Legenda Áurea · Volume 5 · Capítulo 188

São Remígio S. Remigius

Vida de santo · 6 parágrafos · com a interpretação do nome · português, com o inglês de Caxton a um clique

Interpretação do nome

Remígio é dito de remige, que significa barqueiro ou remador. Ou é dito de remis, que são os instrumentos com os quais o navio é remado e conduzido, e de gyon, isto é, luta. Ele governou a Igreja e a guardou do perigo do naufrágio, conduzindo-a ao porto do céu. E pela Igreja lutou contra os assaltos do demônio.

São Remígio converteu à fé o rei e o povo da França. O rei tinha uma esposa chamada Clotilde, que era cristã, e ela se esforçou muito para converter o marido à fé cristã, mas não pôde. E, quando teve um filho, quis batizá-lo, mas o rei lho proibiu. Ela, porém, não descansou até que, por fim, o rei consentiu que ele fosse cristão; depois de batizado, morreu imediatamente. Então disse o rei: “Agora se mostra bem que Cristo é um deus vil, pois não pode conservar aquele que, tendo sido elevado em sua fé, deveria ser engrandecido em meu reino depois de mim.” E ela lhe disse: “Agora percebo bem que sou amada por meu Deus, porque ele recebeu o primeiro fruto do meu ventre; elevou meu filho a um reino melhor, para reinar perpetuamente, sem fim, o que é muito melhor que o teu reino.” Logo depois ela concebeu novamente e teve um belo filho, que batizou com muitas orações, como fizera com o primeiro; mas pouco depois ele adoeceu, de modo que já não tinham esperança de sua vida. Então o rei disse à sua esposa: “Certamente este é um deus fraco, que não pode conservar nem guardar ninguém que seja batizado em seu nome; e, se tivesses mil filhos e fizesses que fossem batizados, todos pereceriam.” Contudo, o menino reviveu e ficou são, de modo que reinou depois de seu pai; e a fiel rainha esforçou-se para conduzir o marido à fé, mas ele a recusou de todos os modos.

Diz-se, na outra festa que ocorre depois da Epifania, como o rei foi convertido à fé. E o referido rei Clóvis, quando foi batizado, disse que daria a São Remígio, para dotar sua igreja, tanta terra quanto pudesse percorrer ao redor enquanto dormisse ao meio-dia; e assim foi feito. Mas havia um homem que possuía um moinho dentro do circuito que São Remígio havia delimitado. E, quando São Remígio o percorria, o moleiro expulsou-o com grande indignação e grande desprezo. E São Remígio lhe disse

“Amigo, não te indignes, e não seja demasiado difícil que tenhamos também este moinho junto com os outros.” Contudo, o moleiro expulsou-o, e imediatamente a roda do moinho começou a girar ao contrário. Então o moleiro clamou por São Remígio e disse: “Servo de Deus, vem, e tenhamos o moinho em comum.” E São Remígio disse: “Não; ele não será nem meu nem teu.” E imediatamente a terra se abriu e tragou todo o moinho.

E São Remígio soube, pelo espírito de profecia e pela vontade de Deus, que viria uma grande fome, e reuniu numa cidade grande abundância de trigo. E os vilões embriagados da cidade zombaram e escarneceram dele por sua previdência, e puseram fogo aos celeiros. E, quando o soube, ele foi até lá; e, porque estava com frio devido à idade e seu último momento se aproximava depressa, sentou-se junto ao fogo e aqueceu-se, dizendo com coração pacífico: “O fogo é sempre bom.” Não obstante, aqueles que fizeram aquele fogo, e todos os homens de sua linhagem, tiveram os membros quebrados, e as mulheres ficaram atacadas de gota. E isso perdurou naquela mesma cidade até o tempo de Carlos, que os expulsou e os fez partir, dispersando-os assim.

E deve-se saber que a festa de São Remígio celebrada em janeiro é a festa de sua bem-aventurada morte e deposição, e esta é a festa da trasladação de seu bem-aventurado corpo. Pois, quando, depois de sua morte, o santo corpo devia ser levado, com o relicário, para a igreja de São Timóteo e Apolinário, ao chegarem perto da igreja de São Cristóvão, começou a pesar tanto que de modo algum puderam movê-lo dali. Por fim, rogaram a Nosso Senhor que se dignasse mostrar-lhes se era sua vontade que o corpo fosse sepultado naquela igreja, onde não repousavam relíquias. E então levantaram o corpo com bastante facilidade e o sepultaram ali honrosamente. E muitos milagres foram ali manifestados, de modo que ampliaram e tornaram a igreja mais espaçosa e grande.

E então fizeram um oratório atrás do altar, e quiseram cavar para colocar o corpo naquele oratório, mas de modo algum puderam movê-lo. Então ficaram em vigília e rezaram a Nosso Senhor; à meia-noite, todos caíram no sono, e pela manhã encontraram o sepulcro com o corpo no lugar, para onde os anjos o haviam levado enquanto dormiam. E isso ocorreu nas calendas de outubro; muito tempo depois, no mesmo dia, ele foi trasladado para um féretro ou relicário de prata. Floresceu por volta do ano de Nosso Senhor de quatrocentos e noventa.

Fonte: The Golden Legend or Lives of the Saints, compilada pelo Bem-aventurado Tiago de Varazze (Jacobus de Voragine, c. 1260), na versão inglesa de William Caxton (1483), edição Temple Classics de F. S. Ellis (1900), publicada em catholicapologetics.info. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico a partir do inglês de Caxton; o original de cada seção abre pelo botão Inglês, e o botão Ver original coloca o inglês ao lado do texto. Ler este capítulo dentro da obra completa.