A tibieza é uma vontade irresoluta, sonolenta, duvidosa, enfraquecida… O homem tíbio não sente gosto por coisa alguma, nem mesmo pelo céu (Sl 105,24). Para ele não têm atrativo nem a graça, nem a virtude, nem a oração, nem a palavra de Deus, nem a confissão, nem a comunhão; é como um homem em agonia (Sl 106,18). A acídia o adormece, o entorpece, de modo que já não dá atenção à lei de Deus, dela se afasta e desfalece de exaustão espiritual (Sl 148,28; 142,7). É semelhante àqueles deuses dos gentios que têm boca, diz o Profeta, e não falam; têm olhos e não veem; têm ouvidos e não ouvem; têm narinas e não cheiram; têm mãos e não as movem; têm pés e não caminham (Sl 113,5-7). Dele se pode dizer aquilo que Isaías lamentava do povo israelita: parece que ainda reza e honra a Deus, mas o faz sem gosto e apenas com os lábios; seu coração está longe de Deus (Is 29,13); é verdadeiramente uma terra estéril e vazia (Gn 1,2). Assim fala São Bernardo dos tíbios: Há pessoas pusilânimes e indolentes que caem sob o peso, necessitando, para caminhar, de varas e do açoite; não têm verdadeiras alegrias nem profunda tristeza; rara e de pouca duração é a sua semicontrição, lenta e covarde a sua obediência, sem vigor e sem gosto a sua conversação, dispersa e fria a sua oração; seus pensamentos são terrenos e suas palavras, levianas; de pouco ou de nada lhes serve a leitura; medíocre é o seu pudor, e sem força a razão; a disciplina nada vale, e pesado é o temor do inferno. Por esses sinais se reconhece o homem tíbio (Serm. LXIII, in Cant.). Ele se assemelha a Sansão nos braços de Dalila; sua alma perdeu toda a energia; cai num esgotamento pouco diferente da morte (Jz 16,16).
O homem tíbio e indolente tem uma fé quase morta, uma esperança que vacila, uma caridade que definha. O homem tíbio está no pecado e não o sabe; está enfermo e não percebe, quando não se julga saudável e robusto. Persuade-se de que é bom, vive na segurança, como se nada lhe faltasse, e não vê, o desgraçado, que lhe falta tudo; que se encontra na condição daquele infeliz do Apocalipse, que se julgava rico, mas era miserável, pobre, nu e cego (Ap 3,17).
O homem tíbio é irresoluto…, vacilante…, hesitante…, claudica entre o vício e a virtude; não ousa cometer de olhos abertos e com deliberado propósito uma falta grave e, por isso, julga-se justo e deixa de entregar-se a uma vida mais fervorosa…; cumpre certos deveres de religião, como, por exemplo, assistir à missa, aproximar-se dos sacramentos etc.; mas faz tudo isso com negligência e pouca vontade, sem gosto e sem fruto de progresso espiritual…
A doença e a morte de Lázaro são uma figura dos graus da tibieza. 1º Definhava, languens… 2º Caiu enfermo, infirmabatur… 3º Dormia — Lazarus dormit… — 4º Veio a morrer, mortuus est… 5º Entrou em putrefação, iam foetet… Ó tibieza, aonde conduziste Lázaro? — Ubi posuisti eum? — Senhor, vinde e vede este estado espantoso: Domine, veni et vide. — E Jesus, vendo-o, estremeceu e chorou. Uma pedra fechava o sepulcro; Jesus ordena que a removam e depois clama em alta voz: «Lázaro, levanta-te!» (Jo 11,33-43). Oh, como é necessário semelhante prodígio para devolver a vida ao homem tíbio!
Por causa da tibieza, observa São Bernardo, o nervo do espírito se enfraquece; o langor abate as forças; o rigor da penitência assusta; a alma se torna pusilânime, a graça vai-se retirando pouco a pouco; o torpor aumenta; a caridade diminui; a volúpia seduz; a segurança engana e, entrementes, forma-se o hábito. Direi mais: a lei é desconhecida, o temor de Deus desaparece (Serm. 63, in Cant.). Nessa deplorável tibieza, a palavra de Deus, os bons exemplos e os sábios conselhos não passam de um bronze retumbante, de uma voz no deserto.
À languidez segue-se a negligência, depois a frieza, e então a esterilidade e uma extrema indigência. É muito difícil não cair em faltas graves quando se criou calosidade para as leves, diz Eusébio (In Chron.); e sua sentença é confirmada pela palavra do Espírito Santo: «Quem não dá atenção às coisas pequenas cairá pouco a pouco nas graves» (Eclo 19,1). Secreto, mas justo juízo de Deus! «Ah! Vós previnis, diz Santo Agostinho, e vos guardais das grandes quedas, mas que conta fazeis das pequenas? Cuidai para que, atirando para longe de vós uma enorme pedra, não vos deixeis depois esmagar pela areia! (1)».
Espantosa é aquela sentença de Deus no Apocalipse: «Conheço as tuas obras; não és nem frio nem quente. Oh! Se ao menos fosses frio ou quente! Mas, porque és tíbio, começarei a vomitar-te da minha boca» (Ap 3,15-16). Deus rejeita o homem tíbio, isto é: 1º nega-lhe os seus favores; 2º esse vômito significa que os tíbios são frutos verdes e bichados que, não tendo amadurecido por falta de calor, se tornam indigestos para o estômago; 3º significa ainda que os tíbios causam a Deus aquela náusea que o alimento vomitado nos causa… 4º Deus rejeita violentamente o homem tíbio, como acontece no vômito, porque a sua bondade não pode suportar a tibieza sem sofrer os seus efeitos; 5º Deus não diz: vomitar-te-ei das minhas entranhas, mas da minha boca, porque os tíbios são tão aborrecidos por Deus que Ele jamais os admite em seu coração, mas logo os repele assim que se aproximam de sua boca divina. Incipiam te evomere: começarei a vomitar-te; tua rejeição ainda não está inteiramente consumada, mas estou pronto a fazê-lo e o farei.
Ah! Dizeis, alma tíbia, que sois rica e que não precisais de nada; e não sabeis que sois pobre, nua e cega (Ibid. 17). Sois pobre, isto é, sem caridade; cega, porque vos falta a previdência; nua, porque despojada de boas obras. Ou então, como explica São Gregório Papa, pobre, porque privada das riquezas das virtudes; cega, porque não vê a sua pobreza; nua, porque perdeu a sua estola branca e, o que é pior, não percebe que a perdeu (2).
O Evangelho nos diz que as virgens insensatas, por não terem tido a diligência de prover-se de óleo para reabastecer as lâmpadas à chegada do esposo, não se encontraram prontas para recebê-lo e, quando chegaram, encontraram a porta fechada; e, tendo clamado para que, por piedade, lhes fosse aberta, ouviram do esposo esta resposta: Ide embora, não vos conheço (Mt 25,3-5, 11-12). Eis os tíbios, eis os perigos da tibieza e o seu castigo. Sobre eles pesa a maldição de Oseias: «Dá-lhes, Senhor; e que lhes darás? Um ventre estéril e seios secos» (OSEAE, 9,14). Já não há fecundidade espiritual na alma tíbia; ela já não se nutre do leite espiritual. Com ela sucede como com o infeliz Baltazar: é posta na balança e achada leve (Dn 5,27). Tem a cabeça inclinada, o coração lânguido; da cabeça aos pés é toda uma chaga, e suas chagas se enchem de vermes cada dia mais (Is 1,5-6). Sua força secou-se como argila na fornalha, sua língua colou-se ao palato e ele é conduzido à corrupção do sepulcro (Sl 21,16).
Eu passei, diz o Senhor nos Provérbios, pelo campo do preguiçoso e pela vinha do insensato: e encontrei todo o solo coberto de espinhos, coberto de urtigas, e o muro de pedras em ruínas. Ó homem tíbio e negligente, tu cochilas, tu dormes, e eis que a pobreza vem correndo sobre ti, e a miséria te sobrevém como um cavaleiro armado (Pr 24,30-34). Quem descuida da sua vinha, comenta São Bernardo, a destrói. Não há sarmento onde não há seiva: e a seiva é Jesus Cristo. Que produzirá a vinha, se está seca? Porventura uma árvore estéril não está quase morta? Como viverá o homem tíbio, no qual quase já não circula a seiva divina? Pelo próprio fato de levar uma vida inútil, sua vida é uma morte. — Um campo e uma vinha não cultivados tornam-se estéreis e sem valor, e tal é a condição de uma alma tíbia. Essa alma, coberta de ignomínia e confusão, desce do céu ao abismo; rola do trono para o lodo, do esplendor para as trevas, de um palácio para uma cloaca, do claustro para o século, do paraíso para o inferno (Serm. in Cant.). Ai do tíbio! Ele será como o tamargueiro do deserto, que não conhece dias de abundância, porque habitará nos lugares áridos do deserto, numa terra semeada de sal (Jr 17,5-6).
Os tíbios dormem e, ao despertar, julgando-se ricos, estarão pobres, porque a tibieza consome, diz São João Crisóstomo, o engenho e as forças (Homil. ad pop.). O homem tíbio está num espantoso cegamento. Não imagine, diz Santo Agostinho, nem se lisonjeie de conhecer a Deus, se pretende servi-lo sem boas obras. Por mais que se julgue rico, na verdade é paupérrimo (In Psalm.). O tíbio é joguete do demônio… Conta Rufino que o abade Pimedio dizia: As moscas fogem da água fervente, caem na água morna e nela geram a corrupção das paixões e dos vícios (In Vit. Patr. l. 7, c. 39). «Jesus Cristo, escreve Santo Agostinho, veio e acorrentou Satanás. Mas alguém perguntará: se Satanás foi acorrentado, por que ainda causa tantas devastações? É verdade, ele faz muito mal; mas somente aos tíbios e aos negligentes» (Serm. CXCVII, de Temp.).
São Gregório escreve: É fervoroso aquele que possui o amor de Deus; é frio quem se encontra voluntária e conscientemente em estado de pecado grave; é tíbio quem está em pecado, mas não quer reconhecê-lo e, por hipocrisia, quer ser tido por justo. A rigor, o tíbio não desejaria pecar mortalmente de propósito deliberado; mas, engolindo como água os pecados veniais, se lhe aparece a ocasião e a tentação é um pouco forte, cai em faltas graves (Moral. lib. 34, c. II). Ora, embora seja intrinsecamente pior ser frio e permanecer nesse estado glacial do que ser tíbio; embora seja pior pecar consciente e voluntariamente, isto é, ser frio, do que pecar por ignorância, por acídia, por fraqueza, o que significa ser tíbio; contudo, o Senhor, no Apocalipse, condena e censura mais severamente a tibieza do que a frieza; porque:
1° A tibieza é mais perigosa que a frieza, tanto por causa da extrema indolência pela qual o tíbio não dá atenção aos perigos que corre, mas pensa somente em viver tranquilo, repousar e dormir; como pelo perigo de ser abandonado por Deus. Com efeito, Deus, que é fogo devorador e quer ser servido pelos Serafins, abomina a tibieza e retira sua graça do tíbio; permite que ele adormeça em profundo sono e assim caia pouco a pouco no abismo. O pecado do homem tíbio é, portanto, mais leve em si mesmo, mas mais perigoso que o estado daquele cujo coração é frio.
2° Os que são frios têm mais facilidade para voltar a si e converter-se e, de fato, muitas vezes se voltam para o arrependimento; os tíbios, nunca ou muito raramente; portanto, o perigo é maior na tibieza do que na frieza. Vós vereis, já observava São Bernardo, converterem-se e retornarem sinceramente a Deus em número muito maior os grandes pecadores do que os medíocres e tíbios. Os frios de que fala a Escritura são os infiéis que pecam por ignorância; piores que estes são os tíbios, isto é, os cristãos indolentes e vis (Epist. LVI, ad Richardum). Muitas vezes nos acontece ver corações frios tornarem-se fervorosos, diz Cassiano, mas nunca vimos corações tíbios transformarem-se em fervorosos (Collat. 4, c. XIX). Faz-lhes eco o Papa São Gregório, que escreve: É de esperar que um coração frio se volte um dia a amar a Deus, mas, para o coração tíbio, decaído de seu fervor, há pouca esperança. Com efeito, aquele que se encontra em pecado não perde a confiança de sair dele; mas aquele que, depois de sua conversão, cai na tibieza, já não conserva a esperança que tinha enquanto era grande pecador. Uma falta grave é logo conhecida e prontamente reparada; ao contrário, uma falta tida por leve permanece, precisamente porque não se lhe dá importância. Daí ordinariamente resulta que a alma acostumada às faltas leves, pouco a pouco, já não teme as graves e cai nelas sem remorso (Pastor.).
Também São Doroteu dizia que há muito a temer que o tíbio não precipite numa absoluta insensibilidade (In Vita). E oxalá não fosse assim! Mas a experiência cotidiana nos obriga, infelizmente, a repetir com São João Crisóstomo: «Conhecemos muitos, perfeitíssimos em toda espécie de virtude, os quais, tendo caído pela tibieza, precipitaram depois no abismo de todos os vícios (3)». E a razão disso é esta, observa Alvarez: os pecados mortais são menos perigosos, porque seu aspecto horrível assusta, ao passo que os leves são tanto mais perigosos e dignos de temor quanto menos nos aterrorizam e nos conduzem insensivelmente à extrema ruína (In Isai.). Eis por que Santo Agostinho profere esta sentença: ouso dizer aos castos orgulhosos que é melhor para eles que caiam; ouso dizer aos soberbos que é melhor para eles tropeçarem em alguma falta pública, que os leve a não mais comprazer-se nem enamorar-se de si mesmos, pois, por essa vã complacência, não cessam de cair (De Civit. Dei, lib. 14, c. XIII).
Não menos terrível para os tíbios é esta outra sentença do Papa São Gregório: «Ordinariamente, uma vida fervorosa de amor, depois da culpa, agrada mais a Deus do que a inocência que se entorpece na segurança (4)»; muito sábio é, portanto, este conselho de Crisóstomo: «Com maior cuidado e solicitude devem ser evitadas as faltas pequenas do que as faltas graves; porque estas repugnam à natureza; aquelas, porém, precisamente por serem leves, tornam os homens preguiçosos, indolentes e imprudentes. Se a alma não leva em conta as faltas leves, não consegue levantar-se corajosamente para expulsá-las; e, por isso, passa bem depressa das pequenas às enormes (5)». Segundo Alvarez, o sinal de um amor tíbio consiste nisto: o homem não quer ofender gravemente aquele a quem ama, mas não se importa com a vontade dele em tudo aquilo que este não lhe ordena em tom severo (In Ezech.).
As principais causas da tibieza são: 1° a cegueira espiritual; 2° o afastamento de Deus; a alma tíbia faz como Pedro, que, no tempo da Paixão, seguia Jesus, mas de longe, e assim acabou por negá-lo (Mt 26, 58, 70); 3° o resfriamento do fervor primitivo (Ap 2, 4); 4° o esquecimento da oração, do exame de consciência e da elevação do coração a Deus; 5° a confiança em si mesmo, a vaidade, o orgulho, a presunção e o pouco caso das coisas santas; 6° o desprezo das faltas leves e o hábito de cair nelas sem escrúpulo; 7° o abuso das graças ordinárias; 8° ocupar-se das coisas santas por hábito.
«Advirto-te, escrevia São Paulo a Timóteo, que reavives a graça de Deus, que se encontra em ti pela imposição das minhas mãos» (2Tm 1, 6). Não imitemos os judeus que, no deserto, não fazendo caso algum da terra prometida, pereceram todos antes de nela entrar. Deus não concede sua graça aos indolentes e tíbios, mas àqueles que desejam e se apressam em avançar, que se aplicam ao estudo e à prática das virtudes e da perfeição; por isso o Esposo diz à Esposa dos Cânticos: «Levanta-te, apressa-te em vir a mim, minha amada» (Ct 2, 10). E quando o Anjo soltou as cadeias de Pedro na prisão, não lhe ordenou acaso que se levantasse prontamente? (At 12, 7).
Corações tíbios, almas lânguidas, apressai-vos em corrigir-vos de vossos defeitos, em humilhar-vos, em conformar-vos à vontade de Deus e em exercitar-vos nas obras de caridade. Este é o caminho para sair da tibieza e alcançar a graça de Deus… Diz, com efeito, Santo Ambrósio (6): «Deus está presente àqueles que o amam, mas se esconde dos tíbios; os benefícios celestes são concedidos não aos que dormem, mas aos prudentes e vigilantes».
Para sair, pois, do estado de tibieza, são meios eficacíssimos: 1° Um amor fervoroso para com Deus. 2° A aplicação às boas obras. 3° A meditação frequente dos Novíssimos. 4° A fuga da acídia espiritual: «Levanta-te, tu que dormes, diz o Apóstolo, e sai dentre os mortos, e Cristo te iluminará» (Ef 5, 14). 5° A palavra divina lida, ouvida, meditada e praticada. 6° Assim como todos os dias ofendemos o Senhor em alguma coisa, pratiquemos também todos os dias alguma penitência. 7° Tenhamos sincera aversão ao pecado. 8° Vigiemos continuamente em nossa defesa, assim como nossos inimigos estudam continuamente nossa ruína. 9° Trabalhemos por nossa salvação com temor e tremor. 10° Nunca percamos a coragem diante das muitas faltas em que caímos todos os dias, mas arrependamo-nos delas e renovemos frequentemente os bons propósitos.