Evangelho do vigésimo primeiro domingo depois de Pentecostes: “Havia um funcionário do rei”, que se divide em duas partes.
Primeiramente, tema do sermão sobre a mortificação dos desejos carnais e a confissão dos pecados, que é comparada à safira por causa de suas quatro propriedades, no trecho: “Sobre o firmamento”.
[Da primeira parte]. Igualmente, tema sobre as nove ordens dos anjos e seus significados, no trecho: “Havia um funcionário do rei”.
Igualmente, aos religiosos, no trecho: “Vi um anjo que descia”.
Igualmente, sobre a tríplice caridade, no trecho: “O querubim estendeu a mão”.
Igualmente, sobre quatro abominações: primeiro, contra os prelados e sacerdotes, no trecho: “Filho do homem, levanta os teus olhos”.
Igualmente, contra os prelados e religiosos que dão aos parentes o patrimônio do Crucificado, no trecho: “Filho do homem, abre uma brecha na parede”.
Igualmente, contra a prosperidade do mundo, no trecho: “Voltando-se ainda”.
Igualmente, contra aqueles que, por causa dos bens temporais, se esquecem do Senhor, no trecho: “E eis que junto à porta do templo”.
Igualmente, sermão na Natividade do Senhor, no trecho: “Aquele que estava sentado à porta sobre o trono disse ao”.
[Da segunda parte]. Tema do sermão sobre a fé e a contemplação, no trecho: “Esta era a visão que se movia”.
Igualmente, sobre a descida da humildade, no trecho: “Já enquanto ele descia”.
Igualmente, sobre a obediência, no trecho: “Do meio aparecia algo como o aspecto do electro”; e no trecho: “As penas prateadas da pomba”.
Igualmente, sobre a vida da alma e o odor dos frutos, pelo qual somente vivem os homens, no trecho: “Anunciaram-lhe que seu filho vivia”.
Igualmente, sobre a febre da luxúria, no trecho: “À hora sétima”.
1. Naquele tempo: “Havia um funcionário do rei, cujo filho estava enfermo em Cafarnaum” (Jo 4,46).
Disse Ezequiel: “Sobre o firmamento, que estava acima da cabeça dos animais, havia algo semelhante ao aspecto de uma pedra de safira, uma semelhança de trono; e sobre a semelhança do trono, uma semelhança, como o aspecto de um homem, por cima” (Ez 1,26). Observa que nesta passagem são mencionadas quatro coisas: primeiro, os animais; segundo, o firmamento; terceiro, o trono de safira; quarto, o aspecto de homem. Os animais são os desejos carnais que, como animais irracionais, poluem a terra de nossa mente; por isso o Senhor diz em Ezequiel: “Foste lançada sobre a face da terra, no desprezo de tua alma. Vi-te sendo pisada em teu sangue” (Ez 16,5-6), isto é, na imundície do desejo carnal. A cabeça dos animais é o princípio dos desejos carnais, a respeito do qual se diz no Gênesis: “Ela esmagará a tua cabeça” (Gn 3,15). Isso acontece quando o firmamento se eleva sobre a cabeça dos animais. O firmamento é a contrição do coração; por isso se diz no Gênesis: “Faça-se um firmamento no meio das águas, separando águas de águas” (Gn 1,6). A mente do penitente, contrita por seus pecados, possui as águas superiores, isto é, os fluxos da graça, e as inferiores, isto é, os fluxos da concupiscência, que devem estar abaixo dele, porque sempre tendem à queda. Ou então: as águas superiores significam a razão, que é a força superior da alma e sempre impele o homem para o bem; as águas inferiores significam a sensualidade. Algo semelhante tens em Ezequiel: “Vi”, diz ele, “como que o aspecto do electro, desde os seus rins para cima; e desde os seus rins para baixo, como que o aspecto do fogo” (Ez 1,27). Diz a Glosa: Aquilo que está acima dos rins, onde se exercem os sentidos e a razão, não precisa ser queimado pelo fogo ou pelas chamas, mas precisa do metal mais precioso e puríssimo; aquilo que está abaixo dos rins, onde se encontram a união sexual e a geração, onde estão os estímulos dos vícios, precisa da purificação das chamas.
Sobre a cabeça dos animais deve, portanto, elevar-se o firmamento, isto é, que a contrição do coração esmague o princípio dos desejos carnais; e então, sobre o firmamento, haverá algo semelhante ao aspecto de uma pedra de safira, uma semelhança de trono. No trono é designada a confissão dos pecados, e com razão. Pois, assim como quem se senta no trono se humilha, também o penitente deve humilhar-se na confissão, julgando a si mesmo, condenando a si mesmo e dissipando todo o mal que fez. Por isso se diz nos Provérbios: “O rei que se senta no trono dissipa todo mal com o seu olhar” (Pr 20,8).
E observa que a confissão deve ser como o aspecto de uma pedra de safira, que possui quatro propriedades: é semelhante ao céu sereno, mostra em si uma estrela, detém o sangue e elimina o carbúnculo. Assim, a confissão dos pecados deve ser semelhante ao céu pela esperança do perdão, para que diga com o ladrão: “Lembra-te de mim, Senhor, quando entrares no teu reino” (Lc 23,42). Deve também mostrar em si uma estrela. Estrela, assim chamada de stare, significa o firme propósito de não recair. Pois, assim como as estrelas são imóveis e, fixas no céu, são levadas em movimento perpétuo, assim o penitente deve ser imóvel e firme na penitência e, onde quer que vá e para onde quer que se mova, deve ter o firme propósito de não recair no pecado. Se a confissão não mostrar essa estrela, não se deve absolutamente impor a penitência. Diz o Senhor: “Vai e não peques mais” (Jo 8,11). Não disse: “Não peques”, mas: “Não queiras”. Igualmente, deve deter o sangue. Sangue é assim chamado porque é suave, e significa o prazer do pecado, que a confissão deve deter, para que não flua do coração e dos sentidos do corpo. Se a confissão tiver essas três coisas, realizará a quarta, porque eliminará o carbúnculo, isto é, a sugestão do diabo. Nesse trono de safira repousa Deus e homem, semelhante ao electro, Jesus Cristo, libertando a alma do penitente de toda enfermidade do pecado, assim como libertou da enfermidade corporal o filho do funcionário do rei, a respeito do qual se diz na leitura do Evangelho de hoje: “Havia um funcionário do rei, cujo filho estava enfermo em Cafarnaum”.
2. Observa que neste Evangelho se destacam duas coisas: a enfermidade do filho do funcionário do rei e a fé do próprio funcionário. A primeira, no trecho: “Havia um funcionário do rei”. A segunda, no trecho: “O homem acreditou na palavra” etc.
No introito da missa de hoje canta-se: “Se observares as iniquidades, Senhor” (Sl 129,3). E lê-se a epístola do bem-aventurado apóstolo Paulo aos Efésios: “Fortalecei-vos no Senhor”, que queremos dividir em duas partes e concordá-las com as duas partes acima mencionadas do Evangelho. Primeira parte: “Fortalecei-vos”. Segunda: “Permanecei firmes, cingidos os vossos rins” etc. E observa que, no Evangelho de hoje, João fala da enfermidade e da saúde do filho do funcionário do rei, enquanto o Apóstolo, na epístola, fala da tentação do diabo, que enferma a alma, e da armadura de Deus, que combate vigorosamente o próprio diabo. E por isso esta epístola é lida com este Evangelho.
3. Digamos, portanto: “Havia um funcionário do rei, cujo filho estava enfermo em Cafarnaum.” Vejamos o que significam essas quatro coisas — o funcionário do rei, seu filho, a enfermidade deste e Cafarnaum — e tratemos de cada uma delas. Do Rei dos reis de toda a criação, o Senhor Jesus Cristo, que governa os anjos no céu e os homens neste mundo, todo fiel é chamado pequeno rei, pelo fato de trazer em si uma certa representação das ordens celestes e de ser constituído dos quatro elementos, dos quais é formada toda criatura. São nove as ordens, que, contudo, queremos ordenar em três grupos de três.
No primeiro grupo estão os Anjos, os Arcanjos e as Virtudes. Nos Anjos é representada a obediência aos preceitos; nos Arcanjos, a guarda dos conselhos; nas Virtudes, os milagres de uma vida santa. Tu és da ordem dos Anjos quando obedeces ao preceito do Senhor. Por isso, diz o profeta Malaquias: “Os lábios do sacerdote guardam a ciência” (Ml 2,7) etc. Sobre isso, procura no Evangelho: “Um cego estava sentado à beira do caminho” (“Domingo da Quinquagésima”). Do mesmo modo, pertences à ordem dos Arcanjos quando te esforças por cumprir não somente os preceitos, mas também os conselhos de Jesus Cristo. Por isso, Isaías te aconselha: “Assume um conselho, reúne uma assembleia” (Is 16,3). Do mesmo modo, pertences ao coro das Virtudes quando resplandeces pelos milagres de uma vida santa. Por isso, diz no Evangelho de João: “Quem crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará obras maiores do que estas” (Jo 14,12). A Glosa diz nesse lugar: O que o Senhor realiza em nós, não sem nossa cooperação, é maior do que tudo o que realiza sem nós; assim, quando de ímpio alguém se torna justo, isso é maior do que tudo o que há no céu, na terra e nas demais coisas, porque aquelas passarão, ao passo que isto permanecerá; e naquelas há somente a obra de Deus, enquanto nestas há também a imagem de Deus. Além disso, embora tenha criado os anjos, parece maior justificar os ímpios do que criar os justos, pois, embora em ambas as obras haja igual poder, nesta há maior misericórdia.
4. No segundo grupo estão os Principados, as Potestades e as Dominações. Observa que há em nós três realidades sobre as quais devemos dominar, ainda que não como reis, ao menos como pequenos reis, a saber: os pensamentos, os olhos e a língua. Os Principados subjugam os espíritos malignos, e nós devemos refrear os pensamentos malignos, isto é, malignamente inflamados. Por isso, diz João no Apocalipse: “Vi um anjo descendo do céu, tendo na mão a chave do abismo e uma grande corrente; ele agarrou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo e Satanás, e o acorrentou por mil anos” (Ap 20,1-2).
Moralmente, o anjo é o homem justo, que desce do céu quando, vivendo na terra, se esforça por conformar o estado de sua vida à pureza do céu. Ele tem a chave e a corrente. A chave é o discernimento, com o qual o justo fecha e abre o abismo dos pensamentos: fecha-o quando os refreia, abre-o quando os discerne. A corrente na mão representa a prática da penitência. Por isso se chama corrente, porque, ao capturar, retém; ou porque, depois de ter prendido, se mantém com muitos nós. Com efeito, quando a contrição se encadeia à confissão, a confissão à satisfação, e a satisfação ao amor do próximo, forma-se uma grande corrente, com a qual o homem justo acorrenta o dragão, a antiga serpente, que é o diabo e Satanás. No dragão é representado o espírito de soberba; na serpente, o pensamento envenenado da luxúria; no diabo, que em hebraico significa “aquele que precipita para baixo”, é representada a avareza; em Satanás, que significa “adversário”, é indicado o mal da discórdia. O homem justo prende todos esses males com a corrente por mil anos, quando subjuga o dragão da soberba com a contrição do coração; a serpente da luxúria, com a confissão; o diabo da avareza, com a satisfação e a distribuição de esmolas; e Satanás da discórdia, com o amor do próximo. E tudo isso por mil anos, número perfeito que indica a perseverança final.
Devemos também dominar os olhos, que são como pequenos ladrões que roubam uma jovem da terra de Israel, como se diz no quarto livro dos Reis (cf. 4Rs 5,2), isto é, roubam a pureza da mente do homem justo, e dizer com Jó: “Fiz um pacto com os meus olhos, para nem sequer pensar numa virgem” (Jó 31,1). E no Gênesis o Senhor diz a Caim: “Se fizeres o bem, serás acolhido; mas, se fizeres o mal, logo o pecado estará à porta; contudo, debaixo de ti estará o seu desejo, e tu o dominarás” (Gn 4,7). O pecado à porta é a concupiscência da carne nos olhos; e, se exercermos domínio sobre ela, o apetite carnal estará submetido a nós, porque será reprimido pelo jugo da razão.
Devemos também dominar a língua, que é como uma prostituta “tagarela e errante”, como se diz nos Provérbios, “incapaz de permanecer tranquila em casa, não podendo ficar dentro dela, ora fora, ora nas praças, ora espreitando junto às esquinas” (Pr 7,10-12), para que, como diz Tiago, não venha a contaminar todo o corpo, a inflamar o curso da nossa vida e a incendiar uma grande floresta (cf. Tg 3,6.5). Se formos assim, nesta tríplice ordem, a saber, dos Principados, das Potestades e das Dominações, seremos verdadeiramente pequenos reis.
5. No terceiro grupo estão os Tronos, os Querubins e os Serafins. Somos Tronos quando nos humilhamos em nós mesmos e julgamos a nós próprios. Por isso, diz o Salmo: “Ó Deus, dá ao rei o teu juízo” (Sl 71,2). Ao rei, isto é, ao homem justo, Deus dá o seu juízo, para que ele próprio se julgue, a fim de que Deus não encontre nele algo que condenar. “Se nós”, diz o Apóstolo, “nos julgássemos, certamente não seríamos julgados” (1Cor 11,31). Ó Deus, dá-me o teu juízo, para que eu faça meu aquilo que é teu e, fazendo-o meu, escape ao teu. “É terrível”, com efeito, “cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10,31).
Do mesmo modo, Querubim interpreta-se como plenitude da ciência, que é a caridade; quem a possui está cheio dela e sabe como deve caminhar. Somos, portanto, Querubins quando fazemos o bem com caridade. Por isso, diz-se em Ezequiel: “Um querubim estendeu a mão do meio dos querubins para o fogo que estava entre os querubins; tomou-o e o colocou nas mãos daquele que estava vestido de linho” (Ez 10,7). Observa que, nesta passagem, aparece uma vez “querub” e duas vezes “querubins”, porque a caridade é tríplice: a tua, a de Deus e a do próximo. Tu, portanto, que és querub quanto a ti mesmo, estende a mão da santa ação do meio dos querubins, isto é, da caridade de Deus, para o fogo da vida santa, que está entre os querubins, isto é, entre os homens santos e caridosos; e desse fogo, isto é, do exemplo da vida santa, dá ao homem que está vestido de linho, isto é, a todo cristão revestido da fé na encarnação do Senhor. “Todos vós que fostes batizados em Cristo”, diz o Apóstolo, “vos revestistes de Cristo” (Gl 3,27). Se primeiro não tiveres sido querub em ti mesmo, não poderás estender a mão do meio dos querubins para o fogo que está entre os querubins; começa, portanto, pela tua caridade, e depois poderás ser caridoso também para com os outros.
Do mesmo modo, Serafim interpreta-se como ardente. Somos Serafins quando, inflamados pelo fogo da compunção, derramamos lágrimas para obter a fonte das águas inferiores e superiores (cf. Jz 1,14-15). “Vim lançar fogo sobre a terra”, diz ele, “e que quero senão que arda” (Lc 12,49) e faça derreter-se o gelo? Por isso, diz a esposa no Cântico dos Cânticos: “A minha alma se derreteu quando o meu amado falou” (Ct 5,6).
Quem, portanto, reproduz em si mesmo, do modo que dissemos, estas nove ordens e, segundo elas, dispõe e forma ordenadamente a vida do seu corpo, que consta dos quatro elementos, pode verdadeiramente ser chamado pequeno rei, do qual se diz: “Havia certo régulo”.
6. Segue-se: “cujo filho estava enfermo em Cafarnaum”. O filho do funcionário régio é a alma de todo fiel de Jesus Cristo, a qual, enquanto vive segundo a ordem acima indicada, permanece sã; mas, quando permanece em Cafarnaum, adoece até à morte. Cafarnaum interpreta-se como campo de fertilidade ou aldeia da consolação. Nestas quatro palavras, a saber, campo, fertilidade, aldeia e consolação, designam-se os quatro estados dos homens, isto é, dos clérigos, dos religiosos, dos pobres e dos ricos. Os clérigos, no campo da Igreja, ensoberbecem-se com o patrimônio de Cristo. Os religiosos, na tranquilidade e no ócio, como um fruto graúdo, corrompem-se pelo verme da concupiscência. Os seculares pobres trabalham como numa aldeia e se afligem por causa de sua pobreza. Os ricos se alegram na consolação das riquezas e, por isso, se esquecem do Senhor. Todos estes adoecem em Cafarnaum.
A estes quatro correspondem as quatro abominações que o Senhor mostrou a Ezequiel; encontras sua correspondência onde o Senhor diz: “Filho do homem, levanta os teus olhos. E levantei os meus olhos para o caminho do aquilão, e eis que, ao norte da porta do altar, estava o ídolo do ciúme, bem na entrada, para provocar o ciúme. E disse-me: ‘Filho do homem, acaso vês o que estes fazem, as grandes abominações que a casa de Israel pratica aqui, para que eu me afaste para longe do meu santuário?’” (Ez 8,5.3.6). Eis a soberba dos clérigos. O ídolo do ciúme é a soberba dos clérigos, que provoca o Senhor ao ciúme, isto é, à indignação e à vingança. Por isso, no Deuteronômio: “Eles me provocaram por meio daquele que não era Deus” (Dt 32,21) etc. Um prelado da Igreja ou um ministro do altar soberbo, que é senão um ídolo do ciúme bem na entrada da porta do altar? Ai! Quantas abominações estes cometem na casa do Senhor!
Por isso, o próprio Senhor diz a respeito deles, pelo mesmo Profeta: “Violarão o meu tesouro; nele entrarão os emissários e o profanarão” (Ez 7,22). Emissário chama-se propriamente o cavalo destinado à cópula com as éguas. Emissários são os clérigos soberbos e luxuriosos, que violam o tesouro do Senhor, isto é, o corpo de Jesus Cristo, e, quanto deles depende, o calcam aos pés e contaminam a santa Igreja. E por isso o Senhor acrescenta: “Afastar-me-ei para longe do meu santuário”. Assim, lê-se no Primeiro Livro dos Reis que, por causa dos pecados dos sacerdotes Hofni e Fineias, que “dormiam com as mulheres que serviam à entrada da tenda da reunião” (1Rs 2,22), foi capturada a arca do Senhor dos exércitos, que se assenta sobre os querubins (cf. 1Rs 4,1-11).
7. Segue-se a segunda abominação. “E, voltando-te”, diz ele, “verás abominações ainda maiores. E disse-me: Filho do homem, fura a parede; e, tendo eu furado a parede, apareceu uma porta. E disse-me: Entra e vê as abominações perversíssimas que estes fazem aqui. E, tendo entrado, vi; e eis que havia toda espécie de répteis e abominação de animais. E todos os ídolos da casa de Israel estavam pintados ao redor, por toda a parede. E setenta homens dentre os anciãos da casa de Israel, e Jeconias, filho de Safã, estava no meio deles, que permaneciam de pé diante das pinturas. E cada um tinha na mão um turíbulo, e subia uma nuvem de vapor do incenso. E disse-me: Certamente viste, filho do homem, o que fazem os anciãos da casa de Israel nas trevas, cada um no esconderijo do seu aposento; pois dizem: ‘O Senhor não nos vê, o Senhor abandonou a terra’” (Ez 8,6.8-12). Desde o trecho: “Fura a parede”, até: “estavam pintados por toda a parede”, procura no sermão: “Toma para ti aromas e estacte”, intitulado “No início do jejum” [Neste sermão, esta autoridade não ocorre em lugar algum; cf. Gn 37,25].
Segue-se: “E setenta homens dentre os anciãos”, etc. Aí diz a Glosa de Jerônimo: Devemos rezar para que os anciãos da casa de Israel não componham nas trevas o número sete, que é santo, multiplicando-o por sete dezenas, permaneçam em seus erros e adorem as imagens dos ídolos, isto é, de seus vícios, e o vapor do sacrilégio suba, resistindo a Deus. Os religiosos de nosso tempo são chamados setenta homens, porque devem possuir a graça sétupla do Espírito Santo na perfeição das obras. Mas, insensatos, o que fazem? Permanecem de pé diante das pinturas, e no meio deles está Jeconias, que, como diz a Glosa interlinear, tendo abandonado a religião, adorava ídolos no templo de Deus. As pinturas na parede são os fantasmas da soberba, da gula e da luxúria na mente, ou a simulação hipócrita na religião, ou, no religioso, o amor carnal dos parentes e talvez dos filhos e das filhas. Por isso, nos répteis que clamam: “Ai! ai!”, são designados os filhos e os netos; na abominação dos animais, a imundície das fornicações; nos ídolos pintados, os parentes e os amigos. Eis quais pinturas alguns religiosos de nosso tempo adoram. E o que é pior: Jeconias, isto é, o abade ou prior, filho de Safã, que se interpreta “juízo”, isto é, morte eterna, aquele que deveria proibi-lo, permanece no meio deles e adora as mesmas pinturas.
“E cada um”, diz ele, “tinha um turíbulo na mão.” Que é o turíbulo na mão, senão os bens do mosteiro, que foram dados em vista da esmola e do sacrifício e estão sob o poder do superior? Mas estes companheiros de Judas, tendo os cofres particulares do traidor, com o turíbulo da esmola e o incenso do sacrifício oferecido pelos defuntos, incensam suas pinturas, isto é, dão a seus parentes e a outras pessoas os bens do mosteiro, que pertencem aos pobres. Sobre isso não é preciso falar em pormenor. “Certamente” ouviste e “viste, filho do homem, o que fazem os anciãos”, envelhecidos nos dias maus, “nas trevas”, e dizem: “O Senhor não nos vê”; pois eles mesmos estão nas trevas e não veem, e por isso julgam não ser vistos. Aí diz a Glosa de Jerônimo: Se pensássemos que o Senhor está presente, vê tudo e julga tudo, pecaríamos ou muito raramente ou nunca.
8. Segue-se a terceira abominação. E o Senhor me disse: “Voltando-te ainda, verás abominações. E conduziu-me pela porta do átrio do Senhor, que dava para o aquilão. E eis que ali estavam sentadas mulheres que choravam por Adônis. E disse-me: ‘Certamente viste, filho do homem’” (Ez 8,13-15). Aí diz a Glosa de Jerônimo que os hebreus e os sírios chamam Adônis de Tamuz, que se interpreta como belíssimo. Por Tamuz ou Adônis entende-se a prosperidade do mundo, que é amiga de Vênus e da luxúria. As mulheres que choram são todos aqueles que se entristecem pela prosperidade perdida. Ai! Quantos efeminados hoje choram pela prosperidade perdida e pela pobreza não voluntária, e muitas vezes perdem a fé! Com razão estes são chamados vilãos, de villa, aldeia, isto é, servos da terra, escravos do diabo; não pertencem ao nobre sangue de Jesus Cristo, que ordena não somente deixar o que se possui, mas também alegrar-se com o que se perdeu e com a pobreza.
9. Segue-se a quarta abominação. “Voltando-te ainda, verás abominações maiores que estas. E eis que, à entrada do templo, havia cerca de vinte e cinco homens, com as costas voltadas para o templo do Senhor e o rosto para o oriente; e adoravam o nascer do sol. E ele me disse: Certamente viste, filho do homem” (Ez 8,15-17). Ter as costas voltadas para o templo do Senhor significa desprezar o Criador, esquecer-se da morte de Jesus Cristo, deixar de lado a vida eterna. Ter o rosto voltado para o oriente e adorar o nascer do sol significa exultar no esplendor da dignidade, buscar a glória e, para alcançá-la, adorar um homem.
Contra isso diz Mardoqueu, no livro de Ester: “Senhor, que conheces todas as coisas, sabes que não foi por orgulho nem por desprezo que fiz isto, recusando-me a adorar o soberbíssimo Amã. De bom grado, pela salvação de Israel, eu estaria pronto até a beijar as marcas de seus pés; mas temi transferir para um homem a honra devida ao meu Deus e adorar alguém, exceto o meu Deus” (Est 13,12-14). Isso não observam os infelizes ricos deste mundo. A eles diz o Senhor em Lucas: “Ai de vós, ricos, porque já tendes a vossa consolação” (Lc 6,24). Todos os que cometem as abominações acima mencionadas adoecem, juntamente com o filho do funcionário régio em Cafarnaum, da enfermidade da alma, que é mortal. Persista, pois, o funcionário régio nas orações, para que seu filho seja libertado da enfermidade e restituído à saúde. Digne-se conceder-lho aquele que é bendito pelos séculos. Amém.
Segue-se: “Quando ouviu que Jesus vinha da Judeia para a Galileia, foi ter com ele. E rogava-lhe que descesse e curasse seu filho, pois este começava a morrer” (Jo 4,47). Judeia interpreta-se proclamação; Galileia, roda ou volubilidade. Jesus Cristo, portanto, vem da Judeia para a Galileia quando, da vida eterna, na qual há a proclamação do louvor angélico, desce à roda da nossa volubilidade.
10. Sobre isso tens uma concordância em Ezequiel, onde se diz que aquele que estava sentado sobre o trono “disse ao homem vestido de linho: Entra no meio das rodas que estão sob os querubins, enche a tua mão com carvões ardentes que estão entre os querubins e espalha-os sobre a cidade” (Ez 10,2). No linho é designado o Corpo gloriosíssimo de Jesus Cristo, que, tomando-o da terra virginal para cobrir a nossa nudez, com ele se revestiu. A ele disse o Pai: “Entra no meio das rodas”. A roda retorna ao ponto de onde começa e, por isso, significa a natureza humana, à qual foi dito: “Tu és terra e à terra voltarás” (cf. Gn 3,19). O Filho de Deus entrou, portanto, no meio das rodas quando desceu da Judeia para a Galileia, assumindo a natureza humana, aparecendo na terra, vivendo entre os homens (cf. Br 3,38) e sendo encontrado com aspecto de homem (cf. Fl 2,7). Rodas que estão sob os querubins, porque ele foi feito um pouco menor que os anjos (cf. Sl 8,6); e assim encheu a sua mão com carvões ardentes, isto é, com sentenças inflamadas, que estão entre os querubins, isto é, nos dois Testamentos, e espalhou-os sobre a cidade, isto é, sobre a santa Igreja. Ou então espalha carvões ardentes sobre a cidade quando infunde na alma os carvões de seu temor e de seu amor, que desolam a alegria do mundo e da carne, para que ela, inflamada e iluminada, se fortaleça e sare da enfermidade. E, por isso, o funcionário régio, que sabe que seu filho, isto é, sua alma, está enfermo em Cafarnaum, deve ir a ele com a contrição do coração e rogar-lhe com a confissão da boca que cure seu filho, do qual se acrescenta: “Pois começava a morrer”. E observa quão bem disse: “Começava a morrer”; pois é na fartura da carne e na consolação do mundo que começa a morte da alma, e ela se consuma, sem jamais ter fim, na perdição da geena.
Segue-se: “Disse-lhe então Jesus: Se não virdes sinais e prodígios, não credes” (Jo 4,48). Prodígios são assim chamados porque porro dicunt, isto é, falam do que está por vir, ou predizem de longe o futuro. Algo semelhante diz o Senhor a Ezequiel: “Filho do homem, eu te envio aos filhos de Israel, a nações apóstatas, que se afastaram de mim. São incrédulos e rebeldes contigo, e habitas entre escorpiões. Não querem ouvir-te, porque não querem ouvir a mim” (Ez 2,3.6; 3,7).
“Diz-lhe o funcionário régio: Senhor, desce antes que meu filho morra” (Jo 4,49). Diz a Glosa: Como se não pudesse salvá-lo senão estando presente. Por isso o Senhor, mostrando que não está ausente do lugar para o qual é convidado, cura-o somente com uma ordem.
Por isso diz: “Vai, teu filho vive” (Jo 4,50). Daí, em Ezequiel: “Quando estavas no teu sangue, eu te disse: Vive!” (cf. Ez 16,6). “Não quero”, diz ele, “a morte do pecador, mas que se converta e viva” (cf. Ez 33,11). “Porventura é da minha vontade a morte do ímpio?”, diz o Senhor Deus, “e não que se converta e viva? Pois, considerando e afastando-se de todas as suas iniquidades que praticou, ele viverá e não morrerá” (cf. Ez 18,23.28). E por isso se canta no intróito da missa de hoje: “Se observares as iniquidades, Senhor, Senhor, quem poderá subsistir? Pois junto de ti está a propiciação” (Sl 129,3-4), Deus de Israel.
11. A esta primeira parte do Evangelho corresponde a primeira parte da epístola: “Fortalecei-vos no Senhor”, para que não desfaleçais na enfermidade que provém de Cafarnaum, “e no vigor de seu poder”, daquele que disse: “Vai, teu filho vive”; “revesti-vos da armadura de Deus, para que possais permanecer firmes contra as insídias do diabo” (Ef 6,10-11). Considera que todo aquele que quer ser soldado de Deus, revestir-se de sua armadura e permanecer forte contra as insídias do diabo deve ter o cavalo da boa vontade, a sela da humildade, os estribos da constância, as esporas do duplo temor, o freio da temperança, o escudo da fé, a couraça da justiça, o capacete da salvação (cf. Ef 6,15-17) e a lança da caridade. Quem se revestir dessas armas não será atingido pela enfermidade de Cafarnaum. E são necessárias, porque “não é contra a carne e o sangue que temos de lutar”, isto é, somente contra os vícios da carne e do sangue (Ef 6,12), “mas contra os principados”, isto é, os demônios que comandam outros, “e contra as potestades”, isto é, aqueles que têm poder sobre estes, que estão nas trevas dos pecados, “contra os dominadores do mundo”, isto é, dos mundanos, “destas trevas”, isto é, daqueles tenebrosos que os precipitam em obras tenebrosas, ou seja, nas abominações acima mencionadas, que o profeta Ezequiel apresenta, “contra os espíritos da maldade”, isto é, os espíritos malignos, “nos lugares celestes”, isto é, em favor dos bens celestes. Pois eles não lutam por uma coisa pequena, mas para nos arrebatar a herança celeste.
E por isso te rogamos, Senhor Jesus Cristo, que nos livres da enfermidade de Cafarnaum e da quádrupla abominação acima mencionada, para que mereçamos permanecer firmes contra as insídias do diabo e viver contigo na vida celeste. Concede-no-lo tu, que vives e reinas pelos séculos eternos. Amém.
12. Segue-se o segundo. “O homem acreditou na palavra que Jesus lhe dissera e partiu” (Jo 4,50). Aí diz a Glosa: Não vai ao filho do funcionário régio, embora solicitado, para não parecer que honra as riquezas. Promete ir ao servo do centurião, porque não despreza a natureza humana. Nisso destrói a soberba, que nos homens não considera a natureza, mas aquilo que aparece exteriormente; verdadeiramente, não honra as riquezas. Por isso diz em Ezequiel: “A sua prata será lançada fora, e o seu ouro estará no monturo. A sua prata e o seu ouro não poderão livrá-los no dia da ira do Senhor” (Ez 7,19). Isto também pode ser entendido em sentido moral, porque a prata da eloquência e o ouro da sabedoria não livrarão Túlio Cícero e Aristóteles no dia da ira do Senhor, que diz em Jó: “Não o pouparei, nem com palavras poderosas e compostas para suplicar” (Jó 41,3). Observa que primeiro diz “acreditou” e depois “partiu”, porque primeiro vem crer com o coração e depois ir pelas obras.
Por isso, Ezequiel: “Esta era”, diz ele, “a visão que se movia no meio dos animais: o esplendor do fogo, e do fogo saía o relâmpago. E os animais iam e voltavam à semelhança de um relâmpago resplandecente” (Ez 1,13-14). No esplendor do fogo é designada a fé, que ilumina. Daí: “A tua fé te salvou” (Mc 10,52), isto é: iluminou-te. “Que queres que eu te faça?” “Raboni, que eu veja a luz” (cf. Mc 10,51). Desse fogo sai o relâmpago da boa obra; e assim os animais, isto é, os santos, vão à contemplação e retornam à ação, porque não podem permanecer ali por muito tempo por causa da frutificação dos outros; “à semelhança de um relâmpago resplandecente”, porque, por meio deles, que sobem à contemplação e se dedicam às boas obras, a luz celeste é aspergida sobre os outros. Gregório: Então a caridade se eleva maravilhosamente às alturas, quando misericordiosamente se inclina às profundezas do próximo; e, tendo descido bondosamente às coisas inferiores, retorna vigorosamente às mais altas. “O homem acreditou”, portanto, “e partiu”.
13. Segue-se: “Ora, enquanto ele descia, os servos vieram ao seu encontro e anunciaram-lhe, dizendo: ‘Teu filho vive’” (Jo 4,51). Observa estas três coisas: enquanto ele descia; os servos vieram ao seu encontro; o filho vivia. Se desces, os servos vêm ao teu encontro e anuncia-se a vida do filho. É bom, portanto, descer. De onde e para onde? Do monte, sem dúvida, para o vale; da soberba para a humildade. Pois no vale o Senhor apareceu a Abraão (cf. Gn 18,1). “Os vales”, diz, “abundarão de trigo” (Sl 64,14). “Vê”, diz Jeremias, “os teus caminhos no vale” (Jr 2,23). “Todo vale”, diz Isaías, “será preenchido” (cf. Is 40,4; Lc 3,5). “Serão”, diz Ezequiel, “como pombas dos vales” (Ez 7,16). Ora, enquanto ele descia, os servos acorrem. Os servos são os cinco sentidos do corpo, que devem servir à razão. Se desces, os servos vêm ao teu encontro, isto é, obedecem-te. Pois, se o coração é humilde, os sentidos do corpo são obedientes. Da humildade nasce a obediência.
Por isso, Ezequiel diz: “No meio dele”, isto é, no meio do fogo, “havia algo semelhante ao electro” (Ez 1,4). O fogo é a humildade, porque, assim como o fogo abaixa as coisas elevadas e reduz a cinzas as duras, assim a humildade inclina os soberbos e faz os corações endurecidos retornarem àquela palavra: “És cinza e à cinza retornarás” (cf. Gn 3,19). Ó humildade, se inclinaste a cabeça da divindade no seio da pobre Virgem, que há de tão elevado que não possas humilhar? Desse fogo procede o electro da obediência. O electro, diz Gregório, é feito de ouro e prata. Quando, porém, se misturam, a prata cresce em claridade, enquanto o ouro empalidece quanto ao seu fulgor. A prata sonora é a palavra do prelado; o ouro é a consciência pura do bom súdito; quando a palavra do prelado se une a ele, tanto a palavra resplandece pela obediência do súdito, quanto o súdito empalidece pela mortificação da própria vontade.
Por isso, no Salmo: “As asas da pomba são prateadas, e as partes posteriores de suas costas têm a palidez do ouro” (Sl 67,14). A pomba é o bom súdito, cujas asas são as palavras do prelado, que o fazem voar. Com efeito, à palavra do prelado, o súdito deve imediatamente voar com o coração e o corpo, como uma pomba. E os prelados prestem atenção, porque suas palavras devem ser prateadas com a prata da humanidade de Jesus Cristo, que foi unida ao ouro da divindade. Por isso, na figura do electro é designado Cristo, mediador de Deus e dos homens. Pois, enquanto a humanidade cresceu na glória da majestade, a divindade moderou, aos olhos dos homens, o poder de seu próprio fulgor. Prateiem, portanto, os prelados suas palavras com a humildade da humanidade de Jesus Cristo, para que ordenem aos súditos com bondade e afabilidade, com prudência e misericórdia, porque o Senhor não está no vento, nem na comoção, nem no fogo; mas no sussurro de uma brisa suave, ali está o Senhor (cf. 3Rs 19,11-12). E assim as partes posteriores de suas costas, isto é, a vontade e os afetos do súdito, estarão na palidez do ouro, isto é, na mortificação e na pureza. Nas partes posteriores das costas costumamos carregar os fardos; também devemos carregar os fardos da obediência nas costas da paciência. “Sobre minhas costas”, diz o Profeta, “os pecadores construíram” (Sl 128,3). O prelado iníquo constrói sobre as costas, isto é, sobre a paciência do bom súdito. Mas essa construção será para ele uma ruína, enquanto para este se tornará glória. Digamos, portanto: “Enquanto ele descia, os servos vieram ao seu encontro”. Pois da humildade do coração procede o electro, no qual há prata e ouro. Na prata é designada a sonoridade da confissão; no ouro, a pureza dos sentidos do corpo. Eis quantos bens provêm da descida da humildade.
14. Então é anunciada a vida do filho. “Anunciaram-lhe, dizendo que seu filho vivia”. Chama-se vida por causa do vigor, ou porque conserva a força. A vida do corpo é a alma; a vida da alma é Deus, que dá à alma vigor e força, isto é, poder e conhecimento, para que viva; e queira Deus que lhe acrescentemos o querer. Diz-se, na História Natural de Solino, que nas regiões da Índia há certos povos que não necessitam de alimento, mas vivem somente do perfume dos frutos silvestres; e, quando vão mais longe, levam consigo esses mesmos frutos como provisão, para se alimentarem de seu odor. Se por acaso aspirarem um espírito mais repugnante ou fétido, é certo que morrerão.
O odor dos frutos é a vida da alma. Os frutos são a Encarnação e a Paixão de Jesus Cristo, acerca dos quais a Esposa diz no Cântico dos Cânticos: “Guardei para ti os frutos novos e antigos” (Ct 7,13). Frutos novos foram o nascimento da Virgem, a pobreza do Filho de Deus, o envio da nova estrela, a realização dos milagres. Frutos antigos foram os escarros, as bofetadas, o fel e o vinagre, os cravos e a lança, que nos despojaram da antiga velhice, “porque o nosso homem velho”, como diz o Apóstolo, “foi crucificado juntamente com ele” (Rm 6,6). Portanto, quem quer viver, viva do odor desses frutos e, no exílio de sua peregrinação, para não desfalecer pelo caminho, leve consigo esses frutos, a fim de alimentar-se de seu odor.
Por isso, nas Lamentações, diz-se: “O sopro de nossa boca, o Cristo Senhor, foi capturado em nossos pecados; a ele dizíamos: À tua sombra viveremos entre as nações” (Lm 4,20). O Profeta diz no Salmo: “Abri a minha boca e atraí o espírito” (Sl 118,131). Quando abres a boca na confissão e na acusação de ti mesmo, atrais o espírito de Jesus Cristo, que é a vida da alma, para receber a graça. Guarda-te, portanto, de atrair o espírito mais repugnante do mundo, o espírito fétido de Cafarnaum, porque imediatamente incorrerias não apenas na enfermidade, mas também na morte. Cafarnaum interpreta-se “campo de gordura”. A gordura costuma ser causa ou mãe da corrupção; a corrupção, do fedor; e o fedor, da morte. Abre, pois, a tua boca e atrai o espírito de Jesus Cristo, que foi capturado, atado e crucificado por causa dos nossos pecados. À sombra de sua árvore, isto é, da cruz, da qual se diz no Cântico dos Cânticos: “Debaixo da macieira te despertei” (Ct 8,5); e: “Sentei-me à sombra daquele que eu desejava” (Ct 2,3), deves repousar do ardor dos vícios, evitando, sob essa árvore, o sol da prosperidade mundana. E assim viverás entre as nações, isto é, entre as tentações da carne e do diabo, revigorado pelo odor de sua Encarnação e Paixão.
15. Segue-se: “Perguntava-lhes, pois, a hora em que ele havia melhorado. E disseram-lhe: ‘Ontem, à hora sétima, a febre o deixou’” (Jo 4,52). A esse respeito diz a Glosa: Não duvida da misericórdia do Senhor; deseja, porém, que a virtude divina se torne conhecida por muitos mediante o testemunho dos servos. “À hora”, dizem, “sétima”, etc., em figura do Espírito Santo séptuplo, no qual está toda a salvação.
A febre é assim chamada por causa do fervor, e significa a luxúria da carne, cujo calor agita o coração e corrompe a carne. Por isso se diz no livro de Judite que, quando ela entrou na presença de Holofernes, “ele foi imediatamente cativado pelos seus olhos; e seu coração foi abalado, pois ardia em sua concupiscência” (Jt 10,17; 12,16). Primeiro, é cativado pelos olhos. E por isso rezava o Profeta: “Desvia os meus olhos, para que não vejam a vaidade” (Sl 118,37). E no Cântico dos Cânticos: “Desvia os teus olhos, porque eles me fizeram perder o juízo” (Ct 6,4). Diz-se no Gênesis: “Sua senhora lançou os olhos sobre José” (Gn 39,7). As primeiras flechas da luxúria são os olhos. Em segundo lugar, o coração é agitado e, assim, inflama-se com a febre da luxúria. Mas, para que não morra no consentimento da mente ou da ação, “à hora sétima”, isto é, pela graça séptupla do Espírito Santo, ele é iluminado. E então deve crer “ele e toda a sua casa” (Jo 4,53), isto é, juntamente com o corpo e a alma, que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o qual se dignou libertar a alma de tão infeliz febre e o corpo de tão miserável corrupção da luxúria.
16. Com isso concorda a segunda parte do Evangelho com a segunda parte da epístola: “Permanecei firmes, cingidos os vossos rins com a verdade” (Ef 6,14). Os rins são assim chamados por causa da libido. A libido é assim chamada porque agrada, porque dá prazer. Eis a maldita febre que reina nos rins; por isso diz o Apóstolo: “Permanecei firmes, cingidos os vossos rins com a verdade, e revesti-vos da couraça da justiça” (Ef 6,14). Dai a cada um o que lhe é devido por direito, para que, protegidos pela justiça como por uma couraça, não deixeis abertura alguma ao inimigo. “E calçai os pés com a prontidão do evangelho da paz” (Ef 6,15), para que aquele que prega não toque a terra, isto é, não pregue por amor das coisas terrenas. “Em tudo, tomai o escudo da fé” (Ef 6,16): a fé é o escudo sob o qual a justiça está protegida com segurança; “com ele podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno” (Ef 6,16), isto é, todos os ataques do diabo, “inflamados”, isto é, os que incendeiam e arrastam de vício em vício; “e tomai o capacete da salvação” (Ef 6,16-17). O capacete é a salvação eterna, cuja memória envolve a mente, para que não desfaleça; “e a espada do Espírito”, para ferir o inimigo, isto é, aquela que o Espírito Santo dá, “que é a palavra de Deus” (Ef 6,17), isto é, o Evangelho. Todo aquele que se exercitar e se preparar nessas seis coisas, como em seis horas, será libertado da febre da luxúria pela graça sétupla, como que na hora sétima.
Eia, pois, caríssimos irmãos, roguemos ao Senhor Jesus Cristo que nos faça descer do monte da soberba, extinga em nós a febre da luxúria, para que, com os rins cingidos, possamos retornar à saúde e alcançar a vida eterna. Conceda-no-lo aquele que é bendito, louvável e glorioso pelos séculos eternos. Diga toda alma libertada da febre: Amém. Aleluia.