São Paulo, em sua Epístola aos Hebreus, diz: «A fé é a substância de todas aquelas coisas que se devem esperar, demonstração daquelas que não se veem» (11, 1). Apoiado nestas palavras, o Crisóstomo chama a fé de convicção e certeza daquilo que se espera, como se já se possuísse, porque Deus falou (In Homil. ad Hebr.), «A fé, diz Santo Agostinho, é crer naquilo que não se vê, e a recompensa da fé será ver aquilo em que se acreditou (1)».
A Igreja, por sua vez, define a fé como uma virtude sobrenatural por meio da qual cremos em Deus e em tudo o que Deus revelou à santa Igreja, e, por meio da Igreja, a nós (Catech.).
«Procurai, dizia um dia Jesus Cristo aos judeus, não aquele alimento que passa, mas o que dura até a vida eterna, o qual vos será dado pelo Filho do homem. Pois nele imprimiu o seu selo Deus Pai. E, tendo eles perguntado: Que faremos nós para praticar obras agradáveis a Deus? Jesus respondeu: A obra agradável a Deus é que creiais naquele que ele enviou» (Jo 6, 29). E é obra tão agradável a Deus que São Paulo nos assegura ser impossível agradar a Deus sem a fé; portanto, é necessário que aquele que quer aproximar-se de Deus creia que ele existe e que recompensa aqueles que o procuram (Hb 11, 6).
Nos Atos dos Apóstolos lê-se que todos aqueles que estavam predestinados à vida eterna creram (At 13, 48); e Jesus Cristo afirmou que quem não crê já está condenado (Jo 3, 18). Disso se conclui que, para ser salvo, é preciso crer. «Sem a fé, diz Santo Agostinho, a vida não é boa, nem reta, nem nobre (2)».
«O fim da lei é Cristo, escreve São Paulo, para tornar justo todo aquele que crê» (Rm 10, 4). «O fim, isto é, a perfeição da lei, observa Santo Anselmo, é Jesus Cristo, porque sem a fé nele, a lei não pôde nem pode ser cumprida» (Monolog.).
Os hebreus, que não quiseram crer, não entraram na terra prometida; os judeus, que não deram fé ao Redentor, já não compreenderam nem a lei nem os profetas. Por causa da sua incredulidade, como diz São Paulo, os judeus foram quebrados, e os cristãos permanecem firmes pela fé (Rm 11, 20). Por isso, Santo Agostinho sentencia: «Quem abandona a fé já não está no caminho reto (3)».
«O justo vive da fé», diz São Paulo aos hebreus (10, 38). É, pois, necessária a fé para ser justo; é preciso ter fé para viver; e, se não vive senão aquele que tem fé, quem não a tem está morto… Jesus disse com a própria boca: «Quem não crer será condenado» (Mc 16,16).
1º Quem ousará sustentar que a razão nos fornece luz suficiente acerca da moral e, especialmente, acerca do dogma, e que são, portanto, inúteis a revelação e a fé na revelação? Com efeito, primeiramente, somente a fé pode indicar-nos a verdadeira causa de nossa corrupção e mostrar-nos o remédio para nossos males…; 2º somente ela pode fazer-nos conhecer nosso último fim e conduzir-nos a ele…; 3º somente ela é capaz de preservar-nos de muitos erros capitais, contrários à própria lei natural, os quais se encontram mesclados entre as belas máximas enunciadas pelos filósofos pagãos…; 4º somente ela possui o segredo das virtudes mais essenciais e necessárias ao nosso bem-estar, tais como a humildade, o desapego de si mesmo, o amor aos inimigos, o perdão das injúrias, a resignação à vontade de Deus, a pureza, a virgindade e outras semelhantes. Algum pagão também faz alusão a essas virtudes, mas o que dizem a respeito provém de já terem tido delas algum conhecimento por meio do Cristianismo; além disso, não apresentam razões suficientes para nos induzir a praticá-las… Quem jamais chegou a conhecer, sem a fé, a criação, a redenção, o próprio Deus? … .
1º A palavra de Deus no Antigo Testamento. Deus falou aos homens? Manifestou-lhes suas vontades? Se Deus falou, é necessário crer nele, porque Deus não pode enganar, nem enganar-se, nem ser enganado. Ora, Deus falou; fez conhecer suas vontades aos patriarcas… aos profetas… Os inumeráveis e públicos milagres são monumento perpétuo que lhes presta testemunho, juntamente com as mais autênticas profecias…, com o testemunho do povo judeu… e até mesmo dos pagãos… Ciro…, Nabucodonosor…, Dario… etc.
2º A palavra de Deus no Novo Testamento é o fundamento de nossa fé; Jesus Cristo é verdadeiramente o Messias prometido; provou-o com muitos milagres autênticos…; provou-o pelo cumprimento de todas as profecias…; prova-o com suas próprias profecias…; prova-o com sua moral divina…
3º Nossa fé tem por base a estabilidade e a infalibilidade da Igreja; seus benefícios e suas maravilhas; seus apóstolos, seus mártires, seus doutores, seus santos de todos os séculos.
4º Ela apresentaria, em caso de necessidade, para sua própria justificação, o consenso unânime e universal dos homens, as confissões e as homenagens dos próprios inimigos da fé, o testemunho dos monumentos.
A Sabedoria chama o dom da fé de um dom singular, um dom escolhido (3, 14).
Se conheceis Jesus, se credes nele, diz um autor, isso basta, ainda que ignorásseis todo o resto; se, ao contrário, sabeis todo o resto, mas ignorais Jesus, é como se não soubésseis nada (4). No presente, diz Santo Agostinho, amamos, crendo, aquilo que veremos; então amaremos, vendo, aquilo em que cremos (5).
A fé é o princípio da visão beatífica, na qual consistem a vida e a felicidade eternas; pois a fé gera a esperança; a esperança suscita a caridade; a caridade produz as boas obras, por meio das quais merecemos a vida eterna… Por isso, Santo Agostinho diz, para louvor da fé, que Deus colocou a justificação não na lei, mas na fé em Jesus Cristo. Moisés, pela justiça legal, prometeu aos justos segundo a lei nada mais que a vida temporal; ao passo que Deus prometeu à justiça da fé, isto é, aos justos segundo a fé, a salvação e a vida eterna (Serm. XVIII).
Crede em Deus, lemos no Eclesiástico, e jamais vos faltará coisa alguma (2, 6). Ora, que significa crer em Deus?, pergunta Santo Agostinho; e responde que crer em Deus significa amá-lo, ir a ele, ser incorporado aos seus membros (Tract. XXVII in Ioann.).
Somente a fé, observava Fílon, é um bem sólido e certo; é a consolação da vida, sustenta a esperança, afasta a calamidade, traz a felicidade, expulsa a superstição, fortalece a piedade, faz progredir em todo bem. Quem tem a fé possui a Deus, que pode e quer todo bem (Lib. de Abraham).
«A fé, diz São Bernardo, é como um modelo da eternidade: encerra em seu seio imenso o passado, o presente e o futuro; nada lhe escapa, nada a ultrapassa, nada perece para ela (6)». O mesmo doutor diz: «Que coisa jamais descobre a fé? Chega às coisas inacessíveis, descobre as desconhecidas, abraça o que é imenso, alcança o futuro; em uma palavra, encerra, de certo modo, a própria eternidade em seu seio (7)».
A fé venceu, triunfa, vencerá… Santo Agostinho ensina que a fé de Jesus Cristo conquistou o mundo inteiro por meio da santidade, da castidade, da paciência e da constância dos apóstolos, dos mártires e das virgens. A fé venceu e debelou toda perfídia, de tal modo que nem o judeu nem o herege têm mais poder algum contra ela (8). Por isso, conclui que não há riquezas, tesouros, honras nem coisa alguma no mundo que iguale ou sequer alcance a excelência da fé. A fé católica salva os pecadores, ilumina os cegos, cura os enfermos, batiza os catecúmenos, justifica os fiéis, reabilita os penitentes, multiplica os justos, coroa os mártires (9).
Pela fé, vive-se uma vida pura, alegre, tranquila, santa e feliz. Pensai quanto deve ser poderosa a força da fé, se venceu todas as dificuldades, se não se detém diante de nenhuma adversidade, mas é a saúde da alma, à qual infunde um vigor divino.
A fé merece para Pedro o primado da Igreja e as chaves do reino dos céus. Pois Jesus Cristo lhe disse: Tu és Pedro, e sobre ti edificarei a minha Igreja, e a ti entregarei as chaves do reino dos céus, quando, tendo-lhe perguntado o que pensava e cria a respeito dele, o ouviu responder: «Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo» (Mt 16, 16). Promessa admirável, rica e sublime, que terá seu efeito até o fim dos tempos nos sumos Pontífices, sucessores daquele Pedro, à cuja fé foi feita.
Eis o elogio que São Paulo faz da fé em sua Epístola aos Hebreus. Pela fé, Abel ofereceu a Deus vítimas mais agradáveis que as de Caim e recebeu o testemunho de ser justo, tendo Deus aprovado os seus dons; e, por ela, ainda fala depois de morto. Pela fé, Henoc foi trasladado, para que não visse a morte. Pela fé, Noé, advertido acerca do que ainda não se via, preparou uma arca para salvar a sua família; e, por meio da arca, condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem da fé. Pela fé, Abraão obedeceu, partindo para o lugar que devia receber em herança, e partiu sem saber para onde ia. Pela fé, peregrinou na terra prometida como em terra estrangeira, habitando sob tendas com Isaac e Jacó, coerdeiros da mesma promessa; pois esperava aquela cidade bem fundada, da qual Deus é fundador e arquiteto. Pela fé, Sara, embora estéril, recebeu a virtude de conceber mesmo além da idade, porque acreditou naquele que lhe fizera a promessa… Na fé morreram todos estes, sem terem alcançado as promessas, mas vendo-as e saudando-as de longe, e confessando serem hóspedes e peregrinos sobre a terra. Com efeito, os que assim falam demonstram estar à procura da pátria; mas não aspiram à terrestre, e sim à celeste… Por isso, Deus não se envergonha de chamar-se seu Deus… Pela fé, Abraão, posto à prova, ofereceu Isaac, e oferecia o seu unigênito, aquele que recebera as promessas; aquele a quem fora dito: Em Isaac será chamada a tua descendência. Pela fé, Isaac deu a Jacó e a Esaú a bênção referente às coisas futuras. Pela fé, Jacó, ao morrer, abençoou cada um dos filhos de José. Pela fé, José, estando para morrer, ordenou que os seus ossos fossem transportados pelos filhos de Israel quando saíssem do Egito. Pela fé, Moisés, tendo-se tornado grande, não quis ser chamado filho da filha do Faraó, preferindo ser afligido com o povo de Deus a gozar por algum tempo do pecado, julgando maior riqueza o opróbrio de Cristo que os tesouros do Egito, porque olhava para a recompensa. Pela fé, deixou o Egito sem temer a ira do rei, porque se fortaleceu como que vendo aquele que é invisível. Pela fé, celebrou a Páscoa, fez a aspersão do sangue e atravessou o mar Vermelho como por terra seca. Pela fé, caíram as muralhas de Jericó. E que direi ainda? Faltar-me-ia o tempo para falar de Gedeão, de Barac, de Sansão, de Jefté, de Davi, de Samuel e dos profetas. Estes, pela fé, conquistaram reinos, praticaram a justiça, alcançaram as promessas, taparam a boca dos leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam do fio da espada, sararam de enfermidades, tornaram-se fortes na guerra e puseram em fuga exércitos estrangeiros. Outros foram torturados e não quiseram a libertação, para obter uma ressurreição melhor. Outros sofreram escárnios e açoites, cadeias e prisões; foram apedrejados, serrados, tentados, mortos à espada; andaram errantes, cobertos de peles de carneiro, necessitados, angustiados, aflitos. Homens dos quais o mundo não era digno andaram errantes pelos desertos e montanhas, nas cavernas e grutas da terra (Hb 11, 4-38). Poder-se-ia fazer um quadro mais magnífico e, ao mesmo tempo, mais verdadeiro das maravilhas da fé sob a antiga lei?
Zacarias, pai do Batista, duvida da promessa divina, e ei-lo mudo; mas, tão logo crê, recupera o uso da fala (Lc 1, 64). «A fé, observa Santo Ambrósio, desata a língua que a incredulidade havia amarrado (10)». A Bem-aventurada Virgem dá crédito à palavra do anjo, e o Verbo se faz carne, e o mundo é salvo…
Não basta: ouvi o que diz o próprio Jesus Cristo, e maravilhai-vos: «Dou-vos a minha palavra em penhor: aquele que crê fará as obras que eu faço; e fará ainda maiores». (Jo 14, 12). E quais são essas obras que farão aqueles que crerem em Jesus Cristo, e que serão ainda mais estupendas que as do homem-Deus? 1° Orígenes as vê nisto: que homens fracos e frágeis triunfem da carne, do mundo e do demônio; pois coisa mais admirável é que Jesus Cristo triunfe em nós do que triunfar por si mesmo (Homil. VII). 2° O Crisóstomo vê o cumprimento das palavras citadas de Jesus Cristo nos milagres de São Pedro, cuja sombra, como testemunham os Atos dos Apóstolos (5, 15-16), bastava para curar toda espécie de enfermidade e expulsar os demônios; coisa que não lemos ter sido feita por Jesus Cristo (In Evang. Ioann.). 3° É opinião de Santo Agostinho que, por essas obras maravilhosas, se deve entender a conversão do mundo pagão por meio de doze pescadores. «Isto, diz o citado Padre, é algo mais estupendo que a própria criação do céu e da terra; porque o céu e a terra passarão, ao passo que a salvação e a justificação dos predestinados permanecerão eternamente. O que Jesus faz em nós e conosco é maior que o céu e a terra, que ele fez sem nós; porque, na obra do céu e da terra, há somente a mão de Deus, mas em nós há a imagem de Deus (11)».
Pela fé, somos todos filhos de Deus, assegura-nos São Paulo (Gl 3, 26). E São Tiago escreve que Deus escolheu os pobres deste mundo para que sejam ricos na fé e herdeiros do reino que Deus prometeu aos que o amam (Tg 2, 5). Com isso, o santo Apóstolo nos insinua que as verdadeiras riquezas não devem ser procuradas no ouro, na prata ou nas vestes preciosas, mas na fé e nas virtudes que da fé tiram a origem e a vida. Em louvor da fé, dizia também São João que ela é a vitória que subjuga o mundo, porque nasceu de Deus; e tudo o que nasceu de Deus vence o mundo (1Jo 5,4).
«A fé, diz o Crisóstomo, é a luz da alma, a porta da vida, o fundamento da salvação eterna (12)». «Pela fé, diz São Bernardo, possuo a eterna e augusta Trindade, que o meu espírito não compreende (13)». «As cadeias, as prisões, os exílios, a fome, o fogo, as feras e os mais atrozes suplícios jamais fizeram vacilar os homens de fé, observa São Leão. Pela fé, em todo o mundo, não somente os homens, mas também as mulheres, os meninos e as donzelas combateram até o derramamento do sangue» (Serm. 2, de Ascens.).
Observai as maravilhas da fé nos primeiros cristãos. Todos os fiéis formavam como que um só corpo, com um só coração e uma só alma, e punham tudo em comum. Vendiam os bens e repartiam o preço entre todos, conforme a necessidade de cada um (At 2, 45-46). Considerai a que a fé impele os apóstolos, os mártires, os anacoretas e as virgens; um São Francisco Xavier, um São Vicente de Paulo e mil outros santos em todos os séculos…
Contemplai os monumentos erguidos nos séculos de fé… A impiedade tudo abate; a fé tudo restaura…
Quem povoa de anjos terrestres os desertos, os montes, as solidões, os claustros e as grutas? A fé.
Quem envia aos hospitais, às prisões, aos ergástulos, aos hospícios e aos campos de batalha tantos milhares de jovens que renunciam a todos os confortos da casa paterna, a todas as vantagens do século, para consagrar-se, partilhar e aliviar as misérias alheias? A fé.
Quem une, em todo o mundo, a Igreja Católica de tal modo que, de tantos milhões de homens de toda classe, condição e língua, resulta um só corpo? A fé.
Quem gera as heresias, os cismas, as seitas, todas as divisões, todo esse caos de opiniões conflitantes, todas as revoluções sanguinárias e devastadoras, de que a terra é palco? A perda da fé.
Quem multiplica os libertinos, os escandalosos, os ímpios, os ladrões, os adúlteros, os assassinos? A perda da fé…
Quem, ao contrário, mantém a paz e a união nas famílias, o respeito e a prosperidade de geração em geração? A fé… Ela é o mais sólido fundamento dos impérios, dos reinos, das nações, da sociedade, das famílias… A fé forma o bom rei, o bom ministro, o bom legislador, o bom juiz, o bom sacerdote, os bons pais, os bons filhos, os bons cristãos…
«Crede em Deus, lemos na Escritura, e nada tereis a temer» (2Cr. 20, 20).
«Pela fé, dizem os Provérbios, os pecados são cancelados» (15, 27). «Deus se manifesta àquele que tem fé», diz a Sabedoria (1, 2). E já por meio do profeta Oseias, Deus havia prometido desposar consigo a alma vivificada pela fé (2, 20).
Jesus Cristo, depois de admirar e fazer notar a fé do Centurião, despede-o, dizendo-lhe: «Vai, e aconteça-te segundo creste. E o seu servo foi curado naquele instante» (Mt 8, 13).
Uma tempestade ameaça engolir a barca onde estão Jesus e os Apóstolos. Estes tremem de pavor, e Jesus lhes diz: «Ó homens de pouca fé, de que temeis? E, levantando-se, ordena aos ventos e às ondas, e o mar volta à bonança» (Ib. 8, 26).
Um dia, alguns se aproximaram de Jesus e lhe apresentaram um paralítico estendido no leito. Conhecendo a fé deles, o Salvador disse ao enfermo: «Tem confiança, meu filho, os teus pecados te são perdoados». E, depois desse milagre espiritual, acrescentou: «Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa». E o paralítico levantou-se e foi para casa (Ib. 9, 2, 6-7).
Uma mulher atormentada por um fluxo de sangue havia doze anos aproximou-se silenciosamente do Redentor e tocou, sem ser observada, a orla de sua veste, pensando consigo que, se pudesse tocar-lhe as vestes, ficaria curada. Voltando-se, Jesus a viu e lhe disse: «Tem confiança, filha, a tua fé te curou»; e assim aconteceu (Ib. 20-22).
Tendo Jesus entrado numa casa, alguns cegos se aproximaram dele; perguntou-lhes se criam que ele podia fazer o que lhe pediam e, tendo eles respondido que sim, tocou-lhes os olhos, dizendo: «Faça-se segundo a vossa fé». E eles recuperaram a visão (Ib. 28-30).
Uma mulher cananeia ia gritando atrás do Salvador: «Senhor, filho de Davi, tende piedade de mim, pois tenho uma filha cruelmente atormentada pelo demônio»; mas, vendo que Jesus não lhe dava atenção, atravessou a multidão e, prostrando-se a seus pés, dizia: «Ajudai-me, Senhor». E, quando ele lhe respondeu que não era conveniente lançar aos cães o pão dos filhos, ela replicou: «É verdade, Senhor, mas considerai que também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos». Então mereceu ouvir de Jesus Cristo: «Grande é, mulher, a tua fé! Faça-se o que desejas». E sua filha ficou livre naquele momento (Ib. 15, 22-28).
Um homem aproximou-se de Jesus Cristo e, prostrando-se diante dele, suplicava-lhe que tivesse compaixão de seu filho lunático, que muito sofria, pois caía frequentemente no fogo e na água. «Já o apresentei aos vossos discípulos — acrescentou —, mas eles não puderam curá-lo». Jesus respondeu: «Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei? Trazei-mo aqui». Logo que o teve diante de si, Jesus repreendeu o demônio, e este saiu do menino, que, a partir daquele momento, ficou curado. Vendo isso, os discípulos chamaram o Salvador à parte e lhe disseram: «Por que motivo não nos foi possível expulsá-lo?» E Jesus: «Por causa da vossa incredulidade. Eu vos asseguro que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, podereis dizer a um monte: “Remove-te daqui e vai para lá”, e ele irá; e nada vos será impossível» (Ib. 17, 14-19); mas tudo pode aquele que crê (Mc 9,22).
«A vontade de meu Pai, que me enviou, é esta, dizia Jesus aos judeus: que todo aquele que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia» (Jo 6,40). «Eu sou a ressurreição e a vida, diz ele a Marta; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá eternamente; e não te disse eu já que, se creres, verás a glória de Deus?» (Ib. 11,25-26, 40). E a Tomé, repreendendo-o por sua incredulidade, assegura que «bem-aventurados são os que não viram e creram» (Ib. 20,29). Finalmente, a Nicodemos dá a palavra de que o Filho do homem será exaltado na cruz, «para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (Ib. 3,5).
No primeiro sermão que São Pedro fez aos gentios, mostrou-lhes como todos os profetas dão testemunho de Jesus Cristo, e que, por seu nome, recebe a remissão dos pecados todo aquele que nele crê (At 10,43).
Lemos nos Atos dos Apóstolos que havia em Listra um homem coxo desde o nascimento, que jamais havia caminhado. Ora, enquanto este ouvia os discursos de São Paulo, o Apóstolo percebeu-o e, vendo que tinha fé em ser curado, disse-lhe em alta voz: Levanta-te direito sobre os teus pés; e imediatamente o coxo se levantou, saltou e começou a andar (At 14,7-9).
São João nos narra que certo oficial de Cafarnaum, tendo obtido a cura de um filho seu, creu, ele e toda a sua família (Jo 4,53). É, pois, uma felicidade inestimável para um lar que o chefe tenha a fé…
«A tua palavra, ó Senhor, exclama o Sábio, conserva e salva os que têm a fé» (Sb 16,26). A fé salva do pecado, da morte e da condenação… Por isso São Paulo exortava os efésios a empunharem, em todo assunto e em toda ocasião, o escudo da fé, certos de que com ele poderiam repelir os dardos inflamados do espírito maligno (Ef 6,16).
Outras vantagens da fé enumera o mesmo Apóstolo em suas Epístolas. Aos tessalonicenses, por exemplo, anuncia que Jesus Cristo virá para ser glorificado em seus santos e admirado, naquele dia, em todos os que tiverem crido, como haviam crido em seu testemunho aqueles a quem se dirigia (2Ts 1,10). A Timóteo escrevia que a graça de Deus superabunda juntamente com a fé e com o amor (1Tm 1,14); e, quanto a si, afirmava que, tendo consciência de haver guardado a fé, considerava já ter em mãos a coroa da justiça (2Tm 4,7-8). Exortava os hebreus a se aproximarem de Jesus Cristo com coração sincero, na plenitude da fé, assegurando-lhes que, se tivessem crido, entrariam no repouso (Hb 10,22; 4,3).
O Apóstolo São Pedro, depois de dizer que Jesus Cristo é honra para os que creem (1Pd 2,7), exorta os fiéis a resistirem e a combaterem com fortaleza na fé contra o demônio, que, como leão faminto, anda sempre ao redor, procurando a quem devorar (1Pd 5,8-9). Depois, querendo animá-los a suportar alegremente as tribulações, diz-lhes que «eles são guardados pela fé para a salvação, a qual está preparada para ser manifestada no tempo extremo. Nisso exultareis, embora agora, por algum tempo, seja necessário que sejais afligidos por várias tentações; para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa que o ouro — o qual é provado pelo fogo —, seja achada digna de louvor, de glória e de honra na manifestação de Jesus Cristo; a quem amais sem o ter visto; no qual também agora credes sem o ver e, crendo, exultareis com alegria inefável e gloriosa, alcançando o fim da vossa fé, que é a salvação das almas» (1Pd 1,5-9).
«Luz vivíssima é a fé, pregava Santo Agostinho; a ausência do Senhor não é ausência; tem fé e terás contigo aquele que não vês (14)».
1° Deve ser firme. ― A quantos se poderia aplicar com razão a repreensão de Jesus Cristo aos discípulos: «Por que temeis, ó homens de pouca fé?» (Mt 8,26).
A fé tem por fundamento a palavra de Deus, interpretada pela Igreja, que recebeu o dom da infalibilidade. Sabendo-se positivamente, pela autoridade da Igreja, que Deus falou, nada mais resta fazer senão crer no que ele disse e crê-lo firmemente; compreenda-se ou não, pouco importa; a certeza está em saber que Deus falou, e isso basta…
Estou certo de não me enganar quando crer com os patriarcas, com os profetas, com todos os justos da antiga lei; quando crer com Jesus Cristo, Filho de Deus, com a Bem-aventurada Virgem, sua divina Mãe, com São João Batista, com os apóstolos, com os mártires, com os confessores; quando crer com toda a Igreja católica, com os concílios ecumênicos, com todos os concílios provinciais; quando crer com a falange dos Padres, com a falange dos teólogos, com o exército de todos os santos de todos os lugares, de todas as idades, de todas as condições; quando crer naquilo que o universo católico sempre creu firmemente; quando crer com tudo o que há de mais virtuoso, de mais nobre, de mais inteligente, de mais douto na sociedade… Repetirei com Ricardo de São Vítor: «Senhor, se é erro aquilo em que creio, o engano vem de vós, pois somente de vós poderiam ter sido feitos aqueles milagres nos quais se apoia aquilo em que creio (15)».
Ora, temos nós esta fé sólida e firme? Não a teremos por acaso perdido? Não estará, pelo menos, vacilante? Ah! Verdadeiramente, parece que chegou aquele tempo de incredulidade a que aludia Jesus Cristo quando dizia: «Quando vier o Filho do homem, pensais que encontrará fé sobre a terra? (Lc 18,8).
2° Deve ser íntegra. ― Devemos crer em tudo o que Deus nos ordena crer por meio de sua Igreja. Se o erro pudesse insinuar-se ainda que em um só ponto, nenhum artigo teria mais direito à nossa fé. Quem nega uma verdade de fé, implicitamente nega todas as demais; porque deixa supor que Deus seja falível; e, se Deus pudesse enganar-se em uma só palavra, teríamos razão para não mais crer nele em coisa alguma. Se a Igreja docente nos propusesse um só dogma falso, poderíamos rejeitar todos os outros.
Ora, a palavra de Deus é esta: «Ide, ensinai todas as nações, ensinando-lhes a observar tudo o que vos confiei; e eu estarei convosco até a consumação dos séculos» (Mt 28, 19-20). «Assim como meu Pai me enviou, também eu vos envio» (Jo 20, 21). «Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos despreza, a mim despreza» (Lc 10, 16). «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; e as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela» (Mt 16, 18). Porque «eu roguei por ti, ó Pedro, para que a tua fé jamais desfaleça» (Lc 22, 32). A Igreja é chamada por São Paulo coluna e fundamento da verdade (1Tm 3, 15). Portanto, Jesus Cristo diz que aquele que não escuta a Igreja seja tido como um infiel e um publicano (Mt 18, 17).
«Vós que credes no que vos agrada, diz Santo Agostinho, e rejeitais o que não vos apraz, não credes no Evangelho, mas em vós mesmos. Quereis colocar-vos a vós mesmos no lugar da autoridade» (De Morib. Eccl.).
Mas São Paulo ensina que a fé é uma só, assim como um só é Deus (Ef. 4, 5); ela não se divide, não varia.
Possuímos nós esta fé íntegra, absoluta? … Nunca nos acontece crer naquilo que nos agrada e não crer naquilo que não nos convém? Se assim fosse, já não teríamos a fé.
3° Deve ser humilde. ― «Não procures aquilo que está acima de ti, diz o Eclesiástico, nem queiras investigar as coisas que ultrapassam as tuas forças; mas pensa naquilo que Deus te ordenou, e não sejas um curioso escrutador das muitas obras de Deus» (3, 22). «Não é necessário que vejas com os teus olhos e compreendas os ocultos arcanos. Pois muitíssimas Coisas — também na ordem natural — te foram mostradas, as quais ultrapassam a inteligência do homem» (Ib. 23-25).
«O verdadeiro cristão, diz Tertuliano, busca a fé, não aquilo que pertence ao domínio da razão» (16). «Porque, como explica Santo Agostinho, em matéria de fé, se fosse possível ter razões evidentes, já não haveria fé, mas ciência. É necessário admitir que Deus pode fazer alguma coisa que o homem não pode compreender, pois, de outro modo, ou Deus não seria Deus, ou o homem seria Deus» (De Civit.).
Se não compreender fosse motivo suficiente para não crer, então deveríamos duvidar de quase todas as coisas, até mesmo da própria existência. Quantos mistérios, com efeito, nos cercam, que vemos e não compreendemos! Compreendeis por que uma violeta tem um perfume e uma rosa outro? Compreendeis a metamorfose da maior parte dos insetos? Sabeis dar razão de um grão de areia, de um átomo etc.? Diz, pois, sensatamente Santo Agostinho, que, se pudéssemos compreender tudo o que Deus fez, ou ele não seria Deus, ou nós seríamos deuses…
Quem escruta a majestade do Altíssimo ficará ofuscado e esmagado pela glória, diz o Sábio (Pr. 25, 27). Deus zomba do mortal que, em vez de humilhar-se e crer com a docilidade e simplicidade de uma criança, se ergue audaciosamente e o intima a prestar-lhe contas de seus desígnios, de suas ordens e de suas obras. Quando o homem pretende penetrar as grandezas de Deus, cai fulminado pela majestade divina; por querer contemplá-la demasiado de perto, perde a visão. Com efeito, como não ficará cego aquele que fixa os olhos no eterno sol da justiça, quando basta lançar um olhar ao sol material para ficar ofuscado?
Se a nossa santa religião não encerrasse mistérios, não seria divina, mas puramente humana… Creiamos, pois, humilde e docilmente.
4° Deve ser viva. ― A nossa fé deve ser viva, isto é, prática, fecunda em boas obras. «Não são aqueles que dão ouvidos à lei que são justos diante de Deus, diz São Paulo; mas aqueles que a praticam, esses serão justificados» (Rm. 2, 13):
Não menos explícito é Jesus Cristo quando diz: «Nem todo homem que me diz: Senhor, Senhor, será salvo; mas somente aquele que faz a vontade de meu Pai celeste entrará no reino dos céus» (Mt 7, 21). Mais claramente ainda se explica São Tiago: «De que serviria, meus irmãos, que alguém professasse ter fé, mas não a demonstrasse pelas obras? Porventura a fé poderá salvá-lo? Dizei-me, por favor: se um irmão ou uma irmã estivessem nus ou necessitados de alimento, de que lhes serviria que lhes dissésseis: Ide em paz, pobres coitados, aquecei-vos e alimentai-vos, mas não lhes désseis o socorro de que necessitam? Assim é a fé: se não estiver unida às obras, está morta» (2, 14-17). Ter fé sem as obras é, segundo o Apóstolo, ter a fé dos demônios, que creem e tremem. «Pelas obras o homem é justificado, e não pela fé somente: porque, assim como o corpo sem o espírito é um cadáver, assim também a fé sem as obras está morta» (Ib. 26).
Não basta lançar os fundamentos de um edifício; é preciso concluí-lo. Do mesmo modo, a fé, que é o fundamento das virtudes, exige que estas sejam praticadas. «Aquele que crê em Deus, diz o Eclesiástico, observa os seus preceitos» (32, 28).
«A morte da fé, escreve São Bernardo, é a separação da caridade. Credes em Jesus Cristo? Praticai as obras de Jesus Cristo, para que a vossa fé viva. Que a caridade anime a vossa fé, e que as obras a demonstrem (17)». «De que serve, pergunta São Cipriano, ser virtuoso nas palavras e desregrado nas obras? Quem crê em Jesus Cristo deve obedecer a ele, e não ao mundo (18)».
«A fé combate por meio das obras, observa Santo Agostinho, e, quando a fé combate, não se vive segundo a carne (19)». Pois, como observa São Cirilo, «assim como a fé sem as obras é uma fé morta, assim também as obras, se não são produzidas pela verdadeira fé, são mortas. A fé sem as obras assemelha-se a uma lâmpada sem óleo (20)».
«Temos o sinal da salvação, diz São Gregório Magno, se unirmos as obras à fé. Com efeito, pode dizer verdadeiramente que crê aquele que pratica de fato aquilo em que crê (21)». «A alma em que há fé, diz São Jerônimo, é o verdadeiro templo de Jesus Cristo: adornemos, pois, este templo, vistamo-lo, enriqueçamo-lo e recebamos nele Jesus Cristo (22)».
O Salmista pedia a Deus que lhe fizesse conhecer o bem, que lhe inspirasse a ciência e a sabedoria, porque havia acreditado em sua palavra (Sl 118, 66). Queria, portanto, acompanhar a fé com a sabedoria, com a ciência e com o bem; e estas são as obras da fé.
O sinal pelo qual podemos reconhecer se há em nós o conhecimento de Jesus Cristo, segundo São João, é este: se observamos os seus preceitos (1, 2, 3). Jesus só é conhecido pela fé, não, porém, por qualquer fé, mas somente por aquela que Deus exige de nós, a qual deve estar unida à observância de sua lei… Por isso, Santo Agostinho nos adverte de que «ninguém se engane, julgando ter conhecido a Deus, se o confessa com uma fé morta, isto é, separada das boas obras… Crer em Deus é amá-lo crendo, ir a ele e incorporar-se a ele crendo. Esta é a fé que Deus exige de nós (23)».
Pode acaso dizer-se que crê aquele que deixa de rezar? Não; se cresse verdadeiramente, rezaria… Crê porventura o blasfemador? Não; porque está escrito: Não pronunciarás o nome de Deus em vão… Crê aquele que profana o domingo? Tampouco; porque a lei ordena: Lembra-te de santificar as festas… Crê o impudico? Não, porque está escrito que os desonestos jamais entrarão no reino dos céus…
Os apóstolos, os mártires e os santos de todos os tempos creram com fé viva, e disso dão testemunho as suas virtudes heroicas, as obras maravilhosas e os exemplos sublimes que deixaram ao mundo…
1° «A fé, dizia São Paulo aos Romanos, vem da audição, e a audição, pela palavra de Cristo» (10, 17). A palavra de Deus é, portanto, para quem a escuta, um poderoso meio para obter a fé e praticá-la.
2° A fé é fruto da oração: «Para que a nossa fé não desfaleça, rezemos, diz Santo Agostinho. Uma oração fervorosa e perseverante obtém uma fé firme e inabalável (24)». A oração é, pois, também um meio eficacíssimo para obter e aumentar em nós a fé…
3° O quarto meio para obter, conservar e cultivar a fé consiste em submeter-se humildemente à autoridade. «Quando a fé é sincera, escreve o Crisóstomo, não se perde em raciocínios, mas crê, pois das disputas e contendas de palavras nada de útil se pode extrair (25)».