1. Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Quem de vós terá um amigo [e irá procurá-lo à meia-noite e lhe dirá: Amigo, empresta-me três pães, porque um amigo meu chegou de viagem à minha casa e não tenho o que lhe oferecer; e aquele, respondendo de dentro, dirá: Não me incomodes; a porta já está fechada, e meus filhos estão comigo na cama; não posso levantar-me e dar-te. E se aquele perseverar batendo, digo-vos: ainda que não se levante para lhos dar por ser seu amigo, contudo, por causa de sua importunação, levantar-se-á e lhe dará quantos forem necessários. E eu vos digo: Pedi, e vos será dado; buscai, e encontrareis; batei, e vos será aberto. Qual de vós, se pedir pão a seu pai, lhe dará uma pedra? Ou, se pedir um peixe, lhe dará uma serpente em vez do peixe? Ou, se pedir um ovo, lhe oferecerá um escorpião? Se, portanto, vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas a vossos filhos, quanto mais o vosso Pai celeste dará o bom Espírito aos que lho pedem!”] (Lc 11,5-13).
Neste evangelho são postos em evidência três temas: o pedido do pão, a insistência na oração, o amor do pai pelo filho.
2. A petição do pão, como naquele trecho: “Qual de vós terá um amigo?”. Vejamos o que significam estas seis coisas: o amigo, a noite, os três pães, o amigo que vem da viagem, a porta e as crianças.
O amigo, em latim amicus, como que ‘custódio da alma’, é Jesus Cristo, que, se não guardar a alma, em vão vigia quem a guarda (cf. Sl 126,1). Sobre ele diz o Eclesiástico: “Um amigo fiel é uma forte proteção; quem o encontra, encontra um tesouro. Nenhuma comparação há com um amigo fiel, e não há peso de ouro e prata que se possa contrapor ao valor de sua fidelidade” (Eclo 6,14-15); e no capítulo IX: “Não abandones”, diz, “o amigo antigo; pois o novo não será semelhante a ele” (Eclo 9,14), isto é, o diabo, que se compraz com a novidade. Verdadeiramente nosso amigo é Jesus Cristo, que nos amou a tal ponto que entregou sua vida por nós (cf. Gl 2,20). Ó, quão fiel seria teu amigo aquele que, vendo-te colocado no momento da morte, se oferecesse por ti e assumisse de bom grado sobre si a tua enfermidade e a tua morte!
Lê-se nas Coisas Naturais que o calandra (a cotovia), ave toda branca, cujas entranhas curam a névoa dos olhos, fixa o olhar num enfermo, se este deve viver, o que é sinal de sua saúde; então a própria ave se aproxima do rosto do enfermo, absorve sua enfermidade e a recebe em si, e depois voa para o ar e ali, nos raios ardentes do sol, consome-a por inteiro. Assim Cristo, nosso amigo, todo branco, porque inteiramente livre de qualquer mancha de pecado, com o sangue que fluiu da abertura de seu lado curou a névoa de nossa alma, que antes não podia ver claramente. Por isso se diz que o sangue extraído do lado de uma pomba remove a mancha do olho. Ele, com os olhos de sua misericórdia, fixou o olhar na humanidade enferma, e isso foi sinal de nossa salvação; aproximou-se de nós, assumiu nossa enfermidade, subiu à cruz e ali, no calor ardente da Paixão, consumiu nossos pecados. Foi, portanto, verdadeiramente nosso amigo, daquele de quem se diz: “Qual de vós terá um amigo e irá até ele à meia-noite?” (Lc 11,5).
A noite, assim chamada porque prejudica os olhos, é a tribulação ou a tentação, que impede o olho da razão. Dela diz Jó: “Seja solitária aquela noite, e não seja digna de louvor” (Jó 3,7). A noite da tentação é solitária quando não encontra consentimento no homem; e não é digna de louvor quando o homem não a acolhe nem a aprova. Associa-se à tentação e a louva aquele que, quando ela chega, a acolhe e, depois de acolhida, compraz-se nela na imaginação da mente. Nesta noite deves ir a Cristo, teu amigo, e dizer-lhe: “Amigo, empresta-me três pães” (l. c.).
Os três pães simbolizam a tríplice graça da compunção. A primeira consiste na lembrança da própria fragilidade ou iniquidade; a segunda, na consideração do exílio presente; a terceira, na contemplação do Criador. Pede que estes três pães lhe sejam emprestados. Emprestar é dar algo com a condição de que seja devolvido. Tudo o que temos da graça recebemos de Deus e a ele devemos devolver. “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória” (Sl 116B,1). És pobre e não tens o pão da compunção: pede-o emprestado ao amigo, com a condição de lhe devolver aquilo que dele recebeste.
“Porque”, diz, “um amigo meu chegou a mim vindo da viagem, e não tenho o que pôr diante dele” (Lc 11,6). O amigo que vem da viagem representa nossa alma, que, todas as vezes que se afasta em busca das coisas temporais, se aparta de nós; retorna quando medita nas coisas celestes e deseja revigorar-se com o alimento celestial. Não tem diante de si o que apresentar, porque à alma que, depois das trevas, suspira por Deus, nada agrada senão pensar, falar e contemplar somente a Deus. Quando a alma começa a reconhecer a única alegria da Trindade, que também pode ser representada nos três pães, empenha-se em contemplá-la mais profundamente e em alcançar essa alegria.
3. Segue-se: “Mas ele, respondendo de dentro, diga: Não me incomodes; a porta já está fechada, e meus filhos estão comigo na cama” (Lc 11,7). O mesmo amigo nosso está dentro, e nós, miseráveis, ainda permanecemos fora, porque fomos afastados da presença do seu olhar, na miséria do exílio presente; permanecemos fora e, por isso, devemos clamar: “Amigo, empresta-me três pães”. Pede que lhe sejam emprestados os pães aquele que sofre muitas aflições. Eis que, no meio da noite e em extrema necessidade de pão, está fora, diante da porta fechada, clama e ouve: “Não me incomodes”, isto é, não devo perturbar-me com as tuas súplicas, “porque a porta está fechada”.
Algo semelhante se encontra no Deuteronômio: “Seja de bronze o céu que está acima de ti, e de ferro a terra que pisas. O Senhor dê à tua terra pó em lugar de chuva, e do céu desça sobre ti cinza, até que sejas esmagado” (Dt 28,23-24). A porta está fechada e o céu se torna de bronze quando o raio da graça divina não ilumina a mente do homem, cuja oração não penetra no céu que, para ele, se tornou de bronze. “Puseste”, diz, “uma nuvem para que a oração não passasse” (Lm 3,44). Com efeito, se o céu fosse de bronze, o sol não o iluminaria nem a chuva desceria, e assim os homens permaneceriam nas trevas e morreriam de seca. Do mesmo modo, quando se fecha a porta ou o céu da graça celeste, o pecador permanece nas trevas da consciência e fica privado da chuva da compunção; a terra que pisa, isto é, a vida ativa, na qual trabalha e sua, torna-se de ferro quando dela não colhe fruto algum de consolação, mas apenas frieza e dureza de mente. Pois o ferro é frio e duro. Dá-se pó à terra em lugar de chuva quando, em vez da efusão das lágrimas, é dado à pobre alma o pó de pensamentos miúdos e fúteis, pelos quais ela fica como que cega. Cinza desce sobre ela quando busca somente as coisas mortais e caducas, pelas quais é atormentada e destruída. Eis quanto sofrimento e angústia! Na vida contemplativa, nenhuma doçura; na ativa, nenhuma consolação; na oração, o obscurecimento da mente; diante das coisas temporais, o desvio.
Mas deve-se acaso desesperar? Deve-se acaso desistir da oração? De modo algum. E ainda que a porta da graça celeste esteja fechada, talvez por causa dos nossos pecados, ou para nos estimular ainda mais a implorar e suplicar. E ainda que as crianças, isto é, os espíritos angélicos, por meio dos quais Deus infunde os dons da sua graça e concede consolação na tribulação, estejam com ele na cama, isto é, no repouso eterno, porque não saem para nos servir — a respeito deles diz o Apóstolo aos Hebreus: “Não são todos espíritos servidores, enviados para servir em favor daqueles que hão de receber a herança da salvação?” (Hb 1,14) —, deve-se, não obstante, cessar de pedir o pão? “Não posso”, diz, “levantar-me e dar-te”. A Glosa observa: Não tira a esperança de obter, mas, mostrando a dificuldade de alcançar, acende com maior veemência o desejo de orar.
“E se ele perseverar batendo, digo-vos” etc. A Glosa comenta: Se o amigo homem se levanta e dá os pães, impelido não pela amizade, mas pelo incômodo, quanto mais Deus, que sem se enfadar concede com a máxima liberalidade aquilo que se pede. Portanto, para que a nossa alma, convertida da vaidade do erro, não definhe por mais tempo pela falta de aspirações espirituais, peçamos os pães, procuremos o amigo que os dê, batamos à porta onde se guardam as coisas ocultas. Grande esperança dá aquele que, prometendo, não engana. “Por causa de sua importunação”, diz, “ele se levantará”, porque o esforço obstinado vence todas as dificuldades, “e lhe dará”, pela inspiração da sua graça, “quantos lhe forem necessários”, ainda que não tantos quantos ele alguma vez desejasse.
4. A insistência na oração, como em: “E eu vos digo: Pedi, e vos será dado” (Lc 11,9). Por isso, Zacarias 10: “Pedi ao Senhor a chuva no tempo serôdio, e o Senhor fará cair a neve; e lhes dará chuvas abundantes, a cada um, erva no campo” (Zc 10,1). Na neve, que é branca e fria, é figurada a pureza da castidade; na chuva abundante, a devoção da compunção acompanhada de lágrimas; na erva, a compaixão pela necessidade dos irmãos, que sempre deve verdejar no campo de nosso coração. Estas três coisas devemos pedir ao Senhor, ainda que não de manhã cedo, ao menos ao entardecer, isto é, mais tarde, visto que antes de tudo deveríamos buscar o reino de Deus e a sua justiça (cf. Mt 6,33; Lc 12,31). Os mundanos pedem primeiro as coisas terrenas e, por último, as eternas, quando antes deveriam começar pelo céu, onde está o nosso tesouro e, por isso, também deveria estar o nosso coração (cf. Mt 6,21; Lc 12,34) e o nosso pedido.
“Buscai, e encontrareis” (Lc 11,9). Por isso, a esposa, no Cântico dos Cânticos, diz: “Levantar-me-ei e percorrerei a cidade; pelas ruas e praças procurarei aquele que minha alma ama” (Ct 3,2). A cidade é a pátria celeste, na qual há ruas e praças, isto é, ordens angélicas menores e maiores. A alma, ao levantar-se, isto é, ao elevar-se acima das coisas terrenas, percorre-as quando contempla o ardente amor dos serafins por Deus, quando contempla a sabedoria dos querubins em relação a Deus, e assim também os demais coros angélicos; entre eles, procura o seu esposo. Mas, como ele é muito mais alto que todos, não o encontra; por isso, é necessário que ela ultrapasse, pela contemplação da mente, as sentinelas, isto é, os espíritos celestes, para poder encontrar o amado.
“Buscai”, portanto, “e encontrareis”. Por isso, Sofonias 2: “Buscai o Senhor, vós todos, humildes da terra, que praticastes os seus preceitos; buscai a justiça, buscai a mansidão, para que de algum modo vos escondais no dia de seu furor” (Sf 2,3). E Amós 5: “Buscai o Senhor e vivereis. Não busqueis Betel, não entreis em Gálgala e não passeis por Bersabéia” (Am 5,4-5). Os filhos de Israel haviam feito bezerros de ouro e os colocado em Betel, para adorá-los naquele lugar (cf. 3Rs 12,32). No ouro é figurado o esplendor da glória temporal; no bezerro, a luxúria da carne. Estas coisas, “não as busqueis. E em Gálgala”, que se interpreta como “lamaçal”, isto é, a lama da luxúria, na qual os porcos se revolvem, “não entreis. E em Bersabéia”, que se interpreta como “sétimo poço”, isto é, o abismo da avareza, que não tem fundo, assim como se lê que o sétimo dia não tem fim, “não passeis. Buscai, portanto, o Senhor enquanto pode ser encontrado; invocai-o enquanto está perto” (Is 55,6).
5. Por isso, segue-se: “Batei, e vos será aberto”. Por isso, diz-se nos Atos XII: “Pedro continuava batendo. Quando, porém, abriram a porta, viram-no e ficaram pasmos” (At 12,16). Pedro, libertado da prisão por meio de um anjo, significa aquele que, pela graça de Deus, foi tirado da prisão do pecado. Este deve bater com perseverança à porta da corte celeste, e então os anjos lhe abrirão, isto é, oferecerão diante de Deus a sua oração devota; e a estupefação deles, por assim dizer, é a alegria que têm pelo pecador que faz penitência (cf. Lc 15,10).
6. Sobre o filho, o amor do pai, como naquele texto: “Qual de vós, se o filho lhe pedir pão...” (Lc 11,11) etc. Vejamos o que significam estas seis coisas, contrapostas entre si: o pão e a pedra, o peixe e a serpente, o ovo e o escorpião.
O pão, assim chamado porque é posto junto com todo alimento, é a caridade, que deve acompanhar todo alimento de boa ação. “Tudo”, diz ele, “seja feito na caridade” (1Cor 16,14). Assim como sem pão a mesa parece pobre, assim, sem a caridade, as demais virtudes nada são, pois se aperfeiçoam somente na caridade. A esse respeito, diz o Levítico: “Comereis o vosso pão até vos fartardes e habitareis sem temor na vossa terra” (Lv 26,5). Aqui o Senhor promete duas coisas que teremos perfeitamente no futuro: a saciedade da caridade, pela qual a alma será saciada, e a paz da terra, isto é, da nossa carne. Todo cristão, filho da graça, deve pedir este pão a Deus Pai, para amar acima de tudo a Deus e o próximo como a si mesmo. Por isso diz: “Dai-nos hoje o nosso pão cotidiano” (Lc 11,3).
“Acaso lhe dará uma pedra?” (Lc 11,11). A esse respeito, diz Jó: “Um torrente separa a pedra da escuridão e a sombra da morte do povo peregrino” (Jó 28,3-4). A torrente é a compunção das lágrimas, que separa a pedra da escuridão, isto é, a dureza da mente obscurecida, e a sombra da morte, isto é, o pecado mortal, que provém do diabo, cujo nome é Morte (cf. Ap 6,8), do povo peregrino, isto é, dos penitentes, que se consideram peregrinos neste exílio. Portanto, ao filho que pede a caridade, Deus Pai não dá a dureza do coração; antes, ele a remove. “Tirarei de vós”, diz, “o coração de pedra”, que não sente, “e vos darei um coração de carne” (Ez 36,26), que sente dor.
“Ou um peixe” (Lc 11,11). O peixe é a fé nas coisas invisíveis. Assim como o peixe nasce, vive e se alimenta sob o véu das águas, assim a fé em Deus é gerada invisivelmente no coração, é consagrada pela graça invisível do Espírito por meio da água do Batismo, é alimentada pelo auxílio invisível da proteção divina, para que não desfaleça, e, tendo em vista as recompensas invisíveis, realiza todo o bem de que é capaz. Ou ainda: a fé é comparada ao peixe porque, assim como ele é golpeado pelas frequentes ondas do mar, mas não morre, assim a fé não se quebra nas adversidades. Todo cristão deve pedir este peixe a Deus Pai, dizendo: Concedei-me viver e morrer na fé dos vossos apóstolos e da vossa santa Igreja católica.
7. “Acaso lhe dará uma serpente em lugar do peixe?” (Lc 11,11). A serpente é assim chamada porque se aproxima ocultamente, rastejando. Toda serpente é fria por natureza e não ataca senão quando se aquece. Alguns dizem que as serpentes nascem da medula espinhal de um homem morto. Conta-se, porém, que ela morre se lhe lançarem por cima folhas de espinheiro. Diz-se também que, se vir um homem nu, teme-o; mas, se o vir vestido, atira-se contra ele. E as serpentes apreciam muito o vinho, comem carne e ervas, e sugam a umidade do animal ao qual se apegam. A serpente é o diabo, que se aproxima ocultamente para tentar; ou ainda a sua infidelidade, que se alastra como câncer. O diabo, por sua malícia inata, é frio; mas, inflamado pelo ardor de fazer o mal, procura infundir o veneno da infidelidade nas almas dos fiéis, os únicos que vivem. Todos os outros, porém, estão mortos, porque foram exterminados pelo veneno da infidelidade, que nasce em seu coração e dele sai para matar também os outros. Mas graças a Deus, que nos deu um remédio contra esse veneno: as folhas do espinheiro. O espinheiro que ardia e não se consumia (cf. Ex 3,2) é a humanidade de Jesus Cristo, a qual, quase toda coberta de espinhos, ardeu no fogo da Paixão, mas não foi consumida: “Secou-se como um caco a minha força” (Sl 21,16); suas folhas, isto é, suas palavras, matam a serpente, ou seja, o diabo e a sua infidelidade.
O diabo teme o homem nu, isto é, o pobrezinho de Cristo, despojado dos bens temporais; mas, quando vê o homem vestido, isto é, avaro, envolto em bens temporais, atira-se contra ele, ou seja, assedia-o fortemente com tentações e, quanto pode, infunde-lhe o veneno. Ou então: nu é aquele que não possui a veste da própria vontade; dele se diz, no Evangelho de Marcos, que o cego, “lançando fora o seu manto, saltou e foi até Jesus” (Mc 10,50). Quem deseja receber a luz e chegar à salvação deve lançar para longe a própria vontade. Mas aquele que se veste com a veste da própria vontade, imediatamente o diabo se atira contra ele. Isso se evidencia em Adão: enquanto permaneceu na obediência, o diabo o temeu: “Ambos estavam nus e não se envergonhavam” (Gn 2,25); mas, quando se cobriu com a veste da própria vontade, a serpente se atirou contra ele: “Quando perceberam que estavam nus, costuraram folhas de figueira e fizeram para si cinturas” (Gn 3,7).
Além disso, o diabo aprecia muito o vinho da luxúria, e a carne, isto é, a carnalidade da gula; também incorpora de bom grado as ervas, isto é, o esplendor da glória temporal; e suga e extrai a umidade, isto é, a compunção da mente, do homem ao qual se apega por meio do consentimento. Tal serpente Deus Pai não a dá a seu filho que lhe pede um peixe; ao contrário, de um infiel faz um fiel e o converte da morte para a vida.
8. “Ou se lhe pedir um ovo” (Lc 11,12), no qual é figurada a certeza da nossa esperança, porque no ovo se vê o feto ainda não perfeito, mas espera-se, aquecendo-o, que chegue à maturidade. O ovo é assim chamado porque é úmido — com efeito, interiormente está cheio de umidade. Assim, aquele que tem esperança dos bens eternos está cheio da umidade da devoção. Diz-se nas coisas naturais que os ovos se diferenciam quanto à forma, pois alguns são pontudos e outros largos. Os ovos longos, de extremidade pontuda, produzem machos; os redondos, porém, produzem fêmeas e têm as extremidades obtusas. Há também os ovos de vento, que não geram pintinhos: são pequenos e insípidos. Quando os trovões sobrevêm durante o tempo da incubação, estragam os ovos. Nos ovos pontudos é figurada a esperança dos bens eternos. “Esquecendo-me do que fica para trás”, diz o Apóstolo, “lanço-me para o que está adiante” (cf. Fl 3,13). No comprimento, ou na ponta do ovo, é assinalado o desejo da alma, que espera o reino celeste. De tal ovo é gerado um macho, isto é, uma obra virtuosa. Nos ovos largos ou redondos, porém, é figurada a esperança que se refere às coisas transitórias, se é que pode ser chamada esperança. “Pois o que alguém vê, como pode esperá-lo?” (Rm 8,24). Neles há, com efeito, o caminho largo que conduz à morte (cf. Mt 7,13); e: “Ao redor andam os ímpios” (Sl 11,9). “Meu Deus, faze-os como uma roda” (Sl 82,14). De tal ovo é gerada uma fêmea, isto é, uma obra efeminada. Tal esperança é obtusa, isto é, obscura, porque ama mais as trevas que a luz (cf. Jo 3,19). Ela é figurada no ovo de vento, porque é vã e cheia de vento. Por isso diz Oseias: “Semearam vento e colherão tempestade” (Os 8,7). Tal semente, tal fruto, porque os que semeiam a vaidade colherão a condenação. A esperança do vento não produz o fruto da caridade: é pequena, porque não cresce em Deus; insípida, porque sua sabedoria não está temperada pelo sabor divino.
Do mesmo modo, quando os trovões, isto é, as tentações da prosperidade ou da adversidade, irrompem no início da nova conversão ou da nova vida, costumam corromper os ovos da esperança e do santo propósito. O filho da graça deve, portanto, pedir ao Pai das misericórdias o ovo da esperança dos bens eternos, porque, como diz Jeremias: “Bendito o homem que confia no Senhor, e o Senhor será a sua confiança” (Jr 17,7).
9. “Acaso lhe dará um escorpião?” (Lc 11,12). Assim como se deve temer o aguilhão venenoso que o escorpião tem atrás, também é contrário à esperança olhar para trás, pois a esperança se estende para aquilo que está adiante, isto é, para os bens futuros. O escorpião, que tem a propriedade de não ferir a palma da mão, lisonjeia com a boca, mas golpeia com a cauda, na qual possui dois aguilhões, e injeta veneno. A palma é assim chamada porque é limpa de pelos. A mão significa a boa obra; a palma, a reta intenção na obra. O pelo na palma ou no olho significa a perversidade da intenção. “Se o teu olho”, isto é, a tua intenção, “for simples, todo o teu corpo”, isto é, a tua obra, “será luminoso” (Lc 11,34). O escorpião é o diabo, que lisonjeia por meio da sugestão, mas no fim golpeia com o duplo aguilhão da cauda, porque no presente infesta de pecado o corpo e a alma e depois pune ambos. Feliz, pois, aquele que, na mão de sua obra, tem a palma da reta intenção, que o diabo não pode ferir. Com efeito, a palma pura da intenção purifica e embeleza o rosto e todo o corpo.
Segue-se: “Se, portanto, vós, embora sejais maus” (Lc 11,13) etc. Toda criatura é má diante da bondade divina, porque “ninguém é bom senão somente Deus” (Lc 18,19). A comparação é muito apropriada. Com efeito, se o homem pecador, ainda oprimido pela fragilidade da carne, não se recusa a dar bens temporais aos filhos que lhos pedem, quanto mais o Pai celeste concede aos filhos, dotados de seu temor e amor, os bens imperecíveis nos céus. Digne-se concedê-los também a nós aquele que é bendito pelos séculos. Amém.
10. “Vieram de Siquém, de Silo e de Samaria oitenta homens, com a barba raspada, as vestes rasgadas e o semblante abatido; traziam nas mãos presentes e incenso para oferecê-los na casa do Senhor” (Jr 41,5). Esta é a passagem de Jeremias. Assim como aqueles homens se reuniram para rogar ao Senhor, também nós nestes dias nos reunimos; por isso estes dias são chamados em grego litânias, que nós chamamos rogações, instituídas para rogar ao Senhor e obter dele o que pedimos. Foram instituídas especialmente para estas duas finalidades: rogar a Deus que perdoe os pecados; por isso diz Isaías: “Pedem-me juízos de justiça e querem aproximar-se de Deus” (Is 58,2); e obter os benefícios da misericórdia, tanto nas coisas espirituais como nas temporais. Para merecermos receber esses benefícios, é preciso que façamos espiritualmente o que aqueles oitenta homens fizeram corporalmente. Os oitenta representam todos aqueles que, no setenário da vida presente, vivendo na prática do bem, esperam o oitavo dia da ressurreição. Todos são chamados homens, porque não praticam obras frágeis ou efeminadas, mas obras virtuosas. Com efeito, homem é nome de virtude. Estes vêm de Siquém, que se interpreta “trabalho”; de Silo, que se interpreta “Onde está ela?”; e de Samaria, que se interpreta “lã”, palavra derivada de dilacerar, isto é, arrancar. Estes três lugares significam as três coisas que se encontram nos bens temporais: são adquiridos com trabalho, conservados com temor — pois o avarento sempre diz: “Onde está ela?”, isto é, o dinheiro? — e perdidos com dor. Eis o dilaceramento e o arrancar do coração! Deve desprezar essas coisas aquele que quer rogar atentamente a Deus.
11. Segue-se: “Com a barba raspada”, na qual é figurada a obra da virtude. A seu respeito diz o Salmo: “Como óleo sobre a cabeça, que desce para a barba, a barba de Aarão” (Sl 132,2), nome que se interpreta “monte forte” e significa o homem constante, que estende a mão para coisas fortes (cf. Pr 31,19), em cuja cabeça, isto é, em cuja mente, está o óleo da graça divina. Com efeito, o pugilista que vai lutar costuma ungir a cabeça. Assim Deus unge a mente do justo, para que seja forte contra o antigo inimigo. Esse óleo desce sobre ambas as barbas, porque, da abundância da graça interior, são ungidas as obras fortes da dupla caridade. Raspa a própria barba aquele que não presume de nenhuma virtude de sua boa obra; por isso diz Isaías: “Naquele dia o Senhor raspará, com uma navalha afiada ou emprestada, aos que estão além do rio, a cabeça, os pelos dos pés e toda a barba” (Is 7,20).
Além do rio do prazer mundano estão os penitentes, nos quais o Senhor, com a navalha afiada ou emprestada de sua Paixão, raspa toda presunção da boa obra. Quem pode, com efeito, presumir ou gloriar-se da boa obra, quando vê o Filho do Pai, “sua virtude e sabedoria” (cf. 1Cor 1,24), pregado à cruz, suspenso entre ladrões? Na cabeça, nos pés e na barba são figurados o princípio, o fim e o meio da boa obra; e o Senhor raspa tudo isso no penitente, quando não lhe permite presumir nem gloriar-se em nenhum princípio, meio ou fim de boa obra, para que “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”, e não em si mesmo (cf. 1Cor 1,31; 2Cor 10,17).
12. Segue-se: “E com as vestes rasgadas”. As vestes são os membros do corpo, a respeito dos quais diz o Apocalipse: “Tens”, afirma, “poucos nomes em Sardes que não contaminaram as suas vestes”, isto é, os seus membros (Ap 3,4). São verdadeiramente poucos em Sardes, que se interpreta “beleza do domínio” e na qual é figurada a virgindade; quem a possui, possui a beleza do domínio. Ó quão belo domínio, quando o Criador governa o espírito, e o espírito governa a carne! Rasga as vestes aquele que não se poupa na aflição do corpo; por isso se diz a respeito de Jó: “Levantou-se”, diz ele, “rasgou a sua túnica e, com a cabeça raspada, prostrando-se por terra, adorou” (Jó 1,20). Jó, que se interpreta “dolente”, é o penitente que se aflige na contrição, se levanta na confissão, rasga a túnica, isto é, a sua carne, na satisfação, raspa a cabeça na humildade da mente, prostra-se por terra na lembrança da morte e adora na ação de graças.
“E abatidos.” O abatimento é palidez, magreza, sujeira e aridez. Assim verdadeiramente se mostram abatidos os penitentes: palidez no rosto, magreza no corpo, sujeira nas vestes e aridez na alimentação.
13. “Tinham na mão dons e incenso.” Diz-se nas coisas naturais que a mão do homem, tal como foi criada, é adequada a todas as operações, porque é estendida e dividida em muitas partes, e pode utilizar uma só parte, duas ou muitas, segundo os diversos modos. E a mobilidade dos dedos é adequada para tomar e reter. Na mão, portanto, é significada a operação, que devemos estender para a utilidade do próximo e dividir em muitas partes, quando for necessário. Utiliza uma só parte quando se dedica somente a Deus; duas, quando ministra ao próximo o alimento da alma e do corpo. A mobilidade dos dedos, isto é, das virtudes, na operação faz duas coisas: toma a graça que lhe foi dada e a retém, porque a conserva para não perdê-la. Nesta mão, portanto, devemos ter os dons da virtude, da caridade e da esmola, e o incenso da devoção interior, para que tudo quanto fazemos, façamo-lo com devoção.
“Para oferecê-los na casa do Senhor.” É isto o que se diz no Apocalipse: “Subiu diante de Deus a fumaça dos incensos, com as orações dos santos, da mão do anjo” (Ap 8,4). Quem busca os próprios louvores pela boa obra que realiza não oferece dons na casa do Senhor, nem a fumaça de seu incenso sobe diante de Deus. Nisto somos ensinados a oferecer diante dele a oblação de nossas obras na casa do Senhor, isto é, numa consciência pura, onde ele habita, e a esperar somente dele a recompensa; e assim, pelo ministério do anjo destinado à nossa guarda, nossa devoção subirá diante de Deus e sua graça descerá sobre nós, para que, enfim, possamos subir à sua glória.
Por aquele que é bendito pelos séculos. Amém.