A cegueira espiritual não é outra coisa senão certa estupidez ou, diremos, embrutecimento do espírito, que impede de perceber e saborear as coisas divinas. A cegueira espiritual é própria do intelecto; o endurecimento, da vontade: um e outro são pecado, castigo do pecado e princípio de pecado. «A cegueira espiritual, que somente Deus pode curar, porque somente Ele é a verdadeira luz, é um pecado, escreve Santo Agostinho, pelo qual se deixa de crer em Deus; é castigo do pecado, porque pune o coração soberbo, atraindo contra ele a justa indignação e o ódio de Deus; é causa de pecado, quando o coração, enganado pela paixão, chega a cometer alguma coisa má». Assim, os judeus, cegados pelo erro e pelo endurecimento do coração, perseguiram Jesus Cristo e o levaram à morte.
Quem é cego de espírito faz de sua paixão um deus, nela colocando o seu fim último… Miserável! Ele não tem fé…
A cegueira espiritual é o princípio de inumeráveis culpas; ora, não se deve chamar delito, um mal gravíssimo em si mesmo, àquilo que dá origem a muitos pecados, frequentemente graves? Essa cegueira provém da vontade endurecida no mal e traz consigo, como consequência, o não ver, nem sentir, nem temer mais nada; já não se pratica a virtude, mas se cai na indiferença, na incredulidade, na impiedade… «Assim como o cego corporal, diz Santo Agostinho, não vê a luz do sol, embora ela o envolva com seus luminosos raios, assim o cego espiritual não compreende a luz de Deus».
O estulto não conhece as obras maravilhosas do Criador, canta o Salmista, e o insensato não as compreende (Sl 91, 6). Mas quem não chamará de delito enorme essa loucura voluntária?
Jesus Cristo, o Evangelho, a Igreja, os dogmas, a moral, os Sacramentos, a graça, a santidade, as últimas coisas não passam de trevas para o cego de espírito; ora, ninguém ousará isentar de culpa aquele que não vê nem compreende tais fatos e verdades, tão necessários à salvação e cuja existência repousa em demonstrações inegáveis.
Para os cegos espirituais, as coisas da Religião são como caracteres de um livro selado, diz Isaías (Is 29, 11).
A cegueira do espírito provém da vontade, e é isso que a torna mais culpável. Não querem compreender, diz o Profeta, referindo-se particularmente a essa espécie de cegos, por temor de ter de fazer o bem (Sl 35, 3).
O esplendor das obras de Jesus Cristo, observa São Cirilo, era tal que não deixava lugar para dúvida em quem não estivesse corrompido de mente; mas, como a maior parte dos judeus se encontrava em tal condição, por isso não queria ver.
Quando Jesus chegou à vista de Jerusalém, observa São Lucas que chorou sobre ela, exclamando: “Ah! Se ao menos neste momento conhecesses aquilo que te pode trazer a paz! Mas, ai de ti! Agora os teus olhos estão fechados para tudo, porque não quiseste conhecer, enquanto era tempo, a graça da minha visita” (Lc 19, 42-44). Como se quisesse dizer: Ó filha de Sião, por mim tão amada, honrada, enriquecida, instruída, como é que não me conheces? Por que motivo me rejeitas, me persegues e te preparas para condenar-me à morte, para crucificar-me? Por teu amor e proveito desci do Céu e me encarnei; por ti passei os meus dias em contínas tribulações, na pobreza, na dor; visitei-te e instruí-te; curei os teus leprosos, sarei os teus enfermos, libertei os teus possessos, ressuscitei os teus mortos; e tu, em retribuição, foges de mim, desprezas-me, calcas-me aos pés, odeias-me. Mas nem sequer isto conheces e vês, porque não quiseste acolher-me nem crer em mim. A encarnação, a pregação, a paixão e a ressurreição de Jesus Cristo foram, portanto, ocultas aos judeus endurecidos; esse povo deicida nem sequer conheceu a sua própria perfídia, assim como não percebeu o seu próprio cegamento e a sua ingratidão. Mas uma estrondosa vingança se derramou sobre Jerusalém, tomada e destruída por Tito.
“Encontrei numa de vossas praças”, pregava São Paulo aos atenienses, “um altar dedicado ao Deus desconhecido” (At 17, 23); sobre estas palavras diz Tertuliano: “Eis o supremo delito daqueles que não querem reconhecer Aquele que, contudo, não podem ignorar”.
“E onde estamos nós?”, exclama São Pedro Crisólogo. “Que estupidez é esta que nos faz esquecer? Que sono é este que nos oprime? Que esquecimento mortal é este que nos acorrenta? Por que não trocar a terra pelo Céu? Por que não comprar os bens imperecíveis ao preço dos bens caducos? Por que não enriquecermo-nos, por meio das riquezas temporais, dos tesouros eternos?”
Ouvi como Deus se queixa pela boca do Profeta: “E até quando, ó filhos dos homens, tereis o coração endurecido? Por que amais a vaidade e correis atrás da mentira?” (Sl 4, 2). “Ah! O meu povo não ouviu a minha voz, Israel não me deu atenção” (Sl 80, 10), “antes, rejeitou, desprezou e afastou de si o Cristo” (Sl 88, 37) — “e disse: O Senhor não verá, o Deus de Jacó não saberá de nada… Entendei isto, ó mais insensatos do povo; e vós, insensatos, aprendei de uma vez. Aquele que plantou a orelha, não ouvirá? E aquele que formou o olho, ficará sem visão? Não há de condenar-vos aquele que castiga as nações, que ensina ao homem a ciência?”
Está escrito no primeiro livro dos Reis que os ímpios se calarão nas trevas (2, 9); calar-se-ão porque não terão desculpa por serem cegos. E cego é, diz São Gregório, aquele que quer ignorar a luz da contemplação celeste; submerso nas trevas da vida presente e jamais volvendo o olhar, com amoroso desejo, para a verdadeira luz, não sabe para que fim dirigir as suas ações (7). “Vai”, ordenou o Senhor a Isaías, “e dirás a este povo: Ouvi, vós que tendes ouvidos, mas não queirais compreender; e vede, mas não queirais entender” (Is 6, 9); isto é, vereis e ouvireis, mas não querereis nem compreender nem conhecer… porque o coração deste povo está cego, os seus ouvidos estão tapados, as suas pálpebras estão coladas, pelo temor que tem de ver com os próprios olhos, de ouvir com os próprios ouvidos a verdade, de compreender, converter-se e ser curado (Is 6, 10).
Duas coisas constituem o cegamento espiritual: 1° Um apego perverso à própria vontade, que impede de receber a verdadeira luz, com a qual Deus propõe, explica e prova suficientemente, seja por si mesmo, seja por meio dos Profetas, dos Apóstolos ou da Igreja docente, as verdades necessárias à salvação. Então imita-se aquele que fecha muito bem e tapa toda fresta da janela, para que nenhum raio de sol penetre em seu quarto. 2° A falta da luz divina, falta provocada pela vontade perversa e da qual resulta a incapacidade moral de conhecer a verdade. Um exemplo eloquente nos oferecem os judeus, os quais, vendo Jesus operar tantos milagres, deviam concluir que Ele era o Messias e estavam, portanto, obrigados a crer nele; mas recusaram-se a isso e, desse modo, cegaram-se; a causa de tal recusa era a avareza, a ambição, a inveja, o orgulho etc., que Jesus lhes censurava. E, se Isaías diz: “Cegai, Senhor, o coração deste povo” (6, 10), estas palavras significam: Permiti que ele seja cegado; pois, falando propriamente, é o homem que se cega e se endurece por si mesmo, segundo se exprime em termos precisos a Sabedoria: “A sua malícia os cegou” (Sb 2, 21). A causa positiva do cegamento espiritual é, portanto, a malícia daquele que está sujeito a esse castigo. Deus, porém, não cega senão indiretamente, retirando pouco a pouco dos ímpios a luz da verdade e da graça e permitindo, em punição de seus pecados, que as ocasiões os arrastem ao erro e ao cegamento; e cumpre-se neles o que diz Jeremias: “Para estes o sol já se pôs em pleno meio-dia” (Jr 15, 9).
Todos os cegos de espírito, escreve São Cipriano (Epist.), são, como os judeus, privados de inteligência e de sabedoria; indignos da vida da graça, têm-na diante dos olhos e não a veem.
“Deixando-se ver por aqueles que nele creem”, acrescenta São Leão, “Jesus se esconde daqueles que o perseguem com os pecados. E eles são atingidos pela cegueira espiritual, para que não compreendam a gravidade de seus crimes nem se disponham a arrepender-se deles (8)”.
Quereis ver até onde chega este voluntário cegamento do espírito? Observai, diz Santo Agostinho (Homil. in Evang.), a conduta dos judeus diante de Lázaro ressuscitado: não podendo ocultar nem pôr em dúvida o fato, o que inventam? Nada menos que matá-lo. Ó pensamento insensato, ó crueldade irrefletida!
Não vemos nós todos os dias cegos espirituais que voluntariamente fogem da luz? Oxalá Deus não permitisse que fosse tantas vezes assim! Pois tais são os que evitam as igrejas, as funções sagradas, o ensinamento da palavra de Deus; tais são aqueles jovens que se recusam a acolher os bons conselhos de um pai, de uma mãe, de um amigo, de um pastor; tais são aqueles que se afastam da confissão, que temerariamente se expõem às ocasiões próximas de pecado; tais são aqueles pais fracos e negligentes que ou nunca, ou raramente e com pouca firmeza, corrigem os seus filhos etc.
1° O pecador não vê perfeitamente a malícia do pecado, porque, se o visse tão disforme, tão cruel etc., jamais teria ânimo de entregar-se a ele. O pecado o engana, cegando-o. 2° Ele não compreende o que faz ao pecar, visto que age contra as luzes de sua inteligência.
“Outrora não éreis senão trevas”, isto é, pecadores, escrevia São Paulo aos Efésios (Ef 5,8). Observai que o Apóstolo chama trevas aos pecados: 1° porque os pecadores não veem de bom grado a luz, mas desejam as trevas, porque o pecado é o que há de mais vergonhoso, vil e degradante; 2° porque os pecados cegam a razão… O pecado tem sempre sua origem ou no erro, ou na imprudência, ou na falta de exame, ou na inadvertência da razão e do intelecto; quando, porém, é cometido, entorpece, cega, falsifica a consciência; e, com isso, adensam-se cada vez mais as trevas em meio às quais o pecador avançou, segundo a sentença de São Gregório (9), “que nos pecados há densa escuridão, e que aquele que os comete é arrastado ao fundo de densas trevas”. “Não pequeis”, escreve Santo Agostinho (10), “e Deus, que é o verdadeiro sol, não cessará de resplandecer aos vossos olhos; se, ao contrário, caís em culpa, Deus se porá ao vosso olhar. Se vos agrada gozar da luz, sede vós mesmos puros e esplêndidos como a luz; mas, se vos agradam as trevas e as paixões tenebrosas, tende por certo que por elas sereis não apenas obscurecidos, mas cegados”. Os pecados recebem o nome de trevas porque têm toda a semelhança com elas; com efeito: 1° As trevas são a privação da luz, e os pecados, a privação da graça, que é para nossa alma e nosso coração aquilo que o sol é para a terra. 2° Aquele que caminha entre as trevas nada vê e muitas vezes põe o pé em falso e cai; assim também, pela estrada da salvação, os que pecam nada veem, caem e se maculam. 3° As aves noturnas fogem da luz porque ela as ofusca; os pecadores temem a luz de Deus e dos homens, segundo as palavras de Jesus Cristo: “Quem pratica o mal odeia a luz”, “para que suas ações não sejam repreendidas, corrigidas e castigadas” (Jo 3,20). 4° Os pecados também são chamados trevas, por serem obras do Demônio, príncipe das trevas. 5° Porque a maioria dos pecados é cometida nas trevas. 6° Porque nascem das trevas, isto é, de um erro prático, que leva o pecador a crer que pode afagar sua paixão, por mais vil que ela seja e ainda que ao preço de perder a Deus, a alma e os bens eternos: o que é, sem dúvida, o cúmulo da cegueira, o excesso da loucura. 7° Porque o pecado mergulha cada vez mais o espírito nas trevas. 8° Porque o pecado mortal conduz às últimas e eternas trevas, que são as do Inferno.
A luz é coisa salutar, antes, necessária para a vida dos homens e de toda criatura, ao passo que nocivas e mortíferas são as trevas; assim também, a fé e a graça de Jesus Cristo são a fonte da salvação e proporcionam a vida eterna, enquanto os pecados enfraquecem a alma e lhe dão a morte.
“Andarão tateando como cegos, diz Sofonias, porque pecaram contra Deus” (Sf 1,17).
“O caminho que percorrem os ímpios é cheio de trevas, lemos nos Provérbios: eles não sabem nem quando nem onde cairão” (Pr 4,19).
“Jesus Cristo”, escreve São João, “era a luz verdadeira, que ilumina todo homem que vem a este mundo. Ele estava no mundo e o mundo foi feito por Ele, mas o mundo não O conheceu. Veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam” (Jo 1,9-11). E o próprio Jesus Cristo dizia também ao Pai: “Pai santo, o mundo não Vos conheceu” (Jo 17,25). “O mundo”, escreve São Bernardo (11), “também tem suas noites, e não breves nem poucas. Mas que digo? O mundo tem suas noites! Quando, ai de mim!, ele mesmo é uma noite contínua e não vive senão nas mais densas trevas. E não é por acaso noite escuríssima a perfídia dos judeus; noite, a ignorância dos pagãos; noite, a depravação dos hereges; noite, a vida animalesca e sensual dos católicos? Não é o reino das trevas aquele onde não se compreendem as coisas divinas?”.
Lemos na Escritura que as trevas cobriam a superfície do abismo (Gn 1,2). Ora, o mundo é a superfície dos abismos infernais: está envolto na lúgubre fumaça que se desprende copiosamente das chamas eternas. “As trevas envolverão o mundo, uma noite tenebrosa cairá sobre os povos”, podemos dizer com Isaías (Is 60,2).
Está escrito que, por ocasião da morte de Jesus, “densas trevas se espalharam por toda a terra” (Mt 27,45). Para os pecadores, essas trevas ainda não desapareceram: as máximas do mundo, sua moral corrompida, seus escândalos e sua incredulidade provam que ele está sepultado nas mais horrendas e perigosas trevas. Por isso, o real Profeta o chama “terra do esquecimento” (Sl 87,13).
A primeira causa da cegueira espiritual são as paixões: “O teu olho”, diz Jesus Cristo, “é a luz do teu corpo” (Mt 6,22). Aquilo que o olho é para o corpo, é a inteligência para a alma; mas a alma que caiu sob o jugo das paixões já não tem inteligência: está embrutecida… “Àquele sobre quem desce o fogo da concupiscência”, diz São Gregório (12), “é tirada a visão do sol da inteligência”; ele pode repetir com toda a razão, juntamente com o Salmista, que suas paixões o precipitaram numa cova profunda e tenebrosa, onde reina o horror da morte (Sl 87,6).
A segunda causa da cegueira espiritual está nas riquezas. E que a abundância dos bens materiais cegue a alma, reconheceram-no até mesmo os poetas pagãos, que faziam de Plutão, o deus de Mamona, um cego de nascença…
A terceira procede da tibieza, da acídia espiritual…
A quarta é a corrupção do coração. “O insensato disse em seu coração: Não há Deus” (Sl 13,1); e “os que são corruptos não veem a luz” (Jó 3,16). Quanto mais se cai e se dorme na culpa, tanto mais se afasta de Deus, luz incriada e única origem de toda claridade.
Outras causas da cegueira espiritual podem ser a imprevidência…, a imprudência…, o orgulho…, mas principalmente o Demônio.
“O Deus deste século, escrevia São Paulo aos Coríntios, cegou as mentes dos infiéis” (2Cor 4,4). Ora, o deus deste século é o Demônio, que é o deus daqueles que vivem segundo o gosto do século; não que ele os tenha criado, mas porque, com suas funestas sugestões e por meio de maus exemplos, os conduz, e porque exerce soberanamente o império sobre eles. Ele é o pai da mentira, da soberba e do erro. Começou cegando Adão e Eva; depois, no decorrer dos séculos, jamais cessou de cegar, tanto quanto lhe foi possível, os indivíduos e as nações. Todos aqueles que obedecem a Satanás, que a ele se dedicam, agem impelidos pela mais lastimável cegueira, porque do Demônio não se pode esperar outra coisa senão desgraças, nesta vida e sobretudo na outra. Não é uma cegueira que beira a loucura, que chega ao frenesi, lançar-se à mercê de um inimigo cruel e implacável, daquele que foi homicida desde o princípio? Expor-se às presas de um leão furioso, de um lobo raivoso? Pois bem, o Demônio é tudo isso.
Considerai a quantidade dos cegos espirituais, a multidão daqueles que fazem a vontade do Diabo, que são suas vítimas…
1° A cegueira espiritual mata a fé…
2° Torna o homem estúpido: pois o cego de espírito já não saboreia coisa alguma das coisas de Deus. Não se dá ao trabalho de saber de onde vem, onde se encontra, para onde vai…
3° Afasta a sabedoria: tendo o Senhor declarado, pela boca de Isaías, que tiraria a sabedoria dos sábios e lhes subtrairia a inteligência (Is 29,14).
4° Torna-os tão indóceis que já não obedecem sequer à verdade; e é precisamente isso que São Paulo reprova nos Gálatas, quando lhes diz: “Ó gálatas insensatos, quem vos enfeitiçou, para que já não obedeçais à verdade?” (Gl 3,1).
5° Destrói a vida divina, segundo estas palavras do Apóstolo aos Efésios: “Têm o entendimento obscurecido, estão alheios à vida segundo Deus… por causa da cegueira do coração” (Ef 4,18). “Se dissermos que estamos unidos a Deus e, entretanto, caminharmos nas trevas, mentimos”, escreve o Apóstolo São João (1Jo 1,6); pois, acrescenta São Paulo, “que comunhão pode haver entre a luz e as trevas?” (2Cor 6,14).
6° Fomenta todas as tentações; e a este respeito se referem as palavras do Salmista: “Trouxestes convosco as trevas, e eis que se fez noite profunda; e, sob seu abrigo, as feras do deserto correrão em busca da presa” (Sl 103,20). Os ladrões procuram a escuridão; o Demônio, que despoja de toda virtude, anda continuamente à procura dos cegos espirituais e lhes tira tudo quanto podem possuir.
7° Os cegos de espírito precipitam-se de abismo em abismo; avançam de delito em delito; afundam-se no mal e mergulham em toda espécie de torpezas, até perecerem sufocados. Como cadáveres no sepulcro, acabam na putrefação.
8° A cegueira espiritual finalmente termina no endurecimento.
Como o cego espiritual não conhece o seu estado, não procura sair dele: julga não ter necessidade de coisa alguma e não percebe que é pobre, miserável e nu.
Em meio à sua grandeza, diz o Salmista, o homem não compreendeu o seu destino: igualou-se aos animais irracionais, e o caminho que segue o conduz à cegueira (Sl 48,13-14). E dele se pode repetir, com o mesmo rei Profeta, “que vagueia pelo deserto do vício e não encontra o caminho para a cidade das virtudes” (Sl 106,4); semelhante àqueles simulacros que têm boca, mas não falam; olhos, mas não veem; ouvidos, mas não ouvem; narinas, mas não cheiram; mãos, mas não tocam; pés, mas não se movem; garganta, mas não emite som (Sl 113,13-16).
Considerai, escrevia São Paulino a Severo, a conduta dos cegos espirituais, e vós os comparareis a um jumento cego, que gira continuamente, movendo uma mó. Depois de se haverem consumido de fadiga todos os dias, chegarão à morte sem ter dado um passo em direção ao Céu (Epi. IV).
Ó cegos filhos de Adão! Por que preferis as coisas caducas às imperecíveis, o exílio à pátria, a terra ao Céu, a criatura ao Criador, o vício à virtude, um estrangeiro a Jesus Cristo, o Demônio a Deus, o tempo à eternidade, a morte à vida? Por que vos arriscais, por um prazer vil e breve, às angústias, às dores, a uma morte desgraçada e ao fogo do Inferno?
1° O obscurecimento espiritual provoca a cólera de Deus. “Escureçam-se os olhos deles, assim impreca o Salmista, para que não vejam, e mantenham sempre curvadas as costas sob o peso da escravidão. Derramai sobre eles, ó Senhor, a vossa ira, e o furor da vossa cólera os alcance” (Sl 68, 24-25).
2° Deus abandona o cego espiritual, segundo a ameaça já feita pelo Senhor por boca de Davi: “Meu povo não ouviu a minha voz, Israel não prestou ouvido às minhas palavras, e eu o abandonei aos desejos de seu coração; por isso caminhará segundo os seus vãos conselhos” (Sl 80). “Sim, retirar-me-ei dele, ocultar-lhe-ei a minha face, e ele cairá presa de toda espécie de males; será alvo de todas as aflições” (Dt 31, 17). “Desviei dele o meu olhar, disse ainda Deus por Isaías, e ele andou às apalpadelas pelo caminho de seus desejos” (Is 57, 17).
3° O cego espiritual castiga-se a si mesmo, cumprindo-se nele o que São Paulo disse ao mago Élimas: “Eis que a mão do Senhor cai sobre ti, e ficarás cego, sem sequer ver mais o sol” (At 13, 11). O cego de espírito recusa-se a ver; pois bem, a mão de Deus pesa sobre ele, e o obscurecimento se torna sua pena, seu mais terrível castigo. E, o que é mais, essa pena é um mal não temperado por nenhum bem, por menor que seja: ele sofre, mas sem mérito; os sofrimentos que experimenta, e que são eles mesmos um castigo espantoso, tornam-se delito, de modo que ele se vê punido não somente por ter fechado os olhos à luz, mas ainda pelo que padece, padecendo-o apenas porque o quis.
4° O Céu está fechado para sempre ao cego espiritual: “Não quiseram conhecer os meus caminhos, diz o Senhor pela boca do Salmista, e eu jurei na minha indignação que jamais entrarão no lugar do meu repouso” (Sl 94, 11).
Conta-se no Gênesis que os Anjos feriram de cegueira os infames habitantes de Sodoma, de tal modo que já não puderam encontrar a porta da casa de Ló (Gn 19, 11). Este é precisamente o castigo que Deus inflige aos cegos espirituais: já não encontram o caminho nem a porta do Céu…
5° O cego espiritual desce ao Inferno e, das trevas da cegueira, precipita-se nas da eternidade infernal (Mt 8, 12). “Entregando-se aos prazeres culpáveis desta vida, que outra coisa faz a alma pecadora, diz São Gregório, senão lançar-se de olhos fechados no fogo eterno? (13)”.
Ouvi o que vos anuncia a Sabedoria: “Os ímpios, os cegos de espírito, andarão vergonhosamente pela terra, e entre os mortos estarão em eterna ignomínia; porque Deus os tornará mudos, os arrancará e os abalará desde os fundamentos, e os reduzirá à extrema desolação; e eles estarão em gemidos, e sua memória se dissipará como fumaça. Entrarão todos, tomados de espanto, no pensamento de seus pecados, e suas iniquidades, levantando-se contra eles, os convencerão” (Sb 4, 13-20). “Então os justos se levantarão com grande firmeza contra aqueles que os oprimiram e saquearam os frutos de seus trabalhos. À vista disso, os ímpios serão tomados de horrendo espanto; ficarão estupefatos diante da salvação inesperada e repentina daqueles e, tocados pelo remorso e gemendo angustiosamente, dirão dentro de si: Estes são aqueles que outrora tivemos como objeto de escárnio e exemplo de opróbrio! Nós, insensatos! Consideramos a vida deles uma loucura e julgamos desonrado o seu fim; e eis que eles são contados entre os filhos de Deus e têm parte com os Santos. Nós, portanto, perdemos o caminho da verdade, e para nós não brilhou a luz da justiça, nem para nós se levantou o sol da inteligência. Cansamo-nos no caminho da iniquidade e da perdição, percorremos estradas desastrosas e não conhecemos o caminho do Senhor” (Sb 5, 1-7). Dessas palavras se depreende que um tríplice erro e uma tríplice loucura são censurados aos cegos espirituais. 1° Terem andado errantes fora do caminho da verdade. 2° Terem agido de modo que a luz da justiça, isto é, da razão e da prudência, não brilhasse para eles, tendo-a voluntariamente desprezado e preferido as trevas. 3° Terem merecido que o sol, isto é, Deus, e Jesus Cristo, que ilumina todo homem que vem ao mundo, não se levantasse para eles, porque se recusaram a abrir-Lhe o coração. “Esta é verdadeira loucura, escrevia São Cipriano: não reconhecer que as paixões enganadoras não enganam por muito tempo. A noite dura enquanto não aparece no horizonte o astro do dia; mas, uma vez que ele se levante, é necessário que as trevas se dissipem e cessem os roubos que, favorecidos por elas, eram cometidos (14)”.
Ó cegos de espírito! Virá o dia em que vos arrependereis, mas tarde e sem proveito. Abri os olhos e compreendei enquanto vos é dado fazê-lo; trabalhai enquanto brilha o dia; aceitai a graça quando vos é oferecida, por temor de que, imitando as virgens insensatas, também tenhais de participar de sua miserável sorte e, tendo deixado apagar-se, como elas, a luz de vossa inteligência, a procureis depois entre lágrimas e não chegueis a encontrá-la. Ah! Temei que, excluídos das núpcias celestes, não vos ouçais dirigir pelo soberano juiz, Jesus Cristo, aquelas tremendas palavras: “Eu vos asseguro que não vos conheço” (Mt 30, 12).
Para curar-se da cegueira espiritual é preciso:
1° Viver da verdade…, da imortalidade…, da eternidade…
2° Rezar. «Meu Deus, clamava o Salmista, dissipai as trevas que me obscurecem o entendimento…, iluminai com o vosso clarão os meus olhos, para que não me oprima o sono da morte e o meu adversário não possa algum dia dizer: Eis que o venci» (Sl 17, 28; 12, 4-5).
3° Aproximar-nos de Deus e manter-nos junto dele, porque ele nos iluminará, segundo a palavra de Davi (Sl 33, 5).
4° Abrir os ouvidos e os olhos para a fé (Is 42, 18).
5° Sacudir a preguiça espiritual, levantar-nos da acídia. «Levanta-te, Jerusalém, clamava Isaías, e sê iluminada, porque a tua luz despontou e a glória do Senhor veio sobre ti» (Is 60, 1).
6° Não tardar em pôr-se ao trabalho, aproveitando a advertência do Salvador: «Caminhai enquanto tendes a luz e apressai-vos, para que a noite não vos surpreenda» (Jo 12, 35).
7° Ir a Jesus, que é o caminho, a verdade e a vida; e quem o segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida (Jo 14, 6).