Um pai de família, disse Jesus Cristo, saiu ao romper do dia à procura de trabalhadores para a sua vinha. Saindo novamente à hora terceira, viu outros que estavam ociosos. Fez o mesmo por volta da hora sexta e da nona. Finalmente, por volta da hora undécima, voltou à praça e, encontrando ali outros trabalhadores desocupados, disse-lhes: Por que permaneceis vós o dia inteiro ociosos? (Mt 30, 1-3, 5-6).
Eis o verdadeiro retrato dos indolentes que desgastam os seus anos na inação. Salomão pintou-lhes vivamente a vida em breves traços, quando diz ao preguiçoso: «Dormirás um pouco, cochilarás um pouco, cruzarás um pouco as mãos para repousar» (Pr 6, 10); e dá-lhe o retoque final nestas outras palavras: «O preguiçoso quer e não quer ao mesmo tempo» (Ib. 13, 4).
Há três maneiras de nada fazer: 1° permanecendo na ociosidade…; 2° não fazendo o que se deveria fazer, ou fazendo o que não se deveria…; 3° fazendo mal aquilo que se faz…
A vida do indolente não serve para nada; ele é um ser inútil e, portanto, indigno de viver. Os indolentes são árvores selvagens, estéreis e secas, que ocupam inutilmente o terreno… bons para nada, são monstros da sociedade. A vida ociosa pode ser comparada a uma planta sem raízes ou, como diz Temístocles, é o sepultamento de um homem vivo (PLUTARCO, Vite). Sêneca concorda com a mesma ideia (De Prov.), e Demétrio dá-lhe o nome de mar morto (Epl. LXVII).
Aquele servo preguiçoso de que fala o Evangelho (Mt 25), em vez de negociar o talento recebido, escondeu-o debaixo da terra. Ora, que lhe disse o senhor, quando veio pedir-lhe contas? Servo mau e preguiçoso, devias fazer frutificar o teu talento; voltando-se depois para os outros servos, ordenou-lhes: Tirai deste o talento e dai-o àquele que tem dez, porque a todo aquele que tem, ainda mais será dado; mas àquele que não tem, seja tirado o que tinha. Será tirado àquele que não tem até mesmo aquele pouco que possuía, do qual não sabe nem quer tirar proveito.
«Quem no presente, por desânimo e covardia de espírito, negligencia fazer o bem, diz São Gregório, irá mendigar a vida eterna no dia em que o sol da justiça se encontrar em todo o seu esplendor para julgar, mas ela lhe será negada (1)».
Se o preguiçoso está bem provido dos bens deste mundo, assemelha-se àquele homem do Apocalipse a quem o Senhor disse: “Tu dizes: eu sou rico e abastado, nada me falta; e não sabes que és mesquinho, miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3, 17). Vós, ó ricos, sois miseráveis, pobres e nus, porque nada tendes das verdadeiras riquezas, que são as riquezas da alma; por isso, eu vos digo, causais piedade.
A ociosidade foi sempre, em todos os tempos, diz o Eclesiástico, a mestra de todo vício, a fautora de toda perversidade (Eclo 33, 29); e a ociosidade, acrescenta Ezequiel, foi a iniquidade de Sodoma, a causa de todas as suas abominações (Ez 16, 49).
Assim como, escreve o Crisóstomo, um terreno que não foi semeado nem plantado produz toda espécie de ervas daninhas, assim também a alma, quando não tem com que ocupar-se, entrega-se ao mal (2).
Enquanto Sansão molestou os filisteus, foi invencível e conservou suas forças; mas, quando se entregou à ociosidade na casa de Dalila, perdeu os cabelos e as forças, foi preso e cegado: a acídia lhe tirou a visão da alma, e Deus se retirou dele. Enquanto Davi se viu como alvo das adversidades e abatido sob o peso de uma vida atribulada, não sentiu os estímulos da carne; mas, assim que desfrutou de um repouso demasiado prolongado, tornou-se adúltero e homicida. Salomão, ocupado na construção do templo, sai vitorioso de suas paixões; mas, tão logo cede à ociosidade, ei-lo a mergulhar de cabeça no lodo das paixões e a adorar os ídolos. O trabalho havia mantido castos esses três grandes personagens; a ociosidade os corrompeu.
Vós perguntais, diz Ovídio (3), como Egisto se tornou adúltero? A resposta está à mão: vivia na ociosidade.
As zombarias, as calúnias, as maledicências, o amor ao jogo, os furtos, a intemperança e o libertinismo têm, na maioria das vezes, sua origem na ociosidade, que é o estímulo de todos os vícios, o aguilhão para toda espécie de excessos… Pois, como diz São Basílio (4), “assim como os carunchos nascem e se multiplicam nas madeiras tenras e moles, assim todas as impiedades do espírito encontram seu berço e sua morada nas almas demasiado enfraquecidas”; e não há virtude tão fácil, acrescenta o Crisóstomo, que, por causa da acídia, não se torne pesadíssima e quase impossível de praticar.
É opinião de São João Crisóstomo (Homil. in Genes.) que a ociosidade de Adão foi a causa de sua queda: se tivesse estado ocupado, não teria dado ouvidos à serpente. Na ociosidade, o Demônio encontra sua morada; os maus pensamentos e todo pecado tiram da ociosidade sua origem… Os preguiçosos, diz São Bernardo, imersos no torpor da preguiça, dela sugam o delito (De Acedia). “E que outra coisa é a ociosidade, acrescenta São Cirilo, senão a perda da hora que passa e não retorna mais, o desperdício da vida, o recuar de quem caminha? Produz a fraqueza da carne, gera o orgulho, acende a libidinagem, solta a língua, conserva a indigência, anda de mãos dadas com o furto. A água estagnada corrompe-se, a espada sempre embainhada enferruja, o pé que nunca se move fica entorpecido, e o dente descarnado da traça rói a veste não usada” (Catech. lib. 2, c. IV) (5).
“Quem vive ocioso cairá nos horrores da indigência”, dizem os Provérbios (Pr 28, 19); e, comentando esta sentença, Cassiano escrevia (De instit. monach. lib. X, c. 2): o preguiçoso será vencido pela pobreza visível ou invisível, corporal ou espiritual, e muitas vezes por ambas ao mesmo tempo; não pode evitar cair presa de um bando de vícios; sente tédio e desgosto ao pensar e contemplar Deus, e está inteiramente despojado das riquezas espirituais.
O preguiçoso sufoca a própria consciência: deixa que se arruínem suas riquezas, a saúde, o bom nome e a vida. Os desocupados são ordinariamente grandes tagarelas; mantendo as mãos na cintura, trabalham a mais não poder com a língua, e é por isso que São Bernardo chama a vida indolente de mãe das tolices e madrasta das virtudes (6).
Sim, os desocupados são curiosos, maledicentes e mentirosos. Não tendo nada que fazer, põem-se a examinar, pensar e julgar as ações dos outros; a recolher fatos, comentá-los, censurá-los, deturpá-los e rir-se deles: erigem-se em censores de todos os homens e julgam-se superiores a todos. Isso observava o grande Apóstolo quando escrevia aos Tessalonicenses: “Ouvimos dizer que alguns entre vós procedem desordenadamente, nada fazendo, mas ocupando-se inutilmente de coisas alheias” (2Ts 3, 11). O que significa, como explica Máximo, que, não fazendo obra alguma, não se ocupam de outra coisa senão de intrometer-se, certa ou erradamente, nos negócios alheios (7); antes, acrescenta Teofilacto, isto é próprio dos desocupados: manter os olhos sobre a vida dos outros (8).
“Por medo do frio, o preguiçoso não quis trabalhar, dizem os Provérbios, mas no dia da colheita irá mendigar e nada recolherá” (Pr 20, 4). Todo preguiçoso, lemos ainda nos mesmos Provérbios, apodrecerá sempre na indigência (Ib. 21, 5); e como não seria assim? Passei pelo seu campo e pela sua vinha, e vi-os cobertos de urtigas; os espinhos se entrelaçavam por toda a superfície, e o pequeno muro que os protegia estava minado (Pr 24, 30-31).
São Bernardo descreve assim os tristes efeitos e as horrendas ruínas da acídia: “Se acontece que o frio da preguiça acometa uma alma, logo seu vigor se abate e ela fica entorpecida; finge não ter mais forças, mede o que há de horrível na austeridade; o temor da pobreza apequena os sentimentos; a graça se vai; o tempo parece longo, a razão dormita, a inteligência se extingue; o fervor inicial vai diminuindo, e avançam a tibieza e o tédio; a caridade fraterna diminui, e a paixão nos faz cócegas; a segurança nos engana, e o hábito nos arrasta. Que mais? Já não se conhece nem lei, nem direito, nem dever, nem temor de Deus. Chega-se finalmente à impudência, e aquele temerário que corre para o precipício, aquele homem coberto de vergonha e confusão, ergue-se presunçoso. Então precipita-se do alto da virtude no abismo dos vícios, de uma estrada cômoda e bem pavimentada numa poça, do trono numa cloaca, do Céu à terra, do claustro ao século, do Paraíso ao Inferno (9)”.
Uma fornalha ardente não lança tantas chamas quantos são os desejos que se desprendem de uma alma acediosa; por isso, quem quiser subtrair-se às funestas seduções, fuja do repouso e consagre-se ao trabalho…
Na acídia, a virtude se corrompe e o sentimento do dever se apaga numa alma ociosa, diz Demócrito (Ant. in Meliss., c. XLV); e Aristóteles acrescenta que companheiras inseparáveis da indolência são a moleza, a efeminação, o torpor e o amor da vida (10). E sabeis como? Eis uma comparação de São Bernardo que vo-lo explica. “Assim como a água se infiltra, sem ser percebida, por uma fenda no porão de um navio, e ali cresce até o ponto em que, por negligência dos marinheiros, o navio afunda, assim, por meio do ócio e da acídia, os maus pensamentos e os desejos libidinosos insinuam-se no coração e nele se multiplicam a tal ponto que esta frágil barquinha, cedendo ao peso, submerge no abismo do pecado (11)”.
Em algum cubículo se fecham e se conservam as galinhas que se quer engordar para comê-las; assim também os ociosos, imersos nas trevas do vício e abandonados à inércia, caminham para uma morte prematura, diz Sêneca (De Prov.). A água, escreve São Lourenço Justiniano (De Inter. Conflictu), que permanece parada num pântano, corrompe-se, já não serve aos usos da vida, enche-se de insetos e de répteis venenosos; assim também o corpo do ocioso contrai manchas e se encontra à mercê dos prazeres sensuais, que roubam à alma o senso do justo e do honesto.
Grande mal é a acídia! diz São João Crisóstomo (Homil. LIV); ela é a paralisia do homem inteiro… Entorpece as forças da alma não menos que as do corpo… Pode dar-vos uma ideia uma casa na qual não se façam os devidos reparos… um terreno que se deixe inculto… Oh! a ociosidade é nociva não somente às coisas espirituais, mas também às temporais; e quem a ela se abandona é o mais estúpido dos homens, sentencia a Escritura (Prov. 12, 11). E por quê? Primeiramente, porque o ócio traz consigo a pobreza e a miséria, como se diz nos Provérbios (6, 11); em segundo lugar, porque enfraquece a alma, tornando-a covarde e obtusa. Quem vive em ócio voluntário, diz o Crisóstomo, tanto nas palavras como nas obras comporta-se muitas vezes temerariamente, não faz nada durante todo o dia e tem a alma cheia de languidez e de torpezas (12). Depois, em outro lugar, acrescenta que a acídia afasta os bons pensamentos, os santos desejos, as iluminações, a graça, a virtude e todo bem; introduz a ignorância e um dilúvio de maus pensamentos (Homil. XV in Genes.).
Por causa da acídia, pregava o Crisólogo, o homem torna inúteis os dons da natureza, as faculdades da alma, o benefício da razão, a excelência de seu intelecto, o juízo de seu espírito, sua aptidão para as artes, o bem da educação; recusa ao seu Criador o fruto que todas essas coisas produziriam e a gratidão que delas deveria resultar. Árvore estéril, merece ser cortada e lançada ao fogo. Se for um homem público, gravíssimo é o dano que a sociedade sofre com isso (Serm. CVI).
“O ócio mata o corpo, a indolência mata a alma; o exercício embeleza maravilhosamente a um e à outra”, escreve o Crisóstomo (13). É preciso temer e fugir do ócio no repouso, admoesta São Bernardo (De Consid.); e isto quer dizer: é preciso guardar uma regra no repouso de que se tem necessidade, não entregar-se nele à preguiça, oferecê-lo a Deus e fazer dele um mérito de virtude, como do alimento e do sono, etc.…
“A indolência é a peste dos mortais”, escreve Platão (De Repub.). “Não dar atenção a nada é próprio de um insensato, diz Sêneca (De Prov.); não fazer nada é estar morto enquanto se vive”, porque, acrescenta Catão, “enquanto nada fazemos, aprendemos a fazer o mal” (In Desid.).
“O homem virtuoso aborrece o ócio”, deixou escrito Valério Máximo (lib. 2, c. 8), e Santo Agostinho observa que Roma caiu em ruína por causa do ócio, e que a destruição de Cartago teve origem no mesmo vício.
“O homem que trabalha é assaltado por um só demônio, mas o ocioso é joguete de mil espíritos infernais”, assim diz Cassiano (14). No Apocalipse, lê-se ainda que o dragão se deteve sobre a areia do mar (Ap. 12, 18). Estas palavras significam que o Demônio prevalece sobre os acediosos, que os agita e arrasta como a onda faz com a areia; significam ainda que o indolente, semelhante à areia que nada produz, é a morada predileta do Diabo…
“O ócio, escreve Santo Ambrósio (15), põe em perigo até mesmo aqueles que haviam saído vitoriosos das guerras”; porque, como ensina São Bernardo (16), “a preguiça é a mãe de todas as tentações”, ou, como diz São Tomás, “o anzol com que o Demônio captura os homens (17)”; e, de fato, como não venceria o Demônio o ocioso, quando o encontra sem armas, sem defesa, sem cautelas? … Ah! o acedioso é uma casa aberta a todos os ladrões do Inferno…
É sentença de Alexandre Magno que abandonar-se ao ócio e ao luxo é coisa de escravo (18), e a Escritura manda o indolente à formiga, para que, pelo exemplo dela, que provê no verão o alimento para o inverno, aprenda a tornar-se sábio (Prov. 6, 6-8). Ó acedioso impudente! exclama São Bernardo (De Acedia); mil milhões de Anjos servem a Deus, e dez milhões estão prontos para executar seus acenos; e tu? tu pretendes repousar!
Mas na Escritura se lê uma coisa verdadeiramente humilhante e vergonhosa para essa raça de gente: “O preguiçoso é apedrejado com punhados de lama, e todos falarão dele com desprezo: é apedrejado com esterco de boi, e quem o toca sacode as mãos” (Eclo. 22, 1-2). Como se quisesse dizer: a acídia é tão odiosa e culpável que os homens julgarão merecedor de ser apedrejado aquele que a ela se abandona; mas tal será o desprezo em que o terão que, em vez de pedras, usarão lama e esterco de boi.
Depois, disputarão entre si quem mais se afastará dele e, como de um ser vil, todos fugirão; e quem o tiver tocado sacudirá as mãos manchadas e se apressará a lavá-las… Estas palavras demonstram, além disso, que o indolente é a própria fraqueza em pessoa, pois basta um punhado de barro ou de esterco para abatê-lo e fazê-lo estatelar-se…
Não deveria ele acaso cobrir de vergonha o rosto com ambas as mãos, não deveria o indolente arder de desonra ao pensar que nada faz no mundo, enquanto tudo nele está em movimento? Porventura o sol, a lua e as estrelas deixaram, um dia sequer depois da criação, de cumprir o seu curso? Deixaram a terra e o mar de produzir? E os animais, as aves e os insetos não seguem o caminho que lhes foi traçado desde o princípio? Entre todos esses seres desprovidos de inteligência não há um só que não trabalhe à sua maneira; somente o ocioso nada faz! Ele se assemelha àqueles postes fincados ao longo das grandes estradas, que veem continuamente passar os viajantes, enquanto permanecem imóveis até que apodreçam, sejam derrubados ou lançados ao fogo. Mas há coisa pior: porque aqueles postes imóveis ao menos indicam o caminho a seguir; o indolente, ao contrário, longe de indicar a estrada reta, conduz consigo para o abismo, com seu exemplo, os desgraçados que o imitam…
“O caminho dos preguiçosos é cheio de espinhos”, dizem os Provérbios (Pr 15, 19). Esses espinhos que o indolente encontra semeados em seu caminho são os desejos maus que o cercam, as seduções que o rodeiam, as tentações que o assaltam como furiosa tempestade, as paixões que o devoram, a pobreza que o oprime, as doenças que lhe tiram a saúde e o conduzem a uma morte prematura…; porque a preguiça, segundo a observação de São Bernardo, é mãe do tédio, da angústia, da pusilanimidade e do desespero (19).
Semelhante a Caim, o indolente caminha errante e vagabundo, dilacerado por remorsos bem merecidos… Abominado por Deus e pelos homens, perseguido pelo clamor da consciência, flagelado pelo exemplo de todos os que o rodeiam e que ele vê diligentes no trabalho, atormentado pelas paixões, poderia acaso ser feliz? Não, ele não prosperará; e quem não prospera é infeliz…
Vendo Jesus Cristo à beira do caminho uma figueira, aproximou-se dela, mas, não encontrando nela senão folhas, disse: “Jamais nasça de ti fruto algum”; e a figueira secou no mesmo instante (Mt 21, 19). Eis uma imagem eloquente do preguiçoso: a mesma sorte lhe caberá. “Há três anos, disse o dono da vinha de que se fala no Evangelho, que venho procurar fruto nesta figueira e não o encontro; corta-a, pois: por que ainda ocupa a terra?” (Lc 13, 7).
“Vede”, bradava São João, “que o machado já está posto à raiz da árvore. Toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo” (Lc 3, 3).
Deus, disse Jesus Cristo, é semelhante a um homem rico que, estando para partir em longa viagem, chamou os seus servos e lhes distribuiu parte dos seus haveres. E, considerando a destreza, o engenho e a capacidade de cada um, a um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um somente; depois, partiu. Ora, o servo dos cinco talentos foi negociá-los e ganhou muito, pois fez aumentar para dez os cinco que recebera. Assim também o segundo se esforçou e duplicou os dois talentos. Mas aquele que recebera um só fez uma cova na terra e enterrou o talento do seu senhor. Depois de muito tempo, o senhor voltou da viagem e pediu contas aos servos. Apresentou-se o primeiro, que havia recebido cinco talentos, e disse: Senhor, destes-me cinco talentos; eis que ganhei outros cinco além desses. E o senhor: Alegra-te, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, eu te constituirei sobre muito; entra na alegria do teu senhor. Veio o segundo e disse: Senhor, confiastes-me dois talentos; eis que vos devolvo quatro. Respondeu o senhor: Alegra-te, servo diligente e leal; porque demonstraste a tua fidelidade em coisa de pouco valor, constituir-te-ei sobre muitas coisas; entra na alegria do teu senhor. Por fim, aproximando-se o terceiro, que havia recebido um só talento, disse: Senhor, eu vos conheço como homem duro e tão exigente que quereis colher não somente o que semeastes e espalhastes, mas também aquilo que não semeais nem espalhais; e, temendo isso, escondi o vosso talento na terra; agora o retirei e vos devolvo o que é vosso. E o senhor respondeu-lhe: Servo mau e preguiçoso, se sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei, por que ao menos, como devias e podias, não aplicaste o meu dinheiro aos banqueiros, para que, ao voltar, eu o recebesse com juros? Vamos, meus ministros! Tirai deste homem o talento e lançai este servo infiel e inútil nas trevas exteriores, onde haverá pranto inconsolável e ranger de dentes sem trégua (Mt 25, 14-30). Esta parábola põe diante dos nossos olhos a sorte reservada ao servo laborioso e o castigo destinado ao ocioso: ser-lhe-á tirado aquilo que lhe fora dado e, privado por Deus de suas graças, ele se verá precipitado nas trevas exteriores da cegueira espiritual; e destas cairá nas trevas do Inferno, onde experimentará eternamente o pranto e o ranger dos dentes.
Servo infiel e inútil, sacode, pois, a tua indolência e negocia o talento que Deus te confiou: faz valer os olhos, os ouvidos, a língua, as mãos, os pés, a inteligência, a memória e a vontade; negocia o tempo, a graça, os dons temporais e espirituais que recebeste; consagra todas essas coisas ao serviço do teu Criador. Mas ai de ti se permaneceres inerte em meio a tantos favores; ai de ti se deles abusares: serás despojado de tudo e entregue a tormentos que não terão fim.
O ocioso imita ainda as virgens insensatas de que fala o Evangelho e encontrará a mesma sorte. Dez virgens, disse Jesus Cristo, tomando suas lâmpadas, saíram de casa para fazer a recepção solene do esposo e da esposa. Cinco delas eram insensatas e cinco prudentes; aquelas não se deram conta de que suas lâmpadas estavam sem óleo e não se proveram dele; estas levaram consigo as lâmpadas bem abastecidas e óleo para reabastecê-las. Ora, demorando-se o esposo a chegar, todas cochilaram e depois adormeceram. Mas eis que, à meia-noite, se ouviu um ruído e uma voz gritando: O esposo se aproxima; ide recebê-lo. Ao ouvir aquele grito, todas as virgens se levantaram e tomaram suas lâmpadas. Então as insensatas, voltando-se para as prudentes, suplicando, disseram: Ah! dai-nos um pouco do vosso óleo, pois nossas lâmpadas estão se apagando. E as prudentes lhes responderam: Para que não aconteça que a nossa provisão não seja suficiente nem para vós nem para nós, se a repartirmos, ide antes aos vendedores de óleo e comprai para vós. Enquanto se apressavam em ir, chegou o esposo; e as prudentes, que estavam preparadas, entraram com ele na sala das núpcias, e as portas foram fechadas. Finalmente chegaram, ofegantes, também as outras virgens e, encontrando a porta fechada, diziam, chorando: Senhor, senhor, abri-nos; mas ele respondeu: Ide embora; não vos conheço, nem sei quem sois (Mt 25, 1-12).
As virgens prudentes e precavidas, que se mantiveram prontas e entraram com o esposo na sala do banquete, são os homens vigilantes e laboriosos. As insensatas e imprudentes representam os indolentes, que dormem sem possuir uma gota do óleo da fé e das boas obras e que, por consequência, não são admitidos no Céu ao banquete do esposo. A porta será fechada diante de seu rosto, e terão, à imitação das virgens insensatas, um grande clamor no momento da morte: Senhor, Senhor, por caridade, abri-nos; mas o soberano juiz, que recompensa cada um segundo as suas obras, responder-lhes-á: Ide embora, pois não vos conheço… “Não”, diz São Bernardo, “o reino de Deus não é dado aos ociosos” (20).
Eles pertencem àquela multidão de feridos pela morte, dos quais escreve o Salmista que dormem no sepulcro, esquecidos por Deus e por Ele apagados do livro da vida (Sl 87, 5).
Se os ricos da terra desprezam os servos preguiçosos e indolentes, não lhes pagam o salário e justamente os mandam embora, acaso quereríeis que Deus recompensasse o homem que o serve com negligência? Como, antes, não o punirá severamente? …
“Ai de vós, clama o profeta Miqueias, que vos perdeis em pensamentos e projetos inúteis” (Mq 2, 1). Vede, acrescenta Santo Ambrósio (21), o ocioso Esaú; ele perdeu a bênção anexa ao direito de primogenitura.
“Não vos iludais, escrevia o grande Apóstolo aos Gálatas, Deus não se deixa escarnecer; o homem colherá aquilo que tiver semeado” (Gl 6, 7-8); e lembrava aos Hebreus que a terra que bebe a chuva que a irriga e produz ervas úteis para quem a cultiva recebe a bênção de Deus; mas aquela que produz espinhos e abrolhos é desprezada, amaldiçoada e, por fim, lançada ao fogo (Hb 6, 7-8). O bom terreno é símbolo do homem laborioso; o terreno selvagem, amaldiçoado e consumido pelo fogo representa o homem covarde, indolente, preguiçoso, tíbio…
A São Paulo, que estava atônito diante de Ananias por aquilo que lhe sucedera, este disse: “E agora, que esperas? Levanta-te” (At 22, 16); assim se deve dizer ao tíbio: levanta-te do miserável estado em que jazes, sacode a inércia, muda de vida…
O verdadeiro remédio contra a acídia está no amor de Deus, porque a caridade, segundo São Gregório, fornece força (22).
“Não vos furteis ao trabalho, se não amais perder a coroa”, escreve Santo Efrém (23); pois, precisamente para que trabalhássemos, Deus nos deu mãos e forças… O tempo presente é o tempo do trabalho; o futuro, ou a eternidade, será o da recompensa e do repouso.
Santo Antônio ouviu uma voz que lhe gritava: Antônio, queres ser o olho de Deus? Reza; e, quando te for impedido rezar, ocupa-te sempre com alguma coisa pelas tuas mãos (24).
Entre a água que fica estagnada e aquela que corre, qual é a melhor? pergunta São João Crisóstomo; e o ferro vale mais quando utilizado ou quando deixado inativo? (Hom. 25, in Act. Apost.). São Jerônimo estabelecia como regra para Rústico fazer sempre alguma coisa, para que o Demônio o encontrasse sempre ocupado (25); pois o ocioso é presa dos maus desejos. Isso reconhecia também Ovídio (26), que deixou escrito: Ao manter-vos longe da ociosidade, quebrais o arco de Cupido. “Um trabalho assíduo leva a bom termo toda empresa, por mais difícil que seja”, diz Virgílio.
Trabalhar é próprio dos reis, costumava dizer Alexandre Magno. Santo Ambrósio, por sua vez, atesta de si mesmo que “nunca estava menos só do que quando parecia estar; e nunca estava menos ocioso do que quando repousava (27)”.
Ah! Trabalhai na juventude, para que tenhais de que viver na velhice; acumulai méritos na terra, para que eles vos obtenham a bem-aventurança celeste… Jamais podereis meditar o bastante estas palavras de São Francisco de Assis: “Por um pouco de trabalho, uma glória imensa; por um prazer momentâneo, uma pena eterna (28)”. Tende em mente, conclui Santo Isidoro, que o trabalho mata a luxúria (29).