«Aplica-te à leitura», Attende lectioni — escrevia São Paulo a Timóteo (I, 4, 13). A propósito destas palavras, Crisóstomo adverte que ninguém pode alcançar a salvação se não se dedicar a boas leituras. Isto, diz ele, não é necessário somente aos monges e religiosos, mas também aos leigos e aos casados; antes, as pessoas que vivem no século têm obrigação mais estrita de dedicar-se a boas leituras, porque estão expostas a maiores distrações, tentações e perigos… Costuma-se considerar a náusea contínua de todo alimento como presságio infalível do definhamento do corpo; ora, o mesmo acontece com respeito à alma. Não há coisa que indique mais seguramente a sua próxima perdição do que a contínua falta de gosto e o desgosto pelos livros de piedade ou de religião. Que se pode, com efeito, esperar de um homem que voluntariamente fecha para si o caminho da salvação ou se coloca na impossibilidade de alcançá-la? Tal é aquele que não procura sustentar-se com boas leituras ou ao menos com piedosas reflexões (1). Diz Santo Agostinho: «Quem ama estar sempre com Deus deve ler e rezar com frequência (2)».
A obrigação de fazer boas leituras é geral… As pessoas do mundo, aturdidas pelos tumultos do século e continuamente distraídas pelos negócios temporais, estão abertas por todos os lados à sedução. Ora, como poderão, em meio ao turbilhão que as arrasta, preservar-se da debilidade interior produzida pela dissipação, inseparável do convívio com os homens? Como resistirão à torrente, como conservarão o fervor necessário a todo cristão, se não reconduzirem frequentemente a alma a Deus, se não purificarem e alimentarem seus afetos com a leitura de bons livros? O trabalhador, o operário interrompe de vez em quando seus trabalhos penosos para restaurar as forças; por que não procurará o homem do mundo recuperar o vigor da alma, que se abate e insensivelmente desaparece em meio às agitações do século? Ora, entre todos os meios para alcançar esse objetivo, não há outro mais eficaz que as boas e piedosas leituras.
«Onde se conservam os livros ditados pelo Espírito Santo, escreve Crisóstomo, o poder do demônio não encontra apoio; ao contrário, daí provém grande consolação para os habitantes; porque a simples visão dos Livros divinos nos afasta do pecado e, quando perseveramos na santidade, serve para nos firmar e confirmar nela. Se, além disso, se acrescenta a leitura, a alma é purificada e se torna melhor, como se tivesse se ocupado das coisas divinas no recinto do santuário; pois Deus conversa com ela por meio das Sagradas Escrituras. Lê-las é uma poderosa defesa contra o pecado; querer ignorar o que elas contêm é expor-se a gravíssimo risco, é correr para um abismo profundo. Como ferem a consciência, são de não pouca utilidade para as almas assim tocadas e estimuladas (3)».
As piedosas leituras alimentam em nós a fé, a esperança, o amor, a humildade, a doçura, a pureza, a paciência, a justiça, a mortificação, o zelo etc.; em suma, abrem-nos, como diz o citado Crisóstomo, as portas do céu (4) e fazem-nos permanecer na presença de Deus, porque, como observa Santo Agostinho, se pela oração nós falamos a Deus, pela leitura Deus fala conosco (5).
Os bons livros são como um arsenal onde se encontra tudo o que é necessário para elevar o edifício da salvação… São uma farmácia provida de remédios contra toda espécie de males… São um jardim em que florescem plantas de toda virtude, como modelo e imitação para qualquer estado de vida… Ora, todos sabem quão grande é a força do exemplo. O orgulho se rebela contra a austeridade da regra; o exemplo esconde, por assim dizer, essa austeridade e, como opera sem ruído, nós mesmos o ajudamos a enganar nosso amor-próprio. As paixões, não vendo os mandamentos de um senhor, mas os feitos de pessoas que estavam sujeitas às mesmas paixões, se não se dão por vencidas, opõem ao menos pouca resistência, e o deleite concorre para levar a cabo uma obra da qual se preveem bons efeitos. Além disso, nos exemplos a virtude não se mostra carrancuda, dura e severa como aparece nos discursos e preceitos, mas viva, animada, graciosa; e tanto mais conquista quanto mais suas graças tocam o coração. Finalmente, o exemplo previne os pretextos, remove as dificuldades e reduz ao silêncio as vozes da nossa delicadeza… Ora, quantos belos, sublimes e imitáveis exemplos não se encontram na leitura de bons livros, e particularmente nas vidas dos santos! …
As frequentes leituras de bons livros iluminam a mente, inflamam o coração de zelo e caridade, enriquecem a memória de piedosas sentenças e de passagens comoventes… Levam a vontade à imitação dos santos e à prática da virtude… Dedicar-se a elas é o melhor emprego que se pode fazer do tempo… Os bons livros são excelentes companheiros que abreviam as horas, sugerem conselhos, advertências, regras de sabedoria, de piedade e de bons costumes, para todas as idades, todos os estados e toda condição social… As santas leituras povoaram os desertos, decidiram vocações, enviaram a regiões longínquas e desconhecidas exércitos de missionários e legiões de virgens corajosas, para salvar almas e conquistar a palma ou, ao menos, o mérito do martírio.
A meditação, a oração e uma vida regrada são as chaves que abrem a inteligência e os tesouros da Sagrada Escritura e de todo bom livro… A leitura nada aproveita se não visar senão a satisfazer uma vã curiosidade. Levemos a ela um desejo sincero de progredir na virtude; jamais a iniciemos sem antes implorar o auxílio daquele que é o autor da graça; procuremos aplicar a nós mesmos aquilo que lemos, tirar proveito disso e tomar firme resolução de praticar o bem… Em vão lê os melhores livros aquele que não decide conformar sua conduta com aquilo que eles ensinam. O conhecimento de nossos deveres, separado das obras, só serviria para nos tornar mais culpados e forneceria a Deus matéria para um juízo mais rigoroso a nosso respeito… Clara e precisa é a sabedoria de São Tiago: «Aquele que ouve a palavra e não lhe obedece é semelhante a um homem que contempla seu rosto num espelho, mas, apenas tendo-se contemplado, vai embora e logo esquece sua fisionomia. Mas aquele que contempla atentamente a lei perfeita da verdade e se conforma com ela, não se limitando a ouvir e esquecer, mas realizando a obra ordenada, esse será feliz em seu agir» (Tg 1, 23-25).
Santo Antônio, interrogado sobre como podia viver no deserto sem livros, respondeu: Meu livro é a criação; nele encontro tudo o que desejo ler acerca de Deus (Vit. Patr.). O firmamento, o sol, a lua, as estrelas, o mar, a terra, as árvores, a relva, as flores, os frutos, as aves, os insetos, os animais domésticos e as feras das florestas são um livro instrutivo e preciosíssimo, sempre aberto, no qual todos os homens podem encontrar e ler aquilo que lhes ensina a conhecer, amar e servir a Deus e a alcançar a salvação com o auxílio da graça…
Outro livro não menos público e instrutivo, mas mais precioso, do qual podemos haurir a ciência mais sublime e riquezas abundantíssimas, é a cruz de Jesus Cristo. Todos podem estudá-lo, e ele é mais vasto que o céu e a terra. Jesus Cristo o escreveu em caracteres inteligíveis para todos, não com pena e tinta, mas com os pregos que lhe trespassaram as mãos e os pés, e com o sangue que jorrou de suas veias. Não é um livro selado, escondido e que encerre doutrinas incompreensíveis, mas aberto, público, com ensinamentos adaptados a toda espécie de pessoas. São Tomás de Aquino e São Boaventura afirmam que aprenderam o melhor de sua ciência aos pés do Crucificado, mais ainda que nos livros (In Vita).
Aqueles que não sabem ou não podem ler, escutem; peçam àqueles com quem vivem que lhes façam a esmola de uma piedosa leitura. Todas as casas dos cristãos deveriam estar providas de uma pequena biblioteca de bons livros, como, por exemplo, a Bíblia, a Imitação de Jesus Cristo, a coletânea das vidas dos santos, o Rodriguez etc.
Quanto é necessária e útil a leitura dos bons livros, tanto é perigosa e nociva a leitura dos escritos maus, sejam eles contra a fé ou contra os costumes. Não devemos, portanto, admirar-nos de vê-la rigorosamente proibida por Deus, pela Igreja, por todos os mestres da vida espiritual, pelos pastores, confessores, pregadores e pela própria razão.
Atestam os Atos dos Apóstolos que aqueles que possuíam livros maus os levaram aos apóstolos e os entregaram publicamente às chamas (At 19, 19). Queimaram aqueles livros que haviam acendido neles o fogo da concupiscência; lançaram-nos às chamas para não serem eles lançados ao inferno. Os pais devem vigiar seus filhos, os mestres, seus alunos, e jamais permitir-lhes a leitura de folhas, obras, opúsculos, romances e qualquer outro livro mau.
«A pena mentirosa dos escritores produziu a mentira» (Jr 8, 8). Assim como certos animais adquirem a cor das plantas ou das folhas de que se alimentam, o homem adquire costumes e características conformes às leituras que faz; por isso, os leitores assíduos de obras frívolas e romanescas tornam-se pouco a pouco frívolos, levianos, desatentos; os leitores de escritos ímpios e irreligiosos perdem a fé e a piedade; os que leem livros obscenos tornam-se monstros de luxúria.
Os livros que ensinam a corrupção, a mentira e o erro têm por efeito sufocar no coração os sentimentos da virtude e semear nele os germes de muitos vícios que, arraigando-se e crescendo, em breve o invadem por inteiro e o esterilizam. Quanto devemos, pois, caminhar com cautela e atenção na escolha de nossas leituras, para não encontrarmos a ruína de nossa alma! … Por pouco a leitura dos romances não levou Santa Teresa à perdição, em sua juventude, como ela mesma teve de confessar; mas, se ela encontrou, por singular graça de Deus, uma via de escape, quantas almas não se perdem miseravelmente para povoar o inferno por essa causa!
Os livros maus são o veneno da juventude e das mulheres; matam a moralidade e a virtude; são o túmulo da honra e de todo nobre sentimento; ressecam o germe de todo bem, desenvolvem o broto de todas as paixões, de todos os vícios, de todas as torpezas; adeus à inocência, ao pudor, à castidade, à honestidade e à prudência no coração daqueles que uma curiosidade culpável impele a ler livros ditados por Satanás a escritores que são seus escravos.
Escritos desse gênero não são menos nocivos à sã literatura do que aos bons costumes; como quereis, com efeito, que apreciem os modelos sãos e severos aqueles jovens que divagam atrás das fábulas dos romances e cuja imaginação, exaltada pelo relato das mais estranhas aventuras, os leva a viver fora do mundo real, a tal ponto que não é raro ver leitores de semelhantes histórias tornarem-se mais estranhos, caprichosos e românticos que os heróis de suas leituras?
Os autores dos romances, salvo poucos, parecem não ter outro objetivo senão exaltar as paixões, minar as bases da convivência civil, escavar os fundamentos da sã moral, debilitar e corromper as almas… Admitamos ainda que tais livros não tivessem o defeito de substituir incessantemente a mentira pela verdade e a frivolidade pela seriedade — o que, com o passar do tempo, não pode deixar de enfraquecer o gosto natural que Deus nos deu pelo verdadeiro e pelo belo —, ainda assim jamais deixariam de encher a mente de fatos extraordinários e improváveis, de ideias vãs e insensatas. Quisera o Céu que a experiência não nos assegurasse que não há no mundo coisa mais leviana e aturdida que uma cabeça exaltada pelo relato de mil aventuras galantes.
As constituições mais robustas não resistem ao veneno de semelhantes leituras. Elas destroem os frutos de toda educação mais sadia, alteram a inocência dos primeiros anos e tiram o amor ao dever. A jovem que antes era modesta, reservada, irradiando amável pudor, depois de ler romances já não conserva o menor vestígio daquela modéstia tão bela na juventude. A mania do luxo e do vestuário sucede ao amor da simplicidade e do recato; quer-se fazer como as outras, procura-se chamar a atenção com trajes estranhos, quer-se agradar ao mundo com maneiras afetadas; pensa-se nisso dia e noite; tem-se a temeridade de expor-se ao risco, e naufraga-se. Eis os amargos frutos das leituras insinuantes e pérfidas, das quais os parentes são às vezes os primeiros a dar o exemplo aos filhos, e os mestres, aos alunos. Que admira, pois, que, na maioria das vezes, todo o trabalho de uma educação caríssima termine por lançar na sociedade uma multidão de indivíduos medíocres, quase sempre corrompidos e escandalosos, incrédulos e ímpios? …