A quantas pessoas se pode dirigir a desoladora e vergonhosa censura de São João Batista aos judeus: “No meio de vós há alguém que vós não conheceis” (Jo 1, 26).
“A luz, dizia o apóstolo João, resplandece nas trevas, e as trevas (isto é, o mundo) não a compreenderam… Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu” (Jo 1, 5-10).
“Pai justo”, exclamava Jesus, lamentando-se com o Pai por o mundo haver esquecido Deus, “Pai justo, o mundo não te conheceu” (Jo 17, 25).
Quando São Paulo falou pela primeira vez no Areópago de Atenas, começou com estas palavras: “Atenienses, vejo que sois, em tudo, quase mais religiosos do que os outros; de fato, observando os vossos simulacros, encontrei um altar sobre o qual estava escrito: Ao Deus desconhecido” (At 17, 23-23). Ó céu! Quantas pessoas existem hoje no mundo para as quais Deus é algo desconhecido! Que multidão imensa se aglomeraria junto daquele altar, se para lá fossem todos os que se esqueceram de Deus! … O esquecimento de Deus encontra-se nos pais e nos filhos, na adolescência e na juventude, na idade viril e na velhice, nos homens e nas mulheres, nos ricos e nos pobres; encontra-se nos estabelecimentos comerciais e nos escritórios, na família e nos Estados, no exército e na sociedade. Em toda parte se poderia erguer o altar de Atenas com a inscrição: — Ao Deus ignorado… — Ah! o profeta pinta ao vivo o mundo, chamando-o também de terra do esquecimento: — “Como se verão as vossas maravilhas, ó Senhor, no meio das trevas?”, exclama ele dolorido; “e como será conhecida a vossa justiça na terra do esquecimento?” (Sl 87, 13.
O Salmista nos revela a causa pela qual o mundo tão fácil e universalmente se esquece de Deus: “O mundo não quis compreender, por temor de ter de fazer o bem” (Sl 35, 3). “Não conservaram a aliança do Senhor e não quiseram caminhar na sua lei” (Sl 77, 10). “Nem todos obedecem ao Evangelho”, escrevia São Paulo aos Romanos, “porque, como já se queixava Isaías: Quem acreditou no que ouviu de nós?” (Rm 10, 16).
Mas poderão acaso desculpar-se aqueles que se esquecem de Deus, dizendo que não foram instruídos? Nós lhes responderemos, como outrora o grande Apóstolo, com as palavras do Salmista (Sl 18, 3): “A voz das obras e dos mensageiros de Deus ressoou por toda a terra e foi ouvida até os confins do mundo” (Rm 10, 18).
Dessas passagens se revela que a primeira causa do esquecimento de Deus é a vontade perversa do homem…
A segunda é a ignorância. Não se conhece suficientemente e de modo conveniente a Deus, a sua bondade, o seu amor e todos os seus divinos atributos,
A terceira é a corrupção do coração e o amor ao século…
A quarta é a influência que exercem o escândalo, o mundo, as suas honras, as suas falsas máximas, a sua moral relaxada, genial e pervertida…
A quinta é a perda da fé…
“Crime capital”, diz Tertuliano, “é esquecer aquele que ninguém pode ignorar” (1). Tudo no universo, a terra e o céu, fala de Deus… Tudo recorda Deus: o sol, a lua, as estrelas, os elementos, o relâmpago e o trovão, a terra e os seus produtos, os animais, os montes, os vales, o oceano com a sua imensidão e os seus abismos… Somente um ser, o único aqui embaixo que foi criado à imagem de Deus e resgatado com o seu sangue, o único capaz de conhecê-lo, de amá-lo e de servi-lo, esquece-o! Deus é visível em toda parte por suas obras maravilhosas e por sua providência, e não se o vê! … Mas o homem que esquece o verdadeiro Deus tem continuamente o espírito voltado para os deuses estrangeiros que ele próprio fabricou: a avareza, a ambição, a impureza, o orgulho etc.… Ó Deus! Que crime enorme! …
“Eles se esqueceram, diz o Salmista, dos benefícios de Deus e dos prodígios que Ele realizou diante de seus olhos” (Sl 77,11). “Bem depressa caíram-lhes da memória as suas obras, e não atentaram para o cumprimento de seus desígnios” (Sl 105,14). “Esqueceram-se do Deus que os salvou e que, para salvá-los, realizou obras estupendas, grandes e terríveis” (Sl 105,22). “Tu abandonaste, diz o Senhor no Deuteronômio ao povo judeu, o Deus que te gerou, e te esqueceste de Deus, teu Criador” (Dt 32,18). E pela boca de Jeremias assim se queixa: “Tu quebraste o meu jugo, rompeste os meus laços de amor e, insolente, disseste: ‘Eu não obedecerei’. Eu mesma te plantei como videira escolhida; como, pois, te tornaste para mim uma videira estranha, que produz frutos de amargura?” (Jr 2,20-21).
Não há ingratidão mais manifesta que o esquecimento de Deus… Esquecer o próprio Criador, o Redentor, o Pai, o Amigo, a Providência, o Guia, o Benfeitor, o Sustento, a própria vida: quem jamais viu ou ouviu ingratidão mais negra, mais abominável que esta? Não pensar senão no mundo, em si mesmo, nos inimigos de Deus, e não se importar com outra coisa senão com eles, não é isso levar a ingratidão ao seu último grau? É renovar o ato infame pelo qual os judeus preferiram Barrabás a Jesus Cristo…
“O pecador, diz Davi, não conserva Deus presente diante de seus olhos; por isso, toda a sua obra é má” (Sl 9,25). O esquecimento de Deus gera a negligência; da negligência ou acídia espiritual, moral e física, nasce a concupiscência; da concupiscência brotam desordens e iniquidades de toda espécie… Quem se esquece de Deus entrega-se aos braços de toda paixão e delas faz ídolos… A Escritura diz dos dois anciãos indignos que atentaram contra a virtude de Susana: “Arderam em desejos impuros; perverteram o seu entendimento, desviaram os olhos para não ver o céu e não se lembrarem dos justos juízos” (Dn 13,8-9).
O esquecimento de Deus nos afasta de sua lei; a salvação está longe dos pecadores, porque não cuidaram dos mandamentos de Deus (Sl 118,150.155). A estes Deus pode repetir o que disse aos hebreus pela boca de Jeremias: “Vós esquecestes o Senhor, vosso Deus, para beber águas lamacentas, para saciar a vossa sede no rio da Babilônia” (Jr 2,17-18).
O demônio, o mundo, a concupiscência, as paixões, os vícios, enfim, toda espécie de excessos acompanha aquele que se esquece de Deus… Ele vai de erro em erro, de abismo em abismo, até que se detenha para sempre no fundo da voragem do inferno… Quem se esquece de Deus esquece o próximo, esquece a si mesmo; este é o oceano de todas as desordens, o mar em que se aglomeram inumeráveis e horrendos monstros de vícios (Sl 103,25).
O homem que se esquece de Deus descuida-se de trabalhar pela própria salvação; antes, coloca-a em grave risco, pois “esse Deus, escreve Santo Agostinho, que prometeu o perdão a quem se arrepende, não prometeu o dia de amanhã àquele que finge não ouvir a sua voz (2)”. Deus faz esta ameaça pela boca de Isaías: “Vós que esquecestes o Senhor e o seu santo monte, sereis contados e passados ao fio da espada; porque eu vos chamei e não respondestes, falei e não ouvistes. Por isso, padecereis fome, sede e vergonha, gritareis por causa da angústia do coração, gemereis por causa da aflição” (Is 65,13-14).
“Eu esquecerei aqueles que se esquecem de mim”, diz Deus pela boca de Oseias (Os 1,6). Eis o maior castigo infligido aos pecadores; eis o sinal de sua impenitência e reprovação. Deus esquece o pecador, e com toda a razão, porque ele se esqueceu de Deus: é a pena de talião. Quem não se lembra de Deus merece que Deus não se lembre dele. Quereis que Deus se lembre continuamente de vós? Não vos esqueçais dele; conservai-o sempre presente aos olhos do espírito e do coração…
Repleto de favores e privilégios, feliz, rico e honrado, o povo judeu perde, por ter-se esquecido de Deus, toda esta glória, toda esta honra, todos os seus privilégios e, com eles, a pátria; vê realizar-se a palavra de Jeremias: “Todos aqueles, ó Senhor, que vos abandonam serão cobertos de vergonha; o nome daqueles que de vós se afastam será escrito na poeira, porque se afastaram da fonte das águas vivas, que sois vós, ó Senhor” (Jr 17,13).
A morte daquele que se esquece de Deus é semelhante à sua vida. Como castigo por aqueles anos que passou esquecido de Deus, este o esquecerá na última hora; ele mesmo não se preocupará com o destino que o ameaça… “É justo, diz Santo Agostinho, que aquele que viveu no esquecimento de Deus morra no esquecimento de si mesmo (3).
“Eu te acusarei, diz Deus ao pecador por meio do Salmista, e te porei diante da tua face. Compreendei bem isto, vós que vos esqueceis de Deus, para que um dia Ele não vos arrebate e não se encontre quem vos liberte” (Sl 49,21-22).
“Senhor, dizia o Salmista, senti-me consumido de zelo porque os meus inimigos se esqueceram de vossas palavras” (Sl 118,39).
“Sabe e vê quão funesto e amargo é ter abandonado o teu Senhor Deus”, exclama Jeremias (Jr 2,19). Ter-se esquecido de Deus, o Ser por excelência, a fonte de todos os bens e a grandeza em pessoa, oh! que cegueira, que desgraça, que motivo de pranto e de remorso! Ter-se apegado ao nada! … Ah! quantos motivos para arrepender-se e deplorar um passado pecaminoso! …