João, abade, depois de ter vivido quarenta anos no deserto com Epísio, perguntou a Epísio quanto havia aproveitado; e ele respondeu: “Durante todo o tempo em que fui solitário, jamais houve sol que me visse comer.” E João disse: “Nem a mim, quando estava irado.” Do mesmo modo, lê-se que, quando Epifânio, o bispo, ofereceu carne ao abade Hilário, este disse: “Perdoa-me, pois, desde que tomei este hábito, nunca comi carne nem ave.” Ao que o bispo respondeu: “E, desde que tomei o meu hábito, nunca permiti que dormisse alguém que tivesse alguma coisa contra mim, nem eu dormi enquanto estive em desacordo com outro.” Ao que Hilário disse: “Pai, perdoa-me, pois és melhor do que eu.” João quis viver à maneira dos anjos e sempre se dedicava a servir a Deus, sem fazer qualquer outra coisa; então despojou-se e passou uma semana inteira no deserto. Quando estava quase morto de fome e todo picado por abelhas e vespas, voltou à porta de seu irmão e bateu. Este perguntou: “Quem és?” E ele respondeu: “Sou João.” O outro disse: “Não és ele, pois João se tornou um anjo e não está entre os homens.” E João disse: “Verdadeiramente sou eu”; mas, apesar disso, deixou-o ali até a manhã seguinte. Então abriu-lhe a porta e disse: “Se és homem, é necessário que trabalhes novamente para te alimentar; e, se és anjo, por que desejas entrar aqui?” E João disse: “Ó irmão, perdoa-me, pois pequei.” Quando estava para morrer, seus irmãos lhe rogaram que lhes deixasse, em lugar de herança, uma palavra de salvação, e que fosse breve. Então ele suspirou e disse: “Nunca fiz a minha própria vontade, nem jamais fiz algo a outro sem primeiro fazê-lo eu mesmo.” Isto está nas Vidas dos Padres.