Tesouro n.º 105 · Volume II

TRABALHO LAVORO

2 seções · 11 parágrafos · pp. 1220–1224 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE DO TRABALHO

Da Sagrada Escritura se depreende claramente que a necessidade do trabalho e o seu peso foram consequência do pecado. Aquelas palavras do Senhor a Adão: «Por tua causa a terra está amaldiçoada; de agora em diante, ela não te dará senão cardos e espinhos, e, se quiseres tirar dela o teu sustento, terás de regá-la com o suor de tua fronte» (Gn 3, 17-19), soam não somente como uma maldição e uma condenação, mas como uma obrigação estreitíssima ao trabalho, imposta a todos os homens como obra de penitência e expiação.

É verdade que, mesmo antes de sua queda, Adão devia trabalhar, pois lemos que Deus colocou o homem num jardim de delícias, confiando-lhe como tarefa a guarda e o cultivo do mesmo (Gn 2, 15). Mas isso, em vez de um trabalho árduo e penoso, era uma ocupação deleitosa e agradável; o homem trabalhava não para ganhar o alimento com o suor da fronte, mas para exercitar a inteligência e as forças; ele não se fatigava, diz o Crisóstomo, mas, ao mesmo tempo, não permanecia ocioso (Homil. in Gen.).

Aqui podemos observar: 1° a antiguidade do trabalho e da agricultura… 2° a sua dignidade, tanto porque foi estabelecida e ordenada por Deus, como porque todos os patriarcas, isto é, os primeiros personagens do mundo antigo, se dedicaram ao cultivo da terra… 3° o caráter todo especial da agricultura, que foi ordenada ao homem no estado de inocência, com preferência a qualquer outro trabalho, e lhe foi imposta depois da queda, em expiação de seus pecados… Por isso, não causa admiração que Abel e os outros filhos e netos de Adão, como também, mais tarde, Abraão, Isaac, Jacó, José e seus irmãos, Moisés, Jó e Davi, se dedicassem ao pastoreio e à agricultura. Rômulo e os primeiros romanos foram pastores e agricultores. Os reis, escreve Plínio, trabalhavam os campos, e a terra se alegrava por ser sulcada pelo arado daqueles agricultores cingidos de louros e resplandecentes de triunfos. Eles governavam as coisas do campo tão diligentemente quanto as da guerra; preparavam o terreno para receber as sementes com o mesmo cuidado com que afiavam as armas para triunfar sobre os inimigos.

São Paulo exortava Timóteo a trabalhar, como bom soldado de Cristo (II, 2, 13); São Jerônimo escrevia a Rústico: «Dedica-te continuamente a algum trabalho, para que o demônio te encontre sempre ocupado; pois o ocioso é atormentado pelos maus desejos (1)».

«Não ames o sono, diz o Sábio, se não queres cair na indigência; abre os olhos e obterás alimento em abundância» (Pr. 20, 13). «Não te furtes aos trabalhos penosos nem à agricultura, porque ela foi criada pelo Altíssimo» (Eclo. 7, 16). Por cinco razões o Espírito Santo nos recomenda o trabalho: 1° porque afasta a ociosidade, fonte e origem de todos os vícios. 2° Porque o trabalho é uma ocupação tão natural e necessária ao homem quanto o voar o é à ave (Jó 5, 7). 3° Porque o trabalho conserva a saúde, fortalece a alma e o corpo. 4° Porque, em meio aos espinhos do trabalho, brotam as rosas da virtude, como a inocência, a paciência etc. 5° Porque Deus o estabeleceu e dele fez um dever.

2. UTILIDADE DO TRABALHO

Ouçamos, a este respeito, a opinião e o ensinamento dos antigos sábios pagãos. «De tudo aquilo que o homem procura, não há coisa mais deleitável, mais doce nem mais digna do homem livre do que a agricultura», escreve Cícero (Lib. I de Offic.). «A razão é aquela já apresentada por Máximo de Tiro: o cultivador da terra exercita-se por meio de um trabalho contínuo; goza de um ar mais puro e, mais do que qualquer outro, saboreia as belezas e as doçuras da natureza; sua mão é ágil, o pé firme e a compleição robusta: ele já é um soldado exercitado para defender a pátria» (Orat. XXIV).

Entre as coisas necessárias para adquirir a sabedoria, Aristóteles enumerava o trabalho (PLUTARC.); Platão era de opinião que, se não se pode exercitar o corpo sem o espírito, tampouco se pode aperfeiçoar o espírito sem os exercícios do corpo; que um e outro devem trabalhar de comum acordo (LAERT. lib. III). Catão, por sua vez, comparava o homem ao ferro, que é brilhante quando utilizado, mas, de outro modo, enferruja. Por isso lemos que Hércules, para se acostumar ao trabalho, exercitava-se todos os dias em arrancar as sebes de espinheiros que obstruíam a região por ele habitada (PAUSAN. lib. VI). Licurgo exercitava também as mulheres nas corridas, nos combates simulados e no tiro com arco, para que se acostumassem a suportar pesos, a sofrer dores e até mesmo a combater pela pátria, quando fosse necessário (PLUTARC.).

«Assim como toda arte se conserva e se aperfeiçoa por meio dos cuidados que se lhe dedicam, assim também toda graça aumenta com o trabalho e definha na ociosidade», pregava o Crisóstomo (2). E Santo Ambrósio escreve: «Tudo cresce para o bem por meio do trabalho. Quem jamais obterá alguma coisa sem exercício? Porventura o soldado não se exercita para tornar-se baluarte da pátria? Não se adestra o atleta para conquistar o prêmio?» (Lib. 1, de Offic.).

Leiai, rezai, trabalhai, e o tempo vos parecerá sempre demasiado breve… e sereis felizes… «Meu filho, diz o Sábio, sê diligente em teus negócios e afastarás de ti muitas doenças» (Eclo. 31, 27). A atividade no trabalho vivifica e revigora a alma não menos que o corpo… Com o trabalho, o sangue circula, purifica-se e renova-se; os humores biliosos e nocivos dissipam-se, e a digestão se realiza com mais facilidade. O sono é tranquilo e restaura as forças etc. Deus abençoa os homens laboriosos; eles conquistam o afeto de seus semelhantes; gozam em si mesmos de tranquilidade e paz; obtêm vitória sobre seus inimigos, são estimados, acariciados e socorridos em suas necessidades; ou, para dizer melhor, o trabalho não permite que sofram penúria e mantém longe deles a necessidade.

Quanto à alma, o trabalho é um meio eficacíssimo para dissipar as tentações, expulsar os maus pensamentos, manter o demônio afastado e subjugar a concupiscência… Nós mesmos somos o campo do Senhor e, por isso, devemos cultivar-nos… O campo que devemos trabalhar é a nossa alma; as árvores frutíferas são a sobriedade, a castidade e as outras virtudes semelhantes; o cultivador é o homem; a chuva é a graça de Deus; os ventos são as tentações; o calor do sol é o influxo do Espírito Santo; a messe é a recompensa da vida eterna…

A agricultura é, pois, em sentido místico, o cultivo de nossa alma e da alma de nossos irmãos. O campo que Deus nos ordena cultivar em primeiro lugar é a alma, o espírito, o coração, segundo estas palavras de São Paulo aos Coríntios: «Vós sois a agricultura de Deus» (1Cor 3, 9). É preciso ter a máxima diligência para cultivar bem este campo; não temer nem penas, nem suores, nem vigílias, sustentados pela esperança de uma messe abundante, de uma messe que jamais nos faltará eternamente, segundo as palavras do Salmista: «Caminhando, espalhavam entre lágrimas a sua semente, mas, na volta, virão alegres e jubilosos, trazendo pesados feixes» (Sl 125, 7-8). É preciso, antes de tudo, trabalhar pela alma, pela salvação, pelo céu…; depois, trabalhar pelo corpo, mas tendo os olhos voltados para a alma. Todos os trabalhos do corpo e do espírito deveriam ser feitos para a eternidade.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.