Tesouro n.º 75 · Volume II

FIM DO HOMEM FINE DELL’UOMO

2 seções · 18 parágrafos · pp. 840–845 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. QUAL É O FIM DO HOMEM

Qual é o fim do homem? Deus. Qual é o seu fim último? Somente Deus… Deus fez o homem para que O conhecesse; conhecendo-O, O amasse; amando-O, O possuísse; e, possuindo-O, fosse sumamente e eternamente feliz.

Assim como o cavalo foi feito para correr, o pássaro para voar, o boi para arar, o fogo para aquecer, o sol para iluminar, a água para saciar a sede, o pão para alimentar; assim também o homem nasceu para conhecer, amar e servir a Deus, a fim de que, gozando da visão e da posse de Deus, seja feliz para sempre.

O mundo, diz Lactâncio, foi criado para servir de berço e morada ao homem; nós nascemos para conhecer a Deus, criador do mundo e nosso; conhecemo-lo para servi-lo; servimo-lo para receber a imortalidade como recompensa de nossos serviços; recebemos, então, o prêmio da imortalidade, a fim de que, tendo-nos tornado semelhantes aos anjos, sirvamos para sempre ao nosso Pai e Senhor supremo, e constituamos o reino eterno de Deus. Este é o fim último das coisas, este o segredo de Deus, este o mistério do mundo (1).

O fim de todo discurso, o objetivo de toda palavra, ao qual todos indistintamente devemos prestar atenção, consiste, diz o Eclesiastes, em temer a Deus e observar os seus mandamentos; pois nisso consiste todo o homem (Ecl 12,13). Com razão, portanto, exclama São Bernardo: «É meu dever amar infinitamente aquele por quem existo, vivo e sinto: eu me chamaria um ser indigno e ingrato se não o amasse. Senhor Jesus, é verdadeiramente digno de morte, ou antes, já está morto, aquele que se recusa a viver para vós; quem não saboreia a vós tem o sentido pervertido; quem quer agir sem vós é como se não existisse, ou melhor, é um nada. Afinal, que é o homem, ou por que ele existe? Certamente não por outra razão senão porque vós vos manifestastes a ele e para que ele vos conheça. Por vós, ó Deus, criastes todas as coisas, e aquele que quer existir para si mesmo, e não para vós, começa a ser um nada em meio a todas as coisas. Teme a Deus e pratica a sua lei, diz a Escritura, porque isso é todo o homem. Ora, se isso é todo o homem, sem isso todo homem é nada (2)». Temer a Deus e observar os seus mandamentos é o que constitui o homem, isto é, o que constitui o fim do homem. E, se perguntardes quem é o homem, Salomão responde: é aquele que teme e obedece a Deus. Os homens que não procedem assim parecem homens, mas, na realidade, são leões altivos, ou harpias rapaces, ou tigres ferozes, ou lobos vorazes, etc. Portanto, o homem que vive impiamente não é um homem, mas um animal que reveste as formas do homem. Isso também observou Epicteto, de quem Laércio nos transmite esta sentença: «Digno do nome de homem não é aquele que não aplica o espírito à virtude (3)».

Com razão, portanto, o Salmista suplicava a Deus que lhe desse a conhecer o seu fim, para que soubesse aquilo que lhe faltava e pudesse alcançá-lo (Sl 38,4). Com razão pensava nos dias antigos (Sl 142,5) e meditava continuamente nos anos eternos, que são Deus (Sl 76,5).

Dizem-nos os Provérbios que «Deus fez todas as coisas para si mesmo» (Pr 16,4). Sim, Deus criou o mundo e tudo quanto nele se contém para a sua glória, para que ele seja o fim último de todas as coisas, assim como é a causa primeira, o princípio, como ele mesmo afirmou no Apocalipse (1,8). Todas as criaturas têm por fim a glorificação de Deus, para proclamar e celebrar por toda parte o poder, a misericórdia, a justiça e a sabedoria de seu Criador. Por isso, Deus é o mesmo em todas as coisas, e em cada coisa é semelhante a si mesmo… «Deus, escreve Santo Agostinho, é igualmente grande nas coisas mais humildes como nas mais nobres (4)».

Note-se que, se Deus fez todos para si mesmo, não os fez, contudo, por desejo ou necessidade de glória, mas porque assim o exigem a natureza e a ordem das coisas. Com efeito, a criatura se refere ao seu criador e se ordena a ele, em virtude de sua essência íntima e integral, como ao seu fim e sumo bem. Do mesmo modo, a natureza e a dignidade do Criador são de tal grandeza e majestade que exigem que tudo seja referido a ele; mais ainda, pertence à essência da divindade ser o único fim de tudo. Não pode ser de outra maneira, e seria absurdo pensá-lo… Sim, o sol…, a lua…, as estrelas…, a terra…, os mares…, os elementos…, as estações…, as árvores…, os animais…, os minerais…, os vegetais…, todos tendem ao objetivo que Deus lhes assinalou, a utilidade do homem, e, por isso mesmo, à glorificação de seu autor… Se cada coisa não tendesse a este fim, haveria o caos…

Mas, se Deus fez tudo para si mesmo, se toda criatura irracional e até mesmo inanimada corresponde ao seu fim, que é proclamar e magnificar a Deus como fim último da criação, não será justo e indispensável que nós nos unamos a ele numa mesma intenção e façamos todas as nossas obras para seu louvor e glória, repetindo com Santo Inácio de Loyola: Seja tudo para a maior glória de Deus — Ad maiorem Dei gloriam?

Contudo, embora Deus tenha criado todas as coisas para si mesmo, como fim último, criou-as, entretanto, mediatamente para os justos que lhe obedecem; para eles formou o sol, a lua, o fogo, as árvores, os frutos, os animais etc., a fim de que, quer por si mesmas, quer por meio das diversas criaturas, todas as coisas se refiram a ele. Com efeito, se Deus faz tudo para o homem, é natural que o homem, por sua vez, faça tudo para Deus… Deus, diz São Bernardo, faz tudo para si mesmo, neste sentido: por bondade gratuita, faz tudo para os seus eleitos, para o benefício deles, que é a causa de seu agir; e este é o fim de Deus que São Paulo via nos acontecimentos humanos (2Tm 2,10).

Ensina São Tomás que Deus é a primeira causa eficiente, exemplar e final de todas as coisas, na medida em que Deus, ao produzi-las, quis comunicar-lhes a sua bondade, e elas tendem a participar dela. O fim é a intenção daquele que age. Mas Deus não fez as coisas para si como fim de si mesmo, porque Deus não tem nenhum fim que lhe diga respeito, mas é o fim de todas as coisas, para o fim e o bem das criaturas. Em Deus, a sabedoria, a bondade e o agir são uma só e mesma coisa com ele e, por conseguinte, ele não pode ser o fim delas. Dizer, portanto, que Deus criou tudo para si mesmo significa que criou todas as coisas com a intenção de mostrar e comunicar às suas criaturas a sua bondade, a sua sabedoria, o seu poder, a sua magnificência, a sua glória etc.; e isso constitui o bem das criaturas, não o de Deus. Com efeito, Deus, por essa comunicação de si mesmo, nada ganha, pois nada lhe pode ser acrescentado, encontrando-se nele todas as coisas essencialmente. Daí resulta que a glória com que os homens, como os anjos e todas as criaturas, o glorificam nada lhe acrescenta, pois ele possui em si mesmo a glória incriada e infinita; mas exige essa glória exterior para que as criaturas recebam dele a sua essência, as suas propriedades e qualidades e todo bem.

O próprio Platão, perguntando por que Deus criou o mundo, responde: «Deus é a suma bondade e, como tal, não é capaz de inveja; quis, portanto, que as criaturas participassem dele, na medida em que cada uma é capaz de bem-aventurança (5)». «Ó Senhor santíssimo, exclama Álvarez, em primeiro lugar, vós sois o fim último de todas as coisas, e as criaturas não buscam senão a vós como seu fim último: com efeito, criastes tudo com o vosso poder, não porque vos faltasse alguma coisa, mas para que cada coisa, segundo a sua natureza e capacidade, participasse da vossa perfeição infinita. Seu fim, portanto, é tender para vós, revestir-se da vossa semelhança, na medida de sua capacidade, e aproximar-se de vós, seu Criador. E até as criaturas irracionais, impelidas por sua própria natureza, tendem para vós como para o seu fim, pois buscam o seu próprio bem, e este é uma certa participação da vossa bondade. Só o homem se separa de vós, pecando, e se volta para a abjeção da criatura. Em segundo lugar, todo o universo repousa em seu fim e, quando dele é desviado, não cessa de agitar-se até que o alcance novamente. Vós sois, portanto, ó Senhor, o nosso repouso; só a vossa majestade pode preencher o nosso coração, só a vossa bondade e doçura podem saciá-lo. Nem as honras, nem as riquezas, nem os prazeres, nem os bens preenchem o coração, mas somente o bem infinito e incriado, que sois vós, meu Deus, pode preenchê-lo e torná-lo bem-aventurado. Vós sois, ó Senhor, a cidade, o porto para o qual tendemos, o leito sobre o qual podemos encontrar repouso, o bastão que nos sustenta. Em terceiro lugar, quando eu vos possuir, ó Senhor, vós que sois o fim último e único, então serei infinitamente bem-aventurado» (In Isai.).

As criaturas irracionais tendem ao seu fim glorificando a Deus, assim como a obra louva o artífice, a casa honra o arquiteto e o quadro dá glória ao pintor.

Deus criou todas as coisas para a sua glória incriada, que é ele mesmo, isto é, para comunicar às criaturas a glória de suas perfeições infinitas, e não para a glória criada que delas deriva para ele. Ora, embora da glória incriada resulte natural e necessariamente a criada, que é aquela pela qual as criaturas louvam o Criador, porque essa glória é devida em toda justiça a Deus por todas as criaturas, contudo, essa glória criada não pôde ser propriamente o fim de Deus; ele não pôde desejá-la de tal modo que, para obtê-la, tivesse criado o mundo e tudo o que existe no universo; tanto porque essa glória está fora de Deus e, sendo criada, é coisa demasiado pequena, como porque ela nada aumenta absolutamente à glória incriada e infinita que Deus possui em si mesmo desde toda a eternidade, e finalmente porque essa glória ou glorificação deve ser considerada antes um bem das criaturas que um bem de Deus. Com efeito, o bem e a felicidade das criaturas consistem em conhecer, amar, servir e louvar o Criador, segundo a sentença de Santo Agostinho: «Para vós, ó Senhor, nos criastes, e o nosso coração não tem repouso até que descanse em vós (6)».

O homem traz em si a fisionomia de Deus: 1° como o filho traz a do pai, ao qual deve amor, respeito e obediência; 2° como propriedade de seu senhor, a quem deve reverenciar e temer; 3° como soldado obrigado a manter-se fiel e obediente ao seu comandante; 4° como ministro e despenseiro dos bens de seu senhor, a quem deve prestar exatas contas do uso que fez das criaturas que lhe foram confiadas para o serviço, para perpétuo louvor e glória do Senhor seu Deus.

2. TUDO PROVA QUE SOMENTE DEUS É O FIM DO HOMEM

Primeiramente, a razão me diz que venho de Deus; não é, pois, justo que consagre toda a minha vida a retornar para Deus? … A razão me prova que tudo o que tenho vem de Deus: nada, portanto, é mais justo do que, tendo tudo de Deus, tudo a ele referir… A razão me sugere que tendo para Deus; ele é, por isso, o meu fim último.

Em segundo lugar, o coração, com sua capacidade, com seus desejos, com suas necessidades imensas e insaciáveis, diz-me claramente que só Deus é o meu fim. O coração é irresistivelmente levado a desejar a felicidade; dela necessita, está continuamente à sua procura… Mas a verdadeira felicidade, a felicidade capaz de aplacar os anseios do coração, nunca esteve nem jamais estará nas criaturas… Não se encontra em outro senão em Deus… Só Deus, portanto, é o meu fim, se somente nele o meu coração encontra satisfação e paz.

Em terceiro lugar, a consciência demonstra-me com toda clareza que só Deus é o meu fim: 1° pelo remorso que me dilacera quando não tendo para Deus; 2° pela paz, pela alegria e pelo contentamento que experimento quando me volto somente para ele, o procuro e o desejo.

Finalmente, a fé ensina-me que só Deus é o meu fim. 1° A fé, recordando-me a criação, diz-me que fui feito à imagem de Deus, e que essa imagem foi formada para gozar de Deus; ora, a imagem existe para ser a reprodução de seu modelo. 2° A fé revela-me que o homem caiu precisamente porque quis afastar-se de Deus, seu único fim. 3° A fé põe diante de mim a redenção; ora, por que Deus me teria redimido, se eu não tivesse sido feito para ele, se ele não fosse o meu fim último? 4° A fé oferece-me os sacramentos, as graças, a lei de Deus, a religião etc., como meios de tender para Deus, meu único fim. Esses grandes meios provam-me que só Deus é o meu fim; do contrário, Deus me apresentaria meios inúteis e ridículos.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.