Evangelho do vigésimo segundo domingo depois de Pentecostes: “O reino dos céus é semelhante a um rei que quis ajustar contas com seus servos”; divide-se em três partes.
Primeiramente, tema do sermão sobre o penitente ou sobre o religioso em geral, sobre a contrição e a confissão, onde se diz: “Por ordem do rei”.
[Da primeira parte.] Também tema do sermão sobre o dia do juízo, onde se diz: “Eu estava olhando até que foram colocados os tronos”.
Também tema do sermão alegórico e moral sobre a estátua de Nabucodonosor, onde se diz: “Tu, ó rei”.
Também contra os prelados da Igreja, onde se diz: “A estátua”.
Também sobre a humildade do penitente e a medida da satisfação, onde se diz: “Mas aquele servo, prostrando-se”.
[Da segunda parte.] Tema do sermão sobre o juízo final, onde se diz: “Foi enviado o dedo daquela mão”.
Também tema do sermão sobre a fornalha da Babilônia e seu significado.
Também tema sobre a natureza daqueles quatro seres que vivem somente dos quatro elementos, onde se diz: “Deus é minha testemunha”.
Também sobre o choro da penitência, dirigido aos religiosos ou penitentes, onde se diz: “Eu, Daniel, chorava”.
Também sobre a humildade, onde se diz: “Sob os pés do Senhor” e: “Sobre a cabeça do querubim”; e, no mesmo lugar, sobre as garras das aves.
[Da terceira parte.] Sobre a questão de saber se os pecados perdoados voltam ou não, onde se diz: “Então chamou”.
1. Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos esta parábola: “O reino dos céus é semelhante a um rei que quis ajustar contas com seus servos” (Mt 18,23).
Lê-se no livro de Daniel que, “por ordem do rei, Daniel foi vestido de púrpura, uma corrente de ouro foi posta em seu pescoço, e foi proclamado publicamente que ele tinha o terceiro grau de autoridade em seu reino” (Dn 5,29). Vejamos o que significam estas quatro coisas: Daniel, a púrpura, a corrente de ouro e o terceiro no reino. Daniel interpreta-se como causa de Deus, ou juízo de Deus. Note-se que causa é o impulso da alma para fazer algo. Chama-se causa, de casus, acontecimento, do qual provém; pois é a origem e a matéria do processo: quando é proposto, é causa; quando é examinado, é juízo; quando é concluído, é justiça. Causa também se diz de chaos, que foi o princípio de todas as coisas. Causa chama-se a origem de cada coisa. Daniel significa o penitente, que, pelo temor e pelo amor de Deus, faz de si mesmo causa, juízo e justiça. Estas são as três coisas: a púrpura, a corrente de ouro e o terceiro no reino. Ele faz a causa na contrição, que é a origem de toda coisa justa e o impulso da alma para fazer o bem; o juízo, na confissão, na qual se discute e se examina; a justiça, na satisfação, na qual dá a cada um o que lhe pertence: a Deus, a oração; a si mesmo, o jejum; ao próximo, a esmola. Nisto, com efeito, consiste a satisfação. Portanto, o Rei dos reis, Jesus Cristo, ordena que Daniel seja vestido de púrpura. A púrpura, que é da cor do sangue, significa a contrição do coração, da qual procede o sangue das lágrimas.
Por isso, lê-se no quarto livro dos Reis que, “ao nascer o sol, quando este se refletia sobre as águas, os moabitas viram, do lado oposto, as águas vermelhas como sangue e disseram: ‘Isto é sangue de espada’” (4Rs 3,22-23).
Literalmente, entende-se assim: Quando os moabitas viram, do lado oposto, as águas da torrente atravessadas pelos raios do sol, imaginaram que estivessem tingidas de sangue e disseram: “Os inimigos mataram-se uns aos outros” (cf. 4Rs 3,23).
Em sentido moral. Quando o sol da graça nasce na mente, então as águas vermelhas das lágrimas, como sangue, vêm pelo caminho de Edom, isto é, surgem nos olhos do penitente. E, na verdade, estas águas são sangue de espada. Com efeito, quando o coração do pecador é ferido pela espada da contrição, derrama lágrimas de sangue. Portanto, diz-se com razão que, “por ordem do rei, Daniel foi vestido de púrpura”.
Segue-se: “E uma corrente de ouro foi posta em seu pescoço.” A corrente é formada por círculos de ouro que descem do pescoço até o peito. A corrente de ouro no pescoço é o círculo da confissão sincera na boca do pecador, da qual o Senhor diz em Ezequiel: “Pus uma corrente em torno de teu pescoço” (Ez 16,11). E com razão a confissão é chamada corrente, ou círculo de ouro. A Sabedoria “atinge com força de um extremo ao outro” (Sb 8,1), e o pecador, percorrendo no círculo da confissão todos os pecados, do primeiro ao último, deve incluí-los todos, como que girando ao redor, tal como fazia o Profeta quando dizia: “Circundei e ofereci em sua tenda”, isto é, na santa Igreja, “uma vítima de aclamação” (Sl 26,6), isto é, da confissão. Deste círculo diz o Senhor ao demônio em Isaías: “Porei um círculo em tuas narinas e te farei voltar pelo caminho por onde vieste” (Is 37,29). Note-se que o pecado mortal, que é o caminho do demônio para a alma, é cometido de três modos: pela sugestão do demônio, pelo prazer da carne e pelo consentimento do espírito. Nos dois primeiros há pecado venial; no terceiro, mortal. Quando o pecador, na confissão, que se opõe à sugestão, se arrepende do consentimento do espírito e se aflige, na satisfação, pelo prazer da carne, então o Senhor põe um círculo nas narinas, isto é, na sutileza e astúcia do demônio, e o faz voltar pelo caminho por onde veio. Com efeito, os contrários são curados pelos contrários.
Segue-se: “E foi proclamado publicamente que ele tinha o terceiro grau de autoridade em seu reino.” O reino de Cristo é a vida do justo. “Meu reino”, diz ele, “não é deste mundo” (Jo 18,36). A vida do justo consiste nas três práticas acima mencionadas. É terceiro no reino de Cristo aquele que governa sua vida pela satisfação da penitência. Neste terceiro sinal falham os magos do faraó (cf. Ex 8,19), isto é, os sábios deste mundo, que não querem reparar seus pecados. Mas o verdadeiro penitente, para merecer ser participante do reino celeste, esforça-se por ser terceiro no reino daquele rei de quem se diz no evangelho de hoje: “O reino dos céus é semelhante a um rei” etc.
2. Note-se que neste evangelho são destacados três fatos, a saber: a remissão da dívida pelo rei; a ingratidão do servo mau; seu encarceramento ou tormento. O primeiro aparece em: “O reino dos céus é semelhante”. O segundo, em: “Tendo saído, porém, aquele servo”. O terceiro, em: “Então chamou-o” etc.
No intróito da missa de hoje canta-se: “Eu penso pensamentos de paz, diz o Senhor” (Jr 29,11); e lê-se a epístola do bem-aventurado apóstolo Paulo aos Filipenses: “Confio no Senhor Jesus” (Fl 1,6), que queremos dividir em três partes e harmonizar com as três frases do evangelho. Primeira: “Confio”. Segunda: “Deus é minha testemunha.” Terceira: “Isto peço” etc.
E observe-se que, no evangelho de hoje, Mateus trata do servo mau, que não quis ter misericórdia de seu companheiro; ao contrário, o Apóstolo deseja a todos nas entranhas de Cristo e recomenda que o amor abunde neles. Por isso esta epístola é lida juntamente com este evangelho.
3. Digamos, portanto: “O reino dos céus é semelhante a um homem rei que quis ajustar contas com seus servos”. Este homem rei é Jesus Cristo: homem na humanidade, rei na divindade; homem no nascimento, rei na paixão, na qual teve aquelas insígnias régias que correspondem ao rei, a saber, a coroa, a púrpura e o cetro. Teve uma coroa de espinhos, um manto escarlate e, na mão, uma cana como cetro; por isso, “ajoelhando-se diante dele, zombavam dele, dizendo: Salve, rei dos judeus!” (Mt 27,29). Sobre isso, temos uma concordância em Daniel: “Eu continuava olhando, em visão noturna, e eis que, sobre as nuvens”, isto é, sobre os pregadores, “do céu, vinha alguém semelhante a um filho de homem, e chegou até o ancião dos dias” (Dn 7,13). Por isso: “Sua vinda é desde o mais alto dos céus” (Sl 18,7) etc.; ele é em tudo igual ao Pai e quis ajustar contas com seus servos. Ajusta contas quando examina os méritos de cada um neste mundo, e os examinará mais rigorosamente no futuro.
Sobre isso, temos ainda uma concordância em Daniel, onde diz: “Eu continuava olhando, até que foram colocados os tronos e o ancião dos dias se assentou. Sua veste era branca como a neve, e os cabelos de sua cabeça, como lã pura; seu trono era de chamas de fogo, e suas rodas, de fogo ardente. Um rio de fogo, rápido e impetuoso, saía de diante de sua face; milhares de milhares o serviam, e dez mil vezes cem mil estavam diante dele. O tribunal se assentou, e os livros foram abertos” (Dn 7,9-10). Aí diz a Glosa: Os anjos e todos os eleitos acompanharão o Senhor no juízo e serão os tronos de Deus, porque neles ele se assentará. Por isso diz em Mateus: “Quando vier o Filho do homem em sua majestade, e todos os seus anjos com ele” (Mt 25,31); eles, como diz a Glosa, são testemunhas dos atos humanos, sob cuja guarda os homens agiram bem ou mal.
“E o ancião dos dias se assentou”, isto é, o Pai. Embora, como diz a Glosa naquele lugar, a pessoa do Filho apareça no juízo, não faltarão, contudo, o Pai e o Espírito Santo. O Pai é de si mesmo, o Filho é do Pai, e tudo o que o Filho tem é atribuído àquele de quem procede. Ou é chamado “ancião”, isto é, juiz severo e verdadeiro. Antiquus, “antigo”, é como se dissesse antequam, “antes que”. Por isso diz em João: “Antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8,58). Deus é chamado “assentado” e “ancião dos dias” para que se manifeste a condição do juiz eterno; é também descrito como ancião, para que se comprove a ponderação da sentença.
“Sua veste era branca como a neve”. O Salvador, transfigurado no monte e assumindo a glória da majestade divina, aparece com vestes brancas. Também no juízo sua veste será branca, indicando um juízo puro, límpido e sincero, que não aceitará parcialidade alguma ao julgar. Por isso Pedro: “Na verdade, compreendi que Deus não faz acepção de pessoas” (cf. At 10,34). Observa que diz: “Branca como a neve”. A neve recebeu esse nome da nuvem, de onde vem. A respeito dela, diz Ambrósio que, muitas vezes, águas enrijecidas por ventos glaciais se solidificam na nuvem e, rompido o ar, a neve se derrama. A neve é branca e fria. No juízo haverá brancura em relação aos bem-aventurados, e frio em relação aos condenados. A brancura estará nas palavras: “Vinde, benditos” (Mt 25,34); o frio, nas palavras: “Ide, malditos” (cf. Mt 25,41).
“E os cabelos de sua cabeça eram como lã pura”. Sobre isso, procura na primeira cláusula do Evangelho: “Eu sou o bom pastor” (“Domingo II depois da Páscoa”).
“Seu trono era de chamas de fogo”. O trono de Deus, como diz aí a Glosa de Orígenes, são os monges, os eremitas e os outros que, vivendo em um só lugar, se dedicam a servir a Deus e não andam de um lugar para outro; Deus habita em seus corações tranquilos. Com razão são chamados chamas de fogo, porque estão inflamados pelo amor de Deus e do próximo e pelo desejo da pátria celeste. Chama é propriamente o fogo da fornalha, assim chamado porque é avivado pelo sopro dos foles. A fornalha de fogo é o coração do homem justo, do qual, pelo sopro dos foles, isto é, da contrição e da confissão, se aviva a chama da dupla caridade. Por isso, no Salmo: “Tu fazes dos teus anjos espíritos e dos teus ministros, chama de fogo” (Sl 103,4). Os “anjos”, isto é, mensageiros, ou seja, os homens justos, são espíritos, porque não apreciam nada carnal, nada terreno; são chama de fogo, porque amam a Deus e ao próximo.
“As suas rodas eram de fogo ardente”. Nas rodas é simbolizada a rapidez do juízo, acerca do qual o Senhor diz pelo profeta Malaquias: “Aproximar-me-ei de vós para o juízo e serei testemunha veloz contra os maledicentes, os adúlteros e os perjuros, contra os que defraudam o salário do trabalhador, as viúvas e os órfãos, e oprimem o estrangeiro, e não me temeram, diz o Senhor Deus dos exércitos” (Ml 3,5).
“Um rio de fogo, rápido”, isto é, correndo impetuosamente, “saía de diante de sua face”. No rio é designada a perpetuidade das penas; no fogo, a severidade do juízo; e na rapidez, a súbita atração dos pecadores para a gehena.
“Milhares de milhares” etc. A respeito deles, no Salmo: “Os carros de Deus são milhares de milhares” (Sl 67,18) etc. Duplo é o ofício dos anjos. Gregório diz: Uma coisa é assistir, outra é ministrar. Assistem aqueles que não saem para anunciar aos homens; ministram, porém, aqueles que vêm para cumprir os ofícios de mensageiros, mas nem eles se afastam da contemplação. E, porque são mais numerosos os que ministram do que os que assistem principalmente, o número dos que assistem é apresentado como quase definido, ao passo que o dos que ministram é mostrado como indefinido.
“O tribunal se assentou”, isto é, a assembleia dos juízes, “e os livros foram abertos”, isto é, as consciências e as obras de cada um, tanto boas como más, são reveladas a todos em cada uma de suas partes. O livro bom é o dos viventes; o mau é o que está na mão do acusador, que é o inimigo e vingador, a respeito do qual se lê no Apocalipse: “Este é o acusador de nossos irmãos” (Ap 12,10). E novamente: “Os livros foram abertos, e foi aberto outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados segundo o que estava escrito nos livros, conforme as suas obras” (Ap 20,12). Diz-se, portanto, com razão: “O reino dos céus é semelhante a um homem rei que quis ajustar contas com seus servos”.
4. Segue-se: “E, começando a ajustar contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos” (Mt 18,24). No número dez é indicado o Decálogo; no mil, a perfeição do Evangelho. Todo homem deve a Jesus Cristo dez mil talentos, isto é, a observância do Decálogo e do Evangelho. Por isso, Salomão: “Teme a Deus e observa os seus mandamentos” (Ecl 12,03). Os mandamentos são assim chamados, como se disséssemos: dados pela mão. Os mandamentos do Decálogo foram escritos pelo dedo de Deus (cf. Dt 9,10), e os mandamentos do Evangelho foram dados aos apóstolos pela mão de Jesus Cristo. Dignos, portanto, de ser observados são aqueles que foram dados pela mão de Deus, isto é, para cuja observância todo homem foi criado.
5. Segue-se: “Como, porém, não tivesse com que pagar, o senhor ordenou que ele fosse vendido, juntamente com sua mulher, seus filhos e tudo quanto possuía, e que a dívida fosse paga” (Mt 18,25). Vejamos o que significam as obras, a mulher e os filhos. A mulher do pecador é a cobiça deste mundo. Esta é a estátua de Nabucodonosor, da qual se diz em Daniel: “Tu, ó rei, estavas vendo, e eis uma grande estátua, cuja cabeça era de ouro puríssimo; o peito e os braços eram de prata; o ventre e as coxas, de bronze; as pernas, de ferro; e os pés, em parte de ferro e em parte de barro” (cf. Dn 2,31-33). Vejamos o que significam o ouro, a prata, o bronze, o ferro e o barro. Primeiro, alegoricamente; depois, moralmente.
[alegoricamente] Esta estátua significa a santa Igreja, que teve nos apóstolos uma cabeça de ouro. Por isso, diz-se no Cântico dos Cânticos: “A sua cabeça é de ouro puríssimo” (Ct 5,11). Os braços e o peito, nos quais há maior força, a Igreja os teve de prata no tempo dos mártires, que permaneceram fortes no combate. Por isso, o esposo diz à mesma Igreja no Cântico dos Cânticos: “Faremos para ti colares de ouro, ornados de prata” (Ct 1,10). Os colares são cadeias tecidas com varas de ouro e de prata. Os colares da Igreja foram a humildade e a pobreza que ela teve no tempo dos apóstolos; e, no tempo dos mártires, para que fossem mais formosos, foram como que bordados de prata pelo sangue deles, isto é, tornaram-se rubros. A prata unida ao ouro — o sangue dos mártires, no qual alvejaram suas estolas — juntamente com a humildade e a pobreza dos apóstolos, apresenta aos olhos de nossa mente uma beleza admirável.
Do mesmo modo, a Igreja teve bronze e ferro nos confessores da fé, que, com o som de sua pregação, esmagaram a perversidade dos hereges. Por isso, Moisés diz no Deuteronômio: “Ferro e bronze são as sandálias de Aser” (Dt 33,25). Aser interpreta-se “bem-aventurado” e significa o bem-aventurado coro dos confessores da fé, que, calçados com o bronze da pregação e o ferro da constância invencível, pisaram sobre serpentes e escorpiões, isto é, hereges e cismáticos. Por isso, o Senhor diz por meio de Jeremias: “Eu te constituí hoje como cidade fortificada, como coluna de ferro e como muralha de bronze contra toda a terra, contra os reis de Judá, seus príncipes, seus sacerdotes e o povo da terra. Eles combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo, diz o Senhor, para te libertar” (Jr 1,18-19). Observa estas três coisas: a cidade, a coluna e a muralha. Na cidade fortificada é designada a unidade, que verdadeiramente defende e, ao defender, guarda; na coluna de ferro, a caridade fraterna, que sustenta; na muralha de bronze, a paciência invencível e a assiduidade da pregação. E porque os santos confessores Jerônimo, Agostinho e Hilário, e os demais doutores da Igreja, possuíram essas qualidades, venceram os artífices da mentira.
Do mesmo modo, a Igreja de Cristo, pobrezinha, agitada pela tempestade, em meio à escória do mundo, tem, por assim dizer, nos pés, o ferro e o barro, tanto nos clérigos como nos leigos. No ferro é designada a avareza; no barro, a luxúria. Eis que membros assim se encontram no corpo de Cristo, que é a Igreja: os avarentos e os luxuriosos, os quais não são da Igreja de Cristo, mas da sinagoga de Satanás.
6. Moralmente. Desde o princípio do mundo, houve duas cidades, a saber: a Igreja e Babilônia. Esta estátua significa o mundo, a cidade de Babilônia, a sinagoga de Satanás; e é justamente chamada estátua, porque é como que sua imagem. Tem boca, mas não fala, porque traz na boca o ranúnculo (tumor) da avareza; tem olhos, mas não vê, porque o esterco da luxúria a cegou; tem ouvidos, mas não ouve, porque, como a serpente, encosta uma das orelhas na terra e tapa a outra com a cauda, para não ouvir a voz do encantador (cf. Sl 57,6-7). “Cuja cabeça era de ouro”, etc. O ouro significa a sabedoria do mundo; a prata, a eloquência; o bronze, porque ressoa muito, a vanglória; o ferro, a obstinação; e o barro, o amor às coisas temporais. Esta estátua foi reduzida a pedaços por uma pequena pedra, isto é, Jesus Cristo, que, como Daniel acrescenta, “foi cortado do monte”, isto é, nasceu da bem-aventurada Virgem, “sem mãos”, isto é, sem obra de homem, “e atingiu a estátua nos pés e os pulverizou. Então foram igualmente pulverizados o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro; e tudo se reduziu como que a palha, arrebatada pelo vento, e nenhum vestígio deles foi encontrado” (Dn 2,34-35). Assim, Cristo, em seu primeiro advento, atingiu a estátua do mundo, embora não a tenha destruído por completo; ela será totalmente destruída no dia do juízo. Por isso, diz-se no Apocalipse: “Caiu, caiu Babilônia, a meretriz, que embriagou o mundo com o vinho de sua fornicação” (cf. Ap 14,8).
7. Aliter. Statua ista Ecclesiae praelatum, in temporalibus elevatum et exaltatum, significat. Haec est statua Baal, qui interpretatur superior vel devorator. Ecce idolum in domo Domini exaltatum, qui omnia devora. Unde dicitur in Daniele, quod "erat idolum apud Babylonios nomine Bel; et impendebantur in eo per dies singulos similae," idest farinae candidissimae, "artabae duodecim," genus est mensurae, "et oves quadraginta, vinique amphorae sex "(Dan 14,2). Ecce quanta devorat a diabolo devorandus. "Rex quoque colebat eum, et ibat per singulos dies adorare; porro Daniel adorabat Dominum Deum suum "(Dan 14,3). Hoc quotidie in Christi Ecclesia factum cernimus. Deberet ad minus facere sicut fecit Petrus, de quo dicitur in Actibus apostolorum, quod Cornelius "procidens ad pedes eius adoravit eum. Petrus vero levavit eum, dicens: Surge; et ego homo sum "(Act 10,25-26)sicut et tu. Dixitque Rex Danieli: "Quare non adoras Bel? Qui respondens ait illi: Quia non colo idola manufacta, sed viventem Deum, qui creavit caelum et terram, et habet potestatem omnis carnis. Et dixit ei rex: Nonne videtur tibi esse Bel vivens deus? An non vides quanta comedat et bibat quotidie? "(Dan 14,3-5). Heu, quanta! Et pauperes vacuo et nudo ventre clamant ad ostia. Quia multa comedit, ideo vivens. "Et ait Daniel arridens: Ne erres, rex. Iste est enim intrinsecus luteus," idest gulosus et luxuriosus, "et forinsecus aereus," idest superbus et avarus, "neque comedit aliquando "(Dan 14,6) cibum qui non perit, sed permanet in vitam aeternam (cf. Io 6,27).
Istius idoli, sive statuae, caput est ex auro, in quo sapientia carnis insipida, quae stultitia est apud Deum (cf. 1Cor 3,19), designatur; in argento eloquentia, quae est AEgypti rana. De his duobus dicit Dominus per Ezechielem: "Tulisti vasa decoris tui de auro meo et argento meo, quae dedi tibi, et fecisti tibi imagines masculinas, et fornicata es cum eis "(Ez 16,17). Ex auro sapientiae et argento eloquentiae, quae dat Dominus Ecclesiae praelato, ut sint ei vasa decoris, quibus Sancti Spiritus gratiam suscipiat et ex ipsa aliis propinet, facit sibi miser idola, quando gratiam sensus et eloquentiae vitae pravitate corrumpit; et fornicatur in eis, cum vanamgloriam in mundi prostibulo ex ipsis quaerit.
Item, in aere notantur divitiae, quae valde sonant. VocaveIrunt, inquit, "nomina sua in terris suis "(Ps 48,12). Unde Ezechiel: "Egressum est nomen tuum inter gentes "(Ez 16,14), non inter angelos. Non nomen divitis purpurati, sed mendici et ulcerosi Lazari scriptum est in evangelio (cf. Lc 16,20).
In ferro potentia, qua confringit pauperes. Sed tu, Domine, "dentes peccatorum contrivisti "(Ps 3,8); et "molas leonum confringet Dominus "(Ps 57,7). Haec est illa bestia, de qua dicit Daniel, quod erat "terribilis atque mirabilis et fortis nimis; dentes ferreos habebat magnos, comedens atque comminuens, et reliqua pedibus suis conculcans "(Dan 7,7).
Item, in luto ipsius notatur misera caro, quae, adveniente lapide, idest mortis duritie, percutietur et conteretur. Et tunc aurum sapientiae, argentum eloquentiae, aes divitiarum, ferrum potentiae, comminuentur et in nihilum redigentur et a vento dispergentur, quia caro vermibus, divitiae parentibus, anima tradetur daemonibus, et sic nullus inventus erit in eis locus. Bene ergo dicitur in evangelio: "Iussit eum Dominus venundari et uxorem et filios," quia, ut ibi dicit glossa, pro cupiditate mundi et carnis et operibus malis, quasi uxore et filiis, poenas aeternas exsolvet. A quibus nos liberare dignetur, qui est benedictus in saecula. Amen.
8. "Procidens autem servus ille rogabat eum dicens: Patientiam habe in me, et omnia reddam tibi "(Mt 18,26). Ecce quid debet facere peccator dum vivit, ne post mortem cum uxore et filiis ad mortis aeternae ducatur supplicium. Nota ista tria: procidens, rogabat et omnia reddam, in quibus contritio, confessio et satisfactio notantur, per quae omnia peccata dimittuntur. Procidere dicitur porro cadere. Porro cadit qui vere conteritur, qui se terram cognoscit. Unde, "in conspectu tuo cadent omnes qui descendunt in terram "(Ps 21,30). "In conspectu, "inquit", tuo," non statuae Nabuchodonosor, de qua dicitur in Daniele: Cadentes omnes populi adoraverunt statuam auream, quam constituerat Nabuchodonosor in campo Dura (cf. Dan 3,7.1), quod interpretatur pulchritudo vel loquela. Statua aurea est huius mundi fallax gloria, quae in pulchritudine exteriori et loquela falsae promissionis a diabolo est constituta. Ostendit gloriae pulchritudinem, promittit ipsam, et sic omnes gentes, cadentes a vera gloria, adorant transitoriam, et in ipsa diabolum. Unde dicit in Matthaeo: "Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me "(Mt 4,9). Qui ergo vult veniam impetrare, non coram statua cadat; sed coram Iesu, cum servo, procidat, de quo dicitur: "Procidens autem servus ille."
Sequitur: "Rogabat eum." Rogare est humiliter ac devote aliquid postulare. Confessio debet esse humilis et devota: humilis, idest humi acclinis, in sui deiectione et accusatione, devota in prompta satisfaciendi voluntate, et tunc poterit dicere: "Patientiam habe in me." De qua Apostolus: "An divitias bonitatis eius et patientiae et longanimitatis contemnis? Ignoras quoniam benignitas Dei ad poenitentiam te adducit? "(Rom 2,4). Qui has divitias contemnit semper et pauper et miser erit.
"Et omnia reddam tibi." Omnia reddit qui pro omnibus satisfacit, ut poena respondeat culpae. "Facite", inquit, "fructus dignos poenitentiae "(Lc 3,8). Et in libro Iosue dicitur, quod sors Iudae pertransiit in Sina (cf. Ios 15,1.3), quae interpretatur mensura. Mensura est quidquid pondere, capacitate, longitudine, animoque finitur. Vera satisfactio in se habet ista quattuor, scilicet pondus doloris, capacitatem dilectionis, qua omnes in se capit, longitudinem perseverantiae finalis, in animo humilitatem. Ubi concurrunt haec omnia, praesto est misericordia.
Unde sequitur: "Misertus autem Dominus servi illius, dimisit eum, et debitum dimisit ei "(Mt 18,27). Nota quod, tria facit misericordia Domini, scilicet purificat animam a vitiis, locupletat charismatum divitiis, accumulat caelestium gaudiorum deliciis. Prima in contritione cor affligit; secunda ad amorem emollit; tertia, spe supernorum bonorum, cor quasi caelesti rore perfundit. Et hoc patet ex triplici huius nominis interpretatione. Dicitur enim misericordia, miserum cor donans, et hoc convenit primae misericordiae. Item dicitur misericordia, quasi mittens seorsum rigorem cordis, et hoc secundae. Item dicitur misericordia, quasi mira suavitas corda rigans, et hoc tertiae. Misertus ergo hac triplici misericordia servi illius, dimisit eum et debitum.
Unde egregie et congrue introitus hodiernae missae hoc loco concordat, in quo dicit iste misericors Dominus: "Ego cogito cogitationes pacis et non afflictionis," ecce: "misertus Dominus servi illius; invocabitis me," ecce: "procidens servus rogabat" etc.; "et ego exaudiam vos," ecce: "dimisit eum; et reducam captivitatem vestram "(Ier 29,11.12.14)"," ecce: "et omne debitum dimisit ei."
9. À primeira parte do Evangelho corresponde a primeira parte da Epístola: “Confio no Senhor Jesus, porque aquele que começou em vós a boa obra”, isto é, prostrar-vos na contrição, suplicar na confissão e restituir tudo na satisfação, “a levará à perfeição até o dia de Cristo Jesus”, isto é, até o fim da vida, quando Deus será visto. “Pois é justo que eu tenha este sentimento”, isto é, que eu queira isso “por todos vós” (Fl 1,6-7), aos quais suplico que façais o mesmo. Vede que a minha confiança não seja vã. E explica a causa: “porque vos tenho no coração”, e não somente nos lábios, “e nas minhas cadeias”, pela compaixão, “e na defesa” contra os que nos combatem, “e na confirmação” dos fracos [na doutrina] “do Evangelho; desejo que sejais companheiros da minha alegria”, para que no futuro sejais companheiros e participantes da alegria eterna.
Para que mereçamos chegar a essa alegria, nós vos suplicamos, Senhor Jesus Cristo, a vós que sois a pedra angular (cf. Ef 2,20), queirais quebrar a estátua da nossa cobiça e perdoar-nos a dívida da nossa iniquidade. Conceda-nos isso aquele que é bendito pelos séculos eternos. Amém.
10. Segue-se a segunda parte: “Ao sair, porém, aquele servo encontrou um dos seus companheiros, que lhe devia cem denários; e, agarrando-o, sufocava-o, dizendo: Paga o que deves” (Mt 18,28). O servo mau, esquecido da misericórdia divina que lhe havia perdoado a dívida, não quis usar de misericórdia para com o companheiro. Deveria, porém, ter usado de misericórdia para com o companheiro aquele servo de quem o senhor tivera misericórdia. Quão grande é a diferença entre dez mil talentos e cem denários, tão grande, e muito maior ainda, é a diferença entre o pecado com que ofendemos a Deus e o pecado com que o próximo nos ofende. Se, pois, Deus, Senhor de toda a criação, te perdoa uma dívida tão grande, por que tu não perdoas ao próximo uma dívida tão pequena? Quem se esquece da misericórdia que lhe foi concedida não se compadece de ninguém. Por isso, a saída do servo denota o seu próprio esquecimento. Daí o que se lê no Gênesis: “Caim disse a Abel, seu irmão: Saiamos para fora. E, quando estavam no campo, Caim levantou-se contra Abel, seu irmão, e o matou” (Gn 4,8). É isto que se diz: “agarrando-o, sufocava-o”. Caim interpreta-se “possessão”: “Possuí”, disse Eva, “um homem por Deus” (Gn 4,1); e significa o avarento que, ao sair da presença da misericórdia divina, agarra e sufoca Abel, que se interpreta “luto”, isto é, o pobre, afligido pelo luto da pobreza.
Moralmente. Caim mata Abel, isto é, a posse das riquezas mata o pranto da penitência; e à própria posse, que nasce primeiro como Caim, segue-se o luto da morte eterna. Por isso, Daniel disse a Baltazar: “Não humilhaste o teu coração, mas te levantaste contra o Senhor do céu, e não glorificaste a Deus, que tem em sua mão o teu sopro e todos os teus caminhos. Por isso, por ele foi enviada a junta da mão que escreveu aquilo que está gravado: ‘Mene’, isto é, contou; ‘Tequel’, isto é, pesou; ‘Peres’, isto é, dividiu” (cf. Dn 5,22-28).
No juízo haverá estas três coisas: o exame dos pecados, a reprovação dos bens omitidos e a execução da sentença. E então será dividido o reino babilônico, isto é, a sinagoga dos pecadores será separada do reino dos justos e será entregue aos medos e aos persas, isto é, aos demônios, que sufocarão aquele que sufocava: “Agarrando-o”, diz, “sufocava-o”. “Sufoco” compõe-se de sub e fauce. As fauces recebem esse nome por causa de fundendis vocibus, isto é, porque por elas emitimos a voz. Quem aperta as fauces, a garganta, procura tirar a voz e a vida. A vida do pobre é a pequena substância com que vive, assim como a alma vive do sangue (cf. Dt 12,23). Quando tiras do pobre a sua pequena substância, extrais-lhe o sangue, apertas-lhe a garganta; e por isso serás sufocado pelo diabo.
11. Segue-se: “E, caindo aos pés, o seu companheiro suplicava-lhe, dizendo: Tem paciência comigo, e te restituirei tudo. Mas ele não quis; foi embora e mandou-o para a prisão, até que pagasse a dívida” (Mt 18,29-30). Ó servo mau! Com as mesmas palavras suplicaste ao Senhor, e ele te perdoou; e, suplicado pelo teu companheiro pela mesma coisa, não quiseste perdoar-lhe, mas o mandaste para a prisão! Crê-me, porém: virá o tempo em que se cumprirá aquilo de Salomão: “Quem desvia o ouvido do clamor do pobre clamará ele mesmo, e não será ouvido” (cf. Pr 21,13). A prisão é este mundo, a fornalha da Babilônia. Por isso, encontras uma concordância em Daniel, onde os servos de Nabucodonosor “não cessavam de alimentar a fornalha com nafta, estopa, pez e sarmentos” (Dn 3,46). A nafta são ossos de azeitonas. A estopa é assim chamada porque com ela se calafetam as fendas das embarcações. O pez recebe o nome da árvore do pinheiro, da qual é feito. Os sarmentos são ramos de videira. Na nafta está figurada a avareza, que carece do óleo da misericórdia e na qual há a morra do dinheiro. Extrai o óleo, e resta a morra. Tira do dinheiro o óleo da misericórdia, e restará somente ele, incêndio da morte eterna. Na estopa está figurada a vanglória, que rapidamente se transforma em cinza. No pez, que exala uma fumaça negra, está figurada a luxúria, que mancha a alma e corrompe a reputação. Nos sarmentos está significada a soberba. Com efeito, os soberbos foram cortados da verdadeira videira, isto é, Jesus Cristo.
Com esses quatro combustíveis se acende a fornalha da Babilônia, e arde todo este mundo; nela estão os três jovens, Sidrac, Misac e Abdênago. Mas o anjo do Senhor sacode a chama do fogo para fora da fornalha, faz o interior da fornalha como um vento de orvalho que sopra, e o fogo não os toca absolutamente (cf. Dn 3,49-50). Nesses três jovens são figuradas três virtudes; aqueles que as tiverem sairão ilesos da fornalha do mundo. Em Sidrac, que se interpreta “meu decoro”, está figurada a castidade. Por isso, no Cântico dos Cânticos: “És bela e formosa, pela castidade interior e exterior, filha de Jerusalém” (cf. Ct 6,3). E no Gênesis: “Filho que cresce, José, e formoso de aspecto” (Gn 49,22). E ainda: “Rebeca, jovem muito formosa e virgem belíssima” (Gn 24,16). E também Raquel era “bela de rosto e formosa de aspecto” (Gn 29,17). Em Misac, que se interpreta “riso”, está figurada a paciência, que sorri na tribulação. Em Abdênago, que se interpreta “servo silencioso”, está figurada a obediência, que serve de bom grado e se cala quanto à palavra da própria vontade. Aqueles que possuem estas três virtudes são libertados, pelo Anjo do grande conselho e pelo vento de orvalho, isto é, pela graça do Espírito Santo, do fogo da fornalha, isto é, do incêndio dos vícios deste mundo.
Segue-se: “Vendo, porém, os seus companheiros o que acontecia, ficaram muito tristes; e foram contar ao seu senhor tudo o que havia acontecido” (Mt 18,31). Os companheiros, como diz a Glosa interlinear, são os pregadores do Evangelho, ou os anjos, que referem a Deus os feitos dos homens. Por isso, o anjo disse a Daniel: “Desde o primeiro dia em que aplicaste o coração a compreender, humilhando-te diante do teu Deus, as tuas palavras foram ouvidas; e eu vim por causa das tuas palavras” (Dn 10,12). Diz ali a Glosa: Desde que começaste a invocar a misericórdia de Deus com lágrimas, jejum e orações, encontrei ocasião de entrar na presença de Deus para orar por ti.
12. À segunda cláusula corresponde a segunda parte da epístola: “Deus me é testemunha de como desejo todos vós nas entranhas de Jesus Cristo” (Fl 1,8), isto é, no íntimo amor de Cristo, para que sejais amados por ele, ou para que ameis a Deus e ao próximo com aquele mesmo afeto com que Cristo vos amou, ele que deu a sua vida por vós. Isso não desejava o servo malvado, que sufocava o seu companheiro. Testemunha é chamado aquele que guarda o que foi estabelecido. Bom testemunho foi o do bem-aventurado Paulo, que guardava em si mesmo e nos outros o preceito de Jesus Cristo. As entranhas são as partes internas situadas ao redor do coração, chamadas como que vivas, porque nelas se contêm a vida e a alma. As entranhas de Jesus Cristo são a caridade com que nos amou, e na qual vive a nossa alma. Em toda parte há morte; somente nas entranhas de Jesus Cristo há vida.
Diz-se nas coisas naturais que existem apenas quatro seres que vivem unicamente dos quatro elementos: o alec, que é um peixinho, vive somente da água; o camaleão vive somente do ar; a salamandra, do fogo; a toupeira, somente da terra. Sobre o camaleão, diz Solino que ele não toma alimento nem se nutre de bebida, e não vive de outro alimento senão da aspiração do ar. É um quadrúpede, de passo lento, quase igual ao movimento das tartarugas; tem o corpo áspero, de cor variada e mutável num instante, de tal modo que se torna da mesma cor de qualquer coisa à qual se una. Há duas cores que não consegue imitar, a saber, o vermelho e o branco; as demais facilmente as reproduz. Esconde-se no inverno e sai na primavera. Quem quer que o mate, ao morrer mata o seu vencedor. Com efeito, se uma ave comer dele ainda que seja um pouco, morre imediatamente. Mas, se dele comer o corvo — isto é, o corvo ou outra ave que recebe o nome do som de sua garganta —, encontra remédio para se curar, com a natureza estendendo-lhe a mão. Pois, quando percebe que está abatido, toma uma folha de loureiro e recupera a saúde. Do mesmo modo, a salamandra é assim chamada porque é capaz de resistir aos incêndios. Se ela subir numa árvore, envenena todos os frutos; e não somente não é queimada pelo incêndio, mas também o extingue. É também chamada lagartixa, em latim estélio, acerca da qual Salomão diz nos Provérbios: “O estélio se apanha com as mãos e habita nos palácios dos reis” (Pr 30,28). Estélio vem de sua cor, pois tem o corpo coberto de pontos luminosos à maneira de estrelas. Do mesmo modo, a toupeira é assim chamada porque está condenada à cegueira perpétua. Com efeito, não tem olhos e passa a vida cavando a terra.
Como nos propusemos tratar da caridade, que é a vida da alma, queremos expor aqui, se pudermos encontrar algo na natureza desses seres que sirva para o seu crescimento. Por ora, porém, nada trataremos de seu veneno e de sua malícia.
Observa que a caridade consiste principalmente em quatro coisas: na compunção do coração, na contemplação da glória, no amor ao próximo e na lembrança da própria indignidade. No alec, pequeno peixe, é representado o penitente humilde, que vive somente da água das lágrimas. Por isso o Profeta diz: “Lavarei todas as noites”, isto é, cada pecado, que conduz à noite eterna, “o meu leito”, isto é, a minha consciência, “com as minhas lágrimas o regarei” (Sl 6,7), isto é, regarei o corpo afligido pela penitência, para que faça brotar a erva verdejante e que produz semente, e a árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie (cf. Gn 1,12). Sobre isto, consulta o sermão “No princípio criou Deus” (“Domingo da Septuagésima”).
13. E, porque o penitente humilde vive somente da água das lágrimas, tens uma clara concordância em Daniel, onde diz: “Eu, Daniel, pranteava durante três semanas; não comia pão desejável, e carne e vinho não entraram em minha boca; tampouco me ungi com unguento, até que se completassem os dias das três semanas” (Dn 10,2-3). Observa que do pranto excessivo sucedem três coisas: os olhos se obscurecem, a cabeça se perturba e o rosto se adelgaça. Assim, o olho do verdadeiro penitente, que antes costumava saquear-lhe a alma, obscurece-se para que não veja uma mulher a fim de desejá-la (cf. Mt 5,28), e fecha-se para que a morte não entre pelas janelas (cf. Jr 9,21). Sua cabeça, isto é, sua mente, perturba-se por causa dos pecados cometidos. Por isso diz, com o filho da sunamita, no Quarto Livro dos Reis: “Dói-me a cabeça, dói-me a cabeça!” (4Rs 4,19). A repetição da palavra significa a veemência da dor. O rosto se adelgaça pela mortificação da carne. Por isso diz: “Desfaleceu a minha carne” (Sl 72,26), isto é, a riqueza da minha carne, “e o meu coração”, isto é, a soberba do meu coração. Estas são as três semanas durante as quais o penitente pranteia. Ou então: pranteia durante três semanas porque ofendeu a Santíssima Trindade de três modos, a saber, com o coração, com a boca e com as obras.
“Não comia pão desejável.” A Glosa diz a esse respeito: Abstinha-se dos alimentos refinados, o que nós devemos fazer muito mais no tempo do jejum. Com efeito, os que se alimentam de coisas ilícitas devem abster-se também das lícitas. Ou então, o pão desejável é a pompa secular, hoje desejada por muitos, da qual Salomão diz nos Provérbios: “Suave é ao homem o pão da mentira”, isto é, da pompa secular, que finge ser alguma coisa, quando nada é; “depois, porém, sua boca se encherá de pedras” (Pr 20,17), isto é, de pena eterna. Por isso Jó diz: “Seu pão, em seu ventre, transformar-se-á em fel de áspides” (Jó 20,14). O penitente não come desse pão; ao contrário, diz no Salmo: “Comia cinza como pão” (Sl 101,10). A Glosa diz a esse respeito: Comia cinza, isto é, os restos dos pecados, como pão, isto é, consumia-os fazendo penitência, porque também os pecados leves, isto é, veniais, devem ser consumidos pela penitência. “E misturava o meu pranto à minha bebida” (Sl 101,10), isto é, à felicidade temporal.
Por isso acrescenta: “Carne e vinho”, nos quais se assinalam a concupiscência da carne e a glória do mundo, “não entraram em minha boca”. A carne é assim chamada porque é cara, amada. O vinho recebe esse nome porque, quando bebido, rapidamente enche de sangue a veia. “Tampouco me ungi com unguento.” Sobre isso tens uma concordância no profeta Amós, onde se diz: Ai de vós “que comeis o cordeiro do rebanho e os bezerros do meio do gado; que bebeis vinho em taças e vos ungis com os melhores unguentos” (Am 6,4.6). O penitente faz todas as coisas acima mencionadas até que se completem os dias das três semanas, isto é, até que satisfaça plenamente pelos pecados e receba da Santíssima Trindade o perdão.
14. No camaleão é designado o homem contemplativo, que vive somente do ar, isto é, da doçura da contemplação. Por isso diz com o Apóstolo: “A nossa pátria está nos céus” (Fl 3,20). E em Jó: “A minha alma escolheu a suspensão” (Jó 7,15). A suspensão é a elevação da visão ao Senhor. O homem justo é elevado das coisas terrenas pela corda do amor divino e fica suspenso no ar, pela doçura da contemplação; então, por assim dizer, torna-se todo ar, nada tendo da carne, isto é, da carnalidade. Por isso se diz de João Batista que era “a voz daquele que clama no deserto” (Mt 3,3; Jo 1,23). A voz é ar, e João era ar, não carne, porque nada de carnal havia nele, mas tudo o que nele se percebia era celeste. Por isso se diz no Êxodo que, sob os pés do Senhor, havia algo semelhante a uma obra de pedra de safira (cf. Ex 24,10). Sob os pés, isto é, sob a humanidade de Jesus Cristo, estão colocadas, como escabelo, as mentes dos justos. Por isso se diz que Maria estava sentada aos pés do Senhor (cf. Lc 10,39). E ainda: as mulheres “aproximaram-se e abraçaram-lhe os pés” (Mt 29,8). E no Deuteronômio: “Os que se aproximam de seus pés receberão a sua doutrina” (Dt 33,3). A safira é de cor celeste. As mentes dos justos, submetidas à humanidade de Jesus Cristo pela fé e pela humildade, são como uma obra de pedra de safira.
Observa estas três coisas: obra, pedra e safira. “Obra”, por causa do trabalho da penitência. Sobre isso diz Salomão nos Provérbios: “Prepara fora a tua obra e cultiva diligentemente o teu campo”, isto é, a tua vida, “para depois edificares a tua casa” (Pr 24,27), isto é, a tua consciência. “Pedra”, por causa da constância da mente. Por isso Zacarias diz: Numa só pedra há sete olhos (cf. Zc 3,9), isto é, no homem constante há os sete dons da graça. “Safira”, por causa da doçura da contemplação.
Por isso se diz em Ezequiel “que sobre a cabeça dos querubins havia algo semelhante a uma pedra de safira” (Ez 10,1). “Sobre a cabeça”, isto é, sobre a mente dos querubins, isto é, dos justos, que estão repletos de ciência, a qual, sozinha, sabe ensinar e, sozinha, torna sábios. E observa que Ezequiel chama aqui de querubins aqueles que no princípio chama de quatro animais; por isso chama esses animais pelo nome dos anjos, porque eram alados. Deve-se saber que são descritos sem pés nem bicos de aves, mas somente com asas. Com efeito, os homens justos não têm, como as aves, garras curvas para a rapina e a violência, nem bico para dilacerar e caluniar os irmãos, mas somente as asas da contemplação divina; para significar isso, a natureza deu ao homem unhas planas, não curvas.
15. Lê-se no livro das Coisas Naturais que as aves de garras curvas, quando veem que seus filhotes já podem voar, golpeiam-nos e expulsam-nos de seus ninhos; e, quando seus filhotes já cresceram, não se preocupam mais com eles. Assim fazem certos avarentos e sem misericórdia: quando veem pobres e enfermos recuperarem um pouco as forças, e, o que é pior, ainda durante a própria enfermidade, expulsam-nos de sua casa. Sobre a cabeça dos querubins, porém, está a pedra de safira, porque a bem-aventurança da contemplação enobrece e ilumina a mente dos justos.
Na salamandra é designado o homem caritativo, que vive somente do fogo da caridade. Por isso diz o Eclesiástico: “Levantou-se Elias como um fogo, e sua palavra ardia como uma tocha” (Eclo 48,1), porque a obra e a palavra do homem justo ardem de caridade. Por isso é também chamado apropriadamente de lagarto, porque resplandece como as estrelas, isto é, pela claridade da boa obra. Salomão diz a respeito dele que “se apoia em suas mãos”, isto é, em suas obras, no que diz respeito ao próximo, “e mora nas casas do rei”, isto é, na contemplação, no que diz respeito a Deus.
Do mesmo modo, na toupeira é designado o homem desprezado e solitário, que vive somente da terra, porque se reconhece terra e pecador, não se esquecendo daquela maldição: “És terra e à terra voltarás” (cf. Gn 3,19). Ele, na cegueira deste exílio, contenta-se somente com a terra, porque não come a carne dos outros, isto é, não condena nem julga os pecadores, mas considera somente os seus próprios pecados, na amargura de sua alma, desejando que todos estejam nas entranhas de Jesus Cristo (cf. Fl 1,8).
A ele, ó caríssimos irmãos, supliquemos humildemente que nos reúna nas entranhas de sua caridade e nos faça viver da água da compunção, do ar da contemplação, do fogo da caridade e da terra da humildade, para que mereçamos chegar até ele, que é a vida. Conceda-no-lo ele mesmo, que é bendito pelos séculos. Amém.
16. Segue-se o terceiro. “Então o seu senhor mandou chamá-lo e disse-lhe: Servo mau, perdoei-te toda a dívida, porque me suplicaste; não devias também tu ter compaixão do teu companheiro, assim como eu tive compaixão de ti? E, irado, o seu senhor entregou-o aos torturadores, até que pagasse toda a dívida” (Mt 18,32-34). Da leitura deste santo Evangelho, tens claramente que os pecados perdoados voltam. Por isso, quero apresentar aqui tudo o que encontrei nas Sentenças sobre este assunto.
Pergunta-se se os pecados perdoados voltam. A solução desta questão é obscura e ambígua, pois uns afirmam e outros, ao contrário, negam que os pecados uma vez perdoados possam voltar para serem novamente castigados.
Os que dizem que os pecados perdoados voltam apoiam-se nos testemunhos seguintes.
Ambrósio: Perdoai-vos mutuamente, se um pecar contra o outro; de outro modo, Deus faz voltar os pecados perdoados. Com efeito, se este preceito for desprezado, sem dúvida ele invalidará a penitência pela qual manifesta a sua misericórdia, como se lê no Evangelho a respeito do servo mau, que foi surpreendido agindo impiamente contra o seu companheiro (cf. Mt 18,34-35).
Do mesmo modo, Rabano: Deus entregou o servo mau aos torturadores até que pagasse toda a dívida, porque não somente os pecados que o homem cometeu depois do Batismo lhe são imputados para castigo, mas também o pecado original, que no Batismo lhe havia sido perdoado.
Do mesmo modo, Gregório: Pelas palavras do Evangelho, fica claro que, se não perdoarmos de coração o que foi cometido contra nós, também nos será novamente exigido aquilo que nos alegrávamos por ter sido perdoado pela penitência.
Do mesmo modo, Agostinho: Deus diz: “Perdoai, e vos será perdoado” (cf. Lc 6,37). Mas eu perdoei primeiro. Perdoa tu, ao menos depois, pois, se não perdoares, chamar-te-ei de volta e te exigirei novamente tudo o que eu te havia perdoado.
Do mesmo modo: Aquele que, esquecido do benefício divino, quer vingar as suas injúrias, não somente não merecerá o perdão pelos pecados futuros, mas também lhe serão novamente exigidos, para vingança, os pecados passados, que julgava já lhe terem sido perdoados.
Do mesmo modo, Beda: “Voltarei para a minha casa” (Mt 12,44) etc. Deve-se temer este versículo e tê-lo em consideração, para que não aconteça que a culpa que julgávamos extinta em nós recaia novamente sobre nós por causa da nossa negligência.
O mesmo: Com efeito, aquele que, depois do Batismo, for novamente dominado pela maldade da heresia ou pela concupiscência mundana, será logo precipitado, por esses pecados, no abismo de todos os vícios.
Do mesmo modo, Agostinho: Que os pecados perdoados voltem, onde não há caridade fraterna, o Senhor o ensina claramente no Evangelho, naquele servo a quem o senhor exigiu a restituição da dívida já perdoada, porque ele não quis perdoar a dívida ao seu companheiro.
É nesses testemunhos que se apoiam os que dizem que os pecados perdoados voltam, quando são novamente cometidos.
A estes se objeta: Se alguém é punido novamente pelo pecado do qual se arrependeu e recebeu o perdão, isso não parece justo. Se é punido porque pecou e não se corrigiu, há evidente justiça. Mas, se lhe é exigido aquilo que havia sido perdoado, ou há injustiça, ou há uma justiça oculta. Parece também que Deus julga duas vezes o mesmo pecado e que surge uma dupla tribulação, o que a Escritura nega (cf. Na 1,9). Mas a isso se pode responder que não surge uma dupla tribulação, nem Deus julga duas vezes o mesmo pecado. Isso aconteceria se, depois de uma reparação condigna e de uma pena suficiente, Deus o punisse novamente; mas não reparou de modo digno e suficiente aquele que não perseverou. Com efeito, deve conservar sempre a lembrança do pecado, não para voltar a cometê-lo, mas para dele se precaver; não deve esquecer todos os benefícios de Deus (cf. Sl 102,2), que são tantos quantas são as remissões dos pecados. Portanto, devia pensar em tantos dons de Deus quantos eram os seus males e, por eles, dar graças até o fim. Mas, como foi ingrato e voltou ao vômito como o cão (cf. 2Pd 2,22), destruiu todo o bem praticado anteriormente, fez voltar o pecado perdoado e, assim, Deus, que antes havia perdoado o pecado ao humilde, agora o imputa novamente àquele que se tornou soberbo e ingrato.
Mas, como parece absurdo que os pecados perdoados sejam novamente imputados, alguns são de opinião que ninguém é punido novamente por Deus pelos pecados uma vez perdoados. Diz-se, então, que os pecados perdoados voltam e são imputados porque, por causa da ingratidão, o pecador é considerado culpado como antes. Assim, diz-se que lhe é exigido aquilo que havia sido perdoado, porque foi ingrato pelo perdão recebido e, desse modo, torna-se culpado como era antes.
Doutores aprovados favorecem ambos os lados da questão; por isso, sem prejudicar nenhuma das partes, deixo o julgamento ao leitor diligente, acrescentando que, para mim, será seguro e próximo da salvação comer as migalhas debaixo da mesa dos senhores (cf. Mt 15,27).
17. A esta terceira parte do Evangelho corresponde a terceira parte da Epístola: “E isto peço: que a vossa caridade abunde cada vez mais em conhecimento e em todo discernimento” (Fl 1,9). A caridade abunda, isto é, cresce no conhecimento, para que o homem saiba provar e discernir não somente o mal do bem, mas também o bem do que é melhor. Por isso, acrescenta: “Para que aproveis o que é melhor, a fim de serdes sinceros”, isto é, sem corrupção no que diz respeito a vós mesmos, “e sem causar ofensa” no que diz respeito aos outros, “no dia de Cristo” (Fl 1,10), isto é, até o dia da morte ou do juízo. O servo mau não observou essas coisas, porque não foi sincero para com Deus, que lhe perdoara a dívida, nem sem causar ofensa para com o companheiro, que tentou estrangular e mandou lançar na prisão; por isso, no dia de Cristo, ele próprio será inteiramente estrangulado pelos torturadores, isto é, pelos demônios. “Repletos do fruto da justiça”, isto é, das obras que são fruto da justiça, “por Jesus Cristo”, não pelas vossas forças, “para glória e louvor de Deus”, isto é, por meio disso entrareis na glória eterna, para louvar a Deus; ou ainda, para serdes a glória e o louvor de Deus, de modo que se diga a vosso respeito: “Deus é admirável nos seus santos” (Sl 67,36), isto é, opera maravilhas nos seus santos, ou seja, concede-lhes o poder de realizá-las.
Ó caríssimos irmãos, imploremos e supliquemos a ele que nos perdoe os pecados passados, nos conceda a graça de não recairmos neles e nos conceda perdoar de coração aos homens, para que mereçamos chegar à sua glória, na qual ele é digno de louvor e glorioso pelos séculos eternos. Amém. Aleluia.