Evangelho do décimo nono domingo depois de Pentecostes: “Jesus, subindo para uma barca”, que se divide em três partes.
Primeiro, o tema do sermão é a prerrogativa da graça espiritual que o Senhor confere ao pregador, e a sua santa conduta, ali: “Antíoco, o jovem”.
[da primeira parte]. Também sobre a cruz de Cristo, ali: “Jesus, subindo para uma barca”.
Também sobre a descida, ali: “Desce”.
Também sobre a subida e a renovação da alma, ali: “Subamos agora para purificar o santuário”.
Também sobre as quatro coisas necessárias para o governo da barca e seu significado, ali: “Observa que, para o governo”.
[da segunda parte]. Tema sobre os cinco modos pelos quais sobrevêm as enfermidades, ali: “Ofereciam-lhe um paralítico”.
Também tema do sermão contra os deleites da carne, ali: “Entrelacei com cordas o meu leito”.
Também sobre os quatro que carregam o paralítico e seu significado, e sobre o teto quádruplo, ali: “E eis que lhe ofereciam”.
Também sobre a fé, ali: “Vendo Jesus a fé”.
[da terceira parte]. Tema do sermão sobre os cinco filhos de Matatias e seu significado, ali: “Levanta-te, toma o teu leito”.
Também tema do sermão sobre a aflição da carne e a repressão dos sentidos, ali: “Davi feriu os filisteus”.
1. Naquele tempo: “Jesus, subindo para uma barca, atravessou e chegou à sua cidade” (Mt 9,1).
Lê-se no primeiro livro dos Macabeus que o jovem Antíoco “concedeu” a Jônatas “a faculdade de beber em vasos de ouro, de vestir-se de púrpura e de possuir uma fíbula de ouro” (1Mc 11,58). Vejamos o que significam Antíoco, Jônatas, o ouro, a púrpura e a fíbula de ouro.
Antíoco interpreta-se como pobre silencioso e, neste lugar, significa Jesus Cristo, que foi pobre e silencioso. Observa estas duas palavras. Foi pobre, porque não teve onde reclinar a cabeça (cf. Mt 8,20; Lc 9,58), a não ser onde, “inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30); silencioso, porque foi levado à morte como uma ovelha e, enquanto era maltratado, não abriu a boca (cf. Is 53,7). Por isso, Jeremias diz: “Da boca do Altíssimo não sairão nem os bens nem os males” (Lm 3,38).
Jônatas interpreta-se como dom da pomba e significa o pregador, que recebeu da pomba, isto é, do Espírito Santo, o dom de convidar os pecadores ao gemido da penitência, como a pomba. Por isso, Jônatas diz a Davi, no primeiro livro dos Reis: “Se eu disser ao rapaz: ‘Eis que as flechas estão aquém de ti; toma-as; vem a mim, porque há paz para ti e nenhum mal existe; viva o Senhor!’. Mas, se eu falar assim ao rapaz: ‘Eis que as flechas estão além de ti; vai em paz, porque o Senhor te despediu’” (1Rs 20,22). Observa que há três flechas: o temor da separação, pelo qual a alma teme ser separada de Deus; a dor da confissão; o fervor do amor. Essas flechas, lançadas pelo arco da pregação, ferem a alma para que ela produza gemidos e pranto. Mas, se essas flechas estão além do rapaz, isto é, além da compreensão infantil, não há salvação para Davi. Se, porém, estão diante do rapaz, para que ele veja as flechas, há salvação para Davi e nenhum mal: “Viva o Senhor!”
A este Jônatas, portanto, Cristo concede a faculdade de beber em vasos de ouro, de estar na púrpura e de possuir uma fíbula de ouro. No ouro é designada a claridade da sabedoria; na púrpura, o sangue da Paixão do Senhor; e na fíbula de ouro, a contenção da própria vontade.
Feliz o pregador a quem foi concedida a faculdade de beber em vasos de ouro! A muitos hoje foi concedida a faculdade de possuir ouro, mas não de beber no ouro. Bebe no ouro aquele que, da claridade da sabedoria que recebeu, primeiro se sacia a si mesmo e depois a oferece aos outros. Por isso, no Gênesis, Rebeca disse ao servo de Abraão: “Bebe, senhor, e também darei de beber aos teus camelos” (Gn 24,14). É isso que a sabedoria diz ao pregador: “Bebe, senhor”. Chama-o de senhor, porque a autoridade lhe foi concedida por Jesus Cristo. Por isso, no Gênesis: “Estarás sob o poder do homem, e ele te dominará” (Gn 3,16). Feliz aquele que domina a sabedoria que lhe foi dada. Domina a sabedoria aquele que não a atribui a si mesmo, mas a Deus, e que vive segundo aquilo que prega. “Bebe”, portanto, “senhor, e depois darei de beber aos teus camelos”, isto é, aos teus ouvintes.
É isso que o Senhor diz em João: “Tirai agora e levai ao mestre-sala” (Jo 2,8). Mestre-sala deriva de “archos”, que significa príncipe, e “clinos”, que significa leito; daí, mestre-sala, isto é, príncipe de três leitos. Com efeito, costumavam comer reclinados em leitos. Na Igreja há três leitos, isto é, três ordens, nos quais, como num leito, repousa o Senhor: os casados, os continentes e as virgens. Destes é príncipe o prelado ou o pregador; por isso, deve beber primeiro e depois oferecer aos que estão à mesa. “Concedeu”, portanto, “Antíoco a Jônatas a faculdade de beber em vasos de ouro”.
Segue-se: “E estar na púrpura”. Está na púrpura aquele pregador que, com Paulo, o eminente pregador, traz em seu corpo as marcas de Jesus Cristo (cf. Gl 6,17). Por isso, no Cântico dos Cânticos: “A púrpura do rei unida aos canais” (Ct 7,5). Canal é assim chamado por ser côncavo e significa a humildade do coração. Portanto, “aos canais”, isto é, aos pregadores humildes, por meio dos quais flui a água da doutrina para irrigar os canteiros de aromas, isto é, as almas dos fiéis, “a púrpura do rei”, isto é, a Paixão de Jesus Cristo, “está unida”, isto é, ligada juntamente. Com efeito, nada deve existir entre a vida do pregador e a Paixão de Cristo, para que ele possa dizer com o Apóstolo: “Para mim o mundo está crucificado, e eu para o mundo!” (Gl 6,14).
Segue-se: “E possuir uma fíbula de ouro”. Fíbula é assim chamada porque liga; significa a contenção da própria vontade, que é justamente chamada de ouro, porque dela procede a pureza da alma e do corpo. Com esta fíbula o pregador deve ser ligado, para que possa dizer com o Apóstolo, na segunda epístola a Timóteo: “No Evangelho sofro até os grilhões, mas a palavra de Deus não está algemada” (2Tm 2,9). Quando a vontade própria do pregador é ligada, então a palavra do Senhor é solta em sua boca, para que corra livremente aos corações dos ouvintes. Se, portanto, o prelado ou o pregador da Igreja beber no ouro da sabedoria, estiver na púrpura da Paixão do Senhor e ligar a própria vontade com a fíbula de ouro, poderá verdadeiramente subir com Jesus para a barca, atravessar e chegar à sua cidade. Por isso se diz no Evangelho de hoje: “Jesus, subindo para uma barca”, etc.
2. Observa que neste evangelho se destacam três coisas. Primeiro: a subida de Jesus Cristo à barca, quando se diz: “Jesus, subindo”. Segundo: a apresentação do paralítico, quando se acrescenta: “E eis que lhe apresentavam”. Terceiro: a cura do próprio paralítico, quando se prossegue: “Levanta-te, toma o teu leito”, etc. No intróito da missa de hoje canta-se: “Tudo o que fizeste conosco, Senhor” (Dn 3,27). E lê-se a epístola do bem-aventurado Paulo aos Efésios: “Renovai-vos no espírito da vossa mente”. Queremos dividi-la em três partes e concordá-las com as três frases do evangelho. A primeira é: “Renovai-vos”. A segunda: “Despojando-vos da mentira”. A terceira: “Aquele que furtava”, etc. Observa que a cura do paralítico, a renovação da mente e o abandono da mentira significam a mesma coisa; por isso esta epístola é lida juntamente com este evangelho.
3. Digamos, portanto: “Jesus, subindo numa barca, atravessou e chegou à sua cidade”.
Em sentido alegórico, a barca é a cruz, sobre a qual Jesus subiu. Por isso também disse: “Quando eu for elevado da terra, atrairei tudo a mim” (Jo 13,32), por assim dizer, com o anzol da cruz. A esse respeito, lê-se no profeta Amós: “Que vês, Amós? E eu disse: Vejo um anzol para colher frutos. E o Senhor me disse: Chegou o fim para o meu povo, Israel; não tornarei a passar por ele” (Am 8,2). Observa que nos frutos há três coisas: sabor, cor e odor. Os frutos são os homens justos, nos quais há o sabor da contemplação, a cor da santidade e o odor da boa reputação. Todos os dias o Senhor atrai para si esses frutos com o anzol da sua cruz; quando subiu à cruz, chegou para nós o fim, porque terminou a nossa miséria; ele não nos ultrapassou, mas, antes, nós passamos com ele para a glória. E é isto: “Atravessou e chegou à sua cidade”. Por isso, João diz: “Sabendo”, diz ele, “Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai” (Jo 13,1). É isto que se diz no Salmo: “Bebeu da torrente no caminho; por isso elevou a cabeça” (Sl 109,7). Bebeu da torrente da Paixão, no caminho da sua peregrinação, e por isso elevou a cabeça, que antes inclinara na cruz, quando entregou o espírito.
4. Moralmente. Observa. Vejamos o que significam estas quatro palavras: subindo, barca, atravessou e cidade. Quem quer subir, necessariamente deve primeiro descer. Por isso o Apóstolo diz de Cristo: “Ora, o que significa ‘subiu’, senão que primeiro desceu às regiões inferiores da terra?” (Ef 4,9). E de que modo deves descer, mostra-to Isaías: “Desce”, diz ele, “senta-te no pó, virgem filha da Babilônia” (Is 47,1). Observa cada palavra. Ó alma pecadora, que és chamada virgem por causa da esterilidade das boas obras, filha por causa de tua efeminação, Babilônia por causa da confusão do pecado, desce da exaltação de teu coração, senta-te por meio da humildade, no pó pela consideração de tua própria baixeza. Estas são as regiões inferiores da terra; se primeiro desceres para considerá-las, depois poderás subir.
Por isso se diz no Gênesis que Abraão subiu do Egito com tudo o que possuía, dirigindo-se para o sul (cf. Gn 13,1). O mesmo encontras mais adiante: “Jacó, tendo convocado toda a sua família, disse: Levantai-vos e subamos a Betel” (Gn 35,2-3). Abraão e Jacó representam o penitente, que sobe do Egito, isto é, das trevas de sua miséria, com toda a sua família, isto é, com os pensamentos e afetos da mente, dos quais nada deve permanecer no Egito. Com efeito, deves subir inteiramente para o sul, isto é, para a contrição da mente, que é Betel, isto é, a casa de Deus, a casa em que Deus habita. Por isso Isaías diz: “O Excelso e Sublime, que habita a eternidade”, habita “com o espírito contrito e humilde” (Is 57,15). Sobre isto, procura no Evangelho: “Jesus foi conduzido ao deserto” (“Domingo I da Quaresma”).
5. Sobre isso, tens uma concordância no primeiro livro dos Macabeus, onde Judas Macabeu diz: “Subamos agora para purificar o santuário e renová-lo”. E reuniu-se todo o exército, e subiram ao monte Sião. E viram o santuário abandonado, o altar profanado, as portas queimadas, e nos pátios haviam nascido arbustos, como num bosque e nas montanhas, e os aposentos sagrados destruídos. E rasgaram suas vestes, e choraram com grande pranto, e puseram cinza sobre a cabeça, e caíram com o rosto por terra” (1Mc 4,36-40). Nesta passagem compreende-se como a alma é destruída e como é reedificada. Judas, isto é, o penitente, tendo reunido todo o exército, isto é, dos pensamentos e afetos, deve subir ao monte Sião, que se interpreta como torre de vigia, isto é, à sua mente, a partir da qual pode contemplar o oriente de seu nascimento, o ocidente de sua morte, o norte de sua adversidade e o sul da prosperidade mundana. O primeiro, para humilhar-se; o segundo, para chorar; o terceiro, para manter-se forte; o quarto, para não se exaltar.
E porque o homem reconhece os bens que perdeu quando primeiro considera corretamente os males que cometeu, por isso segue-se: “E viram o santuário abandonado” etc. O santuário está abandonado quando a alma, santificada pela água do Batismo, peca mortalmente e assim se torna deserta da graça do Espírito Santo. O altar é profanado quando a fé é destruída. As portas são queimadas quando os sentidos do corpo são dissipados pelo fogo da concupiscência. Nos pátios nascem arbustos quando no coração se gera uma multidão de pensamentos supérfluos. Os aposentos sagrados, em grego chamados pastofórios, são os quartos ou câmaras onde os levitas vigiavam nos pátios da casa do Senhor, dos quais se faz menção na última visão de Ezequiel (cf. Ez 40,45-46). Os pastofórios, portanto, são destruídos quando os recônditos secretos da mente são dilacerados por desejos ilícitos. Eis como a alma é destruída; vejamos, porém, como é reedificada.
“Rasgaram suas vestes” etc. Observa estas quatro coisas: rasgaram, choraram, puseram e caíram. No rasgar das vestes, a contrição do coração; no pranto, a confissão banhada em lágrimas; na imposição da cinza sobre a cabeça, a humilde satisfação; na queda com o rosto por terra, a lembrança da dissolução final. Por isso foi dito ao primeiro homem: “Tu és terra e à terra irás” (cf. Gn 3,19). Quem assim sobe com Judas ao monte Sião para purificar e renovar o santuário sobe verdadeiramente com Jesus para a barca.
6. Observa também que, para o governo de uma barca, são necessários pelo menos quatro instrumentos: o mastro, a vela, os remos e a âncora. No mastro é simbolizada a contrição do coração; na vela, a confissão da boca: assim como a vela deve estar atada ao mastro, assim a confissão deve estar unida à contrição; nos remos são simbolizadas as obras de satisfação, isto é, o jejum, a oração e a esmola; na âncora é designada a lembrança da morte. Com efeito, assim como a âncora retém a nave, para que não mergulhe entre os rochedos, assim a lembrança da morte retém a nossa vida, para que não caia nos pecados. Por isso, diz Salomão: “Lembra-te dos teus últimos dias, e jamais pecarás” (Eclo 7,40). Portanto, quem deseja atravessar da margem desta mortalidade até a margem da imortalidade, isto é, chegar à cidade da Jerusalém celeste, suba em tal barca da penitência.
Por isso, à primeira cláusula concorda a primeira parte da epístola: “Renovai-vos no espírito da vossa mente e revesti-vos do homem novo, que foi criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade” (Ef 4,23-24). Eis que aqui tens como o monte de Sião é purificado e novamente consagrado. “Subiu”, diz ele, “Judas para purificar e renovar as coisas santas.” E o Apóstolo diz: “Renovai-vos no espírito da vossa mente”, na contrição do coração, “e revesti-vos do homem novo”, na confissão da boca, “que foi criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade”, isto é, na satisfação pelas obras; e assim poderás subir à barca e chegar à cidade da glória celeste. Conduza-nos a ela aquele que subiu à barca da cruz e, no terceiro dia, ressuscitou como homem novo; a ele sejam a honra e a glória pelos séculos eternos. Amém.
7. Segue-se o segundo. “E eis que lhe ofereciam um paralítico deitado num leito. Vendo Jesus a fé deles, disse ao paralítico: Tem confiança, filho, teus pecados te são perdoados” (Mt 9,2). Observa, como diz a Glosa, que às vezes as enfermidades acontecem por causa dos pecados e, por isso, estes são perdoados primeiro, para que a saúde seja restituída. As enfermidades acontecem de cinco modos: ou para que os méritos dos justos aumentem pela paciência, como no caso de Jó; ou para guardar as virtudes, para que a soberba não tente, como no caso de Paulo; ou para corrigir os pecados, como a lepra da irmã de Moisés, Maria, e como no caso deste paralítico; ou para a glória de Deus, como no caso do cego de nascença e de Lázaro; ou para início da pena eterna, como no caso de Herodes, para que se veja aqui o que depois haverá no inferno. Por isso Jeremias: “Castiga-os, Senhor, com dupla punição” (Jr 17,18). Vejamos o que significam moralmente o paralítico, o leito e aqueles que o oferecem. A paralisia recebeu esse nome por ocupar a metade do corpo; se ocupasse todas as partes, indicaria a apoplexia. Ou, melhor, é assim chamada por causa da afecção do corpo, produzida por um grande resfriamento, seja em todo o corpo, seja em parte dele. A paralisia é a dissolução dos membros e significa o prazer da carne, que é como um leito no qual o paralítico, isto é, a alma, jaz dissolvida. Por isso Jeremias: “Até quando te dissolverás nos prazeres, filha errante?” (Jr 31,22). Quando a carne se dissolve pelos prazeres, a alma, como um paralítico, jaz dissolvida na lassidão da carne.
8. A respeito deste leito, diz a prostituta no livro dos Provérbios de Salomão: “Preparei o meu leito com cordas, estendi sobre ele cobertas bordadas do Egito; perfumei o meu leito com mirra, aloés e canela. Vem, embriaguemo-nos com os seios, gozemos os desejados abraços até que amanheça o dia” (Pr 7,16-18). O leito, isto é, o prazer carnal, é sustentado pelas cordas dos pecados; é coberto com cobertas bordadas, isto é, com os vários prazeres que vêm do Egito, ou seja, das trevas da consciência. E, porque o riso se mistura à dor, e o prazer à amargura, acrescenta-se: “Perfumei o meu leito com mirra, aloés e canela.” Na mirra e no aloés, que são espécies amargas, é indicada a amargura do castigo; na canela, que é perfumada, é figurado o prazer da carne. Diz, portanto, a prostituta, isto é, a carne, ao jovem, isto é, ao espírito: “Vem”, pelo consentimento da mente, “embriaguemo-nos com os seios”, isto é, com a gula e a luxúria, pelo consentimento da ação, “gozemos os desejados abraços”, pelo vínculo do hábito, “até que amanheça o dia”. E isso é muito apropriado, porque a carne não pode enganar ninguém senão na noite da ignorância; por isso, nada teme tanto quanto o dia do entendimento. Eis como o paralítico jaz desfeito em seu leito. Por isso, lê-se no livro de Judite que “Holofernes jazia no leito, adormecido por causa da excessiva embriaguez” (Jt 13,4). Holofernes interpreta-se “aquele que enfraquece o bezerro cevado” e significa o espírito do pecador que, quando se enfraquece pelo consentimento da mente, enfraquece o bezerro cevado, isto é, a carne engordada pela abundância das coisas temporais, em cujo prazer jaz como num leito, adormecido por excessiva embriaguez.
Por isso, diz-se nos Provérbios: “Serás como aquele que dorme no meio do mar e como um piloto adormecido, tendo perdido o leme, e dirás: Bateram-me, mas não senti dor; arrastaram-me, mas não percebi” (Pr 23,34-35). Dorme no meio do mar aquele que entorpece nas ondas dos pensamentos, na amargura dos pecados, e é como um piloto adormecido que, tendo perdido o leme, isto é, o governo da razão, leva a nau da sua vida para a Caríbdis da morte eterna. E assim não sente dor quando é golpeado pelos demônios, nem percebe quando é arrastado por eles aos diversos vícios, “como um boi conduzido ao matadouro” (Pr 7,22).
Jaz, portanto, o paralítico no leito, a respeito do qual Salomão diz nos Provérbios: “O preguiçoso diz: Há um leão no caminho e uma leoa nas estradas. Assim como a porta gira sobre os gonzos” (Pr 26,13-14). O leão é o diabo; a leoa, a concupiscência da carne. Preguiçoso, isto é, como quem sofre dos pés, é o guloso e luxurioso, que sofre nos pés, isto é, nos afetos da boa vontade, e por isso jaz, paralítico e enfermo, no leito do prazer miserável; não sendo capaz de suportar a tentação do diabo nem ousando reprimir a concupiscência da carne, não quer sair para fora, isto é, dedicar-se às obras da penitência, e assim gira no prazer da carne, como a porta nos gonzos.
9. Digamos, portanto: “E eis que lhe apresentavam um paralítico deitado no leito.” Marcos diz assim: “E foram ter com ele, levando um paralítico, que era carregado por quatro pessoas; e, não podendo apresentá-lo a ele por causa da multidão, destelharam o teto onde ele estava e, abrindo uma passagem, baixaram o leito em que jazia o paralítico” (Mc 2,3-4). A humildade e a pobreza, a paciência e a obediência são os quatro que apresentam a Jesus a alma deitada, desfeita nos prazeres da carne. E, como não podem apresentá-la por causa da multidão, isto é, da perturbação dos desejos carnais, destelham e abrem o teto, e baixam diante de Jesus o leito com o paralítico.
Observa que há um teto quádruplo: o da soberba, o da avareza, o da obstinação e o da ira. Estes são, como diz o livro dos Provérbios, tetos gotejantes (cf. Pr 19,13), isto é, que cegam o olho da razão. E Isaías: “Que tens tu também, que subiste aos tetos?” (Is 22,1). E Davi: “Sejam como a erva dos tetos, que seca antes de ser arrancada” (Sl 128,6). Este teto, que cobre e obscurece o rosto da alma, para que ela não veja a luz da justiça, é destelhado pelas quatro virtudes acima mencionadas na contrição do coração, aberto na confissão da boca e, assim, elas baixam diante de Jesus, confiando na misericórdia de Jesus, a alma e o corpo na satisfação penitencial. Ninguém, com efeito, pode chegar a Jesus senão sendo transportado por estas quatro virtudes. Como diz a Glosa, é carregado por quatro aquele que, por estas quatro virtudes, é elevado a Deus pela confiança da mente. Delas se diz no livro da Sabedoria: “Ela ensina a temperança, a sabedoria, a justiça e a fortaleza” (cf. Sb 8,7). Outros as chamam prudência, fortaleza, temperança e justiça.
10. Segue-se: “Vendo, porém, Jesus a fé deles, disse ao paralítico: Tem confiança, filho, teus pecados te são perdoados.” Diz a Glosa a esse respeito: Muito vale diante de Deus a fé própria, quando tanto valeu a alheia, que um homem, curado interior e exteriormente, se levantasse de repente, e que, pelos méritos dos outros, lhe fossem perdoados os seus erros. Ó admirável humildade! Desprezado pelos homens, desfeito em todos os seus membros, chama-o filho. Ou certamente por isso, porque lhe são perdoados os pecados.
Observa estas três coisas: vendo a fé, tem confiança, filho, teus pecados te são perdoados. A fé sem a caridade é vã; a fé unida à caridade é cristã. Daí observa que uma coisa é crer em Deus, outra é crer que Deus existe, e outra é crer em Deus. Crer em Deus é crer que são verdadeiras as coisas que ele diz, o que também fazem os maus; e nós cremos no homem, mas não no homem. Crer que Deus existe é crer que ele é Deus, o que também fazem os demônios. Crer em Deus é amá-lo crendo, ir a ele crendo, aderir a ele crendo e ser incorporado aos seus membros. Por esta fé o ímpio é justificado. Onde, portanto, há uma fé assim, aí há confiança na misericórdia de Deus, aí há remissão da culpa.
Segue-se: “E eis que alguns escribas disseram consigo: Ele blasfema” (Mt 9,3). Como não creem que Jesus é o verdadeiro Deus, por isso dizem que ele blasfema, pelo fato de perdoar os pecados. “E, vendo Jesus os pensamentos deles, disse: Por que pensais coisas más em vossos corações?” (Mt 9,4). O pensamento é assim chamado porque frequentemente obriga a mente a recordar. Jesus vê os pensamentos. Por isso se diz na Carta aos Hebreus: “Aos olhos dele todas as coisas estão nuas e descobertas” (cf. Hb 4,13). E no Eclesiástico: “Os olhos do Senhor são muito mais luminosos que o sol; contemplam todos os caminhos dos homens, o abismo profundo e os corações dos homens, vendo as partes ocultas.” “Para o Senhor Deus, todas as coisas eram conhecidas antes de serem criadas; assim também, depois de tudo criado, ele vê todas as coisas” (Eclo 23,28-29). “Por que”, então, “pensais coisas más em vossos corações?” Daí o profeta Miqueias: “Ai daqueles que pensais coisas más em vossos leitos e, ao raiar da manhã, as praticais” (cf. Mq 2,1). Quando, com a complacência e o consentimento da mente, pensamos o mal em nossos leitos, isto é, em nossos corações, então praticamos esse mal à luz da manhã, isto é, diante dos olhos do Senhor, ainda que não o executemos por obras. “Quem olhar”, diz ele, “para uma mulher, para desejá-la”, isto é, se a olhar com o propósito de desejá-la, “já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5,28). Nisto os escribas poderiam reconhecer que Jesus era Deus, pois via os pensamentos deles.
“Que é mais fácil dizer: Teus pecados te são perdoados, ou dizer: Levanta-te e anda?” (Mt 9,5). Diz a Glosa: Mas, como não credes neste prodígio espiritual, ele será comprovado por um sinal visível que certamente requer um poder não menor, para que reconheçais no Filho do homem o poder oculto da majestade, pelo qual pode perdoar os pecados, enquanto Deus.
11. À segunda parte do Evangelho corresponde a segunda parte da epístola: “Rejeitando a mentira, dizei a verdade, cada um ao seu próximo, porque somos membros uns dos outros. Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo” (Ef 4,25-27). Pouco antes dissemos que quatro são as virtudes que levam a alma paralítica a Jesus, a saber: humildade e pobreza, paciência e obediência; por meio delas, rejeitamos aqueles quatro pecados de que fala o Apóstolo. Rejeitamos pela humildade a mentira da soberba ou da vanglória, que se finge ser alguma coisa quando nada é; pois chama-se mentira aquilo que engana a mente de outro. “Dizei a verdade”, isto é, por meio do amor à pobreza. Donde vem hoje que quase todos falem falsidade ao próximo, senão da avareza, que divide entre si aqueles que deveriam ser membros de Cristo? “Irai-vos” contra vós mesmos, o que significa arrepender-se, “e não pequeis”. Com efeito, quem está irado pensa mal, e assim o diabo se insinua nele para que pratique o mal. Por isso é necessária a paciência, pela qual se expulsa a ira. Ou então: “Irai-vos”, isto é, indignai-vos contra vós mesmos com tanta veemência que deixeis de pecar. “O sol”, isto é, Cristo, “não se ponha”, ou seja, não abandone a mente; ele se obscurece para nós pela ira, como por uma montanha interposta. Eis que aqui tens como o Apóstolo nos convida à paciência. Do mesmo modo, convida-nos à obediência quando diz: “Não deis lugar ao diabo”. O primeiro homem, quando caiu na desobediência, deu lugar ao diabo. Vós, porém, obedecei, porque a obediência fecha o lugar ao diabo, para que ele não possa entrar na alma.
Rogamos-te, portanto, Senhor Jesus Cristo, que pela humildade rebaixes a mentira de nossa soberba, expulses nossa avareza pela pobreza, quebres a ira com a paciência e reprimas a desobediência pela obediência à tua Paixão; assim, mereçamos ser apresentados a ti, receber o perdão dos pecados e alegrar-nos contigo sem fim.
Conceda-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
12. Segue-se a terceira parte: “Então disse ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. E ele se levantou e foi para sua casa. Vendo isso, as multidões” (Mt 9,6-8) etc. Observa estas três palavras: levanta-te, toma e vai. O paralítico se levanta quando o pecador abandona os vícios nos quais jazia. A esse respeito, temos uma concordância no Primeiro Livro dos Macabeus, onde se diz que “Matatias se levantou e estabeleceu-se no monte Modin. E tinha cinco filhos” (1Mc 2,1-2), que eram Judas, Simão, Jônatas, João e Eleazar (cf. 1Mc 2,15). Matatias interpreta-se como dom de Deus e significa o penitente que, pelo dom de Deus, se levantou do pecado e se estabeleceu no monte Modin, que se interpreta como juízo. Diz Agostinho: “Sobe ao tribunal de tua mente; seja a razão a julgar, a consciência a acusar, o temor o carrasco, a dor o tormento, e ocupem as obras o lugar das testemunhas”. Este é o monte Modin; quem nele se estabelece verdadeiramente se levanta do pecado. Esse Matatias, isto é, o penitente, tem cinco filhos: Judas, que se interpreta como aquele que confessa; Simão, o obediente; Jônatas, a pomba; João, a graça; e Eleazar, o auxílio de Deus. Estes são os filhos do penitente, a quem é dado o dom de Deus, do qual procedem todas estas coisas. Judas purifica, Simão edifica, Jônatas renova, João adorna, Eleazar protege e conserva.
Judas purifica o templo, porque a confissão purifica a mente dos vícios. Por isso se diz no Livro dos Juízes que “os filhos de Israel consultaram o Senhor, dizendo: Quem subirá diante de nós contra o cananeu e será o chefe da guerra? E o Senhor disse: Judas subirá; eis que entreguei a terra em sua mão” (Jz 1,1-2). Cananeu interpreta-se como ciumento e significa o diabo, que, como um ciumento, ama ardentemente a alma do pecador e se empenha astutamente para que ela não volte a Cristo. Contra ele, o penitente deve subir na confissão, arrancá-lo da terra de sua mente e purificar esta mesma terra dos vícios.
Simão edifica, porque a isso se dedica a obediência: fazer crescer no alto o edifício das boas obras. Por isso Matatias disse dele: “Eis Simão, vosso irmão; sei que é homem de bom conselho: ouvi-o sempre, e ele será para vós um pai” (1Mc 2,65). A obediência é de bom conselho, porque ensina a mortificar a própria vontade, que é o caminho para o inferno, e a cumprir a vontade de outro, que é o caminho para o céu. A respeito desse edifício diz Gregório: “A obediência é a única virtude que insere em si as demais virtudes e conserva aquelas que foram inseridas”.
Jônatas não cessa de renovar as coisas santas, porque a simplicidade da pomba reedifica aquilo que a astúcia do antigo inimigo destrói diariamente e destruiu no primeiro homem. Por isso se diz no Gênesis que a pomba veio ao entardecer a Noé, na arca, trazendo no bico um ramo de oliveira com folhas verdes (cf. Gn 8,11). Vejamos o que significam a pomba, o entardecer, Noé, a arca, o ramo de oliveira e as folhas verdes. Pomba é chamada assim, quase colens lumbos, isto é, ‘aquela que cuida dos lombos’; ela é a simplicidade e a pureza, que cuida dos lombos quando refreia a luxúria. Esta pomba vem a Noé, isto é, ao penitente, para dentro da arca, isto é, da própria mente; e isso acontece ao entardecer, ou seja, quando nele já se arrefeceram o sol da prosperidade mundana e o calor da concupiscência carnal; então ela traz um ramo de oliveira com folhas verdes. No ramo é figurada a constância da mente; na oliveira, a serena alegria da consciência; nas folhas verdes são designadas as palavras salutares. A pomba traz tudo isso quando a simplicidade entra na mente do penitente, e assim Jônatas renova o que havia perecido.
Do mesmo modo, João adorna a fachada do templo com coroas de ouro, porque a graça do Espírito Santo embeleza nossas obras com a pureza da intenção. Por isso Isaías diz: “Vestiu-me com as vestes da salvação e envolveu-me com o manto da justiça, como um esposo adornado com uma coroa” (Is 61,10). O Senhor veste o penitente com as vestes da salvação por meio da contrição, envolve-o com o manto da justiça por meio da confissão e, como um esposo adornado com uma coroa, enfeita-o na satisfação das obras, que deve proceder da pureza da mente. Mas, como todas estas coisas acima mencionadas de nada aproveitam se não estiver presente o auxílio de Deus, acrescenta-se o quinto irmão, Eleazar. Com efeito, pelo auxílio de Deus, aquilo que foi iniciado cresce; aquilo que cresceu é conservado; aquilo que foi conservado, por sua vez, conserva o penitente e o coroa com os prêmios da vida eterna. Diga, portanto, o Senhor ao paralítico: “Levanta-te”.
13. Segue-se: “Toma o teu leito”. Diz a Glosa: Tomar o leito significa elevar a carne, afastando-a dos desejos terrenos, à vontade do espírito, para que aquilo que foi testemunho da enfermidade seja prova da saúde. “Toma”, portanto, “o teu leito”, isto é, separa a tua carne das coisas terrenas pela continência e pela esperança dos bens celestes. A esse respeito, tens algo semelhante no Segundo Livro dos Reis, onde se diz que “Davi derrotou os filisteus e os humilhou; e tirou da mão dos filisteus o freio do tributo. E derrotou Moab e mediu-o com uma corda, nivelando-o com a terra; mediu, porém, duas cordas, uma para matar e outra para vivificar; e Moab tornou-se servo de Davi, sujeito ao tributo” (2Rs 8,1-2).
No sentido literal, entende assim: “Davi derrotou os filisteus e lhes tirou da mão o freio”, isto é, o poder, “do tributo” que eles tinham sobre Israel. “E derrotou Moab e mediu-os com uma corda”, isto é, deu a herança a quem quis, “nivelando-os com a terra”, isto é, humilhando-os grandemente. “E mediu duas cordas” etc., isto é, segundo o seu arbítrio, matou os que quis e conservou os que quis.
No sentido moral, os filisteus interpretam-se como “os que caem por causa da bebida” e significam os sentidos do corpo, que, embriagados pela bebida da vaidade mundana, caem na cova do pecado. Também são chamados de dupla ruína, porque fazem cair a si mesmos e a alma. Por isso, acerca dessa ruína, diz o Senhor: “Aquele que ouve as minhas palavras e não as pratica será semelhante a um homem insensato, que edificou a sua casa”, isto é, a sua conduta, “sobre a areia”, isto é, sobre o amor das coisas temporais; “e caiu a chuva” da sugestão diabólica, “e vieram os rios” da concupiscência carnal, “e sopraram os ventos” da adversidade ou prosperidade mundana, “e investiram contra aquela casa, e ela caiu”, porque o seu fundamento era a areia; por isso se diz areia, como que árida; de fato, as coisas temporais são áridas, privadas da umidade da graça; “e foi grande a sua ruína” (Mt 7,26-27).
Davi derrota e humilha os filisteus quando o penitente golpeia os sentidos do corpo pela mortificação da carne e os humilha pela consideração da sua própria baixeza; então tira o freio do tributo, isto é, a concupiscência da gula e da luxúria, com a qual antes os sentidos da carne costumavam refreá-lo, para que não pudesse comer o feno da Encarnação do Senhor, posto na manjedoura, mas apenas beber a água do prazer terreno. O cavalo com freio não pode comer, mas somente beber. Por isso, Jeremias lamenta esse tributo nas Lamentações: “A princesa das províncias ficou sujeita ao tributo” (Lm 1,1). A alma, que outrora era princesa das províncias, isto é, dos cinco sentidos, ficou sujeita ao tributo da concupiscência carnal; mas Davi tira da mão deles, isto é, do poder deles, o freio do tributo, quando toma o seu leito, crucificando a sua carne com os seus vícios e concupiscências (cf. Gl 5,24).
Por isso, segue-se: “E derrotou Moab” etc. Moab interpreta-se como “do pai” e significa o movimento da carne que contraímos de nossos pais. Este Moab, todas as vezes que se levanta, devemos imediatamente golpeá-lo, isto é, reprimi-lo, e com a corda, isto é, com a severidade da penitência, sempre, porém, aplicada com discernimento, devemos nivelá-lo com a terra, isto é, humilhá-lo, ou para que a pena corresponda igualmente à culpa. Devemos também medir duas cordas, isto é, dois tipos de compunção: uma pelos pecados, e esta para matar, isto é, mortificar o movimento da carne; e outra pelo desejo da glória, e esta para vivificar o nosso espírito. Por isso, segue-se no Evangelho: “E vai para a tua casa”. Ir para casa significa retornar ao paraíso, que foi a primeira casa do homem, ou voltar à vigilância interior de si mesmo, para não tornar a pecar. “E levantou-se” dali “e foi para a sua casa”. Diz a Glosa: Grande poder, quando a salvação acompanha sem demora o mandamento. Por isso, com razão, os que estavam presentes, abandonando as blasfêmias, tomados de admiração, convertem-se em louvor de tão grande majestade.
Por isso, segue-se: “Vendo isso, as multidões tiveram temor e glorificaram a Deus, que deu tal poder aos homens” (Mt 9,8). Observa estas duas palavras: tiveram temor e glorificaram. Por isso, dizem no intróito da missa de hoje: Tudo o que fizeste conosco, Senhor, fizeste em verdadeiro juízo, porque pecamos contra ti e não obedecemos aos teus mandamentos (cf. Dn 3,29-31). Eis que aqui tens claramente que o paralítico foi golpeado por causa dos seus pecados com tal enfermidade, da qual não pôde ser curado senão depois que eles fossem perdoados. Devemos, portanto, crer que tudo o que o Senhor faz, ele o faz por justo juízo, atribuí-lo aos nossos pecados e glorificá-lo com a multidão, dizendo: Mas dá glória ao teu nome e trata-nos segundo a tua misericórdia (cf. Dn 3,42-43).
A esta terceira seção corresponde a terceira parte da epístola: “Aquele que furtava não furte mais”: eis o “levanta-te”; “antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom”: eis o “toma o teu leito”; pois quem se dedica à boa obra levanta o leito da sua carne; “para ter com que repartir com quem está necessitado” (Ef 4,28): eis o “vai para a tua casa”. Vai para a sua casa aquele que presta obras de misericórdia à sua alma necessitada.
Roguemos, portanto, irmãos caríssimos, ao Senhor Jesus Cristo, para que nos faça levantar do pecado, tomar o leito da nossa carne e retornar à casa da bem-aventurança celeste. Conceda-no-lo aquele que é bendito, doce e amável pelos séculos eternos.
Diga toda alma que se levanta do leito da carne: Amém. Aleluia.