Sermões Dominicais · Parte I · Sermão n.º 22

Domingo VI depois da Páscoa Dominica VI post Pascha

Sermões Dominicais — Da Septuagésima a Pentecostes · 4 seções · 11 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do sexto domingo depois da Páscoa: “Quando vier o Paráclito”, que se divide em duas cláusulas.

Primeiro, sermão sobre a ressurreição, isto é, da alma e do corpo: “Os mortos viverão.”

[da primeira cláusula]. Também sermão sobre a Santíssima Trindade: “Quando vier o Paráclito.”

Também sermão contra aqueles que estão na angústia do diabo, vivendo em pecado mortal: “O faraó pôs chefes sobre os filhos de Israel”, e sobre a natureza da rã e da aranha.

Também sermão contra aqueles que vivem nos prazeres: “Sepultaram Asa.”

Também sermão contra a vaidade do mundo, que engana até o homem espiritual: “O profeta ancião enganou o homem de Deus.”

Também sermão para consolar aquele que se encontra na tentação: “Quando passares pelas águas, estarei contigo.”

Também sermão sobre a infusão da graça e a compunção da mente: “Filhas de Sião, exultai e alegrai-vos.”

Também sermão sobre o homem justo que renuncia ao mundo: “Jacó atravessou o vau do Jaboc.”

Também sermão sobre a oração: “Ouve, Senhor, a minha voz.”

da segunda cláusula. Sermão sobre a paciência: “Eu vos disse estas coisas para que não vos escandalizeis.”

Também sermão contra muitos pregadores e sobre a natureza da vaca selvagem, que golpeia o caçador com esterco: “Sabeis que os fariseus, ao ouvirem esta palavra, se escandalizaram?”

Também sermão sobre a hospitalidade: “Sede hospitaleiros uns para com os outros.”

Exórdio. Da ressurreição da alma e do corpo

1. Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Quando vier o Paráclito, que eu vos enviarei do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai” (Jo 15,26) etc.

Diz o Senhor por meio de Isaías: “Viverão os mortos, os meus mortos ressuscitarão. Despertai e louvai, vós que habitais no pó, porque o teu orvalho é orvalho de luz” (Is 26,19). O orvalho é chamado ros porque é raro, isto é, rarefeito e leve, e não espesso como a chuva. Então se diz que o orvalho rega mais abundantemente os campos quando a noite é mais serena e a lua brilha mais clara, e que o orvalho, no breve espaço da noite, restitui à terra a umidade que o calor do sol lhe havia ressecado durante todo o dia. O Paráclito, o Espírito da verdade, é significado pelo orvalho porque, descendo suavemente à mente do pecador, refrigera o calor do sol, isto é, a concupiscência da carne. Por isso, no Eclesiástico: “O orvalho que vem ao encontro daquele que chega do calor torna-o humilde” (Eclo 43,24). Ao pecador, que vem do ardor dos vícios, a graça do Espírito Santo vem ao encontro, como orvalho, e refrigera o seu ardor; e, ao mostrar ao próprio pecador de quantos e quão grandes vícios a sua mente está envolvida, humilha-o até o pranto, para que se lamente do que fez. Por isso, Jeremias: “Depois que me mostraste”, diz ele, “bati na minha coxa” (Jr 31,19). Depois que a graça do Espírito Santo mostrou ao pecador o cúmulo da sua iniquidade, ele golpeia com os flagelos da penitência a sua coxa, isto é, o seu corpo.

E observa que o Espírito Santo é justamente chamado “orvalho de luz”: orvalho, porque proporciona refrigério; de luz, porque ilumina. Portanto, com a chegada do orvalho de luz, os mortos pelos pecados viverão a vida da graça, e os mortos pela espada da culpa ressurgirão na primeira ressurreição, que é a penitência. “Despertai”, portanto, vós que estais oprimidos pelo sono do pecado, “e louvai a Deus” pela confissão do crime, “vós que habitais no pó” da vaidade terrena, “porque o orvalho de luz” é o Espírito Santo, pai dos penitentes e consolador dos que gemem, a respeito do qual o Filho diz no evangelho de hoje: “Quando vier o Paráclito” etc.

2. Neste trecho do evangelho, são postos em evidência dois fatos. Primeiro, o envio do Paráclito, quando se diz: “Quando vier o Paráclito” etc. Segundo, a perseguição contra os discípulos de Cristo, quando se acrescenta: “Disse-vos estas coisas para que não vos escandalizeis”. Nesta dominica, canta-se no intróito da missa: “Escuta, Senhor, a minha voz, com a qual clamei a ti”; e lê-se a epístola do bem-aventurado Pedro: “Sede prudentes”, que queremos dividir em duas partes e pô-las em concordância com as duas cláusulas do evangelho. A primeira parte é: “Sede prudentes” etc. A segunda: “Sede hospitaleiros uns para com os outros, sem murmuração” etc.

I. Do envio do Paráclito

3. Digamos, pois: “Quando vier o Paráclito” etc. Observa, primeiro, que neste evangelho se manifesta abertamente a fé na Santíssima Trindade. O Espírito Santo é enviado pelo Pai e pelo Filho; estes três são uma só substância e possuem igualdade inseparável. Há unidade na essência e pluralidade nas pessoas. Por isso, o Senhor insinua claramente a unidade da essência divina e a Trindade das pessoas, dizendo em Mateus: “Ide, batizai todas as nações em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (cf. Mt 28,19). Diz, certamente, “em nome”, e não “em nomes”, para mostrar a unidade da essência. Pelos três nomes que acrescenta, mostra que são três pessoas.

Pois, naquela Trindade, está a origem suprema de todas as coisas, a beleza perfeitíssima e a beatitude sumamente feliz. A origem suprema, como demonstra Agostinho no livro “A verdadeira religião”, é entendida como Deus Pai, do qual procedem todas as coisas, do qual procedem o Filho e o Espírito Santo. A beleza perfeitíssima é entendida como o Filho, isto é, a verdade do Pai, em nada diferente dele; verdade que veneramos com o próprio Pai e no próprio Pai, e que é a forma de todas as coisas, criadas por um só Deus e referidas a um só Deus. A beatitude sumamente feliz e a bondade suprema são entendidas como o Espírito Santo, que é dom do Pai e do Filho; e convém que adoremos e conservemos esse dom de Deus, igualmente imutável com o Pai e o Filho. Pela consideração das criaturas, portanto, entendemos a Trindade em uma só substância, isto é, um só Deus Pai, do qual somos, um só Filho, por meio do qual existimos, e um só Espírito Santo, no qual vivemos; isto é: o princípio ao qual retornamos, a forma que seguimos e a graça pela qual somos reconciliados. Para que nossa mente se eleve à contemplação do Criador e creia sem dúvida na Unidade na Trindade e na Trindade na Unidade, vejamos que vestígio da Trindade aparece na própria mente.

Diz Agostinho no livro “A Trindade”: “Embora a mente humana não seja da mesma natureza que Deus, sua imagem, contudo, deve ser buscada e encontrada naquilo que há de melhor em nossa natureza, isto é, na mente. Eis que a mente se recorda de si mesma, compreende a si mesma e ama a si mesma. Se percebemos isto, percebemos uma trindade: não certamente Deus, mas a imagem de Deus. Aqui, com efeito, aparece uma certa trindade: a memória, a inteligência e o amor ou a vontade. Estas três não são três vidas, mas uma só vida; nem três mentes, mas uma só mente; não três essências, mas uma só essência. A memória, porém, é dita em relação a algo; e também a inteligência e a vontade, ou o amor, são ditos em relação a algo; a vida, entretanto, é em si mesma, assim como a mente e a essência. Portanto, estas três são uma só coisa, na medida em que são uma só vida, uma só mente e uma só essência.

Estas três, embora sejam distintas entre si, são, contudo, chamadas uma só coisa, porque existem substancialmente na alma. E a própria mente é como que a genitora, e seu conhecimento é como que sua prole. Com efeito, quando se conhece, a mente gera o conhecimento de si mesma, e é a única genitora de seu conhecimento. O terceiro é o amor, que procede da própria mente e do conhecimento, quando a mente, conhecendo a si mesma, ama a si mesma; pois não poderia amar a si mesma se não se conhecesse. Ama também a prole em que se compraz, isto é, o seu conhecimento; e assim o amor é uma espécie de vínculo entre a genitora e a prole. Eis que nestas três palavras aparece um certo vestígio da Trindade.

4. Digamos, portanto: “Quando vier o Paráclito, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade”, etc. Observa estas três palavras: Paráclito, Espírito e ‘da verdade’. Na miséria deste exílio há três males, a saber: a angústia que atormenta, a culpa que mata e a vaidade que engana.

Da angústia atormentadora diz-se no Êxodo que “o faraó impôs aos filhos de Israel capatazes de obras, para afligi-los com trabalhos pesados, e eles construíram para o faraó cidades-armazéns: Pitom e Ramsés” (Ex 1,11). Assim, o diabo, aos que são cristãos apenas de nome, impõe capatazes de obras, isto é, demônios encarregados de cada vício, para afligi-los com o peso dos pecados. Por isso, eles mesmos dizem, gemendo, nas Lamentações de Jeremias: “Sobre nossos pescoços fomos ameaçados, e aos exaustos não se dava repouso” (Lm 5,5-6). Estendemos a mão ao Egito e aos assírios, para que fôssemos saciados de pão. Os babilônios, isto é, os demônios, impõem pesados fardos ao pescoço do homem que conduzem cativo e, como a um boi ou jumento, puxam-no com ameaças, por meio de uma corda atada ao pescoço; e ao exausto não dão nenhum repouso, enquanto o precipitam de pecado em pecado. Ai! Quanta loucura é cansar-se no caminho e não querer chegar ao fim! “Estendemos a mão”, dizem, isto é, fizemo-nos servos, “ao Egito”, isto é, ao mundo, “e aos assírios”, isto é, aos demônios, “para que fôssemos saciados de pão”, isto é, do prazer da carne. Estes constroem cidades-armazéns para o faraó, isto é, para o diabo: Pitom e Ramsés.

Pitom interpreta-se “boca do abismo”, e Ramsés, “dano da traça”.

Pitom significa a luxúria, que é a boca do abismo, que nunca diz: “Basta”, por carecer da luz da graça e do limite da suficiência. Com efeito, o prazer, como diz Jerônimo, sempre sofre fome de si mesmo.

Deste abismo tens no salmo: “O abismo chama o abismo”, isto é, a luxúria chama a luxúria, “como a rã chama a rã” (Sl 41,8). A rã tem um coaxar próprio, que é: “Coax”; e não o faz senão somente na água. E propriamente o macho, no tempo do acasalamento, chama a fêmea por meio desse coaxar conhecido. A rã multiplica a voz quando coloca a mandíbula inferior nivelada com a água e estende a superior. E, pela extensão das duas mandíbulas, seus olhos brilham como velas. Do mesmo modo procedem as aranhas quando querem acasalar-se. A fêmea atrai o macho por meio dos fios da teia, e depois o macho atrai a fêmea. E a atração não cessará até que se unam. Os luxuriosos são como rãs que, na água do prazer carnal, com sinais e vozes incitam-se mutuamente à luxúria; seus olhos estão cheios de adultério, inflamados de desejo, e, como aranhas, por assim dizer, mediante certos fios de palavras e promessas, atraem-se mutuamente e unem-se no abismo de sua perdição.

Ramsés significa a avareza, que, como a traça corrói as vestes, corrói a mente. Por isso se chama tinea em latim, porque retém e penetra até corroer. Assim, a avareza corrói a mente do avaro, para que multiplique mais bens; mas o infeliz, quanto mais multiplica, mais fome sente. Por isso, diz o bem-aventurado Bernardo: “O coração do homem não se sacia com o ouro de modo diverso de como o corpo do homem se sacia com o ar”. Diz o Filósofo: “Que mal podes desejar ao avaro, senão que viva mais tempo?”. E ainda: “O avaro, a não ser quando morre, nada faz de bom” (P. Siro). Estas são as cidades do diabo, a luxúria e a avareza. E que angústia é maior do que estar encarcerado no abismo e coberto pela traça?

5. Sobre a culpa que dá a morte, diz-se no Gênesis que “Raquel morreu e foi sepultada no caminho que conduz a Efrata” (Gn 35,19). Efrata interpreta-se “frutífera” e significa a abundância das coisas temporais, pela qual a infeliz alma é sufocada e, depois de sepultada, é oprimida pelo peso do mau costume. Por isso o rico vestido de púrpura, porque aqui foi sepultado nos prazeres, depois foi sepultado nos tormentos do inferno (cf. Lc 16,19.22). Diz-se no Segundo Livro das Crônicas que puseram Asa em seu leito, cheio de aromas e unguentos de meretriz, preparados pela arte dos perfumistas, e os queimaram sobre ele em quantidade excessiva (cf. 2Cr 16,14). Asa interpreta-se “aquele que se eleva” e significa o rico deste mundo em sua soberba, do qual diz o Profeta: “Vi o ímpio exaltado e elevado como os cedros do Líbano” (Sl 36,35). Seu leito é o corpo, no qual jaz dissoluto, como um paralítico, e que se enche de aromas e unguentos de meretriz, isto é, de honras, riquezas e prazeres, preparados pela arte dos perfumistas, isto é, dos demônios. Depois, porém, a infeliz alma, juntamente com o seu infeliz corpo, será queimada no fogo inextinguível da geena, por uma combustão imensa. “Todo homem serve primeiro o vinho bom, depois o que é pior” (Jo 2,10). Porque bebeste do cálice de ouro da Babilônia, beberás até a borra do poço da condenação eterna.

6. Sobre a vaidade que engana, diz-se no Terceiro Livro dos Reis que “um velho profeta enganou o homem de Deus e o levou consigo à sua casa; este comeu pão na casa dele e bebeu água. E, depois de ter comido e bebido, selou o seu jumento. Quando partiu, um leão o encontrou no caminho e o matou; seu cadáver jazia lançado por terra; o jumento, porém, estava junto dele, e o leão estava junto ao cadáver. O leão não feriu o jumento nem comeu do cadáver” (3Rs 13,11-30). O velho profeta é a vaidade do mundo, que sempre profetiza falsidades. Por isso Jeremias diz nas Lamentações: “Os teus profetas tiveram para ti visões falsas e insensatas” (Lm 2,14). Nossos profetas são a vaidade do mundo e o prazer da carne, os quais, se virem que desprezamos o mundo e mortificamos a carne, imediatamente nos profetizam pobreza e enfermidade. “Se deres os teus bens”, dizem, “de que viverás? Se afligires a carne, cairás enfermo.” Ai! Quantos esses profetas enganaram! Estes são os profetas que falam em seu próprio nome, e não em nome do Senhor.

Diz-se, portanto, com razão, que “o velho profeta enganou o homem de Deus”. E com razão a vaidade do mundo é chamada de velho profeta; pois, desde o princípio do mundo até estas escórias do século, perseverou e perseverará em enganar. “Na casa dele”, o homem de Deus, enganado, “comeu pão e bebeu água”. O pão significa a grandeza da glória mundana, da qual Salomão diz nos Provérbios: “Doce é ao homem o pão da mentira, mas depois sua boca se encherá de pedrinhas” (Pr 20,17). O pão da mentira é a glória do mundo, que se julga ser alguma coisa, quando nada é. Por isso Agostinho: “Tudo o que deve ser encerrado por um fim deve ser considerado como passado”. Essa glória, por ser agradável ao homem, fará que sua boca se encha de pedrinhas, isto é, de pedra ardente, isto é, da pena eterna, que não pode ser engolida nem vomitada. “E bebeu água.” A água é a luxúria ou a avareza; quem dela beber terá sede novamente (cf. Jo 4,13). Quem comer esse pão e beber essa água será morto pelo leão, isto é, pelo diabo.

E observa que “o leão não feriu o jumento nem comeu do cadáver”, porque o diabo não se importa com o dinheiro ou com o corpo, mas somente com poder matar a alma. Por isso: “Disse o rei de Sodoma a Abraão: Dá-me as almas; quanto ao resto, toma-o para ti” (Gn 14,21). Cristo comprou a alma, entregando a sua própria à morte (cf. Is 53,12); e por isso o diabo, quando quer matar a nossa alma, deseja fraudar, com tanto esforço, tão grande comprador.

7. Mas o Senhor, contra estes três males anteriormente mencionados, isto é, a opressão, a culpa e a vaidade, enviou o Espírito Santo, o Paráclito da verdade: o Paráclito contra a opressão, o Espírito contra a culpa, o Espírito da verdade contra a vaidade. O Paráclito nos consola na opressão da tribulação. Por isso diz Isaías: “Quando passares pelas águas, estarei contigo, e os rios não te submergirão; quando andares pelo fogo, não te queimarás, e a chama não te abrasará” (Is 43,2). Observa estas quatro palavras: águas, rios, fogo e chama. Nas águas são designadas a gula e a luxúria; nos rios, a prosperidade mundana; no fogo, a opressão das adversidades; e na chama, a malícia da perseguição diabólica. Diz, portanto: “Quando passares pelas águas” etc. A mente que o Espírito Santo fortalece com o fogo da caridade não pode ser desfeita nem pelas águas da gula e da luxúria, nem submergida pelos rios da prosperidade mundana. Por isso Salomão diz no Cântico dos Cânticos: “As muitas águas não puderam extinguir a caridade, nem os rios a submergirão, porque as suas lâmpadas são lâmpadas de fogo e de chamas” (Ct 8,7.6). A mente que o Espírito Santo inflama também não pode ser consumida nem pelo fogo da adversidade, nem pela chama da perseguição diabólica. Com efeito, o próprio Espírito, como se diz em Daniel, afasta a chama de fogo da fornalha e faz soprar no meio da fornalha como um vento de orvalho (cf. Dn 3,49-50).

Do mesmo modo, enviou o Espírito contra a culpa, para vivificar a alma. Por isso se lê no Gênesis: “Inspirou em seu rosto o sopro da vida, e o homem se tornou alma vivente” (Gn 2,7). O sopro da vida é a graça do Espírito Santo; e, quando Deus a inspira no rosto da alma, sem dúvida ressuscita a alma da morte para a vida.

E este Espírito é chamado da verdade contra a vaidade do mundo, que a própria verdade expulsa. Por isso diz Joel: “Filhas de Sião, exultai e alegrai-vos no Senhor, vosso Deus, porque ele vos deu o mestre da justiça e fará descer sobre vós a chuva da manhã e da tarde. E as eiras se encherão de trigo, e os lagares transbordarão de vinho e de azeite” (Jl 2,23-24). Bendito seja o Senhor, nosso Deus, o Filho de Deus, no qual nós, filhos de Sião, isto é, da Igreja militante e triunfante, devemos exultar de coração e alegrar-nos pelas obras, porque nos deu o mestre da justiça, isto é, o Espírito da graça, que nos ensina a manifestar a cada um a sua justiça (santidade). Ao dar-nos este Espírito, fez descer sobre nós a chuva da manhã, isto é, a compunção pelos nossos pecados, e a da tarde, isto é, a dor pelos pecados alheios. Com efeito, quem piedosamente chora os pecados alheios lava perfeitamente também os próprios. Com a descida do mestre da justiça, as eiras, isto é, as mentes dos fiéis, foram preenchidas com o trigo da fé, e os lagares, isto é, os seus corações, transbordaram do vinho da compunção e do azeite da piedade.

Diz-se, portanto, com razão: “Quando vier o Paráclito, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim. E vós também dareis testemunho, porque desde o princípio estais comigo” (Jo 15,26-27). Com efeito, nos corações dos fiéis, o Espírito da verdade dá testemunho da Encarnação de Cristo, de sua Paixão e de sua Ressurreição. E nós também devemos dar testemunho a todo homem de que Cristo verdadeiramente se encarnou, verdadeiramente sofreu e verdadeiramente ressuscitou.

8. À primeira parte do Evangelho corresponde a primeira parte da epístola de hoje: “Sede prudentes e vigiai nas orações. Sobretudo, tende continuamente entre vós a caridade, porque a caridade cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4,7-8). Observa que o bem-aventurado Pedro nos exorta a três virtudes: à prudência, à vigilância e à constância na oração.

Sobre a prudência, diz Salomão nos Provérbios: “Feliz o homem que é rico em prudência, pois a sua aquisição é melhor que o comércio da prata e do ouro” (Pr 3,13-14). Quem, porém, for negligente e imprudente, estará exposto a muitos perigos.

Sobre a vigilância, lemos no Gênesis que Jacó “atravessou o vau do Jaboc; e, tendo transportado para a outra margem tudo o que lhe pertencia, ficou sozinho; e eis que um homem lutava com ele até a manhã; este lhe disse: ‘Deixa-me ir, pois já desponta a aurora’” (Gn 32,22-26). Jacó interpreta-se como suplantador; Jaboc, como torrente de pó, que significa os prazeres temporais, os quais passam como uma torrente, são estéreis e cegam os olhos como o pó. O penitente deve atravessar esta torrente com todos os bens do Senhor que o Senhor lhe concedeu, e permanecer sozinho. Permanece sozinho aquele que nada atribui a si mesmo, mas tudo ao Senhor; submete a própria vontade à vontade alheia; não conserva a lembrança das injúrias recebidas; e, sendo desprezado, não despreza esse desprezo. E, se assim permanecer sozinho, poderá lutar valorosamente com o Senhor e obter dele o que quiser, e merecerá ouvir: “Deixa-me ir, pois já desponta a aurora”. A aurora é o fim da noite e o início do dia. Ela é a morte do justo, o fim da miséria e a entrada na beatitude, na qual o Senhor diz ao justo: “Deixa-me ir, pois já desponta a aurora”. Como se dissesse: “Já não é necessária a luta; para ti termina a miséria e começa a glória”. Por isso se diz da alma do justo no Cântico dos Cânticos: “Quem é esta que sobe como a aurora que desponta, bela como a lua, eleita como o sol?” (Ct 6,9). A lua é assim chamada, como que ‘uma das luzes’ (luminum una). A alma do justo, quando sobe da morada desta miséria, entra na beatitude, na qual é bela como a lua, porque se associa à luz das almas santas, como uma delas. E é eleita como o sol, porque é iluminada pelo esplendor de toda a Trindade.

9. Da assiduidade na oração se diz no introito da missa de hoje: “Ouve, Senhor, a minha voz, com que clamei a ti; a ti disse o meu coração: busquei o teu rosto; o teu rosto, Senhor, procurarei; não desvies de mim a tua face” (cf. Sl 26,7-9). Nota que há três espécies de oração: mental, vocal e manual (das obras). Da primeira diz o Eclesiástico: “A oração daquele que se humilha penetra os céus” (Eclo 35,21). Da segunda, o Salmo: “Entre a minha oração na tua presença” (Sl 87,3). Da terceira, o Apóstolo: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17). Não cessa de orar aquele que não cessa de fazer o bem.

Diz, portanto: “Ouve, Senhor, a minha voz”, do coração, da boca e das obras, “com que clamei a ti. A ti disse o meu coração: busquei o teu rosto”. O rosto do Senhor é aquela imagem segundo a qual fomos criados à sua semelhança e imagem, e que perdemos quando incorremos no pecado mortal; pois sobre a face divina inscrevemos a face do diabo; e isso o Eclesiástico proíbe, dizendo: “Não assumas uma face contra a tua face” (cf. Eclo 4,26). Cada pecado mortal que cometes é uma face do diabo que sobrepões à face divina. Deles se diz no Salmo: “Até quando julgareis a iniquidade e assumireis as faces dos pecadores?” (Sl 81,2). Para podermos reencontrar o rosto do Senhor, que perdemos, acendamos a lâmpada e revolvamos inteiramente a casa até que o encontremos (cf. Lc 15,8), isto é, sejamos contritos por nossos pecados, perscrutemos os recantos da consciência na confissão e nos dediquemos às obras de penitência; e assim, finalmente, poderemos reencontrar o rosto perdido do Senhor e, exultantes, cantaremos: “Está assinalada sobre nós a luz do teu rosto, Senhor” (Sl 4,7) etc.

E, porque o rosto do Senhor é restaurado e finalmente conservado pela caridade, por isso Pedro acrescenta a respeito dela: “Antes de tudo, tende entre vós uma caridade mútua e contínua” (1Pd 4,8) etc. Assim como Deus é o princípio de todas as coisas, assim também a caridade, virtude principal, deve ser tida antes de tudo; e, se for mútua e contínua, cobrirá toda a multidão dos pecados. Mútua, isto é, recíproca e comum; contínua, isto é, não faltando nem nas adversidades nem nas prosperidades, mas perseverante e final, deve ser. Ou então: a caridade é o Paráclito, o Espírito da verdade, que, como o óleo cobre todo líquido, cobre a multidão dos pecados. Mas nota que, se ele for soprado para fora, tudo o que antes estava oculto aparece. Assim, a graça de Deus, que pela penitência cobre a multidão dos pecados, se for expulsa pela recaída no pecado mortal, faz retornar o que já havia sido perdoado, porque quem peca em um só preceito, isto é, no preceito da caridade, torna-se culpado de todos (cf. Tg 2,10). E, por isso, se voltares a cometer pecado mortal e procurares um novo confessor, será necessário confessares tudo.

Digne-se o Espírito Santo, que é o amor do Pai e do Filho, cobrir com sua caridade a multidão dos nossos pecados.

A ele sejam a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

II. Da perseguição contra os discípulos de Cristo

10. Segue-se o segundo ponto. “Disse-vos estas coisas para que não vos escandalizeis. Expulsar-vos-ão das sinagogas; mas virá a hora em que todo aquele que vos matar julgará prestar culto a Deus. E far-vos-ão isso porque não conheceram nem o Pai nem a mim. Mas disse-vos estas coisas para que, quando chegar a hora deles, vos recordeis de que eu vo-lo disse” (Jo 16,1-4). Como os dardos que são previstos ferem menos, por isso o Senhor preveniu os seus soldados, para que, opondo aos dardos da perseguição o escudo da paciência, não se escandalizassem ao se depararem com a provação. “Disse-vos”, afirma, “estas coisas para que não vos escandalizeis”. Eu, o Verbo do Pai, de quem deveis receber o exemplo da paciência, falo-vos para que não vos escandalizeis. Quem se escandaliza na tribulação, pelo escândalo da sua impaciência separa-se dos discípulos de Cristo. “Expulsar-vos-ão das sinagogas”, isto é, para fora da sinagoga. Daí dizer João: “Os judeus já haviam conspirado para que, se alguém confessasse que ele era o Cristo, fosse expulso da sinagoga” (Jo 9,22).

Cristo diz: “Eu sou a verdade” (Jo 14,6). Quem prega a verdade confessa Cristo. Quem, porém, cala a verdade na pregação, nega Cristo. A verdade gera o ódio e, por isso, alguns, para não incorrerem no ódio de certas pessoas, cobrem a boca com o manto do silêncio. Se pregassem a verdade, dizendo as coisas como elas são, como a própria verdade exige e como a Escritura divina ordena expressamente, incorreriam, se não me engano, no ódio dos homens carnais, e talvez estes os expulsassem da sinagoga; mas, como caminham segundo o homem, temem o escândalo dos homens, quando a verdade não deve ser abandonada por causa do escândalo. Daí leres em Mateus que os discípulos disseram a Jesus: “Sabes que os fariseus, ouvindo esta palavra, se escandalizaram? Mas ele, respondendo, disse: Toda plantação que meu Pai celeste não plantou será arrancada pela raiz. Deixai-os: são cegos e guias de cegos” (Mt 15,12-14).

Ó pregadores cegos, porque temeis o escândalo dos cegos, por isso incorreis na cegueira da alma. Estes fazem convosco o que a vaca selvagem faz com o caçador. Diz-se no livro das Coisas Naturais que a vaca selvagem, ao ser perseguida pelo caçador, lança de longe o seu esterco e o atinge; enquanto o caçador fica retido e atrasado, ela escapa. Certamente assim fazem hoje alguns prelados: vacas gordas no monte de Samaria (cf. Am 4,1), vacas belas e muito gordas que pastam em lugares pantanosos (cf. Gn 41,2), as quais lançam ao caçador, isto é, ao pregador, o esterco das coisas temporais, para escaparem às suas repreensões. Daí dizer o Eclesiástico: “O preguiçoso será apedrejado com pedras enlameadas” (Eclo 22,1). E por isso diz o Senhor por meio de Isaías: “Suscitarei contra eles os medos”, isto é, pregadores, “que não procurem a prata nem desejem o ouro; mas que matem com flechas os pequeninos”, isto é, os amantes do mundo, “com as flechas da santa pregação” (Is 13,17-18).

11. A esta segunda cláusula corresponde a segunda parte da epístola: “Sede hospitaleiros uns para com os outros, sem murmuração; cada um, segundo a graça que recebeu, administrando-a uns aos outros, como bons dispensadores da multiforme graça de Deus. Se alguém fala, fale como quem profere palavras de Deus; se alguém exerce um ministério, exerça-o como que pela força que Deus lhe concede” (1Pd 4,9-11). Hóspede é quem recebe e quem é recebido; assim é chamado porque põe o pé na porta, ou porque mantém a porta aberta, donde se diz hospitaleiro. Hospitaleiros são os pregadores, que devem abrir aos pecadores a porta da pregação; e isto sem murmuração, isto é, sem escândalo. Com efeito, não pode haver murmuração sem escândalo. E com razão os pregadores são chamados hospitaleiros, porque, como bons dispensadores, devem administrar a graça multiforme da pregação que receberam. Assim como são multiformes os pecados, assim também deve ser multiforme a pregação, para que as almas deformadas pelas formas dos vícios sejam reformadas pela forma da pregação. Por isso, Pedro fala aos prelados pregadores: “Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, cuidando dele, não por constrangimento, mas espontaneamente, segundo Deus; nem por torpe lucro, mas de boa vontade; nem como dominadores sobre os que vos foram confiados, mas fazendo-vos modelos do rebanho” (1Pd 5,2-3).

Por isso, acrescenta ainda: “Se alguém fala, fale como quem profere palavras de Deus”. Fala palavras de Deus aquele que atribui a Deus, e não a si mesmo, a ciência de falar que possui. Quem fala palavras de Deus tema ensinar algo contra a vontade de Deus, contra a autoridade das Sagradas Escrituras ou contra a utilidade dos irmãos; e tema calar aquilo que deve ser ensinado. “Se alguém exerce um ministério”, seja pela palavra, seja por qualquer outro serviço de caridade, faça-o “como que pela força”, não a sua, “mas a que Deus concede, para que em todas as coisas”, em nossas obras, “Deus seja glorificado por Jesus Cristo” (1Pd 4,11), nosso Senhor.

A ele, caríssimos irmãos, supliquemos humildemente que infunda em nós o Paráclito, o Espírito da verdade, e nos conceda paciência na tribulação, para que não nos escandalizemos. “A ele pertencem a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.”

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.