Deus é chamado por diversos nomes na Sagrada Escritura. Iehovah indica a essência de Deus, que é o Ser supremo do qual dependem todos os outros seres. Odonài denota o domínio de Deus sobre todas as coisas. Elohim exprime a sua providência e significa que Deus é o governador, o juiz e o vingador de tudo. Emanuel alude à sua força e ao seu poder.
Moisés, escolhido por Deus para libertar o seu povo da tirania do Egito e para ser seu chefe, disse a Deus: Eu irei aos filhos de Israel e lhes direi: O Deus de vossos pais enviou-me a vós. Mas, se eles me perguntarem: Qual é o seu nome?, que deverei responder? E Deus lhe disse: — Eu sou Aquele que sou; e dirás aos filhos de Israel: Aquele que é enviou-me a vós. Este é o meu nome para sempre (Ex 3, 13-15). “Vós sois o Forte”, diz Jeremias a Deus, “o Grande, o Onipotente; chamais-vos o Senhor dos exércitos” (32, 18).
O mártir Átalo, ao tirano que, por desprezo, lhe perguntava como se chamava o seu Deus, respondeu assim: Muitos seres precisam de um nome particular para se distinguirem; mas Aquele que é único não precisa de nome (EUSEB. Histor. lib. 6, c. 3).
Respeitemos, invoquemos e adoremos o santo Nome de Deus; digamos com o profeta: “Bendito seja o Nome do Senhor, agora e sempre” (Sl 112, 2).
Quem é Deus? Deus, responde o evangelista São João, é Espírito (4, 24). Espírito, diz Santo Agostinho, incompreensível, incorpóreo, imutável, incircunscrito, todo inteiro em todos os lugares, indivisível, presente em toda parte, que tudo penetra, tudo sabe, tudo contém, tudo vê, tudo governa, infinitamente paciente, todo inteiro no céu, sobre a terra e em toda parte. Sempre opera e está sempre em repouso; reúne sem precisar de coisa alguma; sustenta tudo sem incômodo, enche todos os lugares sem que lugar algum o encerre; tudo cria, tudo nutre, tudo protege, tudo aperfeiçoa; procura, embora nada lhe falte, ama sem esforço, é zeloso e cheio de segurança, arrepende-se sem inquietação, aflige-se sem se alterar, muda os desígnios sem mudar de decisão. Sim, ó Senhor, vós sustentais tudo, encheis tudo, envolveis tudo, estais acima de tudo, sustentais tudo, tocais tudo com força, regulais tudo com suavidade (In spec. c. IV).
Deus, escreve o mesmo doutor (Confess. lib. X, c. VI), é o ser ao qual nenhum espírito pode chegar, porque é inacessível; nenhuma inteligência pode compreender, porque é inconcebível e infinito; nenhum olho pode contemplar, porque é invisível; nenhuma língua pode expressar, porque é inefável; nenhuma palavra pode explicar, porque é inexplicável. Em suma, Deus, como diz em outro lugar este santo (Serm. I de Verb. Apost.), está acima de todo entendimento, linguagem e cálculo humanos; ele é incompreensível. Se procurais saber qual é a sua grandeza, ela é imensa; se a sua beleza, é inexprimível; se a sua doçura, é infinita; o seu esplendor, a sua força e a sua bondade são incomparáveis.
“Eu sou o alfa e o ômega, o princípio e o fim, — diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Onipotente” (Ap 1, 8).
Quem é Deus? pergunta São Bernardo, e respondo: Não se pode defini-lo melhor do que como o define a Escritura: Aquele que é. Quem é Deus? É aquele sem o qual nada existe.
Quem é Deus? É o princípio. Quem é Deus? É aquele ao qual o tempo não se aproxima e os séculos jamais faltaram, sem contudo serem coeternos a ele. Quem é Deus? É aquele do qual procedem todas as coisas, por quem e em quem existe tudo. — Somente ele criou tudo. Tirou o universo do nada, e não de uma matéria preexistente, porque então não teria criado tudo a partir de si mesmo (De considerat. c. VI).
Embora seja una, continua o mesmo Padre, a essência divina possui, todavia, o comprimento, que é a eternidade; a largura, que é a caridade; a altura, que é a majestade; a profundidade, que é a sabedoria. Chegamos a esse comprimento pela perseverança; possuímos essa largura por meio do amor; essa majestade por meio da veneração e da adoração; o abismo de sua sabedoria e de seus juízos por meio do temor e da humildade… Quem é, afinal, este Deus? Uma vontade onipotente, uma virtude imensa, uma luz eterna, uma razão imutável, a suma felicidade; ele cria os espíritos para que participem dele, vivifica-os para enchê-los, atrai-os por meio do desejo, dilata-os para que o recebam, justifica-os para possuí-los, inflama-os para glorificá-los, fecunda-os para que produzam frutos de vida, dirige-os em seus caminhos, cria-os por benevolência, impõe-lhes uma regra para torná-los sábios, fortalece-os para que pratiquem a virtude, visita-os para consolá-los, ilumina-os para que o conheçam, destina-os à imortalidade, cumula-os de graças para conduzi-los à felicidade e, finalmente, cerca-os para mantê-los seguros de todo perigo (De Consider, lib. 5, c. CXI).
O universo é o livro da divindade e o quadro do qual ela é o pintor. Mas o universo não nos dá senão uma ideia pálida de Deus. Somente Deus compreende a si mesmo; para conhecê-lo tal como ele é, seria preciso ser Deus… O limitado jamais poderá compreender o infinito… Deus é, segundo a expressão de São Gregório Nazianzeno, o ser de quem nada se pode dizer, mesmo quando se diz tudo quanto dele se pode dizer, e que ninguém pode apreciar, ainda que o aprecie acima de todas as coisas (1).
Conhece-se o poder de Deus pelos seus efeitos, a sua divindade pela ordem que reina no universo, a sua unidade pela própria noção da divindade. Ele é o pai e o princípio de tudo o que existe, o fim, a necessidade e a força de toda faculdade; o único santo, o único que jamais nasceu, o único eterno: que não tem nome, embora os tenha todos. “Somente ele é o Altíssimo, o Criador onipotente, o Rei forte e terribilíssimo, assentado sobre o trono, o Deus dominador”, diz o Eclesiástico (Eclo I, 8).
Deus, escreve Santo Anselmo, é a essência, a vida, a razão, a salvação, a justiça, a sabedoria, a verdade, a bondade, a grandeza, a beleza, a imortalidade, a incorruptibilidade, a felicidade, a eternidade, o poder, a unidade em grau supremo (Monol. c. XV).
Deus, diz São Cipriano, é o único governador do mundo; com uma palavra fez tudo o que existe; rege tudo com sua razão e tudo realiza com seu poder (Lib. quod Idola non sunt dii). Nele, diz São Dionísio, está o princípio exemplar, final, eficiente, formal, elementar, o nexo e o fim de todas as coisas (De divin. Nomin. c. II). Ele é o bem infinito que procede de quatro coisas preciosíssimas: a criação, a conservação, a redenção, a glória (Id. de Deo).
Deus é o rei do universo, sentencia São Bernardo, o libertador e defensor dos homens, a alegria e a glória dos anjos; nele está o princípio e o fim; ele é o terror e o horror dos réprobos; admirável nas criaturas, amável nos homens, desejável nos anjos, incompreensível em si mesmo, intolerável aos demônios (In Sentent.).
“Eu sou, e nada existe fora de mim”, diz o Senhor pela boca de Isaías (Is 47, 8).
Somente em mim está a beleza de todas as coisas, somente em mim estão as riquezas, as delícias, a fortuna, o poder e a glória… Assim como o oceano absorve todos os rios sem se agitar nem aumentar, porque é vasto e imenso, e os rios não passam de uma gota de água que se perde em seu seio, assim a divindade é um oceano que absorve todas as riquezas e perfeições, ou, melhor dizendo, que contém todas elas. Sendo infinita em tudo, nada se lhe pode acrescentar; ela tem em si mesma, e infinitamente acima de toda imaginação, tudo o que se possa jamais imaginar. Comunica seus tesouros às criaturas sem empobrecer a si mesma nem sofrer mudança. Possui todos os bens em tal abundância, que não se lhe pode acrescentar nem retirar sequer o menor átomo. Tão sólidos são, além disso, esses bens, que jamais diminuirão sequer um ponto. Tudo o que há de bom nos anjos, nos homens e em toda criatura, tudo se encontra em Deus numa simples unidade e sem limites, ao infinito. Portanto, Deus é, em virtude de sua simples essência, sábio, justo, misericordioso etc., e essa sabedoria, bondade, misericórdia, justiça etc. são ele mesmo…
Aristóteles chama Deus de eterno e ótimo (Metaph. lib, II). Sócrates o chama de vida de todas as coisas (De Divin.). Para Platão, Deus é a vida espalhada por toda parte e que dá vida a tudo (De Deo). Teofrasto reconhece que Deus cria, conserva e governa todas as coisas (De Divin.).
Mas ouçamos Isaías: “Eis, diz ele, que o Senhor aparece revestido de força; seu braço denota o seu poder; o preço de suas vitórias está em suas mãos, suas obras o precedem e o anunciam. Quem mediu em seu punho as águas e pesou os céus na palma aberta de sua mão? Quem é aquele que sustenta com três dedos a estrutura da terra? Quem sonda os montes e pesa as colinas? Quem deu auxílio ao espírito do Senhor? Quem lhe sugeriu conselho ou foi seu mestre? A quem ele chamou para deliberar, e quem o instruiu, mostrou-lhe o caminho da justiça, guiou-o na ciência ou lhe ensinou a prudência? Eis que as nações são como uma gota, e são avaliadas como o mínimo peso que move a balança… Todas as gentes estão diante dele como se não existissem e, diante dele, são consideradas como um nada e coisa vã” (Is 40, 10-17).
“Senhor, exclama a Sabedoria, somente tu és excessivamente poderoso, e quem pode resistir ao teu braço vigoroso? O mundo inteiro está diante de ti como o pequeno peso da balança e como uma gota de orvalho que cai sobre a terra pela manhã” (Sb 11, 22-23). Considera, ó homem, que lugar ocupas nesta gota de orvalho e como és pequeno diante de Deus.
“A glória de Deus, lemos em Habacuc, cobriu os céus… Seu esplendor brilha como a luz” (Hab 3, 3-4). “Ele se deteve e mediu a terra; lançou um olhar e conquistou as nações. As montanhas antigas foram despedaçadas e as colinas do mundo foram abatidas, quando o Eterno se pôs a caminho” (Hab 3, 6). “As montanhas te viram, ó Senhor, e tremeram; os rios caudalosos se retiraram. Os abismos levantaram a voz, o mar profundo estendeu suas mãos. O sol e a lua permaneceram em seu lugar; desapareceram diante do fulgor de tuas flechas, do brilho de tua lança” (Hab 3, 10-11).
Ouvi como fala Jó: “Porventura descobrirás os caminhos de Deus e compreenderás perfeitamente o Onipotente? Ele é mais alto que o céu, e tu, que poderás fazer? É mais profundo que o inferno; como chegarás a conhecê-lo? (Jó 11, 7-8). Quem não sabe que a mão do Senhor fez todas estas coisas? Ele tem em seu poder a alma de todo vivente e o espírito de todo homem formado de carne (Jó 12, 9-10). Com ele estão a sabedoria e a fortaleza; ele conhece o enganador e aquele que é enganado. Conduz os homens sábios a terminar como insensatos… Despoja os reis do cinto e lhes ata os flancos com uma corda. Humilha os grandes e lança por terra os príncipes. Revela as coisas sepultadas nas trevas e ilumina as sombras da morte. Faz crescer as nações e as extermina, e, depois de exterminadas, recondu-las ao estado anterior. Muda o coração dos príncipes, senhores dos povos da terra, e faz que andem errantes onde não há caminho e caminhem às apalpadelas como ébrios (Jó 16-21). Aos seus olhos está aberto o inferno, e o abismo não tem véu que o cubra. Ele estendeu o norte sobre o vazio e suspendeu a terra sobre o nada. Encerra as águas em suas nuvens, para que não caiam todas juntas embaixo… As colunas do céu tremem, amedrontadas ao seu aceno.
Pelo seu poder, os mares foram reunidos num instante, e sua sabedoria feriu o soberbo. Isto não é senão uma parte de suas obras; ora, se isto não passa de uma gota em comparação com aquilo que se pode dizer, quem poderá resistir ao trovão de sua grandeza? (Jó 26, 6-14). Escuta, ó homem, detém-te a considerar as maravilhas de Deus. Sabes como ele as realiza? Como sua luz se reflete e resplandece nas nuvens? Conheces os caminhos das nuvens e esse grande e perfeito saber? Mas como é terrível a majestade de Deus! Não nos é dado compreendê-la: ele é grande em sua força e em sua equidade; é inefável. Tremam os homens diante de sua presença! A sabedoria deles é, aos seus olhos, um nada (Jó, c.37). Onde estavas tu, diz o Senhor, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se sabes tanto. Sabes quem lhe fixou as medidas? E quem estendeu sobre ela o nível? Em que foram apoiadas as suas bases, e quem colocou a sua pedra angular, quando todas juntas as estrelas da manhã me louvavam? Quem fechou as portas ao mar quando saiu do seio materno? Quando eu lhe dei a nuvem por vestimenta e o envolvi na escuridão, como uma criança em suas faixas? Eu o encerrei dentro dos limites que estabeleci, e lhe dei duas portas e barreiras? E disse: Até aqui virás, mas não passarás adiante, e aqui quebrarás tuas ondas altivas. Foste tu, porventura, que deste lei à estrela da manhã e mostraste à aurora o lugar de onde deve sair? Entraste tu no fundo do mar e passeaste nas profundezas do abismo? Conheces onde habita a luz e qual é o esconderijo das trevas? Sabias tu, alguma vez, que havias de nascer? Estavas informado do número de teus dias? Por que caminho se espalha a luz, e o calor se difunde sobre a terra? Quem é o pai da chuva, e quem gerou as gotas de orvalho? De que seio saiu o gelo, e quem, do ar, enviou a geada? Compreendes a ordem do céu e estabelecerás as suas leis sobre a terra? Erguerás a tua voz até a nuvem para fazer vir sobre ti um dilúvio de água? Enviarás os raios, e eles irão e te dirão ao voltar: Estamos às tuas ordens? Quem exporá o governo dos céus e fará calar a harmonia celeste? (Jó, c.38).
Este quadro, já tão magnífico e sublime, da grandeza, majestade e poder de Deus, ainda não nos oferece senão um tênue esboço. Quanto mais se estuda, tanto maiores abismos de perfeição se descobrem nele; porque quem medita sobre Deus vai, passo a passo, descobrindo uma imensidade sempre nova, e assim até o infinito. Deus, segundo a expressão do Salmista, está envolto em trevas (Sl 17, 11). Por isso São Gregório Nazianzeno diz que, quanto mais o homem procura conhecer Deus, tanto mais Deus se furta às suas buscas; e assim, fugindo das mãos no próprio instante em que se julga tê-lo alcançado, eleva até o céu aquele que o busca com amor (In Job.).
Quanto mais descobris em Deus maravilhas e as celebrais, tanto mais descobris novas maravilhas, inumeráveis e incompreensíveis… “Glorificai o Senhor quanto puderdes, diz o Eclesiástico, mas a sua glória e a sua magnificência estarão sempre acima de vossas palavras! Revesti-vos de coragem para exaltá-lo e não vos canseis, mas jamais chegareis ao fim. Quem o viu para poder descrevê-lo? E quem explicará a sua grandeza eterna?” (Eclo 43,33-35).
Quanto mais admirais, estudais, louvais e celebrais a Deus, tanto mais vos resta admirá-lo, estudá-lo, louvá-lo e celebrá-lo. E, comparados com aquilo que Ele é, vossos louvores e admirações são apenas um átomo de areia comparado com o universo, uma gota de orvalho em comparação com o oceano. Imaginai um homem que suba uma alta montanha: quanto mais sobe, mais descobre e avista ao longe terras, vales e cidades. Estando embaixo, talvez imaginasse que, ao alcançar o cume, teria tocado o céu; mas, tendo chegado lá, percebe que o céu continua à mesma distância de antes. Assim acontece ao homem em relação a Deus. São Cipriano diz: Por mais que se possa dizer, ver e conhecer acerca de Deus, toda visão, ciência e palavra estão muito distantes da realidade e são como uma gotinha de água caída no oceano. Todo o exército dos santos não tocaria o fundo de considerações tão sublimes e inalcançáveis; o olhar se turva; os próprios serafins, no voo de sua elevação, colocam suas seis asas entre si e esta luz invisível, esta natureza inacessível (Lib. Quod Idola non sunt Dii).
“Grande é o Senhor, diz Davi, e superior a todo louvor, porque a sua grandeza não tem limites” (Sl 144,3).
“E quem jamais, diz o Eclesiástico, poderá narrar as obras dele? Quem poderá investigar as suas maravilhas? — “Quem pintará a grandeza do seu poder, e quem poderá contar a sua misericórdia? Ninguém pode aumentar, diminuir ou conhecer as magnificências de Deus. Quando o homem acreditar ter chegado à beira, não terá feito senão começar a tela; e, quando tomar fôlego, ficará admirado ao perceber quanto ainda lhe resta fazer” (Eclo 18,2-6).
Deus é infinitamente digno de louvor, escreve Santo Agostinho; por isso, quando o louvais, não penseis poder enaltecer segundo o seu merecimento aquele cuja grandeza é infinita. Sendo a sua grandeza sem limites, seja também o vosso louvor sem termos (De Civit. Dei). Quanto mais se penetra nessa imensidade, mais resta ainda por penetrar; de outro modo, Deus não seria Deus: se a mente humana pudesse compreendê-lo ou entendê-lo, ele já não seria infinito…
Deus é tão grande que se deve prestar-lhe homenagem mais por meio de um profundo silêncio do que por meio de louvores, diz São Dionísio. Os espíritos, as línguas e as vozes de todos os homens e de todos os anjos reunidos reduzem-se a nada quando se trata de contemplá-lo, honrá-lo e louvá-lo. Digamos, em uma palavra, que Deus é tudo e está em tudo.
Ele é tudo, porque é o princípio, o meio e o fim de todas as coisas; é a causa final, conservadora e eficiente de todas as coisas; deu e dá a todas as criaturas o seu ser, e conserva cada uma delas (De Divin. c. IV).
Augustíssima, sacratíssima, sublimíssima e imensa é a essência de Deus; por isso, ela supera infinitamente toda inteligência, toda ideia e toda linguagem, de modo que o som de nossos louvores se assemelha ao zumbido das abelhas ou ao balbuciar das pegas e dos papagaios. Deus é o oceano sem margens e sem fundo. Toda criatura extrai desse oceano uma gota de vida. Deus é um sol perfeitamente luminoso e esplêndido, do qual se reflete sobre os homens e os anjos um débil raio de inteligência. Por isso, com razão diz o Nazianzeno que Deus é a universalidade de tudo, sem princípio e sem fim. Calem-se, pois, diante de vós, ó Rei de majestade, os céus e os elementos; calem-se também as árvores, as ervas, as flores, as plantas, os campos, as campinas e as florestas; calem-se as aves, os peixes, os animais domésticos e as feras; calem-se os homens, os anjos e todas as criaturas, porque elas não são outra coisa diante de vós, ó Senhor, senão um minúsculo grão de areia que basta para fazer a balança transbordar; não são senão uma gota de orvalho que se dissipa ao primeiro raio de sol; não são senão cinza, pó e nada (Orat. XLIX),
Embora os eleitos no céu vejam e possuam a Deus, jamais o compreenderão, porque o infinito nunca pode ser compreendido por um ser finito e limitado. “Somente Deus possui a imortalidade, diz São Paulo, e habita uma luz inacessível, que homem algum jamais viu nem poderá ver” (1Tm 6,16). O Deus infinito, escreve São Cirilo, é o fim de tudo; sendo incompreensível, compreende tudo (Homil.).
Deus, escreve o Papa São Gregório, está em tudo, fora de tudo, acima de tudo e abaixo de todas as coisas; está acima de tudo por seu poder, abaixo de todas as coisas pelo sustento que lhes presta; fora, por sua imensidade; dentro, por sua espiritualidade e faculdade de penetração. Ele está inteiramente em toda parte e é o mesmo em toda parte; governando, sustenta; sustentando, governa; circundando, penetra; penetrando, circunda; rege tudo sem inquietação, sustenta tudo sem pena nem fadiga. Ele está em todos os lugares e não está encerrado em lugar algum; está em toda parte e em nenhuma parte; vê-se em toda parte, sem jamais ser visto. Ó abismo de grandeza! Quem é, pois, Deus? (Moral. lib. 2, c. VIII). Adoremos e calemo-nos…
“Deus é a luz primeira e incriada, que tudo ilumina, vivifica e concentra em si, como o sol”, diz São Dionísio (2).
O apóstolo São Tiago chama a Deus “o pai das luzes” (Tg 1,17), nome que lhe convém por várias razões: 1° porque Deus é em si mesmo, isto é, em sua essência, a luz incriada. 2° Porque Deus produz, fora de si, os anjos, que são luz e inteligência, e os homens, que são inteligência. Ele deu aos homens, às aves, aos peixes e aos animais de toda espécie a faculdade de ver. 3° Porque Deus é o criador do sol, da lua, das estrelas e de toda outra luz. Ele disse: Faça-se a luz, e a luz foi feita (Gn 1,3). Ele é o autor da vida de todos os seres, e a vida é uma espécie de luz. Por sua beleza e perfeição, todas as criaturas provam que o Criador é o pai das luzes. Com efeito, como observa a Sabedoria, “pela grandeza e beleza da criatura, pode tornar-se visível o Criador” (Sb 13,5). 4° Porque Deus produz todas as luzes sobrenaturais: a fé, a sabedoria, a esperança e todas as outras virtudes, que são como outras tantas estrelas fulgurantes derivadas do pai das luzes. “Eu sou, afirmou de si mesmo Jesus Cristo, a luz do mundo: quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Sim, Jesus Cristo é a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo” (Jo 1,9). 5° Porque toda luz profética desceu de Deus… 6° Porque a luz da glória, por meio da qual os anjos e os eleitos veem a Deus, dele gozam e são bem-aventurados, vem de Deus; segundo o dito do rei profeta: “Em vós, ó Senhor, está a fonte da vida, e em vossa luz veremos a luz” (Sl 35,9). Depois da ressurreição, Deus comunicará esta glória aos corpos dos eleitos por meio de suas almas; por isso anuncia Jesus Cristo que “os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai” (Mt 13,43).
«Deus é todo luz e nele não há treva alguma» — escreve São João (1Jo 1,5). Belas e estupendas semelhanças se encontram entre Deus e a luz e o fogo: a luz dos astros, a mais nobre entre as luzes naturais, é uma luz ativíssima, eficacíssima, puríssima, impassível, que resplandece sobre as imundícies sem delas retirar qualquer sordidez; ela traz calor, esplendor e alegria, fazendo ver todas as coisas e comunicando a vida e o vigor a tudo. Tal é Deus…
São Dionísio encontra no fogo e na luz trinta propriedades que se aplicam admiravelmente a Deus: 1° o fogo e a luz unem-se a todas as coisas sem se confundirem com elas…; 2° estão separados delas…; 3° resplandecem com o corpo que penetraram…; 4° o fogo permanece oculto e desconhecido em si mesmo, e só se manifesta quando lhe é fornecida matéria sobre a qual exercer o seu poder e a sua atividade…; 5° não se pode detê-lo nem dominá-lo…; 6° apodera-se de tudo por si mesmo…; 7° comunica aos objetos a sua força…; 8° une-se a tudo o que toca…; 9° renova tudo com o seu calor, que reanima a vida…; 10° resplandece vivamente…; 11° não se pode contê-lo…; 12° tem o poder de destruir…; 13° não se pode mudá-lo…; 14° eleva-se…; 15° é dotado de grande rapidez…; 16° não sofre demora…; 17° é imóvel…; 18° move-se por si mesmo…; 19° põe em movimento…; 20° golpeia…; 21° não se deixa apanhar…; 22° basta-se a si mesmo…; 23° cresce, ainda que oculto…; 24° comunica a sua força às matérias que lhe são próprias…; 25° opera…; 26° é poderoso…; 27° está em toda parte sem ser visto…; 28° se é negligenciado, parece estender-se…; 29° se é procurado, aparece imediatamente e torna a desaparecer, para não ser apanhado nem retido…; 30° comunica-se sem diminuir… (Veja-se a explicação e a aplicação a Deus destas 30 propriedades no livro das Hierarch. coelest. c. XV).
«Ó abismo das riquezas, da sabedoria e da ciência de Deus!» exclama o Apóstolo (Rm 11,33).
Notai quão ampla e extensa é a ciência de Deus: em onze aspectos ela supera toda ciência humana e angélica: 1° quanto ao seu objeto; Deus, por meio da ciência, conhece tudo…; 2° quanto ao modo e à perfeição do conhecimento: ele sabe tudo perfeitamente…; 3° quanto aos meios: conhece por essência, não pelas aparências nem pelos efeitos…; 4° pela rapidez da ciência…; 5° pela certeza da mesma; 6° pela sua eternidade: a ciência de Deus jamais começou nem jamais terminará…; 7° pela sua uniformidade: a ciência de Deus é invariável, é sempre a mesma, não aumenta nem diminui; 8° pela sua simplicidade e unidade: Deus conhece a si mesmo e conhece perfeitamente todo o restante por um só e simples ato de sua inteligência…; 9° quanto ao seu ser: porque a ciência de Deus não é acidental como a dos anjos e a dos homens, mas é substancial a Deus, é o próprio Deus…; 10° como causa: a ciência de Deus é a ideia e a causa de todas as coisas que foram criadas…; 11° quanto à sua fecundidade e comunicação: porque a sabedoria e a ciência de Deus comunicam-se aos anjos e aos homens como uma luz imensa, pela qual eles conhecem e se conhecem…
«Os olhos de Deus, diz o Salmista, interrogam os filhos dos homens» (Sl 10,4); o seu olhar perscruta os corações e sonda os rins (Sl 7,9).
«Todos os caminhos dos homens são manifestos aos seus olhos, lemos nos Provérbios: o Senhor pesa os espíritos» (Pr 16,2). E como não teria Deus uma ciência infinita, se, como diz o Eclesiástico, «o céu e os céus dos céus, o oceano e toda a terra, e tudo quanto neles se encontra, estão na sua presença»? (Eclo 16,18).
Deus possui uma sabedoria infinita; «ele alcança de uma extremidade à outra com força, diz a Escritura, e dispõe todas as coisas com suavidade» (Sb 16,1).
«Dai-me, suplicava Salomão a Deus, aquela sabedoria que circunda o vosso trono» (Sb 9,4). Ser sábio, possuir a sabedoria, quer dizer aprender a conhecer Deus… Por isso, Jesus Cristo prometia aos seus apóstolos tal sabedoria, à qual todos os seus inimigos não poderiam resistir nem teriam o que opor: (Lc 21,15).
«Quão imensos são os tesouros da sabedoria de Deus!» exclama São Paulo (Rm 11,33); e todos esses tesouros da sabedoria divina estão reunidos e ocultos, continua o mesmo Apóstolo, em Jesus Cristo (Cl 2,3). Por isso, São Tiago nos adverte de que «se alguém necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que dá liberalmente a todos, sem censurar, e ela lhe será concedida» (Tg 1,5).
Não se manifesta acaso abertamente esta sabedoria de Deus no firmamento, no sol, na lua, nas estrelas? … Não se mostra visivelmente sobre a terra, no mar, nos montes, nos vales, nos rios, nas árvores, nas fontes, nas flores etc.? Observai a abelha e a formiga etc. e, depois, dizei se a sabedoria de Deus não se destaca nos animais… Quanto mais resplandece ela nos anjos e nos homens?
«Sede santos, porque eu sou santo» — diz Deus no Levítico (Lv 19,2). Isaías atesta que viu Adonai sobre um trono altíssimo, ao redor do qual estavam, reverentes, miríades de espíritos angélicos, que cantavam: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos (Is 6,3).
Deus é o princípio e a plenitude da santidade; possui a santidade infinita, pois possui em grau infinito todas as perfeições. Quem diz Deus diz um ser infinitamente perfeito, infinitamente santo… Deus é a santidade por essência; ele santifica as almas que toca, que inspira, que dirige, de tal modo que a santidade consiste, segundo a excelente observação do Nazianzeno, no hábito de viver familiarmente com Deus (3).
“Deus falou e tudo foi feito, ordenou e tudo foi criado” — canta o Salmista (Sl 32,9). “Faça-se a luz, e a luz foi feita” (Gn 1,3). Esta única palavra, fiat, basta a Deus para fazer tudo o que quer… “Somente vós, ó Senhor, diz a Sabedoria, tendes o poder da vida e da morte” (Sb 16,13).
“A sabedoria e a força, diz Daniel, pertencem a Deus; ele muda os tempos e os séculos, estabelece e transfere os reinos, dá a sabedoria aos sábios e a ciência àqueles que têm inteligência da lei” (Dn 2,21).
Deus, diz Santo Agostinho, é onipotente tanto nas coisas maiores como nas menores. Para ele, custa tanto fazer um mosquito ou uma folha quanto lhe custa fazer o sol, a terra e os mares. E é onipotente para criar o céu e a terra, os seres imortais e os mortais, os espíritos e os corpos, as coisas visíveis e as invisíveis. Ele é grande nas coisas grandes, e não menos grande é nas pequenas (Serm. CXIX).
“Adonai, Senhor, exclamava Judite, vós sois grande e belo em vossa potência, e ninguém pode vencer-vos (Jt 16,16); antes, sois vós quem vence as batalhas… e diante de vós os montes se abalam desde os seus fundamentos, as pedras se derretem como cera mole” (Ib. 3-18).
Tão pouco custa à onipotência de Deus realizar até o maior prodígio, que a criação e a conservação do universo não são para ele mais que um jogo (Pr 8,31).
Quem terá língua para dizer sua potência e sua força? É ele, diz o profeta Baruc, quem envia a luz, e ela vai; chamou-a, e, obediente, ela se apresenta diante dele, tremendo. À sua voz, as estrelas disseram: Eis-nos aqui; resplandeceram jubilosas para aquele que as fez (Br 3,34-35).
Exemplos e provas da potência de Deus temos no dilúvio, no castigo de Sodoma, nas pragas do Egito, na passagem do Mar Vermelho etc….
Todas as coisas estão cheias da bondade de Deus, que transparece por toda parte, mas se manifesta principalmente na criação dos seres…, na cruz…, no altar…, no céu. “A terra está cheia da misericórdia do Senhor” (Sl 32,5), diz o profeta, e: “Senhor, vós sois o Deus compassivo e bondoso, paciente, pródigo em misericórdia e verdade… Ó meu Deus, minha misericórdia” (Sl 85,15; 58,17).
A bênção de Deus é um rio que transborda — diz o Eclesiástico (39,27); com efeito, São Bernardo atesta de si mesmo que Deus o cumulava de tantos benefícios que ele permanecia quase oprimido sob o peso de tantas misericórdias, e já não sentia outro peso (4).
“Todas as criaturas, diz o Salmista, esperam de vós, ó Senhor, o alimento cotidiano; abris a vossa mão e distribuís a todos os viventes os vossos dons” (Sl 103,27-28). “Os olhos de todas as criaturas estão fixos em vós, ó Senhor; dai-lhes o necessário no tempo conveniente” (Sl 144,15).
Ouvi Jesus Cristo: “Não vos preocupeis com a vossa vida, pensando no que haveis de comer ou com que haveis de vestir o vosso corpo; porque o vosso Pai sabe que necessitais de tudo isso” (Mt 6,25,32).
O rei do universo, diz São Cipriano, administra, governa e ordena tudo perfeitamente. Não pode deixar de ficar estupefato aquele que considera, separada ou conjuntamente, a integridade, a perfeição, a semelhança, a dessemelhança, a ordem, a união, a sucessão, a força, a potência, a harmonia e a beleza das coisas (Serm.).
Oh! admire-se também a providência de Deus, que governa tudo, há seis mil anos, no universo; no firmamento, os astros; sobre a terra, os animais, desde o elefante até o verme, desde o carvalho até o fio de erva; dentro do mar, os peixes, desde a baleia até o polvo… Se às vezes parece que Deus retira por um instante a mão de sua providência, devemos atribuí-lo aos nossos pecados, porque somente o pecado transtorna a ordem do universo. Mas os castigos do pecado por meio das calamidades públicas e privadas são uma providência, porque a punição do mal é a reparação da desordem, é a ordem…
“Em Deus não há mudança, nem sombra de variação”, diz São Tiago (Tg 1,17). De cinco maneiras Deus é imutável: 1º por sua natureza, que é imortal; 2º por sua essência, que é inalterável; 3º pelo lugar que ocupa, sendo ele infinito; 4º por sua vontade, que é sempre constante; 5º finalmente, em seu agir, porque ele age sem paixão…
“Eu sou o Senhor, e não mudo”, afirma o próprio Deus pela boca de Malaquias (Ml 3,6).
A causa principal, ou melhor, a razão da imutabilidade de Deus consiste, segundo o ensinamento de São Tomás, na plenitude da perfeição da natureza divina: porque esta natureza, possuindo de modo firme, necessário e natural todos os bens, não pode mudar para buscar algum bem ou desejá-lo.
Em segundo lugar, Deus é imutável porque é ato puro; nada se mistura à sua potência, ao passo que tudo aquilo que muda depende, de certo modo, do objeto no qual se transforma. São Bernardo diz que toda mudança é uma imitação da morte. Por isso canta o Salmista (Sl 101,27-28): Os céus perecerão, mas vós, ó Deus, permanecereis; eles envelhecerão como vestes, vós os mudareis como se muda um manto, mas vós sois sempre o mesmo, e os vossos anos jamais terão fim (Serm. LXXXI, in Cantic.).
Como poderá mudar, diz São Gregório Nisseno, aquele que é sempre o mesmo e que não pode transformar-se em algo que seja melhor do que ele? (De Deo).
Em terceiro lugar, Deus é imutável porque é simplicíssimo, e nada, diz Santo Agostinho, pode ser-lhe tirado, acrescentado ou aproximado (De Coelest. vita).
São Anselmo dá uma quarta razão da imutabilidade de Deus, quando diz: Vós somente, Senhor, sois aquilo que sois. Aquele em quem ocorre mudança não é, de modo absoluto, aquilo que é; com efeito, não é real e absolutamente aquilo que foi e já não é, nem aquilo que será e ainda não é. Mas vós, meu Deus, sempre fostes e sempre sereis aquilo que sois. O que muda perde aquilo que tinha e adquire aquilo que não tem; Deus não perde nem adquire coisa alguma (De Simil.). Cada vez que, observa também Santo Agostinho, já não se é aquilo que se era, e se é aquilo que antes não se era, tantas vezes se morre e se ressuscita (Sentent.).
O mesmo santo Padre nos dá outras duas razões da imutabilidade de Deus. Deus é imutável, diz ele, porque sua vontade é eterna, e tudo o que se faz no tempo, no suceder dos séculos, Deus o quis e decretou desde toda a eternidade; e é impossível que aquilo que Deus quis eficazmente desde toda a eternidade não aconteça no tempo ou aconteça de modo diferente, porque isso seria escapar ao decreto eterno de Deus. Além disso, o passado e o futuro estão presentes a Deus, e sua ciência, sua vontade e sua providência se referem ao presente. Assim como eu não posso deixar de querer aquilo que quero no presente, assim Deus não pode deixar de querer aquilo que quer com relação ao futuro, porque para ele o futuro é presente (Psalm.).
“Nenhuma criatura está escondida ao olhar de Deus, escreve o grande Apóstolo, mas todas as coisas estão nuas e abertas aos seus olhos” (Hb 4,13). Assim deve ser, porque “nele temos a vida, o movimento e o ser” (At 17,28), e ele “conhece todos os pensamentos dos homens” (Sl 93,11).
“A Deus pertence o reino, e ele dominará sobre todos os povos; porque ele é o Altíssimo, o Deus terrível, o grande Rei que governa toda a terra” (Sl 21,28).
Deus chama a si mesmo, no Apocalipse, Rei dos reis (17,14); e tal rei, diz o Eclesiástico, que sempre subsiste e permanece invencível por toda a eternidade (18,1). Ele é grande e sublime, diz Isaías, e sua morada é a eternidade (57,15). Habita a eternidade, isto é, habita em si mesmo, porque ele é a sua eternidade. Ele habita em sua divindade, que é a própria eternidade… Deus reina no céu com sua glória, sobre a terra com sua graça, no inferno com sua justiça vingadora.
“Se Deus mesmo não edifica a casa, em vão trabalharão nela os homens”, dizia o Salmista (Sl 126, 1). Estas palavras encontram sua explicação nestas outras de São Paulo (2Cor. 3, 5): “Nós não somos capazes de pensar, por nós mesmos, coisa alguma de bom, mas toda a nossa capacidade e aptidão nos vêm de Deus”.
“Afastar-se de Deus, diz Santo Agostinho, é cair; voltar-se para ele é ressurgir; permanecer nele é manter-se firme de pé. Ninguém perde a Deus, se não for enganado; ninguém o procura, se não for advertido pela graça; ninguém o encontra, se não for puro ou purificado. Não conhecer a Deus é morrer; conhecê-lo é viver; desprezá-lo é perecer; servi-lo é reinar (5)”.
“Sem o conhecimento de seu Criador, o homem é um bruto (6), ao passo que o conhecimento do único Deus verdadeiro é a posse de todas as virtudes; pois a lembrança de Deus faz evitar todo pecado (7)”, diz São Jerônimo, comentando aquela sentença de Jesus Cristo: “A vida eterna consiste em conhecer a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, que enviaste” (Jo 17, 3).
“Nada há de melhor que o conhecimento de Deus, diz Santo Agostinho, porque nada há de mais feliz, visto que nessa cognição se encontra a felicidade por essência (8)”.
Será, pois, extremamente difícil chegar ao conhecimento de Deus? Não: basta desejá-lo. “Pedi, diz Jesus Cristo, e recebereis; procurai e encontrareis; batei, e vos será aberto” (Mt 7, 7). Pedi a Deus, e tereis a Deus; procurai-o, e o encontrareis; batei à porta de seu coração, e ele vos abrirá…
Àquele que procura a Deus e deseja conhecê-lo, ele se mostra de diversos modos: 1° no firmamento: pois “os céus narram a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 18, 1). A terra e tudo o que ela contém fazem-nos conhecer o Criador e seu poder… Cada criatura, considerada em particular, dá-nos uma noção da divindade. O universo é um livro escrito pela mão de Deus; nele cada um pode ler e instruir-se; 2° Deus se dá a conhecer principalmente pela revelação da Sagrada Escritura…; 3° por meio da Igreja docente…; 4° finalmente, manifesta-se na oração e no exercício da virtude…
Conhecido Deus, não podemos deixar de amá-lo, como ele quer de nós, com toda a alma, com todo o coração e com todas as nossas forças… Devemos amá-lo porque é sumamente amável em si mesmo e porque ele nos amou imensamente, etc.…
Com o amor vem necessariamente o serviço; ama verdadeiramente a Deus aquele que o serve. É necessário, com efeito, que todos os princípios convirjam para o único princípio; todas as belezas, para a única verdadeira beleza; todas as verdades, para a verdade suprema; todos os bens, para o único e verdadeiro bem; é necessário, em uma palavra, que tudo pertença a Deus: o corpo, a alma, o espírito, o coração, e que todas as coisas não formem senão uma única oferenda àquele que é uno…
Ó homens, afastai das criaturas as vossas esperanças e o vosso amor, e consagrai-os a Deus, que se dará a vós quando quiserdes. Servi a Deus com fidelidade e perseverança, e possuireis a Deus. Vós vindes do nada: tendes pouco, ou melhor, nada tendes absolutamente de vosso; em vão servis e suplicais às criaturas para obter delas alguma coisa; mendigos, recorrei a mendigos; por que não ides à fonte, ou melhor, ao oceano de todos os bens? Falta-vos a sabedoria? Deus é a suma sabedoria, o princípio de toda a sabedoria. Necessitais de saúde e de força? Deus é a própria saúde, a força, a imortalidade. Careceis de caridade, de virtude, de santidade? Deus é a caridade, a virtude, a santidade por essência. Sois pobres de tudo? Ide a Deus, servi a Deus. As misérias, as tribulações, as calúnias, as provações e os sofrimentos vos oprimem?
Ide a Deus, servi-o com amor. Ele é rico o bastante para vos tirar da miséria, poderoso o bastante para remediar as dores e as calúnias, misericordioso o bastante para pôr fim às provações. Assim como é a fonte da majestade, do poder e da ciência, é também o príncipe de toda paciência, de toda força, de todo conselho e de toda graça.
Todas as criaturas servem a seu Criador, como que por natural instinto; obedecem-lhe, veneram-no, temem-no, amam-no e adoram-no. Por isso, na morte de Jesus Cristo, o sol e a lua se obscurecem, como se vestissem luto por seu Deus; os rochedos se fenderam; os túmulos se abriram e, profundamente abalada, tremeu toda a terra. Que fará, pois, o homem? Não servirá, não buscará, não amará, não adorará e não obedecerá a Deus em todas as coisas?
O homem depende mais de Deus do que de si mesmo; por isso, é obrigado a procurar os interesses de Deus mais que os seus, mesmo quando provê aos próprios; pois o bem de Deus é o bem de cada um e de todo o mundo. Quando, portanto, o amor das criaturas vos estimular ao mal, dizei: Prefiro o oceano do bem a uma só gota, a uma sombra.
Se a inquietação, o tédio e as preocupações vos abatem, lançai tudo aos pés de Deus, que é a providência universal. Se vos é confiado um trabalho que vos parece demasiado penoso e acima de vossas forças, olhai para Deus e repeti com o Apóstolo: “Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 4, 13). Tudo se pode por meio daquele que tudo pode: o Onipotente torna onipotentes aqueles que o servem. Lançai-vos neste oceano, mergulhai nele como os peixes no mar.
A consumação, a perfeição da sabedoria, da virtude, do homem e do anjo, está em Deus, isto é, em servir a Deus e unir-se a ele. É preciso, por conseguinte, dirigir para ele todos os nossos pensamentos, desejos, intenções e ações; a nossa inteligência, a memória, a vontade, enfim, todo o nosso ser.
AMOR DE DEUS
BONDADE DE DEUS
LEI DE DEUS
NECESSIDADE DE SERVIR A DEUS DESDE A JUVENTUDE
PALAVRA DE DEUS
PREDESTINAÇÃO E
PRESCIÊNCIA
PRESENÇA DE DEUS
PROVIDÊNCIA
SERVIÇO DE DEUS
SUBMISSÃO À VONTADE DIVINA
TEMOR DE DEUS, etc.