Tesouro n.º 64 · Volume I

EDUCAÇÃO EDUCAZIONE

3 seções · 11 parágrafos · pp. 656–659 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE DE UMA BOA EDUCAÇÃO

Três coisas são necessárias à terra para que produza abundante colheita: um bom cultivo, uma boa semente, um bom cultivador. A terra é a criança; o cultivador é o educador; a semente são os sãos princípios dos quais a criança deve estar imbuída. Assim fala o pagão Plutarco (Tract. de lib. educ.).

Escreve o Crisóstomo: “Quereis deixar rico o vosso filho? Ensinai-lhe a ser doce e bom. Se ele for mau, ainda que, ao morrer, lhe deixeis tesouros imensos, não deixareis ninguém que possa guardá-los.

É melhor que os filhos mal-educados sejam pobres do que ricos (1).” O mesmo doutor ensina que os pais não têm dever mais grave a cumprir do que o de dar uma educação cristã à sua prole, proporcionando-lhe excelentes mestres, capazes de inspirar-lhe bons sentimentos e fazer crescer a virtude em sua alma.

Platão vê na boa educação a base da sociedade e das nações. A boa educação da juventude é, a seus olhos, o mais importante dos negócios públicos. Ele inclui entre os deveres do governo o de prover à honesta e santa educação da juventude desde a primeira infância (2). Essa linguagem de um pagão deveria cobrir de confusão e dilacerar de remorsos os muitos pais que pretendem ser cristãos e, entretanto, educam ou mandam educar seus filhos na impiedade, na incredulidade e na imoralidade. O mesmo Platão relata, em seu Alcibíades, que os filhos dos reis da Pérsia, chegados aos quatorze anos, eram confiados a quatro excelentes professores, escolhidos com todo o mais diligente cuidado. A qualidade particular do primeiro devia ser uma grande sabedoria, e ele tinha por tarefa instruí-los nas coisas do culto divino; o segundo, que devia distinguir-se por sua justiça, ensinava-lhes a amar e praticar durante toda a vida a justiça e a verdade; o terceiro, notável por sua sobriedade, adestrava-os a vencer as próprias paixões, a refrear a gula e moderar as demais inclinações viciosas, em uma palavra, a reinar sobre si mesmos; o quarto, finalmente, famoso por uma coragem a toda prova, esforçava-se por torná-los corajosos e intrépidos, para que jamais cedessem ao temor.

“O primeiro e principal cuidado deve ser dirigido à educação da juventude, diz Aristóteles; se esta faltar, o Estado estará condenado a perecer (3).”

A república, segundo Cícero, não tem dever mais importante nem mais excelente do que instruir e educar a juventude nos bons costumes e incutir-lhe aversão ao amor das riquezas (Lib. II de Offic.). Xenofonte é da mesma opinião.

Plutarco inculcava que, assim que nascesse uma criança, se lhe dispusessem os membros de tal modo que não permanecesse deformada; ora, a partir desse mesmo instante, deve-se trabalhar para formá-la nos bons costumes. Na tenra idade é fácil inocular bons princípios, inclinar a alma a uma perfeita disciplina; mais tarde isso se tornaria dificílimo, para não dizer impossível, segundo aquela máxima de Grócio: um vaso de barro conserva por longo tempo o odor do líquido do qual foi embebido pela primeira vez (4).

2. VANTAGENS DE UMA BOA EDUCAÇÃO

“O filho bem-educado constitui a alegria de seu pai, dizem os Provérbios; o mal-educado é causa de tristeza para sua mãe” (10, 1). Por isso, “dai uma boa educação a vosso filho, e ele será vosso alívio e vossa alegria” (Ib. 29, 17). E não somente isso, mas ele será também o louvor e a glória daquele que assim o instruiu, segundo a palavra do Sábio (Eclo 30, 2). Sim, o filho educado segundo os princípios religiosos é a consolação, a honra, a glória e o orgulho de seus pais. Diz bem aquele provérbio dos árabes: A educação é o diadema do jovem, e a inteligência, seu colar de pérolas.

“É muito útil, afirma Sêneca, dar bem cedo uma conveniente educação aos meninos, os quais devem ser governados ora pelo freio, ora pelo aguilhão (5).” Quem assim proceder com seus filhos, diz o Sábio, despertará a inveja de seus inimigos e terá de que se vangloriar entre seus amigos (Ib. 30, 3).

O 1º benefício de uma educação sadia é tornar-se motivo de alegria para os pais e para os filhos; o 3º é dar ao menino uma verdadeira riqueza; o 3º é atrair sobre os pais e os filhos os louvores e as honras…; o 4º é confundir os invejosos e envergonhar os indolentes que negligenciam a educação de sua prole, enquanto os amigos da família e do pai que tem um filho bem-educado se alegram com isso…; o 5º é prolongar, de algum modo, a vida do pai, fazendo-o reviver no filho, como diz precisamente a Escritura (Ib. 30, 4). Uma educação sábia e cristã dada a um jovem preserva, sob certo aspecto, seu pai da morte, porque, quando este deixou a terra, parece que ressuscita e revive no próprio filho, que reproduz fielmente sua conduta, sua sabedoria e sua virtude, tornando-o, de certo modo, imortal… Isto também é verdadeiro acerca dos bons reis, dos magistrados retos, dos santos sacerdotes etc. Eles deixam depois de si virtuosos sucessores, admiráveis discípulos que são sua imagem esculpida e dão testemunho de seus méritos e de suas virtudes…

3. DESGRAÇAS DE UMA MÁ EDUCAÇÃO

Uma educação desleixada, negligente, debilitada, sem bons princípios, sem moralidade, tira toda a força da alma e do corpo; produz efeitos inteiramente contrários aos de uma boa educação (Veja o número anterior e o artigo: DEVERES DOS PAIS, no n. 10: Culpa dos pais etc.).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.