1. Naquele tempo: Jesus disse a Pedro: “Segue-me” (Jo 21,19) etc.
Neste Evangelho são assinalados dois temas: a imitação de Cristo e o amor de Cristo por seu fiel discípulo.
2. A imitação de Cristo, como se lê: “Segue-me”. Ele diz isso a Pedro; e também a todo cristão: “Segue-me”, nu ao nu, livre de impedimentos ao que é livre de impedimentos. Por isso diz Jeremias: “Tu me chamarás: ‘Meu pai’, e não cessarás de andar após mim” (Jr 3,19). “Segue-me”, portanto; depõe a carga, pois, carregado, não podes seguir-me enquanto corro. “Corri”, diz, “sedento” (Sl 61,5), isto é, sedento da salvação humana. Para onde correu? Para a cruz. Corre também tu atrás dele, para que, assim como ele levou a sua cruz por ti, também tu leves a tua cruz por ti. Por isso diz Lucas: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo”, renunciando à própria vontade, “tome a sua cruz”, na mortificação da carne, “cada dia”, isto é, continuamente, “e assim me siga” (Lc 9,23). Assim, portanto, “segue-me”.
Ou, se desejas vir a mim e encontrar-me, “segue-me”, isto é, procura-me à parte. Por isso disse aos discípulos, em Marcos 6: “Vinde à parte, a um lugar deserto, e descansai um pouco. Pois eram muitos os que iam e vinham, e nem sequer tinham tempo para comer” (Mc 6,31). Ai! Quantos afetos carnais e quantos ruídos de pensamentos vão e vêm pelo nosso coração, de tal modo que não temos tempo para comer o alimento da eterna doçura nem para sentir o sabor da contemplação interior. E por isso o piedoso Mestre diz: “Vinde”, isto é, “à parte” da multidão tumultuada, “a um lugar deserto”, isto é, à solidão da mente e do corpo, “e descansai um pouco”. Verdadeiramente, “um pouco”, porque se diz no Apocalipse: “Fez-se silêncio no céu por cerca de meia hora” (Ap 8,1). “Quem me dará asas como as da pomba?” (Sl 54,7) etc.
Por isso diz Oseias: “Eis que eu a amamentarei, conduzi-la-ei ao deserto e falarei ao seu coração” (Os 2,14). Observa que, nestas três palavras, se assinala o tríplice estado: do iniciante, do que progride e do perfeito. Amamenta o iniciante quando o ilumina com a graça, para que cresça e progrida de virtude em virtude; e então o conduz, do tumulto dos vícios e da confusão dos pensamentos, à solidão, isto é, à quietude da mente; e ali, já perfeito, fala ao seu coração. Isso acontece quando sente a doçura da inspiração divina e se eleva todo no gozo da mente. Ó, quão grande é então em seu coração a grandeza da devoção, da admiração e da exultação! Pela grandeza da devoção, eleva-se acima de si mesmo; pela grandeza da admiração, é conduzido acima de si mesmo; pela grandeza da exultação, sai de si mesmo. “Segue-me”, portanto.
Ele fala à maneira de uma mãe piedosa que, quando ensina o filhinho a andar, mostra-lhe um pão ou uma maçã: “Vem”, diz, “atrás de mim, e eu te darei isto”. Quando o menino se aproxima, quase a ponto de recebê-lo, a mãe pouco a pouco se afasta e mostra o objeto; e, ao mostrá-lo, diz: “Segue-me, se queres recebê-lo”. Também certas aves tiram os filhotes dos ninhos e, com o seu voo, ensinam-nos a voar e a segui-las (cf. Dt 32,11). Assim Cristo, para que o sigamos, coloca-se como exemplo e promete a recompensa no reino.
3. “Segue-me”, portanto, porque conheço o bom caminho pelo qual te conduzirei. A respeito dele, diz-se nos Provérbios: “Mostrar-te-ei o caminho da sabedoria; conduzir-te-ei pelas veredas da retidão; quando nelas entrares, teus passos não serão embaraçados, e, correndo, não encontrarás tropeço” (Pr 4,11-12). O caminho da sabedoria é o caminho da humildade; todo outro é caminho da insensatez, porque da soberba. Este caminho ele nos mostrou quando disse: “Aprendei de mim” (Mt 11,29) etc. A vereda tem a largura de dois pés, de modo que uma pessoa não pode passar ao lado de outra; e é chamada semita, como que semis iter, isto é, metade do caminho; semis significa metade. As veredas da retidão são a pobreza e a obediência, pelas quais Cristo, pobre e obediente, te conduz com seu exemplo. Nelas não há nenhuma tortuosidade, mas tudo é equidade e retidão. Mas, coisa muito admirável! embora sejam tão estreitas, nelas não se diz que os passos ficam apertados. O caminho do mundo é largo e espaçoso, mas os mundanos, que nele caminham como ébrios, jamais conseguem encontrar largura suficiente; para o ébrio, toda largura é estreita. A malícia produz estreiteza; a pobreza, porém, e a obediência, precisamente porque estreitam, precisamente por isso concedem a liberdade, porque a pobreza torna rico, e a obediência torna livre. Quem corre atrás de Jesus por essas veredas não encontra o tropeço das riquezas nem da própria vontade.
“Segue-me”, portanto, e te mostrarei “o que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem” (1Cor 2,9). “Segue-me, e te darei”, como se diz em Isaías, “tesouros escondidos e riquezas secretas” (Is 45,3); e no mesmo capítulo 60: “Então verás e ficarás radiante, e teu coração se admirará e se dilatará” (Is 60,5). Verás a Deus face a face, tal como ele é (cf. 1Cor 13,12; 1Jo 3,2); serás cumulado de delícias e das riquezas da dupla veste da alma e do corpo; teu coração se admirará diante das ordens dos anjos e das moradas dos bem-aventurados, e assim se dilatará de alegria, com voz de exultação e de louvor. “Segue-me”, portanto.
4. O amor dele para com o seu fiel, como naquele trecho: “Pedro, voltando-se” (Jo 21,20). Quem verdadeiramente segue a Cristo deseja que todos o sigam e, por isso, volta-se para o próximo com solicitude da alma, com oração devota e com a pregação da palavra. Isto é significado pela conversão de Pedro. E concorda com o que se lê no final do Apocalipse: “O Esposo e a esposa”, isto é, Cristo e a Igreja, “dizem: Vem! E quem ouve diga: Vem!” (Ap 22,17). Cristo, por meio da inspiração, e a Igreja, por meio da pregação, dizem ao homem: “Vem!”. E quem os ouve diga ao seu próximo: “Vem!”, isto é: segue Jesus.
“Pedro, voltando-se, viu aquele discípulo que Jesus amava, seguindo-o” (Jo 21,20). Jesus ama aquele que o segue; por isso diz o livro dos Números: “Farei entrar nesta terra o meu servo Caleb, que me seguiu, e a sua descendência a possuirá” (Nm 14,24). “Aquele que Jesus amava.” Diz a Glosa: Embora não seja mencionado o seu nome, por este sinal João é distinguido dos demais, não porque Jesus amasse somente a ele, mas porque o amava mais que aos outros. Amava também os outros, mas a este com maior intimidade. Concedeu-lhe a maior doçura do seu amor, porque fora escolhido por ele ainda virgem e permaneceu virgem; por isso, confiou-lhe sua Mãe. Foi também ele que, na ceia, reclinou-se sobre o seu peito. Foi grande sinal de amor o fato de somente ele ter repousado sobre o peito de Jesus, “no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2,3); nisso se figurava quão grandes mistérios da divindade ele haveria de escrever, mais que os outros.
5. Observa que Jacó repousou sobre uma pedra, e João sobre o peito de Jesus: aquele, no caminho; este, durante a ceia. Em Jacó, portanto, são figurados os peregrinos; em João, os bem-aventurados que já chegaram à pátria. Aqueles estão no caminho; estes, na pátria. Diz-se no Gênesis: Jacó saiu de Bersabéia e dirigia-se para Aram. E, querendo repousar, pôs uma pedra sob a cabeça e dormiu. Viu em sonho uma escada erguida, e anjos que subiam e desciam por ela, e o Senhor apoiado na escada (cf. Gn 28,10-13). Jacó, justo ainda peregrino, colocado em meio a múltiplos combates, sai de Bersabéia, que se interpreta como “sétimo poço”, isto é, a cobiça do mundo, que não tem fim, assim como não se lê que o sétimo dia tenha fim; e dirige-se para Aram, que se interpreta como “excelso”, isto é, para a Jerusalém celeste. Por isso diz com Habacuc: “Subirei até o nosso povo cingido” (Hab 3,16), que triunfou sobre a iniquidade do século.
E, porque deseja aliviar o labor de sua peregrinação, o justo põe uma pedra sob a cabeça e dorme. A cabeça é a mente; a pedra, a constância da fé; a escada erguida, a dupla caridade; os anjos são os homens justos, que sobem a Deus pela elevação da mente e descem ao próximo pela compaixão do coração. Portanto, o justo peregrino, para repousar, coloca a mente sobre a constância da fé. Por isso se diz nos Provérbios: “O lebréculo, povo fraco, coloca na rocha o seu abrigo” (Pr 30,26). O lebréculo, animal tímido, é o pobre de espírito, que, por ser tímido, é fraco diante de toda injúria; por isso coloca na rocha da fé o abrigo de sua esperança, para aí repousar e dormir, e ver em si mesmo erguida a escada da caridade.
E observa que o Senhor está apoiado na escada por dois motivos: para sustentá-la e para acolher por meio dela os que sobem. Com efeito, ele sustenta o peso de nossa fragilidade, para que possamos subir pelas obras da caridade; e acolhe os que sobem, para que, com ele, que é eterno e bem-aventurado, sejamos também nós eternos e bem-aventurados. Então, naquela ceia da eterna saciedade, repousaremos com João sobre o peito de Jesus. O coração está no peito; o amor, no coração. Repousaremos, portanto, em seu amor, porque o amaremos de todo o coração e de toda a alma, e nele encontraremos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.
Ó amor de Jesus! Ó tesouro depositado no amor, sabedoria de sabor inestimável e ciência do conhecimento! “Serei saciado”, diz ele, “quando aparecer a tua glória” (Sl 16,15); e: “Esta é a vida eterna: que conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3). A ele, louvor e glória pelos séculos eternos. Amém.
6. “Uma grande águia, de grandes asas e de grande envergadura, cheia de penas e de variedade, veio ao Líbano e levou o miolo do cedro” (Ez 17,3). Isto se encontra em Ezequiel, capítulo XVII. A águia, assim chamada pela agudeza da visão, é o bem-aventurado João, que, elevado acima de si mesmo pela sutil intuição da mente, viu o Filho Unigênito, que está no seio do Pai, o Verbo que era no princípio, e no-lo anunciou (cf. Jo 1,18.1). “E nós sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (Jo 21,24).
Por isso, dele diz Ezequiel, no capítulo I: “Havia um rosto de homem, um rosto de leão à direita, um rosto de boi à esquerda e um rosto de águia acima dos quatro” (Ez 1,10). À direita está indicada a prosperidade; à esquerda, a adversidade. Mateus e Marcos, representados no homem e no leão, estavam à direita; pois escreveram sobre a Encarnação e a pregação de Cristo, nas quais houve prosperidade. Lucas, porém, é representado no boi, que costumava ser oferecido em sacrifício; pois começou pelo sacerdócio e conduziu Cristo até o templo e o altar da cruz, onde se encontra a adversidade da Paixão, para ser imolado. João é representado na águia, que voa mais alto que as outras aves; e ele próprio revelou mais profundamente que os demais o mistério; por isso se diz que está “acima dos quatro”. É, porém, muito admirável que se diga: “acima dos quatro”, uma vez que ele mesmo é um dos quatro. Estava, portanto, acima de si mesmo. Verdadeiramente acima de si mesmo, porque falou acima do que pode falar um homem; por isso é chamado “grande águia de grandes asas”.
Quais foram as grandes asas dessa águia é dito na leitura da Missa de hoje, do Eclesiástico: “No meio da Igreja abriu a sua boca” (Eclo 15,5). É isto que ele mesmo diz no Apocalipse: “E vi e ouvi a voz de uma águia que voava pelo meio do céu” (Ap 8,13), na qual é designada a Igreja, em cujo meio, isto é, de modo comum a todos, “abriu a sua boca. E ele a encheu do espírito de sabedoria e de inteligência” (Eclo 15,5). Eis as duas grandes asas com as quais voou até o mistério da divindade: “No princípio era o Verbo”, diz ele, etc.
7. Foi, portanto, “de grande envergadura”. As virtudes são como que membros da alma, os quais se prolongam quando se estendem às obras de caridade. Por isso, concorda com este trecho o que se diz na leitura da Missa de hoje: “Quem teme a Deus fará o bem, e quem pratica a justiça alcançará a sabedoria; e ela lhe sairá ao encontro como uma mãe honrada e, como uma mulher desde a virgindade, o acolherá” (Eclo 15,1-2). O bem-aventurado João, porque temeu a Deus com temor filial e casto, fez o bem, isto é, entregou-se às obras de caridade. Isso encontrarás com clareza mais luminosa que a do dia se leres a sua epístola, na qual escreveu sobre a própria caridade com a máxima eficácia, porquanto a possuía. Pois “começou a fazer e a ensinar” (At 1,1). Foi também praticante da justiça, porque, como se diz no Eclesiástico, era “como um vaso de ouro maciço, ornado de toda pedra preciosa” (Eclo 50,10). E, porque conservou em si a justiça, isto é, a verdade do Evangelho, alcançou-a, isto é, obteve o seu fruto.
O Senhor disse no Evangelho: Quem deixar o pai, a mãe e a esposa receberá cem vezes mais (cf. Mt 19,29) etc. O bem-aventurado João deixou, por causa do Senhor, tanto a mãe como a esposa; e o Senhor deu-lhe outra mãe, não uma qualquer, mas a sua própria. Por isso, acrescenta-se: “Ela lhe sairá ao encontro como uma mãe honrada”. A bem-aventurada Maria, Mãe do Filho de Deus, honrada pelos dons das virtudes e pelos privilégios das graças, saiu ao encontro do bem-aventurado João ao pé da cruz: ela estava à direita, e ele, à esquerda; e ali, como mulher desde a sua virgindade, acolheu-o, virgem a virgem. Por isso, em João, capítulo XIX: “Vendo Jesus sua Mãe e, junto dela, o discípulo que amava, disse à sua Mãe: Mulher, eis o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis a tua mãe. E, desde aquela hora, o discípulo a recebeu em sua ‘casa’” (Jo 19,26-27), isto é, como mãe ou sob sua guarda. Ó pérola resplandecente da virgindade do bem-aventurado João, que mereceu ser acolhido como filho pela Mãe do Filho de Deus e acolhê-la como sua!
8. Por isso, acerca da pureza de sua virgindade, segue-se: “Cheia de penas e de variedade”. Algo semelhante diz Jó, no capítulo XXIX: “Morrerei em meu pequeno ninho e multiplicarei os meus dias como a palmeira” (Jó 29,18). A ave constrói o seu pequeno ninho, por dentro, com penas, e torna-o macio por todos os lados; e isso por duas razões: para que os ovos não sejam feridos pelos gravetos e para que os filhotes, ainda sem penas, encontrem calor e repouso na maciez das penas. O pequeno ninho do bem-aventurado João foi a humildade de sua consciência. E observa que se diz “pequeno ninho”, e não “ninho”. A virgindade, com efeito, conserva-se pela humildade. A virgem soberba não é virgem, mas corrompida. No diminutivo “pequeno ninho” indica-se a humildade. O seu pequeno ninho foi construído com a maciez das penas, isto é, ornado com a suavidade da pureza virginal; nele, os ovos dos pensamentos permaneceram ilesos, e os filhotes das obras encontraram alimento, repouso e crescimento.
Foi, portanto, esta águia “cheia de penas e de variedade”, porque da pureza da mente chegou à bela variedade das obras. Bela variedade: lírios misturados a rosas. Por isso, acerca dessas duas coisas, diz-se na leitura da Missa: “Revestiu-o com uma estola de glória”, no que diz respeito à pureza da virgindade, “acumulou sobre ele um tesouro de alegria e exultação” (Eclo 15,6), no que diz respeito à magnificência da obra. E, embora não tenha terminado a vida pelo martírio, foi, contudo, mártir, porque foi lançado num caldeirão de óleo fervente, relegado ao exílio em Patmos e, em Éfeso, recebeu veneno para beber; contudo, pela graça de Deus, saiu ileso, porque “multiplicou os seus dias como a palmeira”. A palmeira não perde o viço nem com a geada nem com o calor; assim, o bem-aventurado João não perdeu a firmeza da alma nem a virgindade do corpo, nem nas perseguições nem nas tentações; e assim morreu em seu pequeno ninho, porque perseverou nele até a morte. Ou então chamo de seu pequeno ninho o sepulcro, no qual, celebrados os mistérios divinos, hoje desceu vivo e reclinou-se, como se quisesse dormir [2].
9. Segue-se: “Veio ao Líbano e tomou o miolo do cedro”. O monte Líbano, que se interpreta como “brancura”, é a pátria celeste, cujos nazareus são mais brancos que a neve (cf. Lm 4,7). E no Apocalipse: “Caminharão comigo vestidos de branco, porque são dignos” (Ap 3,4). O cedro, árvore sublime (cf. 4Rs 19,23; Is 2,13), é a sublimidade da divindade. Voou, portanto, a águia de grandes asas até aquela pátria celeste e tomou o miolo do cedro, quando disse: “No princípio era o Verbo” etc. Ou então, o cedro incorruptível é a humanidade de Jesus Cristo, que não conheceu a corrupção, e cujo miolo é a divindade. Tomou, portanto, o miolo do cedro e trouxe-o para nós, quando disse: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). A este lugar concorda o que se diz na leitura da missa: “Alimentou-o com o pão da vida e da inteligência e deu-lhe de beber a água da sabedoria salutar” (Eclo 15,3). Ser alimentado com o pão da vida e dessedentar-se com a água da sabedoria não é outra coisa senão tomar o miolo do cedro. Roguemos, portanto, ao bem-aventurado João que, por suas preces, o Senhor nos conceda desprezar as coisas terrenas e voar para as celestes, para que mereçamos ser revigorados com o miolo do cedro. Conceda-no-lo aquele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
10. “Uma grande águia” etc. Nesta autoridade, consideram-se moralmente três coisas: a fé firme do penitente ou do homem justo, a esperança segura e a caridade perfeita.
A respeito da primeira, assim se lê: “Uma grande águia, de grandes asas e de grande envergadura”. A águia é assim chamada pela agudeza da vista ou do bico; quando este engrossa e ela já não pode apanhar o alimento, afia-o contra uma pedra e então se diz que se renova. “Renovar-se-á”, diz, “como a juventude da águia” (Sl 102,5). Com efeito, ela tem a vista tão penetrante que, quando está no ar, vê os peixinhos nas profundezas da água. Assim o penitente, assim o católico, com o olho do coração, iluminado pela fé — pois quanto crês, tanto vês — contempla os segredos de Deus e os confessa publicamente com a boca. Por isso o Apóstolo, falando da agudeza da vista e do bico, diz: “Com o coração se crê para a justiça, mas com a boca se faz a confissão para a salvação” (Rm 10,10). Verdadeiramente, esta é a “grande águia” — grande e agudo, com efeito, é o olho da fé —, que vê o Filho de Deus descendo do seio do Pai para o ventre da Virgem, nascido numa estrebaria, reclinado numa manjedoura, envolto em faixas, oferecido no templo com as oferendas dos pobres, fugindo para o Egito, peregrino no mundo, sentado sobre um jumentinho, escarnecido pelo povo, golpeado com o flagelo, coberto de escarros, dessedentado com fel e vinagre, suspenso nu no patíbulo, sepultado no túmulo, conduzindo para fora do inferno a cativa escravidão, ressurgindo do sepulcro, subindo ao céu, enchendo os apóstolos do Espírito Santo e retribuindo a cada um segundo as suas obras no juízo. Eis a “grande águia”, porque é aguda de vista e de bico. A respeito disso diz o Apóstolo: “A nossa boca está aberta para vós, ó coríntios” (2Cor 6,11). Aquilo que cria com coração fiel, pregava com a boca aberta, tendo já deposto a grossura.
Segue-se: “De grandes asas”. A respeito delas, tens a concordância no Apocalipse XII: “Foram dadas à mulher duas asas de uma grande águia, para que voasse para o deserto, para o seu lugar” (Ap 12,14). A mulher é a alma do penitente, da qual Isaías diz: “O Senhor te chamou como a mulher abandonada e aflita de espírito” (Is 54,6). As suas duas asas são a contrição e a confissão, com as quais voa para o deserto da penitência, no qual encontra o lugar da paz e do repouso. E nota que essas asas são chamadas grandes. Com efeito, as asas da verdadeira contrição têm quatro grandes penas. A primeira é a amargura do pecado passado; a segunda, o firme propósito de não recair; a terceira, perdoar de coração toda ofensa; a quarta, satisfazer a todo homem.
Na asa da confissão há igualmente quatro. A primeira é a humilhação da mente e do corpo diante do sacerdote. “Maria”, diz, “estava sentada aos pés do Senhor” (cf. Lc 10,39); e em Isaías XLVII: “Desce, senta-te no pó, virgem filha da Babilônia; senta-te no chão” (Is 47,1). “Desce” pela humildade da mente; “senta-te no pó” ou “na terra” pela humilhação do corpo. A segunda é a acusação geral e particular da própria iniquidade: “Confessarei contra mim” (Sl 31,5); e novamente: “Eu sou aquele que pecou, eu que agi iniquamente” (2Rs 24,17). A terceira é o desnudamento das circunstâncias, que são: o quê, quem, onde, por meio de quem, quantas vezes, por quê, de que modo, quando (cf. Domingo I da Quaresma, segundo sermão, II). A quarta é a aceitação voluntária e devota da penitência imposta pelo sacerdote, para que diga com Samuel: “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve” (1Rs 3,9).
Por isso, a respeito da satisfação da penitência, acrescenta-se: “De grande envergadura”. Com efeito, a mão que antes estava contraída para dar esmola agora se estende longamente. Por isso, em Marcos III: Havia na sinagoga um homem que tinha a mão ressequida. O Senhor lhe disse: “Estende a tua mão”. Ele a estendeu, e a sua mão foi restituída (cf. Mc 3,1.5). Os joelhos eram fracos e quase contraídos; os pés careciam de sua função própria, da qual a preguiça os havia privado; como se diz nos Provérbios XXVI: “Diz o preguiçoso: Há uma leoa no caminho, um leão nas estradas. Assim como a porta gira sobre o gonzo, assim o preguiçoso em seu leito” (Pr 26,13-14); mas agora corre para a oração e dobra os joelhos. Eis a “grande águia, de grande envergadura”.
11. Segue-se a respeito da segunda: “Cheia de penas e de variedade”. Algo semelhante se encontra em Jó XXXIX: “Acaso, por tua ordem, elevar-se-á a águia e colocará o seu ninho em lugares altos?” (Jó 39,27). Com efeito, o penitente, ou o religioso, eleva-se das coisas terrenas, por meio das asas acima mencionadas, ao mandamento do Senhor, que diz: “Vinde após mim” (Mt 4,19) etc.; e novamente: “Deixa que os mortos sepultem os seus mortos” (Mt 8,22); e “em lugares altos”, isto é, nos prêmios da vida eterna, “coloca o seu ninho”, ou seja, põe aí a sua esperança. Constrói este ninho com as penas da paciência e da benignidade. Com essas penas Jó havia construído o seu ninho, quando dizia: “Ainda que me mate, esperarei nele” (Jó 13,15). É fácil suportar, se não faltar a paciência (Ovídio). “Cheia”, diz ele, “de penas e de variedade”. Quando se levantam as tentações ou a perseguição, o homem justo constrói o seu ninho com as penas da paciência, cobre-se a si mesmo e aos frutos de suas obras e, assim, pela sua paciência, conserva a sua alma (cf. Lc 21,19).
12. Segue-se a respeito da terceira: “Veio ao Líbano e tomou o cerne do cedro”. O cedro, que com o seu aroma afugenta as serpentes, é a caridade, que expulsa do coração do justo as serpentes da inveja, da ira, do rancor e do ódio. Por isso, o Apóstolo, na Primeira Carta aos Coríntios XIII, diz: “A caridade não é invejosa”, porque, não desejando nada no presente mundo, não sabe invejar os êxitos alheios; “não age de modo inconveniente”, porque, dilatando-se unicamente no amor de Deus e do próximo, ignora tudo o que se desvia da retidão; “não pensa mal” (1Cor 13,4-5), porque, firmando a mente no amor da pureza, enquanto arranca pela raiz todo ódio, não sabe ocupar-se interiormente daquilo que contamina; e por isso se diz que está no monte Líbano, que se interpreta como “brancura”, ao qual o justo sobe e toma o cerne do cedro. O cerne é a doçura da contemplação ou a compaixão pelo próximo; pois, quando se eleva ao amor de Deus, então experimenta a sua doçura; quando, porém, se estende ao amor do próximo, então acolhe o cerne da compaixão.
Peçamos, portanto, ao Senhor Jesus Cristo que nos conceda, pelas asas da contrição e da confissão, voar para longe dos pecados, colocar o ninho da esperança nas realidades celestes e tomar o cerne da dupla caridade.
Ele o conceda, aquele que é bendito pelos séculos. Amém.