Tesouro n.º 72 · Volume II

FALSA CONFIANÇA FALSA CONFIDENZA

6 seções · 15 parágrafos · pp. 803–808 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. PODE-SE CAIR EM QUALQUER LUGAR E TEMPO

«Ninguém, diz São Bernardo, julgue-se forte e irrepreensível, nem no céu, nem no paraíso, e muito menos sobre a terra; pois o anjo caiu no céu, sob os próprios olhos de Deus; Adão caiu no paraíso terrestre, onde abundava de todas as coisas; Judas caiu sobre a terra, embora fosse discípulo da escola de um Deus, apóstolo do Salvador. Por isso digo: ninguém confie nem no tempo nem no lugar, ainda que este fosse um claustro; porque não é o lugar que santifica os homens, mas os homens é que santificam o lugar (1)». De bom pode-se tornar mau; e, se muitos, como diz São Jerônimo, de terrenos se tornam celestes, muitos também, de celestes, transformam-se em terrenos (2). O apóstolo São Paulo era terreno e tornou-se celeste; mas, justamente por isso, exortava aqueles que se julgavam firmes a cuidarem para não cair: (1Cor 10, 12). Quem é celeste não deve estar sem temor, e quem é terreno não deve carecer de confiança, mas empenhe-se em tornar-se celeste.

2. NÃO SE DEVE EXPOR-SE TEMERARIAMENTE

É sentença do Espírito Santo que aquele que brinca com o perigo acabará por cair nele (Eclo 3, 27). Por isso, São Paulo desejava aos Coríntios que jamais encontrassem outra tentação senão a humana (1Cor 10, 13), isto é, uma tentação que, por não ser muito forte, se vence facilmente; de outro modo, correriam grande risco de cair, tanto mais se a ela se expusessem… Quem está perto do perigo, observa São Cipriano, não pode permanecer seguro por muito tempo (3).

É uma confiança grandemente prejudicial aquela de quem se expõe ao perigo próximo com a falaz ilusão de não cair, de conservar-se ileso em meio ao mal. Incertíssima, ou antes, quase desesperada, é a vitória quando alguém se obstina em querer combater no meio do exército inimigo. É impossível sair do meio das chamas sem queimaduras; e, se as chamas são violentas, nelas se morre reduzido a cinzas… Raramente acontece que não caia no precipício aquele que adormece à sua beira… Em tais casos, é mais seguro exagerar o temor do que diminuí-lo e confiar excessivamente; é mais útil que o homem reconheça a própria fraqueza e não se exponha, em vez de ambicionar o nome de forte, expor-se e sair fraco e ferido da ocasião do mal, que deveria ter sido prudentemente evitada…

«Não me sentei na assembleia dos vaidosos, afirmava Davi de si mesmo, nem andarei com os que praticam o mal; sempre aborreci as reuniões dos maus e não me sentarei com os ímpios» (Sl 25, 4-5). Nunca me associei àquele cujo coração é corrupto, nem conheci os pérfidos, que de mim fugiam (Sl 100, 4).

Lemos no Gênesis que Dina, filha de Lia, por curiosidade quis deter-se para olhar as mulheres da região por onde passava; Siquém, filho de Hemor, príncipe daquela região, raptou-a e desonrou-a (34, 1-2). Desgraça deplorável! Todos os dias somos testemunhas de semelhantes quedas; vemos jovens que se expõem e perdem a virtude e a fé em consequência de uma culpável imprudência… Permaneça, portanto, a mulher, diz São Martinho, recolhida em sua casa; sua primeira virtude, sua vitória, consiste em não ser vista. Lembrem-se as mulheres de que Dina pagou muito caro por sua curiosidade, pois, como já advertia Tertuliano, uma virgem que se mostra em público torna-se vítima das paixões que excita (De spectac.).

Aprendam, pois, as jovens a subtrair-se aos olhares; nunca se exponham imprudentemente a ver nem a ser vistas. Tomem como exemplo a Santa Virgem, que deve ser o modelo delas. Ela tremeu à vista de um anjo, julgando-o um homem (Lc 1, 29). Fujam das más companhias e nunca delas participem, nem com a mente, nem com o coração, nem com a vontade; jamais lhes deem ouvidos, e muito menos a mão; detestem suas palavras e obras tenebrosas: «A estrada dos perversos está repleta de armas e de assassinos, dizem os Provérbios; mas aquele que guarda a própria alma, fuja para longe deles» (Pr 22, 5). Saibam que os homens corrompidos permanecem de olhos abertos e percorrem toda a noite para prejudicar e exterminar enquanto os outros dormem; enquanto os bons permanecem confiantes e sem temor, eles vigiam como ladrões e malfeitores para arrebatar a honra e o céu de uma alma inocente e imortal, que custou o sangue de um Deus.

De quantos, infelizmente, se pode dizer com Oseias que imitam a pomba seduzida, que já não tem entendimento (Os 7, 11). Pois, 1º, essa pomba vê seus filhotes serem-lhe tirados todos os meses; contudo, retorna sempre para pôr seus ovos no mesmo ninho, chocá-los até que eclodam e alimentar sempre seus pombinhos; cem vezes lhos tiram e cem vezes ela retorna. Tal pessoa vê, por experiência, que certa pessoa, casa ou grupo é fatal para sua virtude, e, contudo, não deixa de frequentá-la… Ó pomba seduzida e estúpida! De modo bem diverso procedem os outros animais; assim que percebem que o lugar de seu ninho foi descoberto, vão para outro lugar e não se deixam mais ver. Assim deve fugir todo bom cristão, logo que percebe que alguém procura fazê-lo esquecer as promessas do batismo… 2º, a pomba doméstica não evita as redes quando é atraída para elas; assim procedem os cegos amantes do mundo, seduzidos pelos atrativos dos prazeres… A ave apanhada na rede está perdida; em vez da isca que lhe aguçou o apetite, encontra nela a morte ou a perda da liberdade. Tal é a sorte daquele que, por falsa confiança, vai ao encontro dos perigos.

3. NÃO SE DEVE CONFIAR NAS CRIATURAS

Não confieis nas criaturas, nem nos filhos dos homens, ainda que poderosíssimos, diz o Salmista, pois junto deles não se encontra salvação (Sl 140, 5, 2); e vã e perigosa, diz o Sábio, é a esperança que neles se deposita (Sb 3, 11). Nunca confieis naquele que vos lisonjeia e vos assegura que não há perigo algum naquele festim, naquela dança, naquele teatro, naquela relação, naquela reunião, naquela casa, naquela vigília, naquelas congregações. «Não confieis, diz Ezequiel, naqueles que apoiam os cotovelos sobre as almofadas e colocam travesseiros sob a cabeça de pessoas de todas as idades para seduzir as almas. Ai deles!» (Ez 13, 18). Repousar nas criaturas é como apoiar-se numa cana que se quebra e vos transpassa; é construir sobre a areia, sobre o nada…

4. NÃO SE DEVE CONFIAR EM SI MESMO

Jesus diz a Pedro: Tu me negarás. Pedro responde-lhe, altivo e resoluto: Ainda que isso me custasse a cabeça, não te renegarei (Mt 26, 35). Eis uma grande confiança em si mesmo; mas será punido por isso: e, pouco depois, o ousado Pedro, à voz de uma simples criada, renegará — e não uma só vez, mas três — o seu divino Mestre diante de todos (ibid. 70)… De onde veio mudança tão grande e repentina? Da excessiva segurança nas próprias forças, do expor-se voluntariamente ao perigo. Se Pedro tivesse sido prudente e reservado, ter-se-ia imiscuído naquela horda de tresloucados e depravados, sabendo que nada poderia fazer em favor de seu Mestre?… Porque é curioso, porque quer saber o que se dirá e fará, expõe-se temerariamente e julga-se forte; uma falsa confiança o cega. O que acontece então? Nega três vezes a Jesus Cristo; antes que os inimigos do Salvador o condenem à morte e o matem, Pedro mata a própria alma. Oh! quantos imitadores tem Pedro em sua falsa confiança; por isso, quantos seguidores tem em seu delito!… Note-se que Jesus lhe havia predito sua tríplice negação. — Não importa; cheio de si, ele quer enfrentar os perigos… Por acaso aquela pessoa não percebe todos os dias que, inflada de cega confiança, corre para a própria ruína sem temer coisa alguma, julgando-se invencível? É o caso de dizer com São Paulo: «Julgando-se sábios, tornam-se insensatos», renunciam à alma e à razão (Rm 1, 22).

5. MAS DEUS É BOM

Mas por que, replicará alguém, haveria de faltar confiança em um Deus tão bom? Não seria isso fazer uma injúria à sua misericórdia? Acaso ele não nos recomenda ter uma confiança inabalável? «Ah! responde Santo Agostinho, não imagines Deus tão misericordioso a ponto de já não veres sua justiça; cuida para que, quando tiveres acumulado um tesouro de ira para o dia da vingança, não tenhas de experimentar a justiça daquele Deus cuja misericórdia desprezaste (4)». Quanto mais tenso está um arco, diz São Jerônimo, mais longe e velozmente voa a flecha disparada. Assim, Deus é longânimo ao esperar que o pecador faça penitência; mas, se este, cheio de quimérica confiança, usa o tempo que Deus lhe concede para continuar a cadeia de seus delitos, então é atingido sem remissão pelo dardo da cólera divina…

Esta, diz São Lourenço Justiniani (5), move-se lentamente para a vingança, mas compensa a demora com a gravidade do suplício. O Altíssimo tarda em punir; mas aqueles a quem tolera por mais tempo, para que se convertam, se não se emendarem, condena mais rigorosamente; quanto mais os espera para a penitência, tanto mais severo se mostrará ao julgá-los, se permanecerem incorrigíveis.

Deus é bom. Sim, mas é bom precisamente porque é justo; se fosse injusto, seria bom? E seria justo se deixasse o delito impune? Sim, Deus é bom, e infinitamente bom, mas isso é motivo para zombar dele, para ultrajá-lo e, sobretudo, para continuar no mal? …

6. MAS, DIRÁ ALGUÉM, VÊ-SE POR TODA PARTE A IMPUNIDADE

Ouvi o Eclesiástico: «Não digas: Eis que pequei, e que coisa má me aconteceu?» (Eclo 5, 4). Os pecadores são verdadeiramente insensatos: pecando, incorrem na condenação eterna; perdem a graça de Deus, que é o tesouro mais precioso; lançam fora o amor de Deus; desperdiçam todas as suas virtudes e méritos; fecham para sempre o céu para si e, entretanto, dizem alegres e arrogantes: Nós pecamos, e que mal nos aconteceu? Como se não fosse o cúmulo dos males ter atraído sobre a própria cabeça tantos males e ter perdido tantos bens! Como se o supremo juiz dos vivos e dos mortos não devesse retribuir a cada um segundo as suas obras! Como se não fosse verdade que a sua justiça, assim como a sua misericórdia, têm cada qual os seus tempos! Como se o castigo não aguardasse o malfeitor! São verdadeiros loucos, cegados pelo demônio e pelas paixões… Ah! «não acrescentes pecado a pecado, e não digas: A misericórdia de Deus é grande, ele nos perdoará a multidão das nossas ofensas; pois a misericórdia e a ira vêm prontamente dele» (Eclo 5, 5-7).

Vê-se a impunidade triunfar por toda parte, dizeis. Mas o abandono em que Deus deixa o pecador não é o mais terrível dos castigos? Mas a cegueira e o endurecimento espiritual em que Deus permite que o pecador caia não são já um efeito da justiça divina? Mas as quedas e recaídas, os hábitos inveterados, não são um princípio de reprovação? Mas a morte no pecado, a impenitência final, não é uma pena irremediável, o cúmulo da desgraça?

Vê-se a impunidade inundar toda parte, dizeis. Mas a fé que se enfraquece, a caridade que se extingue, a oração negligenciada, os sacramentos desprezados, o tempo que se perde todos os dias, a lei de Deus calcada aos pés, as graças recusadas não são outros tantos tesouros de vingança acumulados para a eternidade? …

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.