1. Naquele tempo: “Jesus dizia às multidões dos judeus: Eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas” (Mt 23,1.34) etc. Neste Evangelho, observam-se duas coisas: a perseguição dos justos e a comparação de Cristo com uma galinha.
2. A perseguição dos justos, como ali: “Eis que eu envio” etc. Nesta primeira cláusula observa-se, em sentido moral, de que modo os mundanos e carnais destroem em si mesmos ou repelem de si as múltiplas inspirações da graça divina.
“Dizia, pois, às multidões dos judeus.” Os judeus, que amavam as coisas transitórias e somente por elas serviam, representam os mundanos, entregues à carne, os quais, como se diz no livro dos Juízes XII, não conseguem dizer: Scibboleth, que significa espiga ou grão, mas dizem: Sibboleth, isto é, palha (cf. Jz 12,6). Com efeito, seguem a palha e tornam-se palha, destinada a ser queimada no fogo eterno.
A estes ele diz: “Eis que vos envio profetas, sábios e escribas”. Observa que nessas três pessoas se designa a tríplice inspiração da graça divina. Os profetas são o temor do juízo e o horror do inferno, que o Senhor envia à alma pecadora para que lhe anunciem o juiz terrível e a geena vingadora. Por isso Naum diz: “Diante da sua indignação, quem poderá permanecer? E quem resistirá ao furor da sua ira? A sua indignação derrama-se como fogo, e as pedras se dissolvem diante dele” (Na 1,6). E Joel: “Diante dele há um fogo devorador, e atrás dele uma chama abrasadora” (Jl 2,3). Sobre esses profetas, o Senhor diz em Jeremias: “Enviei”, diz ele, “a vós os meus servos, os profetas, levantando-me de noite e enviando-os, e dizendo: Não façais coisa tão abominável. E eles não ouviram nem inclinaram o ouvido, para que se convertessem dos seus males” (Jr 44,4-5). Diz-se que o Senhor se levanta de noite e envia os profetas quando, à alma que se encontra na noite do pecado, misericordiosamente incute o temor do juízo e o horror do inferno. Mas a infeliz não acolhe a inspiração nem submete o ouvido da obediência, para se afastar dos males e voltar-se para a penitência.
Igualmente, “sábios” são aquelas inspirações divinas que ordenam os pensamentos, ponderam as palavras, adornam as obras, compõem a vida e dispõem retamente todas as coisas. Quem caminha com esses sábios torna-se sábio. Sobre eles diz o Eclesiástico: “Não desprezes o discurso dos sábios e convive com os seus provérbios; aprende deles a doutrina e a inteligência” (cf. Eclo 8,9-10). Gloriosa é a sua escola, feliz a sua doutrina, louvável a sua disciplina, que instruem os costumes e destroem os vícios.
Igualmente, “escribas” são as devoções da mente, que escrevem no livro da memória a impureza da nossa concepção, a vileza do nascimento, a malícia da iniquidade, a miséria da peregrinação, a brevidade do tempo e a lembrança da morte. Lê nesta escrita da verdade; estuda neste livro, no qual, como se diz em Ezequiel II, há lamentações, canto e ais (cf. Ez 2,9). Lamentações pela impureza da concepção e pela vileza do nascimento; canto lúgubre pela malícia da iniquidade e pela miséria da peregrinação; ais pela brevidade do tempo e pela lembrança da morte. Eis de que modo o Senhor misericordioso e piedoso vos envia diariamente profetas, para que vos incutam a dor; sábios, para que instruam os costumes; escribas, para que guardem na memória a condição da vossa vida.
3. Mas ouçamos como os ingratos judeus, isto é, os amantes dos bens temporais, retribuíram tantos benefícios com tantos males. “E alguns deles”, diz, “matareis e crucificareis, e outros flagelareis em vossas sinagogas” (Mt 23,34). Relaciona cada termo com o seu correspondente: matam os profetas, crucificam os sábios, flagelam os escribas. Os soberbos e vangloriosos matam os profetas; os gulosos e luxuriosos crucificam os sábios; os avarentos e usurários flagelam os escribas. A soberba e a vanglória matam no homem o temor do juízo e o horror do inferno. Por isso, hoje, Estêvão diz aos judeus, em Atos 7: “Duros de cerviz”, eis a soberba; “incircuncisos de coração e de ouvidos”, eis a vanglória: pois não querem compreender nem ouvir senão aquilo que lhes agrada; “vós sempre resistis ao Espírito Santo, como também fizeram vossos pais. Qual dos profetas não perseguiram vossos pais? E mataram aqueles que anunciavam de antemão a vinda do Justo” (At 7,51-52). Por isso, matam-nos em si mesmos, porque anunciam de antemão a chegada do juízo.
Os gulosos e luxuriosos crucificam e afligem os sábios, pois são corrompidos nos pensamentos, lascivos nas palavras, dissolutos nas obras e desregrados nos costumes. Por isso dizem, no livro da Sabedoria: “Enchamo-nos de vinho precioso e de perfumes; e não deixemos passar a flor do tempo. Coroemo-nos de rosas antes que murchem; não haja prado que nossa luxúria não percorra” (Sb 2,7-8).
Os avarentos e usurários flagelam os escribas em suas sinagogas, isto é, em suas consciências, onde se encontram a sede e a sinagoga de Satanás (cf. Ap 2,9.13). Esses infelizes não consideram a condição de sua vida, sua entrada e sua saída. Na entrada, não trazem bolsa nem moeda; na saída, um pouco de estopa e um saco; na entrada, nus; na saída, envolvidos em um pequeno pano. De onde, então, lhes vêm todas essas coisas? Da rapina e da usura. Por isso diz Habacuc: “Ai daquele que acumula o que não é seu! Até quando amontoará contra si uma grande quantidade de lama?” (Hab 2,6). Pois faz como o escaravelho, que reúne muito esterco e, com grande esforço, forma uma bola redonda; mas, por fim, passa um asno e põe o pé sobre o escaravelho e sobre a bola, destruindo num instante tanto o próprio escaravelho como a bola, pela qual ele havia trabalhado por tanto tempo. Assim, o avarento ou usurário acumula durante muito tempo o esterco do dinheiro e trabalha longamente, mas, de modo inesperado, o diabo o estrangula. E assim a alma é entregue aos demônios, a carne aos vermes e o dinheiro aos parentes.
4. Segue-se: “E perseguis de cidade em cidade” (Mt 23,34). Ai! Não basta aos infelizes extinguirem em si mesmos ou repelirem de si a inspiração da graça divina, mas, perseguindo-a, expulsam-na também dos seus, isto é, dos filhos, das esposas e de outros semelhantes, como que de cidade em cidade. Por exemplo: se o filho de um usurário é abalado pelo temor do juízo ou pela pena do inferno e então se propõe viver honestamente e chorar a miséria desta vida; se seu pai percebe isso, persegue com todas as suas forças essa graça nele; e o mesmo faz com a filha, a esposa e a família.
“Para que venha sobre vós todo o sangue justo”, isto é, a devida vingança pelo derramamento de sangue, “desde o sangue de Abel, o justo”, que se interpreta “luto”, “até o sangue de Zacarias”, que se interpreta “aquele que se lembra do Senhor”, “filho de Baraquias”, que se interpreta “bênção do Senhor” (Mt 23,35). Eis quantos males os homicidas cometem! Matam em si mesmos e nos seus o luto da penitência e a memória da Paixão do Senhor, que foi dada por Deus Pai como bênção para todo o mundo. “Que matastes entre o templo e o altar” (Mt 23,35), isto é, no átrio do templo. Sobre isso, diz o Apocalipse XI: “O átrio que está fora do templo, lança-o para fora e não o meças, porque foi dado aos gentios” (Ap 11,2), isto é, aos que vivem como gentios. O templo é a Igreja triunfante; o altar, a Igreja militante; o átrio, a vaidade mundana, na qual é morta a memória da Paixão do Senhor.
5. Comparação de Cristo com a galinha, como naquele trecho: “Jerusalém, Jerusalém” (Mt 23,37). Com sentimento de piedade, chora pelos homens, não pelas pedras. “Que matas os profetas”, que anunciam o Senhor dos profetas, “e os apedrejas” (Mt 23,37). Por causa desta palavra, lê-se hoje este Evangelho, no dia em que o bem-aventurado Estêvão foi apedrejado pelos judeus; ao censurar-lhes a dureza — “gente de dura cerviz!”, diz — (At 7,51), suportou a dureza das pedras. Mas “alegra-se a paciência nas durezas” (Lucano). Ontem nasceu o Senhor; hoje é apedrejado o servo; ontem o Rei foi envolvido em faixas; hoje o soldado é despojado da veste corruptível; ontem o Salvador foi reclinado no presépio; hoje Estêvão é colocado no céu. Com efeito, Estêvão interpreta-se como regra, ou coroado, ou ainda aquele que fixa o olhar. É para nós uma regra pelo exemplo: “Posto de joelhos, orou por aqueles que o apedrejavam: Senhor, não lhes imputes este pecado” (At 7,60); foi coroado com o próprio sangue; fixou o olhar no Filho de Deus: “Eis que vejo os céus abertos e Jesus de pé à direita de Deus” (cf. At 7,56.60).
Segue-se: “Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos sob as asas, e tu não quiseste” (Mt 23,37). Como se dissesse: Eu quis, mas tu não quiseste; e todas as vezes que os reuni, sempre o fiz por minha vontade eficaz, contra a tua vontade, porque sempre foste ingrata.
6. Em outro sentido. O Senhor dirige à alma ingrata a sua censura: “Jerusalém, Jerusalém”. Este nome interpreta-se como temor perfeito, isto é, completo, ou ainda: “temerá perfeitamente”. Chama-se imperfeita uma casa antes de ser concluída. Observa que ele repete duas vezes “Jerusalém”, porque a infeliz alma, que, como foi dito acima, mata em si mesma os profetas, há de temer duas coisas: verá acima de si o juiz irado e abaixo de si a geena aberta e ardente; então temerá perfeitamente. Agora, porém, não teme, porque, neste seu dia, não conhece o que é para a sua paz (cf. Lc 19,42).
“E apedrejas aqueles que te foram enviados” (Mt 23,37), isto é, repele, com a dureza do coração, as inspirações da graça divina e as suas manifestações. Diz Isaías: “Sei que és obstinado, que a tua cerviz é um nervo de ferro e a tua fronte, de bronze” (Is 48,4). No nervo de ferro está simbolizada a soberba inflexível — diz Agostinho: “Erguer a cerviz é sinal de soberba” —; na fronte de bronze, a irreverência. Por isso, diz Ezequiel: “Toda a casa de Israel tem a fronte endurecida e o coração duro” (Ez 3,7).
“Quantas vezes quis reunir os teus filhos, e tu não quiseste.” Observa que a justificação do homem se realiza por duas coisas, a saber, pela própria decisão e pela inspiração divina: o Criador coopera com a ação da sua criatura. Por isso, na obra da nossa justificação, requer o consentimento voluntário, quando diz por Isaías: “Se quiserdes e me ouvirdes, comereis os frutos da terra” (Is 1,19). Ao livre-arbítrio, porém, atribui-se o impedimento desta obra, quando se diz: “Se o meu povo me tivesse ouvido” (Sl 80,14) etc. Com efeito, se nada fizermos absolutamente nesta obra, em vão imploramos o seu auxílio e falsamente o chamamos de ajudador. Uma coisa é fazer, outra é ajudar. Pois que significa auxiliar, senão cooperar com aquele que age? Entendeu que o tinha como seu ajudador e cooperador no bem aquele que diz: “Sê meu ajudador e meu libertador, Senhor; não demores” (Sl 69,6). Todos os dias buscamos o seu auxílio, quando o invocamos em nossas orações diárias: “Ajudai-nos, ó Deus, nosso Salvador” (Sl 78,9). Fica, portanto, claro que esta obra se realiza por dois, nela cooperando o Criador com a sua criatura.
Nesta obra, portanto, são necessários o próprio empenho e a graça divina. Em vão alguém se apoia no livre-arbítrio, se não é amparado pelo auxílio divino. A nossa justificação se realiza pela própria decisão e pela inspiração divina. Querer somente o que é justo já é ser justo. Com efeito, é somente pela vontade que somos chamados, com razão, justos ou injustos, embora, em ambos os casos, sejamos também ajudados pelas obras. Faze, pois, o que te compete, oferecendo a tua vontade, e Deus fará o que lhe compete, infundindo-te a graça.
Observa que nem o anjo, nem o homem, nem o diabo pode forçar o livre-arbítrio, e nem mesmo Deus quer violentá-lo. Mas Deus quer reunir benignamente junto de ti, ó alma, os filhos, isto é, os teus afetos e sentimentos, que estão dispersos entre as diversas coisas temporais e os vícios, para que habites unida na casa (cf. Sl 67,7): tu mesma deves oferecer-te voluntariamente para isso e querê-lo.
7. “Como a galinha reúne os seus pintinhos sob as asas.” Observa que a galinha se torna enferma com os pintinhos enfermos; chamando-os para o alimento, clama tanto que fica rouca; protegendo-os com as asas, opõe-se ao milhafre, com as penas eriçadas, para defendê-los. Assim, Cristo, Sabedoria do Pai, tornou-se enfermo por nós, que somos enfermos. Por isso diz Isaías: “Nós o desejamos; desprezado e o último”, isto é, o mais vil, “dos homens, homem das dores e conhecedor da enfermidade” (Is 53,2-3). Quem quer consolar um enfermo precisa revestir-se dos sentimentos daquele que está enfermo. Por isso se diz no Quarto Livro dos Reis que Eliseu “se curvou sobre o menino; e a carne do menino aqueceu-se” (4Rs 4,34). O curvar-se de Eliseu é a Encarnação de Cristo, pela qual recebemos o calor da fé e recuperamos a vida. Ele nos chamou ao alimento de sua doutrina, clamando tanto que sua garganta ficou rouca (cf. Sl 68,4).
Observa que o rouco não tem melodia na voz, mas emite um som grave e áspero, e por isso não é ouvido com prazer. Assim, hoje, a doutrina de Cristo não tem a melodia da adulação, porque não lisonjeia os pecadores nem promete bens temporais; mas ressoa gravemente, porque ensina a afligir a carne e a desprezar o mundo; por isso não é ouvida com prazer. Daí que se queixe em Jó: “Chamei o meu servo, e ele não respondeu; com a minha própria boca lhe suplicava. Minha mulher aborreceu-se do meu hálito, e eu suplicava aos filhos do meu ventre” (Jó 19,16-17). A esposa de Cristo são os clérigos, engrandecidos com o seu patrimônio, os quais, mais que os outros, têm horror ao hálito, isto é, à sua pregação, que procede do seu íntimo; pois, como diz Jó, a sabedoria é extraída dos lugares ocultos (cf. Jó 28,180).
Do mesmo modo, para nos proteger, estendeu na cruz os seus braços como asas e, eriçado de espinhos, opôs-se ao diabo, que tramava arrebatar-nos. A coroa de espinhos, como um elmo na cabeça; a cruz, como um escudo no braço; o cravo, como uma clava na mão: assim armado, derrubou o nosso adversário. A ele, portanto, louvor e glória pelos séculos eternos. Amém.
8. “Farás um candelabro de ouro puríssimo, batido, e dele sairão os braços, as taças, as esferinhas e os lírios. Seis braços sairão de seus lados, três de um lado e três do outro” (Ex 25,31-32). Isto está no Êxodo, capítulo XXV.
“Farás um candelabro” etc. Sobre ele, diz Mateus: “Não se acende uma lâmpada e se a coloca debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, para que ilumine todos os que estão na casa” (Mt 5,15). Com efeito, a graça do Espírito Santo, “lâmpada ardente e luminosa” (Jo 5,35), foi colocada sobre o candelabro, isto é, sobre o bem-aventurado Estêvão, como diz Zacarias: “Vi, e eis um candelabro todo de ouro, e uma lâmpada sobre o seu topo” (Zc 4,2). Essa lâmpada, ou candeeiro, não foi colocada debaixo do alqueire, isto é, não foi usada para lucro temporal, mas iluminava todos os que estavam na casa, isto é, na Igreja. Por isso, Lucas, na leitura de hoje, diz: “Estêvão, cheio de graça e de fortaleza, fazia grandes prodígios e milagres entre o povo” (At 6,8).
Esse candelabro era “de ouro puríssimo”, no qual é simbolizada a sua pobreza áurea. Naquele tempo, com efeito, como se diz no Gênesis II, o ouro daquela terra, isto é, de Hévila, que se interpreta como ‘a que dá à luz’, isto é, da Igreja primitiva, era finíssimo. Mas, ai de nós!, agora se transformou em escória. Era também “batido”. Chama-se batido aquilo que é produzido por golpes. Pelas pedradas, como que por uma espécie de martelamento, o bem-aventurado Estêvão foi trabalhado e estendido, com os braços abertos para abraçar os inimigos. Por isso: “Apedrejavam Estêvão, enquanto invocava e dizia: Senhor, não lhes imputes este pecado” (At 7,59.60). Sobre isso, tens uma concordância no terceiro livro dos Reis, capítulo XXI: “Conduziram Nabot, o jezraelita, para fora da cidade e o mataram a pedradas” (3Rs 21,13). Com efeito, ele não quis que a sua vinha, herança de seus pais, fosse transformada em horta de legumes (cf. 3Rs 21,2-3). Assim também o bem-aventurado Estêvão foi apedrejado: “Lançando-o para fora da cidade, apedrejavam-no” (At 7,58), porque contradizia os judeus, que queriam transformar a Igreja primitiva em horta de legumes, isto é, impor-lhe a observância de seus ritos e de suas tradições.
9. Segue-se: “Seis braços sairão de seus lados, três de um lado e três do outro”. Os seis braços do candelabro assinalam as seis virtudes que havia no bem-aventurado Estêvão, das quais se faz menção na leitura da missa de hoje. A saber: a fé, quando se diz: “Escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo” (At 6,5), no que se indica que a sua fé era viva e operante; a graça e a fortaleza, quando se acrescenta: “Cheio de graça e de fortaleza” (At 6,8); a sabedoria e a audácia na pregação, quando se afirma: “Não podiam resistir à sabedoria e ao espírito que falava” (At 6,10), e novamente: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração” (At 7,51) etc.; a oração por aqueles que o apedrejavam, quando disse: “Senhor, não lhes imputes este pecado” (At 7,60). Vivia pela fé; pela graça comunicava; com a fortaleza resistia; com a sabedoria instruía; com a audácia do espírito refutava; com a oração ajudava.
Nesses braços havia taças, esferinhas e lírios. Na concavidade da taça é indicada a humildade do coração; na redondeza da esferinha, o cuidado para com os irmãos necessitados; nos lírios, a pureza do corpo. Eis o candelabro de ouro no tabernáculo do Senhor, iluminando a mesa dos pães da proposição, isto é, a Igreja ou a alma fiel: o protomártir Estêvão, ornado de virtudes, coroado pelo sangue, triunfante nos céus. Por suas preces, conduza-nos às alegrias eternas aquele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
10. “Farás um candelabro de ouro puríssimo, batido.” No candelabro é representada a alma de cada fiel. Sobre esse candelabro, o Senhor diz a Aarão, no livro dos Números, capítulo VIII: “Quando tiveres colocado as sete lâmpadas, erguerás o candelabro na parte meridional, para que as lâmpadas olhem para o norte, diante da mesa dos pães da proposição” (Nm 8,2). As sete lâmpadas são a graça do Espírito Santo, a fé no Verbo encarnado, o amor ao próximo, o ensinamento da palavra divina, a luz do bom exemplo, a reta intenção da alma e a constância nos propósitos.
Da primeira diz Jó, capítulo XXIX: “A sua lâmpada brilhava sobre a minha cabeça, e à sua luz eu caminhava nas trevas” (Jó 29,3). A lâmpada brilha sobre a cabeça quando a graça ilumina a mente; então, nas trevas do presente exílio, ela vê claramente onde deve firmar o pé da ação.
Da segunda, em Lucas, capítulo XV: “Qual mulher, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a lâmpada e varre a casa até encontrá-la?” (Lc 15,8). As nove dracmas representam as nove ordens dos anjos; a décima, Adão com a sua descendência, que então se perdeu, quando foi expulsa do paraíso. Mas a “mulher”, isto é, a Sabedoria de Deus Pai, “acendeu a lâmpada” quando colocou na frágil argila de nossa humanidade a luz de sua divindade. E assim “varreu a casa”, isto é, o mundo e o inferno, “até encontrá-la”.
Da terceira, nos Provérbios, capítulo VI: “O mandamento é lâmpada, a lei é luz, e a repreensão da disciplina é caminho de vida” (Pr 6,23). “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros” (Jo 13,34): este “é a lâmpada”; e na primeira epístola de João, capítulo II: “Quem ama seu irmão permanece na luz; quem odeia está nas trevas” (1Jo 2,10-11). E a própria “lei” do amor, da qual dependem a Lei e os profetas (cf. Mt 22,40), “é luz”. E a “repreensão da disciplina” é “caminho de vida”, isto é, caminho que conduz à vida. Sobre isso, diz o Apóstolo aos Hebreus, capítulo XII: “Toda disciplina, no presente, parece não ser motivo de alegria, mas de tristeza”: eis a “repreensão”; “depois, porém, produz um fruto pacificentíssimo de justiça naqueles que por ela foram exercitados” (Hb 12,11): eis o “caminho de vida”.
Da quarta, no Salmo: “A tua palavra é lâmpada para os meus pés” (Sl 118,105); e Pedro, em sua segunda epístola, capítulo I: “Temos uma palavra profética mais firme, à qual fazeis bem em prestar atenção, como a uma lâmpada que brilha em lugar tenebroso, até que o dia amanheça e a estrela da manhã se levante em vossos corações” (2Pd 1,19).
Da quinta, em Lucas: “Estejam cingidos os vossos rins e as lâmpadas acesas em vossas mãos” (Lc 12,35). Gregório: Temos lâmpadas nas mãos quando, por meio de boas obras, mostramos ao próximo exemplos luminosos.
Da sexta, em Mateus: “A lâmpada do teu corpo é o teu olho. Se o teu olho for simples, todo o teu corpo será luminoso” (Mt 6,22). O olho é a intenção; o corpo, a obra. Se a intenção for simples, isto é, sem dobra de fraude, toda a obra será luminosa, porque é iluminada pela lâmpada da reta intenção.
Da sétima se diz nos Provérbios, acerca da mulher forte, no último capítulo: “A sua lâmpada não se apagará durante a noite” (Pr 31,18). É como se dissesse: a obscuridade da tentação diabólica não extingue a luz da alma constante.
Essas sete “lâmpadas” devem ser colocadas sobre a alma, para que olhem “para o norte”, isto é, para o Aquilão, isto é, para o diabo, “diante dele”, isto é, de frente, a fim de que a alma, iluminada por elas, descubra as astúcias de Satanás e delas se acautele; iluminem também a “mesa dos pães da proposição”, na qual é representada a conduta de cada fiel; dela, se o alimento da alma é celeste, é oferecido a todos aquilo que é iluminado pelas lâmpadas acima mencionadas nas trevas da presente cegueira. E observa que o Senhor ordena que este “candelabro seja erguido na parte meridional”, não na ocidental. A parte meridional é a vida eterna: “Deus”, diz Habacuc, “virá do sul” (Hab 3,3). Com efeito, a alma de cada fiel, quando se ergue para fazer algum bem, erga-se na parte meridional, para que tudo o que faz não o faça por vã glória, mas pela glória celeste. “Farás”, portanto, “um candelabro”.
11. Segue-se: “Dúctil, batido pelo martelo”. Com efeito, a alma é trabalhada, alisada e alargada, por assim dizer, para o amor do Redentor pelo martelo da contrição; com as batidas, a alma amadurece e se dilata, porque “goza aquele que é paciente nas durezas” (Lucano). Encontramos algo semelhante no Eclesiástico: “O sábio revela-se em suas palavras” (Eclo 20,29). Pois, quando se golpeia com a palavra da própria acusação, isto é, da confissão, conduz a si mesmo ao amor de Deus. E, porque pelas batidas da contrição se chega à pureza do coração, acrescenta-se: “De ouro puríssimo”. A seu respeito, lê-se no Apocalipse: “A própria cidade é de ouro puro, semelhante a cristal límpido” (Ap 21,18). A alma do justo, sede ou cidade da sabedoria, é chamada ouro puro, porque resplandece pela pureza dos pensamentos; e, se alguma vez, por causa da fragilidade da condição humana, recebe alguma mancha, imediatamente a revela, como cristal límpido, na confissão, e assim progride no amor de Deus e do próximo.
Segue-se daí: “Seis braços sairão dos dois lados”, etc. Os seis braços do candelabro são, no homem justo, como que braços amorosos com os quais a alma abraça a Deus e ao próximo. Acerca dos braços com que abraça a Deus, lê-se no Deuteronômio e em Lucas: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,5; Lc 10,27). Agostinho assim fala e explica: “Com todo o coração”, isto é, com o intelecto sem erro; “com toda a mente”, isto é, com a memória sem esquecimento; “com toda a alma”, isto é, com a vontade, sem nada contrário.
Do mesmo modo, os braços com que a alma abraça o próximo são estes: perdoar quem peca, corrigir quem erra, alimentar quem tem fome. Sobre esses braços encontram-se as copas, as esferinhas e os lírios. A copa representa a graça da doutrina celeste, da qual bebem os amigos e se embriagam os mais queridos, os parentes. Esta é a copa de prata de José, escondida no saco de Benjamim (cf. Gn 44,2.12), isto é, no coração do justo. Nas esferinhas simboliza-se o rolar do pecado rumo à confissão.
Diz Isaías: “Toma a cítara”, isto é, a confissão, “percorre a cidade”, isto é, a tua mente ou a tua vida, para revolver tudo e nada deixar oculto, “canta bem”, acusando a ti mesmo, “repete o teu canto”, atribuindo a culpa a ti mesmo e chorando, “para que se lembrem de ti” (Is 23,16) diante de Deus. Com efeito, o histrião canta à porta do rico para receber dele algum benefício. Nos lírios simboliza-se a luminosa e suave companhia das bem-aventuradas ordens angélicas. O Amado apascenta-se entre os lírios (cf. Ct 2,16), e diz: “O vencedor será vestido com vestes brancas” (Ap 3,5). Também o anjo da ressurreição apareceu revestido de uma veste branca (cf. Mc 16,5).
Aquele que é bendito pelos séculos eternos conduza também a nós a receber essa veste branca. Amém.