O homem deseja irresistivelmente a felicidade, quer alcançá-la, busca-a e foi feito para possuí-la. Tendo sido criado à imagem de Deus e destinado a gozá-lo por toda a eternidade, Deus concedeu-lhe uma capacidade e um desejo quase infinitos de felicidade, que coisa alguma criada pode satisfazer.
Sete coisas, diz o Venerável Beda, são necessárias para formar a felicidade, e nenhuma delas se encontra nesta terra: uma vida não ameaçada pela morte, uma juventude jamais desfigurada pela velhice, uma inteligência sempre lúcida, uma alegria sem nuvem de tristeza, uma paz jamais perturbada, uma vontade jamais contrariada, um reino sem risco de perdê-lo. A posse dessas sete coisas constitui a verdadeira felicidade; mas qual delas se pode encontrar no mundo? Afastemos, pois, de nós o desejo de ir procurar aqui embaixo a felicidade…
Se a felicidade fosse um bem desta terra, deveria encontrar-se sobretudo nas riquezas, nas honras e nos prazeres. Ora, essas três coisas não são senão vaidade e engano e, por isso, não podem satisfazer o coração do homem nem saciar-lhe os desejos. Além disso, sendo todos os homens destinados à felicidade, esta deve ser algo que todos possam alcançar; mas pode-se dizer isso das riquezas, das honras e dos prazeres? …
Porventura se encontra a felicidade nas riquezas? Mas os trabalhos que traz consigo o adquiri-las, os cuidados que é preciso sustentar para conservá-las, a ânsia de aumentá-las, o temor de perdê-las, os enganos a que expõem, os desgostos que causam proclamam em alta voz que a felicidade não está nas riquezas…
Estará talvez nas honras? Mas as honras não são outra coisa senão fumaça; aqueles que as possuem são obrigados a dizer com Salomão: «Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade» (Ecl 1, 2). As honras são uma escravidão dourada, uma servidão esplêndida, um pesado fardo. Perguntai-o aos monarcas… perguntai-o ao Sumo Pontífice…
Encontrá-la-emos nos prazeres? Ah! Responda-nos o pródigo, o voluptuoso… Quantos enganos, quantas amarguras, quantos desgostos, quantos remorsos, quantas agonias, quantas enfermidades!… E, depois, quanto duram os prazeres da terra? Não nos escapam porventura das mãos no próprio instante em que julgamos agarrá-los!? O coração menos contente e menos feliz é aquele que mais desenfreadamente corre atrás deles…
«Todas as felicidades do século, diz Santo Agostinho, assemelham-se aos sonhos. Quem, sonhando, conta grandes tesouros, julga-se rico; mas, ao despertar, percebe que é pobre: assim acontecerá aos homens que amam as coisas daqui de baixo. Felizes deles, se despertassem agora, enquanto o despertar lhes é útil! Do contrário, serão despertados depois contra a própria vontade. Despertai, pois, ó adormecidos do século, sacudi de vós o sono enganador que se apoderou de vós, dissipai o sonho que vos ilude» (Serm.).
Somente o sábio é feliz, porque nada deseja; quem deseja alguma coisa já é infeliz, pois ou não pode obtê-la ou, quando a obtém, ela não lhe basta. «Os insensatos, diz o Salmista, chamaram feliz o povo que transborda de bens terrenos. Ah, não! Feliz é somente o povo que tem o Senhor por seu Deus» (Sl 143, 15).
«Que é a nossa vida presente?», pergunta São Tiago; e responde: «É um vapor que se dissipa no próprio instante em que é contemplado» (4, 15). A vida é um sopro, uma baforada de fumaça, uma gota de orvalho, uma rajada de vento. Que é a terra? A região dos mortos, na qual, escreve Santo Agostinho, «não se encontram senão fadigas, dores, temores, tribulações, gemidos, suspiros (1)». Não se pode, pois, encontrar nela a felicidade.
Diz São Gregório: «A vida daqui de baixo é penosa; é mais vã que as fábulas, mais veloz que um corredor; repousa sobre a instabilidade e a fraqueza e não tem força de resistência. É uma cadeia de resoluções inconstantes, de agitações contínuas, de trabalho sem trégua. Onde está aquele que não seja atormentado pela dor, pela preocupação, pelo temor? A tristeza é companheira da alegria; uma saciedade penosa e opressiva sucede à fome, e à saciedade segue-se novamente a fome voraz. À noite deseja-se o dia; durante o dia deseja-se a noite; se o frio nos fere, suspiramos pelo calor; se o calor nos incomoda, desejamos o frio. Apetite e desejo antes da comida; incômodos, tédio e torpor depois de comer. Uma multidão de paixões tirânicas joga o homem de um lado para outro» (Moral.).
Mas ninguém melhor que Salomão pode falar-nos com verdade das felicidades do mundo. Eis o que nos diz por experiência: «Realizei grandes obras, construí palácios e plantei vinhas. Cultivei hortas e jardins povoados de toda espécie de plantas. Formei viveiros e tanques para irrigar os bosques de árvores novas. Tive sob meu domínio servos e servas com numerosa família, rebanhos de bois e numerosos rebanhos de ovelhas, superando todos os que estiveram antes de mim em Jerusalém. Acumulei prata e ouro, e tudo o que havia de mais precioso nos reis e nas províncias; cerquei-me de cantores e cantoras, providenciei para mim as delícias dos filhos dos homens, taças e vasos para misturar os vinhos.
Superei em riquezas todos os que estiveram antes de mim em Jerusalém, e a sabedoria também permaneceu sempre comigo. Não neguei aos meus olhos nada de tudo quanto desejavam, não proibi ao meu coração gozar de todo prazer, deleitar-se em todas essas coisas preparadas por mim; e julguei que essa era a minha porção: gozar dos meus trabalhos. Mas, voltando-me depois para todas as obras realizadas por minhas mãos e para os trabalhos nos quais havia inutilmente labutado, em tudo vi vaidade e aflição de coração, e que nada dura debaixo do sol» (Ecl 2, 4-11).
E em outra passagem o mesmo Sábio diz: «Ao nascer, também eu respirei o ar comum a todos, fui deposto sobre a terra, e minha primeira voz, como a de todos os outros, foi um vagido» (Sb 7, 1, 3). A esse respeito, Santo Agostinho observava que a criança, ao nascer, sem o saber, profetiza as mil adversidades que a aguardam e já as deplora (2).
Todos os bens desta terra não têm de bom senão a aparência; fazem cócegas ao apetite, mas não o saciam; deleitam os olhos, mas não alimentam a alma. Deles se pode dizer o que Jeremias diz do homem: «Maldito aquele que confia no homem, que se apoia num braço de carne e afasta o seu coração do Senhor» (Jr 17, 5). «O mundo convida e seduz, escreve São Bernardo, para envenenar e matar (3)».
«O repouso, são palavras de Santo Agostinho, não está na terra onde o buscais. Buscai-o, sim, mas buscai-o ao menos onde podeis encontrá-lo. Por que buscar a vida feliz no reino da morte? Não é aqui que ela se encontra. Infeliz a alma audaciosa que se lisonjeia de encontrar alguma coisa melhor afastando-se de vós, Senhor. Vire-se e revire-se de lado, de bruços ou de costas; seja qual for o seu leito, será sempre duro. Só vós, ó Senhor, sois o verdadeiro repouso (4). E, como vós quisestes, assim acontece: todo afeto desordenado é castigo de si mesmo (5)».
«Feita à imagem de Deus, diz São Bernardo, a alma racional pode muito bem ocupar-se de qualquer coisa que lhe agrade, mas nada pode satisfazê-la senão Deus (6)».
O homem busca a sua felicidade nas paixões; mas segui-las é pecar, e a felicidade não se encontra no pecado… Mais ainda: como assegura São Paulo, «tribulação e angústia estão na alma daquele que faz o mal» (Rm 2, 9). «Longe de encontrar satisfação no desafogo das paixões, a alma corrompida, dizem os Provérbios, definha sempre de fome» (19, 15); e, como diz o Salmista, os pecadores giram sempre em torno da felicidade, sem jamais alcançá-la (Sl 11, 8). As paixões são fel sem uma gota de mel; e quanto mais se fortalecem, tanto maior desolação, desgosto e tormento causam… Os mundanos agarram-se a apoios vãos, instáveis e carcomidos. Esse apego lança-os numa agitação contínua que os torna infelizes. «Não, diz São Bernardo, as alegrias santas não habitam num coração ocupado pelos desejos terrenos (7)».
Adão procura aumentar a sua felicidade pelo pecado e perde o que possuía — «Onde estás, ó Adão?», chama o Senhor. Eu te havia colocado num lugar de delícias, e agora te encontro num estado bem diferente daquele em que estavas. Eu te havia revestido de glória; caminhavas diante de mim honrado e feliz; agora vejo-te, nu e envergonhado, andando à procura de um esconderijo. Como aconteceu isso? De onde vem tamanha desgraça? Que ladrão te despojou de tantas boas qualidades e te reduziu a uma condição tão miserável? De onde nasce o sentimento de nudez e de confusão que experimentas? Por que foges? Por que enrubesces? Por que te escondes? Quem te acusa? Acaso estão diante de ti testemunhas que te esmagam com os seus depoimentos? Qual é a origem deste teu súbito terror? Que foi feito agora das magníficas promessas da serpente? Onde está a tua tranquilidade de espírito? Onde está a tua segurança de antes? Como se desvanecesse a tua coragem? Que fizeste da paz da consciência? Para onde foram os grandes bens que possuías? Quem te arrancou do coração o amor filial, fonte para ti de tanta felicidade? O teu temor, a tua vergonha são provas da tua culpa; as trevas que procuras indicam que pecaste. Onde estás, pois, Adão? — Adam, ubi es? — Não procuro saber em que lugar, mas antes em que estado te encontras. Vê aonde te conduziu a tua desobediência: a fugir daquele Deus que pouco antes buscavas com tanto desejo! …
1° Onde está a felicidade? A felicidade encontra-se onde Jesus Cristo a colocou. Pois bem, ouvi o que diz Jesus Cristo: «Bem-aventurados os pobres de espírito (isto é, os corações simples, retos e humildes), porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque obterão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque herdarão o reino dos céus» (Mt 5, 3-10). «Bem-aventurados os que ouvem e observam a palavra de Deus» (Lc 11, 28). Eis onde Jesus Cristo coloca a felicidade.
O mundo a coloca em outro lugar; para ele, ela consiste nas riquezas, nas honras e nos prazeres. Ora, diz São Bernardo, «ou Jesus Cristo se engana, ou o mundo está no erro (8)». Mas é impossível que a divina sabedoria se engane e, por isso, é o mundo que está no erro: todos aqueles, portanto, que amam e servem ao mundo, todos aqueles que correm atrás das suas vaidades, estão na ilusão e na cegueira, segundo estas palavras do Salmista: «A vida deles é uma queda de erro em erro» (Sl 94, 10). Jesus Cristo, ao contrário, que é o caminho, a verdade e a vida, ensina com as palavras e com os exemplos qual é a verdadeira felicidade e qual é a verdadeira infelicidade, onde se encontram uma e outra, o que é preciso evitar e o que se deve fazer para alcançar a vida eterna, que é a felicidade.
Queira Deus que todos os cristãos ponderem atentamente, como é seu dever, e imprimam profundamente em seus corações, manifestando claramente em suas obras, esta verdade: que ceder às paixões inflama a concupiscência, e que abraçar a cruz a extingue. Os apóstolos encontravam a felicidade onde o divino Mestre lhes havia indicado. Pondo em prática as lições do sermão da montanha, passaram a vida na obediência a Jesus Cristo.
2° Onde está a felicidade? No desprezo das riquezas, das honras e dos prazeres do mundo; e na aceitação da pobreza, da humildade e da morte. «A verdadeira felicidade, escreve Santo Euchério, consiste em desprezar a felicidade do século, deixar de lado as coisas terrenas para buscar as divinas (9)».
3° Onde está a felicidade? Nas aflições e nas cruzes. Diz São Paulo aos Coríntios: «Quando sou fraco, então sou forte» (12, 10), «é um júbilo de alegria em meio às tribulações (Ib. 7, 4). E aos Gálatas declarava que de nada mais se gloriava senão da cruz de Jesus Cristo, em virtude e por amor do qual o mundo estava crucificado para ele, e ele para o mundo (Gl 6, 14).
«Ninguém, diz Salviano, é tão feliz quanto aquele que, por conhecimento e vontade próprios, abraça a cruz. As pessoas religiosas são humildes, mas por sua própria vontade; são pobres, mas alegram-se com a sua pobreza; repelem a ambição, calcam aos pés as honras, não evitam os desprezos, mas tudo fazem de bom grado; choram, mas têm carinho pelas lágrimas; sofrem, mas desejam padecer. Seja o que for que aconteça aos que são verdadeiramente piedosos, devemos chamá-los felizes; porque, se são postos à prova, encontram a sua felicidade nas provações: aceitam-nas e desejam-nas» (De gubernat. Dei).
Ó sofrer, ó morrer, dizia Santa Teresa. Basta, Senhor, basta, exclamava São Francisco Xavier, no ardor das consolações que experimentava em meio às fadigas, às privações e às tribulações do apostolado. «Ó poder das lágrimas!, pregava Santo Efrém; nelas está o remédio dos pecados; por elas os infelizes se tornam bem-aventurados; as lágrimas lavam e purificam a alma; extinguem a volúpia, aperfeiçoam as virtudes» (Serm.).
4° Onde se encontra a felicidade? Na observância da lei de Deus. «Bem-aventurado o homem, diz Davi, que ama a lei do Senhor e a medita dia e noite» (Sl 1, 1-2). «Não há coisa mais doce, diz o Sábio, do que manter sempre os olhos voltados para os mandamentos do Senhor» (Eclo 23, 37). Jesus Cristo diz: «Bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam» (Lc 11, 28). A lei de Deus é doce, justa e perfeita; ensina o caminho para a felicidade suprema e a ela conduz.
5° Onde se encontra a felicidade? No temor de Deus. Davi não somente declara bem-aventurados todos os que temem o Senhor (Sl 127, 1), mas acrescenta que estes se comprazem em cumprir a lei de Deus (Sl 111, 1). Tobias dizia a seu filho: «Tem bom ânimo, meu filho; levamos, é verdade, uma vida pobre, mas teremos grandes riquezas se temermos a Deus» (Tb 4, 23).
6° Onde se encontra a felicidade? Na vitória sobre as próprias inclinações. «Bem-aventurados os puros de coração, diz Jesus, porque eles verão a Deus» (Mt 5, 8). «Supremo deleite, diz São Cipriano, é ter vencido e subjugado o deleite» (10).
7° Onde se encontra a felicidade? Na virtude, responde São Paulo, que destina como porção daquele que faz o bem, isto é, que vive virtuosamente, a glória, a honra e a paz (Rm 2, 10).
8° Onde se encontra a felicidade? Na paz da consciência. «A nossa glória, escrevia o Apóstolo, está no testemunho da nossa consciência, que nos assegura que vivemos neste mundo e no meio de vós com simplicidade de coração e sinceridade para com Deus, não segundo a sabedoria da carne, mas segundo a graça de Deus» (2Cor 1, 12). É sentença do Sábio que o testemunho da boa consciência é maior prazer do que um lauto festim (Pr 15, 15).
«Ninguém é infeliz, observa Salviano, porque os outros o consideram tal; mas é verdadeiramente infeliz quem sente o remorso de uma má consciência, ao passo que felicíssimo é aquele que a tem reta e pura» (De Gubernat. Dei). Santo Agostinho assim falava de si mesmo a Secondiano: «Pensa de Agostinho o que quiseres; a única coisa que desejo para viver feliz é que a consciência não me acuse diante de Deus» (11).
«Que há de mais precioso, mais tranquilizador e mais consolador, observava São Bernardo ao papa Eugênio, do que uma boa consciência? Não pode ser perdida como os outros bens deste mundo; não teme os ultrajes nem os tormentos do corpo, e da morte desfruta mais do que se aflige» (De Considerat.). O mesmo santo dizia: «Queres nunca estar triste? Vive como bom cristão: uma vida santa é inseparável da felicidade; uma consciência culpada está sempre em angústia» (12). «Se fizeres o bem, disse Deus a Caim, não receberás por isso a recompensa? E, se fizeres o mal, não te remorde imediatamente a consciência do pecado?» (Gn 4, 7).
«Duas coisas tornam a vida feliz, diz Santo Ambrósio: a tranquilidade da consciência e a segurança da inocência» (13). E Santo Agostinho lhe faz eco, afirmando que não há felicidade maior do que aquela que provém de ter a consciência tranquila (14).
9° Onde se encontra a felicidade? Na graça de Deus. A alegria do espírito e a verdadeira felicidade consistem na posse da graça santificante. Pode imaginar-se felicidade igual à de estar em estado de graça, amigo de Deus, seu filho dileto? …
10° Onde se encontra a felicidade? «Nada há de mais feliz, responde Tertuliano, do que reconciliar-se com Deus, conhecer a verdade, experimentar desgosto pelo erro e saber que nos são perdoadas as nossas culpas. Pode haver princípio de felicidade mais fecundo do que desprezar os prazeres e as coisas do mundo, possuir a verdadeira liberdade e uma consciência imaculada, levar uma vida não agitada pelas paixões, estar preparado para a morte, vencer os demônios, viver para Deus? Eis a felicidade, eis os deleites do bom cristão: deleites santos, contínuos, gratuitos» (Se spectat. cap. XXVIII). «Quem quer ser bem-aventurado, diz Lactâncio, deve ouvir a voz de Deus, buscar a sua justiça, desprezar as coisas humanas e buscar as divinas» (Instit. divin., lib. VI). «Quem é, pergunta o salmista, que ama a vida e deseja dias felizes? É aquele que evita o mal e faz o bem; que busca a paz e a segue sem cessar» (Sl 33, 12-14).
11° Onde se encontra a felicidade? Ela está exclusivamente no conhecimento, no amor e no serviço de Deus. «Tu bastas a Deus, diz Santo Agostinho; por que Deus não bastará a ti?» (15). «Ah, Senhor! Vós nos fizestes para Vós, e o nosso coração estará sempre inquieto enquanto não repousar em Vós» (16). «Amas as riquezas? pergunta ainda o mesmo santo; Deus será o teu bem. Desejas fontes de águas puras? E que coisa é mais límpida e pura do que esta sabedoria infinita? Ah! tudo aquilo que pode ser amado aqui embaixo te ajude a amar Aquele que é o Criador de todas as coisas» (In Psalm. LXII). «Se desejamos, continua Santo Agostinho, alcançar a felicidade na terra, é preciso que possuamos Deus, que possui tudo e criou todas as coisas; nele teremos tudo quanto podemos desejar de alegria e pureza. Mas, como ninguém possui Deus se Deus não o possui a ele mesmo, tornemo-nos nós o bem de Deus, e ele se tornará o nosso bem. E que felicidade é maior do que possuir Deus? Nele encontramos todos os bens, porque vivemos nele e para ele. Que coisa poderá bastar àquele a quem Deus não basta? Por que buscar a felicidade em outro lugar, quando Deus é a felicidade suprema?» (In Monit. sal.).
«A única e verdadeira felicidade é aquela, diz São Bernardo, que provém não da criatura, mas do Criador, e que ninguém pode tirar daquele que a possui. É aquela em comparação com a qual toda outra alegria é tristeza; todo prazer é tormento; toda doçura é amargura; toda beleza é fealdade; em suma, toda espécie de deleite é incômodo e tédio» (17).
O amor transforma o amante no objeto amado, pois a alma vive antes naquele a quem ama do que no corpo que anima. Ora, o amor de Deus produz seis frutos que comunicam a verdadeira felicidade: 1º ilumina o intelecto; 2º inflama o coração; 3º enche-o de delícias; 4º inspira um ardente desejo de possuir a Deus; 5º sacia a alma; 6º proporciona o êxtase e arrebata admiravelmente o homem para Deus… Eis o paraíso no qual nos é dado entrar, mesmo enquanto permanecemos com o corpo sobre a terra… O conhecimento, o amor e o serviço de Deus jamais causam tédio, desgosto ou arrependimento; pelo contrário, o homem experimenta, ao cumprir dever tão doce e vantajoso, uma inefável satisfação, que cresce tanto mais quanto mais religiosamente ele o cumpre. Ao contrário, no conhecimento, no amor e no serviço do mundo ou de si mesmo, tudo é amargura, náusea e remorso; e quanto mais alguém se afunda nisso, mais infeliz se torna.
«Vós fostes cumulados de todas as riquezas em Jesus Cristo, diz o grande Apóstolo, de modo que não vos falta dom algum» (1Cor 1, 5, 7). «Alegrai-vos, pois, incessantemente no Senhor, e não me canso de repetir-vos: alegrai-vos e exultai» (Fl 4, 4). «Alegrai-vos, observa Santo Anselmo, não no século, mas no Senhor; pois, assim como ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo, também não pode alegrar-se e exultar simultaneamente em um e em outro. A alegria do mundo e a de Deus são inteiramente diversas e incompatíveis entre si. Esta é verdadeira e plena; aquela é vazia e enganadora» (Lib. de Simil.).
«Festejai, diz-nos São Bernardo, e exultai, porque Deus vos enriqueceu de dons com a mão esquerda e, com a direita, vos cumulará de recompensas. Sua mão esquerda vos sustenta; a direita vos acolhe: aquela cura e sara; esta abraça e glorifica. Uma vos dá os remédios e os méritos; a outra, as coroas e as delícias» (Serm. in Psalm.).
«A vida bem-aventurada, diz Santo Agostinho, consiste no conhecimento da divindade e no mérito das boas obras; o mérito das boas obras, por sua vez, conduz à felicidade eterna» (Serm. CXII, de temp.). «O homem se torna feliz se conquista para si a felicidade que não se desvanece, e essa felicidade nada mais é do que Deus. Ele é a bem-aventurança eterna; por Ele o homem chega à sabedoria perfeita, recebe a luz imperecível e adquire a vida imortal» (Serm. XXXVIII). Por isso, o mesmo santo desabafava assim com Deus a plenitude de seus afetos: «Toda abundância que não sejais Vós, ó meu Deus, para mim é fome; nada satisfaz a alma feita à imagem de Deus, senão o próprio Deus. Longe de mim, ó Senhor, longe da alma de vosso servo o pensamento de julgar-se feliz, qualquer que seja a felicidade que eu possa experimentar longe de Vós. Somente em Vós está a verdadeira felicidade, herança não dos transviados, mas daqueles que Vos servem fielmente. A vida feliz consiste em gozar junto de Vós, em Vós e por Vós; fora desta, não há outra… Quando eu me unir a Vós, ó Senhor, com todas as minhas forças, não sofrerei mais dor, aflição nem fadiga: cheia de Vós, minha vida será verdadeiramente vivente; mas, no presente, porque não estou cheio de Vós, sou um peso para mim mesmo (18)».
«Nada se compara ao conhecimento de Deus, diz o mesmo doutor, porque nada nos torna tão felizes; antes, esse próprio conhecimento é a verdadeira felicidade. Eis a razão por que o Salvador dizia ao Pai: A vida eterna consiste em conhecer-Vos, que sois o único Deus verdadeiro, e conhecer Jesus Cristo, que Vós enviastes» (Serm. CVII, de Temp.).
Penetrado da mesma verdade e animado pelos mesmos desejos, assim dizia o Salmista: «O Senhor é a porção da minha herança e do meu cálice. Sois Vós, ó Deus, quem me restituirá o patrimônio» (Sl 15, 5). «A sorte caiu para mim sobre as melhores coisas, e certamente a minha herança é preciosa para mim» (Ib. 6). «O Senhor é o meu amparo; nada me faltará, porque me colocou em pastagens verdejantes» (Id. 22, 1-2). «Os ricos sofreram penúria e fome, mas os que buscam o Senhor têm bens em abundância» (Id. 33, 10). «Feliz aquele que depositou no Senhor a sua confiança e nem sequer lançou um olhar às vaidades e às ninharias enganadoras!» (Id. 79, 4). «Minha alma já não suportava ser consolada; então voltei-me para o Senhor e fui inundado de alegria» (Id. 76, 3). «Toda a minha felicidade está em apegar-me a Deus» (Id. 72, 27). «Provai e vede quão doce é o Senhor» (Id. 33, 8). — «Alegrem-se todos os que buscam o Senhor» (Id. 104, 3).
São Lourenço Justiniano diz, acerca das núpcias divinas do Verbo eterno com a alma fiel: «Ali se celebra um contínuo banquete; ali come-se com muita frequência o verdadeiro bezerro cevado; ali saboreiam-se a paz interior, a tranquilidade que nada teme, a felicidade tranquila, a suprema alegria, a fé serena, a amável sociedade, os beijos da união, o deleite da contemplação, a suavidade no Espírito Santo. Ali está a porta do céu, a entrada do paraíso (19)».
«Não vos iludais, diz Santo Eusébio, julgando encontrar a felicidade no anfiteatro do mundo, onde fomos enviados para combater. Aqui se pode preparar a felicidade, mas não gozá-la. Não procureis aqui aquilo que nenhum santo, nenhum confessor pôde encontrar ao término de seu trabalho. Não procureis aqui aquilo que nem mesmo Cristo aqui obteve. Se o mundo tivesse a paz, os mártires não teriam a glória (20)».
O Sábio nos assegura que o Senhor conduz o justo por caminhos retos, mostra-lhe qual é o seu reino e dá-lhe a ciência dos santos; abençoa o seu trabalho e faz prosperar a sua obra (Sb 10, 10). Por isso exclama: «Como é bom e suave o vosso espírito, ó Senhor, em todas as coisas!» (Id. 12, 1).
No Gênesis narra-se que, estando Deus com José, enquanto este se encontrava no Egito, tudo lhe corria bem (39, 2). E no Primeiro Livro dos Reis lemos que Israel, tendo buscado o Senhor, repousou nele (7, 2). Aprendamos disso que não há repouso, felicidade sincera nem prosperidade duradoura senão em Deus, em servi-Lo e em amá-Lo. Somente Deus dá a paz da consciência, a paz com o próximo, a paz com os inimigos, a paz em meio às tentações, a paz conosco mesmos. Procuremos repousar em Deus, porque somente Ele é o nosso fim, para o qual devemos tender sempre; somente n’Ele está a verdadeira felicidade; apeguemo-nos a Ele pela fé, pela sabedoria e por todas as outras virtudes.
São Bernardo coloca na boca de Jesus Cristo estas palavras: «Eu vos restaurarei com um alimento secreto, satisfarei os vossos desejos, apagarei a vossa sede, conceder-vos-ei o repouso; nada mais vos restará a desejar, porque em mim estão as pastagens da vida, em mim está a doce e verdadeira saciedade» (Serm. in Cantic.).
«É bem justo, diz Santo Agostinho, que Vos perca, ó Senhor, todo aquele que deseja buscar consolação em outros, e não em Vós. Ah! eu Vos rogo que façais com que tudo me seja amargo, para que somente Vós sejais doce ao paladar da minha alma, Vós que sois a doçura inestimável, que adoçais toda amargura» (21). E em outra passagem diz que «aquele cujo deleite é Cristo jamais pode ser privado de sua felicidade; pois imperecível e eterna é aquela alegria que se alimenta de uma eterna satisfação» (22). Clemente de Alexandria chama a vida do justo de santa festa perpétua (23). «E como se há de temer o mundo, diz São Cipriano, quando se tem aqui embaixo a Deus por protetor? (24)». Vamos, pois, alma cristã, une-te somente a Deus, alegra-te somente n’Ele, senta-te à sua mesa; Ele será teu assíduo conviva e fará de Si mesmo o teu banquete. Dize-Lhe com a Esposa dos Cânticos: «O meu amado é todo meu, e eu sou toda dele» (Ct 2, 16).
A suma felicidade do homem consiste em que Deus reine nele e em que ele repouse em Deus. Porque, primeiramente, Deus é um rei justíssimo e ótimo, que ordena com inefável doçura, bem ao contrário dos tiranos, que são o mundo, o demônio e a carne, os quais ordenam com insolência coisas iníquas e duríssimas… Em segundo lugar, o reino de Deus consiste na graça e nas virtudes, na fé, na esperança, na caridade etc., dons preciosos que Deus comunica à alma, para que ela deles se aproveite a fim de chegar até Ele, seu bem supremo. Deus governa a alma revelando-Se a ela e inspirando-lhe o desejo de unir-se a Ele, de amá-Lo e servi-Lo. E que há de mais nobre e mais feliz do que conhecer a verdade suprema, amar a bondade infinita, adorar e servir a majestade imensa? Em terceiro lugar, Deus estabeleceu o seu reino não para sua própria utilidade, mas para a utilidade da alma que governa; utilidade para ela importantíssima e incomparável, porque tem por finalidade fazê-la viver uma vida de piedade, de santidade, de virtude e de graça, para que mereça o reino e a glória celeste, onde possuirá a Deus e todos os seus dons eternamente. Em quarto lugar, o reino de Deus não é tal que avilte ou torne escravos os súditos; antes, ele os enobrece e os mantém livres. Mas que digo, ele os enobrece? Ele os faz reis e sacerdotes de Deus, segundo aquelas palavras do Apocalipse (5, 10). Nós reinaremos sobre a terra, isto é, sobre o nosso corpo, sobre as paixões, sobre o mundo, sobre o inferno e na terra dos viventes. Não é acaso rei aquele que, com a graça de Deus, refreia as suas paixões e modera as suas tendências? Não se deve chamar rei aquele que subjuga o orgulho com a humildade, domina a avareza com a liberalidade, reina sobre a cólera com a doçura e a clemência, vence a gula com a sobriedade, ordena à concupiscência com a castidade e impera sobre a carne com o espírito? Não é acaso rei aquele cuja razão, prudência e continência mantêm sábia e vitoriosamente sujeitas a si a memória, a vontade, a concupiscência, os olhos, os ouvidos, a língua, a boca, os pés, as mãos, numa palavra, todo o ser? Eis por que Jesus Cristo nos ordena pedir todos os dias que venha o reino de Deus (Mt 6, 10). Vêm a propósito estas palavras de São Cipriano: «Quem disse adeus ao século já é maior do que as honras e os reinos deste mundo; portanto, quem se consagra a Deus não visa ao reino terreno, mas ao celeste; antes, visa ao próprio Deus, porque deveremos reinar n’Ele (25)». Santo Ambrósio observa que, se Deus reina em nós, já não pode haver lugar para o nosso inimigo: já não a culpa, já não o pecado, mas a virtude, a pudicícia e a devoção (26). Eis a verdadeira felicidade.
Sede, pois, ó Senhor Deus, sede nosso rei, nosso legislador; reinai sobre nós: nós Vos oferecemos a nossa alma e todas as suas potências; não podemos governá-la por nós mesmos, nem queremos entregá-la ao governo do demônio, do mundo e da carne; cabe a Vós, que nos criastes e redimistes com o vosso sangue, governar-nos como vossa propriedade e vosso reino. Somente Vós imperareis com sabedoria, clemência e poder, para nosso proveito e felicidade. Somente em Vós, ó Deus, está o verdadeiro bem, o bem infinito, a beleza, a riqueza, a doçura, o repouso, a consolação, a majestade, a glória, a sabedoria, a vida, todo prazer, toda dignidade e todo tesouro. Vós sois, ó meu Deus, o oceano infinito do ser, a bondade, a felicidade sem limites. Desde toda a eternidade tendes em Vós todo verdadeiro bem. Vós sois o princípio e o fim da criação, o autor de todas as coisas, o conservador e a providência do mundo; Vós estais em todos os lugares, existis desde todos os tempos, sois a norma, o nexo, a duração e o termo. Somente em Vós está a felicidade dos anjos, dos homens e de todas as criaturas. Meu Deus, meu amor, meu tudo, ah! que eu me abisme em Vós. Ó eterno e imenso oceano, que a vossa providência, a vossa misericórdia e a vossa bondade me circundem e me envolvam como a água circunda e envolve o peixe no mar; fazei que eu mergulhe em Vós e nade em Vós por toda a eternidade; que me embriague de Vós, me perca em Vós e permaneça absorvido em Vós para sempre; que leve comigo para Vós e deponha em Vós os meus votos, as minhas esperanças, os meus desejos, tudo quanto tenho, todos os meus afetos e todo o meu amor: porque em Vós está a felicidade, e não em outro lugar.
Jesus Cristo é a alma que nos deve dar a vida; n’Ele, diz São Paulo, temos a vida, o movimento e o ser (At 17, 18). Diga o cristão: Jesus Cristo é o meu alento, a minha respiração, a minha alma e a minha vida; Ele me é mais caro, mais precioso e mais estreitamente unido do que a minha própria alma, porque é a alma da minha alma, o espírito do meu espírito, o centro do meu coração. Assim como a alma vivifica, move, governa e dirige todos os membros; assim como fala pela boca, ouve pelos ouvidos, vê pelos olhos, caminha com os pés e toca com as mãos; assim também Jesus Cristo anima e vivifica a minha alma e, por meio dela, todos os sentidos, todas as faculdades e todos os membros do meu corpo; move-os e dirige-os para o bem e para o seu serviço. Com efeito, Ele faz com que a minha língua nada diga senão o que é honesto e santo, que os meus olhos não vejam senão o que é puro, que os meus ouvidos não se abram senão às inspirações divinas e à palavra de Jesus Cristo, que o meu coração não ame senão o céu, que a minha mente não se volte senão para as coisas celestes, que os meus pés e as minhas mãos não se movam senão para boas obras.
Estais com fome? Desejai Jesus; Ele é o pão, o alimento dos anjos. Estais com sede? Desejai Jesus: Ele é a fonte das águas vivas, é o vinho que embriaga a alma. Estais enfermo? Ide a Jesus; Ele é o médico dos médicos, o Salvador. A morte se aproxima de vós? Suspireis por Jesus; Ele é a vida e a ressurreição. Tendes dúvidas? Consultai Jesus; Ele é o anjo do grande conselho. Estais na ignorância e no erro? Interrogai Jesus; Ele é o caminho, a verdade e a vida. Sois pecador? Implorai Jesus; Ele veio ao mundo para libertar o seu povo das culpas: o fim da sua paixão e o seu fruto foi apagar o pecado. Sentis-vos tentado ao orgulho, à gula, à impureza e à acídia? Invocai Jesus: Ele é a humildade, a pureza e o fervor por essência. Apreciais a beleza? Ele é uma beleza incomparável. Apreciais as riquezas? «N’Ele habitam, também corporalmente, todos os tesouros da divindade», diz São Paulo (Cl 2, 9). Desejais talvez as honras? A glória é coisa tão própria de Deus que Ele é o seu rei (Sl 23, 10). Procurais um amigo íntimo e fiel? Por amor de vós, Ele desceu do céu, trabalhou, suou, carregou a cruz e morreu. Quereis a sabedoria? Ele é a sabedoria eterna e incriada do Pai. Quereis consolações e alegrias? Ele é o consolo dos corações aflitos, a alegria dos anjos. Amais a justiça e a santidade? Ele é o Santo dos Santos, a justiça eterna que justifica todos os que n’Ele creem e esperam. Suspiras pela vida bem-aventurada? Ele é a vida eterna e a felicidade suprema dos santos e de todos os eleitos. A única felicidade verdadeira está em Jesus Cristo.
Somente no céu se encontra a suma e perfeita felicidade; porque «nem o olho viu, como diz São Paulo, nem o ouvido ouviu, nem jamais o coração do homem compreendeu aquilo que Deus preparou no céu para os que O amam» (1Cor 2, 9). No céu se realizam as palavras do Salmista: os eleitos se embriagarão da abundância da casa do Senhor e serão saciados pela torrente das suas delícias; pois n’Ele está a fonte da vida, e na sua luz veremos a luz (Sl 35, 8-9).
“Aqui embaixo o justo morre repleto de dias, escreve São Bernardo; no céu nasce na plenitude dos dias; encontra-se saciado tanto aqui como lá: aqui, de graça; lá, de glória (27)».
«Dizei ao justo, exclama Isaías, que ele estará bem» (III, 10).
Diz Santo Ambrósio: «Ninguém é ferido senão por si mesmo (28)». Desejamos e suspiramos incessantemente pela felicidade, uma felicidade sem medida e sem termo nos gozos, e, ao mesmo tempo, fugimos dela; queremos possuí-la e, ao querê-la, dela nos afastamos. A felicidade se apresenta diante de nós; fechamos os olhos para não vê-la, e ela vai-se embora. Procuramo-la por toda parte onde não está nem jamais estará; e, entretanto, não nos voltamos para buscá-la onde está e onde pode ser encontrada. A felicidade não existe fora de Deus, e fora d’Ele vamos procurá-la; somente em Deus se encontra, e justamente n’Ele não queremos buscá-la… Cegos, enganados, seduzidos pela mentira, pelo erro, pelo demônio, pelo mundo e pelos sentidos, pensamos encontrá-la nos objetos sensíveis, carnais e terrenos, nas criaturas, naquilo que nos circunda e em nós mesmos; mas, como perseguimos fantasmas, permanecemos sempre de mãos vazias.
Cegos espirituais, abri os olhos e vereis que a verdadeira felicidade não está senão em Deus; convencei-vos de uma vez por todas de que jamais conseguireis encontrá-la em outro lugar: lançai-vos, pois, no seio de Deus, e repousareis eternamente.
São Tomás nos indica três meios para chegar à felicidade: 1° vontade firme e eficaz; 2° resistência às paixões; 3° bondade e mansidão para com o próximo (1-2 q. 5). Santo Agostinho nos dá outros três: a oração e a leitura, porque, quando rezamos, falamos com Deus; quando lemos, Deus fala conosco; e a observância das coisas lidas na Sagrada Escritura (Serm. CXII, de Temp.).
Pôr em prática as oito bem-aventuranças é caminho seguro para chegar à felicidade.