Tesouro n.º 201 · Volume III

TENTAÇÕES TENTAZIONI

9 seções · 71 parágrafos · pp. 2266–2290 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. POR QUE JESUS CRISTO PERMITIU QUE O DEMÔNIO O TENTASSE

O evangelista São Mateus narra que Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo demônio (Mt 4,1). As razões que moveram o divino Salvador a querer ser tentado pelo demônio são, tanto quanto pode compreender a nossa curta inteligência, as seguintes: 1º Para nos ensinar que a tentação não é pecado; do contrário, como poderia Jesus tê-la permitido em si mesmo? 2º Para que aprendamos a resistir às tentações e estejamos convencidos de que é necessário ser provado aquele que quer salvar-se. 3º Para insinuar que, com a graça, se pode vencer toda espécie de tentações. 4º Para demonstrar que é nosso irmão. 5º Para mostrar-nos que tomou sobre si todas as nossas misérias. 6º Para dizer-nos que devemos estar sempre prontos e armados contra o assalto das tentações. 7º Quis ser tentado para vencer em nosso lugar o demônio e, assim, tornar mais leve para nós a luta e mais fácil a vitória contra ele. O combate de Jesus com Satanás no tocante à tentação é semelhante ao combate do sol com as nuvens que o rodeiam. «O sol, diz Santo Ambrósio, é o olho do mundo, a alegria do dia, a beleza do céu, a medida do tempo, a virtude e o vigor das estrelas (In Hexam.)». Tal é Jesus Cristo. Assim como o sol dissipa as nuvens, assim Jesus Cristo dissipa, com suas tentações, as nossas; assim como o sol, ao iluminar as nuvens, as torna resplandecentes em vez de tenebrosas, assim Jesus Cristo, com o esplendor de sua graça, transforma as angústias em alegrias, as tentações em vitórias, as lutas em coroas. 8º Jesus permitiu ser tentado para nos ensinar a combater e tornar meritórias as nossas tentações e vitórias, por meio de sua tentação e de sua vitória. 9º Finalmente, para mostrar-nos que nada há de sagrado para Satanás e dar-nos uma ideia do ódio, do rancor e da malícia desse inimigo infernal; pois, se ousou assaltar um Deus, nosso divino chefe, poupará acaso o homem, imagem desse Deus e membro desse chefe? «Jesus Cristo foi tentado, escreve Santo Agostinho, para que o cristão não fosse vencido pelo tentador e, saindo Cristo vencedor, também nós saíssemos vencedores (In Psalm. XC)».

2. OS SANTOS NÃO ESTÃO IMUNES ÀS TENTAÇÕES

São Paulo confessa claramente: «Foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me» (2Cor 12,7); e depois, novamente: «Sinto em meus membros uma lei que se opõe à lei do meu espírito e me sujeita à lei do pecado que está em meus membros». E acrescentava: «Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte?» (Rm 7, 23-24).

«Os justos são provados pela tentação como os demais homens», diz o Sábio (Sb 18,20). «Não são as naves vazias de mercadorias que temem os corsários, mas as que navegam carregadas de ouro, prata e pedras preciosas; assim também o diabo assalta antes o justo que o pecador, porque naquele há imensas riquezas de virtudes e méritos (Homil. 4, in Isaia)». Essa observação de São João Crisóstomo é confirmada por São Bernardo com a prova da experiência cotidiana, «pela qual percebemos — diz ele — que aqueles que se propõem converter-se a Deus são mais fortemente molestados pelos espinhos da concupiscência; e às obras de lama são mais atormentadoramente solicitados aqueles que se esforçam por sair do Egito e subtrair-se ao jugo tirânico do Faraó (In lib. Exod.)». Por isso, o Espírito Santo adverte as almas fiéis que se consagram ao serviço de Deus a manterem-se prontas para os assaltos das tentações e a viverem na justiça, sim, mas também no temor (Eclo 2, 1).

As razões pelas quais a tentação assalta de modo particular aqueles que querem viver bem são estas: A primeira é que Satanás, vendo escapar-lhe uma alma, enfurece-se e emprega contra ela todo o seu poder. «Quanto mais avançamos na virtude, diz São Gregório, tanto mais os espíritos malignos, sempre corroídos por cruel inveja contra aqueles que vivem retamente, se tornam hostis a nós (Moral. lib. XXIX)». À medida que aumenta em nós o ardor do bem, acende-se nos espíritos imundos o desejo furioso de deter-nos, esfriar-nos e impedir-nos de praticar a virtude; nunca deixam, nem por um instante, de estudar novas ciladas e enganos, diz o Venerável Beda (In lib. Reg.). Com efeito, para que, como observa São Jerônimo, o demônio procuraria os homens infiéis? Ele já os possui quando quer; importa-lhe poder apoderar-se dos membros vivos da Igreja (Epist.). Os justos são para Satanás bocados requintados (Ab 1,16). Ele anseia por derrubar Jó, Tobias, José, Susana, Daniel etc.; morre de vontade de joeirar os Apóstolos, como Jesus preveniu o chefe deles: «Simão, Simão, eis que Satanás pediu para vos joeirar como trigo» (Lc 22,31-32). Uma terrível prova do furor com que o demônio se desencadeia contra os bons temos nas perseguições que suscitou nos três primeiros séculos contra o Cristianismo nascente, porque diminuía o número de seus escravos.

Quanto mais uma pessoa procura entregar-se a Deus pela virtude e pela santidade, tanto mais o demônio a atormenta com graves tentações. Quanto mais o homem procura fugir dos erros, diz Rabano Mauro, tanto mais os demônios lhe movem uma guerra tremenda; quanto mais aquele se esforça por progredir no serviço de Deus, tanto mais estes o combatem. Quem decide servir a Deus prepare-se para lutas terríveis e espantosas da parte do antigo inimigo: o demônio, de cuja tirania e escravidão ele se subtrai; vendo-o livre, desfere contra ele golpes violentos e contínuos (In Comm.). Isso fazia São Hilário de Poitiers dizer que «os demônios dirigem o esforço de suas tentações de preferência contra os santos, porque mais ambicionada e gloriosa é a vitória se triunfam sobre estes (In cap. 4, Matth.)».

A isca dos ladrões é o dinheiro; a isca dos demônios é a virtude. Assim como são inimigos declarados da virtude, também necessariamente o são do homem virtuoso. «O diabo, escreve Eutímio, dirige suas armas para onde vê tesouros mais ricos (In cap. 6, Matth.)». São João compara os demônios aos piratas, que se lançam com tanto maior audácia e furor contra um navio quanto mais preciosa é a mercadoria que sabem estar carregando (Homil. 31, in Genes.); São Leão diz que devemos estar bem persuadidos de que, quanto mais nos aplicarmos a cuidar da nossa salvação, tanto maior ímpeto devemos esperar nos assaltos do nosso inimigo (Serm. 1, de Quadrag.).

A segunda razão pela qual aquele que abandona o pecado e se dedica ao serviço divino é assaltado por tentações mais violentas é que todos os vícios voltam contra ele as suas armas e se unem aos restos das antigas concupiscências; querem retornar à sua primeira morada e, por isso, lançam assaltos furiosos. Com efeito, quanto mais as paixões são mantidas sob freio, tanto mais se esforçam por erguer-se, romper as cadeias que as aprisionam e levantar a cabeça ainda mais envenenada, à semelhança da serpente. Por isso, São Leão pregava que «as provas da perseguição nunca cessam enquanto se pratica a piedade» (Serm. 9, de Quad.). O Venerável Beda escreve: «Antes da conversão, a multidão dos pecados precede e arrasta; depois da conversão, a turba das tentações segue e impele ao precipício. Quem jazeu e adormeceu por longo tempo no pecado, por longo tempo ainda, se quiser converter-se, deverá sofrer as importunações das tentações (In Prov.)».

A terceira razão pela qual as almas piedosas e devotas estão sujeitas a tentações maiores e mais graves está em seus antigos companheiros e amigos que, vendo-se abandonados e desprezados, levantam-se contra elas, como Ismael contra Isaac, Esaú contra Jacó, os filhos de Jacó contra seu irmão José.

A quarta provém dos inimigos e invejosos que, olhando com olhos ciumentos para a virtude daquele que odeiam, perseguem-no com maledicências, calúnias, maldições, palavras duras e maus-tratos. Jesus Cristo o predisse: «Sereis odiados por todo o mundo por causa do meu nome» (Mt 24, 9). «Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou antes de vós. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que lhe pertence; mas, porque não sois do mundo e eu vos escolhi do mundo, por isso o mundo vos abomina. Lembrai-vos da palavra que vos disse: não há servo superior ao seu senhor. Se me perseguiram, também vos perseguirão» (Jo 15, 18-20). «No mundo, haveis de sofrer» (Jo 16,33).

A quinta razão pela qual os bons são mais molestados pelas tentações do que os maus é que Deus decretou desde toda a eternidade que os seus fiéis servos seriam, como valorosos soldados e robustos atletas, provados, exercitados, fortalecidos, ilustrados e santificados pelas tentações; e Jesus Cristo marcou de modo especial com a sua cruz os seus fiéis seguidores e quer que se tornem dignos do imenso peso de glória que os espera nos céus, passando pelas tentações… Podemos, diz São Gregório, ser mártires sem experimentar o ferro, se suportarmos pacientemente as tentações (Moral.). Assim como a argila na água amolece e se dissolve, mas no fogo endurece até tornar-se pedra, assim aquele que não passa pelo fogo das tentações logo se enfraquece e perde o vigor nas águas da tribulação, naufragando nelas…

Portanto, a tentação é uma prova que distingue o bom do mau, o forte do fraco. Com efeito, a Sagrada Escritura compara a tentação a uma peneira (Lc 22 ― 31). Ora, é função da peneira separar o bom trigo do carunchoso ou estragado e da palha; o bom grão permanece, enquanto o outro é levado pelo vento e se perde; assim, os verdadeiros fiéis, os justos, resistem ao vento das tentações e permanecem firmes no amor de Deus, ao passo que os vis, os pecadores e os ímpios são por ele levados e caem no inferno… O bom piloto se conhece no tempo do furacão, diz São Cipriano; o bom soldado mostra-se como tal no combate; a planta que tem raízes profundas resiste aos ventos; assim também são as almas fortes e piedosas em meio aos furacões e às lutas das tentações; mas as almas fracas, sem virtude, assemelham-se ao piloto inexperiente que deixa o navio afundar; ao soldado covarde que, na hora da batalha, lança fora armas e bagagens e foge; à árvore de raízes carcomidas ou pouco profundas.

3. AS TENTAÇÕES SÃO MÚLTIPLAS, FREQUENTES E MUITAS VEZES TERRÍVEIS

Dá-se o nome de tentação a tudo aquilo que solicita o homem ao pecado; e esse estímulo provém ora do demônio, ora do mundo, ora da carne… A tentação compreende também as aflições, as tribulações e as provações; por exemplo, a pobreza, a nudez, a fome, a sede, as doenças, as afrontas, o calor, o frio e outras contrariedades e adversidades semelhantes, quer nos venham de Deus, quer dos homens, quer dos amigos. Perigosa tentação é a própria prosperidade, não menos que a elevação, a honra e o louvor. Tudo isso se chama tentação, porque prova a virtude do homem, sua força e sua paciência. As tentações sucedem-se como as ondas do mar, as rajadas do vento e, às vezes, estão ligadas umas às outras como os elos de uma cadeia; e frequentemente várias tentações nos assaltam no mesmo instante. «Quando tiveres vencido, diz Pico della Mirandola, comporta-te como se devesses combater novamente dentro em pouco (In Spirit. pugna)», «porque, diz São Gregório, assim que vencemos um inimigo, é preciso que nos preparemos para sustentar outras batalhas (In Iob.)».

São Bernardo enumera diversas espécies de tentações e indica o modo como nos assaltam. Há tentações importunas, insolentes e obstinadas; há outras incertas, hesitantes e duvidosas, que nos envolvem na névoa da dúvida. Umas vêm de repente e de improviso; outras, depois de madura reflexão. Estas são exteriores, e aquelas, ocultas. Algumas assaltam com violência e com tal ímpeto, que diríeis serem superiores às forças; outras apresentam-se sob forma lisonjeira e sedutora, de maneira astuta e maliciosa (De Inter. dom.). Há tentações que conduzem a um só pecado; outras que nos tornam culpados de muitos pecados ao mesmo tempo. A tentação, por exemplo, de Adão e Eva continha em si: 1° um duplo orgulho: vós sereis como deuses; daí, depois, a sua escusa. 2° O descontentamento deles e a rebelião contra o preceito. 3° A curiosidade. 4° A fé dada às palavras da serpente. 5° A desobediência. 6° A gula… A carne, o mundo e o demônio tentam, às vezes, separadamente e um depois do outro; outras vezes, todos juntos. Resistindo aos nossos inimigos, nós os vencemos e os irritamos; vencidos e irritados, eles se levantam com maior obstinação e furor e nos assaltam ora com as prosperidades, ora com as adversidades: duas grandes forjas de tentações.

O demônio, figurado no dragão do Apocalipse, sai do Tártaro, soprando de ira, e vai mover uma guerra cruel (Ap 12,17); e, entre as armas que para isso emprega, perigosíssima e poderosíssima é a das tentações, nas quais manifesta uma malícia e uma raiva inconcebíveis. «Não temos de lutar contra a carne e o sangue, escreve São Paulo, mas contra os principados e as potestades que governam este mundo inferior e tenebroso, que são os espíritos malignos espalhados pelos ares» (Ef 6,12). Astúcia, fraude, mentira, promessas, ameaças, lisonjas, furores, crueldade, malícia: tudo põe o demônio em ação para conquistar uma alma fiel… Quando não pode vencer sozinho, lança em campo legiões inteiras de espíritos infernais… Se não consegue de um modo, tenta outro; tenta pelos olhos, pelos ouvidos, pela língua, pelos pés, pelas mãos; tenta pela alma, pelo corpo, pelo espírito, pelo coração… Se não consegue por si mesmo nem com suas legiões, chama em seu auxílio os demônios encarnados, que são os escandalosos e os corruptores…; põe em movimento todas as três concupiscências de que fala São João…

4. NECESSIDADE DAS TENTAÇÕES

«O reino dos céus deve ser tomado à força, sentencia Jesus Cristo, e dele se apoderam aqueles que usam de violência» (Mt 11,12). Com efeito, o caminho que a ele conduz passa por entre muitas tentações (At 14,21); e quem combate no estádio não recebe a coroa, se não tiver combatido devidamente (2Tm 2,5). Por isso, o Anjo disse a Tobias: «Porque eras agradável a Deus, era necessário que a tentação te provasse» (Tb 12,13).

«Não há vitória sem combate, escreve São Cipriano (Lib. de Mortal.); e somente é gloriosa aquela vitória que foi precedida pela luta, diz Santo Ambrósio, e o prêmio é dado somente àquele que combateu valorosamente. Por que pedis a coroa antes de terdes vencido? Por que procurar o repouso antes de terdes concluído a corrida? Quando tiverdes alcançado a vitória, então tereis direito à glória (In Luc. IV)». Assim como a fumaça precede a chama, também o combate precede a vitória; e demasiado delicado vos mostrais, ó soldado de Cristo, diz São João Crisóstomo, se pensais vencer sem luta, triunfar sem combates (Serm. de Martyr.).

Para merecer a coroa da vida, é preciso combater; é preciso que haja inimigos que nos façam guerra… O pecado, tendo entrado no mundo, pôs tudo em desordem e trouxe consigo os demônios, as concupiscências, as paixões, as aflições, as dores e toda a imensa multidão de males pelos quais vemos o homem afligido e que constituem outras tantas tentações inevitáveis. Por isso, escreve Santo Agostinho, «a nossa vida neste lugar de exílio não pode estar sem tentação, porque o nosso progresso se realiza somente pela tentação; ninguém pode chegar a conhecer a si mesmo enquanto não é tentado, nem ser coroado sem ter vencido; nem vence sem combate; nem combate sem que haja inimigos e tentações (In Psalm. LX)». «Não há obras de virtude sem as provas da tentação, diz São Leão Papa, nem fé sem agitações, nem luta sem adversários, nem vitória sem combate. Se queremos triunfar, devemos chegar à luta (Serm. 1, de Quadrag.)».

5. É PRÓPRIO DOS FORTES RESISTIR ÀS TENTAÇÕES

Quem é verdadeiramente corajoso e poderoso? Aquele que combate e vence as tentações. São Paulo, como observa São João Crisóstomo, via todos os dias montanhas de tentações desabarem sobre ele; e alegrava-se com isso e comportava-se como se estivesse no meio do paraíso (Homil. 1, in II Cor.). Vencer as tentações, vencer a si mesmo, é ato mais que de coragem: é de heroísmo; é a mais esplêndida vitória que o homem pode almejar; assim como é vergonha e extrema vileza deixar-nos submeter por elas. Toda a sabedoria e força cristã, escreve São Lourenço Justiniano, não consistem em fazer milagres, nem em predizer o futuro, nem na eloquência e na ciência, mas em triunfar das tentações. Aquele que ama verdadeiramente a Deus dá-se a conhecer pela violência que faz a si mesmo ao vencer os inimigos que o perseguem (De ligno vitae). As potências invisíveis são vencidas, diz Santo Agostinho, quando subjugamos as cobiças visíveis. Quando triunfamos em nós mesmos sobre as paixões, é preciso ainda que vençamos em nós aquele que reina, por meio das concupiscências, no homem. Quando foi dito ao demônio: Tu comerás a terra, foi dito ao pecador: Tu és terra e à terra retornarás. O pecador foi, portanto, destinado como alimento ao diabo. Guardemo-nos, pois, de ser terra, se não quisermos ser devorados pela serpente (De Agon. chris. L 1, c. II).

6. FACILIDADE DE VENCER AS TENTAÇÕES SE DEUS NOS AJUDA

Deus, como observa Santo Agostinho, não ordena o impossível; mas, enquanto ordena, admoesta-nos tanto a fazer o que podemos como a pedir o que não podemos, e promete ajudar-nos para que o possamos fazer (De Natura et Grat. c. XLIII). Eis por que Jesus Cristo chama suave o seu jugo e leve o seu peso (Mt 11,30), e São Tiago nos assegura que, se nos mantivermos sujeitos a Deus e resistirmos ao demônio, este fugirá de nós (Tg 4,7). Com efeito, diz Santo Agostinho, o diabo é como um cão acorrentado por Cristo, que pode latir, solicitar e incutir medo, mas não pode morder senão aquele que quer ser mordido; pode persuadir o homem a precipitar-se no abismo, mas não pode precipitá-lo (De Civit. Dei, 1. 2, c. VIII). As tentações são leões quando não se lhes resiste; são formigas quando por pouco que seja se lhes opõe resistência. E quem de nós não poderá oferecer essa resistência, se o Senhor promete a cada um de nós, pela boca de Jeremias, que nos colocará diante dos nossos inimigos como um muro de bronze solidíssimo, de modo que se levantarão contra nós e não prevalecerão, porque ele está conosco para nos libertar e salvar; para arrancar-nos das mãos dos maus e resgatar-nos das mãos dos poderosos? (Jr 15,20-21).

E, se temos o auxílio de Deus, o que não venceremos? Se Deus se declara por nós, quem ousará levantar-se contra nós? (Rm 8,31). Tudo podemos naquele que nos conforta (Fl 4,13). Esse Deus que está em nós é muito maior e mais poderoso que todos aqueles que estão contra nós… Aqueles que estão em paz com Deus, que continuamente lhe dizem: ― Seja feita a vossa vontade ― saem vitoriosos de todo combate; nenhum conflito pode prejudicá-los… Aqueles que recusam seu consentimento às concupiscências, seja da carne, seja de qualquer outro gênero, enfurecem contra si o autor do pecado, mas triunfam dele com o auxílio de Deus. Deus os assiste e permanece a seu lado no furor da batalha. Aquele que dá o querer comunica também o poder, para que sejamos cooperadores de suas obras; podemos dizer com o Salmista: «Deus é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? Deus é o protetor da minha vida; quem me fará tremer?» (Sl 26,1). «Deus é a minha cidadela diante do exército inimigo» (Sl 60,4).

«Aquele que permite a tentação, escreve Santo Agostinho, ajuda os tentados; enquanto combatemos, Deus não fica olhando para nós como o povo contempla o atleta no circo. Com efeito, a multidão espectadora pode, com seus gritos, dar um sinal ou um aviso ao combatente, mas não pode ajudá-lo; pode preparar-lhe a coroa, mas não infundir-lhe vigor; ao contrário, quando Deus contempla os combatentes na luta das tentações, ele apoia, ajuda e torna vitoriosos os esforços daqueles que o invocam, como afirma um atleta de Deus: Se meu pé vacilou, a tua misericórdia, ó Senhor, estava pronta para me ajudar (In Psalm)». E São Dionísio acrescenta: «Aos que combatem, o Senhor, como Deus, oferece recompensas; como sábio, determina as leis do combate e mantém prontas coroas belíssimas e preciosíssimas para cingir os vencedores; mas, mais que isso, coisa verdadeiramente divina!, sendo clementíssimo e ótimo, ele mesmo triunfa em seus combatentes; habitando neles, combate pela sua salvação ou vitória contra o império da morte ou da corrupção (De Eccles. Hierarch.)».

«Desejo-vos, escrevia São Paulo aos Coríntios, que nunca vos molestem outras tentações senão as humanas e ordinárias. De resto, Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; antes, no meio da tentação, vos dará o auxílio para que possais permanecer firmes» (1Cor 10,13). Com efeito, «não temos, como diz o mesmo Apóstolo, um Pontífice que não saiba compadecer-se das nossas enfermidades, mas um Pontífice que quis ser tentado em tudo como nós, exceto no pecado» (Hb 4,15).

«O Senhor sabe livrar os justos da tentação», diz São Pedro (2Pd 2,9). Noé é salvo das águas; Lot, do fogo; Abraão, das superstições dos caldeus; Jacó é subtraído à ira de Esaú; José, às insídias dos irmãos; Moisés e os hebreus, das mãos do faraó; Davi, às perseguições de Saul; Susana, à infame paixão dos anciãos; Daniel é libertado dos dentes dos leões; os três jovens, do ardor das chamas; Ester e Mardoqueu, da inveja de Amã; Judite, de Holofernes; Jael, de Sísara; Tobias, de Asmodeu; Judas Macabeu, de Antíoco; Pedro, das correntes e da prisão, etc… Com razão diz o Salmista: «Grandes e numerosas são as tentações a que estão sujeitos os justos, mas o Senhor os livrará de todas» (Sl 33,20).

Quão pronta e poderosa é a mão do Senhor para amparar aqueles que lutam contra as tentações, diz-nos o mesmo Profeta: «Todas as nações se levantaram para me assaltar, mas, em nome do Senhor, eu as esmagarei; cercaram-me de todos os lados e arremeteram contra mim como enxames de abelhas, mas, em nome do Senhor, eu as enfrentei e derrotei. Empurraram-me para me lançar por terra, mas o Senhor me sustentou; o Senhor é a minha glória, ele se tornou o meu Salvador. O braço de Deus manifestou a sua robustez e o seu poder; a destra do Senhor me exaltou» (Sl 117,10-16). «Ainda que um exército se levantasse contra mim, meu coração não se atemorizaria; quando se travar a batalha, eu terei confiança. O Senhor me estabeleceu sobre uma rocha, tornou-me superior a todos os meus inimigos» (Sl 26,3-4). «Ele me salvou do laço dos caçadores e das línguas mordazes. Confiai também vós nele, e ele se fará escudo com a sua própria pessoa, de modo que não temereis nem os terrores da noite, nem a flecha que voa durante o dia, nem o contágio que se alastra nas trevas, nem os assaltos do demônio meridiano. Vereis cair a vosso lado mil e mil inimigos, mas vós passareis ilesos» (Sl 90,3-7).

Confiando na infalível palavra de Deus, que disse: «A minha mão lhe servirá de apoio, e o meu braço lhe dará vigor; o inimigo não o enganará, e o filho da iniquidade não poderá prejudicá-lo; porque abaterei a seus pés os seus inimigos e porei em fuga quantos o odeiam» (Sl 88,22-24), o fiel tranquilize-se também em meio às mais violentas tentações e diga com o rei Profeta: «Estou certo do auxílio divino; o nosso Deus é o meu refúgio e a minha força; nas tentações que me afligiram vigorosamente, nele encontrei poderoso socorro; por isso não temerei, ainda que a terra se fenda e eu veja os montes precipitar-se nos abismos; não, não temerei nem o homem, nem o demônio, nem todas as forças do inferno: - Deus noster refugium. ― O soldado de Jesus Cristo é igualmente vitorioso sobre as tentações, quer fuja, quer sustente o embate e permaneça firme no campo. Quando se deve fugir, Deus é o nosso seguro refúgio; quando se deve resistir, Deus é a nossa virtude, a nossa força, o nosso poder. Quando fugimos, Deus está, por assim dizer, atrás de nós, cobrindo a nossa retirada; quando resistimos de frente, Deus está diante de nós, entre nós e o inimigo, ou se coloca ao nosso lado para nos tornar triunfantes. Em todos os casos, ele nos ajuda nas tentações, porque nos ajuda, proporcionando-nos um refúgio; ajuda-nos, dando-nos a vitória; quer fujamos, quer resistamos, o triunfo está sempre do nosso lado, e do lado do inimigo, a derrota, quando Deus está conosco. Confia em Deus, e ele te livrará, diz o Eclesiástico (Eclo 2,6).

Nas tentações, digamos a Deus com o rei Ezequias: «Senhor, os meus inimigos me perseguem; respondei vós em meu lugar» (Is 38,14). Ou clamemos com o Salmista: «Levante-se o Senhor, e sejam vencidos os seus inimigos; fujam, confundidos, aqueles que o odeiam; desapareçam diante de sua presença, como se desvanece a fumaça, como a cera se derrete diante do fogo» (Sl 67,1-2). «Que estes tentadores que desejam a minha alma sejam cobertos de confusão e vergonha; recuem, envergonhados, aqueles que procuram a minha ruína» (Sl 69,3-4).

Enquanto a tempestade das tentações ruge ao nosso redor ou já nos golpeia, voltemos a Deus, com ânimo confiante e seguro, estas orações, estas invocações, e poderemos cantar com o mesmo rei Profeta: «Sob a vossa proteção, ó meu Deus, escapei da tentação; venci todo obstáculo» (Sl 17,30). Quem é forte, senão o nosso Deus, o Deus que me revestiu de coragem e força? Ele adestrou as minhas mãos para a luta; armou o meu braço com um escudo de bronze. Perseguirei os meus inimigos, alcançá-los-ei e vencê-los-ei; farei deles uma carnificina e os porei sob os meus pés. Senhor, vós me revestistes de fortaleza, prostrastes diante de mim os meus inimigos; entregaste-mos em sua fuga e exterminastes os que me odiavam. Eu os dispersarei como a poeira levada pelo vento, pisá-los-ei como a lama das vias públicas. Viva, pois, eternamente o Senhor! Seja bendito o Deus forte! Seja louvado o Deus da minha salvação! (Sl 17).

Davi, diante do gigante Golias, diz-lhe: «Tu vens contra mim confiado na espada, na lança e no escudo; e eu venho contra ti confiado no nome do Senhor dos exércitos. E hoje o Senhor te fará cair sob a minha mão, e eu te ferirei e te cortarei a cabeça» (1Sm 17,45-46). «Assim, diz aqui Santo Agostinho, assim e não de outro modo, assim e nunca de maneira diversa, é que se abate o inimigo. Quem se vangloria de querer combater com as próprias forças já está vencido antes mesmo de começar a luta (De Morib. Eccles.)». Também o Crisóstomo fala deste modo: Davi diz a Golias: Tu me assaltas confiando na tua espada, e eu, no Senhor Deus; tu combates pela terra, eu, pelo céu; tu, com a lança, eu, com a fé; tu, com o escudo, eu, com a paz; tu te vanglorias do vigor do teu braço e da têmpera solidíssima das tuas armas, eu me apoio no Criador onipotente. As tuas armas se voltarão contra ti, a tua espada será desembainhada para teu próprio dano; porque este é o combate de Deus e, portanto, será também a vitória de Deus (Homil.).

7. DEUS NÃO TENTA NINGUÉM. QUEM SÃO OS QUE SUCUMBEM ÀS TENTAÇÕES

«Ninguém, diz São Tiago, quando é tentado, ouse dizer que Deus o tenta; porque Deus não tenta ninguém; Deus não solicita ninguém ao mal; mas cada um é tentado pela própria concupiscência, que o arrasta e seduz» (Tg 1,13-14). Deus não é o autor daquilo que pune, observa São Fulgêncio (Lib. 1, ad Monim.). Ele permite as tentações a título de prova, mas não é nem a causa nem o autor delas, e não quer que nelas sucumbamos. Ele não tenta diretamente ninguém para levá-lo ao mal. Deus permite a tentação não para o mal, mas para provar e fazer merecer; neste sentido, a Escritura diz que Deus tentou Abraão, etc., mas deixa ao demônio a faculdade de nos tentar para o mal. E, como o demônio nos tenta por sugestão, deve-se dizer, como ensina Santo Agostinho, que sucumbe à tentação somente aquele que consente nela, e nunca aquele que apenas a sente (De Natura et Grat.). No Apocalipse lê-se que o dragão se deteve na areia do mar (Ap 12,17-18). Estas palavras significam que o tentador prevalece contra as pessoas terrenas, carnais, indolentes, inconstantes e imprudentes, que são agitadas como as ondas do mar e arrastadas pelas tentações como a areia pelo sopro dos ventos.

As verdadeiras causas que provocam a queda nas tentações são: 1° confiar em si mesmo; 2° expor-se temerariamente; 3° o esquecimento de Deus; 4° a negligência da oração e dos sacramentos…

8. UTILIDADE DAS TENTAÇÕES

O Espírito Santo nos assegura que o homem deve alegrar-se grandemente quando se vê feito alvo de diversas tentações, sabendo que a sua fé, posta à prova pelas tentações, produz a paciência, a qual conduz à perfeição (Tg 1,2-3). Embora ordinariamente seja preciso fugir da tentação e pedir a Deus que nos livre dela, por causa dos perigos a que nos expõe a fraqueza humana, todavia, quando é vontade de Deus que ela nos assalte, é preciso aceitá-la com alegria, tanto para melhor suportá-la e vencê-la, quanto para combater com mais vigor o demônio que a suscita.

De resto, são muitos e grandes os benefícios que se extraem das tentações, quando são combatidas e vencidas.

O primeiro benefício é que apagam as manchas dos pecados. «Vós provastes o meu coração, ó Senhor, dizia o rei Profeta; visitastes-me e fizestes-me passar pelo fogo da tentação, e não se encontrou em mim iniquidade» (Sl 16,3). Com efeito, a tentação suportada e repelida com coragem e perseverança é uma penitência contínua e muito meritória e, por isso, muito eficaz para apagar as manchas do pecado.

O segundo benefício da tentação é que ela humilha: «O ouro e a prata, diz o Sábio, purificam-se pelo fogo; e os homens aceitos por Deus passam pelo fogo da humilhação» (Eclo 2,5). As pessoas justas, sustentadas pelo Espírito Santo, chegam às virtudes mais sublimes e, por vezes, elevam-se até o êxtase; ora, para que o orgulho não as conquiste, é disposição benéfica de Deus que as tentações venham fazê-las recordar-se da sua miséria, como precisamente diz São Paulo ter-lhe acontecido por desígnio de Deus: «Para que a grandeza das revelações não me ensoberbecesse, foi dado à minha carne um aguilhão, o anjo de Satanás, para me esbofetear» (2Cor 12,7).

Terceira vantagem: a tentação purifica. O fogo purifica todas as coisas. A tentação é comparada pela Sagrada Escritura e pelos Padres ao fogo por esta qualidade especial que há nela: a de purgar o corpo, a alma, o coração, as obras, os pensamentos… Santa Sincletica dizia: Se sois de ferro, o fogo da tentação vos limpa da ferrugem; se sois de ouro, vos purga e lustra; se sois de palha, vos queima e consome (In Vita).

Quarta vantagem: as tentações nos mantêm despertos e vigilantes. Enquanto o inimigo está longe, o soldado depõe as armas e dorme; mas, se o inimigo está próximo, ele vigia armado. As tentações nos mostram o inimigo à porta e, portanto, nos mantêm vigilantes… A água que fica estagnada corrompe-se; aquela que é agitada e corre conserva-se saudável. Assim, as tentações tornam o homem ativo, atento a si mesmo e ao que o rodeia; estimulam-no a rezar, a vigiar, a mortificar-se, a recorrer a Deus. «As tentações, como observa São João Crisóstomo, têm por finalidade despertar-nos do nosso sono e tornar-nos mais fervorosos e piedosos (Hom. XIV)».

Quinta vantagem: a tentação fortalece e conserva a virtude. «Excelente guardiã das virtudes, diz São Gregório Papa (Moral. lib. 19, c. VI), é a enfermidade das tribulações e das tentações. Os eleitos avançam na virtude por meio da tentação, e aquilo que o demônio prepara para sua ruína, Deus converte em sua glória». Deus faz com que a tentação, em vez de prejudicar, se transforme em estímulo para avançar na virtude, na graça, na vitória e no aumento da glória. Nenhuma tentação jamais foi vencida senão por meio da virtude oposta; por isso, quem resiste à tentação progride na virtude e, assim, aumenta a graça, a coroa e a glória. Por isso São Paulo, depois de dizer que havia rogado instantemente ao Senhor que o libertasse do aguilhão da carne, do anjo de Satanás que o esbofeteava, e de ter recebido como resposta que lhe deveria bastar a graça de Deus, porque a força se robustece na fraqueza, acrescentava, todo alegre e jubiloso: «De bom grado, portanto, me gloriarei nas minhas enfermidades, nas necessidades, nos ultrajes, nas perseguições, nas angústias padecidas por Cristo; porque, quando pareço fraco, então sou verdadeiramente forte» (2Cor 12, 9-10).

«A fornalha consolida os vasos do oleiro, diz o Eclesiástico, e a tentação fortalece e firma os homens justos» (Eclo 27, 6). A virtude definha quando não encontra resistência (Cato apud Anton. in Meliss.). O soldado é fraco em tempo de paz; torna-se corajoso, forte até o heroísmo, se se acostuma a combater em batalhas frequentes. As tentações de impureza, de gula, de orgulho e semelhantes, nas almas fiéis que lhes resistem, aumentam e fortalecem a pureza, a sobriedade, a humildade, a caridade etc. Não há coisa que mais alegre a alma justa, escreve São Cipriano, do que a conservação da pureza e das outras virtudes em meio às tentações. Vencer a tentação é o prazer mais doce que se possa saborear; não há vitória maior do que aquela que se alcança sobre as próprias paixões (De bono pudicitiae).

Sexta vantagem da tentação: ela forma o coração para a virtude, exercita as faculdades da alma e reacende o amor de Deus. Assim como o valoroso soldado deseja a batalha para dar prova de sua coragem e de sua fidelidade e para alcançar uma gloriosa vitória, riquezas, promoções e fama, assim também o justo que deseja a tentação deseja, como bom soldado, a guerra da qual sabe que sairá, pela graça de Deus, vencedor; busca o combate no qual, ajudado por Deus, está certo de derrubar o inimigo; deseja uma ocasião em que possa mostrar a Deus a sua fidelidade… Com efeito, como diz São Leão, os atos de virtude não têm nenhum valor sem as provas da tentação: não há fé sem prova, nem batalha sem inimigo, nem vitória sem luta. Quem deseja possuir virtudes sólidas deve combater.

Sétima vantagem: a tentação nos torna dignos de Deus. «O Senhor Deus os tentou, diz o Sábio, falando dos justos; pô-los à prova como ouro no cadinho e achou-os dignos de si» (Sb 3, 6-5). Suportai, ó fiéis, a fornalha, diz aqui Santo Agostinho, para que, purificados das imundícies, possais comparecer sem mancha. Na fornalha há palha, ouro e fogo; aceso o fogo, a palha queima, o ouro se purifica; a palha é consumida e reduzida a cinzas, enquanto o ouro permanece purificado de toda escória. A fornalha é o mundo, os maus são a palha, os bons são o ouro, o fogo é a tentação, Deus é o ourives. Eu faço o que quer o ourives; ele me põe no cadinho, e eu me ajusto; ordena-me que tenha paciência enquanto me alveja e purifica (In Psalm.). «No vosso combate, diz São Cipriano, o Senhor é aquele que trava a batalha; é ele que combate, é ele que triunfa, e a vós deixa o mérito da vitória. A vossa guerra é a guerra de Deus, a vossa batalha é a batalha de Jesus Cristo. Que temeis? Por que duvidais, como se devêsseis vencer por vossa própria virtude? Empunhai as armas, ide à guerra, combatei com bravura, para que aquele que nunca é vencido esteja convosco (Epl. ad Martyr.)».

Oitava vantagem da tentação: ela estimula à esperança e à oração; pois o homem aflito e em perigo de sucumbir é levado pela tentação a recorrer prontamente a Deus, para obter o seu auxílio e a sua graça, sem os quais vê que não pode vencer e que certamente seria vencido. Então se apressa a clamar com Isaías: «Senhor, vinde em meu auxílio, porque o inimigo me oprime» (Is 38, 14); e com o Salmista: «Senhor, vinde em meu auxílio, vinde depressa!» (Sl 69, 1). Então nos lembramos da palavra de Jesus Cristo: «Tende confiança em mim, eu venci o mundo» (Jo 16, 33), e, à imitação dos Apóstolos, quando estavam prestes a ser submersos, clamamos: «Salvai-nos, Senhor; do contrário, pereceremos» (Mt 8, 25). Diante desta nossa oração, Jesus se levantará, ordenará ao mar e aos ventos, e fará nascer em nosso coração uma grande calma.

Nona vantagem da tentação: Deus está junto dos seus quando são tentados; encontra-se perto deles para consolá-los, protegê-los e ajudá-los, segundo estas palavras do Salmista: «Estou com ele na tentação; eu o livrarei e o tornarei glorioso» (Sl 90, 15), e segundo estas outras de Jeremias: «Ouvi os ultrajes da multidão e terríveis rumores por toda parte. Persegui-o, e nós o perseguiremos, gritavam aqueles que me cercavam; talvez o capturemos; enquanto isso, oprima-lo-emos e nos vingaremos dele. Mas o Senhor está comigo como um guerreiro formidável; por isso, aqueles que me perseguem cairão extenuados e abatidos, ficarão grandemente confundidos» (Jr 20, 10-11). «Serei para ele uma muralha de defesa» (Zc 2, 5), diz ainda o Senhor pela boca de Zacarias. É para a suprema glória do Senhor fortalecer de tal modo, com a sua graça, os homens fracos e frágeis, que resistam a todos os assaltos do demônio, do mundo e das diversas concupiscências. Por isso Deus, como escreve São Paulo, escolheu aquilo que o mundo tem de mais simples para confundir os sábios; aquilo que tem de mais fraco para subjugar os fortes; aquilo que tem de mais desprezado e aquilo que não é, para confundir aquilo que é (1Cor 1, 27-28).

Décima vantagem: ela nos ilumina, torna-nos circunspectos e nos dá experiência; com efeito, «quem não é tentado, que sabe?», pergunta o Eclesiástico (Eclo 34, 9). A tentação obriga o homem a estar atento e vigilante, para precaver-se de todos os lados e defender-se do mundo, do demônio e da carne. Por isso São Lourenço Justiniano profere esta sentença: Assim como o alimento não temperado com sal logo se corrompe, assim também a alma que não é continuamente salgada pelas tentações cai depressa e facilmente na putrefação do pecado. Por meio da tentação, a alma sacode de si a corrupção da negligência e se mantém no vigor do espírito. Quantos de nós não vimos escapar de tantos perigos, até mesmo por meio de fracas tentações! (In ligno vitae, Tract. de poenit. c. IV).

«Não podemos ter prova mais segura de que vencemos os demônios, diz São João Clímaco, do que vê-los assaltar-nos com furor; pois quanto mais fortemente lhes resistis, tanto mais furiosamente eles vos assaltam (Grad. XXVII)». Não pensemos, diz São João Crisóstomo, que as fortes tentações sejam sinal de que fomos abandonados e ridicularizados por Deus; consideremo-las, antes, como prova segura de que Deus cuida especialmente de nós, pois elas nos purificam das culpas e nos oferecem ocasião de nos exercitarmos no combate. Pensando nisso, não nos entristeçamos nas tentações, mas alegremo-nos com elas, à imitação do Apóstolo, que dizia: «Eu me alegro em meio às tentações (Homil. 3, in Genes.). O cristão, segundo a comparação de Santo Efrém, sob os golpes das tentações seja como uma bigorna sob os golpes do martelo, a qual, golpeada, não se dobra, não recua, não se amolece, não se lasca; antes, de certo modo, consolida-se e endurece cada vez mais (De (fide, t. I). Muitos Santos pediram a Deus que não os livrasse das tentações, para poderem alcançar maiores méritos.

Décima primeira vantagem: a tentação é o lagar do qual saímos conformes a Jesus Cristo. Diz Santo Agostinho: «Enquanto a uva pende da videira e a azeitona da oliveira, gozam de um ar livre, mas nem a uva nos dá vinho, nem a azeitona nos fornece azeite; se queremos vinho e azeite, é preciso que tanto a uva como a azeitona sejam espremidas no lagar. Assim acontece com aqueles que Deus predestinou, antes de todos os séculos, a serem conformes à imagem de seu Filho, o qual, principalmente no tempo de sua paixão, foi posto sob o lagar. Tais homens, antes de entrarem no serviço de Deus, gozam de alegre liberdade no século, como cachos de uva ou azeitonas pendentes de suas árvores; mas, como está escrito: Filho, consagrando-te ao serviço divino, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a tentação; por isso, quem está decidido a servir a Deus saiba e se convença de que veio ao lagar; será golpeado, esmagado, moído, não para que pereça, nem mesmo neste século, mas para que escorra para a despensa de Deus. Ele é despojado do invólucro dos desejos carnais, como a uva é separada do bagaço. Por isso o Apóstolo nos diz: Despojai-vos do homem velho e revesti-vos do novo; e isso não se obtém senão por meio do lagar das tentações (In Psalm. LXXXIII)».

Décima segunda vantagem: embora a tentação propriamente dita, isto é, aquela que conduz ao pecado, seja por si mesma e por sua natureza má, porque impele ao mal, contudo, por acidente, ela é boa nos justos e pacientes; pois estes, com seu heroísmo, sabem tirar bem desse mal; extraem o antídoto do veneno, o remédio da víbora, porque, combatendo a tentação e alcançando a vitória sobre ela, aumentam a graça, as virtudes e os méritos, e, portanto, necessariamente também a recompensa e a glória.

Este constitui o décimo terceiro benefício da tentação. Deus, que é onipotente e recompensa largamente os seus eleitos, quer que eles vigiem sempre armados e combatam sempre, para que jamais cessem de granjear recompensas para o tempo e para a eternidade. Deus permite grandes batalhas, das quais saímos vitoriosos, e permite pequenas escaramuças, nas quais ficamos vencidos, para que a vitória obtida nos combates terríveis seja grande e a ferida, leve; para que os que caem se levantem facilmente, e os que venceram nas grandes tentações não se ensoberbeçam. «Um grande combate, escreve Santo Agostinho, proporciona uma grande glória, não humana nem transitória, mas divina e eterna (In Psalm.)». Ninguém, observa o Eclesiástico, igualou Abraão em glória; mas, na tentação, foi achado fiel. Por isso, o Senhor, segundo a promessa que lhe fizera, tornou-o glorioso em sua descendência, multiplicou a sua posteridade como o pó da terra; elevou a sua progênie como as estrelas, estendeu os seus domínios de um mar ao outro, desde o rio até os extremos confins do mundo (Eclo 44, 20-23).

O décimo quarto benefício é que a tentação forma o anel da aliança com Deus. «A tentação vencida, dizia São Francisco de Assis (S. BONAV. In Vita), é um anel com o qual Deus desposa a si a alma do seu servo: ninguém pode julgar-se servo de Deus se antes não tiver passado pelo cadinho da tentação. A tentação dá a prova da virtude perfeita. É sinal de imensa graça de Deus não deixar nada impune em seu servo enquanto ele vive nesta terra».

Décimo quinto benefício: assegura e torna mais bela a coroa da vida. «Ao vencedor, diz Jesus no Apocalipse, darei de comer da árvore da vida, dar-lhe-ei o maná escondido» (Ap 2, 17); e já havia dito aos Apóstolos: «Vós sois aqueles que perseverastes comigo nas tentações; por isso, assim como o Pai preparou para mim, eu preparo para vós um reino no qual bebereis e comereis à minha mesa, e vos sentareis em tronos para julgar as doze tribos de Israel» (Lc 22,28-30). Por isso, Santo Ambrósio escreve: «Quando és tentado, sabe que se prepara para ti uma coroa eterna (In cap. 4, Luc.)», e São Bernardo observa que a luta é penosa, mas vantajosa; porque, se se sente a pena, também se terá a coroa; não prejudica em nada sentir a tentação, se não se consente nela: antes, a luta que cansa o combatente coroa o vencedor (De Inter. Domo).

Finalmente, a tentação consola e acalma a alma; porque à tempestade sucede a serenidade; à desolação, a consolação; à tentação e à tormenta, a calma e a alegria. Assim o ordenou Deus, como já advertia a virtuosa Sara, esposa de Tobias: «Todos aqueles que te conhecem, ó Senhor, estão seguros de que a sua vida, se for provada, terá a recompensa; se for atribulada, será depois consolada; se for castigada, encontrará depois misericórdia. Tu, com efeito, não te comprazes com o nosso sofrimento; mas, depois da tempestade, conduzes à calma; depois dos gemidos e das lágrimas, derramas a alegria» (Tb. 3, 21-22). O sinal das almas grandes, diz Alvarez, é que não temem o embate e os esforços dos inimigos, que não se entristecem com as penas e as tentações, mas delas gozam e com elas se alegram (De Victor. Tentat. c. II).

Jó descreve assim o cavalo: «Raspa a terra com a pata, salta com brio, lança-se contra os armados, desprezador do medo, não o detém a espada. Sente sobre si o ruído da aljava, o vibrar das lanças e o movimento do escudo. Espumante e fremente, devora a terra, nem espera que soe a trombeta; apenas ouvida a trombeta, diz: Muito bem. Sente de longe o odor da batalha, as exortações dos capitães, os gritos dos soldados» (Jó 39, 21-25). Este magnífico quadro pode muito bem aplicar-se, em sentido místico, às grandes almas às voltas com as terríveis tentações… «Quando uma alma forte, diz o Papa São Gregório, vê aproximar-se o combate das tentações, alegra-se e exulta, porque a sua virtude tem matéria para exercitar-se: como poderia temer a batalha aquele que já se alegra com o triunfo da vitória? (Moral. c. XXVIII)». Vede Santo Antônio: jaz abatido, maltratado pelos demônios, de tal modo que mal lhe resta fôlego; e, contudo, ouvi como canta alegre e jubiloso: Eis-me aqui; eu, Antônio, não, não fujo dos vossos combates, por cruéis que sejam; nenhum de vós me separará da caridade de Jesus Cristo (Ita S. Athanas, in eius Vita).

Tais benefícios que nos advêm das tentações devem animar-nos a esperá-las, a armarmo-nos, a não desanimarmos, a combater até o último alento.

9. MEIOS PARA VENCER AS TENTAÇÕES

O primeiro meio para vencer as tentações consiste em não se expor culposamente: «Não deis lugar ao diabo», diz São Paulo (Ef 4, 27); quem ama o perigo nele perecerá (Eclo 3, 27). É certo que ninguém pode vencer sem o auxílio de Deus; mas Deus não protege quem se expõe temerariamente… Enfrentar por própria vontade a tentação equivale a procurá-la, a querê-la; é, por si mesmo, um pecado, é querer sucumbir a ela…

O segundo meio consiste em recordar as promessas do batismo e fazer o propósito de permanecer fiel a elas. Com efeito, renunciar ao demônio, ao mundo, às suas pompas e às suas obras é como interditar-se antecipadamente todo consentimento nas tentações…

O terceiro meio consiste em desconfiar de nós mesmos. «Quem julga estar de pé, cuide para não cair» (1Cor 10, 12), escreve o Apóstolo das Gentes.

O quarto meio consiste na sobriedade e na vigilância. «Sede sóbrios e vigilantes, escreve São Pedro, porque o demônio, vosso inimigo, ronda ao vosso redor, rugindo como um leão e procurando uma presa» (1Pd 5, 8).

O quinto meio consiste em resistir imediatamente ao primeiro irromper da tentação. Aqui, mais do que nunca, pode-se repetir aquele dito do poeta: Detém o mal no princípio; inútil se torna o remédio quando o mal lança longas raízes. ― Guardemo-nos de deixar o inimigo entrar em nosso coração, porque, quando entrou, apodera-se dele e já não quer sair.

Para matar a serpente é preciso esmagar-lhe a cabeça; e «então esmagamos a cabeça da serpente, diz São Gregório, quando arrancamos do nosso coração o princípio da tentação (Moral. lib. 1, c. XXXVIII)». A cabeça da serpente é então esmagada, escreve também São Bernardo, quando a tentação é detida em seu primeiro aparecimento (Ad Soror. De modo bene vivendi). É excelente o conselho de Santo Agostinho: Se o demônio espreita o vosso calcanhar, vós mantende os olhos sobre a sua cabeça: a sua cabeça é o princípio da má sugestão; assim que começa a solicitar-vos ao mal, repeli-o imediatamente, antes que nasça a complacência e dela resulte o consentimento. Assim evitareis, ou melhor, esmagareis a cabeça da serpente (In Psalm. 48). Também se esmaga a cabeça da serpente quando se destrói a paixão dominante: esta é a cabeça da serpente. Quereis vencer e destruir todas as vossas paixões? Começai pela principal, que alimenta e conduz todas as outras. Quereis matar os leõezinhos que estão no ventre da mãe? Matai a mãe, e seus filhos estarão mortos.

O sexto meio consiste em estar sempre prontos para combater e munidos de boas armas… Fortalecei-vos no Senhor e em sua virtude onipotente, diz-nos a todos São Paulo, escrevendo aos Efésios; revesti-vos das armas de Deus, para que possais permanecer firmes contra os assaltos do demônio. Munidos da armadura divina, para que possais resistir no dia da tentação. Permanecei firmes, cingidos os rins com a verdade, protegido o peito com a couraça da justiça, calçados os pés com a preparação do Evangelho da paz, armado o braço com o escudo da fé, para que possais repelir todos os dardos inflamados do espírito maligno. Cobri-vos com o elmo da salvação, manejai a espada do espírito, que é a palavra de Deus; acrescentai súplicas fervorosas e contínuas, vigiando e orando sem cessar (Ef 6, 10-18). O soldado de Jesus Cristo deve armar-se, cingir-se, munir-se, preparar e prever tudo o que é necessário para sair triunfante da luta das tentações; preparado e previsto tudo, deve permanecer vigilante e atento, sempre pronto para o combate, sempre disposto a repelir o inimigo, qualquer que seja o número dos assaltantes, de qualquer parte que venham e seja qual for a maneira como combatam.

O sétimo meio é recorrer a Deus, recordar a sua presença, temê-lo e confiar nele. Se o combate vos chama, escrevia São Cipriano aos prisioneiros por causa da fé, se chegou o dia da batalha, combatei com fortaleza e constância, pensando que combateis sob os olhos de Deus (Epl. ad Martyres). «Aproximemo-nos com confiança do trono da graça, para obter misericórdia e encontrar, no momento oportuno, a graça de que necessitamos» (Hb 4, 16). Nunca nos esqueçamos daquela lembrança de Santo Antônio: «Se confiarmos sempre inteiramente nas mãos de Deus, não há demônio que possa aproximar-se de nós e vencer-nos (S. Athan. in eius Vita)». Deus no-lo assegura: «Invocai-me no dia da angústia, e eu vos livrarei, e vós me dareis louvor» (Sl 49, 15): «Minha mão vos servirá de apoio, e meu braço vos dará força» (Sl 87, 22).

Façamos nossas, nas tentações, aquelas belas orações do Salmista: «O Senhor me ouviu quando o invoquei» (Sl 4, 1). «Senhor, salvai-me e livrai-me das mãos de todos os que me perseguem» (Sl 7, 1). «Nunca aconteça que o demônio arrebate, como um leão, a minha alma» (Sl 7, 3). «Guardai-me, ó Senhor, como a pupila dos olhos; protegei-me à sombra de vossas asas contra a face dos ímpios que me perseguem» (Sl 16, 8-9). «Ouvi a multidão reunir-se em conselho contra mim e tramar planos de morte. Mas eu esperei em vós, ó Senhor; eu disse: Vós sois o meu Deus; em vossas mãos estão os meus destinos; arrancai-me das mãos dos meus inimigos e perseguidores. Ó Senhor, porque vos invoquei, não permitais que eu seja confundido» (Sl 30, 14-18). «Despertai, ó Senhor Deus, o vosso poder; vinde salvar-me; livrai-me do poder dos ímpios, livrai-me das ciladas do homem iníquo» (Sl 79,3; 139,2). Digamos com Santo Agostinho: «Quando vireis a nós, vós que nos resgatastes?» (Medit.).

«Aproximai-vos de Deus, e Deus se aproximará de vós», diz o apóstolo São Tiago (Tg 4, 8). Por que caminho nos aproximamos de Deus? 1° Resistindo ao demônio e afastando-nos dele; 2° humilhando-nos; 3° purificando-nos dos pecados por meio da penitência; 4° amando a Deus e exercitando-nos nas obras de caridade; 5° trabalhando para nos tornarmos perfeitos… Temamos a Deus e nunca deixemos de confiar nele, e estejamos certos de que venceremos toda tentação. Quem jamais sofreu tentações mais fortes do que as padecidas por José e por Susana? Ambos saem vencedores do combate, recordando a presença de Deus, invocando-o e temendo-o. Imitemo-los e ouviremos, em meio aos mais encarniçados combates, nossos inimigos gritarem desesperados, como outrora os egípcios, perseguidores do povo de Israel, em meio às ondas do Mar Vermelho: «Fujamos, porque o Senhor combate por eles contra nós» (Ex 14, 25).

O oitavo meio consiste na observância exata da lei divina.

O nono, na paciência e na resignação à vontade de Deus.

O décimo, na leitura da Bíblia, das Vidas dos Santos e de livros piedosos; em aconselhar-nos com homens sérios, sensatos, instruídos, prudentes, experientes e espirituais.

O décimo primeiro consiste em não nos perturbarmos, nem nos afligirmos, nem nos cansarmos e desesperarmos; em fugir da tristeza e, antes, conservar-nos alegres em meio às tentações, trazendo à memória aquela sentença de Santo Antônio: «Não há meio mais seguro para humilhar o tentador do que a alegria e a alegria espiritual (S. Athanas. in eius vita)».

O décimo segundo meio consiste em pensar na felicidade da vitória alcançada sobre as tentações. Pensai, diz Pico della Mirandola, que é coisa infinitamente mais doce vencer a tentação do que sucumbir a ela. Comparai a diferença que existe entre a doçura do triunfo e a doçura do pecado (In Spirito pugna). Quem é tentado diga a si mesmo: Não, não serei tão insensato a ponto de comprar um fel eterno por uma gota de mel; não, não me lançarei aos horrendos e eternos tormentos do inferno por um vil prazer de um momento.

O décimo terceiro meio nos é ensinado por Santo Agostinho, que quer que permaneçamos diante das tentações como um bloco quadrado que, seja qual for o lado para o qual se volte, permanece sempre assentado e firme. Permaneçamos firmes e inabaláveis diante dos esforços de qualquer tentação; aconteça-nos o que acontecer, não nos deixemos mover: todo gênero de tentações nos encontre igualmente firmes (In Psalm. LXXXVI, 1). De um lado coloquemos a fé, a esperança e a caridade; do outro, a oração e a humildade; no terceiro, a fuga e a vigilância; no quarto, os Sacramentos e o pensamento dos Novíssimos. Agindo assim, para qualquer lado que o demônio procure voltar-nos, de qualquer lado que nos assalte, estaremos munidos, não cairemos, mas permaneceremos firmes e inabaláveis, e esmagaremos com o nosso peso o leão e o dragão (Sl 90, 13).

O décimo quarto meio consiste em ter uma vontade decidida de não sucumbir, de não nos mancharmos. É preciso que estejamos tão dispostos de ânimo a preferir a morte a nos mancharmos. Lê-se que o arminho, se perseguido pelos caçadores, encontra-se fechado num círculo de lama e, em vez de manchar o seu pelo cândido passando por dentro dele, deixa-se apanhar, como se quisesse dizer: Prefiro morrer a manchar-me. — Imitemo-lo…

O décimo quinto meio consiste em combater e vencer a nós mesmos. Quem quer expulsar os demônios e dissipar as tentações deve começar por dominar os afetos e os desejos da própria alma… Não é dos demônios que devemos temer os assaltos mais perigosos e terríveis da tentação, mas de nossa própria vontade; ela é o nosso maior tentador, o nosso primeiro e mais perigoso demônio; de tal modo que todos os demônios do inferno nada podem contra nós quando não queremos o mal; e não precisamos de demônios que nos tentem a fazer o mal quando nós o queremos. Daí aquele dito de São Bernardo: «Cesse a vontade própria, e não haverá mais inferno» (Serm. de Resurr.).

O décimo sexto meio é considerar a própria nobreza e grandeza. «Vede, diz São João, que amor nos teve o Pai, querendo que fôssemos chamados filhos de Deus, e nós o somos verdadeiramente!» (1Jo 3,1). Quando a carne nos tenta, sigamos o conselho de São Cipriano e respondamos-lhe: Eu sou filho de Deus e nasci para coisas muito mais importantes e sublimes do que aviltar-me para satisfazer as torpes inclinações desta carne corrompida. Quando o mundo, apresentando-nos suas riquezas e comodidades, nos tenta, respondamos-lhe: Eu sou filho de Deus, destinado às riquezas celestes e eternas; seria para mim ato vergonhoso e indigno apegar-me a um pouco de terra branca ou amarela que se chama prata ou ouro. Quando o demônio nos solicita e persegue, prometendo-nos honras, pompas, prazeres, felicidades mentirosas e fugazes, respondamos-lhe: Eu sou filho de Deus; retira-te para o teu inferno, ó Satanás; jamais aconteça que eu, filho de Deus, herdeiro de Deus, coerdeiro de Jesus Cristo, templo do Espírito Santo, me transforme em filho do demônio! Nascido para o reino eterno do céu, desprezo e calco aos pés, como lixo, todas as honras da terra, suas pompas, suas riquezas, seus prazeres. Eu sou filho de Deus, quero imitar Jesus Cristo, meu irmão (Lib. de Spectac.).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.