A igualdade, no sentido dos revolucionários, é a coisa mais louca e impossível do mundo. Como seria possível introduzir entre os homens: 1º a igualdade das qualidades naturais, tanto do corpo como do espírito…; 2º a igualdade das alegrias e dos sofrimentos…; 3º a igualdade das inclinações, tanto para o bem como para o mal…; 4º a igualdade de condição, que eliminasse tanto quem manda como quem obedece…; 5º a igualdade de saúde, de beleza, de fortuna, de honras…; 6º a igualdade de caráter, de inteligência, de discernimento, de ciência, de virtude, de juízo e semelhantes?
A desigualdade teve origem na queda do homem: “Por causa dos pecados do mundo, multiplicam-se os seus príncipes”, dizem os Provérbios (28, 2). Do pecado de Adão surgiram os reinos e os principados, os imperadores e os monarcas… Sem o pecado, teríamos sido todos iguais, e cada um se teria regulado segundo a justiça original e nela teria permanecido; mas, tendo o homem se desviado pela culpa, foram necessários, desde então, superiores para reconduzi-lo à ordem, leis, castigos e recompensas… “Por natureza, todos os homens são iguais, observa São Gregório; mas, para o bem da ordem transitória do mundo, é necessário que alguns sejam colocados acima dos outros; esta diferença entre as condições, consequência do pecado, foi estabelecida com justa razão e por vontade de Deus, para que todo homem que se desvia seja reconduzido por outro ao reto caminho (1).”
“A prudência, escrevia Sêneca, ensina-te a viver familiarmente com teus servos. Dir-me-ás tu que são escravos? E eu te respondo: chama-os antes homens. São escravos? Antes, comensais. São escravos? Antes, humildes amigos. São escravos? Não, mas deves chamá-los teus companheiros de serviço, se pensares que a fortuna exerce sobre ambos vós o mesmo império. Se, depois, refletires que aquele a quem chamas escravo é da mesma natureza que tu, goza do mesmo céu, respira o mesmo ar, vive e morre como tu, encontrarás tantas razões para chamá-lo livre quantas ele tem para chamar-te servo e escravo” (3).
“Sede, diz Fílon, e comportai-vos com vossos domésticos como desejais que Deus seja e se comporte convosco. Deus nos ouvirá segundo o modo como nós ouvirmos os outros; ofereçamos, pois, misericórdia, para depois obtermos misericórdia (3).”
“Em Jesus Cristo, escreve São Paulo, não há gentio nem judeu, circunciso nem incircunciso, bárbaro nem cita, escravo nem livre; mas Jesus Cristo é tudo em todos” (Cl 3, 11). “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, de humildade, de modéstia e de paciência; suportando-vos e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver motivo de queixa contra outro; assim como o Senhor vos perdoou, assim também vós. E, acima de todas estas coisas, conservai a caridade, que é o vínculo da perfeição. E triunfe em vossos corações a palavra de Deus, para a qual também fostes chamados, a fim de formar um só corpo (Ib. 12-13).” Eis a única e verdadeira igualdade possível de se estabelecer sobre a terra. Toda outra igualdade é sonho, impostura, mentira, utopia…
Escreve o apóstolo São Tiago: “Meus irmãos, não queirais professar a fé em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo juntamente com a acepção de pessoas. Porque, se entrar em vossa assembleia um homem que tenha um anel de ouro e esteja esplendidamente vestido, e lhe disserdes: Senta-te aqui comodamente; e ao pobre disserdes: Tu, fica de pé ali, ou senta-te no chão, junto ao estrado de meus pés, não estais acaso fazendo distinção entre vós mesmos e tornando-vos juízes iníquos? Ouvi, meus irmãos diletíssimos: porventura não escolheu Deus os pobres deste mundo, ricos na fé e herdeiros do reino que Deus prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Não são acaso os ricos que vos oprimem com prepotência e vos arrastam aos tribunais? Não são eles que blasfemam o belo nome pelo qual fostes chamados? Se, porém, observais a lei régia segundo as Escrituras: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem. Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado e sois condenados pela lei como transgressores” (Tg 2, 1-9).
“Nossa religião, diz São Jerônimo, não faz acepção de pessoas; ela não examina a condição, mas os sentimentos de cada um; julga o nobre e o plebeu, o senhor e o servo segundo seus costumes: a suprema nobreza, diante de Deus, consiste em resplandecer pela virtude (4).”
A acepção de pessoas perverte a justiça, fere a caridade, rompe a unidade. A lei de Jesus Cristo é a lei da caridade universal, que ordena amar todos os homens… “Não façais diferença entre as pessoas, ordenava já Deus aos israelitas, mas dai ouvidos tanto ao pequeno como ao grande; não tereis consideração especial por pessoa alguma, porque o juízo pertence a Deus” (Dt 1, 17).
Em vosso julgamento, não olheis para a condição das pessoas, observa aqui São Jerônimo; e, nos tribunais, defendei a causa do pobre, se ela estiver conforme a justiça, cuidando de não preferir-lhe o rico. Não vos guiem nem o ódio nem o afeto, mas a pura e perfeita justiça (Comment. in haec verb. Deut.)
Observai como Natã repreende o rei Davi: Elias, Acab; Eliseu, Jorão; Isaías, Manassés; Daniel, Nabucodonosor e Baltasar; Jeremias, Joaquim e Sedecias; João Batista, Herodes; Jesus Cristo, os escribas e os fariseus…
“O Senhor é juiz, diz o Eclesiástico, e a glória dos homens nada vale a seus olhos” (Eclo 35, 15). Ele não faz acepção de pessoas, acrescentam os Atos dos Apóstolos (At 10, 34).
Na comunidade dos primeiros cristãos, todas as coisas eram colocadas à disposição de todos, porque eram um só coração e uma só alma (At 4, 32). O rico socorria o pobre; o pobre rezava, amava e trabalhava pelo rico. Eis a igualdade… Igualdade diante de Deus… diante da religião… diante da lei… Mas querer estabelecer a igualdade de fortuna, de honras e coisas semelhantes é tentar o impossível. Aqueles que procuram semelhante igualdade nada mais querem senão a desordem, a opressão, a injustiça, a ruína da sociedade… Alegam um pretexto falacioso, sob cuja máscara podem tudo minar, derrubar e destruir…