Louvar é coisa falsa, diz São Bernardo (1), e coisa vã é envaidecer-se com os louvores; charlatão é quem é louvado, e mentiroso quem louva. Um adula e mente; outro é adulado e enganado. Sim, os aduladores são enganadores que, como diz o Salmista, enquanto com a língua vos bendizem, com o coração vos amaldiçoam (Sl 61, 5); com efeito, vãos são os filhos dos homens, mentirosos os nascidos de Adão, postos nas balanças; por isso, todos juntos enganam mais do que a vaidade” (Sl 61, 9).
Assim que alguém nos louva, escrevia Sêneca (Epist. LIX), imediatamente ficamos embriagados; se nos chamam pessoas de bem, prudentes, perfeitas, acreditamos logo e nos alegramos; tudo quanto a adulação descarada derrama sobre a nossa cabeça parece-nos coisa que nos é devida; mostramos ter a mesma opinião de nossos aduladores, embora saibamos que mentem continuamente.
As adulações e os louvores não passam de sopro, e quem deles se alimenta nutre-se de vento.
Do mesmo modo, diz São João Crisóstomo (Homil. 17, in Epl. ad Rom.), que os meninos, por brincadeira, entrelaçam coroas de erva e, colocando-as uns na cabeça dos outros, zombam daqueles que as usam; assim também os que vos elogiam e vos acariciam coroam-vos de erva e escarnecem de vós pelas costas. Quando, pois, damos ouvidos à adulação, coroamo-nos mutuamente de flores aparentes. E prouvera a Deus que isso fosse sempre nada mais que uma coroa de flores artificiais! Mas o pior é que essa coroa ilusória nos é funesta, porque nos faz perder todo aquele pouco de bem que porventura possuamos. Calçando aos pés, portanto, o nada da adulação, eu a evito; e ainda que centenas e milhares de pessoas me louvem e exaltem, tenho as suas falas na mesma conta que o gorjeio de aves tagarelas. Se considerardes os aduladores com os olhos da fé, eles vos parecerão mais vis que os vermes da terra, e os seus louvores, mais vãos que a fumaça e os sonhos.
“O homem sábio, acrescenta São Cirilo, sente a alma dilacerada quando é louvado em público, porque, como uma donzela pudica, a verdadeira virtude não pode, sem enrubescer, ser exposta aos olhares alheios; e, como estrela fulgurante, eclipsa-se e esconde-se ao aparecer do sol (2)”.
É sentença de Pitágoras que devemos mostrar bom semblante quando somos censurados, mas nunca quando somos louvados. A seu juízo, os aduladores representam os mais detestáveis e perigosos inimigos. (Ant. in Meliss. p. 1, e. LII).
Crates dizia que aqueles que vivem em meio aos aduladores tornam-se traidores de seus deveres e são como bezerros entre uma alcateia de lobos (id. ivi).
Bíon, àquele que lhe perguntava qual era o animal mais nocivo, respondeu que, entre os ferozes, é o tirano; entre os domésticos, é o adulador (id. ivi).
Diógenes chama a adulação de laço de mel, que estrangula o homem, envolvendo-o carinhosamente (id. ivi).
O imperador Constantino aborrecia de tal modo os aduladores que os chamava de ladrões e traças de seu palácio (Storia ecclesiast.).
Conta-se do imperador Sigismundo que, tendo dado uma bofetada em um adulador, este lhe disse: — Por que me bateis, ó Imperador? — e o Imperador respondeu-lhe: — Por que me mordeis, ó adulador? (3). E com razão chamou de mordidas os louvores dos lisonjeiros, porque já o Salmista havia observado que os discursos dessa espécie de gente correm doces como o mel, suaves como o óleo e, entretanto, ferem como flechas (Sl 54,22).
“O que é a adulação, deixou escrito São Cirilo (4), senão uma melodia de sereias, um canto insidioso, um som enganador e a voz mentirosa da hiena? Enquanto acaricia o ouvido com suave harmonia, apaga a luz da razão, corrompe a beleza da virtude com seu hálito pestilento e, com dente voraz, destrói tudo quanto há de florido e vigoroso na alma. A adulação soa docemente, penetra suavemente, mas golpeia com a morte e corrompe sem remédio tudo o que toca; e não poupa os bens inferiores, mas antes os destrói de maneira ainda pior: quando agrada, prejudica”.
Encontramos na Escritura que, enquanto Tobias dormia, caiu sobre seus olhos esterco quente do ninho de uma andorinha, e ele ficou cego (Tb 2,11). Não seriam acaso essas andorinhas uma figura dos aduladores, que, com seus louvores contínuos, inflam o próximo com palavras melífluas, espalhando o óleo envenenado da adulação sobre a cabeça e os olhos daquele que lhes dá bom acolhimento, ofuscando-lhe a visão interior, cegando-o e causando-lhe vertigens?
“O adulador que já perdeu a própria alma procura também perder a vossa, diz São Bernardo (5). As suas palavras são iniquidade e engano; a sua linguagem é carinhosa, mas artificiosa e insinuante. Chora, e em seu pranto há uma armadilha; despreza tu essas lisonjas, calca aos pés essas promessas. Agradável, mas perigoso, é o louvor que diz ao pecador aquilo que lhe agrada. É óleo e leite suavíssimos, sim, mas mortalmente venenosos. O discurso do adulador é mais suave que o óleo, mas mais agudo que as flechas”.
A esse respeito, Santo Agostinho observa que há no mundo duas espécies de perseguidores: os que caluniam ou matam e os que adulam; mas é mais temível a língua do adulador que a mão do carrasco ou a palavra do caluniador (6).
Plínio compara o adulador à hiena e, assim como esta, escreve ele, imitando a voz humana, convida e depois despedaça o incauto que dela se aproxima, assim também os aduladores não cessam de elogiar, até que tenham arrastado consigo à ruína aqueles a quem adulam. A adulação é, para os insensatos que lhe dão ouvidos, o que é o óleo para as moscas, as formigas e quase todos os insetos: estes encontram a morte no óleo, e aqueles que se comprazem nos louvores encontram nos próprios louvores a sua ruína. O veneno da adulação é mortal principalmente para os espíritos fracos, levianos e excessivamente maleáveis.
Ordinariamente, os aduladores envergonham aqueles a quem elogiam; com uma mão lançam flores, com a outra, lama: o adulador, com efeito, supõe que a pessoa a quem está adulando é vaidosa, desejosa de vanglória e dos louvores humanos; por isso deixa entender que a considera um espírito abjeto, uma alma vil e digna de desprezo… “Não nos comprazamos, pois — conclui São Basílio — com louvores que fazem desviar do caminho da verdade aqueles que os proferem (7)”.
As adulações e as honras conduzem ao ápice do orgulho, diz São Gregório Nazianzeno (Ant. in Meliss. p. 1, e. 51).
O cão é inimigo da lebre, e o adulador, inimigo do homem, sentencia Plutarco; portanto, detestai-os como sedutores — clama ele: fugi deles, abominai-os como aos vossos mais cruéis adversários (8).
Posto isso, compreende-se o sentido daquelas palavras de Santo Inácio: “Aqueles que me elogiam, açoitam-me” (Apud Maxim. serm. XLIII); e destas outras de Jesus Cristo: “Ai de vós quando os homens vos bendisserem, porque assim faziam os pais deles aos falsos profetas” (Lc 6, 26).
“Os vossos louvores — pregava Santo Agostinho aos seus ouvintes — são para nós um peso e um perigo; nós os suportamos, mas trememos diante deles (9).” E quanto perigo se encontra neles, reconhece-o também Sêneca nestas palavras: “O louvor torna desenfreada a licença; a adulação faz a mente ensoberbecer-se (10).” E este pensamento fazia Santo Agostinho dizer: “Aquele que, censurado por Vós, ó Senhor, busca compensação nos louvores dos homens, não encontrará neles um defensor no vosso juízo, e eles não o arrancarão das vossas mãos quando o precipitardes no Inferno (11).”
“O homem que emprega uma linguagem fingida e aduladora com seu amigo estende uma rede aos seus pés”, está escrito nos Provérbios (Pr 29, 5): porque o impele à soberba, inclina-o a considerar os vícios como ninharias, quando não chega a tê-los por virtudes, e o atrai, com suas desculpas e louvores, a descuidar da virtude sem temor. Isso também foi confessado por Plutarco, que deixou dito: “O adulador atrai e prende numa armadilha aquele a quem seduz, e o deixa crivado de feridas (12).” Por isso, Diógenes (13) advertia que se devia considerar a adulação como o mais vergonhoso dos vícios, porque corrompe quanto há de mais honesto e santo na vida; e por ele o crime dos aduladores é posto em pé de igualdade com o dos falsificadores de moeda.
“Nós falamos — escrevia o grande Apóstolo aos tessalonicenses — não para agradar aos homens, mas a Deus, que sonda os nossos corações. Por isso, como sabeis, a nossa linguagem nunca foi de adulação: Deus é testemunha disso. Nem buscamos glória dos homens, nem de vós, nem de outros” (1Ts 2, 4-6). E aos gálatas: “É a aprovação de Deus ou a dos homens que procuro? Porventura procuro agradar aos homens? Se ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1, 10).
E este conselho de fugir dos aduladores também o dava o Sábio, tanto ali onde diz: “Meu filho, se os pecadores quiserem seduzir-te com lisonjas, não te deixes enganar por eles” (Pr 1, 10); como quando nos adverte que a virtude do homem é posta à prova pelos louvores dos homens, assim como o ouro e a prata pelo fogo (Ib. 27, 21). Sim, do mesmo modo que o fogo purifica o ouro e a prata da escória, assim o louvor revela a virtude ou o vício, a sinceridade ou a vaidade do homem. Se ele é verdadeiramente bom e virtuoso, despreza e evita a adulação. Os humildes rejeitam o louvor; os vaidosos e soberbos inflam-se e se tornam insolentes. Portanto, a única virtude e o verdadeiro mérito consistem em desprezar o louvor, assim como a verdadeira glória está em desprezar a glória…
“O coração verdadeiramente humilde — diz São Gregório (14) — ou não reconhece o bem que ouve dizer de si, ou teme que se diga o que é falso; ou, se reconhece verdadeiramente possuir aqueles méritos, teme, justamente por isso, tornar-se indigno da recompensa de Deus. E teme com razão, porque considera que, se os louvores que lhe são tributados não forem verdadeiros, talvez tenha de enfrentar um juízo mais severo da parte de Deus; e, se forem verdadeiros, fica exposto ao perigo de perder a recompensa.”
São João Crisóstomo ensina que o desprezo dos louvores e da glória humana nos torna semelhantes a Deus: com efeito, assim como Deus não tem absolutamente necessidade dos louvores e da glória dos homens, tendo existido antes da criação do mundo, quando eles ainda não existiam, e existindo na eternidade, onde eles já não existirão, assim também se mostra aquele que não se importa com a glória e o louvor humano; e daí conclui: “Quando te parecer demasiado difícil calcar aos pés os louvores e a glória humana, deves dizer a ti mesmo: Se desprezares essas coisas, tornar-te-ás semelhante a Deus e logo conseguirás vencer a vanglória (15).”
A este respeito, dá o exemplo de Santo Inácio de Loyola, que costumava dizer: “Se quero ser apto para as coisas de Deus, devo temer e evitar com todo o cuidado aqueles que temerariamente me adulam (16).” E São Macário sentencia que aquele que considera o desprezo como objeto de mérito e a pobreza como verdadeira riqueza não morrerá, mas viverá eternamente (Vite dei Padri, lib. 7, c. 38).
Vaidosos são aqueles que se louvam, escreve São Bernardo (Epl. ad Fulcon.); e o Sábio nos dá por regra tornar-nos dignos de que outros nos louvem, mas que nos guardemos bem de louvar-nos a nós mesmos (Pr 27, 2), porque isso seria uma vaidade e uma vanglória de insensato…
“É uma loucura desmedida, diz o Crisóstomo, louvar a si mesmo sem que uma necessidade inevitável o obrigue (17).” E é por isso que São Paulo, depois de ter falado de si mesmo aos Coríntios, acrescenta: “Fui insensato ao falar-vos assim, mas vós me obrigastes” (2Cor 12, 11).
“É coisa verdadeiramente repugnante, diz Temístio, ouvir alguém fazer o próprio elogio (18).”
Verdadeiramente, louvar a si mesmo é coisa inconveniente e própria de insensato, porque se louvam as próprias ações somente por orgulho e por desejo de louvor e, precisamente por isso, não se merece senão desprezo. Quem se louva e se vangloria condena e desonra a si mesmo, porque o seu louvor faz nascer nele o vício. Além disso, é também coisa vergonhosa, porque tal testemunha não é digna de fé e é tida por falsa e mentirosa. E, na verdade: por que louvar-se? Se alguém é desconhecido, é inútil louvar-se; se não o é, convém-lhe não esquecer que a verdadeira virtude ama esconder-se…
Pode-se ser louvado nas coisas boas, diz São Gregório (Apud Ant. in. Meliss. p. 1, c. 41), porque o louvor estimula a emulação; a emulação, a virtude; a virtude proporciona o bem-estar. O louvor provocado pelas boas obras, acrescenta o Crisóstomo (id. ibid.), inspira o desejo de realizar obras ainda melhores; mas convém referir tudo a Deus, segundo a expressão de São Paulo: “Quem se gloria, glorie-se no Senhor” (1Cor 1, 31).
Quando os Santos são louvados, tornam-se mais santos, seja aumentando as suas virtudes, para se tornarem mais dignos dos louvores, seja humilhando-se cada vez mais pela humildade e elevando-se tanto mais para Deus, mediante contínuos e grandes agradecimentos. Com efeito, não se esquecem de que, por si mesmos, dada a sua natureza corrompida, nada têm de próprio senão a concupiscência e o pecado; e exclamam com o Profeta: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória: por vossa misericórdia e vossa verdade” (Sl 113, 9-10); e com Santo Inácio de Loyola: “Tudo para a maior glória de Deus” (In Vita).
Não proíbo a glória, pregava o Crisóstomo (Homil. 2, in Ept. ad Tit.), mas estimo aquela que não nos vem dos homens, e sim de Deus, que é a única verdadeira. Procuremos unicamente ser louvados por Deus; então desprezaremos tudo o que é humano. Que o homem vos louve ou não, nada importa em vosso prejuízo; e, se vos censura, não vos causa dano algum. Deve-se estimar somente o louvor que provém de Deus, assim como só se deve temer a censura que Deus inflige.