Evangelho do décimo oitavo domingo depois de Pentecostes: “Reunidos os fariseus, Jesus perguntou-lhes”, etc., que se divide em duas partes.
Em primeiro lugar, um sermão sobre a Natividade do Senhor, sobre as quatro estações do ano, sobre as três propriedades do sol, as três da terra e as três do fogo, e seus significados: “Chegou o tempo em que o sol, que antes estava oculto pelas nuvens, começou a resplandecer”.
Depois, um sermão moral aos religiosos sobre o ornamento das virtudes, sobre a natureza e a propriedade do bálsamo — de onde provém e como é obtido —, e sobre como o mel é corrompido pela aranha; e sobre o que significam todas essas coisas e outras a elas relacionadas.
1. Naquele tempo: “Estando reunidos os fariseus, Jesus perguntou-lhes, dizendo: Que pensais do Cristo? De quem é filho? Disseram-lhe: De Davi” (Mt 22,41-42).
Lê-se no segundo livro dos Macabeus: “Chegou o tempo em que o sol, que antes estava encoberto pelas nuvens, começou a resplandecer, e acendeu-se um grande fogo, para admiração de todos” (2Mc 1,22). Observa que, no ano, há quatro estações, a saber: inverno, primavera, verão e outono. O inverno consome, a primavera planta e enxerta, o verão ceifa e debulha, o outono vindima. O inverno durou desde Adão até Moisés; nesse tempo, tudo foi consumido. Por isso, diz o Apóstolo aos Romanos: “A morte reinou desde Adão até Moisés” (Rm 5,14). A primavera durou desde Moisés até Cristo; nesse tempo, a Lei foi, por assim dizer, plantada e enxertada, e nela apareceram apenas flores que prometiam o fruto. O verão foi a Encarnação de Cristo; nesse tempo, o próprio sol, que antes estava encoberto pelas nuvens, isto é, no seio do Pai, começou a resplandecer para nós. Nesse tempo houve a ceifa e a debulha. “Eis”, diz ele em João, “eu vos digo: levantai os olhos e vede os campos, porque já estão brancos para a ceifa. E aquele que ceifa recebe a recompensa e recolhe fruto para a vida eterna” (Jo 4,35-36). E então haverá o outono, no qual, lançadas as uvas no monturo do inferno, o vinho purificado será guardado na adega do reino celeste. Mas é necessário que primeiro preceda a debulha da tribulação, porque se chega à glória por meio do cálice. “Quando chegou a plenitude dos tempos” (Gl 4,4), “o sol, que antes estava encoberto pelas nuvens”, oculto de nós, “começou a resplandecer” para aqueles que estavam sentados na região e na sombra da morte, “e acendeu-se um grande fogo”.
Do qual ele mesmo diz: “Vim lançar fogo sobre a terra; e que quero eu, senão que arda?” (Lc 12,49). E observa que ele diz ter vindo lançar fogo sobre a terra, e não em outro lugar. E com razão! Pois viera curar os contrários com os contrários.
Observa que no fogo há três propriedades: calor, esplendor e leveza. Na terra há três propriedades opostas a estas: frieza, obscuridade e peso. O fogo é o amor de Deus, no qual há três propriedades: o calor da humildade, o esplendor da castidade e a leveza da pobreza. Na terra, isto é, nas coisas terrenas, há três propriedades: a frieza da soberba, a obscuridade da luxúria e o peso da avareza.
Veio, portanto, lançar fogo sobre a terra, porque opôs o calor da humildade à frieza ou ao gelo da soberba — por isso, diz o Salmo: “Enviará a sua palavra”, a saber: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29), “e as derreterá” (Sl 147,18), isto é, os corações dos soberbos —; opôs o esplendor da castidade à obscuridade da luxúria. Por isso, lê-se nos Atos: “O anjo do Senhor apareceu, e uma luz resplandeceu no recinto do cárcere; e, tendo tocado o lado de Pedro, despertou-o, dizendo: Levanta-te depressa, porque as cadeias caíram de tuas mãos” (At 12,7). No anjo, que por natureza é virgem, é significada a graça da castidade, cuja luz ilumina o recinto do cárcere, isto é, o coração do pecador, cegado pelas trevas da luxúria. Cárcere é assim chamado porque repele de todos os lados. Com efeito, o luxurioso repele de si tudo quanto pode extinguir a luxúria. Mas, quando o seu anjo lhe fere o lado com a lança do temor, para dele fazer sair o fluido da libido, então o desperta do sono da morte e o admoesta a levantar-se pela contrição, depressa pela confissão; e então as cadeias dos maus hábitos caem das mãos, isto é, das obras.
Do mesmo modo, opôs a leveza da pobreza ao peso da avareza. Por isso: “Se queres ser perfeito, vai, vende” (Mt 19,21) etc. E Jeremias: “O corredor ligeiro percorre os seus caminhos” (Jr 2,23). O pobre em espírito é um corredor ligeiro, que corre com o gigante de dupla substância [Cristo]. Quanto peso não alivia aquele que nada quer possuir e, por isso, percorre livremente os seus caminhos! Por isso, diz a Sabedoria nos Provérbios: “Mostrar-te-ei o caminho da sabedoria; conduzir-te-ei pelas veredas da equidade”, isto é, da pobreza; “quando entrares nelas, não se estreitarão os teus passos”, isto é, os teus afetos, “e, correndo, não encontrarás tropeço” (Pr 4,11-12).
Diz-se, portanto, muito bem: “Vim lançar fogo sobre a terra”. E, quando o Senhor faz isso, é verdadeiramente uma maravilha aos nossos olhos (cf. Sl 117,23). Digamos, pois: “Chegou o tempo em que o sol, que antes estava encoberto pelas nuvens, começou a resplandecer. Acendeu-se um grande fogo, de modo que todos se admiraram”. Deste sol, isto é, de Jesus Cristo, diz-se no Evangelho de hoje: “Que pensais do Cristo? De quem é filho?”
2. Observa que no Evangelho de hoje há duas partes. A primeira trata do amor de Deus e do próximo; não queremos falar dela neste sermão, porque o assunto já foi tratado no sermão do décimo terceiro domingo depois de Pentecostes, no qual foi exposto o Evangelho: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes”. A segunda parte trata de Cristo, e sobre este assunto queremos fazer algumas considerações. No intróito da Missa de hoje canta-se: “Eu sou a salvação do povo” (cf. Sl 34,3). Lê-se, então, um trecho da Primeira Carta do bem-aventurado Paulo apóstolo aos Coríntios: “Dou continuamente graças ao meu Deus por vós” (1Cor 1,4), que é lido juntamente com este Evangelho precisamente porque tanto no Evangelho como na Carta se fala sobretudo e de modo especial de Cristo.
3. Digamos, portanto: “Estando reunidos os fariseus, Jesus perguntou-lhes, dizendo: Que pensais do Cristo? De quem é filho? Disseram-lhe: De Davi. Disse-lhes: Como então Davi, no Espírito, o chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor” (Mt 22,41-44) etc. Nesta passagem se compendia toda a sublimidade da nossa fé: cremos que o Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, está sentado à direita do Pai, confessando-o como Senhor e filho de Davi: “Senhor”, por ter feito todas as coisas e o próprio Davi; “filho”, por ter sido feito da descendência de Davi, segundo a carne. Os judeus não são repreendidos por dizerem que Cristo é filho de Davi, mas porque não creem que ele é Filho de Deus. O próprio Filho lhes diz: “Como Davi”, no Espírito Santo, e não por seu próprio coração, “o chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor”, isto é, o Pai, “ao meu Senhor”, isto é, ao Filho (Sl 109,1). Dizer isso significa, como afirma a Glosa, gerar um filho igual a si. “Ao Senhor”, não segundo aquilo em que nasceu dele, mas segundo aquilo em que sempre foi do Pai. “Senta-te à minha direita”, isto é, entre os bens mais excelentes, “até que” — usa-se o finito em lugar do infinito — “eu ponha os teus inimigos”, isto é, os desobedientes, “como escabelo de teus pés”, isto é, submeta-os a ti, querendo eles ou não.
O fato de os inimigos serem submetidos pelo Pai não significa a fraqueza do Filho, mas manifesta a unidade da natureza, porque um opera no outro; pois também o Filho submete os inimigos ao Pai (cf. 1Cor 15,27-28), quando glorifica o Pai sobre a terra (cf. Jo 17,4). “Se, portanto, Davi o chama Senhor, como é seu filho?” (Mt 22,45). É como se dissesse: Vós pensais que Cristo será um simples homem; portanto, quando Davi existia, Cristo ainda não existia, nem, consequentemente, era o Senhor de Davi. Davi mentiu, então? Pois antes são e são chamados senhores dos filhos os pais, do que os filhos, senhores de seus pais. Abominando, portanto, a perfídia da perversidade judaica, confessemos com Pedro, dizendo: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16), aquele que, como diz Habacuc, saiu para a salvação do seu povo com o seu Cristo (cf. Hab 3,13).
4. Por isso, o próprio Cristo diz no introito da missa de hoje: “Eu sou a salvação do povo” (cf. Sl 34,3). “Quando clamarem a mim em qualquer tribulação, eu os ouvirei” (cf. Sl 90,15), “e serei para eles o Senhor eternamente” (cf. Sb 3,8). Vede como o introito da missa concorda perfeitamente com a história dos Macabeus, na qual se mostra claramente como o Senhor foi a salvação daquele povo, como os ouviu e os ajudou em toda a sua tribulação. Notai estas três coisas: salvação do povo, eu os ouvirei e serei para eles o Senhor.
Na epístola de hoje há três expressões concordantes com estas. A primeira, quando o Apóstolo diz: “Dou graças ao meu Deus pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus” (1Cor 1,4), aquele que diz: “Eu sou a salvação do povo”; pois somente pela graça salvou o seu povo dos pecados deles (cf. Mt 1,21). A segunda, quando acrescenta: “Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em toda ciência” (1Cor 1,5), isto é: “Quando clamarem a mim em qualquer tribulação, eu os ouvirei”. Notai estas três palavras: tribulação, clamarão, ouvirei. Se, na tribulação, isto é, com o coração atribulado ou contrito, clamares na confissão, ele te ouvirá, concedendo-te a remissão. Portanto, em toda palavra de uma confissão completa e em toda obra de perfeita satisfação, fostes enriquecidos nele, porque vos tornastes pobres e humildes em vós mesmos. As riquezas da alma são a remissão dos pecados e a infusão da graça. A terceira, quando acrescenta: “Enquanto aguardais a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, que também vos confirmará até o fim” (1Cor 1,7-8), isto é: “E serei para eles o Senhor eternamente”.
Roguemos, portanto, caríssimos irmãos, ao próprio Senhor Jesus Cristo, em cuja mão, perfurada pelos cravos na cruz, está, como se diz no Gênesis, a nossa salvação (cf. Gn 47,25), para que nos salve do ataque dos inimigos, nos ouça concedendo-nos a remissão dos pecados e nos confirme até o fim, a fim de que mereçamos chegar até ele, o Senhor que está sentado à direita de Deus Pai. Ele mesmo o conceda, aquele que é bendito. Amém.
5. “Que vos parece do Cristo? De quem é filho?” Responderam-lhe: “De Davi”.
Lê-se no primeiro livro dos Macabeus: “Ornaram a fachada do templo com coroas de ouro e dedicaram o altar ao Senhor” (1Mc 4,57). Vejamos o que significam o templo, a sua fachada, as coroas de ouro, o altar e a sua dedicação. Templo deriva de contemplação, ou pode ser entendido como um amplo teto. O Apóstolo diz: “Santo é o templo de Deus, que sois vós” (1Cor 3,17). Nós somos templo de Deus e santos se realizarmos em nós aquelas três coisas, isto é, se formos contemplativos, teto e amplos. “Contemplativos” em relação a Deus, pela renúncia às coisas temporais. Por isso, diz o Apóstolo: “Contemplando nós não as coisas que se veem, mas as que não se veem” (2Cor 4,48). “Teto” em relação a nós, pela mortificação da carne. Por isso, em Mateus: “Quem”, diz ele, “está no teto não desça para pegar alguma coisa de sua casa” (Mt 24,17). A Glosa diz ali: Quem superou a carne não volte em espírito a certos atos de sua conduta anterior, isto é, não se incline à carne por afeto algum. “Amplo” em relação ao próximo, pela compaixão para com ele. Amplo é assim chamado, como se dissesse: mais de ambas as partes. Deves empenhar-te mais de ambas as partes, isto é, na contemplação de Deus e na compaixão pelo próximo, do que em relação à tua própria carne. Se formos um tal templo, seremos verdadeiramente santos. “Ornaram”, portanto, “a fachada do templo”.
Fachada é assim chamada porque torna o homem reconhecível; ela significa as nossas obras, das quais o Senhor diz: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16). A coroa de ouro na fachada do templo é a intenção pura em nossa obra. Ornemos, portanto, as nossas obras com coroas de ouro da reta intenção, juntamente com os verdadeiros Macabeus, e não com a maquiagem da prostituta Jezabel, da qual se diz no quarto livro dos Reis que “pintou os olhos com antimônio, ornou a cabeça e olhou pela janela” (4Rs 9,30). Notai estas três coisas. Jezabel interpreta-se “esterquilínio”. Esterquilínio é um lugar cheio de esterco, assim chamado porque é revestido, isto é, manchado de esterco; e significa o hipócrita, que se reveste do esterco da vanglória e, por isso, para ele acorrem as moscas moribundas, que destroem a suavidade do perfume. O antimônio é alvaiade ou uma cor azul, com que as mulheres adornam as sobrancelhas, e significa o louvor do povo, com que o hipócrita pinta os seus olhos. Com efeito, quando é louvado pelo povo, seus olhos riem e seu rosto se alegra. Ele adorna a cabeça quando louva as próprias boas obras e, assim, olha pela janela, para ver e ser visto. Vem para ser admirado e para que ele mesmo seja admirado (Ovídio). Peço-vos: ornemos a fachada do templo não com o adorno do antimônio, mas com coroas de ouro.
Segue-se: “E dedicaram o altar ao Senhor”. Dedicar significa dar a Deus. Altar, como quem diz alta ara, é o nosso coração, que deve ser alto pelo amor e ara pela contrição; e assim o dedicaremos, isto é, o daremos a Deus, que diz nos Provérbios: “Filho, dá-me o teu coração” (cf. Pr 23,26). Portanto, quem dá o seu coração a Deus é verdadeiramente um cristo, isto é, ungido pela graça, e filho de Davi. Por isso se diz no evangelho de hoje: “Que vos parece do Cristo? De quem é filho?” Responderam: “De Davi”. Sobre estas duas palavras, isto é, “Cristo” e “Davi”, queremos fazer algumas breves considerações morais.
6. Cristo é assim chamado por causa do crisma. O crisma é feito de bálsamo e óleo. O bálsamo é uma árvore semelhante à videira e, como a videira, precisa ser sustentada. Eleva-se por dois côvados, distinguindo-se por sua copa sempre verde. É inciso com vidro ou com pequenas facas de osso, porque o contato com o ferro lhe é nocivo e, sem demora, morre. Emite gotas de extraordinário perfume. A maior graça é devida à lágrima, a segunda à semente, a terceira à casca, e a menor à madeira. Conserva a juventude e afasta a putrefação. Sua gota, misturada com mel, é adulterada; mas prova-se que está sem mel se, misturada com leite, coagula. Quando o sol arde em toda a sua pureza, não pode ser sustentado na mão. Detenhamo-nos em cada uma dessas coisas e delas façamos uma breve consideração.
A árvore do bálsamo é a vida do homem justo, que é e deve ser semelhante à videira e, como a videira, deve ser sustentada. Com efeito, a videira é cavada ao redor, podada e sustentada por estacas. Assim, o justo cava em torno de sua vida com a enxada da compunção, poda-a com a foice da confissão e sustenta-a com as estacas da satisfação. Sobre o primeiro ponto, lê-se em Lucas: “Deixa-a ainda este ano, e eu cavarei ao redor dela e lançarei adubo” (cf. Lc 13,8). Sobre o segundo, no Cântico dos Cânticos: “Chegou”, diz, “o tempo da poda; a voz da rola”, isto é, a confissão do penitente, “foi ouvida em nossa terra” (Ct 2,12). [Sobre o terceiro:] Estaca é chamada uma pequena vara, na qual se designa a humildade da satisfação, pela qual a vida do justo é sustentada; a seu respeito o Senhor diz em Isaías: “Cravá-lo-ei como estaca no lugar dos fiéis” (Is 22,23). A estaca é cravada no lugar dos fiéis quando, na santa Igreja, a vida do justo é conservada pela humildade.
Eleva-se por dois côvados. Os dois côvados são os dois preceitos da caridade, pelos quais a vida do justo é elevada acima das coisas terrenas. Sobre o primeiro côvado, isto é, o amor de Deus, diz o Senhor no Gênesis a Noé: “Farás uma janela na arca, e completarás o seu remate num côvado” (Gn 6,16). A arca, assim chamada porque afasta o ladrão ou o olhar, é a vida do justo, que afasta de si todo vício. A janela, assim chamada como que ‘levando para fora’, é a devoção da mente, pela qual sai e entra a pomba, isto é, a alma. Sai, digo, para contemplar Deus; entra para considerar a si mesma. Portanto, a janela na arca é a devoção na vida do justo, que se completa num côvado, isto é, na caridade de Deus. “Bem-aventurados”, diz João no Apocalipse, “os que morrem no Senhor” (Ap 14,13); e Estêvão “adormeceu no Senhor” (At 7,60). Do mesmo modo, sobre o segundo côvado, isto é, a caridade para com o próximo, foi ordenado a Moisés que se fizesse no altar uma cavidade de um côvado (cf. Ez 43,13). A cavidade de um côvado no altar é a compaixão pelo próximo no coração do justo.
Distingue-se por sua copa sempre verde, na qual é designada a perseverança do justo, a respeito da qual Jó diz: “A árvore, ao odor da água, brotará e produzirá copa” (Jó 14,7.9). Odor deriva de ar. Com efeito, que é o odor senão ar aspirado? O odor é a infusão da graça; quando a aspiras, emites o germe da boa obra e assim produzes a copa da perseverança.
É inciso com vidro ou com pequenas facas de osso, porque o contato com o ferro lhe é nocivo e, sem demora, morre. No vidro é designada a transparência da bem-aventurança eterna. Por isso, João diz no Apocalipse: “A cidade de Jerusalém era de ouro puro, semelhante a vidro límpido” (cf. Ap 21,18). No vidro, qualquer líquido nele contido mostra-se exteriormente tal como é. Assim, no ouro e no vidro recebemos, na pátria celeste, a sociedade dos santos, que resplandecerão com o fulgor da bem-aventurança, e a corporeidade dos membros não ocultará aos olhos de um a mente do outro. Pois aqueles que veem a glória de Deus nada que se faça na criação de Deus deixarão de poder ver. Nos ossos dos santos são designados os exemplos que sustentam nossa fragilidade, assim como os ossos sustentam a carne. Portanto, a árvore do bálsamo é incisada com vidro ou com pequenas facas de osso quando a vida ou a mente do justo se abre à compunção pelo desejo da claridade eterna ou pelo exemplo dos santos. Mas, se é ferida pelo contato do ferro, isto é, do pecado mortal, morre imediatamente, porque “a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18,4.20).
Emite gotas de extraordinário perfume. É chamado extraordinário porque é muito elevado; nisso é designado o perfume da vida santa, que se difunde ao redor. Por isso, diz o Apóstolo: “Somos o bom perfume de Cristo diante de Deus em todo lugar” (cf. 2Cor 2,14-15). E no Eclesiástico: “Meu perfume é como bálsamo não misturado” (Eclo 24,21). O perfume da vida do hipócrita é bálsamo misturado, isto é, corrompido, porque exteriormente aparece a santidade, mas interiormente se oculta a iniquidade. O perfume do justo, porém, é bálsamo não misturado, porque a pureza da consciência concorda com o perfume da boa reputação.
Segue-se: A maior graça é devida à lágrima, a segunda à semente, a terceira à casca, e a menor à madeira. Observa estas quatro coisas: na lágrima do bálsamo, a suavidade da contemplação; na semente, a palavra da pregação; na casca, a aspereza da penitência; e na madeira é designado este corpo mortal. Sobre a primeira, diz-se no livro dos Juízes que Axa, sentada sobre uma jumenta, chorou por uma fonte superior (cf. Jz 1,14-15). Isso acontece quando a alma, reprimindo a carne, se aplica à suavidade da contemplação com o desejo de uma mente devota. Sobre a segunda, em Lucas: “Saiu o semeador a semear a sua semente” (Lc 8,5). Sobre a terceira: casca é assim chamada como que ‘cobrindo o couro’; e a aspereza da penitência cobre os pecados. Por isso: “Bem-aventurados aqueles cujos pecados foram cobertos” (Sl 31,1). Sobre a quarta, Jó: “A árvore tem esperança: se for cortada, tornará a reverdecer” (Jó 14,7). Assim, o homem tem e deve ter a esperança de que a madeira, isto é, seu corpo, depois de ser cortada pelo machado da morte, tornará a reverdecer na ressurreição geral. A essa madeira é devida a menor graça e quase nenhum cuidado, como a um servo inútil. À casca, porém, isto é, à penitência, é devida grande graça, porque ela realiza grandes coisas. À semente da pregação é devida uma graça maior, porque por meio dela se chega à casca. À lágrima da contemplação, por sua vez, é devida a maior e principal graça, porque nela se encontra a maior e principal suavidade.
Conserva a juventude. A suavidade da vida contemplativa conserva a alma na juventude da graça. Por isso: “Renovar-se-á como a da águia a tua juventude” (Sl 102,5).
Afasta a putrefação. Com efeito, a mente que é ungida por essa suavidade conserva-se incorruptível diante do consentimento ao pecado. Em sentido contrário, diz o Senhor por Jeremias: “Farei apodrecer o orgulho de Judá e o orgulho de Jerusalém” (Jr 13,9), isto é, dos clérigos e dos leigos.
Sua gota, misturada com mel, é adulterada; mas prova-se que está sem mel se, misturada com leite, coagula. A suavidade da contemplação é corrompida por uma espécie de adultério quando se mistura a ela o mel das coisas temporais.
7. Lê-se no livro das Coisas Naturais que nos favos de mel nasce a aranha, e corrompe-se aquilo que está nos favos. E nas colmeias das abelhas nascem pequenos vermes, aos quais depois surgem pequenas asas, e voam. A aranha é assim chamada porque estende fios no ar. Na doçura temporal nasce a aranha, isto é, o orgulho venenoso, que estende fios no ar, porque anda em coisas maravilhosas, acima de si (cf. Sl 130,1); e nascem os vermes, isto é, a gula e a luxúria, que fazem o homem voar para desejar as coisas alheias. Não é, portanto, de admirar que, com essa mistura, se adultere o bálsamo da vida contemplativa ou da pureza de consciência. Da convivência formam-se os costumes, e a uva sã contrai o bolor da uva estragada que está junto dela. Nisto provarás que estás sem o mel da doçura transitória: se, misturado com o leite da Encarnação do Senhor, fores coagulado, isto é, constrangido, pelo espírito de pobreza. O pão dos anjos, diz Agostinho, tornou-se leite dos pequeninos, para que por ele fossem alimentados os pequeninos.
Não se pode sustentar o bálsamo na mão nua, exposta ao ardor do sol. O bálsamo na mão simboliza a pureza de consciência no agir. Quando o sol ardente do amor divino ilumina e inflama a mente do justo e lhe mostra como ele é, desfalece toda ação, toda virtude. Por isso diz Daniel: “Tive uma grande visão, e não restou em mim vigor; também o meu aspecto se alterou em mim, e desfaleci, e não conservei força alguma” (Dn 10,8). Quando o sol da graça se une ao bálsamo da pura consciência, não permanece no justo confiança alguma na própria obra. Este é o bálsamo “mais precioso que o ouro e o topázio” (Sl 118,127). Quem dera viesse a rainha de Sabá e nos desse ao menos uma pequena raiz de bálsamo, da qual plantássemos para nós uma vinha balsâmica! Refere Josefo que a rainha de Sabá, quando veio ouvir a sabedoria de Salomão, deu-lhe uma raiz de bálsamo, da qual se originaram e se multiplicaram as vinhas balsâmicas de Engadi.
8. Deste bálsamo, portanto, misturado com o óleo da misericórdia, forma-se o crisma, com o qual o justo é ungido e se torna cristo e filho de Davi; dele se diz: “Que vos parece do Cristo, de quem é filho?” Responderam-lhe: “De Davi”. Verdadeiramente, o justo ungido com o crisma, formado de bálsamo e óleo, é filho de Davi. Davi interpreta-se como “de mão forte” ou “belo de aspecto” (cf. 1Rs 16,12).
O pugilista que vai lutar contra um adversário costuma ungir a cabeça; assim o justo é ungido com o bálsamo e o óleo acima mencionados, para se tornar forte de mão, isto é, na obra, e assim derrubar o inimigo, o diabo; e desse modo será, no presente, filho de Davi, isto é, da fortaleza, e depois, no futuro, será filho da glória, na qual será belo de aspecto, porque contemplará face a face aquele para o qual os anjos desejam olhar (cf. 1Pd 1,12).
À glória dessa beleza, o próprio Jesus Cristo, filho de Davi, se digne conduzir-nos; ele que, com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.