Entre os livros que nos permitem entrever o pensamento religioso popular da Idade Média, nenhum ocupa lugar mais importante que a Legenda Áurea, ou Lenda Dourada. O livro foi compilado e posto em forma por volta do ano de 1275 por Jacopo de Varazze, arcebispo de Gênova, que para esse propósito se valeu das Vidas dos Padres, de São Jerônimo, da História Eclesiástica de Eusébio e de outros livros do mesmo gênero; enquanto, para as vidas dos santos mais próximos de sua própria época, parece ter recolhido diligentemente todas as lendas que pôde encontrar, quer em manuscritos, quer transmitidas pela tradição oral. Todos os que viveram em tempos posteriores ficaram profundamente devedores ao homem que assim incorporou, para seu benefício e instrução, um retrato da atitude mental da época em que viveu. Se o estudo dessa obra não for absolutamente essencial, pode-se afirmar com segurança que será muito útil e proveitoso a todos os que desejam representar para si a fé de seus antepassados; e, em não pequena medida, ela lhes permitirá compreender mais plenamente a inspiração dos homens cuja fé encontrou expressão nas glórias e nos mistérios da arquitetura eclesiástica gótica.
Aos que podem percorrer as naves de uma grande catedral, de um priorado ou de uma igreja abacial, ou mesmo pisar as pedras mais humildes de uma antiga igreja paroquial, sem serem tocados por um sentimento de reverente assombro, as páginas da Lenda Dourada falarão em vão. Sua leitura não fará vibrar nenhuma corda correspondente em seus corações. Mas, para aqueles que, qualquer que seja o seu credo, jamais põem os pés nesses registros do passado escritos em pedra sem um sentimento de temor reverente e veneração, mesclado a um sincero desejo de compreender algo do espírito que deles emana, e ao desejo de saber o que foi que tanto atuou nas mentes de seus criadores a ponto de produzir a Galeria dos Músicos em Exeter, o Pórtico Sul em Lincoln, a Galileia em Durham, os vitrais em York, a Janela Oriental em Wells e mil outras maravilhas — sem falar das glórias ainda maiores que nos aguardam nas magníficas igrejas da França, as quais, mesmo depois de séculos de destruição, abandono e maus-tratos, ainda nos impressionam com assombro e admiração —, as histórias da Lenda Dourada serão uma nova revelação de valor inestimável. Os cachorros das cornijas e das abóbadas dos claustros, que nos contemplam do alto com uma beleza singular e terna, e as estranhas gárgulas, às vezes monstruosas ou demoníacas, dos exteriores, terão um significado novo e mais amplo se nos permitirmos penetrar inteiramente no espírito do livro que temos diante de nós.
Parecer-nos-á ouvir o majestoso desenrolar dos solenes cânticos do Advento e os júbilos do Natal, as súplicas penitenciais do tempo da Quaresma e os cânticos triunfais da Páscoa, enquanto lemos as eloquentes passagens dedicadas a esses tempos sagrados, ainda que o estilo seja tal que os ouvidos modernos pouco estejam acostumados a ele e, por isso, possa às vezes parecer, sobretudo na primeira leitura, mais ou menos áspero e obscuro.
Os amantes do pitoresco dificilmente deixarão de se encantar com narrativas tão maravilhosas quanto as da infância de Moisés e a história de Pôncio Pilatos, que o autor francamente registra como ‘apócrifa’; enquanto o estudioso do folclore encontrará um campo rico para lhe despertar o interesse, num território até agora pouco explorado.
Em histórias como a de São Brandão, permanecemos por algum tempo num verdadeiro país das maravilhas. As vidas de São Jerônimo, São Macário, Santo Antão, Santa Maria do Egito e outros santos do deserto leem-se como ecos de outro mundo, tão afastadas estão dos hábitos modernos de pensamento, fé e prática; ao passo que as de São Francisco, São Domingos e São Tomás de Cantuária trazem diante de nossos olhos a vida da Idade Média com vivacidade não menor que as narrativas da Gesta Romanorum ou as criações sempre vivas de Geoffrey Chaucer. Verdadeiramente, há uma colheita abundante para os que desejam ceifar. Tendo lido cada página com grande atenção seis vezes, e com interesse jamais diminuído, no curso da edição de duas edições, posso testemunhar a atração que o livro exerce sobre quem ama os maravilhosos registros dos tempos antigos.
Embora não pareça ter estado entre os primeiros livros impressos, a Legenda Áurea mal foi posta em tipos quando, com surpreendente rapidez, começaram a surgir edição após edição. Provavelmente nenhum outro livro foi reimpresso com maior frequência entre os anos de 1470 e 1530 que a compilação de Jacobo de Varazze. E, embora tenham surgido inúmeras edições em latim, ela também foi traduzida para a língua vulgar da maior parte das nações da Europa, geralmente com alterações e acréscimos de acordo com as preferências hagiológicas das diferentes nacionalidades. É de uma antiga tradução francesa que nos ocupamos principalmente, e da qual a versão de Caxton é uma tradução bastante próxima. O livro francês em questão é um grande volume in-fólio de quatrocentas e quarenta e três folhas, impresso em colunas duplas, com quarenta e quatro linhas por página. Somente dois exemplares dele são conhecidos neste país: um no Museu Britânico e outro na Biblioteca da Universidade de Cambridge. É claro que pode haver exemplares escondidos em bibliotecas estrangeiras, mas não consegui ter notícia de nenhum. O volume não traz indicação alguma do lugar de impressão, da data ou do impressor, e, até muito recentemente, esses dados haviam desafiado as pesquisas e conjecturas dos bibliógrafos; ultimamente, porém, o sr. R. Proctor, do Museu Britânico, conseguiu identificar o tipo como proveniente da oficina de Peter Keyser, rival de Anthony Vernard em Paris. Ele contém as vidas de muitos santos franceses que não estão incluídas na obra de Varazze, notavelmente as de Santa Genoveva e São Luís.
Uma prova convincente de que este é o livro a que Caxton se refere em seu prefácio como “uma lenda em francês” é fornecida pelo fato de que, onde o impressor deixou sem correção erros grosseiros de impressão em seu texto, o tradutor o seguiu cegamente, sem qualquer tentativa de lhes dar sentido. O exemplo mais curioso disso ocorre na explicação da suposta etimologia do nome de Santo Estêvão. O impressor francês transformou o francês antigo, que deveria ter lido “fames venues” (femmes veuves, “mulheres viúvas”), em “seine venues”, que Caxton tenta traduzir por “hole comen” (“todos vieram”), sem se importar com o fato de que isso não tem sentido algum. Raramente se tentou, por princípio, purificar o presente texto de suas obscuridades mediante alterações; mas, neste caso, às palavras sem sentido “hole comen” foram substituídas as palavras “mulheres viúvas”, de acordo com o latim, ao qual Caxton parece nunca ter se dado ao trabalho de recorrer. Novamente, na vida de Santa Genoveva, a versão francesa contém o erro tipográfico “a name” em lugar de “a navire”, que o tradutor simplesmente verte por “at name”; e, nas edições posteriores, isso se transforma em “at none”, sem produzir sentido algum. Essa expressão foi alterada para “por navio”, por ser esse o significado evidente. O texto foi corrigido em um ou dois outros casos em que uma ligeira alteração tornou inteligível uma passagem; mas, como já disse, não houve tentativa de esclarecer as obscuridades em geral nem de interferir na linguagem do tradutor.
O leitor atento dificilmente deixará de notar a diferença entre o estilo das histórias bíblicas, que suponho terem vindo da “Legenda em inglês” mencionada por Caxton em seu prefácio, e o da obra do tradutor, com grande vantagem para as primeiras. O resumo é, na verdade, feito com mão de mestre. A vida de São Tomás de Cantuária é novamente um espécime de inglês vigoroso e claramente redigido, e provavelmente também foi tomada da “Legenda em inglês”.
Embora Caxton fale de si mesmo como o tradutor, e tenhamos vislumbres pessoais dele nas anedotas que relata em “A Circuncisão de Nosso Senhor”, “A História de Davi” e “A Vida de Santo Agostinho”, dificilmente se pode supor que ele tenha trabalhado na tradução do livro inteiro. Com efeito, parece ter empregado alguém cujo conhecimento do francês era consideravelmente menor do que aquele que estamos dispostos a atribuir-lhe, tendo em vista sua longa residência na Flandres francesa. Também dá peso à sugestão de que ele se valeu de auxílio externo na obra de tradução a sua afirmação especial ao final da vida de São Roque: “vida que foi traduzida do latim para o inglês por mim, William Caxton”.
Pode-se observar, como curiosa coincidência bibliográfica e histórica, que, enquanto Wynken de Worde se ocupava de imprimir em Londres a última das edições inglesas antigas da Legenda Áurea, William Tyndale trabalhava ativamente em Colônia, tentando pôr em tipos a primeira das incontáveis edições do Novo Testamento inglês. A antiga ordem cede lugar à nova.