Tesouro n.º 94 · Volume II

EMPREGO DO TEMPO IMPIEGO DEL TEMPO

11 seções · 72 parágrafos · pp. 1100–1122 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. BREVIDADE DO TEMPO

O tempo é uma sombra, um vapor, uma vaidade, um nada… Esta é a resposta que dá São Tiago a quem pergunta o que é a vida do homem no tempo (Tg 4, 15).

O tempo é um palco de teatro, no qual se representam as fábulas deste mundo; o lugar do teatro é a terra, e os homens são os atores que entram e saem, à medida que uma geração chega e a outra parte (Ecl. 1, 4).

Duas portas dão acesso a este palco: a porta do nascimento e a porta da morte. Cada homem desempenha o papel de uma personagem: quem representa o rei logo se despe da púrpura, assim como quem representa o mendigo se despoja de seus farrapos. Esta comédia termina em breve; queira Deus que não se transforme, para muitos, numa espantosa tragédia! … Onde está hoje Salomão, tão sábio, Sansão, tão forte, Cícero, tão eloquente, Aristóteles, tão inteligente, Alexandre, tão grande conquistador, César Augusto, tão poderoso monarca? Onde estão hoje todos aqueles homens que a sociedade contemplava como oráculos, aquelas numerosas hostes sob cujos pés palpitava a terra, aquela multidão de príncipes, nobres, cavaleiros e titulados de que se orgulhavam os reinos, aquelas companhias de amigos que eram a alegria das cidades? Castelos, palácios, vilas, propriedades, ouro, prata, por quantos senhores já passastes e por quantos outros ainda passareis? Num piscar de olhos, toda grandeza, todo poder, toda riqueza desapareceu. Ó gota de orvalho! Ó vaidade! Ó nada!

O tempo é o jogo da fortuna, a despojada do homem, a imagem da inconstância, o exemplo da fraqueza, a morada das calamidades e da inveja. Nenhuma firmeza, nenhuma consistência, movimento perpétuo, contínua instabilidade: eis o tempo; ele também é figurado naquelas bolhas de sabão que os meninos fazem por divertimento e que desaparecem assim que ganham altura. O tempo é uma ficção, um sonho que termina quando se abrem as portas da eternidade. O tempo é, a princípio, um túmulo; depois, uma flor; e, por fim, novamente um túmulo.

O tempo é comparado pelo Salmista ora a um turbilhão, ora a uma palha exposta ao sopro dos ventos (Sl 82,12); ora a um incêndio que se ateia numa floresta, ora a uma chama que envolve os montes (Ib. 13); e o homem, diz o mesmo profeta, passa sobre a terra como um fantasma e em vão se inquieta. Acumula tesouros e não sabe para quem os amontoa (Sl 38, 6). Com toda razão exclama o Eclesiastes: «Vaidade das vaidades, tudo é vaidade» (1, 2), e o Crisóstomo afirma que «tudo no tempo é sombra e sonho (1)».

«O tempo, escreve São Gregório Nazianzeno, é um mar de misérias e sofrimentos. As riquezas são ciladas, as grandezas, sonhos; a juventude é uma florzinha de um dia; a velhice, um amontoado de achaques; toda a vida, pobreza, lamentos, lágrimas, desditas, preocupações, aborrecimentos, desgostos contínuos, aflições sem número, sacrifícios de toda espécie. As palavras voam, a glória se desvanece, a nobreza é um sangue antigo, a força, um dote que temos em comum com o javali. O matrimônio, uma cadeia; a sociedade, um mar em tempestade. O tempo é como uma mãe cercada de muitos filhos, que são os cuidados, as perdas, os vícios, as fraquezas, as doenças, as fadigas, os suores, o trabalho; tudo é penoso no tempo, tanto o riso como o pranto, tanto a esperança como o temor; tudo é inércia, sombra, vento, vapor, insônia, sonho, onda, passagem, vestígio, poeira que cega o universo, ergue-se em turbilhão e desaparece» (Orat. de cura paup.).

O tempo é uma nuvem que assume mil formas e num instante desaparece; é uma nuvem escura, grávida de relâmpagos, trovões e tempestade… O tempo é um nada; não tem forma nem consistência; toda a sua essência está em escoar-se, isto é, em perecer continuamente. «Que é a vida do tempo? — pergunta Bossuet. — O sono é semelhante à morte; a infância é a vida de um ser privado de razão. Quantos dias eu gostaria de apagar da adolescência, e quantos outros da idade mais madura? Ora, o que me restará ainda, se tudo aquilo que dela retirei não pertence à vida?» (Brièveté de la vie). Contarei por acaso o tempo em que desfrutei alguma alegria? Mas onde encontrá-lo? Se retiro o sono, as doenças, as inquietações e coisas semelhantes, que me resta ainda da vida? Depois, esses deleites, essas alegrias, eu os saboreei de uma só vez, todos juntos, ou antes em pequenos goles? E, se não todos ao mesmo tempo, acaso os desfrutei ao menos continuamente? Conquistei-os sem incômodos? E agora, que me resta dos prazeres lícitos? Uma lembrança inútil; e dos ilícitos? Um remorso, uma dívida a expiar, ou no inferno, ou pela penitência.

O tempo é comparado na Sagrada Escritura: 1° a uma balança que sobe e desce…; 2° a uma gota de orvalho ao nascer do sol…; 3° à fumaça; 4° à sombra…; 5° a uma flor que prontamente murcha…; 6° a um grão de poeira…; 7° a uma teia de aranha…; 8° a um fantasma…; 9° ao vento…; 10° a uma torrente avolumada pelas águas das chuvas, que em pouco tempo seca…; 11° a um corredor veloz, a um navio que fende a água, a uma ave que voa pelo ar, a uma flecha lançada no espaço…; 12° ao nada… .

Como é que nós nos deixamos sempre enfeitiçar pelo tempo? «Em vão, diz Santo Agostinho, nos mostramos apaixonados por ele. Esse senhor infiel grita-nos a cada instante, a ponto de ensurdecer-nos os ouvidos: Eu sou imundo e repugnante; e vós o acariciais com entusiasmo. Ele grita: Eu sou rústico e cruel; e vós o abraçais. Ele grita: Sou instável; e vós vos apegais somente a ele. Ele é franco, pois confessa candidamente que permanecerá convosco por pouco tempo e que muito em breve vos faltará, como um falso amigo, no meio de vossos empreendimentos; e vós confiais nele como se permanecesse seguro e fiel àquele que nele deposita confiança? Desiludi-vos, ó mortais; vós que tanto vos esforçais para morrer mais tarde, ah! fazei também alguma coisa para não morrer jamais (2)».

Se alguém subtrair de seus dias a infância e o sono, nos quais o homem não tem consciência de si mesmo, as doenças, nas quais não se vive, o tempo mal empregado ou perdido, o que lhe resta ainda da vida? E, se o tempo, comparado com o tempo, se reduz a um nada, que será quando comparado com a eternidade, que não tem termo nem medida? Consideremos, pois, como um nada tudo aquilo que termina, pois, ainda que multiplicássemos os anos além de todos os números conhecidos, não poderíamos negar que o tempo é um nada para nós, que estamos no termo fatal… Mas, se o tempo é um nada, por que não nos desapegarmos dele, para nos afeiçoarmos de toda a alma somente a Deus, que é eterno?

2. FUGACIDADE DO TEMPO

Diz São Gregório Nazianzeno: «A vida do homem é a passagem de um túmulo a outro túmulo (3)», isto é, do seio da mãe individual para o seio da mãe comum. «O tempo, acrescenta Santo Agostinho, nada mais é que uma corrida contínua rumo à morte. Todos os dias, a cada instante, morremos, pois não passa minuto sem que nos seja retirada uma parcela da vida; mesmo enquanto crescemos, encurta-se o tempo de nosso viver; partilhamos com a morte o próprio momento em que vivemos. Assim que entramos na vida, já caminhamos para a morte e começamos a sair da vida (4)». Santo Ambrósio, depois de dizer que tudo passa como num instante e que muitas vezes a glória do século se desvanece antes mesmo de se ter mostrado, conclui com esta observação: «Mas que pode haver de firme e estável no século, quando os próprios séculos não são firmes nem estáveis, mas continuamente fugazes e inconsistentes? (5)». Eis por que o grande Apóstolo chama este mundo de imagem, fantasma que passa, e não realidade nem substância duradoura (1Cor 7, 31).

«A vida daqui de baixo, escrevia São Gregório a André, é mais frívola que as fábulas, mais veloz que um corredor, mais instável que as ondas, sem força nos desígnios, sem constância nos propósitos, desfalece por fraqueza, nunca tem repouso das agitações, jamais cessa de trabalhar. Os navegantes, estejam de pé ou sentados, comam ou durmam, caminham sempre, impelidos pelos ventos. Tal é a nossa vida: quer durmamos, quer estejamos despertos, quer estejamos sentados, quer falemos, quer nos calemos, quer queiramos, quer não queiramos, todos os dias e a cada instante caminhamos para o nosso fim, continuamos a nossa viagem para o outro mundo (6)».

Santo Agostinho, comentando aquele versículo do Salmo 109, «Beberá da água da torrente ao passar», diz: «O correr das águas indica a mortalidade dos homens; pois, assim como uma torrente engrossada por chuvas repentinas e abundantes transborda e ruge, mas, em seu curso veloz, vai diminuindo se não recebe novas águas, e não para enquanto não deságua no mar, assim também o homem nasce, vive um instante e morre; e, com sua morte, cede o lugar a outro, que também morrerá em breve. No tempo, o que há de estável e que não se desgaste depressa?» (In Psalm. CIX).

A vida do homem é comparada por São Tiago ao vapor (4, 15), e, com efeito: 1° o vapor sobe, condensa-se por um instante e depois se dissipa; assim é a vida daqui de baixo. 2° O vapor é tênue, leve e quase invisível; assim é a vida. 3° O vapor é tão leve que o menor sopro de vento o impele; assim também é a vida. 4° O vapor é obscuro; nossa vida está cheia de ignorância, erro e imprudência. 5° O vapor se desfaz; o mesmo acontece com a vida. 6° O vapor retorna e cai novamente, transformado em chuva, sobre a terra de onde se elevou; não de outro modo acontece com a vida… 7° O vapor às vezes se transforma em miasma pestilento; oh! queira o céu que o mesmo não aconteça com a vida de tantos homens!

Vamos, pois, ó homens cegos, que haveis de morrer amanhã ou talvez ainda hoje, ide e apressai-vos a reunir tesouros, a construir casas, a embelezar vilas, a ampliar poderes, a obter títulos, a elevar a família; julgais ser eternos? Amanhã, sim, amanhã morrereis. A morte encerrará o último ato de vossa representação: honras, prazeres, riquezas, ambições, tudo acabará; a avareza já não encontrará lugar; as paixões estarão extintas para sempre. «O dia presente corre e não retorna, canta um poeta; se para nós despontará a aurora de amanhã e se ela será de fadiga ou de repouso, de aflição ou de alegria, quem o sabe? Não se conhece sequer um frêmito. Assim passa a glória do mundo (7)».

«O tempo foge, escreve Sêneca, e deixa decepcionado aquele que corre atrás dele. O futuro não me pertence, o passado já não está em meu poder, e permaneço suspenso ao momento presente, que, ao nomeá-lo, já não é meu. Passamos como as ondas de um rio; tudo o que vedes foge com o tempo; nada permanece imóvel e, enquanto falo em mudar alguma coisa, eis que eu mesmo já mudei (8)». «Mesmo enquanto dormimos, o tempo segue sua viagem (9)». A criança transforma-se em menino; o menino torna-se adolescente; o adolescente passa da juventude à idade adulta, e desta à velhice: aquilo que era ontem já não é hoje; aquilo que é hoje já não será o mesmo amanhã; nada dura no mesmo estado; a cada instante tudo muda como um sonho; de modo que com razão dizia o Sábio: «Mal nascemos, eis que deixamos de existir» (Sb 5, 13).

«Ó Deus, exclama o profeta, vós reduzis o homem a pó; dizeis: Filhos dos homens, reaparecei. Mil anos são, aos vossos olhos, como o dia de ontem que passou, como uma vigília da noite. A vida do homem é como uma torrente que corre, como um sonho que desaparece, como a erva que pela manhã floresce e à tarde jaz ceifada e seca no campo» (Sl 89, 6). «Meus dias se dissiparam como fumaça, e meus ossos secaram como madeira carcomida» (Sl 101, 4). «Meus anos desapareceram como uma sombra, e eu me sequei como feno» (Ib. 12).

«Meus dias, exclama Jó, correram mais velozes que um corredor, fugiram e não viram sequer sombra de bem; passaram como um navio que fende o oceano, como uma águia que se lança sobre a presa» (9, 25-26). «Lembrai-vos, ó Senhor, de que minha vida é um sopro» (7, 7). «O homem nascido de mulher vive pouquíssimo tempo e em meio a mil espécies de misérias; brota como uma flor do campo e é pisado; foge como uma sombra e não permanece um instante no mesmo estado. E sobre um ser tão miserável dignais-vos, ó Senhor, fixar o vosso olhar?» (Id. 14, 1-3). E na Sabedoria lemos também «que nossa vida passa como o rastro de uma nuvem; desaparece como a névoa aos raios do sol; que nossos anos são a passagem de uma sombra» (Sb 2, 3-5). Outras vezes, a Sagrada Escritura compara a vida do homem a uma flecha lançada com força, ao voo de um pássaro, ao raio, ao relâmpago.

As figuras, as comparações, os símbolos sob os quais as páginas sagradas nos representam o tempo são o que há de mais expressivo para denotar a brevidade, a velocidade e a instabilidade. E, com efeito, quanto dura a vida mais longa do homem? Dos setenta aos oitenta anos. O que ultrapassa esse limite já não é viver, mas morrer lentamente. Pouquíssimos chegam a essa idade; mas, de qualquer modo, que são oitenta, cem, ou mesmo mil anos, em comparação com a eternidade?

Ah! quando reconheceremos e confessaremos que o tempo é breve, que foge e voa? Quando pensaremos seriamente que os dias se sucedem impetuosamente, que as horas passam velozes e que, desse tempo tão breve e tão rápido, não temos sequer um instante seguro! Toda a nossa existência depende de um momento; eis o que me separa do nada: um vai embora e eu tomo ainda outro; eles se sucedem; eu os uno, esforçando-me por aproveitá-los, e não percebo que me arrastam insensivelmente consigo e que eu faltarei ao tempo, não o tempo a mim. Ó minha alma! é, pois, tão grande coisa a vida presente? E, se ela é coisa tão miserável porque passa, que serão então os prazeres que ocupam apenas alguns minutos da vida e desaparecem num instante? Vale, pois, a pena trabalhar e suar tanto para se elevar? Por tão pouco, vale a pena condenar-se?

A vida humana é comparada por Bossuet a uma estrada que termina num precipício; desde os primeiros passos somos advertidos disso, mas é lei impenetrável que devemos seguir adiante. Eu gostaria, em certo ponto, de voltar atrás; não me é permitido, e uma voz clama: Avante, avante. Um poder irresistível, um peso invencível nos arrasta; é forçoso avançar sempre para o abismo. Mil obstáculos, mil tropeços bloqueiam o caminho e nos cansam durante a marcha: ah! se ainda pudéssemos parar e evitar o precipício! Mas não; é preciso caminhar, ou melhor, correr, tamanha é a rapidez dos anos. Enquanto isso, algum alívio nos é oferecido de vez em quando ao longo do caminho: ora águas correntes e límpidas, ora verdes prados esmaltados de flores; ora um palácio, ora uma floresta nos proporciona agradável distração. Gostaríamos de parar; mas não: a voz clama: Avante, avante. E, nesse ínterim, ouve-se cair às nossas costas, com estrondo espantoso, tudo o que se havia visto ao passar! Uma gota de consolação às vezes nos oferece conforto, porque no caminho recolhemos alguma flor que murcha entre nossas mãos do amanhecer ao entardecer, porque colhemos algum fruto que se perde ao comê-lo: encantamento! Sempre arrastados, já nos aproximamos do horrendo abismo; tudo já começa a desaparecer; os jardins aparecem menos floridos, os prados menos alegres, as flores menos esplêndidas, as cores menos vivas, as águas menos límpidas, os campos menos jubilosos, tudo se turva, tudo se obscurece; a sombra da morte avança; já se começa a sentir a proximidade do redemoinho fatal. Mas é preciso chegar até a borda; o horror já revolta o sangue, perturba os sentidos, confunde a mente, apaga a visão; mas é preciso avançar. Bem gostaríamos de retirar dali o pé, mas tudo é inútil, já não há escapatória; tudo caiu, fugiu, desapareceu (Sur le motif de la joie).

O tempo é breve; se vós não vos desapegais do mundo, o mundo se desapega de vós. Nada mais resta, pois, a fazer senão aquilo que o Apóstolo sugere: que «o casado viva como se não tivesse mulher; quem chora, como se não chorasse; quem se alegra, como se não se alegrasse; quem compra, como se não possuísse; e quem se serve deste mundo, como se dele não usasse, porque a aparência deste mundo passa» (1Cor. 7, 29-31).

Por que vos obstinais em permanecer naquilo que passa? Julgais que um corpo seja uma realidade; nada é mais falso: é uma figura, uma sombra que passa e desaparece. Portanto, qualquer que seja a vossa condição, nunca vos detenhais. Tudo encontra sua dissolução na morte: as angústias cessam tanto quanto as alegrias; aquilo que julgais possuir escapa-vos das mãos; qualquer que seja o preço que vos custe, não podeis retê-lo; tudo vai embora, aquilo que veio.

3. O TEMPO NOS ENGANA

O tempo nos surpreende, porque chega como um ladrão durante as horas da noite, diz Jesus Cristo; por isso, é preciso estar sempre vigilantes. Deus dispôs de tal modo o curso do tempo que ele nos foge sem que o percebamos, nos despoja sem que disso nos demos conta, de maneira que a última hora sempre nos surpreende. É útil para nós lançar um olhar sobre essa ilusão enganadora do tempo e sobre o modo como ele zomba de nossa frágil imaginação.

O tempo, observa Santo Agostinho (In psalm. IX), é uma imagem desbotada da eternidade. Esta permanece sempre a mesma; ora, aquilo que o tempo não pode imitar quanto à sua estabilidade, procura imitá-lo pela sucessão. Enquanto nos rouba um instante, com sutilíssimo estratagema substitui-o por outro semelhante ao primeiro, de tal modo que nos impede de lamentar aquele que nos foi subtraído. Com esse jogo, o tempo zomba de nós e mantém oculta a sua rapidez. E talvez consista nisso aquela malícia do tempo, da qual nos adverte São Paulo com estas palavras: «Resgatai o tempo, porque os dias são maus» (Ef. 5,16), isto é, enganadores e pérfidos. O tempo, com efeito, sempre nos engana; embora se transforme incessantemente, mostra, contudo, quase sempre a mesma face, e o ano que se foi parece ressuscitar naquele que chegou. Isso, porém, não impede que, com o passar do tempo, a impostura seja descoberta. Os cabelos que embranquecem, as rugas que sulcam a fronte, os achaques dizem claramente quão grande parte de nosso ser já foi tragada pelo abismo. Em todas essas notáveis mudanças, o tempo, contudo, sempre simula alguma imitação da eternidade; com efeito, é próprio da eternidade conservar as coisas no mesmo estado; ora, o tempo não se despe disso senão pouco a pouco e suavemente; conduz-nos à extremidade oposta por uma encosta tão doce e quase insensível que nos encontramos entre as sombras da morte antes mesmo de nos termos dado conta de nossa mudança. Ó quantos, como Ezequias, não percebem que seus dias correm e, chegados aos quarenta anos, julgam estar apenas então começando a viver; e, vendo-se alcançados pela morte, exclamam (Is 38, 12): «A morte cortou o fio dos meus anos, quando eu mal o havia começado». Por isso, a malignidade do tempo faz com que caiamos de repente e desprevenidos entre as garras da morte.

Nós só percebemos o nosso fim quando chegamos a ele; e o que agrava a nossa culpa é que sempre vemos diante de nós algum tempo. Sim, o tempo está verdadeiramente diante de nós, mas poderemos nós chegar até ele?

Por que haveríamos de apegar-nos tanto ao tempo? O que vemos nele que possa nos satisfazer? Os falsos prazeres atrás dos quais correm loucamente os homens insensatos, o que são, afinal, senão uma ilusão de curta duração? Assim que se acalma um pouco aquele primeiro ardor que lhes provoca o deleite, até os mais ávidos de gozar muitas vezes se admiram eles próprios de terem desejado tão ardentemente aquilo que depois deixa o coração vazio. A idade e a experiência mostram quão vãs são as coisas pelas quais mais nos consumimos; sem contar quão raros são, na vida, até mesmo esses miseráveis prazeres… E qual é a alegria que não esteja envenenada por amargura ou angústia? Mas concedei também aos amantes do século que o objeto de seus amores seja realmente digno de inveja; quanto dura essa felicidade? Ah! Foge num instante, foge como um fantasma que, depois de nos ter embriagado durante o momento em que permaneceu conosco, nos deixa inquietos e tristes.

Essa florescente juventude não há de durar eternamente; virá a hora fatal que, com sentença irrevogável, cortará toda esperança enganosa; a vida nos faltará, como um falso amigo, no mais belo de nossos empreendimentos: nesse momento, todos os nossos pensamentos desaparecerão, os projetos mais soberbos cairão como castelos encantados. Os ricos da terra, que gozam vivendo da ilusão de um belo sonho e imaginam possuir grandes bens, ao despertarem de repente no dia da eternidade, ficarão atônitos e pesarosos por se encontrarem de mãos vazias. A morte arrastará atrás de seu carro fúnebre, para o esquecimento e o nada, todos os prazeres, honras e tesouros. Ó bom Deus! Não se ouve falar de outra coisa senão em passar o tempo; e, com efeito, o tempo passa, e nós passamos com ele; e aquilo que passa para nós, juntamente com o tempo que corre, entra na eternidade, que já não passa.

4. A MORTE ESTÁ SEMPRE À NOSSA PORTA

O homem é bem pouca coisa, e tudo o que termina é nada. Virá o dia em que este homem que hoje vos parece grande coisa já não existirá, será nada: por mais longo que seja o tempo, desde que se viva no mundo, ainda que se viva mil anos, é preciso chegar a esse ponto. Eu não me diferencio daquilo que nunca existiu senão pelo tempo de minha vida; ora, essa diferença é bem pouca coisa, pois, no fim, estarei novamente confundido com aquilo que não é; e isso acontecerá no dia em que nem sequer se verá que eu existi, e em que pouco me importará quanto tempo terei vivido, porque já não existirei para este mundo. Entro na vida com a lei de dela sair; venho representar o meu papel, fazer-me conhecido como os outros, depois do que é preciso desaparecer. Vejo outros passarem diante de mim, e outros verão a mim passar diante deles. Minha vida é breve e não tem a segurança de um instante sequer, porque a morte nunca se afasta de meu lado; ela está comigo no sono, na vigília, nas viagens, na alimentação, em todas as idades. Breve é a minha vida, e sempre ameaçada pela morte. Breve é a minha vida; e quanto tempo houve em que eu não existia! E quanto tempo haverá em que já não existirei! E como é pequeno e quase invisível o lugar que ocupo no imenso abismo dos anos! Eu sou nada; este pequeno intervalo de tempo que me foi dado não basta para me distinguir do nada ao qual devo retornar. Não vim senão para fazer número, e poderia muito bem ter-se feito tudo sem mim; a comédia humana não teria perdido coisa alguma se eu tivesse permanecido atrás das cortinas.

O tempo é um hospital, uma prisão, com uma única porta de saída, que é a morte. Todos os homens estão encerrados nesta prisão, e todos saem por essa mesma porta.

5. VALOR DO TEMPO

O tempo tem um valor infinito, porque custa o sangue de Jesus Cristo… O tempo é de um valor imenso, porque somente por meio dele se pode comprar a eternidade bem-aventurada… «O tempo, em certo sentido, vale tanto quanto o próprio Deus, diz um antigo padre, porque o tempo bem empregado nos conduz à posse de Deus (10)». Em um momento de tempo podemos conquistar a visão e o gozo inteiro e perpétuo de Deus; ao passo que a eternidade inteira jamais poderá dar-nos nem o Céu nem Deus. A eternidade foi feita para que gozemos do céu, da suprema felicidade, não para que a obtenhamos…

Mas, se com um único minuto bem empregado podemos ganhar o céu e o próprio Deus, em um só momento podemos perder o céu e Deus e precipitar-nos na infelicidade eterna. De um instante, portanto, bem ou mal empregado, depende a nossa eternidade feliz ou infeliz. E, se um único momento vale tanto, quanto valerão as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos e toda a vida do homem! É, pois, obra de sábio fazer bom uso do tempo, e suma loucura desperdiçá-lo…

Quereis saber quanto vale o tempo? Interrogai os réprobos: dariam todos os tesouros e considerar-se-iam extremamente felizes por sofrer mil tormentos, padecer toda espécie de martírio e sacrificar mil vidas, com a única condição de que lhes fosse concedido um dia, uma hora, um instante para poderem sair do inferno e assegurar-se o paraíso. Submeter-se-iam, por isso, a penitências inauditas e jamais vistas… Dizei o mesmo das almas do purgatório… Interrogai os bem-aventurados no céu, e eles dirão: Ó mortais afortunados! Ah! Se conhecêsseis o valor do tempo, quantos méritos poderíeis adquirir, com que habilidade o negociaríeis e com que cuidado procuraríeis não perder um só momento! Oh! Se nos fosse concedido voltar ao tempo para aumentar os nossos méritos, estaríamos dispostos a comprar uma hora ao preço dos mais duros suplícios, do ferro, do fogo! … Sim, se os eleitos pudessem invejar-nos alguma coisa, seria esta felicidade que temos de poder aumentar, a cada momento, a coroa de nossos méritos. Ó momentos preciosos, dos quais dependem a nossa salvação e a nossa eternidade!

«Venerável é a velhice, diz o Sábio; mas ela não deve ser medida pela extensão ou pelo número dos anos, mas pela retidão das ações: bela velhice, longa vida, é uma vida sem culpa» (Sb 4, 8-9). Santo Ambrósio, ao fazer o elogio de Santa Inês, escrevia: «Jovem em anos, era muito avançada em santidade e prudência (11)».

O tempo é o melhor médico para todos os males. O tempo abranda a cólera, extingue o ódio, refreia a concupiscência… O tempo revela os segredos, traz à luz a verdade oculta ou subtraída… o tempo proporciona experiência, conselho e prudência.

O tempo, calculado em horas, dias e anos, é nada; mas, enquanto conduz à eternidade e é instrumento para nos proporcionar o gozo de Deus por meio da graça e, depois, da glória, tem um valor inestimável. O tempo em si mesmo é nada, mas, entretanto, perde-se tudo quando ele é desperdiçado; porque esse tempo, que é nada, foi estabelecido por Deus para servir de passagem à eternidade. Por isso, Tertuliano chamou o tempo de um grande véu estendido diante da eternidade (Lib. de Resurr.). Para chegar a esta, é preciso passar por aquele; pelo bom uso do tempo, adquirimos direito àquilo que está além do tempo.

Por meio da encarnação do Verbo, a eternidade se uniu ao tempo, para que aqueles que estão sujeitos ao tempo possam aspirar à eternidade… Aquilo que fazemos no tempo vai para a eternidade, porque o tempo é dominado pela eternidade e a ela conduz. Eu não gozo dos prazeres senão no momento de sua passagem e, embora passem, devo prestar contas deles como se permanecessem. Não basta dizer: “Passaram, não lhes darei mais atenção”; passaram, sim, para mim; não, porém, diante de Deus, que me pedirá contas deles.

Visto que aprouve a Deus, para consolar os miseráveis mortais da perda contínua a que está sujeita a sua existência terrena pelos furtos do tempo, fazer com que este tempo, que foge levando consigo os nossos despojos, fosse uma passagem para a eternidade que permanece, asseguremos por meio do tempo as preciosas riquezas da eternidade bem-aventurada; jamais nos saia da mente que, para esse fim, Deus nos colocou no tempo… Lembremo-nos de que, se todos os momentos, considerados em si mesmos, são menos que um sopro, que uma sombra, enquanto, porém, conduzem à eternidade, tornam-se de valor infinito (2Cor 4, 17), e que, por isso, é gravemente culpado aquele que recebe em vão semelhante graça. Ó momento de que depende a eternidade! Ó eternidade que depende de um momento!

6. CONTENTAMENTO DE QUEM EMPREGOU BEM O TEMPO

O tempo bem empregado enche o coração de consolação. Àquele que fez bom uso do tempo pode aplicar-se o dito da Sabedoria: «Tirado de uma morte prematura, percorreu uma longa carreira» (Sb 4, 13); ao contrário, quem desperdiça o tempo vê-se obrigado a exclamar com Jó: «Meus dias fugiram, meus pensamentos se desvaneceram, deixando no coração o remorso» (Jó 17, 11). Oh! como é doce ao bom cristão poder repetir, no leito de morte, com o grande Apóstolo: «Combati o bom combate, completei minha carreira, guardei a fé. Nada mais me resta senão esperar a coroa da justiça, que me está reservada e que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia» (2Tim. 4, 7-8).

Dos que empregam bem o tempo pode-se dizer, com o profeta, que, enquanto vivem, vão semeando entre lágrimas e soluços; mas, chegados ao fim da vida, alegram-se sob o doce peso de sua abundante colheita (Sl 125, 7-8). Levam ao leito de morte dois feixes: o da honra e o da virtude; então lhes será acrescentado o terceiro, que é o do repouso eterno, da felicidade e da glória… Estes, como dizia Jó, ouvem e observam a lei do Senhor; por isso, passarão seus dias na felicidade e verão seus anos coroados de glória (Jó 36, 11). A morte deles é a morte dos justos; felizes aqueles que morrem de semelhante morte!

E que alegria e contentamento inefáveis não experimenta aquele que pensa nas grandes recompensas com que Deus premia quem faz bom uso do tempo! Para formar uma ideia disso, basta recordar a parábola dos talentos, na qual o senhor que havia dado seu dinheiro para ser empregado, vendo diante de si os servos que lhe restituíam duplicados os bens recebidos, disse-lhes que tivessem bom ânimo, porque, tendo eles, como servos diligentes e leais, manifestado sua fidelidade numa coisa de pouco valor, ele os constituía sobre muitas, e que entrassem na alegria de seu Senhor (Mt 25, 14-23).

«Se a terra, escreve Santo Ambrósio, vos restitui multiplicado aquilo que lhe confiais, quanto mais abundante será a recompensa que recebereis da misericórdia divina por aquilo que tiverdes dado! Pois Deus é infinitamente mais liberal que a terra e a natureza (12).» Por um instante de pena, uma eternidade de gozo… Por uma gota de pranto, um oceano de delícias… «Ah, não, diz o Apóstolo, os sofrimentos desta vida não têm proporção alguma com a glória que um dia deverá resplandecer em nós» (Rom. 8, 18).

7. É PRECISO APROVEITAR O TEMPO PRESENTE

Mas alcança essa meta e obtém essa recompensa superabundante somente aquele que pode dizer com São Paulo: «Não corri em vão, nem trabalhei em vão» (Fl 2, 16). Imitemos os comerciantes; eles examinam as mercadorias, recebem-nas em troca ou as compram, e delas se tornam donos. O tempo presente é tempo de mercado; compremos, vendamos, façamos trocas; vendamos a terra, compremos o céu… «Nossa vida, diz o Nazianzeno, é um mercado; se deixardes passar o dia sem vos proverdes, depois não encontrareis mais tempo para comprar aquilo de que necessitais (13)».

«Corramos, diziam entre si os anacoretas de São João Clímaco; corramos, irmãos; é preciso uma corrida de atletas, porque caímos, por causa do pecado, de nosso grau; corramos, não poupemos esta carne de pecado, esta carne de iniquidade; matemo-la na corrida, pois ela nos matou no repouso» (Vit. Patr.). Isso também devemos dizer nós; mas devemos também fazê-lo, a exemplo de Davi, que afirmava de si mesmo: «Eu o disse e logo me pus a fazê-lo» (Sl 76, 10). Sirva-nos de modelo no emprego do tempo a conduta do filho pródigo que, assim que decidiu partir e ir para junto do pai, pôs imediatamente em execução sua resolução e, levantando-se, voltou para o genitor (Lc 15, 18, 20).

«Ninguém, dizia São Bernardo, despreze um só momento, desperdiçando-o em vãs conversas. A palavra foge e não pode mais ser recolhida; o tempo voa e não pode mais ser reparado: somente o insensato não percebe o que perde. Não será lícito divertir-se, diz alguém, para passar uma hora? Como? Para passar uma hora! E não considerais que essa hora vos é concedida pela indulgência do Criador para fazer penitência, obter o perdão de vossos pecados, adquirir a graça, merecer a glória? Então fazeis tão pouco caso do tempo que considerais coisa de nada desperdiçar uma hora divertindo-vos? Desse tempo que deveríeis empregar em tornar propícia a misericórdia de Deus, em preparar-vos para a sociedade dos anjos, em suspirar pela herança perdida, em despertar a vontade sonolenta, em chorar os vossos pecados! Nada é tão precioso como o tempo; e, contudo, nada, ó Deus, é mais maltratado que o tempo. Passa o dia da salvação, e onde está quem pense nele? Quem reflete seriamente que o tempo perdido jamais o recuperará? Entretanto, assim como não se perderá um só cabelo da cabeça, também não escapará a Deus um só momento perdido (14)».

«Levanta-te prontamente» (At 12, 7), disse o anjo a Pedro, que jazia acorrentado na prisão; assim também diz a nós, sonolentos na ociosidade e na preguiça: Despertai e aproveitai o tempo que vos é dado. «Apressai-vos a semear para vós na justiça, a colher na misericórdia; cultivai a vossa terra; é tempo de buscar o Senhor» (Os 10, 12). «Sede cultivadores espirituais e semeai aquilo que vos traga vantagem (15)», diz Santo Ambrósio. Lembremo-nos da advertência de São Paulo: chegou o tempo, chegou a hora de despertarmos do sono (Rom. 13, 11). Esta é a hora da graça, da fé, da salvação… Não a adiemos para amanhã; o amanhã não está em nosso poder… «Quem de vós, pergunta São Tiago, sabe o que será de si amanhã? Ninguém certamente, porque a nossa vida é um vapor que num piscar de olhos aparece e se desfaz» (Tg 4, 14-15).

Não podemos aproveitar o tempo passado, porque já não existe; nem o tempo futuro, porque não o temos e talvez não o tenhamos; não nos resta, portanto, à disposição, outro tempo senão o presente, que nos foge como um relâmpago… Está próximo o tempo de prestar contas a Deus, diz o Apocalipse (Ap 1, 3). «Eis que venho, diz o Senhor; guardai bem o que tendes, para que ninguém vos tire a vossa coroa» (Ib. 3, 11).

Em vez de se manterem prontas para acolher o esposo, as virgens insensatas de que fala o Evangelho, não sabendo a hora em que ele chegaria, começaram a cochilar e depois adormeceram. ― Soa a meia-noite; o esposo chega e, encontrando as virgens prudentes despertas e prontas para esperá-lo, introdu-las na sala do banquete. Chegam finalmente também as insensatas, que haviam perdido o tempo quando ainda estava em seu poder; encontraram a porta fechada. Podem muito bem gritar: Abre-nos, Senhor: ― Domine, Domine, aper nobis; ― a porta já não se abre, nem lhes é concedido participar da festa: ― Amen dico vobis, nescio vos (Mt 25, 11-12).

O tempo é a moeda que Deus nos dá com a obrigação de fazê-la render e de devolvê-la a ele com os juros dos bens eternos, quando ele se apresentar para pedir-nos contas dela (Lc 19, 13). Enquanto, pois, temos tempo, sirvamo-nos dele para fazer o bem (Gl. 6, 10), e jamais nos esqueçamos de que não nos é dado outro tempo senão o presente…

8. AQUELES QUE EMPREGAM BEM O TEMPO

«Enquanto aguardas a minha vinda, aplica-te à leitura, à exortação e ao ensino» (1Tim. 4, 13). «Exercita-te no santo combate da fé; trabalha para conquistar a vida eterna, para a qual foste chamado» (Ib. 6, 12). «Comporta-te como bom soldado de Cristo; pois também aqueles que lutam nos jogos públicos não obtêm a coroa senão depois de terem combatido valorosamente, e é justo que o lavrador trabalhe antes de colher» (2Tim. 2, 3, 5-6). Ora, faz bom uso do tempo aquele que pratica estes ensinamentos do Apóstolo…

A virtude não consiste na quantidade, mas na qualidade das obras: um só dia passado sem culpa vale mais que uma vida inteira tíbia e negligente. «Deves considerar, escreve Eusébio, que viveste somente naquele dia em que renunciaste à tua vontade, resististe às tuas paixões e não cometeste nenhuma transgressão da lei. Considera que viveste apenas naquele dia em que viste resplandecer em ti a clareza da pureza e o fogo da santa meditação (16)».

«Semeemos na graça — exorta-nos São Bernardo — e colheremos na glória; semeemos na terra com lágrimas e colheremos no céu com alegria. Pois as nossas obras não se perdem, mas aquilo que se semeia no tempo é semeado para a eternidade. O insensato que não semeia ou semeia mal ficará admirado ao ver o justo colher uma messe abundante da sua boa e farta semeadura. Semeemos o bom exemplo por meio das boas ações; semeemos uma semente de grande alegria para os anjos, por meio de secretos suspiros… Semeemos também nós, a exemplo de tantos outros que semearam antes de nós; aproveitemos a semeadura deles, pois a fizeram para nós (17). Ó filhos de Adão — diz o mesmo doutor —, quantos semearam em vós, e quão preciosa é a sua semente! Ó Deus! como perecereis desgraçadamente, mas com justiça, se em vós se perder uma semente tão preciosa, juntamente com o trabalho dos zelosos semeadores! A Trindade semeou em nossa terra; nela semearam os anjos, os apóstolos, os mártires, os confessores e as virgens. O Pai celeste semeou nela o pão do céu; o Filho semeou nela a verdade; o Espírito Santo, a caridade (Serm. in Cantic.).

Diz São Gregório: «Não devemos buscar as honras nem as riquezas, coisas transitórias e caducas; mas, se desejamos os verdadeiros bens, amemos aqueles que possuiremos eternamente; se tememos os males, temamos aqueles que os réprobos sofrerão sem fim (18)». Seguir estes conselhos e praticar tais advertências é fazer bom uso do tempo.

Quem se pode dizer que emprega bem o tempo? Aquele que, sendo justo e santo, procura tornar-se ainda mais justo e santo, e observa este preceito de São Paulo: «Procedei de modo a enriquecer-vos sempre mais para o céu» (1Ts. 4, 1). Mostra-se perfeito, segundo a sentença de São Bernardo, somente aquele que deseja sempre crescer em perfeição (19). Aqueles que irão de virtude em virtude, como diz o Salmista, encontrarão seus dias cheios de bênçãos, porque os preencheram, vivendo, de boas obras (Sl.82,7; 72,10).

Quem faz bom uso do tempo? Aquele que pratica estas recomendações do Apóstolo: Exercitai-vos na piedade, isto é, na prática das virtudes religiosas (1Tm. 4, 7). Meditai sobre os vossos deveres e consagrai-vos ao cumprimento deles, para que o vosso progresso seja manifesto a todos (Ib. 4, 15). Trabalhai noite e dia, sem jamais vos cansardes de fazer o bem (1Ts.2,9; Gl. 6,9). «Eu me esqueço — afirma de si o mesmo Apóstolo — daquilo que ficou para trás, lanço-me com todo o vigor para o que está diante de mim e esforço-me para alcançar a meta e obter a recompensa para a qual Deus me chamou do alto por meio de Jesus Cristo» (Fl 3, 13-14). Eis o modelo daquele que emprega bem o tempo. Por isso, é preciso fugir também das conversações inúteis (1Tm 4, 7); evitar as alegrias mundanas, antes de tudo o pecado mortal e, quanto possível, o venial; …guardar-se do abuso das graças.

9. AQUELES QUE ABUSAM DO TEMPO

«É vontade do céu — escreve Santo Agostinho — que caminhemos sobre esta terra baixa. Ora, entre esses viajantes, Deus odeia três espécies de pessoas: aquele que para, aquele que retrocede e aquele que abandona o caminho. Quem não avança é como se não desse um passo; quem se afasta das boas resoluções e volta ao mal que outrora detestara retrocede; quem abandona a fé já não está no caminho. Mas quem é que não avança? Aquele que se julga sábio e diz consigo: Basta-me permanecer como estou» (Lib. da Cant. nov. c. IV).

Quem é que não avança? O tíbio, o preguiçoso espiritual… Quem retrocede? Aquele que cai em pecado mortal… Quem está fora do caminho? Aquele que se obstina no mal, quer permanecer nele e se recusa a corrigir-se. Ora, essas três espécies de pessoas desperdiçam o seu tempo. Não progredir no caminho da santificação e da salvação é perder o tempo… Retroceder no caminho da virtude é uma perda de tempo ainda mais grave… Desviar-se do bom caminho é ter o tempo inteiramente perdido. Quantos, para sua desgraça, não se encontram em uma dessas três classes! Quantas pessoas não consomem, como diz o Salmista, os seus dias na vaidade e os anos na inquietação! (Sl.77, 33).

Todo o tempo que se entrega à tagarelice, à ociosidade, à vaidade, à tibieza voluntária, ao pecado, ao amor do mundo e dos prazeres culpáveis é um tempo que pertence à morte, e não à vida. Todas as horas que se consagram ao mundo são horas perdidas…

«Não se vive — diz São João Damasceno — senão aquele tempo que se vive bem (20)». «Não nos alegremos — acrescenta São Gregório — por nenhum outro tempo vivido por nós, senão por aquele que passamos na inocência e na humildade; porque o tempo que empregamos nas tolices do mundo, nos cuidados terrenos e carnais, é um tempo perdido, do qual não se levará conta para pagar-nos a recompensa, mas para sentenciar o castigo (21)». Daí aquele dito de Santo Agostinho: «Amas o século, e o século te afogará (22)».

«Para aqueles que se regulam mal, diz Sêneca, o tempo está perdido: perdido para os ociosos; perdido inteiramente para os que se ocupam de coisa totalmente diversa daquela de que deveriam ocupar-se. Quem se perde em frivolidades e farras nada faz. Muitos abandonam suas ocupações e entregam-se ao repouso; outros transformam as coisas sérias em futilidades. Sois daqueles que se perdem atrás das honras, da glória, do poder? Se chegais a agarrá-los, apertai um punhado de moscas. Consumí-vos na gula e na luxúria? Não apanhais senão um inseto imundo. Enamorai-vos de roupas belas e suntuosas? Ficais a contemplar teias de aranha. Não são porventura todas essas coisas, e outras semelhantes, verdadeiras ninharias? No entanto, quantas pessoas perdem e desperdiçam em tais vaidades um tempo que Deus lhes deu para que merecessem a eternidade! (Epist. 1 ad Lucill.) Quem acreditaria que tal linguagem provém de um pagão?

Diz a Sabedoria que o fascínio da frivolidade obscurece os bens (Sb 4, 12). O prazer enganador ofusca a mente; já não se consideram sua vaidade, sua falsidade nem sua degradação; e já não se têm olhos para ver a beleza e o valor da virtude… Prova e testemunho disso é Santo Agostinho, que confessa estar preso por ninharias e que suas vaidades, antigas companheiras, faziam-no perder todo o seu tempo (Confess. lib. 8, c. 11). Ah! Fostes criados para a eternidade e viveis para o tempo, que é coisa tão pouca! Por que não viver para a eternidade? Destinados ao céu, por que vos prender à terra? Eleitos para possuir a Deus, por que desejar as falsas riquezas do mundo?

Aqueles que abusam do tempo podem verdadeiramente dizer que teceram seus anos como teia de aranha (Sl 89, 10). Observai esse inseto enquanto tece sua teia; é um contínuo ir e vir, de cima para baixo e de baixo para cima, passando de um lado para outro, trabalhando sem trégua; e qual é o efeito de tanto trabalho? Ver, num instante, reduzido a nada todo o seu esforço. O mesmo acontece com a vida de quem abusa do tempo: vai e vem, sempre em busca de prazeres e riquezas; levanta-se, curva-se, prostra-se, corre, sua, ofega, consome-se, mata-se para reunir matéria com que gozar a vida; mas tece teias de aranha e, chegado ao fim, fica de mãos vazias.

Os homens dizem a verdade e fazem justiça a si mesmos quando dizem que procuram passar o tempo, e assim revelam com quanta leviandade o desperdiçam. Mas por que a humanidade, naturalmente tão avara e ávida de conservar agarrada a sua fortuna, deixa escapar das mãos, com tanta indiferença, um dos mais preciosos tesouros? Há, a meu ver, duas causas disso, das quais uma depende de nós e a outra, do tempo.

Quanto a nós, compreende-se que o tempo nos escape tão facilmente, porque não queremos considerar de propósito nem sua brevidade nem sua fugacidade. Com efeito, quer, observando-lhe a duração, sintamos aproximar-se o nosso fim e queiramos manter longe de nós essa imagem entristecedora; quer, por efeito de certa estúpida indolência, não saibamos empregar o tempo, o fato é que tememos perceber o seu curso. Como não nos parecem pesados aqueles dias cujas horas e minutos contamos todos! Como não sentimos duros e pesados aqueles dias cuja extensão entristece e abate! Assim, o tempo se torna para nós um peso insuportável quando o sentimos pesar sobre os ombros. E por isso nada deixamos de fazer para nos distrair até mesmo de pensar nele, e empregamos todo o empenho em fazê-lo passar.

Mas, se procuramos enganar a nós mesmos, o tempo, por sua vez, ajuda-nos, ocultando-nos aquilo de que a cada instante nos despoja e cegando-nos; faz-nos contar e quase nos oprime, colocando diante de nós a infância, a adolescência, a juventude, a virilidade, a velhice, a decrepitude… Ó mortais iludidos, que contais os vossos anos em vez de pesá-los!

Os prazeres e os negócios dividem todas as nossas horas; pelo apego aos prazeres, o homem não pensa em Deus nem pertence a Deus; pela angustiosa solicitude com que se dedica aos negócios, não pertence a si mesmo. Tal é a condição do homem mundano; e, agindo assim, ele perde o seu tempo e, consequentemente, perde o próprio Deus… Aqueles que se detêm naquilo que os cerca, como as criaturas, as riquezas, os deleites e as honras, perdem o seu tempo… Aqueles que se detêm em si mesmos por orgulho, vaidade, complacência e egoísmo, perdem o seu tempo… Aqueles que passam as horas na ociosidade perdem o seu tempo; aqueles que trabalham, mas trabalham mal ou somente para fins humanos, perdem o seu tempo; aqueles que não têm Deus como guia e fim em seus trabalhos perdem o seu tempo; aqueles que se ocupam de outra coisa, em vez de seu dever, perdem o seu tempo; aqueles que não fazem as coisas no tempo devido perdem o seu tempo… Finalmente, tempo perdido é todo aquele que se passa em pecado mortal.

10. PRESTAÇÃO DE CONTAS DO TEMPO PERDIDO

No Evangelho há duas parábolas que, por si sós, bastam para nos dar uma ideia do rigor com que nos será pedido contas do tempo perdido. Virá o dia em que será dito a cada um de nós, como já foi dito pelo senhor ao administrador do Evangelho: «Presta contas da tua administração» (Lc 16, 2). Mas o que importa sobretudo é que tudo quanto o homem faz para desperdiçar o tempo vai-se e passa com o tempo; diante de Deus, porém, não passa: permanece e é por Ele depositado nos tesouros de sua ira. Aquilo que eu tiver colocado no tempo, encontrá-lo-ei; se nele não puser senão iniquidade, não encontrarei senão o mais severo juízo. Aquilo que faz no tempo passa do tempo para a eternidade, para ser ali julgado irrevogavelmente… Eu não gozo desse prazer ignóbil e proibido senão por um instante; ele passa depressa, mas a conta que terei de prestar dele produzirá seu efeito por toda a eternidade.

Lembrando, além disso, que somos servos de Deus, devemos ser tomados de salutar temor pelo modo como o senhor do Evangelho, figura de Deus, tratou seu servo inútil e indolente, que escondeu debaixo da terra o talento recebido e, à chegada do senhor, julgava escapar às suas repreensões e até ser louvado como prudente por devolvê-lo são e intacto. Com efeito, à desculpa que balbuciou, de não ter negociado o talento — isto é, de que sabia ser o senhor um homem duro, que queria colher onde não havia semeado, e que temia ser punido se, por desgraça, se perdesse o talento que lhe fora confiado —, ouviu-se responder: «Eu te julgo pelas tuas próprias palavras, servo infiel» (Lc 19, 22). Lançai-o, pois, vós, meus servos fiéis, na prisão escura que fica do lado de fora desta casa; e tenha ali como companheiros eternos o pranto sem consolação e o ranger dos dentes (Mt 25, 30). Eis a sorte que cabe àqueles que perdem o seu tempo em vaidades e ninharias!

11. MEIOS PARA EMPREGAR BEM O TEMPO

Emprega bem o tempo aquele que, segundo o conselho de São Paulo, quer coma, quer beba, quer faça qualquer outra coisa, tudo dirige para a glória de Deus; e que, tanto nas palavras como nas obras, presta homenagem ao nome de Jesus Cristo, dando graças a Deus Pai por meio dele (1Cor 10,31; Col 3,17). «Vede, diz o mesmo Apóstolo, como procedeis com cautela, não como insensatos, mas como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus» (Ef 5, 15-16). E, para remir o tempo, devemos de quando em quando entrar em nós mesmos e, no recolhimento, pensar em Deus e nos assuntos da alma. Tal é o conselho de Santo Agostinho (23), ao qual podemos acrescentar o de São Jerônimo: «Vivamos como se devêssemos morrer imediatamente; trabalhemos como se jamais devêssemos morrer (24)»; confessando a nós mesmos, a exemplo dos antigos patriarcas, que somos estrangeiros e peregrinos sobre a terra (Hb 11, 13).

O apóstolo São Pedro escrevia: «Rogo-vos, ó caríssimos, que vos considereis como peregrinos e forasteiros» (1, 2, 11). E, com efeito, sendo celeste a nossa alma, deve aspirar ao céu, considerando a terra como lugar de passagem. Para nos libertar deste baixo exílio e conduzir-nos à pátria, Jesus Cristo desceu à terra, nasceu num estábulo, viveu como estrangeiro e expirou num patíbulo…

Ora, se o cristão na terra é um peregrino que caminha para o céu, deve imitar a conduta do peregrino que vai para a pátria. E, portanto: 1° este vê todas as coisas, mas não se detém nelas; assim deve fazer o cristão… 2° O viajante parte e deixa a outros o seu lugar; o mesmo acontece conosco… 3° O viajante dirige-se diretamente ao seu destino, sem se perder em outra coisa, contentando-se com o alimento e a roupa; imitemo-lo… 4° O peregrino deseja chegar à pátria e, para alcançá-la, encontra e suporta com coragem e perseverança as fadigas do caminho, o frio, o calor, a fome, a sede etc. Eis o nosso modelo… 5° O viajante não cria obstáculos ao seu caminho; trata com honestidade e justiça; não insulta ninguém, mas mostra-se respeitoso e cortês com todos; tal é o dever do cristão… 6° O estrangeiro considera todos os homens como estrangeiros; seu coração está em sua pátria, sua alma se encontra junto de seus pais, filhos e amigos; tal deve ser a conduta do fiel… 7° O peregrino leva um manto e um bastão; o cristão deve revestir-se de Jesus Cristo, vestir o manto da oração, da paciência e da modéstia, e levar a sua cruz… 8° O viajante não se sobrecarrega de pesos inúteis, mas limita-se ao estritamente necessário: é isso que o bom uso do tempo exige do cristão… 9° O viajante não para pelo caminho, mas avança sempre rumo ao destino de sua viagem. Façamos o mesmo e, para nos animarmos, repitamos com Santo Antônio: «Hoje começarei a servir a Deus com toda a alma, porque hoje pode ser o meu último dia» (Vit. Patr.).

«Quereis, escreve Sêneca, ser livres de vosso corpo, não embaraçados por este pesado fardo? Habitai-o como se a cada hora devêsseis deixá-lo; considerai-o como um estrangeiro e, no momento da morte, dele vos separareis sem pesar» (Epist. XXIV). Não vos parece ouvir nestas palavras um longínquo eco daquelas outras de São Paulo: «Não temos, aqui na terra, morada firme e estável, mas andamos em busca da fortuna»? (Hb 13, 11).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.