Sermões Dominicais · Parte I · Sermão n.º 15

Na Páscoa do Senhor In Pascha Domini

Sermões Dominicais — Da Septuagésima a Pentecostes · 6 seções · 16 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho da Páscoa do Senhor: “Maria Madalena”, que se divide em quatro partes. Primeiramente, um sermão ao pregador: como deve preparar, a partir das espécies de virtudes, um remédio para a alma, em: “O boticário fará as misturas”.

[Da primeira parte]. Além disso, um sermão sobre a humildade, em: “Maria Madalena”.

Além disso, um sermão sobre o desprezo do mundo e sobre como cada um deve receber o Corpo de Cristo, em: “Lançai fora o fermento velho”.

Além disso, um sermão sobre a paz, em: “De três coisas se agradou o meu espírito”, e sobre a natureza das abelhas.

Além disso, um sermão aos religiosos, em: “Toma para ti os aromas”.

Além disso, um sermão moral sobre a tranquilidade do coração, em: “E bem cedo”.

Da segunda parte. Um sermão para aqueles que desejam entrar numa ordem religiosa, em: “Quem nos removerá a pedra?”

Da terceira parte. Um sermão aos contemplativos, em: “E, entrando”.

Da quarta parte. Um sermão sobre as dez aparições do Senhor e o seu significado, em: “Vós procurais Jesus”.

Além disso, um sermão sobre a ressurreição geral e os quatro dotes do corpo glorificado, que são designados pelos quatro rios do paraíso terrestre, em: “A luz da lua será como a luz do sol”.

Além disso, um sermão ao pregador ou ao prelado da Igreja, em: “Toma a vara”.

Além disso, um sermão aos penitentes, em: “Onze panos de lã de cabra”, e em: “O Deus onipotente apareceu-me em Luz”.

Além disso, um sermão sobre a misericórdia para com os pobres, em: “O Senhor apareceu a Moisés numa chama de fogo”.

Exórdio. Sermão ao pregador

1. Naquele tempo: “Maria Madalena, Maria de Tiago e Salomé compraram aromas para ir ungir Jesus” (Mc 16,1) etc.

Diz o Eclesiástico: “O perfumista prepara essências suaves e compõe unguentos salutares” (Eclo 38,7). As essências são assim chamadas porque são trabalhadas no pilão e com o pilão, como se fossem pilessências. Essências são aquelas especiarias das quais diz a alma penitente no mesmo Eclesiástico: “Como mirra escolhida, exalei suavidade de odor; e como estoraque, gálbano, ônix e gota” (Eclo 24,20-21). Estas essências, como diz a Glosa, são essências preciosas para os médicos e significam as espécies das virtudes que os verdadeiros médicos, isto é, os médicos espirituais, empregam para a cura dos homens. Na mirra é designada a penitência, que não pode ser verdadeira se a ela não se misturarem estas quatro essências, a saber, o estoraque, o gálbano, o ônix e a gota. O estoraque é uma gota que flui de uma árvore, de odor agradabilíssimo, e que expele um líquido semelhante ao mel; o gálbano é uma espécie que, com o seu odor, afugenta as serpentes; o ônix é aquilo que no Êxodo se chama onicha (Ex 35,27), pois, em grego, onyx e, em latim, ungula, isto é, unha, porque se assemelha à unha humana; a gota é uma espécie que cura quaisquer endurecimentos e acalma os inchaços. No estoraque, portanto, é designada a compunção das lágrimas, que exalam perfume na presença de Deus e são mais doces para a alma penitente que o mel e o favo de mel (cf. Sl 18,11); no gálbano, a confissão, que afugenta as serpentes, isto é, os demônios; na gota, é designada a humildade da satisfação, que cura a dureza da mente e acalma a soberba do corpo. Mas, porque não será feliz todo aquele que tiver começado, mas aquele que tiver perseverado (cf. Mt 10,22; 24,13), deve-se acrescentar a estas a unha, que é a parte extrema do corpo, isto é, a perseverança final. Estes unguentos, portanto, o perfumista, isto é, o pregador, deve triturá-los no pilão, isto é, no coração do pecador, ou trabalhá-los com o pilão da pregação, e misturar o bálsamo não misturado da misericórdia divina, para que tenham sabor mais suave ao paladar da alma penitente.

Segue-se: “E compõe unguentos salutares”. A unção, que ensina ao homem tudo aquilo que lhe é necessário, é composta de duas coisas: vinho e óleo; do vinho que fluiu da verdadeira videira, comprimida no lagar da cruz, e do óleo com que a Igreja primitiva foi ungida no dia de Pentecostes, isto é, do sangue de Jesus Cristo e da graça do Espírito Santo. Com estas duas coisas o perfumista deve compor os unguentos, para que possa ungir os membros de Jesus Cristo, que são os fiéis da Igreja, juntamente com as três mulheres, das quais se diz no Evangelho de hoje: “Maria Madalena, Maria de Tiago e Salomé compraram aromas” etc.

2. Observa que neste Evangelho se destacam quatro fatos. Primeiro, a devoção das santas mulheres e a compra dos aromas, quando se diz: “Maria Madalena” etc. Segundo, a remoção da pedra, quando se acrescenta: “E diziam entre si” etc. Terceiro, a visão dos anjos, onde se diz: “E, entrando no sepulcro” etc. Quarto, a ressurreição de Jesus Cristo, onde se diz: “Ele lhes disse: Não vos assusteis” etc.

I. Da devoção das santas mulheres e da compra dos aromas

3. Digamos, portanto: “Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas etc.” Nessas três mulheres são designadas três virtudes de nossa alma, a saber, a humildade da mente, o desprezo do mundo e a alegria da paz. Em Madalena, assim chamada de Magdala, aldeia cujo nome se interpreta “torre”, é designada a humildade da mente; em Maria, mãe de Tiago, que se interpreta “aquela que suplanta”, mãe de Tiago, o menor (cf. Mc 15,40), o desprezo do mundo; em Salomé, que se diz “pacífica”, mãe de Tiago e de João Evangelista, é figurada a alegria da paz. Essas mulheres são chamadas por um só nome, isto é, Maria, que se interpreta “iluminadora”, porque essas três virtudes iluminam a mente do homem, na qual habitam. Falemos, portanto, algo sobre cada uma delas.

Maria Madalena é a humildade da mente, que, enquanto se considera um nada, eleva-se ao alto como uma torre. Por isso, Tiago diz: “Glorie-se o irmão humilde em sua exaltação” (Tg 1,9), porque é de onde vem a humilhação que vem também a exaltação. A respeito dessa torre diz-se no Gênesis que Jacó “ergueu sua tenda para além da Torre do Rebanho” (Gn 35,21). Na torre é designada a humildade; no rebanho, a pura simplicidade. Jacó, isto é, o homem justo, fixa a tenda de sua vida, na qual milita — pois a vida é uma milícia sobre a terra (cf. Jó 7,1) — para além da Torre do Rebanho, porque permanece constante na humildade, que é mãe da pura simplicidade. E nota que se diz “para além da torre”, e não “na torre”, porque o homem justo, enquanto vive aqui, pensa de si menos do que é.

Por isso, João diz a respeito de Madalena: “Maria estava junto do sepulcro, do lado de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se e olhou para dentro do sepulcro. E viu dois anjos vestidos de branco, sentados, um à cabeceira e outro aos pés, onde havia sido colocado o corpo de Jesus” (Jo 20,11-12). Nota cada uma das palavras. Sepulcro, chamado monumento, porque admoesta a mente, isto é, à lembrança do morto, significa a memória de nossa morte e a recordação de nosso sepultamento; essas coisas nos admoestam a afligir-nos na mente e a perseverar nas obras de penitência. Maria, portanto, estava junto do sepulcro, porque o humilde permanece solícito junto à memória de sua morte, para que, quando ela vier, o encontre vigilante (cf. Lc 12,37). E como estava? “Do lado de fora”, diz, “chorando”: do lado de fora, não dentro. Do lado de fora não há outra coisa senão “pranto e grande lamento”; “Raquel”, que se interpreta “ovelha”, isto é, a alma simples do penitente, “chora seus filhos”, isto é, suas obras, que pela prática do pecado foram mortas, “e não quer ser consolada, porque já não existem” (Mt 2,18) tão vivas como eram antes de terem sido mortas. Ai! Como é fácil a descida, mas difícil a subida! Destrói-se em pouco tempo aquilo que foi adquirido em longo tempo. “Enquanto chorava, inclinou-se e olhou para dentro do sepulcro.” Eis a verdadeira humildade do penitente. Nota estas três palavras: chorava, inclinou-se, olhou. Chorava: eis a contrição; inclinou-se: eis a confissão; olhou: eis a satisfação, à qual verdadeiramente se dedica, quando dirige os olhos para o sepulcro de sua morte.

“E viu”, diz, “dois anjos.” Esses dois anjos, que se interpretam “mensageiros”, significam, em sentido moral, a miserável entrada e a amarga saída de nossa vida. Nós, que somos o corpo de Jesus Cristo, tenhamos um à cabeceira e outro aos pés, atentos à miserável entrada e à saída de nossa vida. São justamente chamados anjos, porque nos anunciam a fragilidade de nosso corpo e a vaidade deste mundo. Esses são os dois anjos que, como se diz no Gênesis, “tiraram Ló de Sodoma e lhe disseram: Salva a tua vida; não olhes para trás, nem permaneças em toda a região ao redor; mas salva-te no monte, para que também tu não pereças juntamente” (Gn 19,17). Quem quer que considerasse bem a entrada e a saída de sua vida sairia de “Sodoma”, isto é, do fedor do mundo e do pecado, e salvaria sua alma; não voltaria “para trás”, isto é, aos pecados passados; e não permaneceria “em toda a região ao redor” — permanece ao redor aquele que, depois de abandonado o pecado, ainda não abandonou as circunstâncias e as imaginações do pecado —, “mas no monte”, isto é, na excelência da vida, salvar-se-ia. Retamente, portanto, por Madalena é designada a humildade.

4. A Maria de Tiago, cujo nome se interpreta como “suplantadora”, associa-se bem à Madalena. Ela é o desprezo do mundo, pelo qual se calca aos pés, como lama, tudo o que é transitório, e se elimina o fermento da conduta anterior. Por isso, diz o Apóstolo na epístola de hoje: “Eliminai o fermento velho, para que sejais uma massa nova, assim como sois ázimos; pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (1Cor 5,7). O fermento, chamado assim por causa do fervor, depois da primeira hora já não pode ser contido; crescendo, transborda e ultrapassa toda medida; em grego, chama-se zima. Por isso, na sequência: “Seja eliminado o velho fermento, para que se proclame com sinceridade a nova ressurreição” (Adão de São Vítor, “Sequência”). O fermento é a cobiça das coisas terrenas e a concupiscência dos desejos carnais que, depois que começam a ferver, ultrapassam toda medida; pois o avarento não se saciará de dinheiro, nem o luxurioso se fartará da lascívia da carne.

Por isso, Isaías diz: “Os ímpios”, isto é, os avarentos e os luxuriosos, “são como o mar fervente, que não pode aquietar-se, e suas ondas transbordam em imundície e lama”; e: “Não há paz para os ímpios, diz o Senhor” (Is 57,20-21). As “ondas” do mar fervente e inquieto são os desejos do homem perverso, que esmagam sua própria alma e a reduzem à lama da sujeira e da miséria, na qual os porcos, isto é, os demônios, habitam de bom grado. “Eliminai, portanto, o fermento velho.” Por isso, o Senhor ordena no Êxodo: “Durante sete dias não se encontrará fermento em vossas casas. Quem comer algo fermentado terá sua alma exterminada da terra de Israel” (Ex 12,19). Durante sete dias, isto é, durante todo o tempo de nossa vida, que se desenvolve no ciclo de sete dias, não se encontre nas vossas casas, isto é, nos vossos corações, o que é fermentado, isto é, o que ferve de concupiscência mundana e carnal. Do contrário, a alma daquele que o tiver comido perecerá da terra de Israel, isto é, da vida eterna, na qual veremos Deus face a face (cf. 1Cor 13,12). “Eliminai”, portanto, “o fermento velho, para que sejais uma massa nova, assim como sois ázimos.”

Por isso, lê-se no Êxodo: “O povo tomou a farinha amassada antes que fermentasse e, envolvendo-a nos mantos, colocou-a sobre os ombros” (Ex 12,34). E pouco depois acrescenta-se: “Cozeram a farinha que haviam trazido do Egito já amassada e fizeram pães ázimos assados sob a cinza” (Ex 12,39). Observa que nesta passagem se notam três coisas: a contrição, a confissão e a satisfação. A farinha, assim chamada de farro, que é alimento dos enfermos, é a penitência, que é alimento dos pecadores; devemos amassá-la com a água da contrição, envolvê-la nos mantos, isto é, em nossas consciências, com o vínculo da confissão, e carregá-la sobre os ombros por meio das obras de satisfação. Essa farinha, para que não fermente, devemos cozê-la com o fogo, isto é, com o amor do Espírito Santo, e fazer pães assados sob a cinza, isto é, o viático de nossa mortalidade, pães ázimos da sinceridade e da verdade (cf. 1Cor 5,8), vivendo com sinceridade para conosco e com verdade para com Deus e o próximo.

5. “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.” Segundo Agostinho, Páscoa não recebe o nome de paixão, mas de passagem, porque naquele dia o exterminador passou pelo Egito, ou o Senhor, libertando o seu povo. Com esse nome designavam o Cordeiro que, nesse dia, passaria deste mundo para o Pai. E observa que se chama Páscoa o cordeiro e também a própria hora vespertina em que o cordeiro era morto, isto é, a décima quarta lua do primeiro mês; e também se chamam dias dos ázimos os que iam da décima quinta lua até o vigésimo primeiro dia do mesmo mês. Mas os evangelistas empregam indistintamente “dias dos ázimos” por Páscoa, e Páscoa por dias dos ázimos. Por isso, Lucas diz: “Aproximava-se”, diz ele, “o dia festivo dos ázimos, que se chama Páscoa” (Lc 22,1). Cristo, portanto, nossa Páscoa, foi imolado. Comamos, pois, nesta solenidade pascal, este Cordeiro assado por nós na cruz, imolado a Deus Pai para a reconciliação do gênero humano, com alfaces silvestres, isto é, com a amargura do coração, do modo como foi ordenado aos filhos de Israel.

“Cingireis”, diz o Senhor, “os vossos rins, tereis sandálias nos pés, segurareis bastões nas mãos e comereis às pressas; pois é a Páscoa, isto é, a passagem do Senhor” (Ex 12,11). Observa estas três palavras: rins, sandálias e bastões. Os rins são assim chamados porque deles nascem rios de humor obsceno. Com efeito, as veias e as medulas exsudam nos rins um líquido sutil que, depois de dissolvido novamente pelos próprios rins, desce com o calor venéreo. A constituição dos rins é quente, e os rins têm muita gordura; por isso, bem diz o Senhor: “Cingireis os vossos rins”, isto é, refreareis o ardor da luxúria pela mortificação da carne. As sandálias são os exemplos dos santos, com os quais devemos proteger os pés, isto é, os afetos da mente, para que possamos calcar com segurança as serpentes, isto é, as sugestões do diabo, e os escorpiões, isto é, as falsas promessas do mundo. Os bastões nas mãos são as palavras da pregação traduzidas em obras. Portanto, quem quiser receber dignamente o corpo do Senhor, cinja os rins com o cinto da castidade, fortaleça os afetos da mente com os exemplos dos santos, mantenha as palavras nas obras; e assim celebre a verdadeira Páscoa com os verdadeiros israelitas, para passar deste mundo ao Pai (cf. Jo 13,1). Sobre tal passagem disse certo filósofo: “O mundo é como uma ponte; atravessa-a, não te hospedes nela.” E outro: “O mundo é uma ponte instável; sua entrada é o ventre da mãe, e sua saída será a morte.” É bom, portanto, construir com Maria Madalena a torre da humildade e, com Maria de Tiago, suplantar o mundo.

6. A estas duas se acrescenta a terceira, isto é, Salomé. Ela é a alegria da paz, da qual diz o Eclesiástico: “De três coisas se agradou o meu espírito, as quais são aprovadas diante de Deus e dos homens: a concórdia entre irmãos, o amor ao próximo e o marido e a mulher que vivem em acordo” (Eclo 25,1-2). Dessa tríplice paz nasce a alegria para Deus e seus anjos, e a felicidade para os homens. Eis, diz o Profeta, “como é bom e agradável” (Sl 132,1) etc.

Digamos, portanto: “Maria Madalena, Maria de Tiago e Salomé compraram aromas para ir ungir Jesus”. Lucas diz que as mulheres que tinham vindo com ele da Galileia viram o sepulcro e como o seu corpo havia sido colocado. E, voltando, prepararam aromas e unguentos; e no sábado guardaram silêncio, segundo o mandamento (Lc 23,55-56). Era ordenado, diz a Glosa sobre Mateus, que se observasse o repouso do sábado da tarde até a tarde; por isso, depois de sepultado o Senhor, enquanto era permitido trabalhar, as piedosas mulheres se ocupavam em preparar os unguentos, isto é, desde a parasceve até o pôr do sol. E, como não puderam concluir por causa da brevidade do tempo, logo que passou o sábado, isto é, ao pôr do sol, quando voltou a ser permitido trabalhar, apressaram-se a comprar aromas, para que, vindo pela manhã, ungissem o corpo de Jesus. Essas piedosas mulheres se apressavam; trabalhavam na preparação dos unguentos, assim como as abelhas trabalham para produzir a cera e o mel. Por isso se diz delas, no livro das Coisas Naturais, que as atividades das abelhas são distintas entre si; pois algumas fazem a cera e outras o mel, algumas amassam, outras levam água e recolhem o mel, e algumas saem para trabalhar no princípio do dia, enquanto outras descansam até que alguma as desperte. Depois voam e saem juntas para trabalhar. Entendo como essa abelha, que desperta as outras que dormem, a bem-aventurada Madalena, a qual, porque amava muito, talvez incitasse as outras a preparar os unguentos. A bem-aventurada Maria, porém, depois que o Senhor, seu Filho, foi sepultado, como dizem alguns, jamais se afastou do sepulcro, mas permaneceu continuamente ali, velando em lágrimas, até merecer vê-lo ressuscitado antes de todos; por isso os fiéis celebram o sábado em sua honra.

7. A seu exemplo, as almas fiéis, iluminadas pelo esplendor da humildade, da pobreza e da paz, comprem, com o denário da boa vontade, marcado com a imagem do imperador (cf. Mt 22,19-21), aqueles aromas de que o Senhor fala a Moisés no Êxodo, dizendo: “Toma para ti aromas: a primeira e escolhida mirra, o cinamomo, a cana, a cássia e o óleo de oliveiras; e farás o óleo da unção santa, um unguento composto, obra do perfumista; e com ele ungirás a tenda do testemunho, a arca da aliança, a mesa com seus utensílios, o candelabro e seus acessórios, os altares do incenso e do holocausto” (Ex 30,23-28). Na primeira e escolhida mirra entende-se a devoção da mente, que devemos primeiro escolher para nós; no cinamomo, que é de cor cinzenta, a memória da morte; na cana, a melodia da confissão; na cássia, que existe em lugares aquosos e se eleva às alturas, a fé, que é alimentada nas águas do Batismo e elevada às alturas pela caridade; no óleo de oliveiras entende-se a misericórdia do coração. Destes cinco elementos devemos fazer um santo unguento que nos santifique, composto pela obra do perfumista, isto é, do Espírito Santo.

Com este unguento devem ser ungidas estas cinco coisas: a tenda do testemunho, isto é, os pobres de Jesus Cristo, os quais, marcados pelo caráter de sua pobreza, enquanto estão neste mundo peregrinam longe do Senhor; a arca da aliança, isto é, aqueles que, numa carroça nova, ou seja, com o coração e o corpo renovados pela penitência, carregam a arca da obediência; e a mesa com seus utensílios, isto é, aqueles que oferecem a todos os doze pães, isto é, a doutrina dos doze Apóstolos, com um punhado de incenso, isto é, a humildade da mente devota, e com a patena de ouro, isto é, a claridade da caridade fraterna; e o candelabro e seus acessórios, isto é, todos os santos prelados da Igreja, que não escondem o candelabro de sua dignidade debaixo do alqueire, isto é, sob o lucro temporal, mas o colocam sobre o monte, isto é, sobre a excelência de uma vida santa, para que ilumine e mostre o caminho a todos os que estão na casa, isto é, na Igreja (cf. Mt 5,15); e não somente o candelabro, mas também seus acessórios, isto é, todos os demais constituídos em ordem inferior; e os altares do holocausto e do incenso. No altar do holocausto são representados os ativos, que se oferecem inteiramente às necessidades do próximo; no altar do incenso, os contemplativos, que experimentaram a suavidade das delícias celestes. Portanto, com tal unguento, composto pela obra do Espírito Santo, devem ser ungidos todos estes que mencionamos, os quais são membros de Jesus Cristo, crucificados na cruz da penitência, mortos para o mundo e sepultados no sepulcro da conversação celeste, longe da perturbação dos homens.

8. Digamos, portanto: “Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para vir ungir Jesus. E, muito cedo, no primeiro dia depois do sábado, foram ao sepulcro, já tendo nascido o sol” (Mc 16,1-2). Mateus diz assim: “Ao entardecer do sábado, que começa a clarear no primeiro dia depois do sábado, veio Maria Madalena e a outra Maria para ver o sepulcro” (Mt 28,1). Lucas diz assim: “No primeiro dia depois do sábado, muito de madrugada, foram ao sepulcro, levando os aromas que haviam preparado” (Lc 24,1). João diz assim: “No primeiro dia depois do sábado, Maria Madalena foi de manhã ao sepulcro, quando ainda estava escuro” (Jo 20,1). Marcos diz: “Muito cedo”, e nisso não diverge de Lucas e João. Mateus, referindo-se à primeira parte da noite, isto é, ao entardecer, quer significar a noite, ao fim da qual foram ao sepulcro. Entende, portanto, assim: “Ao entardecer”, isto é, na noite que começa quando termina a luz, pois o crepúsculo não é a primeira parte da noite, mas a última; é a madrugada que corresponde à parte extrema da noite, quando foram ao sepulcro. “Ao entardecer”, portanto, “do sábado”, isto é, na noite do dia de sábado; ao entardecer, certamente, começaram a ir, isto é, a preparar os aromas, mas chegaram ao despontar da manhã. O que Mateus, por causa da brevidade, expõe de modo mais obscuro, os outros dizem de maneira mais clara.

Moralmente. “E, muito cedo, no primeiro dia depois do sábado” etc. “De manhã”, isto é, ao nascer da graça, sem a qual há noite na alma; acerca dela diz o Profeta: “De manhã estarei diante de ti” (Sl 5,5), reto e ereto, como me fizeste reto e ereto. No primeiro dia depois do sábado, as almas santas vão ao sepulcro. Diz-se claramente que vão no primeiro dia depois do sábado, porque, se o espírito não repousar da preocupação com as coisas temporais, não se aproxima de Deus. Por isso, diz o Senhor por meio de Jeremias: “Guardai as vossas almas e não queirais levar pesos no dia de sábado, nem os introduzais pelas portas de Jerusalém” (Jr 17,21). Sábado interpreta-se como repouso; Jerusalém é a alma, e as portas são os cinco sentidos do corpo. Levam, portanto, pesos no dia de sábado e os introduzem pelas portas de Jerusalém aqueles que, envolvidos pela inquietação das coisas temporais, introduzem na alma, pelas cinco portas dos sentidos, o peso dos pecados e a carga das preocupações mundanas; e, por isso, não guardam a alma dos pecados. Mas as almas fiéis, deixando de lado todo o zumbido das moscas do Egito (cf. Is 7,18), vão ao sepulcro no primeiro dia depois do sábado.

II. Da remoção da pedra da porta do sepulcro

9. Segue-se o segundo. “E diziam entre si: Quem nos rolará a pedra da entrada do sepulcro? E, olhando, viram que a pedra havia sido removida. Com efeito, era muito grande” (Mc 16,3-4).

Alegoricamente. A remoção da pedra indica a revelação dos mistérios de Cristo, que estavam encobertos pelo véu da letra da Lei. Com efeito, a Lei foi escrita na pedra; removido o seu véu, manifestou-se a glória da ressurreição, e por todo o mundo começou a ser proclamada a abolição da morte antiga e a vida eterna que nos foi dada esperar.

Moralmente. A pedra é removida quando, pela graça, é retirado o peso do pecado. Quando isso acontece, e como deve comportar-se o homem para que isso se realize nele, diz-se no Gênesis: Era costume que, reunidas todas as ovelhas, removessem a pedra da boca do poço (cf. Gn 29,3). Se queres, portanto, que seja removida a pedra do pecado, que te oprime para que não ressuscites, reúne as ovelhas, isto é, pensamentos inocentes, em Cristo. E acrescenta-se ali: “E eis que Raquel vinha com as ovelhas de seu pai, pois era ela quem apascentava o rebanho” (Gn 29,9). Raquel, que se interpreta como ovelha, apascenta as ovelhas, porque o homem simples nutre pensamentos inocentes.

Do mesmo modo, moralmente, vai ao sepulcro aquele que se propõe fazer penitência em algum mosteiro ou em uma ordem religiosa. Mas, considerando a grandeza da pedra, isto é, a aspereza da vida religiosa, diz: “Quem nos rolará a pedra da entrada do sepulcro?” Grande é a pedra: difícil é a entrada, assíduas as vigílias, frequentes os jejuns, parca a alimentação, áspera a veste, dura a disciplina, voluntária a pobreza, pronta a obediência; e quem nos rolará esta pedra da entrada do sepulcro? Ó mentes femininas, aproximai-vos e olhai; não desconfieis, e vereis a pedra removida. “Um anjo”, diz Mateus, “desceu do céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela” (Mt 28,2). O anjo é a graça do Espírito Santo, que remove a pedra da entrada do sepulcro, fortalece a fragilidade, suaviza toda aspereza e adoça toda amargura com o bálsamo do seu amor. “O cavalo”, diz o Profeta, isto é, a boa vontade, “é preparado para a batalha, mas é o Senhor quem concede a salvação” (cf. Pr 21,31). Para quem ama, nada é difícil.

III. Da visão do anjo

10. Segue-se o terceiro. “E, entrando no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, coberto com uma veste branca, e ficaram atônitas” (Mc 16,5).

Moralmente. O sepulcro é a vida contemplativa, na qual o homem, morto para o mundo, é sepultado no escondimento, como num sepulcro. Por isso, Jó diz: “Entrarás no sepulcro em abundância, como se recolhe um monte de trigo no seu tempo” (Jó 5,26). O justo, depois de expelir a palha das coisas temporais, saindo do mundo, entra, na abundância da graça divina, no sepulcro da vida contemplativa, na qual é guardado como um monte de trigo, pois sua alma é revigorada na contemplação pela doçura celeste. Ele, entrando no sepulcro, vê um jovem sentado à direita, coberto com uma veste branca. É chamado jovem porque está pronto para ajudar; é o Filho de Deus, que, como jovem, nos ajudou e está sempre pronto a ajudar. Por isso se diz bem: “Estava sentado à direita”. A direita é assim chamada, como que de “dar para fora” (lat. dans extra). Ele nos ajudou admiravelmente quando nos deu a divindade e assumiu a nossa humanidade, para que nós, que estávamos fora, estivéssemos dentro; para que nós entrássemos, ele saiu e cobriu-se com uma veste branca, isto é, com a carne sem mancha alguma. Diz o bem-aventurado Bernardo: “Depois de todos os benefícios, quis que o seu lado direito fosse perfurado, para mostrar que somente da direita para a direita quis preparar-nos um lugar”.

Este jovem, o homem justo, saindo do mundo e entrando no sepulcro, deve ver, deve contemplar, do modo como diz o bem-aventurado Bernardo: “O homem ainda animal, que começa, e o noviço de Cristo devem ser instruídos a aproximar-se de Deus, para que Deus se aproxime deles. Deve-se exortá-los a voltar-se para aquele a quem oferecem o sacrifício de sua oração com a maior pureza de coração possível. Quanto mais vê ou compreende aquele a quem oferece, tanto mais está unido a ele pelo afeto, e o próprio entendimento se transforma em amor por ele; quanto mais o ama, tanto mais lhe agrada compreender se aquilo que oferece é digno de Deus, e nisso encontra o seu bem. Contudo, àquele que assim ora ou medita, é melhor e mais seguro propor a imagem da humanidade do Senhor, do seu nascimento, da sua paixão e da sua ressurreição, para que o espírito fraco, que não sabe pensar senão em corpos e coisas corpóreas, tenha algo a que se afeiçoe e a que se apegue, segundo o seu modo, com olhar de piedade. Com efeito, ele está na forma do Mediador, em quem, como se lê em Jó, o homem, contemplando a sua natureza, não pecará (cf. Jó 5,24). Isto é: quando dirige a ele o olhar da sua intenção, considerando em Deus a natureza humana, não se afaste jamais da verdade; e, enquanto pela fé não separa Deus do homem, aprenda a reconhecer, algum dia, Deus no homem. Nisso, para os pobres de espírito e para os filhos mais simples de Deus, o sentimento costuma ser tanto mais doce quanto mais próximo da natureza humana. Depois, porém, quando a fé passa para o afeto, abraçando no centro do coração, com o doce abraço do amor, Cristo Jesus, homem perfeito assumido por causa do homem, Deus perfeito por causa daquele que assume, começam a conhecê-lo já não segundo a carne, embora ainda não possam pensá-lo plenamente como Deus segundo Deus; e, santificando-o em seus corações, amam oferecer-lhe os seus votos” (Guilherme de Saint-Thierry), e, juntamente com as santas mulheres, os seus aromas, dos quais se diz: “E, entrando no sepulcro, viram um jovem sentado à direita” etc.

IV. Da ressurreição de Jesus Cristo

11. Segue-se o quarto: “Aquele que lhes disse: Não vos espanteis; buscais Jesus Nazareno, o crucificado; ressuscitou, não está aqui; eis o lugar onde o puseram. Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que vos precederá na Galileia; ali o vereis, como vos disse” (Mt 16,6-7). Desapareceu a amarga raiz da cruz, desabrochou a flor da vida com seus frutos, isto é, aquele que jazia na morte ressuscitou na glória. Ressuscitou pela manhã aquele que fora sepultado à tarde, para que se cumprisse: “À tarde perdurará o pranto, e pela manhã haverá alegria” (Sl 29,6). Foi, portanto, sepultado na sexta-feira, que se chama Parasceve, por volta da tarde; durante a noite seguinte e o dia de sábado, com a noite seguinte, permaneceu colocado no sepulcro; no terceiro dia, isto é, na manhã do primeiro dia da semana, ressuscitou. E esteve bem um dia e duas noites no sepulcro, porque uniu a luz de sua única morte às trevas de nossa dupla morte. Com efeito, estávamos retidos pela morte da alma e do espírito; ele trouxe para nós uma única morte, a da carne, e desfez as nossas duas. Uniu a sua única morte à nossa dupla morte e, morrendo, destruiu ambas as nossas.

Note-se que se lê que o Senhor apareceu dez vezes a seus discípulos depois da Ressurreição. Cinco vezes no próprio dia da Ressurreição: primeiro, a Maria Madalena; segundo, às mulheres que voltavam do sepulcro; terceiro, a Pedro, segundo aquilo: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão” (Lc 24,34); quarto, aos dois que iam para Emaús; quinto, aos dez apóstolos, com as portas fechadas, estando Tomé ausente; sexto, no oitavo dia, quando apareceu aos discípulos e Tomé estava com eles; sétimo, quando se manifestou a sete discípulos durante a pesca; oitavo, no monte Tabor, onde o Senhor havia estabelecido que se reunissem; e assim, antes do dia da Ascensão, apareceu oito vezes. No próprio dia da Ascensão, apareceu duas vezes, a saber, quando os onze estavam comendo no cenáculo, donde Lucas diz: “E, enquanto comia com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém” (At 1,4), e novamente depois da refeição. Os onze discípulos e outros, e a bem-aventurada Virgem com as outras mulheres, foram ao monte das Oliveiras, onde o Senhor lhes apareceu e, “à vista deles, elevou-se, e uma nuvem o ocultou aos seus olhos” (At 1,9). Vejamos o que significam moralmente essas dez aparições.

12. Primeiro, apareceu a Maria Madalena. Com efeito, a graça do Senhor aparece primeiro à alma penitente, antes que às demais. Por isso, no Êxodo: “Apareceu no deserto o maná, miúdo e como triturado no almofariz, semelhante à geada sobre a terra” (Ex 16,14). No deserto, isto é, no penitente, aparece o “maná” da graça divina, “miúdo” na contrição, “triturado no almofariz” na confissão, “semelhante à geada” na satisfação.

Segundo, apareceu às mulheres que voltavam do sepulcro. Com efeito, o Senhor aparece àqueles que retornam do sepulcro, isto é, que saem da miserável morte deles para considerar a dolorosa entrada de seu nascimento. Por isso, no Gênesis: “O Senhor apareceu a Abraão no vale de Mambre, enquanto estava sentado à entrada de sua tenda, no ardor do dia” (Gn 18,1). Abraão é o homem justo; o vale, a dupla humildade; Mambre interpreta-se claridade; a tenda, o corpo; a porta, a entrada e a saída da vida; o ardor do dia, a compunção da alma. O Senhor, portanto, aparece ao homem justo que se encontra na dupla humildade do coração e do corpo, a qual conduz à claridade da glória celeste, e que está sentado à entrada de sua tenda, isto é, considerando o nascimento de seu corpo e sua morte; e tudo isso deve considerar no ardor da compunção.

Terceiro, apareceu a Pedro. Por isso, Jeremias: “O Senhor apareceu-me. E com amor eterno te amei; por isso te atraí, compadecendo-me de ti. E novamente te edificarei” (Jr 31,3-4). Diz Pedro: O Senhor, ressuscitado dos mortos, apareceu a mim, a mim penitente, a mim que chorava amargamente! E o Senhor respondeu: “Com amor eterno te amei”. Por isso: “Voltando-se, o Senhor olhou para Pedro” (Lc 22,61). Olhou-o porque o amava; “por isso”, com o laço do amor, “te atraí, compadecendo-me de ti”. Não quer, diz Agostinho, infligir vingança aos pecadores aquele que procura conceder o perdão aos que confessam seus pecados. “E novamente te edificarei”, elevando-te ao cume do apostolado. Por isso: “Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro”. Aí diz Gregório: Pedro é chamado pelo nome, para que não desespere por causa da negação; pois, se o anjo não o tivesse mencionado nominalmente, ele, que havia negado o Mestre, não ousaria voltar para junto dos discípulos.

Quarto, apareceu aos dois discípulos que iam para Emaús. Emaús interpreta-se desejo de conselho, isto é, daquele conselho que o Senhor dá, dizendo: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres” (Mt 19,21) etc. Os dois discípulos significam os dois preceitos da caridade: o amor de Deus e do próximo. Portanto, ao que possui a caridade e deseja a pobreza de Jesus Cristo, aparece o Senhor. Por isso, lê-se no Gênesis que Isaac subiu a Bersabéia, onde o Senhor lhe apareceu (cf. Gn 26,23-24). Bersabéia interpreta-se poço que sacia. Esta é a caridade e a humildade, que saciam a alma; quem as possui “não terá sede eternamente” (Jo 4,13).

Quinto, apareceu aos dez discípulos reunidos num só lugar, com as portas fechadas. Com efeito, quando os discípulos, isto é, os afetos da razão, se reúnem num só lugar e para um só fim, e as portas dos cinco sentidos se fecham à vaidade, então verdadeiramente aparece à mente a graça do Espírito Santo. Por isso, em Lucas: “Zacarias entrou no templo do Senhor, e apareceu-lhe o anjo do Senhor, de pé à direita do altar do incenso” (Lc 1,9.11). Quando Zacarias, que interpreta-se memória do Senhor, isto é, o homem justo que guardou o Senhor no tesouro de sua memória, entra no templo do Senhor, isto é, em sua consciência, na qual habita o Senhor, então o anjo do Senhor, isto é, a graça do Espírito Santo, aparece-lhe, iluminando-o, de pé à direita do altar do incenso. O altar do incenso é a compunção da mente; a direita, a reta intenção. A graça do Senhor, portanto, permanece à direita do altar do incenso, porque aprova aquela compunção, louva ou recebe aquele incenso que o justo eleva a partir da reta intenção da mente.

13. Em sexto lugar, apareceu aos discípulos no oitavo dia, quando Tomé estava com eles, e do coração deste retirou toda dúvida. Com efeito, quando estivermos no oitavo dia da ressurreição geral, ele nos tirará toda ruga de dúvida e toda mancha de mortalidade e enfermidade. Por isso, Isaías diz: “A luz da lua será como a luz do sol, e a luz do sol será sete vezes mais intensa, como a luz de sete dias, no dia em que o Senhor curar a ferida de seu povo e sarar o golpe de sua chaga” (Is 30,26). Observa estas duas palavras: ferida e chaga. A ferida diz respeito à alma; a chaga, ao corpo. Na ferida é figurado o pensamento impuro da alma; na chaga, a morte do corpo. Mas, no dia da ressurreição geral, quando o sol e a lua — como diz Isidoro no “Livro das criaturas” — receberem a recompensa de seu trabalho, porque o sol, no oriente, brilhará e arderá imóvel, sete vezes mais intensamente do que agora, de modo a atormentar os que estão no inferno, e a lua, permanecendo no ocidente, resplandecerá com o brilho que agora tem o sol, então, verdadeiramente, o Senhor curará a ferida de nossa alma, porque, como diz o Profeta, nenhuma fera, isto é, nenhum pensamento mau, passará por Jerusalém. Antes, como diz João no Apocalipse, a “cidade”, isto é, nossa alma, será “ouro puro, semelhante a vidro límpido” (Ap 21,18). Que há de mais brilhante que o ouro? Que há de mais puro que o vidro? E que haverá, pergunto, na ressurreição geral, de mais brilhante e mais puro que a alma do homem glorificado? Então o Senhor sarará o golpe de nossa chaga, pela qual fomos feridos por causa da desobediência de nossos primeiros pais, quando este corpo mortal se revestir de imortalidade, e este corpo corruptível, de incorruptibilidade (cf. 1Cor 15,53-54).

Naquela ressurreição geral, o paraíso do Senhor, isto é, a glória de nosso corpo glorificado, será regado por quatro rios: Fison, Geon, Tigre e Eufrates (cf. Gn 2,10-14), isto é, será adornado com quatro dons: claridade, sutileza, agilidade e imortalidade. Fison interpreta-se mudança de aspecto; Geon, peito; Tigre, flecha; Eufrates, fecundo. Pelo Fison é designada a claridade da ressurreição, pela qual, de tanta fealdade e tanta obscuridade, seremos transformados à semelhança do sol. Por isso: “Os justos resplandecerão como o sol” (Mt 13,43) etc. Pelo Geon é designada a sutileza; assim como o peito do homem não se rasga, não é ferido, não se abre nem sofre dor alguma quando os pensamentos saem do coração (cf. Mt 15,19), assim o corpo glorificado terá tamanha sutileza que nada lhe será impenetrável; e, contudo, permanecerá inviolável, indissolúvel, fechado e sólido, como o corpo de Cristo já glorificado, que entrou junto aos apóstolos com as portas fechadas (cf. Jo 20,26). Pelo Tigre é designada a agilidade, que é bem figurada pela velocidade da flecha. Pelo Eufrates é designada a imortalidade, na qual nos embriagaremos com a abundância da casa de Deus (cf. Sl 35,9); nela, plantados como a árvore da vida no meio do paraíso, daremos fruto: os frutos da eterna saciedade, pelos quais, saciados, jamais teremos fome.

14. Em seguida, apareceu aos sete discípulos que estavam pescando. A pesca representa a pregação, e nela o Senhor aparece aos que trabalham. Por isso, diz-se no livro dos Números que “a glória do Senhor apareceu sobre Moisés e Aarão; e o Senhor falou a Moisés, dizendo: Toma a vara e reúne o povo, tu e Aarão, teu irmão, e falai à pedra diante deles, e ela dará águas. E, quando tiveres tirado água da pedra, beberá toda a multidão e o seu gado” (Nm 20,6-8). Moisés, neste trecho, significa o pregador. Aarão interpreta-se como monte forte, no qual são designadas duas coisas: a excelência da vida e a constância da fortaleza. Sem tal irmão, Moisés jamais deve partir, pois o Senhor lhe diz: “Toma a vara” da pregação, “e reúne o povo, tu e Aarão, teu irmão”, sem o qual o povo jamais é reunido com proveito, porque, quando se despreza a conduta de alguém, também sua pregação é desprezada; “e falai à pedra”, isto é, ao coração endurecido do pecador, “e ela dará águas” de compunção. E acertadamente disse “falai”, e não “fala”. Com efeito, se somente o pregador fala e a vida permanece muda, a água não sai da pedra. O Senhor amaldiçoou a figueira na qual não encontrou frutos, mas somente folhas (cf. Mt 21,19; Mc 11,13-14): de folhas se revestiram os progenitores exilados do paraíso (cf. Gn 3,7). Falem, portanto, Moisés e Aarão, e a água sairá; e beberão a multidão do povo e os animais, isto é, tanto clérigos como leigos, tanto espirituais como carnais, se saciarão da água da compunção. Esta é a multidão da qual João diz: “Lançaram a rede e já não conseguiam puxá-la, por causa da grande quantidade de peixes” (Jo 21,6).

15. Em seguida, apareceu aos onze discípulos num monte da Galileia (cf. Mt 28,16-17). Galileia interpreta-se como transmigração e significa a penitência, na qual se realiza uma transmigração, quando o homem passa da margem do pecado mortal, pela ponte da confissão, à margem da satisfação penitencial. Assim, no monte da Galileia, isto é, na excelência da penitência, o Senhor aparece aos onze discípulos, isto é, aos penitentes, que são justamente chamados onze, porque onze eram as cobertas de pelo de cabra, como se diz no Êxodo, com as quais era coberto o teto do tabernáculo (cf. Ex 26,7). Nas cobertas de pelo de cabra são observadas duas coisas: o rigor da penitência e o fedor do pecado, do qual os penitentes confessam ter sido escravos. Com essas cobertas é coberto o teto do tabernáculo, isto é, da Igreja militante; elas suportam o ardor do sol, carregam o peso do dia e do calor (cf. Mt 20,12); protegem as cortinas tecidas de linho, jacinto, púrpura e escarlate duas vezes tingido, isto é, os fiéis da Igreja, adornados com o linho da castidade, o jacinto da contemplação, a púrpura da Paixão do Senhor e o escarlate duas vezes tingido do duplo mandamento da caridade, contra a inundação das chuvas, isto é, a perversidade dos hereges; contra o turbilhão, isto é, a sugestão do demônio; e contra a sujeira da poeira, isto é, a vaidade do mundo. Assim, o Senhor apareceu aos onze discípulos.

Por isso, Jacó diz no Gênesis: “O Deus onipotente apareceu-me em Luz, que está na terra de Canaã” (Gn 48,3). Luz interpreta-se como amendoeira e significa a penitência, na qual, como na amêndoa, há três elementos: a casca amarga, o invólucro sólido e o miolo doce. Na casca amarga é figurada a amargura da penitência; no invólucro sólido, a constância da perseverança; e no miolo doce, a esperança do perdão. O Senhor aparece, portanto, em Luz, que está na terra de Canaã, que se interpreta como mudança. Com efeito, verdadeira é a penitência pela qual o homem passa da esquerda para a direita e, com os onze discípulos, transmigra para o monte da Galileia, onde o Senhor aparece.

Em seguida, apareceu pela nona vez àqueles que estavam reclinados à mesa (cf. Mc 16,14), como diz Marcos, no próprio dia da Ascensão, quando, comendo com eles, como diz Lucas, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém (cf. At 1,4). O Senhor aparece àqueles que, no cenáculo de sua mente, repousam, isto é, descansam, da inquietação das coisas mundanas, e se alimentam do pão das lágrimas, na lembrança de seus pecados e na experiência da doçura celeste. Por isso, no Gênesis: “O Senhor apareceu a Isaac e disse: Não desças ao Egito, mas repousa na terra que eu te mostrarei e peregrina nela; estarei contigo e te abençoarei” (Gn 26,2-3). Três coisas o Senhor ordena ao justo: que não desça ao Egito, isto é, à inquietação das coisas mundanas, onde se fabricam tijolos com o barro da luxúria, a água da avareza e a palha da soberba; mas que repouse na terra de sua mente; e que, durante todos os dias de sua vida, nos quais agora combate (cf. Jó 14,14), se considere peregrino. E assim o Senhor estará com ele e o abençoará com a bênção de sua mão direita.

16. Do mesmo modo, apareceu-lhes pela décima vez, quando, como diz Lucas, “os conduziu para fora até Betânia”, isto é, ao monte das Oliveiras, “e, levantando as mãos, abençoou-os” (Lc 24,50); “e, à vista deles, foi elevado, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o aos seus olhos” (At 1,9). O Senhor aparece aos que se encontram no monte das Oliveiras, isto é, da misericórdia. Por isso se diz no Êxodo: “O Senhor apareceu a Moisés numa chama de fogo, do meio de uma sarça; e ele via que a sarça ardia, mas não se consumia” (Ex 3,2). A Moisés, isto é, ao homem misericordioso, o Senhor aparece na chama do fogo, isto é, na compaixão do espírito. Mas de onde procede esta chama? Do meio da sarça, isto é, do pobre, espinhoso, atribulado, faminto, nu e aflito; e o justo, ferido pelos espinhos daquela pobreza, inflama-se de compaixão, para dele se compadecer; e assim poderá ver que a sarça, isto é, o pobre, arderá com maior devoção e não se consumirá na pobreza.

Eia, pois, caríssimos irmãos, que vos reunistes nesta Páscoa da Ressurreição, nós vos suplicamos que, juntamente com as santas mulheres, compreis os aromas das virtudes com o denário da boa vontade, para que possais ungir os membros de Cristo com a suavidade da palavra e o perfume do bom exemplo; recordando a vossa morte, vinde e entrai no sepulcro da contemplação celeste, no qual vereis o anjo do grande conselho, o Filho de Deus, sentado à direita de Deus Pai. Ele, na ressurreição geral, quando vier julgar o mundo pelo fogo, aparecer-vos-á glorioso, não digo apenas dez vezes, mas para sempre; eternamente e pelos séculos dos séculos, vê-lo-eis tal como é, com ele vos alegrareis, com ele reinareis. Digne-se conceder-nos isso aquele que ressuscitou dos mortos, a quem pertencem a honra e a glória, o domínio e o poder, no céu e na terra, pelos séculos eternos. Diga toda alma fiel, nesta alegria pascal: Amém, aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.