Sermões Dominicais · Parte II · Sermão n.º 47

Domingo XVII depois de Pentecostes Dominica XVII post Pentecosten

Sermões Dominicais — Domingos depois de Pentecostes · 5 seções · 16 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do décimo sétimo domingo depois de Pentecostes: “Quando Jesus entrou na casa”, que se divide em três partes.

Primeiramente, o tema do sermão é sobre o pregador, o prelado da Igreja e suas armas, na passagem: “Judas Macabeu”.

[Da primeira parte]. Também sobre o príncipe do diabo, como enganou Adão e todos os dias se esforça por enganar cada fiel, na passagem: “Quando Jesus entrou”; e também: “Antíoco entrou no santuário”.

Também sobre a tríplice maldição, que o Senhor destruiu com a sua Paixão para nos dar a paz, na passagem: “E acontecerá naquele dia, quando der descanso”; e também: “O trabalho do Egito”.

Também sobre as cinco coisas que o Apóstolo apresenta na primeira parte da epístola, na passagem: “Eu vos exorto”.

[Da segunda parte]. O tema do sermão é sobre as águas da concupiscência, na passagem: “As águas de Nemrim”; e sobre a natureza do leopardo e o seu significado.

Também sobre o hidrópico, isto é, o avarento, na passagem: “E eis que havia um homem”.

Também sobre como o Senhor, com a mão da sua misericórdia, tira o pecador da iniquidade, na passagem: “Tobias agarrou o peixe”.

Também sobre o penitente, que deve arrancar de si toda superfluidade, na passagem: “Sefora tomou imediatamente uma pedra muito afiada”.

Também um sermão moral sobre a unidade e a paz, que o diabo se esforça por dissipar, e sobre a natureza, a propriedade e o significado das pérolas, na passagem: “Esforçando-vos por conservar a unidade do Espírito”, e tudo o que segue.

[Da terceira parte]. O tema da pregação é sobre a humildade, na passagem: “Quando fores convidado”.

Também sobre o castigo do simoníaco, na passagem: “Alcimo, que deu dinheiro”.

Também aos religiosos, sobre a guarda do coração, na passagem: “Um dos profetas clamou ao rei”.

Exórdio. O pregador e suas armas

1. Naquele tempo: “Quando Jesus entrou na casa de certo chefe dos fariseus, num sábado, para comer pão, e eles o observavam” (Lc 14,1).

Diz-se no Primeiro Livro dos Macabeus que Judas Macabeu “vestiu a couraça como um gigante, cingiu-se de armas de guerra para os combates e protegia o acampamento com sua espada. Tornou-se semelhante ao leão em seus feitos, e como o filhote do leão que ruge na caçada” (1Mc 3,2-4). Judas interpreta-se “aquele que glorifica”; Macabeu, “aquele que protege” ou “que golpeia”; e significa o pregador, que deve fazer estas três coisas: glorificar a Deus, proteger o próximo e ferir o diabo. Este deve vestir a couraça como um gigante. Observa estas duas coisas: o gigante e a couraça. No gigante está simbolizada a constância; na couraça, a paciência. Essas duas virtudes são muito necessárias ao pregador, para que, quando fala, seja constante e, quando os cães ladram contra ele, seja paciente. Com efeito, deve exultar como um gigante para percorrer o caminho (cf. Sl 18,6). Por isso, Jó diz dele: “Exulta audazmente e avança ao encontro dos armados. Despreza o medo e não cede à espada” (Jó 39,21-22). “E assim, do alto do céu” empíreo, isto é, ígneo, isto é, da caridade, “será a sua saída” (Sl 18,7) para ferir o diabo, que habita no coração do pecador; e então lhe é necessária a couraça da paciência. A couraça é assim chamada porque carece de correias, pois é tecida somente de círculos de ferro. Assim, a verdadeira paciência não é atada pelas correias do favor e do temor humanos, mas é entretecida somente pelos vínculos inflexíveis da caridade. Já a falsa paciência teme reivindicar a reparação da injúria recebida mais por vergonha ou temor do mundo do que por amor de Deus.

Segue-se: “E cingiu-se de armas de guerra”, acerca das quais diz o Apóstolo: “Permanecei firmes, com os rins cingidos com a verdade, os pés calçados na prontidão para o evangelho da paz; em tudo, tomai o escudo da fé, com o qual possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno; e tomai o capacete da salvação” (Ef 6,14-17).

“E protegia o acampamento com sua espada”, isto é, com a palavra de Deus (cf. Ef 6,17), que lhe fora confiada; com ela deve proteger as almas dos fiéis de três coisas: do ardor do sol, isto é, da tentação da carne; da tempestade de relâmpagos, isto é, das adversidades do mundo; do ataque do inimigo, isto é, do demônio. “Tornou-se semelhante ao leão”, do qual se diz no Apocalipse: “Venceu o leão da tribo de Judá” (Ap 5,5); e no Gênesis: “Judá é um filhote de leão. Subiste à presa, meu filho. Deitando-te para repousar, reclinaste-te como um leão” (Gn 49,9). O pregador deve tomar os despojos, isto é, arrancar as almas cativas das mãos do diabo (cf. Is 8,1), na caçada de sua pregação, e arrebatá-las, como fez Cristo, o Leão da tribo de Judá, que subiu à cruz para apoderar-se da presa, isto é, para despojar o diabo, em cuja casa entrou e cujos bens saqueou (cf. Mt 12,29). Por isso se diz no evangelho de hoje: “Quando Jesus entrou na casa de certo chefe dos fariseus” etc.

2. Observa que neste evangelho se destacam três momentos: a entrada na casa do chefe dos fariseus, a cura do hidrópico e a recomendação de Jesus Cristo de praticar sempre a humildade. O primeiro está onde se diz: “Quando Jesus entrou”. O segundo: “E eis que havia um homem hidrópico”. O terceiro: “Quando fores convidado para uma festa de casamento” etc.

No intróito da missa de hoje canta-se: “Dá a paz, Senhor, aos que te esperam”. E lê-se a epístola do bem-aventurado Paulo Apóstolo aos Efésios: “Eu vos suplico, eu, prisioneiro no Senhor”; queremos dividi-la em três partes e pô-las em concordância com as três partes do evangelho. A primeira: “Eu vos suplico”. A segunda: “Solícitos em conservar”. A terceira: “Um só Senhor” etc.

E observa que esta epístola é lida com este evangelho porque o Senhor, no evangelho, fala especialmente da humildade, pela qual se conserva a unidade da Igreja, à cuja conservação diligente o Apóstolo exorta na epístola de hoje.

I. A entrada de Jesus Cristo na casa do chefe

3. Digamos, portanto: “Quando Jesus entrou na casa de certo chefe dos fariseus, num sábado, para comer pão, e eles o observavam”. Vejamos o que significam alegoricamente a casa, o chefe, os fariseus, o sábado e o pão.

Chefe é chamado aquele que primeiro toma para si um lugar ou uma honra; e significa o diabo, que primeiro tomou o primeiro homem por meio da maçã, como se toma um peixe pelo anzol. Observa que, para quem deseja apanhar um peixe com o anzol, são necessárias ao menos três coisas: o fio, a isca e o ferro. Na maçã há três coisas: o odor, a cor e o sabor. O odor, como um fio, atrai para si; a cor, como uma isca, alicia; o sabor, como um anzol, apanha. Com tal anzol o primeiro homem foi apanhado pelo chefe dos demônios.

A respeito disso tens uma concordância no Primeiro Livro dos Macabeus, onde se diz que Antíoco “entrou com soberba no santuário, tomou o altar de ouro, o candelabro das luzes, a mesa dos pães da proposição e o ornamento de ouro que estava na fachada do templo” (1Mc 1,23). Antíoco interpreta-se “silêncio do pobre” e significa o diabo, que, depois de empobrecer o primeiro homem, despojando-o de tamanha glória, lhe ocultou a morte e prometeu-lhe que seria como Deus. Este, com a soberba pela qual caíra do céu, entrou no santuário, isto é, no paraíso, e tomou o altar de ouro, isto é, a pureza do coração, pela qual se oferece o incenso da devoção. A respeito dele, João diz no Apocalipse: “Ouvi”, diz ele, “uma voz que vinha dos quatro chifres do altar de ouro, que está diante dos olhos de Deus” (Ap 9,13). O altar de ouro é o coração puro, que tem quatro chifres, isto é, as quatro virtudes cardeais, das quais procede a voz da contrição e da confissão. Tal altar está sempre diante dos olhos de Deus, porque Deus olha para ele com misericórdia. Por isso diz Isaías: “Para quem olharei, senão para o humilde e o tranquilo?” (cf. Is 66,2) etc.

“E tomou o candelabro das luzes”, isto é, extinguiu a luz da razão, da qual diz o Senhor em Mateus: “Se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão as próprias trevas?” (Mt 6,23). “E a mesa dos pães da proposição”, isto é, a doçura da contemplação, da qual se diz no Salmo: “Preparaste diante de mim uma mesa” (Sl 22,5) etc. “E o ornamento de ouro”, isto é, a caridade, que adorna a fachada do templo, isto é, as obras de cada cristão, o qual, como diz o Apóstolo, é templo santo de Deus (cf. 1Cor 3,17). Todas essas coisas o diabo tirou uma vez do primeiro pai e todos os dias se empenha em tirá-las de cada homem.

Aqui se diz “chefe dos fariseus”; fariseus interpreta-se “separados” e significa aqueles que se separam dos justos e formam conventículos. A respeito deles tens uma concordância no Primeiro Livro dos Macabeus: “Naqueles dias saíram de Israel homens iníquos e persuadiram muitos, dizendo: Vamos fazer uma aliança com as nações que estão ao nosso redor, pois, desde que nos afastamos delas, muitos males nos aconteceram. E este discurso pareceu bom aos olhos deles” (1Mc 1,12-13). A casa desse chefe era o mundo, que ele possuía como sua casa por causa da culpa do primeiro pai; nela entrou o Senhor quando assumiu a nossa carne. Portanto, bem se diz: “Quando Jesus entrou na casa de certo chefe”.

E para que entrou? “Num sábado”, diz, “para comer pão”. Observa estas três palavras: sábado, comer e pão. Sábado interpreta-se “repouso”. Comer é como levar a mão à boca. O pão é assim chamado porque é posto junto com todo alimento, ou porque todo ser vivo o procura. O Senhor entrou no mundo num sábado, isto é, para nos fazer repousar da servidão do diabo.

4. Por isso, Isaías diz a respeito dele: “E acontecerá naquele dia: quando o Senhor te tiver dado repouso do teu trabalho, da tua opressão e da dura servidão à qual antes serviste, entoarás esta canção contra o rei da Babilônia e dirás: Como cessou o opressor, como terminou a opressão? O Senhor quebrou o bastão dos ímpios, o cetro dos dominadores, que, em sua indignação, feriam os povos com golpe incurável, submetiam as nações em seu furor e as perseguiam cruelmente. Toda a terra repousou e se aquietou, alegrou-se e exultou” (Is 14,3-7). Naquele dia, quando surgiu uma luz nas trevas (cf. Sl 111,4), o Filho de Deus, Jesus Cristo, deu-nos repouso do trabalho, da opressão e da servidão. Diz João em sua carta: “Tudo o que há no mundo é concupiscência da carne”, eis o trabalho; “e concupiscência dos olhos”, isto é, avareza, eis a opressão; “e soberba da vida” (1Jo 2,16), eis a dura servidão do diabo.

Destes três vícios diz o Pai ao Filho, em Isaías: “O trabalho do Egito, o comércio da Etiópia e os sabeus, homens de elevada estatura, passarão para ti e serão teus; caminharão atrás de ti, irão presos pelas mãos, adorar-te-ão e suplicar-te-ão” (Is 45,14). Egito interpreta-se como “tribulação que estreita”, eis a concupiscência da carne, que atormenta e estreita a alma; Etiópia, “trevas” ou “escuridão”, eis a concupiscência da avareza, que obscurece os olhos dos sábios; sabeus, “cativos”, eis a dura servidão do diabo, isto é, a elevação da soberba. Contra estes três vícios, o Senhor opôs três coisas: a inocência da vida contra o trabalho da carne, a pobreza do espírito contra a opressão ou o comércio da avareza, e a Paixão do seu sangue contra a elevação da soberba. Quando o Senhor te mostrou em si mesmo estas coisas para que as imitasses, deu-te, pela humildade de sua Paixão, repouso do trabalho do Egito, do comércio ou da opressão da Etiópia, da servidão do diabo e da elevação da soberba; e dará repouso perfeito quando este mortal se revestir da imortalidade (cf. 1Cor 15,53).

E então “entoarás esta canção contra o rei da Babilônia”, isto é, contra o aguilhão da carne, contra o mundo e contra o diabo, “e dirás: Como cessou o opressor”, isto é, o tirano da carne, que todos os dias exigia o denário do prazer; “como terminou a opressão” da avareza e da cobiça? “O Senhor quebrou o bastão”, isto é, a dignidade, “dos ímpios” e “o cetro”, isto é, a soberba, “dos dominadores”, que feriam os povos, submetiam as nações e as perseguiam cruelmente. Então a terra, isto é, a nossa carne, repousará, isto é, repousará juntamente com o espírito, do trabalho da tentação, calar-se-á diante da opressão da cobiça mundana, alegrar-se-á e exultará por ter sido libertada da servidão da soberba diabólica. Bem se diz, portanto: “Quando Jesus entrou, num sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus” etc.

5. Segue: “A comer”. Cristo comeu, porque levou a mão da ação à boca da pregação; ouve, pois, como comeu: “Jesus começou a fazer e a ensinar” (At 1,1). E ainda: Era “poderoso em obra e palavra” (Lc 24,19). Por isso foi dito a Pedro: “Mata e come” (cf. At 10,13). Como se fosse dito ao pregador: Mata com a espada da pregação e come, isto é, leva a mão à boca, para que faças primeiro aquilo que pregas aos outros. Sobre isso, tens uma concordância no Primeiro Livro dos Macabeus, onde “Timóteo disse aos chefes de seu exército: Quando Judas e seu exército se aproximarem do rio, se ele atravessar primeiro para o nosso lado, não poderemos resistir-lhe, porque será poderoso contra nós; mas, se temer atravessar e acampar do outro lado do rio, nós atravessaremos até eles e poderemos enfrentá-lo” (1Mc 5,40-41).

Timóteo interpreta-se “benéfico” e representa o diabo, que parece conceder aos seus amantes benefícios que são antes malefícios; por isso, deveria ser chamado antes de maléfico que de benéfico. Ele teme muito que Judas, isto é, o pregador, atravesse o rio da pregação, passando, precisamente, da margem das palavras para a margem das obras. Se o fizer, fará fugir o próprio Timóteo com o seu exército. Mas, ai de nós! Hoje todos chegam até o rio, permanecem na margem das palavras e não querem passar para a margem das obras; por isso o diabo não os teme, e as suas palavras têm menor eficácia. Pois não são, como se diz no mesmo livro, da estirpe daqueles homens valorosos por meio dos quais a salvação foi realizada em Israel (cf. 1Mc 5,62). Aqueles homens foram os apóstolos, que, atravessando o rio, realizaram uma grande obra de salvação no povo de Deus.

Segue: “O pão”. O pão é a vontade de Deus, que deve ser colocada antes de todo alimento e juntamente com todo alimento. Por isso Judas Macabeu disse: “Faça-se segundo a vontade do céu!” (1Mc 3,60). Toda obra é estéril quando não se lhe acrescenta o pão da vontade divina. A vontade do Senhor é que o pecador se converta e viva (cf. Ez 33,11). Por isso ele mesmo diz em Isaías: “A tua terra não será mais chamada desolada, mas serás chamada ‘Minha vontade nela’, e a tua terra será habitada, porque o Senhor se agradou de ti” (Is 62,4). Quando o pecador se converte, a terra, isto é, a sua mente, é habitada pela graça, e assim nela se encontra a vontade do Senhor, que é a vida. Jesus entrou, portanto, na casa, num sábado, para comer o pão, isto é, veio ao mundo para fazer a vontade do Pai. Por isso diz: “O meu alimento é fazer a vontade de meu Pai, que me enviou” (Jo 4,34). Daí Ezequiel: “Ele se assentará à porta para comer o pão diante do Senhor” (Ez 44,3), isto é, humilhar-se-á na Virgem para fazer a vontade do Pai. Este é o pão vivo; quem dele comer não morrerá eternamente (cf. Jo 6,50). “A carne”, isto é, a vontade da carne, “não serve para nada” (Jo 6,64). O pão, porém, isto é, a vontade do Senhor, fortalece o coração do homem (cf. Sl 103,15).

Por isso diz o Senhor no Êxodo: “À tarde comereis carnes, e pela manhã vos saciareis de pães, e sabereis que eu sou o Senhor, vosso Deus” (Ex 16,12). Na tarde da culpa, quando se põe o sol da graça, os pecadores comem carnes, isto é, cumprem as vontades da carne; mas a minha espada, diz o Senhor, devorará as carnes (cf. Dt 32,42). As carnes deles são como carnes de jumentos, e o seu fluxo como o fluxo dos cavalos (cf. Ez 23,20). “Traspassa”, diz, “as minhas carnes com o teu temor” (Sl 118,120). “À tarde”, portanto, “comereis carnes, e pela manhã”, isto é, ao nascer da graça, na contrição do coração, na renúncia ao pecado, “vos saciareis de pães”, isto é, da vontade do Senhor, que, acima de todas as coisas, restaura e sacia a alma do penitente; e então “sabereis que eu sou o Senhor, vosso Deus”. Quando nos convertemos da tarde da culpa para a manhã da graça, então verdadeiramente sabemos que ele é o Senhor, nosso Deus.

Todo ser vivente deseja este pão. Por isso: “Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu” (Mt 6,10), como se dissesse: Assim como se cumpre nos justos, cumpra-se também nos pecadores. Visita, pois, a terra e inunda-a, para que não produza espinhos e abrolhos, mas trigo cheio na espiga, isto é, a confissão na contrição, que fere, para que dele se faça o pão da tua vontade, fortalecendo o coração do homem.

Segue: “E eles o observavam”, isto é, armavam-lhe ciladas ou o vigiavam astutamente, para ver se violaria o sábado. “O pecador observa o justo” (Sl 36,12). Observavam-no para repreendê-lo, não para guardar os seus mandamentos. “Teme a Deus”, diz Salomão, “e observa os seus mandamentos”; para isso “foi feito todo homem” (Ecl 12,13). Lê-se nos escritos de história natural que existe um animalzinho, a rã-arborícola (Plínio), que vai até o lugar por onde entram as abelhas, sopra fortemente para dentro dele e espera até que saiam; e, quando alguma delas quer voar, apanha-a e a come (Aristóteles). Assim, o homem soberbo e astuto vai até o lugar por onde entram as abelhas, isto é, observa a vida e os costumes, as palavras e as obras dos justos, pelas quais eles entram no reino, e sopra, isto é, louva ou injuria. Com efeito, julga elevá-los com o louvor ou expulsá-los com a injúria. E observa se algum deles sai, isto é, se sai de si pelo desvanecimento da mente, porque foi louvado, ou se irrompe em palavras de ira, porque foi injuriado. E então imediatamente o repreende e corrói a sua vida. Assim como o ouro é provado na fornalha, assim o homem é provado pela boca de quem o louva (cf. Pr 27,21). O fogo do louvor consome o chumbo e a palha, mas torna o ouro ou a prata ainda mais brilhantes. A injúria recebida demonstra qual é, em seu íntimo, cada pessoa.

6. À primeira parte do Evangelho corresponde a primeira parte da epístola de hoje: “Eu vos exorto, eu, prisioneiro no Senhor, a andardes de modo digno da vocação à qual fostes chamados, com toda humildade e mansidão, suportando-vos uns aos outros com paciência, na caridade” (Ef 4,1). Observa que, nesta primeira parte, o Apóstolo apresenta cinco coisas: andar dignamente, humildade, mansidão, paciência e caridade. Andemos dignamente, para que o príncipe das trevas não nos apanhe; com toda humildade, contra a soberba dos fariseus; com mansidão, para celebrarmos devotamente o sábado; com paciência, para podermos comer o pão da vontade divina, suportando na caridade aqueles que nos observam, que nos difamam e nos oprimem.

A esta parte da epístola corresponde o intróito da missa de hoje: “Dai a paz, Senhor, aos que vos aguardam, para que os vossos profetas sejam encontrados fiéis; ouvi as preces do vosso servo e do vosso povo de Israel” (cf. Eclo 36,18). Isto mesmo é cantado no relato deste domingo, que se encontra no Segundo Livro dos Macabeus: “Abra o Senhor o vosso coração à sua lei e aos seus preceitos, e conceda-vos a paz” (2Mc 1,4). Quando o coração se abre pela compunção, a lei da graça de Deus é escrita nele pelo dedo de Deus, os preceitos são observados e a paz é restituída, para que se celebre o sábado da mente, se coma com fartura o pão da vontade divina e se suporte na caridade a observação difamatória. E assim os profetas, isto é, os homens justos ou os santos pregadores, serão encontrados fiéis, e as preces do povo fiel serão ouvidas.

Rogamos-te, portanto, Senhor Jesus Cristo, que entres na casa da nossa consciência, expulses dela o chefe dos fariseus, isto é, o movimento dos maus pensamentos, que se dividem entre si e, dividindo o coração, o dispersam; restitua à nossa mente o sábado do repouso e da paz, faças-nos comer o pão da tua vontade, para que mereçamos chegar a ti, que és o pão dos anjos. Concede-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

II. A cura do hidrópico

7. Segue-se o segundo ponto. “E eis que havia diante dele um homem hidrópico. E Jesus, respondendo, disse aos doutores da Lei e aos fariseus: É lícito curar no sábado? Eles, porém, ficaram calados. Então ele, tomando-o pela mão, curou-o e o despediu” (Lc 14,2-4). Aí diz a Glosa: Hydor, em grego, significa água; daí hidropisia, doença causada pela água. É próprio do hidrópico que, quanto mais bebe, mais sede sente; por isso é comparado àquele a quem oprime o excesso dos prazeres carnais. É comparado também ao rico avarento. As águas do prazer carnal e da cobiça mundana geram na alma a hidropisia, que nunca pode ser saciada. Estas são as águas nas quais se amontoaram as maldições; quem delas beber verá apodrecer o ventre e a sua coxa (cf. Nm 5,22.27). Estas são as águas do Egito, que se transformaram em sangue (cf. Ex 7,19-20), das quais diz Isaías: “As águas de Nemrim serão um deserto, porque a erva secou, o broto pereceu, todo o verdor desapareceu. Segundo a grandeza da obra, também será a sua visitação; conduzi-los-ão à torrente dos salgueiros” (Is 15,6-7).

Nemrim interpreta-se “leopardos”. O leopardo é uma fera ferozíssima, que, provocada, se lança impetuosamente, ávida de sangue, e no salto precipita-se para a morte. Diz-se, na História Natural, que, quando o leopardo ingere veneno, procura esterco humano e o come. Por isso os caçadores colocam esse esterco num vaso sobre as árvores; e, quando o leopardo se aproxima das árvores e salta para apanhá-lo, matam-no. O leopardo deste mundo significa o soberbo, salpicado de várias manchas de pecados. Inflamado pelo veneno da sugestão diabólica, ele procura o esterco das coisas temporais, para comê-lo e incorporá-lo a si. “Considerei tudo como esterco”, diz o Apóstolo, “a fim de ganhar Cristo” (cf. Fl 3,8). E o Senhor diz a Ezequiel: “Cobrirás o teu pão com o esterco que sai do homem” (cf. Ez 4,12). O pão, isto é, o pensamento e a ação do pecador, está coberto pelo esterco da gula e da luxúria, da soberba e da avareza; e o caçador, isto é, o diabo, para poder capturá-lo mais facilmente, coloca o esterco sobre uma árvore. A árvore, assim chamada por causa do vigor, é a dignidade temporal, que, embora se julgue firmemente estabelecida sobre uma raiz sólida, é arrancada pelo vento da morte e lançada no mar do inferno. Daí Jó: “Vi o insensato fundado sobre uma raiz firme e imediatamente amaldiçoei a sua prosperidade” (Jó 5,3). Nessa árvore o diabo coloca o esterco como isca; e, quando o soberbo salta para comer o esterco da gula e da luxúria, da vanglória e do dinheiro, é morto pelo diabo. Portanto, “as águas de Nemrim serão um deserto”.

A respeito disso, tens uma concordância no Segundo Livro dos Macabeus, onde se diz que Antíoco, “cheio de soberba, respirando fogo em seu ânimo e mandando apressar o empreendimento, aconteceu que, indo impetuosamente, caiu do carro e teve os membros afligidos por grave choque do corpo. E aquele que julgava poder comandar até as ondas do mar, cheio de soberba acima do que é humano e capaz de pesar numa balança as alturas dos montes, agora, humilhado por terra, era levado numa liteira. E aquele que pouco antes julgava tocar as estrelas do céu, ninguém podia carregá-lo por causa da intolerância do fedor” (2Mc 9,7-8.10). Eis como as águas de Nemrim se tornam um deserto. Então a erva da glória temporal secará, o broto dos filhos, dos netos e dos parentes perecerá, e todo o verdor do prazer carnal, isto é, da gula e da luxúria, desaparecerá. “Segundo a grandeza da obra” e da iniquidade dos soberbos “será também a sua visitação”, porque a pena corresponderá à culpa; e no cálice com que deram de beber será dado de beber também a eles. E os demônios, que tiveram como instigadores, conduzi-los-ão nus e miseráveis, com as mãos atadas às costas, à torrente dos salgueiros, isto é, aos eternos tormentos, “onde não há ordem, mas habita horror sempiterno” (Jó 10,22). Estas são as águas que incham a mente, geram a hidropisia e, uma vez bebidas, aumentam ainda mais a sede.

8. Diga-se, portanto: “E eis que um homem hidrópico estava diante dele”. O hidrópico representa o avarento. Chama-se avarento porque é ávido de ouro e jamais se sacia de bens e riquezas. Assim como o corpo se enche de ar, assim o avarento se enche de ouro. Ele é como um abismo sem fundo, que jamais encontra suficiência. Por isso, diz o Salmo: “O abismo da gula invoca o abismo da luxúria; o abismo dos banquetes invoca o abismo das despesas; o abismo do dinheiro invoca o abismo da geena” (cf. Sl 41,8). Por isso, este hidrópico pode muito bem dizer, com o profeta Jonas: “As águas me cercaram até a alma; o abismo me envolveu, e o mar cobriu a minha cabeça” (Jn 2,6). Nas águas é simbolizado o prazer da carne, que retém a alma, como um inimigo sitiado numa fortaleza; no abismo, a profundidade da cobiça, que cerca a própria alma, para que não possa sair para a liberdade; no mar, é designada a soberba, que cobre a cabeça, isto é, a mente, para que não possa contemplar a verdade.

Estas três coisas são apresentadas no Salmo: “Salva-me, ó Deus, porque as águas chegaram até a minha alma” (Sl 68,2): eis a primeira. “Estou atolado no lodo profundo, e não há consistência” (Sl 68,3): eis a segunda. Enquanto o infeliz ajunta bens transitórios, perde o bem eterno. Diz o Eclesiástico: “Boa é a riqueza que não deixa pecado na consciência” (Eclo 13,30). Observa estas três palavras: “atolado”, “no lodo”, “profundo”. O lodo é assim chamado porque é mole e cedente. O avarento está “atolado” por causa da cobiça, “no lodo” por causa do prazer e “no profundo” por causa do desespero. Diz Salomão: “Quando o pecador chega ao fundo dos vícios, despreza” (cf. Pr 18,3). Por isso se diz desespero, porque lhe falta a esperança de progredir: enquanto alguém ama o pecado, não espera a glória futura. Do mesmo modo: “Cheguei à profundeza do mar, e a tempestade me submergiu” (Sl 68,3): eis a terceira. A profundeza do mar simboliza a altura da soberba, na qual há uma tempestade que submerge o homem no abismo da geena. Ó Senhor Jesus, estende a tua mão e agarra este hidrópico, cercado pelas águas, envolvido pelo abismo e sepultado pelo mar.

9. Daí se segue: “Jesus, porém, tomou-o pela mão, curou-o e o despediu”. Observa estas três ações: tomou-o, curou-o e o despediu. O Senhor toma o pecador pela mão quando, estendendo a mão de sua misericórdia, o arranca do profundo dos vícios. Por isso se diz no livro de Tobias que Tobias agarrou um enorme peixe, puxou-o para a terra seca, abriu-lhe o ventre e tomou-lhe o fígado, o fel e o coração (cf. Tb 6,4-5). O enorme peixe é o pecador, enredado em grandes pecados, que Tobias, isto é, Jesus Cristo, agarra com a mão de sua compaixão e extrai do profundo do desespero para a terra seca do arrependimento. Chama-se seca porque é sem suco. O suco é assim chamado porque é espremido do saco. A penitência é um lugar seco, porque sem suco. Com efeito, o suco da gula e da luxúria é espremido pelo saco da penitência, da qual se diz no Salmo: “Numa terra deserta, intransitável e sem água” (Sl 62,3) etc. Procura no Evangelho: “Quando o espírito imundo sai do homem” (“Dom. III in Quadrag., IV”).

O Senhor abre o ventre desse peixe quando golpeia o pecador com a espada de seu temor, e então extrai dele o fígado, isto é, o amor da luxúria; o fel, isto é, a amargura do dinheiro, no qual há fadiga e dor, porque com fadiga é adquirido, com temor é guardado e com dor é perdido; e tira-lhe o coração, isto é, o inchaço da soberba. Do fígado diz Jeremias nas Lamentações: “Derramou-se por terra o meu fígado” (Lm 2,11). Isso acontece quando alguém se derrama no amor das coisas terrenas pelo prazer da luxúria. Do fel diz Pedro, nos Atos, a Simão Mago: “Vejo que estás no fel da amargura e no laço da iniquidade” (At 8,23). Quem padece de simonia ou de avareza está na amargura da mente e no laço das obras. Do coração diz Jó: “Por que te eleva o teu coração, e, como se estivesses pensando grandes coisas, manténs os olhos atônitos? Por que se ensoberbece contra Deus o teu espírito, a ponto de proferires tais palavras com a tua boca?” (Jó 15,12-13)

Segue-se o segundo: “E o curou”. O Senhor cura o pecador quando sara sua alma de toda enfermidade dos pecados. Por isso: “Cura a minha alma, porque pequei contra ti” (Sl 40,5). Diz-se sadio por causa do sangue, porque quem é sadio não é pálido. Onde há o sangue das lágrimas, aí está a saúde das almas. As lágrimas são assim chamadas de laceração, isto é, da mente: quando a laceras com dor, escorre o sangue das lágrimas e unge tuas faces; então tuas faces ficam rosadas, como um gomo de romã, sem aquilo, isto é, sem a contrição do coração, que se oculta interiormente (cf. Ct 4,3). Portanto, tendo sido curado, vê que não te aconteça algo pior (cf. Jo 5,14). A esse respeito, o Senhor diz a Ezequias: “Ouvi a tua oração e vi a tua lágrima, e eis que te curei” (cf. Is 38,5). Da oração e das lágrimas forma-se, por assim dizer, um emplastro que expulsa da alma a doença.

Diz-se ainda, em terceiro lugar: “E o despediu”. O Senhor despede o pecador convertido quando o deixa partir, livre de todo vínculo de culpa, de pena e de tentação diabólica, para a alegria da consciência. “Desatai-o”, diz, “e deixai-o ir” (Jo 11,44). “Despede-a”, dizem, “porque clama atrás de nós” (Mt 15,23). Sobre isso tens algo semelhante no Êxodo, onde se diz que “Sefora tomou imediatamente uma pedra afiadíssima, circuncidou o prepúcio de seu filho, tocou com ele os pés dele e disse: ‘Tu és para mim um esposo de sangue’. E o deixou ir depois que dissera: ‘Esposo de sangue’, por causa da circuncisão” (Ex 4,25). Deve-se entender isso literalmente, como diz Agostinho: que o sangue tocou os pés do menino. Por isso, irada, disse a Moisés, seu marido: “És para mim um homem de sangue? Acaso, por causa de teu casamento, estou obrigada a cometer tão grande crime, derramando o sangue de meu filho?” Ou Sefora tocou os pés dele, isto é, de Moisés; pois, indignada, lançou o prepúcio aos pés de Moisés e disse, como traz o hebraico: “És para mim um genro de sangue”, isto é, tu te tornaste genro de meu pai para seres para mim, isto é, para minha carne no filho, causa de sangue, isto é, de morte.

Moralmente. Sefora interpreta-se “ave” e significa o penitente, que deve ser como uma ave, isto é, coberto das penas das virtudes. Este, com uma pedra afiadíssima, isto é, com a contrição do coração, deve circuncidar o prepúcio de seu filho, isto é, a superfluidade de sua obra. Prepúcio é assim chamado como que “diante do pudor”; “prae” é posto por “diante”. Com efeito, a superfluidade costuma impedir-nos de ver a torpeza de nossa iniquidade. Seja, portanto, circuncidada, para que escorra o sangue das lágrimas, tocando e lavando os pés do filho, isto é, de nossa obra. Pois, se o afeto, isto é, a vontade, estiver purificado, será santificado o efeito, isto é, a obra. Depois de tal circuncisão, o Senhor deixa o homem livre para voltar a seus irmãos e à sua própria casa, a uma consciência luminosa.

10. Segue-se: “E, respondendo-lhes, disse: Qual de vós, se um jumento ou um boi cair num poço, não o tirará imediatamente, em dia de sábado? E eles não puderam responder-lhe a isso” (Lc 14,5-6). Diz a Glosa: Com razão compara ao animal que caiu no poço o hidrópico, que perecia por causa de um humor nocivo. Vejamos o que significam estas três coisas: o jumento, o boi e o poço. O jumento é assim chamado por deixar as coisas elevadas; é mais forte nas partes posteriores, fraco nas anteriores, e ali leva a cruz. O jumento é figura do luxurioso, que abandona as alturas da vida santa e caminha pelas planícies do prazer; nas obras da cruz e no labor espiritual é fraco, mas nos rins, onde está a luxúria, é forte. Procura o jumento no Evangelho: “Jesus foi conduzido” (“Domingo I da Quaresma”), e no Evangelho: “Quando Jesus se aproximou de Jerusalém” (“Domingo de Ramos”).

Do mesmo modo, no boi é designado o soberbo; por isso o boi também é chamado cornúpeto, porque investe com o chifre da soberba. Procura os chifres no Evangelho: “Quando um homem forte e armado” (“Domingo III da Quaresma, IV”). Assim, o jumento e o boi, isto é, o luxurioso e o rico soberbo, figurados pelo hidrópico, caem no poço dos vícios; para tirá-los dali são necessários trapos velhos. Sobre eles se lê em Jeremias que Abdemelec tomou trapos velhos e roupas antigas, que haviam apodrecido, baixou-as por meio de cordas até Jeremias, na cisterna, e o tirou da cisterna (cf. Jr 38,11.13).

Os trapos velhos são a pobreza e a humildade de Jesus Cristo, que foi envolto em panos, justamente chamados velhos. Com efeito, costumamos dar os trapos velhos aos outros; não queremos conservar para nós a pobreza e a humildade de Jesus Cristo, nem revestir-nos delas, mas preferimos pregá-las aos outros. Hoje, todo pregador se esforça por revestir os outros de pobreza e humildade, e prouvera que ele próprio não permanecesse nu; quer formar os outros, mas veja que ele mesmo não se encontre deformado. As roupas apodrecidas são os exemplos dos santos, justamente chamados apodrecidos, porque, na corrupção do nosso tempo, são lançados fora e desprezados como coisa podre. Damos aos outros as coisas velhas, e jogamos fora as apodrecidas. Ó pecador, jamais poderás ser tirado “do poço da miséria e do lodo da lama” (Sl 39,3), senão pelos pequenos trapos da pobreza e da humildade de Jesus Cristo. Com eles, de fato, o boi e o jumento são tirados do poço do abismo.

11. A esta segunda cláusula corresponde a segunda parte da epístola: “Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados numa só esperança da vossa vocação” (Ef 4,3-4). Diz a Glosa: Deveis conservar a unidade, de modo que sejais um só corpo, servindo ao próximo, e um só espírito com Deus, querendo o mesmo; ou um só espírito com os irmãos, querendo e não querendo as mesmas coisas com eles (Cícero). Esta unidade não a conserva o hidrópico, isto é, o luxurioso e o avarento: o primeiro macula o seu corpo, e o segundo sufoca o seu espírito com os espinhos da avareza. Pois, se tivesse sido atado pelo vínculo da paz e pelo cordão da unidade, jamais teria caído no poço; mas, porque carece de ambos, jaz no poço do desespero.

Rogamos-te, portanto, Senhor Jesus Cristo, que, estendendo a mão da tua misericórdia, nos apreendas e, com os paninhos da tua pobreza e humildade, nos tires do poço; cura-nos da hidropisia da luxúria e da avareza, para que possamos conservar a unidade do espírito e chegar a ti, que és [Deus] uno e trino com o Pai e com o Espírito Santo. Concede-no-lo tu, que és bendito pelos séculos. Amém.

12. “Solícitos em conservar a unidade do espírito no vínculo da paz.” Observa estas três coisas, a saber: solícitos, unidade e no vínculo da paz, que nos são, meus irmãos, sumamente necessárias. O diabo quis semear no céu a cizânia da discórdia, e esforça-se por fazer o mesmo na comunidade dos penitentes. Por isso se diz no livro de Jó: “Certo dia, quando os filhos de Deus vieram apresentar-se diante do Senhor, Satanás estava entre eles” (Jó 1,6). Observa cada palavra. Diz “certo” para excluir toda diversidade; “dia”, para excluir a sucessão da noite; “quando os filhos”, pela adoção da graça; “de Deus”, pela pobreza do espírito; “vieram”, com devoção; “para se apresentar”, com a mortificação do corpo; “diante do Senhor”, não diante do mundo; “Satanás estava entre eles”, para semear a cizânia da discórdia. Nós, porém, irmãos, sejamos solícitos, não preguiçosos, em conservar, e não romper, a unidade do espírito. Conservemos, caríssimos irmãos, a unidade do espírito com grande solicitude, como as conchas marinhas, extremamente solícitas, conservam suas pérolas.

Lê-se nos escritos de história natural que nas conchas marinhas nascem pedras preciosas, isto é, pérolas; em determinada época do ano, elas têm sede do orvalho como de um esposo, abrem-se pelo desejo dele e, quando desce em maior abundância a chuva lunar, absorvem, com uma espécie de bocejo, a umidade desejada. Assim concebem e se tornam grávidas. Pois, se aquilo que receberam for puro, os pequenos globos são brancos; se for turvo, ou ficam pálidos, ou se cobrem de uma cor avermelhada. Assim, têm seus filhos mais do céu que do mar. Além disso, cada vez que recebem a semente do ar matutino, a pérola se torna mais límpida; cada vez que a recebem à tarde, torna-se mais escura; e quanto mais tiverem absorvido, tanto mais cresce o tamanho das pedras. Se de repente brilhar um relâmpago, comprimem-se por um medo intempestivo. Há sensibilidade nas próprias conchas: temem que suas crias sejam manchadas; e, quando o dia se inflama com raios mais ardentes, para que as pedras não escureçam com o calor do sol, descem às profundezas e escondem-se nas águas contra o calor. A pérola é macia na água e endurece no vinho; nunca se encontram duas juntas, e por isso se chama unio. Temem as ciladas dos pescadores, razão pela qual se escondem entre os rochedos. Nadam em grupo, e há um guia determinado à frente de seu bando. Vejamos o que significam moralmente todas essas coisas.

As conchas, assim chamadas por sua concavidade, são os penitentes, humildes, pobres de espírito, que permanecem na concavidade, isto é, na humildade do coração. Eles têm sede do orvalho como de um esposo, e por isso dizem: “Minha alma tem sede de Deus, fonte viva” (Sl 41,3). O orvalho da graça celeste, como um esposo, fecunda a alma, mediante o propósito de praticar o bem. Pelo desejo desse orvalho, eles se abrem, isto é, abrem-se a si mesmos; por isso diz Jó: “Minha raiz está aberta junto às águas, e o orvalho permanecerá sobre a minha colheita” (Jó 29,19). Procura no Evangelho: “Enquanto Jesus ia para Jerusalém” (Domingo XIV depois de Pentecostes).

“E quando desce em maior abundância a chuva lunar”, etc. Na chuva lunar são designadas três coisas, a saber: a prosperidade, a adversidade e a infusão da graça. No esplendor da lua figura-se a prosperidade; na noite, a adversidade; na chuva, figura-se a infusão da graça, que os justos desejam ardentemente e absorvem com a boca aberta do coração, tanto no esplendor da prosperidade como na noite da adversidade, para que a prosperidade não os eleve e a adversidade não os abata. Por isso diz Isaías: “Minha alma te desejará durante a noite, mas também com o meu espírito, em minhas entranhas, desde a manhã velarei por ti” (Is 26,9).

“Pois, se aquilo que receberam for puro”, etc. Observa que a infusão da graça produz dois efeitos: ou ilumina ou perturba. Ilumina a mente para contemplar, e então as pérolas se tornam brancas, isto é, brancos se tornam os afetos ou pensamentos da mente. Por isso diz o Senhor em Oseias: “Serei como o orvalho, e Israel brotará como o lírio” (Os 14,6). Quando o orvalho da contemplação suaviza a mente, Israel, isto é, a alma humilde, faz brotar pensamentos cândidos como o lírio. Do mesmo modo, perturba, para que se sinta dor pelos pecados, e então a cor das pérolas se torna pálida ou vermelha: pálida na aflição do corpo, vermelha na contrição do coração. Por isso se diz no Cântico dos Cânticos: “Anunciai ao meu amado, porque desfaleço de amor” (cf. Ct 5,8); por isso: “Que todo amante empalideça” (Ovídio); e: “As partes posteriores de seu dorso estão na palidez do ouro” (Sl 67,14).

Assim, têm seus filhos mais do céu que do mar. Os que são fecundados pelo mar, isto é, pelo mundo amargo, dão à luz víboras; os que, porém, são fecundados pelo céu, produzem pérolas. Daqueles se diz: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura?” (Lc 3,7). Destes, no Cântico dos Cânticos: “As vinhas floridas exalaram seu perfume” (Ct 2,13); e ainda: “As tuas emissões são um paraíso” (Ct 4,13).

Segue-se: “Cada vez que recebem a semente do ar matutino, a pérola se torna mais límpida; cada vez que a recebem à tarde, torna-se mais escura”, etc. É isso que se diz no Salmo: “À tarde permanecerá o pranto, e pela manhã haverá alegria” (Sl 29,6). Observa que há uma tríplice tarde e um tríplice amanhecer, e em cada um deles há pranto e alegria. A primeira tarde foi a culpa de Adão, na qual houve pranto, quando, expulso do paraíso, mereceu ouvir: “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gn 3,19). O primeiro amanhecer foi a Natividade de Jesus Cristo, na qual houve alegria. Por isso o anjo disse: “Anuncio-vos uma grande alegria” (Lc 2,10), etc. A segunda tarde foi a morte de Cristo, na qual houve pranto. Por isso se diz em Lucas: “Filhas de Jerusalém”, disse ele, “não choreis por mim” (Lc 23,28), etc. O segundo amanhecer foi a sua Ressurreição, na qual houve alegria. Por isso: “Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor” (Jo 20,20). A terceira tarde é a morte de cada homem, na qual há pranto. Por isso se diz no Gênesis: “Sara morreu na cidade de Arbee; e Abraão veio para pranteá-la e chorá-la” (Gn 23,2). O terceiro amanhecer será para os santos na ressurreição geral, na qual haverá alegria eterna sobre suas cabeças, como diz Isaías (cf. Is 35,10).

Segue-se: “Se de repente brilhar um relâmpago, comprimem-se por um medo intempestivo.” O relâmpago do diabo é a tentação, que os justos temem grandemente; quando a sentem, recolhem-se imediatamente e fecham as portas dos sentidos. Por isso se diz em João: “Ao cair da tarde daquele dia” (Jo 20,19), etc. Procura no mesmo Evangelho.

“Há sensibilidade nas conchas: temem que suas crias sejam manchadas”, etc. A sensibilidade é um estímulo da mente que passa pelo corpo para a alma. Os homens justos temem que suas crias, isto é, suas obras, sejam manchadas; por isso, quando o dia da prosperidade mundana se inflama, isto é, quando lhes sorri, descem imediatamente às profundezas, isto é, consideram a miséria de sua fragilidade e iniquidade, e escondem-se nas águas de suas lágrimas, para que, se agissem de outro modo, suas pérolas não se escurecessem e se cobrissem de sombras pelo calor do sol, isto é, pelo ardor da dignidade ou do favor humano.

“A pérola é macia na água”, etc. Na água do prazer, a mente do homem justo se torna macia; mas endurece no vinho, isto é, na austeridade; com efeito, diante de um semblante austero, corrige-se o espírito do delinquente. Por isso diz o Eclesiástico: “Tens filhas”, isto é, almas confiadas a ti? “Conserva o corpo delas e não lhes mostres um rosto alegre” (Eclo 7,26).

Nunca se encontram duas pérolas juntas numa só concha, porque na mente do homem justo não há “sim” e “não” (cf. 2Cor 1,17-19); não há duas partes. Com efeito, ali não existe discórdia, mas chama-se unidade, porque ele se esforça por conservar a unidade do espírito no vínculo da paz (cf. Ef 4,3).

As conchas temem as ciladas dos pescadores, porque os justos temem as ciladas dos demônios, que neste grande mar lançam o anzol da sugestão; por isso se escondem entre os rochedos. O rochedo, pedra que se eleva, assim chamado por sua função de observar, significa a humildade da mente; aquele que nela se esconde não teme as ciladas dos demônios.

Nadam em grupo, e nisso é designada de modo admirável a unidade do espírito. À frente de seu bando há um guia determinado, e nisso se figura a obediência. O prelado é o guia que todos devemos seguir e ao qual devemos obedecer de coração, para podermos conservar a unidade do espírito no vínculo da paz.

Digne-se conceder-nos isso Jesus Cristo, a quem pertencem a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

III. A exortação de Cristo a manter a humildade em todas as coisas

13. “Quando fores convidado para as núpcias, não te reclines no primeiro lugar, para que não aconteça que outro convidado mais digno do que tu tenha sido convidado por aquele que convidou a ti e a ele; e, vindo aquele que te convidou, diga-te: ‘Dá o lugar a este’; e então começarás, com vergonha, a ocupar o último lugar” (Lc 14,8-9). Diz a Glosa: Quando, pela graça da fé, chamado pelo pregador, te unires aos membros da Igreja, não te exaltes, vangloriando-te de teus méritos, como se fosses superior aos demais. Observa que, nesta terceira parte, o Senhor toca em dois pontos: a soberba, quando antepõe: “No primeiro lugar”; a humildade, quando acrescenta: “Reclina-te no último lugar”.

É grande soberba querer reclinar-se nas núpcias, isto é, na Igreja de Jesus Cristo, no primeiro lugar, isto é, na excelência da dignidade. Por isso diz o Senhor: “Amam os primeiros assentos nas sinagogas” (Mt 23,6), eles que ficarão privados dos segundos. Ó infeliz ambição, que não sabes ambicionar as coisas verdadeiramente grandes! Um explorador diligente, diz Bernardo, anda de um lado para outro, rastejando com mãos e pés, para ver se de algum modo consegue introduzir-se no patrimônio do Crucificado, e o miserável não sabe que este é preço de sangue (cf. Mt 27,6). “Não comereis a carne com o sangue”, diz no Gênesis (Gn 9,4). Come a carne com o sangue aquele que, vivendo carnalmente, dissipa em seus abusos o patrimônio do Crucificado. E por isso sua alma perecerá dentre o povo de Deus (cf. Ex 12,15). Não te reclines, portanto, no primeiro lugar, porque, como diz o Senhor: “Detesto a soberba de Jacó e odeio as suas casas” (Am 6,8). Nos lugares altos sacrificam-se ídolos (cf. 3Rs 3,2-3); o Senhor é concebido em Nazaré, num lugar humilde; em Jerusalém, porém, é crucificado num lugar mais elevado. “Não te reclines, portanto, no primeiro lugar.” Diz Gregório: De modo algum é capaz de aprender a humildade no alto quem, colocado em posições inferiores, não deixa de ser soberbo. Tu, que ambicionas o cume da dignidade, procuras a ruína de tua alma, a perda de tua reputação e o perigo de teu corpo, porque, quanto mais alto o degrau, tanto mais grave a queda. É suma loucura expor-se a perigos tão grandes. “Não te reclines, portanto, no primeiro lugar”, porque depois começarás, com vergonha, a ocupar o último lugar no inferno.

Trecho ainda sem tradução — texto em latim

14. Unde, super hoc habes concordantiam in primo libro Machabaeorum, ubi dicitur quod Alcimus, qui data pecunia primum honoris principatum emerat (cf. 1Mach 7,21), "percussus est, et occlusum est os eius, et dissolutus est paralysi, nec ultra loqui potuit verbum, et mandare de domo sua. Et mortuus est in tempore illo cum tormento magno "(1Mach 9,55-56). Alcimus interpretatur fermentum mali consilii, et significat simoniacum, qui fermento pecuniae - in cuius consilium non veniat anima mea (cf. Gen 49,6), quia consilium eius consilium impiorum - corrumpit animas columbas vendentium. Hic, quia in ecclesiasticae dignitatis loco, non vocatus a Deo tamquam Aaron, vult discumbere, ideo cum Alcimo paralytico, paralysi percussus, inconfessus et intestatus et magno tormento mortuus, novissimum et vilissimum inferni locum, qui primus et gloriosus voluit hic apparere, cum rubore incipiet tenere. "Recumbe" ergo, frater, "in novissimo loco," ut audire merearis:" Amice, ascende superius "(Lc 14,10). Dicit philosophus: Redige te ad parva, ne cadas ("Seneca"); quia, ut dicit Salomon in Proverbiis, "qui altam facit domum suam quaerit ruinam "(Prov 17,16). Et ideo, ut dicit Apostolus, Abraham in casulis cum Isaac habitavit (cf. Hebr 11,9). "Recumbe" ergo "in novissimo loco."

Novissimus locus, mortis memoria, in qua qui recumbit in primo loco discumbere non appetit. Unde hieronymus: Facile contemnit omnia, qui se semper cogitat esse moriturum. In hoc novissimo loco, o frater, fac tibi locum; ibi discumbe, a longe aspiciens et salutans (cf. Hebr 11,13), caelestem Ierusalem, cuius artifex et conditor Deus (cf. Hebr 11,10), et confitens quia peregrinus et hospes es super terram (cf. Hebr 11,13). Et sic "recumbe in novissimo loco;" nulli te praeferens, indigniorem ceteris te reputa, et tunc audies: "Amice, ascende superius." Ex humilitate amicum te recognoscit, qui ex praesumptione te postponit. Amicus dicitur animi custos. Humilitas est custos virtutum, quam qui habet animum suum custodit, ne sibi fugiat, quo nihil fugacius. "Omni", inquit, "custodia serva cor tuum "(Prov 4,23). Vis ergo esse amicus Dei? Custodi cor vel animum tuum, qui si fugerit erit anima tua pro eo.

15. Por isso, lê-se no terceiro livro dos Reis que um dos profetas clamou ao rei e disse: “Teu servo saiu para combater. Tendo fugido um homem, alguém o conduziu até mim e disse: ‘Guarda este homem; se ele escapar, tua vida responderá pela vida dele, ou pesarás um talento de prata’. Enquanto eu, perturbado, me voltava para cá e para lá, de repente ele desapareceu. E o rei de Israel lhe disse: ‘Esta é a tua sentença, que tu mesmo decretaste’” (3Rs 20,39-40). Todos nós que entramos na vida religiosa saímos para combater contra os espíritos malignos. Nesse combate, um homem, isto é, o nosso ânimo, foge de nós; mas a graça de Deus reconduz o nosso ânimo a nós, fazendo-nos recuperar o ânimo, e diz a cada um de nós: “Guarda este homem” etc.

Guardião deriva de cuidado; cuidado é assim chamado porque agita o coração. Guarda, portanto, este homem; cuida dele, para que o homem não se transforme em mulher e, como uma prostituta, fuja de ti e siga seus amantes. “Se ele escapar de ti, tua vida responderá pela vida dele” etc. Eis o que o Senhor ameaça. Disse uma palavra digna de nota: “Se ele escapar”. Num instante se perde aquilo que foi conquistado ao longo de muito tempo. “Vi”, diz Saul no primeiro livro dos Reis, “que o povo se dispersava de mim” (1Rs 13,11). “Minha vida caiu”, diz Jeremias, “na fossa” (Lm 3,53). Ai de mim! Quantas vezes o meu ânimo, de onde procede a vida, escapa e cai na fossa da miséria e no lodo da imundície! (cf. Sl 39,3). Minha vida responderá, então, pela vida dele, isto é, pela sua vida, ou deverei pesar por ele um talento de prata? Ai, Senhor Deus, tenho uma alma, mas não consigo pagar um talento de prata, isto é, não tenho a pureza da vida para colocar na balança do teu juízo. Não peses, portanto, a minha alma por causa deste que caiu. Verdadeiramente, Senhor, justos são os teus juízos, porque sou digno de ser condenado, eu que não guardei o teu depósito (cf. 2Tm 1,12.14), o meu coração, a minha vida; e, por isso, sou digno de ser privado da vida.

Segue-se: “Enquanto eu, perturbado, me voltava para cá e para lá, de repente ele desapareceu”. Eis como o ânimo desaparece. Observa estas duas palavras: “perturbado” e “me voltava”. Perturbado é assim chamado, como que misturado à terra. Não é de admirar que o teu ânimo desapareça, quando estás perturbado, isto é, misturado às coisas terrenas. Queres, portanto, conservar o ânimo? Conserva a tranquilidade da consciência. E considera quão propriamente disse: “Enquanto eu me voltava para cá e para lá”: quando te voltas “para cá”, isto é, para a carne, ou “para lá”, isto é, para o mundo, perdes o ânimo. Não deves, portanto, voltar-te para a direita nem para a esquerda, mas caminhar pela via régia, para que estejas sempre presente a ti mesmo. E não julgues a vida ou os costumes deste ou daquele. Não fales mal de ninguém. “De repente”, diz ele, “desapareceu”. Sempre que te voltas para algo que não seja Deus ou tu mesmo, imediatamente o teu ânimo desaparece. Não te voltes, portanto, mas conserva o rosto voltado para Jerusalém, para que ela suba ao teu coração; e, se guardares o teu coração, tornar-te-ás amigo de Deus. Diga, pois, o Senhor: “Sobe mais para cima”. Quem se reclina no último lugar sobe mais para cima, “porque todo aquele que se humilha será exaltado” (Lc 14,11). “E então terá glória diante de todos os que estiverem reclinados à mesa” (Lc 14,10). Por isso, em Lucas: “Fá-los-á reclinar-se à mesa e, passando, os servirá” (Lc 12,37). Verdadeiramente, é grande glória quando o Senhor serve ao servo.

16. A esta terceira cláusula corresponde a terceira parte da epístola: “Um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, age por meio de todos e está em todos nós” (Ef 4,5-6). Se ocupas o último lugar da humildade, temes o Senhor, conservas a fé e preservas a inocência batismal. Observa que nesta passagem se encontram cinco coisas: o Senhor, Deus, o Pai, a fé e o batismo. Portanto, quem deseja ouvir: “Amigo, sobe mais para cima”, considere o poder do Senhor, a sabedoria de Deus, a misericórdia do Pai, a excelência da fé e a virtude do batismo. Considere o poder, para temê-lo; a sabedoria, para saboreá-la; a misericórdia, para confiar; a excelência da fé, para desprezar as coisas temporais; a virtude do batismo, para permanecer forte na batalha.

Roguemos, portanto, ó caríssimos irmãos, ao Senhor Jesus Cristo que nos conceda ocupar o último lugar, guardar o nosso ânimo e depois fazer-nos subir até ele, que é a glória, no reino daqueles que se sentam à sua mesa.

Conceda-no-lo ele mesmo, que está acima de todos, age por meio de todos, está em todos e é Deus bendito pelos séculos eternos. E diga toda alma humilde: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.