agostinho — são a vossa sabedoria e a vossa caridade, ó Senhor, pois nos obrigais por preceito a amar-vos, único e supremo bem nosso; e, se não o fazemos, ameaçais enviar-nos ao inferno; se, porém, o fazemos, prometeis-nos imensas e eternas recompensas (1)»
«Meu filho — diz-nos o Senhor nos Provérbios — jamais te esqueças da minha lei, e o teu coração conserve os meus preceitos» (Pr 3,1). «Abraça a lei de Deus — acrescenta Baruc — caminha à luz que dela se difunde» (Br 4,2). Aqueles que temem o Senhor, lemos no Eclesiástico, procurarão aquilo que lhe agrada, e aqueles que o amam estarão repletos da sua lei (Eclo 2,19); isto é, estudá-la-ão cuidadosamente e a observarão com exatidão. Aqueles que amam a Deus enchem-se da sua lei: não deixam parte alguma de si que não lhe submetam; fazem-na senhora de sua inteligência, de sua memória, de sua vontade, de seus olhos, de seus ouvidos e de suas mãos, para que tudo neles agrade a Deus. Assim como os judeus marcaram com o sangue do cordeiro a soleira de suas casas, para escapar à espada do anjo exterminador, assim os bons cristãos trazem impressos em si o selo de Deus, o sinal divino que os preservará da morte eterna.
A lei de Deus deve ser observada também nas coisas mínimas; pois aquele que não dá peso aos preceitos de menor importância, pouco a pouco chegará a não fazer caso dos mais graves (Eclo 19,1).
«Traze sempre à tua mente — diz o Espírito Santo — aquelas coisas que Deus te ordenou» (Eclo 3,22).
«Mantém o pensamento fixo na lei de Deus e ocupa-te incessantemente dos seus preceitos» (Eclo 6,37). Ao povo de Israel, o próprio Senhor dizia assim: «Estas palavras, que são a expressão da minha vontade e que hoje fiz ressoar aos teus ouvidos, cuida para que se gravem em teu coração: repeti-las-ás a teus filhos, meditá-las-ás sentado junto à tua lareira, pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te. Prendê-las-ás como sinal em teus braços, mantê-las-ás suspensas diante de teus olhos, gravá-las-ás na soleira e nas portas de tua casa» (Dt 6,6-9).
Todos estes estímulos e recomendações contidos na Escritura não provam até à evidência a necessidade que tem o homem de pensar sempre na lei de Deus? Sim, certamente; e todo cristão deveria poder dizer com o profeta: «Senhor, medito na vossa palavra, para compreender a santidade dos vossos caminhos. Terei sempre diante dos olhos os vossos juízos e jamais esquecerei as vossas promessas. A vossa lei fornecerá o tema diário de minhas meditações. Escolhi o caminho da verdade, porque jamais esqueci os vossos juízos. Seguirei a vossa lei sem jamais me desviar; dai-me inteligência, para que eu estude a vossa lei e a cumpra exatamente. Eu estava tão profundamente fixo no pensamento de vossos preceitos, objeto de meu amor, que também durante a noite me lembrava de vosso nome e observava a vossa lei. Senhor! ela constitui todos os dias o tema de minhas meditações. Não! jamais a esqueci, nem jamais me afastei de vossos preceitos» (Sl 118,15, 16, 24, 30, 31, 33, 34, 47, 55, 97, 87, 109). Felizes de nós, se pudéssemos dizer assim diante de Deus!
«Esperamos e apressamos com nossos votos a vinda do dia do Senhor», escrevia São Pedro (II 3,12); mas sabeis, observa aqui Teodoreto, quem é que pensa de bom grado na vinda do Senhor? Aquele que observa a lei de Deus (2).
Quem odeia a lei do Senhor, escreve Salviano, alimenta dentro de si a causa deste ódio. O desgosto, a aversão que alguém sente pelo preceito não provém do preceito, mas dos maus costumes; pois a lei é boa, mas, quando os costumes são viciosos, mudam os sentimentos e as resoluções dos homens. Se nossa conduta fosse conforme à lei, esta não nos desagradaria e nós não iríamos contra ela; de fato, tão logo uma pessoa começa a tornar-se boa, começa também a agradar-lhe a lei; porque ela é santa e encerra em si tudo o que os homens têm de bom em seus costumes (Lib. IV ad Eccles.). A lei de Deus não tem outros inimigos senão os homens corrompidos. Retirai a corrupção do coração, e a lei agradará.
A suma da religião consiste em observar a lei divina…
«Estamos certos, diz São João, de que conhecemos Jesus Cristo, se observamos os seus mandamentos» (1, 2, 3). «E quem cumpre os mandamentos de Deus permanece em Deus, e Deus nele» (Ib. 3, 24). A este respeito, o Venerável Beda assim nos exorta: «Seja Deus a vossa morada, e vós sejais a morada de Deus; habitai em Deus, para que Deus habite em vós. Deus habita em vós para vos sustentar; vós habitais nele para não cairdes (3)».
«As palavras do Senhor, diz o Salmista, são palavras puras, semelhantes à prata fundida no cadinho e refinada sete vezes» (Sl 11, 6). Imaculada e convertora das almas é a lei do Senhor; fiel é o testemunho de Deus e dá ciência aos pequeninos. Os preceitos do Senhor são a luz que ilumina os olhos. A sua lei é santa, é a verdade por essência e justifica-se por si mesma. É mais desejável que o ouro, mais preciosa que os diamantes, mais doce que o mel (Sl 18, 7-8, 10).
Deve-se amar a lei de Deus: 1° porque é belíssima em si mesma; 2° porque é puríssima…; 3° porque é a verdade por essência…; 4° porque converte as almas…; 5° porque alegra…; 6° porque ilumina…; 7° porque proporciona os bens eternos, segundo estas sentenças do Salmista: «Aqueles que praticam a lei do Senhor receberão grandíssima recompensa» (Sl 18, 11). «Quem guarda esta lei no coração jamais caminhará na incerteza» (Sl 36, 31). «Senhor, não terei de que me envergonhar, enquanto mantiver os olhos fixos nos vossos mandamentos» (Sl 118, 6). «E de que modo a juventude corrige a sua conduta? Obedecendo às vossas determinações, ó Senhor» (Sl 118, 9).
Ouçamos ainda o desabafo de uma alma que conheceu e experimentou o esplendor do poder, da riqueza e da excelência da lei divina: «Guardei no fundo do meu coração as vossas palavras, ó Senhor; dai-me a inteligência dos vossos mandamentos» (Sl 118, 11, 26). Meu quinhão é guardar a vossa lei; assim o determinei e a conservarei mais cara e preciosa que todo o ouro e a prata do mundo; pois, graças a ela, superei em inteligência os meus mestres, venci em prudência os anciãos e evitei os caminhos dos pecadores (Ib. 57, 72 99, 100, 104). A vossa palavra é o farol que guia os meus passos, a luz que ilumina as veredas por onde caminho» (Id. 105). «Admiráveis são os vossos mandamentos, ó Deus; por isso, minha alma se inflamou em estudá-los. A explicação da vossa lei difunde a luz e abre o entendimento até mesmo aos pequeninos. Abri a boca e aspirei o vosso sopro divino, porque ardia de desejo de receber os vossos preceitos» (Id. 130-131). Que mais? O Sábio nos assegura que quem observa a lei não terá de experimentar mal algum (Eclo. 7, 5).
Ouvi as magníficas promessas que Deus fez, pela boca de Moisés, ao povo hebreu, caso este se mantivesse na observância da lei: «Se deres ouvidos à voz do Senhor e praticares todos os seus mandamentos, ele, o Senhor teu Deus, te elevará acima de todas as nações. Todas as bênçãos registradas no livro da lei choverão abundantemente sobre ti, se obedeceres aos seus preceitos. Serás bendito na cidade e nos campos; benditos serão os frutos das tuas entranhas e os frutos do solo, os teus animais de carga, as manadas de bois e os rebanhos de ovelhas; benditos serão os teus celeiros e as colheitas que guardares. Quer saias, quer entres, serás bendito. O Senhor fará que os inimigos que te atacarem caiam à tua vista; virão contra ti por um lado e fugirão da tua presença por sete outros. Deus abençoará os teus armazéns e todas as obras das tuas mãos. Suscitará em ti um povo santo, e todas as nações da terra verão que o nome de Deus te protege e te temerão. O Senhor abrirá para ti os céus, seu precioso tesouro, e fará descer, no tempo devido, o orvalho e a água sobre as terras que habitares; colocar-te-á à frente das nações, e não na cauda; estarás sempre acima delas, e nunca abaixo, se ouvires os preceitos de Deus, os guardares e os observares sem te desviares nem para a direita nem para a esquerda» (Dt. 28, 1-14.). Não somente sobre o povo de Israel, mas sobre todos os povos que se mantêm fiéis observantes da lei divina, cumprem-se e se cumprirão as magníficas promessas acima mencionadas. Felizes, portanto, as nações e as famílias que têm em grande estima e reverenciam a lei de Deus, essa lei tão fecunda em bens e em graça!
«Meu filho, lemos ainda nos Provérbios, que jamais te saia da mente a minha lei e guarda zelosamente em teu coração os meus preceitos; eles te darão longa vida e anos de paz» (Pr. 3, 1-2). E pouco mais adiante encontramos novamente: «Meu filho, grava em teu coração os meus mandamentos e leva-os escritos sobre o teu peito. Eles te acompanhem quando caminhas; vigiem ao teu redor quando repousas; sejam o teu entretenimento quando estás desperto. Pois o meu preceito é uma lâmpada, a lei é uma luz e o caminho da vida» (Ib. 6, 20-23).
A este respeito, São Basílio observa que a lei antiga não foi senão uma lâmpada que iluminou uma só nação; eis por que São João Batista, que foi o termo daquela lei, é chamado lâmpada ardente e luminosa. Com efeito, o Evangelho é uma luz que ilumina o universo; por isso, convém plenamente a Jesus Cristo o título de sol de justiça, e aos apóstolos, o de luz do mundo (4).
A lei é luz — lex lux — tanto porque é facilmente compreendida, quanto porque dirige o homem que a conhece, iluminando-lhe a mente e fortalecendo-lhe o coração… A lei é luz; é um raio da luz eterna proveniente do sol incriado, que é o próprio Deus. Com efeito, a lei de Deus não difere da lei incriada que está na inteligência divina e que Deus colocou no homem, para que viva com retidão, santidade e felicidade, segundo estas palavras do Salmista: «Senhor, vós pusestes dentro de nós a marca da luz do vosso rosto» (Sl 4, 6). A lei divina é o caminho que o próprio Deus nos traçou e pelo qual todo homem deve esforçar-se por caminhar, para chegar à virtude, à salvação, ao próprio Deus. É precisamente isto que o Senhor nos anuncia e para isto nos exorta por meio do Sábio: «Meu filho, observa a minha lei e viverás. — Quem observa a lei guarda a sua alma» (Pr. 7,2; Ib. 19,16).
São Gregório explica como a lei de Deus nos leva a deplorar as culpas e a adquirir as virtudes, comparando-a a um espelho no qual as almas boas se observam continuamente e logo percebem se têm alguma mancha. Por meio dela, corrigem os erros dos seus pensamentos e, apesar da resistência do homem velho, restabelecem em si mesmas a imagem de Deus e fazem-na resplandecer como antes, porque, meditando atentamente os preceitos do Senhor, veem aquilo que nele agrada ou desagrada. A lei divina nos incita a lavar as nossas culpas com as lágrimas do arrependimento, apresentando-nos aqueles preceitos celestes pelos quais as almas santas agradaram ao Esposo divino. Se os estudarmos com diligência, veremos imediatamente as manchas que obscureceram em nós a imagem de Deus; ao vê-las, choraremos por elas e, chorando-as, apagá-las-emos (5).
A lei, diz Platão, é a alma do homem livre; assim como a alma governa o corpo, também a lei governa o homem e o conduz às boas ações que ela prescreve e que tornam a vida do homem verdadeiramente digna do nome de vida. Mas, quando a alma despreza a lei, perece, assim como perece o corpo quando é abandonado pela alma.
Com que solicitude, portanto, não devemos amar e observar a lei! Três motivos principalmente nos impelem a isso. O primeiro decorre do nosso dever para com Deus: quem ama e observa a lei ama e serve a Deus, que é o legislador. Daí esta sentença de Jesus: «Se me amais, observai os meus mandamentos» (Jo 14, 15). O segundo provém da própria lei: o objetivo da lei é fazer praticar a virtude; ora, se esta nos é cara, devemos necessariamente amar aquela. O terceiro decorre da nossa própria vantagem: «Quem observa a lei guarda a sua alma», diz Salomão; e quem despreza a lei calca aos pés a própria alma, isto é, renuncia à vida, à saúde e à felicidade da sua alma. Portanto, a lei deve ser-nos tão cara quanto a própria alma.
Há ainda outras vantagens da observância da lei: «Quem guarda a lei é filho sábio», dizem os Provérbios (28, 7); o Eclesiástico diz que jamais alguém se manteve fiel observador dos mandamentos de Deus e foi por ele abandonado; mas que todo aquele que quiser observá-los será por eles protegido (Eclo. 2, 12; 15, 16). Eis a utilidade dos preceitos divinos! São os guardiões da alma contra todos os inimigos exteriores e interiores. Se vós guardardes a lei, ela, por sua vez, vos guardará e conservará, tanto para a vida presente como para a futura, atraindo sobre vós a graça de Deus no tempo e assegurando-vos a glória na eternidade. E assim acontece: 1º porque Deus conserva aquele que cumpre a sua lei…; 2º porque o cumprimento da lei aumenta as virtudes da alma, e estas, por sua vez, a fortalecem e a tornam apta a resistir às tentações, à carne corrompida, ao mundo, ao demônio…; 3º porque a observância da lei abate e enfraquece o orgulho, inimigo capital da caridade.
Se sois fiéis a Deus, Deus será fidelíssimo para convosco; pois existe entre Deus e o homem um pacto pelo qual ambos prometem: o homem, obedecer a Deus e cumprir a sua lei; Deus, recompensar o homem, dando-lhe a sua proteção, a graça e a glória; como justamente afirmou Jesus Cristo, sabedoria do Pai, quando disse: «Se alguém me ama, ouvirá as minhas palavras, e meu Pai o amará; e nós viremos a ele e permaneceremos com ele» (Jo 14, 23). Sim, Deus vela por sua morada e protege a hospitalidade que lhe é oferecida. E quem ousaria assaltá-lo, quem poderia vencer aquele que Deus guarda e defende? Eis por que o Sábio diz: «Quem pratica a lei será preservado de todo mal» (Eclo. 8, 5), e Jesus Cristo empenha a sua palavra de que aquele que ouve as suas palavras não verá a morte eternamente (Jo 8, 51); e, outra vez, declarou abertamente que, se queremos entrar na vida, devemos observar os seus mandamentos (Mt 19, 17).
A lei divina conduz, pois, à vida: à vida da alma, à vida da graça aqui embaixo, à vida da glória no céu. Ora, quem entra na glória dos santos jamais verá a morte eterna… Depois disso, não devemos admirar-nos de que o Espírito Santo nos exorte a depositar o nosso tesouro nos preceitos do Altíssimo, assegurando-nos de que isso nos será muito mais proveitoso do que toda coisa rara (Eclo. 29, 14).
«Quem estuda a lei de Deus será dela preenchido» (Eclo. 32, 19). Isto quer dizer que aquele que sinceramente se aplica a conhecer a lei divina e a observá-la colherá em abundância os seus frutos, os bens que ela proporciona: favores e graça de Deus, bem-aventurança e glória infinita… «O homem ajuizado crê na lei de Deus, e a lei mostra-se fiel para com ele» (Eclo. 33, 3). O homem sábio mantém-se fiel à lei; mas a lei também se mantém fiel para com ele, afastando dele todos os males e proporcionando-lhe todos os bens… Àquele que fielmente a cumpre, a lei promete e assegura as seguintes vantagens: 1º ilumina-o, para que, em meio aos erros que o cercam, saiba o que deve fazer e que conduta manter para merecer o céu…; 2º conforta-o e consola-o…; 3º recompensa-o, assegurando-lhe nesta vida um aumento de graça e, mais tarde, a coroa e a glória…
Bem-aventurado o homem que se alimenta da lei de Deus!, exclama o Eclesiástico: «Quem a guarda em seu coração será sempre sábio; porque, se a cumprir, estará apto para toda tarefa, tendo a luz de Deus como guia de seus passos» (Eclo. 50, 30-31). «Quem tem como tocha, para iluminar os seus passos, a palavra de Deus, diz Santo Ambrósio, aonde quer que vá, verá sempre com clareza (6)».
«Quem observa a lei, lemos no Eclesiástico, multiplica as ofertas; pois sacrifício salutar é atender aos preceitos e evitar toda iniquidade» (30, 1-2). A observância da lei vale tanto quanto um sacrifício, ou melhor, é um sacrifício agradabilíssimo a Deus, sacrifício que assegura a salvação e compreende em si toda espécie de sacrifícios. É um sacrifício místico pelo qual o homem oferece a si mesmo a Deus, juntamente com os seus atos racionais, espirituais e divinos. É um sacrifício no qual são imoladas todas as paixões e todos os vícios, e se oferece, como incenso de agradável odor, a prática de todas as virtudes.
Ouçamos finalmente o que Deus diz pela boca de Isaías e de Baruque ao povo de Israel, figura do povo e da alma cristã: «Se tivesses prestado atenção aos meus mandamentos, a tua paz teria sido como um rio, e a tua justiça, como as ondas do mar. A tua posteridade teria se multiplicado como a areia do mar; a tua descendência não teria perecido, e o teu nome não teria sido apagado da minha presença» (Is 48, 18-19). «Vós abandonastes a fonte da vida. Se tivésseis caminhado pelas veredas do Senhor, teríeis habitado em uma paz eterna. Aprendei onde está a prudência, onde a fortaleza, onde o entendimento, para que aprendais, ao mesmo tempo, onde se encontram a longevidade da vida, a abundância do alimento, a luz dos olhos e a paz do coração» (Br 3, 12-14). Dessas palavras se conclui que os felizes efeitos da obediência à lei de Deus são uma paz inalterável, eterna…, a prudência e a força…, a inteligência…, a longevidade da vida…, a abundância de todas as coisas…, a luz…
«Este, diz ainda o mesmo profeta, é o livro dos mandamentos do Senhor; aqui está a Lei estabelecida para a eternidade; todos os que a observarem chegarão à vida. Converte-te, pois, ó Jacó! Abraça-te à lei, caminha ao clarão da sua luz pela estrada que ela te traça» (Br 4, 1-2). E, se acontecer que os inimigos nos assaltem pelo caminho, fugirão de nós, derrotados, ou cairão sob os nossos golpes; porque «os preceitos de Jesus Cristo, observa Santo Ambrósio, são espadas afiadas nas mãos dos cristãos (7)».
«Bem-aventurado o homem que medita dia e noite na lei do Senhor: prosperará como árvore plantada à margem de um rio, que dá frutos a seu tempo; cujas folhas não murcham e cujos rebentos crescem numerosos ao seu redor» (Sl 1, 2-3). «Bem-aventurados aqueles que caminham sem mancha pelo caminho do Senhor, isto é, põem todo o seu empenho em investigar e cumprir os mandamentos de Deus!» (Sl 118, 1-2). «Senhor, encontro as minhas delícias no cumprimento da vossa lei; ela é para mim um tesouro mais precioso que toda riqueza; fiz dos vossos preceitos a minha herança para sempre; porque são fonte de alegria para a minha alma» (Ib. 14. 111).
«Não há coisa mais suave do que observar a lei do Senhor», diz o Sábio (Eclo. 23,37). E, com efeito, vimos como, na obediência à lei divina, o homem encontra a sua vantagem, a sua paz, as consolações, os verdadeiros prazeres, a graça, a salvação, a glória, a felicidade…
É palavra da verdade incriada que «suave é o jugo de Deus, leve é o seu peso» (Mt 11, 30). Com efeito, como bem adverte Santo Agostinho, «Deus não nos ordena coisas impossíveis; mas, enquanto ordena, adverte-nos que façamos aquilo que podemos e peçamos aquilo que ultrapassa as nossas forças; depois, ajuda-nos para que possamos praticá-lo». Além disso, diz o mesmo santo: «Todo preceito é leve para quem ama; assim que o amor entra em um coração, imediatamente nenhum trabalho custa mais esforço (8)».
Esta sentença está fundada na doutrina do apóstolo João, que diz: «O amor de Deus consiste em observar os seus mandamentos, e os seus mandamentos não são pesados» (I, 5, 3); e, na segunda Epístola, repete: «Esta é a verdadeira caridade: caminhar segundo os preceitos de Jesus Cristo» (2, 6). Quem observa a lei ama a Deus; ora, amando a Deus, a lei também se torna doce, amável e facílima.
Os mandamentos de Deus tornam-se fáceis de observar, mesmo naquilo que têm de mais penoso; primeiramente, porque Jesus Cristo libertou os cristãos do pesado jugo dos múltiplos preceitos cerimoniais e judiciais da antiga lei; depois, porque nada é duro para quem ama a Deus; em terceiro lugar, porque Jesus Cristo concede ao homem favores e graças que são como asas com as quais cumprimos facilmente a lei e que, longe de pesarem sobre nossos ombros, tornam-nos ágeis e diligentes; finalmente, porque temos, para nosso encorajamento e estímulo, o exemplo do Salvador e dos santos e a promessa da glória.
A nós, cristãos, mais ainda do que ao povo de Israel, aplicam-se estas palavras do Senhor: «A lei que hoje te prescrevo não está acima de ti, nem longe de ti. Ela não está no céu, de modo que possas dizer: Quem dentre nós pode subir ao céu e trazê-la para nós, a fim de que a compreendamos e a cumpramos com nossas obras? Ela não está além do mar, de maneira que possas desculpar-te, dizendo: Quem dentre nós pode atravessar o mar e trazê-la para nós? Mas ela está perto de ti, em tua boca e em teu coração, para que a cumpras» (Dt. 30, 11-14).
Os caminhos do Senhor são fáceis e retos aos olhos dos bons; são tortuosos e difíceis para os maus. A lei de Deus é simples e leve, segundo o juízo dos bons; intrincada e pesada, segundo o juízo dos ímpios; parece justa e santa aos primeiros, injusta e tirânica aos segundos; àqueles torna prósperos e felizes, para estes é causa de prejuízo e ruína. «Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus», escreve São Paulo (Rm 8, 28), mas tudo se converte em mal para os ímpios, porque se servem de sua vontade perversa para abusar de tudo.
Peremptória é a sentença de São Tiago: «Quem quer que tenha cumprido toda a lei, mas depois transgride um só preceito, é réu como se os tivesse transgredido todos» (Tg 2, 10). Mas como é possível, dirá alguém, que se deva considerar culpado da transgressão de toda a lei aquele que transgrediu um só preceito? Eis em que sentido se devem entender estas palavras de São Tiago: quem viola a lei num ponto é culpado como se a tivesse violado inteira: 1º porque perde todos os seus méritos; 2º porque fere todas as virtudes anteriormente adquiridas; 3º porque incorre na pena do dano, isto é, na privação da graça, da caridade e da glória, como se tivesse pecado contra todos os mandamentos; 4º porque a lei obriga em sua totalidade e deve ser observada exatamente; 5º porque quem viola um só preceito despreza o legislador; 6º porque os mandamentos divinos formam um todo, que é o Decálogo. Transgredido um preceito, a lei deixa de ser lei para vós; assim como, numa música, uma voz discordante destrói toda a harmonia…
Outra razão nos dá Santo Agostinho: quem falta ainda que num só ponto da lei age contra a caridade, sobre a qual se apoia toda a lei (9); com efeito, diz São Gregório, todos os preceitos encontram-se em germe na caridade (10). Assim como um herege que não crê num artigo de fé perde inteiramente a fé em todos os artigos do Símbolo, porque já não os crê com fé divina, mas humana, assim também quem transgride uma lei perde a caridade anexa à observância de todas as leis.
Finalmente, quem peca contra um preceito peca contra todos, porque a transgressão de um conduz à violação de um segundo, depois de um terceiro, e assim por diante.
Quem não observa a lei de Deus e a despreza, fazendo aquilo que ela proíbe, não é homem, mas bruto; porque não vive de modo racional, segundo a natureza do homem, mas à maneira dos animais. Orgulhoso, colérico, cruel, impudico, guloso etc., imita a vida do leão, do tigre, da raposa etc. Todos os delitos, vícios, desordens, escândalos etc. procedem da violação e do desprezo da lei divina.
Aqueles que desprezam a lei de Deus já não caminham à sua luz, e esta é uma imensa desgraça; tornam-se inimigos de Deus e rejeitam a salvação eterna, na qual consiste a suma de todas as desgraças. «Longe está a salvação dos pecadores, diz o Salmista, porque não se preocuparam em praticar a vossa lei» (Sl 118, 155).
«Há uma oração execrável, lemos nos Provérbios, e é a daquele que tapa os ouvidos para não ouvir a lei» (Pr 28, 91). Se ele não quer ouvir a lei, não é justo que Deus já não dê ouvidos à sua oração? Por isso, o profeta Baruc diz que aqueles que transgridem a lei abandonam a fonte da sabedoria e da paz (Br 3, 12-13).
O homem que não se submete à lei é inimigo de si mesmo; com efeito, a observância da lei proporciona ao homem toda espécie de bens, ao passo que a transgressão é o princípio de todos os seus males… Lançai o olhar sobre os castigos que caíram sobre Adão e sua infeliz descendência, em punição da primeira desobediência: confusão, rebelião dos sentidos, concupiscência, escravidão; banimento do paraíso, perda da inocência, da paz, da felicidade, da imortalidade; pobreza, misérias, desgostos, doenças, trabalho, esterilidade da terra, morte, inferno etc.… Na violação da lei deve-se procurar a causa das mais tremendas calamidades que jamais afligiram o mundo…, como o dilúvio, a destruição de Sodoma etc.
Ouvi os castigos e as desgraças que Deus ameaçou, na pessoa do povo hebreu, a todos os transgressores da lei divina: «Sereis malditos nas cidades e nos campos; malditos nos celeiros, nas despensas e em tudo quanto guardardes. Malditos serão os frutos de vossas entranhas e os produtos de vossas terras, de vossos animais e de vossas ovelhas. Sereis malditos ao entrar, malditos ao sair. O Senhor vos enviará a miséria e a fome, derramará sua maldição sobre todas as vossas obras, até que sejais exterminados; ferir-vos-á com a indigência, com a febre, com o frio e com os calores ardentes do verão, perseguir-vos-á até que pereçais. O céu sobre vossa cabeça será de bronze, e a terra que pisais será de ferro. O Senhor fará chover sobre vossos campos poeira em vez de chuva, e do céu cairá cinza sobre vós, até que sejais ressequidos. Ele vos entregará ao poder de vossos inimigos; saireis por uma estrada para enfrentá-los, fugireis por todos os lados e sereis dispersos por todos os reinos do mundo. Vosso corpo servirá de pasto aos abutres e às feras do deserto. O Senhor vos ferirá, como já fez ao Egito, com úlceras, lepra e corrupção. Tirar-vos-á o entendimento, cegará vossos olhos e vos impelirá ao furor; caminhareis às apalpadelas em pleno dia e não prosperareis em empreendimento algum; sereis sempre alvo da calúnia, do ultraje e da opressão, e não tereis quem vos defenda. Construireis casas e não as habitareis, plantareis vinhas e não bebereis o vinho delas, fareis grandes semeaduras e colhereis magras searas; a ferrugem consumirá vossas colheitas e vossos frutos, e o caruncho destruirá vossas plantas. Vossos filhos cairão sob o ferro inimigo, vossas filhas serão levadas como escravas; vós as vereis e vos consumireis de angústia, mas não podereis mover um dedo em seu favor. Todas estas maldições cairão sobre vossa cabeça, se não observardes e cumprirdes todas as palavras escritas no livro da lei e se não temerdes o Senhor vosso Deus, que, tendo antes alegrado sua misericórdia ao multiplicar-vos e cumular-vos de bens, satisfará depois à sua justiça abatendo-vos, destruindo-vos e exterminando-vos» (Dt. 28). Estas penas cairão sobre aqueles que não se preocupam em praticar a lei de Deus; assim acontecerá que, não tendo querido cumpri-la por obediência, hão de cumpri-la suportando seus castigos.
Não, Deus não permite que sua lei seja violada impunemente, diz-nos o Segundo Livro dos Macabeus (4, 17); mas, como observa o profeta, a maldição está sobre todos os que fogem da lei divina (Sl 118, 21), e o termo de sua fuga, conclui Baruc, conduz à morte (4, 1).
Se há motivo para gemer e chorar, é certamente ver quantas vezes nós mesmos transgredimos e quão frequente e descaradamente se transgride no mundo a lei divina. Deveríamos dizer com Davi: «Desfaleci de dor, vendo os pecadores abandonarem a vossa lei, ó Senhor. Meus olhos se converteram em duas fontes perenes de lágrimas, porque violei os vossos mandamentos» (Sl 118, 53-136).
«Observei os vossos mandamentos, ó Senhor, dizia Davi, porque sempre caminhei na vossa presença» (Sl 118, 168). A lembrança da presença de Deus é, portanto, um meio poderosíssimo para respeitar e observar a lei divina… Outro meio é jamais esquecer que a lei que nos foi imposta é obra de Deus; esse pensamento torna-a respeitável e amável. O terceiro consiste em estudá-la e meditá-la… O quarto consiste em pedir ao Senhor que nos dê inteligência dela e nos ajude com a sua graça a cumpri-la…