Lucas quer dizer “erguendo-se” ou “elevando-se”. Ou Lucas é dito da luz: ele se elevava acima do amor do mundo e se elevava para o amor de Deus. E era também luz do mundo, pois iluminou o mundo inteiro pela santa pregação; e a esse respeito diz São Mateus, no quinto capítulo: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5). A luz do mundo é o sol, e essa luz tem altura em seu assento ou trono. E a esse respeito diz o Eclesiástico, no vigésimo sexto capítulo: “O sol que se ergue no mundo está nas alturas direitas de Deus; ele se deleita em contemplar” (Eclo 26). E, como se diz no Eclesiastes, no décimo primeiro capítulo: “A luz do sol é doce, e é deleitável aos olhos ver o sol” (Ecl 11). Ele tem rapidez em seu movimento, como se diz no Segundo Livro de Esdras, no quarto capítulo: “A terra é grande, e o céu é alto, e o curso do sol é veloz, e tem proveito em seu efeito”; pois, segundo o filósofo, o homem gera o homem, e o sol. E assim Lucas teve altura pelo amor das coisas celestes, deleite pela doce conversação, rapidez pela fervorosa pregação e utilidade, e proveito pela composição e pela escrita de sua doutrina.
Lucas era da nação da Síria e antioqueno pela arte da medicina; segundo alguns, foi um dos setenta e dois discípulos de nosso Senhor. São Jerônimo diz que ele foi discípulo dos apóstolos, e não de nosso Senhor; e a glosa sobre o vigésimo quinto capítulo do Livro do Êxodo dá a entender que ele não se uniu a nosso Senhor quando este pregava, mas veio à fé depois da ressurreição. Contudo, é mais provável que ele não tenha sido um dos setenta e dois discípulos, embora alguns sustentem que o foi. Mas era homem de grandíssima perfeição de vida e muito bem ordenado para com Deus, para com o próximo, para consigo mesmo e para com seu ofício.
E, como sinal dessas quatro espécies de ordenação, diz-se que ele foi representado com quatro faces, a saber: a face de homem, a face de leão, a face de boi e a face de águia; e cada uma dessas bestas tinha quatro faces e quatro asas, como se diz em Ezequiel, no primeiro capítulo. E, para que isso possa ser mais bem compreendido, imaginemos uma besta cuja cabeça seja quadrada, tendo uma face em cada lado, de modo que a face de homem esteja adiante; à direita, a face do leão; à esquerda, a face do boi; e atrás, a face da águia. E, porque a face da águia aparecia acima das outras, por causa do comprimento do pescoço, diz-se que essa face estava acima. E cada uma dessas quatro tinha quatro penas. Pois, sendo cada besta quadrada, como podemos imaginar, num quadrado há quatro cantos, e cada canto era uma pena.
Por essas quatro bestas, segundo dizem os santos, são significados os quatro evangelistas, cada um dos quais teve quatro faces em sua escrita, a saber: a humanidade, a paixão, a ressurreição e a divindade. Contudo, essas coisas são atribuídas singularmente a cada um. Segundo São Jerônimo, Mateus é significado pelo homem, pois foi especialmente levado a falar da humanidade de nosso Senhor. Lucas foi figurado no boi, pois tratou do sacerdócio de Jesus Cristo. Marcos foi figurado no leão, pois escreveu mais claramente sobre a ressurreição. Pois, como dizem alguns, os filhotes do leão parecem mortos até o terceiro dia; mas, ao rugido do leão, são levantados no terceiro dia. Por isso, Marcos começou com o clamor da pregação. João é figurado pela águia, que voa mais alto que as quatro, pois escreveu sobre a divindade de Jesus Cristo. Nele estão escritas quatro coisas: ele foi homem, nascido da Virgem; foi boi em sua paixão; leão em sua ressurreição; e águia em sua ascensão.
Por essas quatro faces mostra-se claramente que Lucas foi bem ordenado nessas quatro maneiras. Pela face de homem mostra-se que ele foi bem ordenado para com o próximo: como deveria ensiná-lo pela razão, atraí-lo pela mansidão e nutri-lo pela liberalidade, pois o homem é um animal racional, manso e liberal. Pela face de águia mostra-se que ele foi bem ordenado para com Deus, pois nele o olho do entendimento contemplava Deus; o olho do desejo dirigia-se a ele pelo pensamento e pelo efeito; e a velhice era afastada por uma nova conduta. A águia tem visão aguda, de modo que contempla bem, sem mover os olhos, o raio do sol; e, quando está muito alta no ar, vê claramente os pequenos peixes no mar. Tem também o bico muito curvo, de tal modo que fica impedida de tomar seu alimento; por isso o aguça e afia contra uma pedra, tornando-o adequado ao uso de sua alimentação. E, quando é queimada pelo sol quente, lança-se com grande força numa fonte, removendo a velhice causada pelo calor do sol, mudando as penas e afastando a escuridão dos olhos.
Pela face do leão mostra-se como ele foi ordenado para consigo mesmo. Tinha nobreza pela honestidade dos costumes e pela santa conversação; tinha sutileza para evitar as ciladas de seus inimigos; e tinha paciência para compadecer-se dos que eram atormentados pela aflição. O leão é uma besta nobre, pois é o rei dos animais. É sutil: quando foge, apaga com a cauda seus rastros e pegadas, para que não o encontrem; é paciente, pois suporta a febre quartã. Pela face do boi mostra-se como ele foi ordenado quanto ao seu ofício, que era escrever o Evangelho. Pois procedeu moralmente, isto é, pela moralidade: começou pela natividade e infância de Jesus Cristo e avançou pouco a pouco até sua consumação final. Começou discretamente, depois dos outros dois evangelistas, para que, se eles tivessem deixado alguma coisa, ele a escrevesse; e aquilo que eles tivessem dito suficientemente, ele deixasse. Era bem instruído, isto é, bem versado e formado nos sacrifícios e nas obras do templo, como aparece no princípio, no meio e no fim. O boi é uma besta moral e tem o pé fendido, pelo que se entende a discrição; e é uma besta própria para o sacrifício.
E, na verdade, como Lucas foi ordenado nessas quatro coisas, isso se mostra melhor na ordenação de sua vida. Primeiro, quanto à sua ordenação para com Deus. Segundo São Bernardo, ele foi ordenado de três maneiras: pelo afeto e desejo, pelo pensamento e pela intenção. O afeto deve ser santo, o pensamento puro e a intenção reta. Ele tinha afeto santo, pois estava cheio do Espírito Santo, como diz Jerônimo no prólogo sobre Lucas: “Ele entrou em Betânia cheio do Espírito Santo.” Em segundo lugar, tinha pensamento puro, pois era virgem tanto no corpo quanto na mente, no que se nota a pureza do pensamento. Em terceiro lugar, tinha intenção reta, pois em tudo o que fazia buscava a honra de Deus. E dessas duas últimas coisas se diz no prólogo sobre os Atos dos Apóstolos: “Era sem pecado e perseverou na virgindade”; isso diz respeito à pureza do pensamento. “Amava sobretudo servir a nosso Senhor”; isto é, para a honra de nosso Senhor, e diz respeito à retidão da intenção.
Em quarto lugar, foi ordenado para com o próximo. Somos ordenados para com o próximo quando fazemos aquilo que devemos fazer. Segundo Ricardo de São Vítor, há três coisas que devemos ao próximo: nosso poder, nosso conhecimento e nossa vontade; acrescente-se uma quarta, que é tudo o que podemos fazer. Nosso poder, ajudando-o; nosso conhecimento, aconselhando-o; nossa vontade, atendendo aos seus desejos; e nossas obras, prestando-lhe serviço. Quanto a essas quatro coisas, São Lucas foi bem ordenado, pois primeiro deu ao próximo seu poder, em auxílio e serviço. Isso aparece no fato de ter permanecido unido a Paulo em suas tribulações e não ter querido apartar-se dele, ajudando-o em suas pregações, como está escrito na Segunda Epístola de Paulo a Timóteo, no quarto capítulo: “Somente Lucas está comigo.” Ao dizer “está somente comigo”, significa que lhe era auxiliar, dando-lhe conforto e ajuda; e, ao dizer “somente”, significa que se uniu firmemente a ele. E diz, no oitavo capítulo da Segunda Epístola aos Coríntios: “Ele não está sozinho, mas foi escolhido pelas igrejas como companheiro de nossa peregrinação.”
Em segundo lugar, deu seu conhecimento ao próximo por meio de conselhos. Deu seu conhecimento ao próximo quando escreveu para seus semelhantes a doutrina dos apóstolos e do Evangelho, que conhecia. E disso ele mesmo dá testemunho no prólogo, dizendo: “Parece-me bem, e também a mim me parece justo, ó bom Teófilo, escrever-te ordenadamente, desde o princípio, para que conheças a verdade das palavras nas quais foste instruído.” E mostra-se bem que ele deu seu conhecimento em conselho aos próximos pelas palavras que Jerônimo diz em seu prólogo, a saber, que suas palavras são remédio para uma alma enferma.
Em terceiro lugar, deu sua vontade aos desejos do próximo; isso aparece no fato de desejar que eles tivessem saúde perdurável, como Paulo diz aos Colossenses: “Saúda-vos Lucas, o médico”; isto é: “Pensai em ter saúde perdurável”, pois ele a deseja para vós. Em quarto lugar, deu ao próximo sua obra em serviço. Isso aparece no fato de ter julgado que nosso Senhor era um estrangeiro, tê-lo recebido em sua casa e prestado a ele todo o serviço da caridade; pois, segundo alguns, era companheiro de Cléofas quando iam para Emaús. E Gregório diz em suas Moralia que Ambrósio afirma ter sido outro, cujo nome ele menciona.
Em terceiro lugar, foi bem ordenado para consigo mesmo. Segundo São Bernardo, há três coisas que ordenam muito bem o homem para consigo mesmo e o tornam santo: viver sobriamente, trabalhar retamente e ter um espírito manso. E, segundo São Bernardo, cada uma dessas três se divide em três. Viver sobriamente é viver em companhia, em continência e em humildade. A obra reta existe quando alguém é justo, discreto e frutuoso: justo pela boa intenção, discreto pela medida e frutuoso pela edificação. O espírito é manso quando nossa fé sente que Deus é o sumo bem, de tal modo que, por seu poder, cremos que nossa enfermidade é curada por sua força, nossa ignorância corrigida por sua sabedoria e nossa maldade apagada por sua bondade. Assim diz Bernardo: em todas essas coisas São Lucas foi bem ordenado.
Primeiro, teve vida sóbria de maneira tríplice, pois viveu em continência. Como testemunha São Jerônimo no prólogo sobre Lucas, nunca teve esposa nem filhos. Viveu em companhia, o que é significado no trecho em que se diz dele e de Cléofas, segundo a opinião antes mencionada: “Dois discípulos iam naquele mesmo dia”, e assim por diante. A companhia é significada quando se diz “dois discípulos”, isto é, bem instruídos. Em terceiro lugar, viveu humildemente; e essa humildade se mostra pelo fato de ter declarado o nome de seu companheiro, Cléofas, e não ter falado do próprio nome. Segundo a opinião de alguns, Lucas não mencionou seu nome por humildade.
Em segundo lugar, teve obra e ação retas. Sua obra era reta pela intenção, o que é significado em sua coleta, onde se diz: Qui crucis mortificationem jugiter in corpore suo pro tui nominis amore portavit — “Ele levou continuamente em seu corpo a mortificação da carne por amor de teu nome.” Foi discreto pela temperança; por isso foi figurado na forma de um boi, que tem o pé fendido, pelo qual se exprime a virtude da discrição. Foi também frutuoso pela edificação: era tão frutuoso para os próximos que era tido por muito querido de todos; por isso, na Epístola aos Colossenses, capítulo quarto, foi chamado pelo apóstolo “o muito amado”: “Saúda-vos Lucas, o médico.”
Em terceiro lugar, teve um espírito manso, pois creu e confessou em seu Evangelho que Deus é sumamente poderoso, sumamente sábio e sumamente bom. Quanto às duas primeiras coisas, diz-se no quarto capítulo: “Todos se admiravam de sua doutrina, pois sua palavra estava cheia de poder.” Quanto à terceira, aparece no décimo oitavo capítulo, onde diz: “Ninguém é bom senão Deus.”
Em quarto e último lugar, foi muito bem ordenado quanto ao seu ofício, que era escrever o Evangelho. Isso se mostra porque o referido Evangelho é enobrecido por muita verdade, cheio de grande proveito, adornado de muita beleza e autorizado por grande autoridade.
Primeiro, é enobrecido por muita verdade. Há três verdades: a da vida, a da justiça e a da doutrina. A verdade da vida é a concordância da mão com a língua; a verdade da justiça é a concordância da sentença com a causa; e a verdade da doutrina é a concordância da coisa com o entendimento. O Evangelho é enobrecido por essa tríplice verdade, e essa tríplice verdade é mostrada no Evangelho. Pois Lucas mostra que Jesus Cristo tinha em si essa tríplice verdade e que a ensinou aos outros; e mostra também que Deus tinha essa verdade pelo testemunho de seus adversários. Assim diz ele no vigésimo sétimo capítulo: “Mestre, sabemos bem que és verdadeiro e ensinas e dizes retamente”; isto é a verdade da doutrina. “Mas ensinas em verdade o caminho de Deus”; isto é a verdade da vida, pois a boa vida é o caminho de Deus.
Em segundo lugar, mostra em seu Evangelho que Jesus Cristo ensinou essa tríplice verdade. Primeiro, ensinou a verdade da vida, que consiste em guardar os mandamentos de Deus. Por isso se diz: “Amarás o Senhor teu Deus; faze isso e viverás.” E, quando um fariseu perguntou a nosso Senhor: “Que devo fazer para possuir a vida eterna?”, ele disse: “Não conheces os mandamentos? Não matarás; não furtarás; não cometerás adultério.” Em segundo lugar, é ensinada a verdade da doutrina. Por isso disse a alguns que pervertiam essa verdade, no décimo primeiro capítulo: “Ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã e de tudo o mais, e passais por cima da justiça e da caridade de Deus.” E, no mesmo capítulo: “Ai de vós, doutores da lei, que tomastes a chave da ciência.”
Em terceiro lugar, é ensinada a verdade da justiça, quando se diz: “Dai ao imperador o que pertence ao imperador, e a Deus o que deveis a Deus.” E ele diz no décimo nono capítulo: “Quanto àqueles que são meus inimigos e não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os diante de mim.” E diz no décimo terceiro capítulo, falando do juízo, que dirá aos reprovados: “Afastai-vos de mim, vós que praticastes a maldade.”
Em segundo lugar, seu Evangelho é cheio de grande proveito. Paulo e o próprio Lucas escrevem que ele era médico; por isso, em seu Evangelho é significado que ele preparou para nós um remédio muito proveitoso. Há três espécies de remédio: curativo, aperfeiçoador e preservativo. E esses três remédios mostra São Lucas em seu Evangelho, preparados pelo médico celeste.
O remédio curativo é aquele que cura a doença, e este é a penitência, que remove todas as enfermidades espirituais. Diz ele que o médico celeste nos preparou esse remédio quando afirma: “Curai os que têm o coração contrito e pregai aos cativos a remissão dos pecados.” E, no quinto capítulo, diz: “Não vim chamar os justos e os verdadeiros, mas os pecadores à penitência.”
O remédio aperfeiçoador é aquele que aumenta a saúde, e este é a observância dos conselhos, pois um bom conselho torna o homem melhor e mais perfeito. Esse remédio nos mostra o médico celeste quando diz, no décimo oitavo capítulo: “Vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres.”
O remédio preservativo é aquele que preserva da queda; consiste em evitar as ocasiões de pecado e as más companhias. Esse remédio nos mostra o médico celeste quando diz, no décimo segundo capítulo: “Guardai-vos do fermento dos fariseus”; e ali nos ensina a evitar a companhia dos perversos e dos homens maus.
Ou pode-se dizer que o referido Evangelho está repleto de grande proveito porque nele está contida toda virtude. Sobre isso diz Santo Ambrósio: “Lucas compreende em seu Evangelho todas as virtudes da sabedoria.” Ensinou a sabedoria histórica quando mostrou que a encarnação de nosso Senhor se fez pelo Espírito Santo. Davi, porém, ensinou a sabedoria natural quando disse: “Envia o teu Espírito, e eles serão criados.” Lucas ensinou também a sabedoria natural quando narrou as trevas feitas no tempo da paixão de Jesus Cristo, o tremor da terra e o fato de o sol ter retirado sua luz e seus raios. Ensinou a moralidade quando ensinou os costumes nas suas bem-aventuranças. Ensinou as coisas racionais quando disse: “Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes.” E, sem essa tríplice sabedoria, não pode haver o mistério da Trindade nem de nossa fé, a saber: sabedoria natural, racional e moral. É isso o que diz Santo Ambrósio.
Em terceiro lugar, seu Evangelho é adornado e embelezado por muita beleza, de modo que o estilo e a maneira de falar são muito honestos e belos. Há três coisas convenientes a isso, pelas quais alguns reconhecem honestidade e beleza nos discursos, como ensina Santo Agostinho: que agrade, que se mostre claramente e que mova. Para agradar, deve falar ornadamente; para se mostrar claramente, deve falar de modo evidente; para mover, deve falar fervorosamente. Lucas teve esse modo tanto na escrita quanto na pregação.
Quanto às duas primeiras coisas, diz-se no oitavo capítulo da Segunda Epístola aos Coríntios: “Enviamos com ele um irmão”; a glosa diz que era Barnabé ou Lucas, “cujo louvor está em todas as igrejas do Evangelho”. Ao dizer “cujo louvor”, significa que ele falava ornadamente; ao dizer “em todas as igrejas”, significa que falava de modo evidente. Que falava fervorosamente aparece quando disse: “Não ardia então o nosso coração dentro de nós, no amor de Jesus, quando ele nos falava pelo caminho?”
Em quarto lugar, seu Evangelho é autorizado pela autoridade de muitos santos. Que maravilha seria que fosse autorizado por muitos, quando foi primeiro autorizado pelo Pai? Sobre isso diz São Jerônimo, no trigésimo primeiro capítulo: “Eis que virão os dias, diz nosso Senhor, em que farei uma nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá, não segundo a aliança que fiz com seus pais; mas esta será a aliança, diz nosso Senhor: darei minha lei às suas entranhas.” E ele fala claramente, segundo a letra, da doutrina do Evangelho.
Em segundo lugar, foi confirmado pelo Filho, pois ele diz no mesmo Evangelho, no vigésimo primeiro capítulo: “O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão.” Em terceiro lugar, foi inspirado pelo Espírito Santo; sobre isso diz São Jerônimo no prólogo sobre Lucas: “Ele escreveu este Evangelho nas regiões da Acaia, por admoestação do Espírito Santo.”
Em quarto lugar, foi prefigurado pelos anjos, pois foi prefigurado pelo mesmo anjo de quem o Apóstolo diz no décimo quarto capítulo do Apocalipse: “Vi um anjo voando pelo meio do céu, trazendo o Evangelho eterno.” Diz-se “eterno” porque ele é tornado eterno, isto é, por Jesus Cristo.
Em quinto lugar, o Evangelho foi anunciado pelos profetas. O profeta Ezequiel anunciou antecipadamente este Evangelho quando disse que uma dessas bestas teria a face de um boi; por isso o Evangelho de São Lucas é significado como se disse acima. E, quando Ezequiel disse, no segundo capítulo, que tinha visto um livro escrito por fora e por dentro, no qual estava escrita uma lamentação, por esse livro entende-se o Evangelho de Lucas: escrito por dentro para ocultar o mistério de sua profundidade e por fora para mostrar a história. Nele também estão contidos o lamento da paixão, a alegria da ressurreição e o lamento da condenação eterna, como aparece no décimo primeiro capítulo, onde são colocados muitos “ais”.
Em sexto lugar, o Evangelho foi mostrado pela Virgem. Pois a bem-aventurada Virgem Maria guardou e conservou diligentemente todas essas coisas em seu coração, como se diz em Lc 2, para que depois as mostrasse aos escritores. Como diz a glosa, ela conhecia e conservava em sua mente todas as coisas que nosso Senhor Jesus Cristo fez e disse. Assim, quando era interrogada pelos escritores ou pelos pregadores sobre a encarnação e sobre todas as outras coisas, podia explicá-las suficientemente, tal como haviam acontecido na realidade.
Por isso São Bernardo dá a razão pela qual o anjo de nosso Senhor mostrou à bem-aventurada Virgem a concepção de Isabel. A concepção de Isabel foi mostrada a Maria por causa da vinda ora de nosso Salvador, ora de seu mensageiro, que veio antes dele. A causa pela qual ela guardou a ordenação dessas coisas foi para que pudesse mostrar melhor aos escritores e pregadores a verdade do Evangelho. Ela foi plenamente instruída, desde o princípio, nos mistérios celestes; e deve-se crer que os evangelistas lhe perguntaram muitas coisas, e que ela os certificou verdadeiramente.
E especialmente o bem-aventurado Lucas recorreu a ela como à arca do Testamento, sendo por ela informado de muitas coisas, sobretudo daquelas que lhe diziam respeito, como a saudação do anjo Gabriel, a natividade de Jesus Cristo e outras coisas que somente Lucas relata.
Em sétimo lugar, o Evangelho foi mostrado pelos apóstolos. Pois Lucas não esteve com Cristo em todos os seus atos e milagres; por isso escreveu seu Evangelho depois que os apóstolos, que haviam estado presentes, lhe mostraram e relataram essas coisas, como ele declara no prólogo, dizendo: “Assim como aqueles que desde o princípio o viram e foram ministros com ele, e ouviram suas palavras, me informaram e as transmitiram.”
E, porque é costume dar testemunho de duas maneiras — das coisas vistas e das coisas ouvidas —, diz-se que há testemunhos de coisas vistas e de coisas ouvidas. Por isso Santo Agostinho diz: “Nosso Senhor quis que houvesse duas testemunhas das coisas vistas: João e Mateus; e duas das coisas ouvidas: Marcos e Lucas.” E, porque o testemunho das coisas vistas é mais firme e mais certo que o das coisas ouvidas, Santo Agostinho diz: “Os dois Evangelhos que tratam das coisas vistas são colocados primeiro e por último; os outros, que tratam das coisas ouvidas, são colocados no meio, como se estivessem entre os dois mais fortes e mais certos.”
Em oitavo lugar, esse Evangelho foi maravilhosamente aprovado por São Paulo, quando ele apresenta o Evangelho de Lucas como confirmação de suas palavras e ensinamentos. Sobre isso diz São Jerônimo, no Livro dos Homens Ilustres, que alguns suspeitam que, sempre que São Paulo diz em suas epístolas “Secundum Evangelium meum”, isto é, “segundo o meu Evangelho”, esteja significando o volume de Lucas. E aprovou seu Evangelho quando escreveu sobre ele, em 2Cor 8: “Seu louvor está no Evangelho, em todas as igrejas.”
Lê-se na história de Antioquia que os cristãos foram sitiados por uma grande multidão de turcos, que lhes fizeram muitos males e os afligiram com fome e má sorte. Mas, quando se converteram plenamente a nosso Senhor por meio da penitência, um homem cheio de claridade, vestido de branco, apareceu a um homem que velava na igreja de Nossa Senhora, em Trípoli. E, quando este lhe perguntou quem era, respondeu que era Lucas, vindo de Antioquia, onde nosso Senhor havia reunido a cavalaria do céu e seus apóstolos para combater, em favor de seus peregrinos, contra os turcos. Então os cristãos tomaram coragem e derrotaram todo o exército dos turcos.